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domingo, 5 de julho de 2009

Conto - O Lixo

Acordei-me sobre um grande monte de lixo. Não conseguia mais ver terra ou água potável. O céu estava coberto por nuvens carregadas de escuridão onde apenas se via o lampejar de diversos relâmpagos. Tudo estava encoberto de lixo. Em uma parte estavam diversas árvores destruídas pelos desmatamentos. Elas estavam em decomposição e com várias fogueiras acumuladas em alguns pontos. Muitos destes pontos de fogo eram enormes. Entre as árvores caídas corriam rios totalmente escuros, cheios de dejetos e lixos flutuantes.
Aparentemente não havia movimento algum sobre ele. Nem as moscas pareciam existir. Nada de vida existia sobre ele. Apenas o cheiro fétido exalado pelas comidas em decomposição. Talvez estas eram as únicas vidas. As microscópicas bactérias que decompunham os alimentos.
Eram quilômetros de lixo que se perdia de vista. E eis que bem distante consegui observar um movimento. Era um animal que parecia muito magro. Sua silhueta de um lado quase se confundia com a do outro lado. Estava com as patas sobre alimentos em decomposição. E devorava o pouco que tinha, aparentemente para resistir a mais um dia em sua sobrevida. Muitos lixos continuavam a se formar sobre restos que já existiam, mas não sabia de onde vinham.
Procurei me aproximar daquele animal e foi quando comecei a perceber que ele não tinha pêlo sobre o corpo magro. Comecei a diferenciar sua silhueta. O focinho que parecia claro a distância, agora não havia mais. Foi então que fiquei totalmente assustado. Não era um animal. Era um homem! Magérrimo. Negro. Com as costelas cobertas apenas por pele, e totalmente nuas. Havia feridas em todo o corpo, onde se podia ver o sangue coagulado. Havia furos pelo corpo no formato de tiros, frutos de alguma guerra que vivenciou. Vergões percorriam toda a sua costa formando pequenos rios de sangue, frutos também da escravização. Mais próximo dele percebia-se o quanto suas chagas eram profundas. A perna esquerda estava mutilada para cima do joelho, onde ele se apoiava na perna direita e os braços sobre o lixo e com a cabeça próxima ao chão, devoravam o pouco de alimento sem decomposição que encontrou.
Que cena terrível. Não conseguia mais olhar para este homem. Virei minha face para o outro lado para não me enjoar com esta cena, e me deparei com um televisor ligado. Mas não havia energia.Nele passava o noticiário sobre os ricos e milionários vivendo nas mansões mais elegantes do mundo. Outra noticia era os EUA invadindo mais um país do oriente médio, afirmando sobre existência de armas de destruição em massa. Os paises europeus, responsável pelas guerras civis na áfrica apenas estão preocupado com os gastos de suas riquezas internas, frutos das diversas colonizações por todo século sobre os paises pobres. Outra notícia fala sobre os bilhões de dólares que estão sendo gastos em moda, estética corporal, carros e barcos luxuosos pelos ricos. Outra notícia fala sobre os políticos que novamente estão envolvidos em corrupção de desvio do dinheiro público.
A televisão muda automaticamente de canal e nele estava passando um líder religioso que explica a nova maneira de se conseguir riqueza, carros e uma vida cheia de ouro e prata a partir de uma nova campanha para mover o braço do seu deus. Milhares de pessoas estão ajoelhados diante deste líder que tinha duas faces. Na que ficava de frente do povo percebia se a face de uma ovelha que dizia frases suaves e convincentes, dizendo sobre como fazer com que o deus que ele servia, pudesse ajudá-los a viver como os ricos. Para isto uma quantia de dinheiro deveria ser ofertado, ou algum sacrifício para acalmar este deus irado. Percebia se que as pessoas que estavam de frente com a face de ovelha tinham sob os seus pés no chão, como desenhos, todas as promessas que aquela suposta ovelha oferecia como resposta do seu deus a fidelidade deste povo.
Então olhei para a outra face. Era a de um lobo voraz com os olhos aguçados e suas presas escorriam um liquido que expressava o prazer que ele sentia sobre suas presas. Mas diante da face do lobo percebi que havia uma multidão. Mas uma coisa me chamou a atenção. A mesma multidão que estava diante daquela face era a mesma que estava do outro lado. Era como um espelho refletindo esta multidão.Mas a diferença era que elas estavam nuas, com chagas por todo o corpo, e estavam chorando, produzindo um choro terrivelmente desesperador.

Percebo então que durante estes programas que mostravam a parte mais fútil do sistema econômico, político e social que vivemos, crianças negras subnutridas, indígenas, e de outras nações começaram a sair por de trás do televisor, engatinhando, mas elas não ficavam muito tempo diante dos meus olhares, pois sempre aparecia um corvo que dava um vôo rasante pegando aquela criança que acabara de sair por de trás do aparelho, e o levava para um lugar atrás de um monte.

Então decidi ir ao alto deste monte e resgatar estas crianças. Ao chegar no cume percebo algo terrível. Não havia mais crianças vivas. Eram milhões de corpos em decomposição. Comecei a identificar os corpos a partir das únicas coisas que não se decompunham com os seus corpos. Eram bandeiras de suas prováveis nações. Nos corpos negros que tinham vários vergões nas pernas e traços de sangue sobre as bandeiras como se tivessem levado chicotadas, consegui decifrar as bandeiras africanas de diversos países como Angola, Moçambique e Quênia. Nos corpos de pele vermelha consegui ver cocais sobre suas cabeças, com bandeiras brasileiras e de outros paises da América Latina. Eram todos os corpos gerados a partir das colonizações européias sobre os povos americanos e de senhores dominadores sobre seus escravos. Havia corpos de todos os lugares. Muitos tinham sobre seus corpos a bandeira de Israel. Talvez eram os judeus que foram mortos nos diversos campos de concentrações alemães. Havia um silêncio aterrorizante. Milhares de corpos e nenhum sinal de vida.
Sai de diante daquela imagem terrível e corri em direção aquele único corpo que tinha vida para ajudá-lo. Quando estava me aproximando de onde o tinha visto, ele não estava mais lá mas no lugar uma cruz fincada sobre o lixo. E nela estava pregado aquele mesmo homem que havia visto de quatro e se alimentava de restos de alimento em decomposição.
Ele estava morto!
Quando me aproximei percebi ele com as mesmas chagas e faltando parte da perna esquerda. Seus olhos estavam abertos e consegui perceber que não tinha o globo ocular. Ele era cego! Mas os seus olhos ainda produziam lágrimas. Estas lágrimas escorriam pelo rosto e começaram a cair no chão e a formar uma poça de água límpida. Em torno desta poça começou-se a formar pequenas plantinhas que começaram a crescer e formar pequenas árvores com diversos frutos. Frutos deliciosos.
Os corvos já não viam mais pegar as crianças que saiam do televisor mas começaram a posar sobre a cruz e a comer levemente partes do corpo que estava ali pregado. Tentei espantar os corvos mas foi em vão minhas tentativas. Mais corvos continuava a posar sobre a cruz e a se alimentar daquele corpo.
Olhei para trás e vi as crianças saindo por de trás do televisor o qual ainda passavam as mesmas notícias sobre as corrupções feitas pelos humanos. Como estavam com muita fome decidi pegar os frutos que foram formados ao pé da cruz e levar a elas. Peguei uma criança totalmente desnutrida. Nela havia chagas pelo corpo todo, o qual manchou toda a minha pele e roupa de sangue. Levei o fruto até sua boca. Ela começou a comer aquele fruto e começou a sumir as chagas pelos seus corpos. Começava a se formar carne debaixo daquela pele que ficava sobre os ossos. Foi então que vi um dos corvos caírem de cima da cruz totalmente morto. A cada criança que eu dava um dos frutos, um dos corvos caia morto de cima da cruz.
Não saia mais crianças por de trás do televisor. Olhando novamente para a imagem que passava nele, começou a passar uma noticia sobre uma religiosa que deu a sua vida entre os pobres asiáticos. Mostrou então um negro falando para o povo americano contra o racismo e pela liberdade. Mostrou um líder asiático liderando uma revolução em paz para ajudar o povo pobre. Vi um outro negro libertando pobres negros em um país africano. Vi várias notícias sobre pessoas que participaram de alguma ação pelos excluídos. Era desde uma pequena noticia sobre uma senhora que ajudou sua vizinha que passava necessidades até grandes lideres que participaram de libertações de nações.
Feliz, me virei para a cruz, e já não vi mais o corpo que estava pendurado sobre ele. Havia apenas a cruz vazia.
Onde estava aquele homem?
Percebi uma luz que vinha por traz de mim. Virei-me e foi quando vi um homem sobre o mesmo monte que havia estado anteriormente. A luz vinha dele como se fosse a de um grande astro solar. Corri para próximo deste homem subindo aquele monte novamente, mas com receio de ver novamente aquela imagem dos corpos. Mas algo me dizia que não era mais assim. Aproximando-se dele eu vi que o monte dos corpos não existia mais. No lugar várias pessoas que aparentemente refletiam a luz vinda do homem que estava em cima do cume. Aproximei-me dele e vi o mesmo homem que estava na cruz agora com o corpo restaurado, podia ver seu globo ocular e percebi que sua perna esquerda estava lá.
Ele pediu para que me levanta-se. Mas eu já estava de pé?
Baseado em Mt 25:31-44, Isaias 53, Lucas 7:15-23, Ezequiel 37:1-14, Mt 27:45-56.
Suênio Alves

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