segunda-feira, 3 de maio de 2010

Diversas conversões


Ricardo Gondim

Já me converti várias vezes. Fui católico nominal e virei presbiteriano-reformado-calvinista. Depois migrei e ganhei o título de assembleiano-pentecostal-clássico. Mas o processo nunca parou. Experimentei mudanças bruscas em minha crença sobre milagre: saltei das orações despretensiosas e formais para agonizar de joelhos e ter intervenções divinas que resolvessem problemas, meus e dos que me pedissem ajuda.

Na maturidade, houve outras mudanças em minha caminhada religiosa. Abandonei projetos grandiosos, “billygrahaminianos”, de impactar o mundo; perdi ideias românticas sobre a “verdadeira igreja”; desiludi-me com as afirmações absolutas da teologia sistemática que pretende catalogar de forma exaustiva o que se deve saber sobre Deus e o mundo vindouro; desencantei-me com as lógicas da espiritualidade engrenada de “causa e efeito”; fugi da beligerância dos apologetas da “reta doutrina”.

Alguns amigos, inquietos com a minha rota, questionam se não há retorno, se estou mesmo decidido a permanecer no processo de repensar a fé e a espiritualidade. Pelas marretadas que já levei, pelos companheiros que já perdi e pelas censuras que já sofri, confesso que fui tentado a reconsiderar. Entretanto, voltar atrás, neste caso, seria um retrocesso covarde. Tudo o que entusiasma pede para ser aprofundado, alongado, problematizado, nunca esvaziado.

Para apagar o que absorvi sobre a relação com Deus

Eu precisaria negar que a mais linda revelação do evangelho é o esvaziamento de Deus na encarnação;


Eu precisaria afirmar que as portentosas narrativas bíblicas de milagre são jornalísticas e que servem para convencer os incrédulos de que Deus é poderoso;

Eu precisaria insistir em dizer que as condições sub-humanas dos que vivem em monturos de lixo fazem parte de um um plano traçado por Deus antes da criação. Não consigo imaginar-me falando: “Deus é soberano e decidiu que eles viveriam assim; e os porquês da Providência, só saberemos na eternidade”.

Eu precisaria pregar que Deus está em controle de todas as coisas, inclusive do estuprador que matou a adolescente, do fornos crematórios de Auschwitz, das machadadas que dizimaram Ruanda e da estupidez de Pol Pot no Camboja, que executou dois milhões de inocentes.

Eu precisaria escrever revistas de escola dominical para mostrar que as crianças são perversas, mentirosas, verdadeiras víboras em gestação, e que elas devem se arrepender o quanto antes e “aceitar Jesus” para não terminarem prematuramente no inferno.

Eu precisaria ensinar que sem o credo confessional dos evangélicos bilhões arderão no enxofre e que Deus se sentirá feliz e vingado ao ouvir o choro e o ranger de dentes dos condenados por toda a eternidade.

Eu precisaria postar textos na internet sobre o “direito” do Oleiro matar os miseráveis no Haiti. Teria de insistir que somos barro sem autoridade de questionar os atos do Senhor. Precisaria teimar no “mistério insondável” de Deus escolher exatamente os mais pobres para derramar o cálice de sua ira; e que é meu dever arregaçar as mangas e amenizar o sofrimento dos que foram vítimas do ódio de Javé, sempre ofendido pelo pecado.

Como não consigo voltar a essas lógicas, só me resta prosseguir na compreensão de Deus com outras premissas. Através de Jesus, tento entender o Divino. Como o Deus invisível nunca se deixou ver por ninguém, tenho apenas o rosto, as palavras e os gestos de Jesus para intui-lo. Faço revisão teológica sem grandes pretensões, não intento formar nenhum movimento, quero tão somente ser honesto com minhas, só minhas, inquietações.

Sim, pretendo experimentar novas conversões. De passo em passo, alargar meus parcos conhecimentos e minhas estreitas convicções. Mas como o Divino é oceano mais imenso que a soma das galáxias, tenho muita transformação pela frente.

Soli Deo Gloria

Grito da terra, clamor dos povos

Frei Betto

Adital -
Os gregos antigos já haviam percebido: Gaia, a Terra, é um organismo vivo. E dela somos frutos, gerados em 13,7 bilhões de anos de evolução. Porém, nos últimos 200 anos, não soubemos cuidar dela e a transformamos em mercadoria, da qual se procura obter o máximo de lucro.

Hoje, a Terra perdeu 30% de sua capacidade de autorregeneração. Somente através de intervenção humana ela poderá ser recuperada. Nada indica, contudo, que os governantes das nações mais ricas estejam conscientes disso. Tanto que sabotaram a Conferência Ecológica de Copenhague, em dezembro de 2009.

A Terra, que deve possuir alguma forma de inteligência, decidiu expressar seu grito de dor através do vulcão da Islândia, exalando a fumaça tóxica que impediu o tráfego aéreo na Europa Ocidental, causando prejuízo de US$ 1,7 bilhão.

Em reação ao fracasso de Copenhague, Evo Morales, presidente da Bolívia, convocou, para os dias 19 a 23 de abril, a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Esperavam-se duas mil pessoas. Chegaram 30 mil, provenientes de 129 países! O sistema hoteleiro da cidade entrou em colapso, muitos tiveram de se abrigar em quartéis.

A Bolívia é um caso singular no cenário mundial. Com 9 milhões de habitantes, é o único país plurinacional, pluricultural e pluriespiritual governado por indígenas. Aymaras e quéchuas têm com a natureza uma relação de alteridade e complementaridade. Olham-na como Pachamama, a Mãe Terra, e o Pai Cosmo.

Líderes indígenas e de movimentos sociais, especialistas em meio ambiente e dirigentes políticos, ao expressar o clamor dos povos, concluíram que a vida no Planeta não tem salvação se perseverar essa mentalidade produtivista-consumista que degrada a natureza. Inútil falar em mudança do clima se não houver mudança de sistema. O capitalismo é ontologicamente incompatível com o equilíbrio ecológico.

Todas as conferências no evento enfatizaram a importância do aprender com os povos indígenas, originários, o sumak kawsay, expressão quéchua que significa "vida em plenitude". É preciso criar "outros mundos possíveis" onde se possa viver, não motivado pelo mito do progresso infindável, e sim com plena felicidade, em comunhão consigo, com os semelhantes, com a natureza e com Deus.

Hoje, todas as formas de vida no Planeta estão ameaçadas, inclusive a humana (2/3 da população mundial sobrevivem abaixo da linha da pobreza) e a própria Terra. Evitar a antecipação do Apocalipse exige questionar os mitos da modernidade - como mercado, desenvolvimento, Estado uninacional - todos baseados na razão instrumental.

A conferência de Cochabamba decidiu pela criação de um Tribunal Internacional de Justiça Climática, capaz de penalizar governos e empresas vilões, responsáveis pela catástrofe ambiental. Cresce em todo o mundo o número de migrantes por razões climáticas. É preciso, pois, conhecer e combater as causas estruturais do aquecimento global.

Urge desmercantilizar a vida, a água, as florestas, e respeitar os direitos da Mãe Terra, libertando-a da insaciável cobiça do deus Mercado e das razões de Estado (como é o caso da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu).

Os povos originários sempre foram encarados por nós, cara-pálidas, como inimigos do progresso. Ora, é a nossa concepção de desenvolvimento que se opõe a eles, e ignora a sabedoria de quem faz do necessário o suficiente e jamais impede a reprodução das espécies vivas. Temos muito a aprender com aqueles que possuem outros paradigmas, outras formas de conhecimento, respeitam a diversidade de cosmovisões, sabem integrar o humano e a natureza, e praticam a ética da solidariedade.

Cochabamba é, agora, a Capital Ecológica Mundial. Sugeri ao presidente Evo Morales reeditar a conferência, a exemplo do Fórum Social Mundial, porém mantendo-a sempre na Bolívia, onde se desenrola um processo social e político genuíno, singular, em condições de sinalizar alternativas à atual crise da civilização hegemônica. O próximo evento ficou marcado para 2011.

Pena que o governo brasileiro não tenha dado a devida importância ao evento, nem enviado qualquer representante. A exceção foi o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), que representou a Câmara dos Deputados.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O fim de todos os governos



Paulo Brabo - www.baciadasalmas.com

O despojamento radical dos romeiros de Pentecostes deve ser encarado, finalmente, como a desconcertante manifestação política que é. O fim da política – isto é, o fim da fé na política – tem consequências políticas muito graves, e é precisamente esta profissão coletiva de independência que estamos presenciando aqui.

É lugar absolutamente comum mencionar-se este episódio como evidência de um precedente bíblico (e portanto cristão) para o socialismo, e é pelo menos tão comum refutá-lo. O argumento mais frequentemente levantado contra a factualidade dessa aliança explica que, ao contrário do que acontece no socialismo, na comunidade de Jerusalém os discípulos se desfaziam voluntariamente dos seus bens. Como se vê, trata-se do mais fraco e desleal dos argumentos, porque resolve ignorar que o despojamento de Pentecostes estabelece um projeto ainda mais idealista e exigente (e portanto, mais admirável) do que o projeto comunista. Parece, na verdade, sustentar blasfemamente que uma manifestação voluntária e irrestrita de coletivismo seria de alguma forma menos notável ou digna de imitação do que um coletivismo oferecido paliativamente através da instituição política. E resolve ignorar, de forma ainda mais cafajeste, a distância irreconciliável entre a postura coletivista dos discípulos de Pentecostes e o individualismo inextinguível requerido pela alternativa oficial ao socialismo, o capitalismo.

O despojamento de Pentecostes não deve ser considerado, de fato, precedente para o socialismo, mas não pela razão apontada pelos que não são de esquerda, de que há verdadeira incompatibilidade entre as duas posturas. A verdade é que a renúncia coletiva dos discípulos em Atos 2 é plataforma para um projeto político (ou talvez seja mais correto dizer apolítico) muito maior e mais ambicioso, sem precedentes e sem verdadeiros herdeiros ideológicos.

Diante desse projeto o socialismo permanece alternativa muito racional, muito cautelosa – muito política – e, portanto, insuficiente. Ao contrário do que sugerem incessantemente os seus antagonistas, nenhuma teoria importante do socialismo (e talvez um número ainda menor de aplicações práticas dessas teorias) pressupõe um coletivismo puro, em que tudo pertence a todos e a propriedade privada simplesmente não existe. Em termos estritos, a única propriedade não-privada postulada por um regime socialista é a dos meios de produção. O sonho socialista é de um mundo em que indústrias, máquinas e matéria-prima não sejam sequestradas por um ciclo seletivo de enriquecimento que é eternamente sustentado pelo trabalho de quem está abaixo de nós no organograma. Nesse mundo em que os meios de produção foram tornados coletivos, aquilo que antes eram lucros desfrutados por uns poucos torna-se magicamente poder de compra de que todos os envolvidos se beneficiam. As pessoas passam a trabalhar menos e ganhar mais, porque sustentam apenas a si mesmas e não o ocioso do andar de cima, e o que ganham pode ser usado para comprar mais e melhores produtos.

Trata-se, como se vê, de um plano simples e bem-intencionado, mas que os defensores do capitalismo tomam por especialmente injusto, visto que não premia com o mesmo deleite a iniciativa, o empreendedorismo e a criatividade. O capitalismo defende sem trégua a liberdade, e entende que liberdade é o indivíduo poder beneficiar-se impunemente da arbitrariedade da diferenciação. Toma por inerentemente verdadeiro que quem é mais inteligente, mais forte, mais batalhador e mais criativo deve ser premiado por essa sua condição, e o prêmio estabelecido pelo sistema é o direito de trabalhar menos e comprar mais. Os incompetentes, os ociosos, os idealistas e os sem instrução, esses a pedra de moer do capitalismo tratará automaticamente de eliminar e punir, atribuindo-lhes pouco ou nenhum poder de compra – isto é, valor nenhum. Segundo esse inabalável artigo de fé, liberdade é liberdade para angariar os benefícios de se encontrar em posição mais vantajosa; consequentemente, quem não tem vantagens para oferecer não terá liberdade de que desfrutar.

O curioso, como denunciado recentemente por insubmissos como Zizek, é que capitalismo e socialismo são doutrinas político-econômicas bem menos distintas entre si do que seus defensores gostam de pensar. O socialismo é em essência um capitalismo elevado ao patamar de utopia, um mundo de produtividade pura e excelsa não perturbada pelo embaraço do capital. A própria definição de socialismo, fundamentada no valor último dos “meios de produção”, acaba denunciando a obsessão (eminentemente capitalista) do socialismo com o consumo. Tanto para um quanto para outro a questão fundamental é produzir e consumir sem impedimento; só diferem quanto ao caminho para se atingir esse nirvana.

Quando se analisam dessa forma as distinções e semelhanças entre os dois sistemas, deve ficar claro que um sistema político (e portanto econômico) é invariavelmente um sistema de intermediação de justiça. Toda fé política sustenta, muito sensatamente, que o único modo de se garantir e exercer a justiça é pela mediação de uma instituição; discordam entre si apenas a respeito de qual é a receita institucional correta. Para o socialista, o sistema é justo porque ninguém pode ficar rico; para o capitalista, o sistema é justo porque qualquer um pode enriquecer. Ambos os projetos, portanto, estão fundamentados no medo coletivo da injustiça (medo da injustiça social, para o socialismo, e medo da injustiça pessoal, para o capitalismo) e no desejo condicionado pelo que o sistema toma como admirável (em ambos os casos, a produção e o consumo).

Não é apenas anacrônico, portanto, afirmar que as generosidades de Atos 2 e 3 prefiguram o socialismo, ou apontar que não necessariamente anulam o capitalismo. O despojamento coletivo dos discípulos de Pentecostes não confirma um sistema político ou econômico, mas faz precisamente o contrário: anula o mérito de toda solução política e alça o desafio da convivência a um nível embaraçosamente mais exigente, elevado ao ponto de uma rigorosa insensatez. Numa palavra, inaugura o Reino de Deus, em que a justiça não é intermediada por uma instituição, mas por pessoas.

Jesus já havia demonstrado, em sua aventura na terra, um saudável desrespeito pelas soluções institucionais – mas agora seu projeto alcança, pela primeira vez, uma face verdadeiramente coletiva. Seus novos discípulos são suas testemunhas porque afirmam na vida real o que o rabi de Nazaré sempre sustentou e sempre fez.

Quando se despojam do que os afastava uns dos outros, os membros-fundadores da comunidade do Reino estão anunciando aos quatro ventos que não se deixarão conduzir pelo medo da injustiça (que os levava a acumular) e pelo desejo condicionado (que os levava a adquirir). Anunciam, a quem estiver ali para ver, a notícia de que no reino revelado por Jesus a justiça deve ser, e na verdade só pode ser, administrada de uma pessoa a outra, e não por intermédio de uma instituição. Proclamam na vida real o que Jesus sempre assegurou, que no reino da generosidade divina não é preciso temer coisa alguma. Se Deus sustenta o menor dos pardais, o homem não deixará de sustentar o homem.

O Reino de Deus representa o fim de todos os governos porque descerra um domínio em que não é preciso temer a injustiça – não porque o sistema conta com mecanismos artificiais e soluções corretivas para garanti-la, mas porque ninguém está sozinho. Neste reino, marginais leigos levantam e curam os caídos que rejeitaram os bondosos de plantão, e um menino sem nome blasfema ao sugerir que seu lanche poderá fazer diferença para alimentar uma multidão; seus habitantes vendem o que possuem a fim de suprir o que falta ao mais desconhecido dos necessitados – e cada um desses faz soprar, a seu modo e em sua imprudência, o vento inédito de um mundo possível em que ninguém será deixado para trás.

O reino dele não é deste mundo, mas arrepender-se é transformar este mundo no dele. É minerar riqueza espiritual no reino de Deus que está dentro de nós e tirá-la para fora na forma de evidência da ação de Deus no mundo real. No processo tornam-se obsoletas tanto a política quanto a religião – mas nem uma nem a outra, ficará logo claro, entregará os pontos sem resistir.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

DEUS EM NÓS: O REINADO QUE ACONTECE NO AMOR SOLIDÁRIO AOS POBRES

O livro apresenta os dois últimos textos (inacabados) de Hugo Assmann, teólogo, sociólogo e pedagogo de reflexões inovadoras, críticas, criativas e provocativas. Só por isso, já poderia ser considerado uma obra significativa. Mas, mais do que isso, pessoas que empenham a sua vida na luta por uma sociedade e relações sociais mais humanas vão encontrar nas últimas reflexões de Assmann, especialmente na proposta de mística de “Deus em nós”, endomística, luzes para novas reflexões e caminhadas. Complementando as reflexões de Assmann, a segunda parte do livro, escrito por mim propõe repensarmos o critério que, no inconsciente coletivo do cristianismo de libertação, tem servido para julgar as práticas pastorais, sociais e políticas: a noção de libertação como uma ruptura radical ou a construção do Reino de Deus.

Tomando a sério as contradições e complexidade da vida social, o livro propõe como critério a experiência de “Deus em nós”, o reinado de Deus que acontece no interior da luta e do amor solidário para com os pobres e as vítimas de sistemas e relações humanas opressivas.

Índice

Introdução

PARTE I: (Hugo Assmann)
Cap 1. Ampliar e aprofundar sensibilidades: elementos para uma pedagogia do terceiro milênio
Cap 2. Fragmentos de Sócio-Pedagogia

PARTE II (Jung Mo Sung): (Jung Mo Sung)
Cap 3. Categorias sociais e a experiência espiritual.
Cap 4. Assistencialismo, reformismo e libertação: qual é o critério?
Cap 5. O reinado de Deus e sistemas sociais.
Cap 6. A plenitude possível e a mística do Deus em nós.

Anexo: Hugo Assmann: teologia com paixão e coragem

ASSMANN, Hugo & SUNG, Jung Mo. Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres. São Paulo: Paulus, 2010.

Contato: Livrarias Paulus

A pedofilia e a estranha santidade da Igreja

Jung Mo Sung *
Adital -

Há uma pergunta na minha cabeça sobre o escândalo da pedofilia entre o clero da Igreja Católica que ainda não encontrei ou li uma resposta satisfatória: por que tantos bispos ou padres superiores ajudaram a encobrir esses casos? Eu não posso crer que todas essas pessoas que de um modo ou outro ajudaram no encobrimento tenham feito isso porque são pessoas más ou insensíveis em relação aos sofrimentos das crianças e adolescentes vítimas desses abusos.

Pedofilia é um problema ou crime que acontece em muitos meios sociais, entre heterossexuais e homossexuais, entre pessoas que vivem a disciplina do celibato (como os padres) e também no meio das pessoas casadas, assim como entre pessoas de fé religiosa e os não-crentes. Eu penso que o maior desapontamento em relação à Igreja Católica não é o fato de que no meio dela há também padres pedófilos, mas sim a descoberta que por muitos anos e em muitos lugares esses problemas foram encobertos.

O fato de que o padrão do encobrimento aconteceu em tantos lugares e por tanto tempo mostra que o problema não foi uma questão de decisões erradas de algumas pessoas, mas parece ser expressão de algo mais estrutural e profundo, algo que faz parte da "cultura" da Igreja Católica, ou da hierarquia da Igreja Católica.

Eu tenho uma suspeita: todos ou quase todos esses encobrimentos visavam um bem maior! Isto é, são frutos de boas intenções! Os documentos e as entrevistas mostram que o objetivo do encobrimento não era apoiar ou legitimar a pedofilia; mas, sim, preservar um bem maior que é a "Santa Igreja Católica". Para isso, se preciso fosse, essas pessoas boas se tornavam insensíveis aos sofrimentos das vítimas de abusos. Quando buscamos o bem maior que estaria acima da vida humana, nós somos capazes de nos tornar insensíveis aos sofrimentos das pessoas que aparecem como um obstáculo ou perigo a esse bem maior.

Para os que ajudaram no encobrimento, assumir que havia e há padres pedófilos (ou outros problemas morais e religiosos graves) seria mostrar ao mundo que a Igreja não é santa, e que por isso a Igreja Católica não seria a Igreja de Deus, e assim perderia a sua autoridade moral para ensinar e mostrar o caminho da santidade, o caminho para Deus. Por isso, tudo (ou quase tudo) deve ser feito para manter a imagem de santidade da Igreja.

É claro que diante desses escândalos há os que dizem (com maior ou menor satisfação) que a Igreja Católica não é e nunca foi santa porque está cheio de pecados e defeitos. Eu penso que esses dois grupos aparentemente com posições opostas compartilham de um mesmo conceito fundamental: a santidade como não ter pecado ou defeito.

Há aqui, penso eu, uma postura teológica equivocada que ajuda explicar, pelo menos em parte, porque tantas pessoas de boas intenções fizeram parte dos processos de encobrimentos que prolongaram e aumentaram desnecessariamente sofrimentos de tantas pessoas. Elas estavam fazendo isso para defender a imagem de santidade da Igreja que garantiria a autoridade moral e espiritual da missão da Igreja.

O problema é que a santidade da Igreja e das pessoas não consiste em não pecar ou não ter defeitos. Santo assim, só Deus! A santidade da Igreja e das pessoas que buscam viver uma vida de santidade, no caminho de Jesus e/ou no seguimento do Espírito de Deus, consiste exatamente no contrário: em se reconhecer pecadora. Só na medida em que nos reconhecemos pecadores é que podemos nos abrir para a misericórdia e a graça de Deus. Assim como uma pessoa higiênica tem muito mais sensibilidade para sujeiras do que uma pessoa não-higiênica, uma pessoa ou Igreja santa tem muito mais sensibilidade para os seus pecados e se reconhece como pecadora. E assim procura não encobrir os seus pecados, encobrimento este que gera mais vítimas, e busca o caminho da conversão constante tentando restaurar a vida e a dignidade dos que sofreram por causa dos nossos pecados. Assim mostra ao mundo a misericórdia de Deus e o caminho da santidade.

Para que a Igreja cumpra bem a sua missão, o caminho não é procurar se apresentar como sem pecado ou defeito, mas sim viver a vida de uma comunidade que assume a sua condição humana e de pecadora e busca constantemente a misericórdia e o perdão de Deus para si e para toda a humanidade.

Afinal, a Igreja não existe para anunciar a sua santidade, mas sim o amor, o perdão e a graça libertadora de Deus.

[Autor, juntamente com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres", Ed. Paulus].

sábado, 10 de abril de 2010

O que havia sido usurpado

Paulo Brabo - www.baciadasalmas.com

Quando dá a um pobre você não está dando do que é seu,
está devolvendo o que pertence a ele.
Você é quem havia usurpado o que é comum,
aquilo que foi dado para o comum benefício de todos.
Ambrósio de Milão

A ganância, que é idolatria, não é o desejo de acumular riquezas e não é o anseio pela aparente liberdade que as riquezas podem comprar. O verdadeiro motor da ganância é um fetiche mais profundo, mais oculto e mais raramente expresso em palavras, pois trata-se do desejo pelo direito de não depender de ninguém, o vertiginoso direito de poder viver sem qualquer consideração pela vontade e pelas necessidades dos outros.

Em última instância, a ganância é o anseio pelo distanciamento completo dos embaraços do mundo, e seu impulso subjacente é uma completa negação do mundo. A seu modo, portanto, a obsessão pela acumulação de bens é uma espécie de ascetismo, uma forma de negar e afastar-se das complicações da vida. Nosso sonho mais rigoroso é acumular bens e riqueza até que o mundo exterior não tenha absolutamente qualquer modo de nos atingir, até que estejamos perfeitamente a salvo e perfeitamente distintos do mundo.

É precisamente essa ilusão de isolamento a denúncia da parábola registrada por Lucas no décimo-segundo capítulo de seu evangelho, a história do homem rico que decidiu encarcerar-se em celeiros com suas provisões e bens, porque havia angariado suficiência “para muitos anos”. Esse homem havia satisfeito idealmente o coração secreto da sua ganância, porque era (ou se julgava) finalmente independente de tudo e de todos. A história escancara que essa sua autonomia é ilusória, pois explica que Deus decidira secretamente requerer a sua vida naquela mesma noite. Porém, em termos estritos, o homem já conseguira adquirir em vida a estirpe de morte que escolhera para si mesmo, porque a completa separação do mundo e das pessoas, embora seja o alvo ideal de toda a ganância, é uma espécie muito literal de morte. Na história o protagonista deve morrer na mesma noite em que planeja sua independência – porque, no fim das contas, já escolheu a morte. Estando plenamente suficiente, separado das contingências da vida e das necessidades dos outros, já está morto.

Acumular riquezas é construir defesas contra o mundo, e nisso a ganância é indistinguível de qualquer outra obsessão com a morte. Que os ricos e os gananciosos são obcecados pela morte é evidente no que negam a morte continuamente. Recusam-se a mencionar a morte ou a reconhecer o seu poder, mas vivem construindo contra as contingências da vida barreiras que lhes pareçam suficientemente seguras. Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um.O homem rico vive percorrendo os limites da sua propriedade, estudando vulnerabilidades e planejando ampliações; ele teme encontrar alguma brecha em seus muros, porque não quer deixar entrar qualquer traço de vida e, consequentemente, de morte.

Quando escolhem neste ponto despojar-se de seus bens em favor de todos os outros, os integrantes da comunidade do espírito estão fazendo precisamente o trajeto contrário, isto é, abraçam sem intermediários a vida e a morte, o mundo e as pessoas. O homem rico da parábola decide construir para si celeiros que deveriam funcionar como barreira efetiva contra a entrada do mundo; inversamente, ao despojar-se dos seus bens os romeiros de Pentecostes estão baixando suas defesas, demolindo as muralhas que os protegiam.

Séculos depois, devidamente iluminado por essas coisas e estarrecido diante delas, coube a Proudhon proclamar sucintamente que “propriedade privada é roubo”. Como observou meu amigo Dan Oudshoorn, isso não quer apenas dizer (como disseram, ver acima, pais da igreja como Ambrósio de Milão) que acumular bens é subtrair sem autorização de um patrimônio que Deus designou a todos e não apenas a alguns; ceder às tentações da propriedade privada não é apenas roubar dos pobres, é roubar a nossa humanidade de nós mesmos – precisamente porque nossos bens acabam exercendo a obscena função de barreira intermediária entre nós e o mundo, entre nós e os outros.

Acumular bens é confessar que nossa identidade e nosso valor estão de alguma forma ligados às coisas que conseguimos angariar ou manter, e não a nós mesmos. Essa é uma admissão desumanizante, e para escaparmos da consciência disso aplicamos o mesmo critério desumanizador aos outros, julgando-os pelo que podem oferecer para nos impressionar e reservando nossa generosidade para os que não carecem dela (isto é, os que podem recompensá-la). A ganância é idolatria porque é essa degradante confissão de insuficiência e de desgraça.

Novamente, é por essa razão que os da comunidade do espírito sentem a necessidade de despojarem-se literalmente dos bens que os amarram e confundem. Quando diluem tão imprudentemente o seu patrimônio, estão confessando em altos brados a suficiência do reino de Deus, onde aos pássaros não falta alimento e onde a elegância das flores é motivo de embaraço para reis e dignatários. Confessar o reino é confessar que nada há que temer e que nenhuma barreira deve ser construída entre o ser humano e a vida, entre um ser humano e outro. É apostar, loucamente, na suficiência do cavalheirismo e da gentileza. Ao mesmo tempo em que se despojam, os novos discípulos dão testemunho de que acreditam que a vida partilhada vale todos os riscos (de que a riqueza não salva) e se mostrará capaz de suprir todas as carências (que a riqueza não satisfaz). É uma confissão insensata mas simetricamente digna de Jesus, e neste momento são todos simultaneamente afixados e identificados com ele na cruz.

Tornaram-se, finalmente, as testemunhas que Jesus havia desafiado que fossem, porque aprenderam a falar tão-somente a linguagem da graça, da generosidade, da inclusividade e da dádiva – a qual, conforme proposto incessantemente pelo Filho do Homem, é a própria linguagem (isto é, a identidade) de Deus.

A reviravolta está em que descobrem, como todos que se embrenham nesse caminho estreito, que nada há mais vantajoso, benéfico e curativo para eles mesmos do que “ajudar” os outros diluindo a vida e demolindo as barreiras que haviam passado a vida erguendo contra os avanços deles. Os romeiros de Pentecostes, que haviam, como todos, acumulado riquezas a fim de garantir a sua própria liberdade contra a ameaça dos outros, deparam-se agora com a maravilha articulada por Moltmann: o momento em que o outro deixa de ser um limite à nossa liberdade e passa a ser uma inesperada extensão dela.

É ainda por essa razão que o seu despojamento deve ser total. Primeiro, para que não acabem incorrendo no que Derrida chama de hostipitalidade – isto é, a complexa rede submersa de conflitos e hostilidades que acompanha necessariamente as relações de hospitalidade. A hospitalidade deve ser radical ao ponto do esvaziamento, do contrário não será de fato hospitalidade. Enquanto houver distinção entre hóspede e anfitrião, entre doador e beneficiado, entre ricos e pobres, haverá cobrança e hostilidade (mesmo que encobertas), e essas são tensões inteiramente incompatíveis com o mecanismo imaculado da graça. Enquanto houver algum apego à propriedade haverá alguma barreira, por isso a completa dissolução, o esvaziamento sem paralelo e sem precedentes. Possuir é manter-se condicionado.

Segundo, porque o despojamento total é o preço do encontro definitivo consigo mesmos, é o momento da morte do ego e da ressurreição, e na qualidade de heróis míticos os peregrinos de Pentecostes não hesitarão em dar esse último passo – que será o seu primeiro. Morrem porque querem viver, dão tudo porque querem ser livres. Quem quiser preservar a sua vida irá perdê-la, já havia profetizado o inclemente paradoxo de Jesus.

E, finalmente, quando se vulnerabilizam por completo, esses homens e mulheres encontram-se consigo mesmos e com uma suficiência que não podiam sonhar que chegariam a experimentar. Abrindo mão daquilo que o rico busca encontrar incessantemente na riqueza, isto é, controle, os peregrinos encontram controle e autodomínio – e encontram-nos num regime permanente que a riqueza, por definição, é incapaz de prover.

Estão, simultaneamente e pela primeira vez, disponíveis para outros – não porque deram aos outros tudo que possuíam, mas porque encontraram-se consigo mesmos e será a primeira vez que os outros poderão vê-los, a cada um, como realmente são. Porque abriram mão das riquezas e dos bens que vinham servindo de barreira entre eles mesmos e os outros, serão finalmente capazes de compartilhar aquilo que, nas palavras de Santo Ambrósio, haviam “usurpado” das outras pessoas, aquilo que havia sido “dado para o benefício comum de todos”.

Não os seus bens, mas eles mesmos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

CHIMAMANDA ADICHIE



Uma palestra preciosa sobre o valor que todos devemos olhar nos outros, independente de sua realidade.

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dica da Vanessa (@vanessaquim)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os recursos necessários

Paulo Brabo - Via Bacia das Almas

Vai ficando claro que esta é uma utopia que não descansará até alçar todos os degraus do sublime e do improvável (se é que existe diferença entre uma coisa e outra): ficamos sabendo logo em seguida que os integrantes da nova comunidade não apenas repartiam sem qualquer critério os seus bens uns com os outros, mas também vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, o que deve ser considerado muitas vezes mais insensato. Reter uma quantidade fixa de bens em regime comunal, por mais radical ou exigente que possa parecer, não é o mesmo que dissolver ou dilapidar todo um patrimônio conjunto, transformando-o em dinheiro e repartindo a liquidez resultante com todos – mesmo que seja “segundo a necessidade de cada um”.

O esvaziamento radical que, nesses termos tão descobertos, Jesus havia exigido (e sem sucesso!) de um único candidato a discípulo, é no novo cenário do espírito abraçado sem restrição e sem rancor por todos, com o consentimento ou sob a supervisão dos doze que serviam-lhes de exemplo. “Venda tudo que possui”, Jesus havia dito naquela ocasião, “e dê aos pobres, e venha ser meu discípulo”. E o que um não havia se rebaixado a fazer em privado, agora todos fazem em público.

O que está se materializando aqui é, naturalmente, o eco necessário e tardio dos ultimatos que Jesus apresentou às multidões – como, por exemplo, aquele tremendo registrado em Lucas 14.

Os evangelhos trabalham juntos para explicar que a relação de Jesus com as multidões era no mínimo ambígua. Por um lado, as pessoas despejavam-se de cidades e de distâncias para ouvi-lo e beneficiar-se dele; Quem não se despoja não tem os recursos necessários.por outro, Jesus as ensinava, alimentava e curava, mas muito declaradamente “não confiava nelas”.

A origem muito natural dessa desconfiança está em que, embora as multidões não se negassem a ouvir as insanas exigências que o Filho do Homem deitava diante de todos, um número muito menor – praticamente um punhado, uma dúzia, talvez setenta ou uns poucos mais – permitiram-se efetivamente transtornados e finalmente guiados por elas. Todos ouviam deleitados sobre as reviravoltas e escandalosas inversões do reino, mas poucos abraçavam a inclusividade do arrependimento. Muitos diziam “Senhor, Senhor”, mas poucos faziam o que ele estava dizendo. Muitos assistiam as suas aulas, mas poucos engajavam-se na sua reforma.

Por esses, que aumentavam continuamente o seu ibope mas observavam o reino de longe, o rabi de Nazaré não se deixava enganar. Não só isso; ele se esforçava constantemente para que eles mesmos não se deixassem enganar. Se Jesus volta tantas vezes ao assunto é porque era absolutamente necessário que seus seguidores nominais não passassem a se considerar, em sua posição de meros ouvintes, integrantes da verdadeira revolução.

Pois qual de vocês, querendo construir uma torre, não senta-se primeiro para calcular as despesas, a fim de ver se tem recursos para concluí-la? Para não acontecer que vendo-a inconclusa as pessoas comecem a zombar: “Esse homem começou a construir e agora não tem recursos para terminar”. Da mesma forma, todo aquele dentre vocês que não renuncia a tudo quanto possui não tem como ser meu discípulo.

Ou seja: multidão de fãs sem noção, baixem a bola e sentem aí para calcular os custos do discipulado. E é bom que estejam sentados quando o garçom trouxer a conta.

Diante de riscos tão acentuados e retornos tão transversais, Jesus toma o cuidado de não tirar em momento algum as cartas de cima da mesa. Vez após outra, parábola após parábola, ele vai pontuando que para experimentar o discipulado – isto é, para se enxergar o reino e colocar o pé no terreno virgem do fim do mundo – é preciso despojar-se de todas as coisas. Qualquer um que se desvia por qualquer razão desse formidável crivo não tem cacife para se engajar nessa obra. Melhor nem se envolver.

É essa a lei paradoxal da empreitada do reino: quem não se despoja de tudo que tem não tem os recursos necessários para empenhar-se nela.

O reino é um bem fabuloso que, para se ter, requer-se apenas nada se ter além do reino. Quem não se despoja por completo não tem os recursos necessários para adquirir o reino, justamente porque nada é necessário1. para adquirir o reino. Viver no reino é demonstrar isso, viver o reino é descobrir isso

É por isso que o rico não pode passar pelo buraco da agulha que é a entrada do reino: ele literalmente não tem como passar. Ou, melhor dizendo, ele tem os recursos para não passar. Para entrar, será necessário despojar-se.

Despojar-se é alçar-se literalmente à posição de não-condicionado – aquela vida de completa autodeterminação e completa identificação com o próximo que Jesus desempenhou e ofereceu.

Despojar-se equivale a derrubar Satanás do seu trono, porque representa deitar por terra o medo e o desejo, as algemas que permitimos que ele use para nos impedir de avançar e crescer. Despojar-se é abandonar, de modo muito literal, o medo de perder [as coisas] e o desejo de aferrar-se [as coisas]. É pisar o terrível terreno da liberdade incondicional. É conhecer o sopro do espírito que está finalmente livre para soprar onde quiser.

É por isso que os integrantes da comunidade do espírito acham importante seguir a lição do despojamento até sua aplicação mais crua e literal – vender tudo e tudo diluir entre os necessitados, – porque querem seguir Jesus e para o mesmo lugar. Se é que serão não-condicionados como ele foi, será necessário deixar para trás todas as cargas que os condicionam –Possuir é manter-se condicionado. e possuir, muito evidentemente, é deixar-se condicionar, porque o verdadeiro rico é aquele que não precisa de nada. Disso muitos ouvem falar, mas só o conhece o habitante do reino.

Aqueles de nós que habitam o reino e verdadeiramente o promovem são os que por um lado embrenharam-se no caminho do despojamento radical e, por outro, desenvolveram mecanismos literais para manterem-se o maior tempo possível nessa condição. Falo de gente como Gandhi, como Tolstói, como Madre Teresa, como São Francisco e como alguns amigos que tenho e dos quais você não vai ouvir falar, porque eles preferem assim.

Retenha em mente, portanto, essa única coisa: possuir é manter-se condicionado, e esta é uma regra sem exceção. Por isso, quando você pensar em grandes exemplos de vida ou quando quiser mencionar pessoas edificantes e cheias de luz, pode excluir sem medo da sua lista gente que trabalha para sustentar o conforto de automóveis e casas e computadores e telefones celulares e seguidores e internet banda larga. Quem permanece escravo dessas liberdades pode até falar dele com os lábios, mas não conhece com os olhos o não-condicionado.

Você deve, portanto, excluir da sua lista de notáveis o Paulo Brabo, o Diogo Mainardi, o Ricardo Gondim, o Lula, o Ed René Kivitz, o Barack Obama, o Rubem Alves, o Silas Malafaia e todos os nossos comparsas e antagonistas, porque permanecemos condicionados pela multidão de pequenas facilidades de que ainda não nos despojamos. Somos todos, luzes políticas e faladores públicos, meras distrações profissionais, operando a meio caminho entre o crime e o entretenimento. Nosso método é dar a impressão de que temos um plano e de que sabemos do que estamos falando, e enquanto nos dá ouvidos você mesmo vai adiando a loucura que seria saltar de cabeça no abismo do arrependimento e embrenhar-se na reforma interior e exterior que é também o fim do mundo. Da mesma forma, enquanto nós faladores tivermos em você uma audiência cativa nós mesmos permaneceremos adiando o temerário crescimento pessoal que com nossa voz fazemos você adiar – e nesse esforço conjunto, nessa sedução circular, vamos garantindo que nada de fato aconteça.

Nossa única chance, naturalmente, seria pôr de lado minuciosamente tudo – e isso não porque os pobres carecem dos bens e da atenção que poderíamos repartir entre eles, mas porque carecemos nós de encontrar a paz e a guerra, a vida e a morte passando pelo buraco da agulha que é a entrada do reino.

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