domingo, 20 de junho de 2010

A mais divina visão

O que do humano mais esperamos não passa de divinização cruel. O que chamamos de humanização, frequentemente, nada mais é que a idealização narcísea do outro. Bondade, paciência, justiça, polidez, bom senso, honestidade, equidade, pureza e todas as demais virtudes. Tudo muito lindo no meu discurso, mas um pesadelo nos ouvidos e na consciência dos que me rodeiam.

Imponho ao outro o que em mim imagino poderia ser perfeito. Exijo e puno todos a minha volta na proporção em que preciso esconder de mim mesmo a impossibilidade amarga de ser tão bom. O divino que me tortura é abrandado na medida em que culpabilizo o mundo. A gigante e divina moral me esmagaria se eu não o fizesse aos demais. Eis a origem dos conflitos.

Certamente foi esta imagem invertida que Jesus denunciou no moralismo dos fariseus. Chamando-os de guias de cegos, sepulcros caiados. Acusando-os de imporem aos demais o peso que eles mesmos não conseguiam carregar.

Aqui tropeçam secularmente as religiões e as políticas utópicas. Partem de universais que tem a autoridade do “ponto de vista do olho de Deus” (Richard Rorty) e com esta força moral idealizam um futuro imprescindível ao mundo mais humano, ou mais divino, no caso das religiões. E do alto desta perspectiva tornam-se o criadouro fértil dos discursos culpabilizadores e de seus filhos inevitáveis, os mecanismos de disfarces. Esgotados a utopia e seus moralismos e fracassados os simulacros coletivos, resta-nos ou o gosto insosso da apatia, ou o azedo do mais ácido pessimismo diante da realidade da vida humana.

Aqui entra a proposta de salvação trazida por Jesus. Sua resposta pelo que é verdadeiro e capaz de produzir salvação não está em uma utopia escatológica, nem em uma política revolucionária. Muito menos a salvação se apresenta em um conteúdo capaz de descrever a verdade, nem uma prescrição moral do “ponto de vista do olho de Deus”, esta sempre mata, dirá o Apóstolo mais a frente. A salvação não virá de Deus sobre a humanidade, já se tentou e não deu certo. A divina salvação virá da mais autêntica humanidade. Por isso Jesus diz de si mesmo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.” Não como idealização da vida humana, mas como humanização da idéia divina.

A salvação humana não está em uma glória divina. A glória de Deus é a vida humana plena de si. “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.14)

Não há um ponto de vista do olho divino que não seja uma grande ilusão. Em Jesus, o que há de mais divino tem plena visibilidade entre os humanos. “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido”. (Jo 1.18)

Jesus é o fenômeno humano experimentado sem tergiversações. Ele nasce em um mundo perigoso. Desenvolve-se na companhia de uma gente esmagada pelas políticas de dominação mundial. Cresce em um ambiente religioso tão intenso em sua devoção quanto o sofrimento e a humilhação de sua gente. Convive com a injustiça e a pobreza, com seus filhos miseráveis, as doenças do corpo e da alma. Mas levanta-se sob a autoridade de uma esperança profetizada e aguardada. Afirma-se o Cristo na medida em que realiza uma peregrinação libertadora.

No instante em que sua vida se torna um ingrediente de esperança, Jesus experimenta a mais cruel das manifestações de nossa humanidade, a injustiça. Sua influência também é um deslocamento de poder. E nada é mais temível para os poderosos que um jogo de poder que eles não saibam ou não possam jogar. Jesus inverte a moral dos conquistadores e chama de poderosos os mansos da terra, de legítimos herdeiros do Reino os pobres deste mundo, de bem aventurados os degredados pela desigualdade social. Relativiza as grandes doutrinas, volatiliza os ritos, elege os pequeninos como fonte de sabedoria e lhes confere o rosto divino. Aos poderosos só resta criminalizar alguém assim. Aos religiosos, reputá-lo herege e ameaça à fé. Criminoso e herege. Crucificado. Morto.

O percurso de sua morte não foi forrado por qualquer idealização. Foi um fim trágico e injusto e não se fingiu outra coisa. Nem Jesus aceitou qualquer movimento que escamoteasse a realidade dos fatos. Alertando aos discípulos sobre a confusão após sua prisão e morte, desconsiderou as palavras devotas e otimistas de Pedro: “Todos podem te abandonar, mas eu jamais te abandonarei”. Para a cura de Pedro Jesus deixou seu doce ceticismo: sua expressão de fé não duraria nem uma noite. “Antes que o galo cante…” Jesus também nos ensina a morrer.

Sob o testemunho de Jesus resta-nos retomar a pergunta pelo que nos humaniza, ou pelo que nos faz mais humanos. O humano não é uma divinização moral, já sabemos. Minha desconfiança é que o humano seja a própria liberdade. Que o humano seja a realidade de um ser que se descobre tão livre ante o seu destino quanto entregue ao absurdo de uma existência sem garantias excepcionais. Sua vida é assustadoramente provisória, mas esta também é sua salvação. Pois na vida os dissabores e insucessos também são provisórios. Sua fraqueza é sua força. A mesma fragilidade que o leva à tragédia é a flexibilidade que o leva à revolução. A suscetibilidade é a outra face necessária de sua liberdade. Suas conquistas podem ruir, mas Suas perdas também podem ser superadas.

Só existe outro nome além de liberdade capaz de nomear o fenômeno humano sem encapsulá-lo em uma moral asfixiante. Amor. A negação do humano, ou a desumanização, é todo e qualquer mecanismo que despreze a precariedade humana e finja uma divinização. É o cúmulo da indiferença. Mas a afirmação do humano, ou sua humanização, é um testemunho de amor. É a recusa de todo e qualquer processo de indiferença e fuga, é o abraço à vida em sua plenitude. Amor. A abertura mais corajosa e radical ao fenômeno humano.

O que nos salva em Jesus é seu testemunho de amor. Ninguém jamais viu a Deus, e sempre que tentou falar de seu ponto de vista, desumanizou. O que de Deus vimos em Jesus é tudo o que de Deus se pode ver: o humano do ponto de vista do humano, a mais divina visão.

Elienai Jr. - http://elienaijr.wordpress.com/

A voz de um cara



“Privilégio come direito.”

Via Evandro Melo, por e-mail

Leia também:
A criminalidade útil: o sistema penal como instrumento de manipulação



dica: Paulo Brabo - Bacia das Almas

sábado, 19 de junho de 2010

Cruz Vermelha pede corredor humanitário no Quirguistão

No aquário, um lindo passeio de cruzeiro:



Distante desta realidade, humanos lutam por dignidade para seus filhos:




MSF começa a atender vítimas dos conflitos no Quirguistão
Publicada em 16/06/2010 00:00

Profissionais estão a caminho das áreas mais afetadas para oferecer apoio médico e psicológico aos refugiados

Os violentos conflitos que mergulharam o sul do Quirguistão no caos desde o dia 10 de junho geraram uma grave crise humanitária, deixando milhares de pessoas feridas e provocando grandes deslocamentos de populações. De acordo com registros oficiais, ao menos 170 pessoas foram mortas e 1,7 mil feridas nos últimos cinco dias. Equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão chegando ao terreno em ambos os lados da fronteira entre o Quirguistão e o Uzbequistão para levar assistência emergencial aos mais necessitados.

No Quirguistão, o estoque emergencial de MSF na cidade de Osh já foi enviado para hospitais locais. Mais materiais médicos, remédios, kits de cozinha, coberturas plásticas para abrigo, containers de água e kits de higiene estarão a caminho do sul do país na quinta, dia 16 de junho. Ao mesmo tempo, a equipe médica de MSF deve chegar em breve à cidade de Osh para de lá chegar a Jalalabad, a outra principal cidade onde graves episódios de violências foram registrados. Os profissionais de MSF vão visitar estruturas de saúde e lugares onde as pessoas têm buscado refúgio, perto da fronteira do Uzbequistão, e vão começar a oferecer assistência para as vítimas e para os desabrigados.

“Além das muitas vítimas hospitalizadas que talvez necessitem de atenção médica, uma das nossas maiores preocupações é com as centenas de pessoas feridas e que não têm acesso aos cuidados médicos. Algumas delas estão com medo de ir até as estruturas de saúde ou de sair de onde estão, outras fugiram para longe de qualquer estrutura médica próxima da área de fronteira. Nós também estamos preocupados com a falta de acesso à água potável – os sistemas de água foram danificados por alguns dias em Jalalabad, e há falta de comida e itens básicos, uma vez que centenas de casas foram destruídas ou queimadas durante esses acontecimentos violentos”, diz Alexandre Baillat, chefe de missão de MSF no Quirguistão.

Milhares daqueles que fugiram da violência procuraram refúgios através da fronteira com o Uzbequistão. Cerca de 45 mil pessoas foram registradas oficialmente como refugiados em Andijan, uma província localizada na fronteira, no lado uzbequistanês. As autoridades do Uzbequistão começaram a erguer campos e hospitais locais estão tratando os feridos que vieram do Quirguistão.

Uma primeira equipe médica de MSF chegou a Andijan ontem para avaliar a situação e para apoiar os esforços das autoridades locais em atender ao grande fluxo de refugiados. “As primeiras prioridades são cuidados médicos, suprimentos, comida e tendas para abrigo temporário”, diz Andreas Bruender, chefe de missão de MSF em Tashkent. “Nos próximos dias, nós vamos enviar mais profissionais para as áreas afetadas para dar suporte à população, incluindo apoio médico e psicológico adicional para refugiados traumatizados. Nós estamos trabalhando em parceria com as autoridades e outros atores em ambos os lados da fronteira para determinar como responder as necessidades de forma mais efetiva.”

MSF conduz um programa de tuberculose no sistema penitenciário do Quirguistão desde 2006.Em Karakalpakstan, um república autônoma dentro do Uzbequistão, MSF está tratando pacientes com formas de tuberculose resistente aos medicamentos em Nukus e Chimbay e recentemente expandiu atividades nos distritos de Karaziak e Tahtakupir. MSF trabalha no Uzbequistão desde 1997.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Visitas ao inferno

Ricardo Gondim

Já visitei o inferno. Estive lá em vida. Já entrei em suas câmaras horrendas diversas vezes. Em todas, padeci muito. Nada sei sobre o "Hades" mencionado pelos religiosos. Aquele que jaz embaixo da terra e começa depois da morte não me interessa. O inferno que já conheci e que me machuca fica aqui mesmo, na terra dos viventes.

Já estive no inferno do engano. Há algum tempo, visitei um parque suíço, em Zurique, para onde convergiam os toxicômanos da cidade. Subi o viaduto que atravessa o parque e do alto contemplei um cenário surreal e dantesco. Lama, lixo e fezes, atolavam rapazes e moças naquele submundo. Ali não existiam humanos, apenas carcaças ambulantes. Naquela mesma noite, no avião, desejei dormir profundamente só para fugir do que testemunhara. Eu preferia qualquer pesadelo a ter que conviver com aquele cenário, tão real. Perguntei-me diversas vezes quem eram aqueles jovens. E porque se revoltavam contra o sistema. Se tentavam ser livres, criaram uma masmorra. Acabaram construindo o inferno com as próprias mãos.

Daquele dia, despertei: o Lago de Enxofre permeia o mundo em que existo. Cada um daqueles jovens tinha um pai. Um pai que pranteia porque não sabe como apagar as labaredas medonhas do lago de enxofre.

Já estive no inferno da culpa. Hoje sei que nenhum tormento provoca maior dor que a culpa. Qualquer mulher culpada sabe o tamanho de sua opressão. Qualquer homem culpado fala que os ossos derretem com uma consciência pesada. Culpa é ácido. A culpa avisa que o passado não pode ser revisitado. Assim as pessoas se submetem a carrascos internos e esperam redenção através de açoites. A dor da culpa lateja como um nervo exposto.

Os culpados procuram dissimular o sofrimento com ativismos, divertimentos e até promiscuidade. Mas a culpa não cede; persegue, persegue, até aniquilar iniciativa, criatividade e esperança. Recordo quando, no final de uma reunião, uma mulher me procurou pedindo ajuda. Seu marido se suicidara de forma violenta. Depois de enroscar uma tira de couro no pescoço, deu partida em um motor, que não só o estrangulou como lhe decepou a cabeça. Mas antes, ele procurou vingar-se. Deixou uma nota responsabilizando a mulher pelo gesto trágico. Diante da tragédia, aquela pobre mulher, desorientada e aflita, não sabia como sair do cárcere que o marido meticulosamente construíra.

Já estive no inferno da maldade. Conheci homens nefastos. Sentei-me na roda de ímpios. Frequentei sessões onde o martelo inclemente da religião espicaçou inocentes. Vi sacerdotes alçando o vôo dos abutres. Semelhante às tragédias shakespeareanas, eu próprio senti o punhal da traição rasgar as minhas vísceras. Fui golpeado por suspeitas e boatos. Com o nome jogado em pocilgas, minha vida foi chafurdada como lavagem de porco. Senti o ardor do inferno quando tomei conhecimento da trama que visava implodir o trabalho que consumiu meus melhores anos. E eu não sabia como reagir.

Portanto, quando me perguntam se acredito no inferno, respondo que não, não acredito. Eu o conheço! Sei que existe. Eu o vejo ao meu redor. Inferno é a sorte de crianças que vivem nos lixões brasileiros. Inferno é o corredor do hospital público na periferia do Rio de Janeiro. Inferno é o campo de exilados em Darfur. Inferno é a vida de meninas que os pais venderam para a prostituição. Inferno é o asilo nos Estados Unidos, que não passa de um depósito onde os velhos esperam a morte.

Um dia, aceitei a vocação de lutar contra esses infernos que me rodeiam, assustam e afrontam. Ensinei e continuo a ensinar que Deus interpela homens e mulheres para que lutem contra suas labaredas. E passados tantos anos, a minha resposta continua a mesma: “Eis-me aqui, envia-me a mim”.

Acordo todos os dias pensando em acabar com os infernos. Gasto a minha vida para devolver esperança aos culpados; oferecer o ombro aos que tentam se reconstruir; usar o dom da oratória para que os discriminados se considerem dignos. Luto para transformar a minha escrita em semente que germina bondade em pessoas gripadas de ódio. Dedico-me ao estudo porque quero invocar o testemunho da história e mostrar aos mansos que só eles herdarão a terra onde paz e justiça se beijarão.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dos quais o mundo não era digno

16 de Junho de 1976 - Hector Pieterson

Pontos de uma rede


Se algo lhe está sobrando, compartilhe-o. Se está faltando, espero que o seu compartilhar, tenham feito discípulos, para assim ser ajudado.



O Reino de Deus


Hoje, Edu e Ione (missionários da Betesda), estiveram num hospital mais afastado da cidade de Nampula - Moçambique, para os seus trabalhos normais e depararam com um bebezinho de 1 ano e 10 meses (foto), bem raquitico...está desnutrido e os médicos ja determinaram a morte dele em questao de horas... mas contrariando os diagnosticos ...ele tem sobrevivido...

"sentí que ele luta pela vida... e cada dia é uma vitória e as esperanças que se renovam..." Ione

Quem tranca a casa protege a família; quem promove igualdade, justiça e solidariedade protege o mundo.

Ricardo Gondim

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar

Paulo Brabo - Bacia das Almas

Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109). Talvez seja necessário reler este parágrafo.

A tradição cristã defendeu desde sempre, a partir de indicações do Novo Testamento, a dupla noção de que a morte de Jesus foi de alguma forma necessária, e de que a passagem de Jesus pela terra – incluindo sua vida, morte e ressurreição – ocasionou de um modo misterioso mas inequívoco a Singularidade, a plenitude dos tempos, a redenção dos homens. Porém Anselmo foi o primeiro a tomar sobre a si a tarefa de montar um sistema teológico que explicasse exatamente porque a cruz havia se mostrado necessária, e de que modo a obra de Jesus havia ocasionado a redenção.

E para ele tudo tinha sido uma questão de honra.

Segundo Anselmo, a obrigação primeira de todos os homens é devolver a Deus a honra que lhe pertence por direito. Pecar é essencialmente sonegar a honra devida a Deus: é ao mesmo tempo roubá-lo de sua dignidade e desonrá-lo. O problema está em que, como a honra é a característica mais inegociável da natureza divina, Deus não é livre para perdoar o pecado por um simples ato de vontade: “nada é menos tolerável na ordem das coisas do que uma criatura tomar do Criador a honra que lhe é devida sem repor aquilo que tomou”. O pecado gera um débito, diante do qual a reparação da dignidade divina só pode ser obtida de duas formas: [1] pela punição implacável dos devedores ou [2] pelo satisfação da dívida, o que só ocorre quando se devolve a Deus mais do que foi tirado dele.

A redenção, então, se resumiria nisso: o homem deve devolver a honra que roubou de Deus; como só um homem deve satisfazer esse débito e como só um Deus é capaz de efetuá-lo, foi necessário que o homem-Deus fosse obediente até a morte para reparar essa injustiça e restaurar o prestígio divino.

A teologia de Anselmo (que acabou sendo conhecida como doutrina “satisfacional” ou, de modo ainda mais revelador, doutrina “comercial” da redenção) é, como todas, reflexo rigoroso da época em que foi concebida. A ideia de satisfação era fundamental na justificação do sistema corrente de penitências; a ênfase no ressarcimento era característica da obsessão romana/latina com o Direito Penal; e, finalmente, os conceitos de honra ferida e de compensação da honra através da obediência eram parte essencial da estrutura ideológica do feudalismo em que Anselmo vivia1.

A primeira e maior falha na doutrina de Anselmo é também aquela que geraria mais graves consequências no futuro. Ao limitar a redenção à satisfação de um débito e ao limitar essa satisfação à obediência da cruz, Anselmo isolou a morte de Jesus do restante de sua obra de vida. A obsessão com os méritos da morte acabaria tornando a vida de Jesus irrelevante – como se sua vida não tivesse feito parte parte do seu esforço redentor. Nas palavras de Harnack: “Esse Deus-homem não precisava ter pregado e fundado um reino; nenhum discípulo precisava ter sido reunido: dele só era requerido que morresse.”

Em segundo lugar, se a redenção é essencialmente uma estratégia de Deus para recuperar o seu próprio prestígio, seu motivo não está fundamentado – a despeito da insistência das Escrituras neste ponto – no seu amor aos homens, mas no amor ao prestígio. Anselmo inaugurou um universo em que Deus mandou seu filho ao mundo por sua causa, não nossa. Ao contrário do que parecem insistir os autores bíblicos, a ênfase da reparação não está na reconciliação entre as partes, mas na restauração da mesma sorte de prestígio que um vassalo deve reconhecer ininterruptamente no suserano.

Finalmente, se a satisfação do débito é tão absolutamente incontornável e central na economia da redenção, em que a morte de Jesus tem a significância de uma transferência bancária, Deus é em última instância incapaz de perdoar, ao contrário do que sugerem a Bíblia e a tradição. Se o único modo de apagar a dívida é o inevitável ressarcimento, a fim de aprendermos a perdoar, desligar e esquecer devemos recorrer a um exemplo que não seja Deus. Orar pedindo “perdoa as nossas dívidas” passa a ser uma incorreção teológica e uma temeridade.

A doutrina de Anselmo ganhou poucos aderentes e causou quase nenhum impacto por 400 anos. Seu duvidoso mérito foi ter servido de base para a teologia da Reforma, que ecoa, será inevitável lembrar, com os mesmos temas: pagamento de débito, substituição, a redenção jurídica de uma condenação inalienável.

Lutero começou onde Anselmo havia começado, com a noção de que Deus não é livre para perdoar os pecados por um ato de livre vontade, porque o perdão do pecado não punido seria essencialmente injusto. Porém, ao contrário de Anselmo, que postulava que a redenção visava preservar a dignidade de Deus, Lutero sustentou que o que estava sendo protegido era a ordem moral do universo, que absolutamente requer alguém em quem se descarregar os débitos morais gerados pelo pecado.

Em Lutero a característica incontornável de Deus não é a sua honra, mas a sua justiça. Ao contrário do que havia sugerido Anselmo, a satisfação do pecado não pode ser obtida através da obediência, mas através da punição.

Se Anselmo havia drenado todo mérito da vida de Jesus e concentrado o mérito em sua morte, Lutero deu o passo seguinte nesse projeto de alienação. Para Anselmo, somos resgatados porque Jesus obedeceu quando nós é que deveríamos ter obedecido; para Lutero, somos resgatados porque Jesus foi punido quando nós é que deveríamos ter sido punidos. O mérito da morte de Jesus não foi ativo, como Anselmo havia pensado (obediência), mas meramente passivo (punição). Nas palavras de Jonathan Edwards, o moço:

Ouso dizer ainda que, não apenas a redenção de Cristo não consistiu essencialmente em sua ativa obediência, como sua ativa obediência não teve qualquer papel na redenção.

Se Anselmo havia conferido ao mundo um Deus obcecado com sua própria dignidade, Lutero deu ao mundo um Deus que não apenas imolou o seu Filho Amado, mas derramou sobre ele toda a ira e toda a maldição, porque sua justiça absolutamente requeria que ele descarregasse essas penas sobre alguém. Está dito na Confessão Saxã (1551) de Melâncton: “tamanha é a severidade da sua justiça que não pode haver reconciliação a não ser que a penalidade seja paga. Tamanha é a intensidade da ira de Deus que o Pai eterno não pode ser aplacado a não ser pela morte de seu Filho”.

Em conformidade com isso, Lutero deixou abundantemente claro que o seu Deus era limitado e definido pela justiça e não pelo amor. Seu Deus não tinha obrigação alguma de ser misericordioso, mas absolutamente não tinha como deixar de ser justo.

A Reforma ganhava assim um discurso – em vocabulário contemporâneo, um “diferencial”. Em Lutero a redenção encontrava uma explicação que ganharia tremenda popularidade porque refletia, num momento de absoluta transição, todo o espírito da nascente era Moderna. Ao mesmo tempo em que os homens descobriam e começavam a brincar com as Luzes que conduziriam aos movimentos nacionais e à Revolução Industrial, a Reforma oferecia uma doutrina em que a morte de Jesus não tinha apenas um significado (o que muito evidentemente não lhe bastava), mas uma lógica e um mecanismo: uma utilidade.

De tão imbuídos que estávamos no espírito dos tempos, tornamo-nos incapazes de enxergar que uma doutrina que nega qualquer significado ao trajeto terreno da encarnação, que não vê mérito na obediência do Filho do Homem, que postula um Deus incapaz de perdoar sem o recurso da satisfação, um Deus que é Justiça em tamanho grau que não pode dar-se ao luxo de ser Amor – não tem direito a requerer para si qualquer relação com o Deus de Jesus.

Porque, se em última instância o pecado não pode ser perdoado sem o gosto da satisfação, Lutero revelou um mundo em que a graça não é efetivamente graça e efetivamente não pode ser. Este é um universo em que tudo requer pagamento, em que nada pode ser livremente perdoado e em que toda condenação é inalienável (embora algumas sejam felizmente transferíveis). Na doutrina de Lutero Deus não vence a Lei, mas é vencido por ela mesmo no seu mais glorioso instante. A misericórdia não triunfa sobre o juízo, porque o juízo é de pedra e nem mesmo Deus pode conferir a ele um coração de carne.

O curioso está em que o Novo Testamento não nega que o pecado gera um débito; tanto em Jesus quanto em seus cronistas, a ideia de dívida é uma das figuras mais comumente associadas à noção de transgressão. Porém, ao contrário do que sugerem Anselmo e Lutero, a posição da boa nova não é de que o débito requer inescapavelmente o pagamento por parte do devedor ou de um seu substituto. Ao contrário; os evangelhos insistem que a solução da Magnanimidade para o débito não é a satisfação, mas a clemência, o indulto, o perdão: assim no batismo, assim nas parábolas, assim no “setenta vezes sete”, assim na oração do Pai Nosso, assim na absolvição dos executores diante da cruz. “A miseriórdia triunfa sobre o juízo” quer dizer isso mesmo: o amor triunfa sobre a satisfação.

Cada um a seu modo, Anselmo e Lutero abraçaram a Empresa Teológica, que é o esforço muito humano e contraditório de tentar defender a qualquer custo aquilo que em cada momento da história é tido como a coerência interna da divindade. A teologia nasce do amor à ordem, não do amor a Deus. Anselmo afirma claramente que sua doutrina parte do pressuposto de que o universo não deve permanecer desordenado (inordinatum). Não é de admirar que tanto ele quanto Lutero tenham defendido com unhas e dentes a teoria da satisfação, porque é uma doutrina que impõe alguma lógica sobre o que parece não ter razão alguma. No fim das contas o perdão puro e simples representa a maior e mais espetacular das desordens, e esse escândalo os homens moverão terra e céu para deslocar de seu campo de visão.

O Deus da Bíblia, ao contrário do que sugerem essas distrações, é inteiramente incapaz de encontrar satisfação na agonia, na punição e no castigo, que representam mais adequadamente as preferências de Moloque. Muito claramente, e disso dão testemunho todas as parábolas (que são a expressão mais precisa da realidade da redenção), o que pode satisfazer a divindade é somente a integridade voluntária, somente o retorno filial, somente o abraço incondicionado da demanda pela bondade, pela aceitação e pelo amor. É quase criminoso que tenhamos demorado tanto tempo para condenar a noção de que Deus possa se satisfazer com menos.


Leia também:
O amor é mais severo do que a justiça
O clamor que provoca
A sedução da ortodoxia



NOTAS
1. “O pecado”, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da ética e deslocando-o para o da política, “é uma afronta à sua infinita majestade”.
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