sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Em nome de quê?

Frei Betto *

Adital -

Muitos pais, professores e psicólogos se queixam de que parcela considerável da juventude carece de referências morais. Inúmeros jovens mergulham de cabeça na onda neoliberal de relativização de valores. Tornam público o privado (vide YouTube), são indiferentes à política e à religião, praticam sexo como esporte e, em matéria de valores, preferem os do mercado financeiro.

Sou da geração que fez 20 anos de idade na década de 1960. Geração literalmente inovadora (a Bossa era Nova, o Cinema era Novo etc.), que injetava utopia na veia e se pautava por ideologias altruístas. Queríamos apenas mudar o mundo. Derrubar as ditaduras, a fome e miséria, as desigualdades sociais, o imperialismo e o moralismo.

Em nome do mundo sem opressão, que muitos de nós identificávamos com o socialismo, lutamos pela emancipação da mulher, contra o apartheid e em defesa dos povos indígenas. Sobretudo, trouxemos ao centro da roda a questão ecológica.

Já a geração de nossos pais acreditava na indissolubilidade do casamento, na virgindade pré-conjugal como valor, na religião como inspiradora da conduta moral, na prevalência da produção sobre a especulação. Em nome de Deus, as consciências estavam marcadas pelo estigma do pecado.

Todas as gerações têm aspectos positivos e negativos. Se a minha se nutriu de ideologias libertárias, que nela incutiram espírito de sacrifício e solidariedade, a de meus pais acreditou na perene estabilidade das quatro instituições pilares da modernidade: a religião, a família, a escola e o Estado.

Esta geração da primeira metade do século XX não logrou superar o patriarcalismo, o preconceito a quem não lhe era racial e socialmente semelhante, a fé positivista nos benefícios universais da ciência e da tecnologia.

A geração posterior, a da segunda metade do século passado, promoveu a ruptura entre sentimento e sexualidade; idealizou os modelos soviético e chinês de socialismo, com seus gulags e suas "revoluções culturais"; e hoje troca a militância revolucionária pelo direito de ser burguesa sem culpa.

Ora, a crescente autonomia do indivíduo, apregoada pelo neoliberalismo, faz com que muitos jovens se perguntem: em nome de quê devemos aceitar normas morais além das que decido que me convêm? E as adotam convencidos de que elas possuem prazo de validade tão curto quanto o hambúrguer da esquina.

Se a repressão marcou a geração de meus pais e a revolução (política, sexual, religiosa etc.) a de minha juventude, hoje o estímulo à perversão ameaça os jovens. Respira-se uma cultura de desculpabilização, já que, na travessia do rio, se deu as costas à noção de pecado e ainda não se aportou na interiorização da ética. Parafraseando Dostoiévski, é como se Deus não existisse e, portanto, tudo fosse permitido.

Quem é hoje o enunciador coletivo capaz de ditar, com autoridade, o comportamento moral? A Igreja? A católica certamente não, pois pesquisas comprovam que a maioria de seus fiéis, malgrado proibições oficiais, usa preservativo, não valoriza a virgindade pré-matrimonial e frequenta os sacramentos após contrair nova relação conjugal. As evangélicas ainda insistem no moralismo individual, sem olho crítico para o caráter antiético das estruturas sociais e a natureza desumana do capitalismo.

Onde a voz autorizada? O Estado certamente não é, já que pauta suas decisões de acordo com o jogo do poder e o faturamento eleitoral. Hoje ele condena o desmatamento da Amazônia, os transgênicos, o trabalho escravo, e amanhã aprova seja lá o que for para não perder apoio político.

O enunciador coletivo, o Grande Sujeito, existe: é o Mercado. Ele corrompe crianças, no modo de induzi-las ao consumismo precoce; corrompe jovens, no modo de seduzi-los a priorizar como valores a fama, a fortuna e a estética individual; corrompe famílias através da hipnose televisiva que expõe nos lares o entretenimento pornográfico. E para proteger seus interesses, o Mercado reage violentamente quando se pretende impor-lhe limites. Furioso, grita que é censura, é terrorismo, é estatização, é sabotagem!

As futuras gerações haverão de conhecer a barbárie ou a civilização? A neurose da competitividade ou a ética da solidariedade? A globocolonização ou a globalização do respeito e da promoção dos direitos humanos - a dimensão social do amor?

Pais, professores, psicólogos, e todos que se interessam pela juventude, estão desafiados a dar resposta positiva a tais questões.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Oração


A oração mais forte, mais sincera, mais digna, mais divina, mais humana, mais extraordinária, mais deslumbrante, mais perfeita e mais bela, é o choro de uma pobre criança passando fome.
Nem por isto ela é respondida.

Porque oração não é resposta. Oração é pergunta.
Oração é diálogo.
Oração não é mover o braço de Deus. Ele está constantemente aberto.
Oração é mover o nosso braço.

Ouça o choro desta criança.
A oração dela está procurando o seu braço.
Seja misericordioso.
Seja Amor.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Nas próximas eleições, precisamos da Lei da Abobrinha

Blog do Sakamoto

A Lei da Ficha Limpa se tornou peça-chave nesta eleição. Por isso, tomando carona em seu sucesso, seria ótimo se também tivéssemos uma Lei da Abobrinha. Com ela, aqueles que disseram barbaridades contra os direitos fundamentais durante seu mandato teriam que se justificar diante da Justiça Eleitoral antes de disputarem mais um cargo público. Afinal de contas, não estamos falando de qualquer ofensa, mas sim de soterrar aqueles preceitos que garantem um mínimo de dignidade ao ser humano. Certamente, isso iria controlar a espada afiada que muitos têm entre os dentes e que, vira e mexe, corta e mutila mais do que a violência física. Muitas vezes sob o véu da imunidade que recobre o púlpito nos parlamentos.

OK, OK. Errar é humano. Fazemos besteira a toda a hora e não nos damos conta disso – da mesa de bar às festas de família, elas são perdoadas pelo fato das pessoas à nossa volta se darem conta de que aquilo era, simplesmente, besteira. Mas alguns erros, por sua natureza bizarra, a importância social de seu autor e a certeza de que arrependimento é algo que passou longe de sua cabeça, merecem ser lembrados. Selecionei alguns exemplos do que já foi publicado neste blog e vou trazer mais nos próximos posts. Há uma capivara de casos que foram relatados pelos colegas jornalistas nos últimso quatro anos.

Em 27 de março de 2007, o vereador paulistano (hoje candidato a deputado federal) Agnaldo Timóteo (PR-SP) defendeu a exploração sexual juvenil. Ele havia subido à tribuna para criticar a forma como estava sendo feito o combate ao turismo sexual. Para ele, o visitante que vem ao país atrás de sexo não pode ser considerado criminoso. “Ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz”, declarou. “O cara [turista] não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto.” Para Timóteo, há “demagogia e frescura”: “Meninos de 16 anos votam, transam, constituem família. E meninas não deixam de fazer sexo. Sexo é bom.”

Claro! Cada um no seu lugar. Meninos votam, meninas fazem sexo…

Outro exemplo: Centenas de trabalhadores e patrões lotaram, em agosto do ano passado, a Câmara dos Deputados para acompanhar os acalorados debates sobre o projeto que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com aumento do valor da hora extra e sem redução salarial. Em entrevista à rádio CBN, Nelson Marquezelli (PTB-SP, candidato à reeleição como deputado federal, defendeu que os deputados devem manter a jornada do jeito em que está para evitar que os empregados aproveitem as horas a mais de lazer para encher a cara:

“Se você reduzir a carga horária, o que vai fazer o trabalhador? Eles [os defensores da mudança na lei] dizem: vai para casa para ter lazer. Eu digo: vai para o boteco, beber álcool, vai para o jogo. Não vai para casa. Então, você veja bem, aí é que tá o mal: ele gastar o tempo onde ele quiser, se nós podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira.”
Preste atenção neste trecho “ele gastar o tempo onde ele quiser, se nós podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira”. Ou seja, nós, os iluminados, temos o dever de manter esses indolentes perdidos acorrentados ao trabalho.

Somos um povo politicamente desmemoriado. Prova disso é que todo mundo que rasgou com suas palavras os direitos mais básico do brasileiro, como a dignidade, não serão questionados pelos eleitores por conta disso. Ou melhor, receberão um salvo-conduto para repetir o que disseram a partir do ano que vem sem um pedido de explicações.

Teologia

Leonardo Boff

Teologia como a palavra sugere é o discurso sobre Deus e de todas as coisas vistas à luz de Deus. Constitui uma singularidade de nossa espécie que, num momento da evolução de milhões de anos, tenha surgido a consciência de Deus. Com essa palavra - Deus - se expressa um valor supremo, um sentido derradeiro do universo e da vida e uma Fonte originária de onde provêm todos os seres.

Esse Deus sempre habita o universo e acompanha os seres humanos. Os textos sagradas das religiões e das tradições espirituais testemunham a permanente atuação de Deus no mundo. Ele sempre atua favorecendo a vida, defendendo o fraco, oferecendo perdão ao caido e prometendo a eternidade da vida em comunhão com Ele.

Pertence à fé dos cristãos afirmar que Deus se acercou da existência humana e se fez Ele mesmo Deus em Jesus de Nazaré. Assim a promessa de união benaventurada com Ele se antecipa e será a destinação de todos os seres e da inteira criação.

Entre as muitas funções da teologia, hoje em dia, duas são mais urgentes: como a teologia colabora na libertação dos oprimidos que são nossos cristos crucificados hoje e como a teologia ajuda a preservar a memória de Deus para que não se perca o sentido e a sacralidade da vida humana, ameaçada por uma cultura da superficialidade, do consumo e do entretenimento. Devemos unir sempre fé com justiça donde nasce a perspectiva de libertação e importa manter a chama da lamparina sagrada sempre acesa, donde se alimenta a esperança humana de um futuro bom para a Terra e a humanidade.

Bibliografia mínima de orientação
- Barth, Karl, Introdução à teologia evangélica, Sinodal, São Leopoldo 1977.
- Boff, Clodovis, Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Clodovis, Teoria do método teológico, Petrópolis, Vozes 1998.
- Boff, Leonardo e Clodovis, Como fazer teologia da libertação, Vozes, Petrópolis 1993.
- Boff, Leonardo, Experimentar Deus. A transparência de todas as coisas, Verus, Campinas 2002.
- Gutiérrez, Gustavo, Teologia da libertação. Perspectivas, Vozes, Petrópolis 1985.
- Latourelle, René, Teologia, ciência da salvação, Paulinas, S.Paulo 1971.
- Libânio, João Batista e Murad, Afonso, Introdução à teologia. Perfil, enfoques, tarefas, Loyola, S.Paulo 1996.
- Libanio, João Batista, Eu creio-nós cremos. Tratado da fé, Loyola, São Paulo 2000.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A graça dos vasos comunicantes

Paulo Brabo

Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho lhe dou.


Viver é administrar critérios, e critérios correspondem, grosso modo, às distâncias que estendemos entre nós mesmos e os demais. Num sentido muito profundo, sentimos que somos definidos pelos nossos critérios; efetivamente cremos que somos a soma das distâncias que estabelecemos entre nós e cada outro que povoa o nosso universo.

E não se trata apenas aquilo que sentimos que somos. Os critérios não apenas nos definem e nos protegem; na prática, tudo que acumulamos, realizamos e “construímos” ao longo da vida é fruto direto de nossa habilidade de gerenciar, articular e manipular as distâncias que nos distinguem dos demais.

Desde a infância somos ensinados não apenas a celebrar essas distâncias, mas a usá-las continuamente em nosso favor. Os mais jovens são ensinados a usar sua juventude contra os mais velhos, e os velhos sua experiência contra os mais novos; os talentosos usam seus talentos de modo a invalidar os medíocres, e os medíocres imitam com sucesso o talento quando percebem o quanto é fácil vender a mediocridade.

Os livros que prometem “Como ficar rico em pouco tempo” limitam-se a ensinar descaradamente o que todos fazemos em oculto: comece com uma pequena distância, um pequeno diferencial que o distinga da massa, e use/manipule os critérios dos outros de modo a transformá-la numa grande distância. Enriquecer e fazer fama não são outra coisa que consolidar a distância entre nós mesmos e os outros, e o mundo não faz outra coisa senão dizer que isso é uma coisa boa e desejável.

O mundo dos homens está finamente equilibrado sobre essas colunas de sensatez, mas de vez em quando caminham entre nossas pernas gigantes incômodos que invalidam por completo nossos critérios, e fazem isso basicamente ignorando-os. São gente minúscula e, segundo os critérios deste mundo, desprezível – mas em sua gentil insubmissão são inteiramente capaz de derrubar-nos dos terraços que construímos para nossas pretensões.

Sócrates foi um desses e Gandhi foi um desses, mas de modo geral gigantes desse porte não deixam herança, e essa sua infertilidade representa a tranquilidade do mundo e nossa paz. Nesse sentido, a singularidade do Filho do Homem e sua espada residem em ter colocado em movimento um reino vivo e sem fronteiras, habitado por gente comum, definido precisamente pela disciplina da inclusão. O avanço sem impedimentos desse movimento representaria a ruína do mundo como o conhecemos, porque a disciplina da inclusão está fundamentada no completo abandono daquilo que o mundo toma por absolutamente fundamental: nossos critérios, e com eles as distâncias reais e imaginárias que representam.

Pedro e João, incrivelmente, são agora portadores dessa contaminação e representantes dessa ameaça. Sua missão não é, como a de todos os homens, a de acentuar as distâncias e diferenças entre si mesmos e os outros, mas precisamente o oposto.

Os colonos do reino são eliminadores de distâncias, e isso retêm em comum com o seu Desbravador. É por isso que sua primeira medida prática, como vimos, foi diluir num esforço distributivo radical as falsas distinções projetadas pela riqueza. Agora, muito claramente o dinheiro não tem como se interpor no caminho da sua missão. “Não tenho prata nem ouro”, eles professam – e é absolutamente afortunado que seja assim, porque o dinheiro é a coisa mais barata que se pode dar a qualquer um.

Se fosse diferente – se Pedro e João de fato tivessem prata e ouro para consolar a sua consciência e a necessidade do homem na porta do templo, nenhuma distância estaria sendo eliminada. Ao contrário, o espaço imaginário que os distinguia/separava daquele homem só teria sido acentuado, como acontece conosco quando pensamos que há verdadeira generosidade em estender uma moeda a quem quer que seja.

Os habitantes do reino, no entanto, estão inteiramente preparados a ter nada a perder, de modo a terem constantemente tudo a oferecer. Quando estendem a mão ao homem necessitado, Pedro e João estão sem exagero dando tudo que tem e que são. De fato, “o que tenho lhe dou”: completa aceitação, completa fraternidade, completo equilíbrio de recursos e de forças. A comunhão de que desfrutam entre si, dois homens estendem sem reservas a um terceiro. Tomam-lhe pela mão e com isso lhe dizem: “você não é um homem que vive de esmolas; a distância que os outros estabeleceram para proteger-se da sua condição é uma farsa. Você é um ser humano; você é um de nós”.

E ficará provado que, uma vez que deixamos de fazer a distinção, ela deixa simplesmente de existir. A graça da inclusão se comunica sem critério de um vaso a outro, e onde todos estão cheios não há distância a ser coberta.

Este artigo faz parte de uma série de textos escritos por Paulo Brabo no blog Bacia das Almas. Aconselho a ler ela completa no blog dele - Bacia das Almas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sou aprendiz da vida e da morte

Hoje, estive na enfermaria do HU, durante uma aula do curso de Medicina, e pude presenciar pela primeira vez os últimos suspiros de um homem.

Sou aprendiz da vida e da morte

Lembro dos seus olhos no dia anterior
Pareciam pedir-me respostas para sua dor
Queria que ele entende-se que eu sou apenas um aprendiz
Não, não sou aprendiz de medicina
Sou aprendiz da vida e da morte

Vi ele partir
Ele partiu e levou um pouco de mim
Foi o primeiro adeus que eu vi
e que tenho certeza que não volta

Senti-me fraco, vendo heróis de branco
esperando seu último suspiro
Indagava dentro de mim: Porque estão parados ali?
Vamos tentar mantê-lo vivo!
Estes homens de branco não podem fazer mais nada?!

Não era isto...

Olhei para os rostos destes homens e seu semblante era de compaixão
Mas eles sabiam que aquele momento não era mais deles
Era agora o momento, apenas daquele homem
Era e seu próprio adeus

A Morte veio buscá-lo
Inclemente, ela não quiz saber se sua história de vida, pagaria mais alguns dias aqui.

O vento que ele soprou durante a vida
Continua soprando no rosto de pessoas que passaram por ele
De seus familiares, de seus amigos, de seus desconhecidos
Cada um leva dele brisas, sopros, ventos e furacões

Eu sou um destes desconhecidos
No meu rosto, levo apenas os seus últimos suspiros
Foi um privilégio único
Quantos, eu não sei, gostariam de ter visto aqueles últimos suspiros?

Eu vi.

Foi então que ele suspirou, suspirou, suspirou.
Silenciou-se o vento.

Suênio Alves

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O mistério de nossa humanidade


Ricardo Gondim

Como idealizei as pessoas que participaram de minha vida! Quando eu era criança, papai parecia inabalável. Eu o via grande; suas mãos eram fortes, seus passos, decididos.

Mais tarde, elegi ícones nos esportes. Depois, na religião. Mas um dia meu velho estava bastante doente, alquebrado pela Síndrome de Alzheimer, e eu precisei descê-lo dentro de uma lona de quatro alças pelas escadas do seu apartamento. Do Eródoto José Rodrigues sobrava muito pouco. Enquanto descíamos, vi seu corpo balançando, decrépito e magro. A rede empunhada por quatro homens o jogava de um lado para outro; a valsa era macabra. Lembrei de quando segurava sua mão e me sentia amparado. A decadência física de meu pai escancarava quão efêmeros nós somos. Daquele dia em diante passei a repetir: ninguém é inabalável em sua subjetividade emocional; as mais sólidas convicções intelectuais sofrem abalos; nenhuma pretensão moral é de aço inoxidável.

Não existem monstros ou santos. Todos somos flamas oscilantes. Carregamos sombras na alma. Não passamos da combinação ingênua de noviços, ineptos em abraçar o bem, e de bandoleiros, hesitantes na prática do mal.

Viver consiste no desafio de alargar o coração e deixar que réstias de luz iluminem as nossas sombras. Não permitamos que trevas se alastrem dentro da gente. Demônios tenebrosos se multiplicam em ambientes lúgubres. No alto da colina da ilha chamada vida, sejamos lanterneiros, sempre a projetar nosso farol na direção de algum viajante perdido. Não esqueçamos: só se credencia a morar no céu quem, na terra, não abandonou o mandato de ser luz.

Fujamos do ar viciado do negativismo. Aprendamos a talhar nossa história sem nos deixar destruir pela perversidade do mundo. Perseveremos em fazer o bem. Os cínicos desistem da lida; os pessimistas ajudam a empurrar a história para o desespero; e os neofundamentalistas tentam fazer nascer, a fórcipes, um mundo desde as suas verdades. Forjemos a nossa humanidade com a constatação de que somos limitados. Esvaziemos a arrogância de ter toda a verdade. A verdade reside na democrática convivência dos povos.

Reconheçamos que cada indivíduo é um universo; suas relações sociais são infinitas. Não tentemos imobilizar a dinâmica da cultura ou da ética. Bem e mal se transformam velozmente. A tarefa de joeirar virtude e vício é complexa. Não há códigos suficientes que abarquem todas as nuanças da vida. Crescemos quando nos abrimos para uma coexistência inclusiva, sem preconceitos e sem ódios. Viver é amadurecer a arte do diálogo. Ao caminharmos na senda do amor, reconheceremos Deus no rosto do próximo.

Os que almejam humanidade fazem escolhas responsáveis; só eles discernem que o futuro jaz, latente, nos grãos plantados hoje. Só germinarão fraternidade e paz quando justiça for semeada. As máquinas de guerra devem ser desmontadas para que, logo, o arado substitua a espada e o cordeiro não tema pastar ao lado do leão.

Humanidade é obra que só pertence a nós, os humanos. Então, que se abandone a ideia de que o bem ressurgirá da ganância, do consumismo, do individualismo e da soberba.

Ergamos a nossa humanidade sempre cientes de nossa pequenez. Sem a soberba dos falsos campeões, celebremos cada encontro. Valorizemos quem amamos. Acolhamos os discriminados, os deficientes, os esquecidos. Contemplemos a história como artesãos que limam o ouro. Defendamos o direito, demos as mãos ao pobre e aguardemos: breve brilhará o sol da justiça, trazendo cura sob suas asas.

Soli Deo Gloria.

domingo, 29 de agosto de 2010

Planeta Faminto: O que o mundo come

Fonte: Blog do Sakamoto

Postei aqui tempos atrás um trabalho do fotógrafo Peter Menzel e do jornalista Faith D’Alusio sobre as diferenças de dietas em diferentes lugares do mundo. Em Hungry Planet: What the World Eats (Planeta Faminto: O que o Mundo Come, Editora Ten Speed Press) mostram como se alimentam 30 famílias em 24 diferentes países. Da fome à obesidade, as fotos são um bom ponto de partida para a discussão sobre desigualdade social. No que pese os enormes avanços no combate à fome que ocorreram nos últimos anos, se a comparação fosse feita dentro das fronteiras do Brasil, a disparidade ainda seria grande, pois teimamos em encontrar quem não come como deveria por aqui. É claro, o que significa um gosto amargo a mais por estamos na mesma sociedade.

(Lembrando que US$ 1 = R$ 1,75.)

Clique nas imagem para ampliar....

Alemanha: Família Melander
Gasto semanal com alimentação: US$ 500,07

Estados Unidos: Família Revis
Gasto semanal com alimentação: US$ 341,98

Itália: Família Manzo
Gasto semanal com alimentação: US$ 260,11

México: Família Casales
Gasto semanal com alimentação: US$ 189,09

Polônia: Família Sobczynscy
Gasto semanal com alimentação: US$ 151,27

Egito: Família Ahmed
Gasto semanal com alimentação: US$ 68,53

Equador: Família Ayme
Gasto semanal com alimentação: US$ 31,55

Butão: Família Namgay
Gasto semanal com alimentação: US$ 5,03

Chade: Família Aboubakar
Gasto semanal com alimentação: US$ 1,23

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