quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Herói reencontra crianças que salvou do nazismo

Durante ocupação alemã, Nicholas Winton garantiu o futuro de 669 vítimas. Aos 98 anos, ele pede que as pessoas se preocupem em "fazer o bem"






Nicholas Winton jamais teve uma surpresa tão grande quanto a que estaria por vir. Durante o terror vivido na Alemanha nazista, ele salvou a vida de 669 crianças. Mas perdeu totalmente o contato com elas.

As crianças viraram adultos. O dia do reencontro chegou. A história de Winton é feita de lances incríveis. Discreto, jamais quis ser visto como herói: preferiu guardar em segredo o bem que fez. Não disse nem à mulher que tinha salvado a vida de tantas crianças.

Ao arrumar o sótão de casa, a esposa descobriu, por acaso, um velho álbum, coberto de poeira. Lá estavam fotos de crianças, cartas e telegramas e uma lista com nomes e datas.

Quando procurou saber, a mulher de Winton descobriu que aquelas eram crianças que tinham sido salvas por ele.

O que teria acontecido com essas crianças?

O bem que Winton fez rendeu frutos. O futuro transformou aquelas crianças em escritoras, cineastas, engenheiros, guias turísticos, jornalistas, biólogos, políticos, enfermeiros, editores, professores... A lista é enorme.

 Férias na Thecoslováquia
Quanto tinha apenas 29 anos, Winton viajou para a Thecoslováquia em companhia de um amigo nas férias de fim de ano. Lá, ficou impressionado com o clima de medo: a Thecoslováquia já estava sob o domínio da Alemanha Nazista.

Winton teve uma idéia: tentar mandar para fora da Tchecoslováquia crianças de famílias perseguidas. Começou a escrever por conta própria para vários países pedindo ajuda. Organizou uma primeira lista de nomes.

Somente a Inglaterra e a Suécia aceitaram receber aquelas crianças. Winton organizou a viagem. Era uma decisão difícil: para escapar do horror nazista, as crianças teriam de ser mandadas para longe dos pais.

O embarque das crianças nos trens que as levariam para longe teve momentos de emoção. Uma mãe chegou a subir no trem para pegar a filha de volta. Mas mudou novamente de idéia e terminou deixando que ela embarcasse.

“Nunca me esqueci da angústia que pude ver no rosto dos meus pais”, diz uma das mulheres que foram resgatadas. 

 Despedida
As crianças que partiram para um lugar seguro, a Inglaterra, não sabiam, mas jamais veriam os pais de novo. A maioria dos pais morreria nos campos de concentração nazistas.

“Nós ouvíamos falar sobre a possibilidade de que nossos pais tivessem sido enviados para os campos, mas alimentávamos a ilusão de que talvez eles tivessem escapado”, diz uma sobrevivente.

“Eu entendi que não veria os meus pais de novo, é difícil falar, desculpe. Sempre acreditei que a família é o que existe de mais importante”, confessa um homem, que um dia foi uma das crianças salvas por Winton.

“Guardo a carta que meus pais me mandaram dias antes de serem enviados para um campo”, diz.

Se é verdade que quem salva uma vida salva a humanidade, o que dizer de quem salva 669 vidas?

Quando desembarcaram na Inglaterra, lá estava Nicholas Winton esperando por elas. Uma imagem rara registra o herói na plataforma de desembarque com uma das crianças.

Winton só lamenta que o último trem, que traria 250 crianças, não tenha conseguido sair da Tchecosváquia: o início da guerra, no dia 1º de setembro de 1939, tornou a viagem impossível.

Nenhuma das crianças que não conseguiram embarcar sobreviveu. Também foram mandadas para os campos de extermínio.

Winton se alistou na força aérea. As crianças que tiveram tempo de embarcar para a Inglaterra na caravana organizada por Winton foram encaminhadas para casas de família e abrigos. 

 Retribuição
Winton nunca falou sobre o que tinha feito. Espalhadas por vários países, as crianças cresceram sem ter notícias do bem feitor. As crianças se tornaram adultos generosos.

“Para expressar a gratidão pelo que aconteceu comigo, tento ajudar os outros”, diz outro sobrevivente.

“Adotei três crianças”, completa um homem.

“Hoje, trabalho dois dias por semana como voluntário num hospital infantil”, revela um engenheiro.

“Uma das melhores características do ser humano é a decência. Nicholas é uma dos seres humanos mais decentes que conheci”, diz o jornalista salvo por Winton.

Desde que a história de Winton se tornou pública, ele começou a receber todo tipo de homenagens. A rainha da Inglaterra chamou-o ao palácio para entregar uma condecoração. O governo da Tchecoslováquia fez uma grande homenagem. O presidente dos Estados Unidos mandou uma carta de elogios e agradecimentos.

Mas o agradecimento mais comovente veio daqueles que Winton um dia salvou da morte certa. Um programa de TV inglês encheu o auditório de sobreviventes que foram salvos por ele quando eram crianças, mas nunca o tinham encontrado.

Primeiro, a apresentadora do programa avisou a Winton que a mulher sentada ao lado tinha sido uma das crianças que ele salvou. A apresentadora pede: “Quem, na platéia, teve a vida salva por Nicholas Winton, fique de pé, por favor...”

O agradecimento vem em forma de aplausos demorados e lágrimas. Tanto tempo depois, só havia uma palavra a dizer a ele: “obrigado”. 

 Fazer o bem
O que é que o herói discreto tem a dizer sobre o que fez?

Aos 98 anos de idade, Nicholas Winton gosta mesmo é de ficar em casa, longe da agitação das grandes cidades, no interior da Inglaterra. Tudo o que quer é cuidar do jardim. Usa o tempo livre para ajudar um asilo.

Por que o senhor guardou segredo?
Nicholas Winton: Não é que eu tenha ficado em silêncio. O que aconteceu é que eu não tinha o que dizer sobre o que fiz.

O senhor se considera um herói?
Winton: Não me vejo como um herói. Para ser herói, alguém precisa fazer algo de perigoso. Não fiz. O que fiz foi algo que os outros achavam impossível. Mas eu tinha de tentar, para ver se era possível ou não.

Mas fazer algo que todo mundo achava impossível não é um gesto heróico?
Winton: Não é um ato heróico. Meu lema é: se algo não é obviamente impossível, então deve haver uma maneira de fazer.

Qual foi a lição que o senhor tirou de tudo o que viveu?
Winton: Aprendi que nossa vida não é o que a gente espera. Todas as coisas importantes acontecem por acaso. Aconteceu de eu estar na Tchecoslováquia na hora certa. Tive a idéia certa de resgatar as crianças quando todo mundo achava que nem valeria a pena tentar.

Com que freqüência o senhor pensa nas crianças que não conseguiram escapar?
Winton: Sempre penso nelas, porque poucas horas fizeram a diferença entre iniciar uma vida nova ou serem mortas. Não se ouviu falar daquelas crianças.

Se tivesse a chance de se dirigir agora aos que o senhor salvou, o que é que o senhor diria? O senhor acha que fez o mundo um lugar melhor?
Winton:
 É preciso mais do que um Nicholas Winton para fazer do mundo um lugar melhor. Mas tudo é uma questão é uma visão. Quase todas as crianças que salvei estão envolvidas hoje em trabalhos de caridade. Estão fazendo o bem. O importante não é chegar em casa de noite e dizer, passivamente: “Hoje, eu não fiz nada de mal”. O importante é chegar em casa e dizer: “Eu hoje fiz o bem. 

Atualmente circula na República Tcheca um abaixo-assinado pedindo que Nicholas Winton receba o prêmio Nobel da Paz.  


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Saint Denis, Haiti: Emergência de Cólera

O surto de cólera que assola o Haiti teve início em Saint Denis, pequena cidade do centro do Haiti. De lá, a epidemia se espalhou pelo país. Em 17 de novembro, autoridades de saúde já contavam mais de mil mortos. Médicos Sem Fronteiras trabalha para responder à emergência, com uma equipe de mais de mil pessoas, entre profissionais internacionais e haitianos.


Na manhã de domingo, 7 de novembro, um pai trouxe seus dois filhos doentes para o hospital local de Saint Denis, uma cidade pequena no centro do Haiti. Seu filho de três anos estava especialmente doente e sofrendo com sintomas de cólera.


MSF preparou uma área o tratamento de cólera, mas o local ainda não estava liberado para atendimento. O pai e seus filhos esperaram durante horas para que a área fosse aberta. Outras pessoas com sintomas de cólera também esperavam no local.


A equipe de MSF também ficou trancada do lado de fora do portão. MSF conseguiu transportar as crianças e seu pai, junto com outras cinco pessoas com suspeita de cólera para outro hospital na região de Petit Rivière, onde MSF está atendendo.


Saint Denis é uma área rural na região do rio Artibonite. A epidemia de cólera que o Haiti está enfrentando atualmente teve início nessa região. MSF começou a tratar pacientes lá assim que os primeiros casos foram confirmados, em 19 de outubro.


A cólera pode matar se não for tratada rapidamente. Os pacientes podem ficar com desidratação aguda, consequência do vômito e diarreia incontroláveis que a doença causa. Mas o tratamento – hidratação oral ou intravenosa, quando necessário – normalmente cura o doente em dois dias


Depois que a ambulância de Saint Denis chegou à Petite Rivière, os dois irmãos que haviam sido levados pelo pai receberam tratamento para a cólera e se recuperaram.


Médicos Sem Fronteiras continua a trabalhar em sua capacidade máxima para responder ao cólera. Mas MSF alerta que a epidemia não está perto de acabar e pede que outras organizaçõs humanitária atuem contra o surto.

Sudão - Confrontos forçam o deslocamento de milhares de pessoas em Darfur

Equipes de Médicos Sem Fronteiras prestam assistência médica imediata
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© Kate Geraghty

8 de fevereiro de 2011 -  Novos conflitos entre governo e grupos de oposição na região norte de Darfur (Sudão) forçaram, ao longo dos dois últimos meses, milhares de famílias a abandonar suas cidades, de acordo com a organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Equipes de MSF estão agora prestando assistência médica a essas vítimas dos recentes deslocamentos, que estão vivendo em condições precárias em diversos campos em Shangil Tobaya, Dar Alsalam e Tabit.
"As pessoas fugiram de repente e chegaram aqui apenas com as roupas do corpo. Inicialmente elas montaram abrigos provisórios utilizando suas roupas e vegetação, para se proteger do frio à noite. MSF está fornecendo tendas plásticas, cobertores, colchonetes, sabonetes e galões de água para garantir condições mínimas a estas pessoas", disse Cristina Falconi, chefe da missão no Sudão. "Agora que a atenção está voltada para o referendo no sul do Sudão, não podemos esquecer as necessidades médicas urgentes em Darfur". 
Há dez dias, após um confronto na região de Tabit, MSF distribuiu itens domésticos básicos para mais de 500 pessoas que procuraram refúgio em localidades próximas à cidade de Jerno. Este foi o último de uma série de embates que tiveram início em meados de dezembro, com um confronto pesado in Shangil Tobaya, durante o qual o hospital do Ministério da Saúde, gerenciado por MSF, esteve no meio do fogo cruzado, obrigando pacientes e funcionários a abandonarem o hospital. Como consequência deste incidente, cerca de sete mil novos refugiados se reuniram em dois campos diferentes, próximo à cidade de Shangil Tobaya.
Alguns dias após esse confronto, MSF conseguiu realizar atendimento médico emergencial nessa área, cuidando de necessidades imediatas das pessoas deslocadas. Uma nova clínica foi montada dentro de um dos campos, e está atualmente atendendo 100 pacientes por dia. MSF também distribuiu alimentos nutritivos e ricos em vitaminas para aproximadamente 4 mil crianças com menos de cinco anos. Outras necessidades dos refugiados estão sendo supridas por organizações que também atuam na área.
MSF também está apoiando uma campanha de vacinação, patrocinada pela UNICEF e pelo Ministério da Saúde, que alcança mais de 3 mil crianças e 200 mulheres grávidas na cidade de Shangil Tobaya e arredores.
Em outras localidades na região sul de Darfur, os conflitos também forçaram o deslocamento de milhares de famílias, no começo de dezembro. Atualmente, uma equipe de MSF está terminando uma averiguação para determinar as necessidades mais urgentes de milhares de famílias na região de Shaeria. MSF também está organizando um grande programa de nutrição, com a colaboração do Ministério da Saúde, para atender os casos mais graves de desnutrição de pessoas que sofrem com a violência contínua e com o baixo acesso a atendimentos médicos.
MSF continua a prestar assistência médica primária e secundária em Darfur, inclusive atendimento pediátrico e de ginecologia obstetrícia, assim como acompanhamento psicológico, em Kaguro, Dar Zaghawa, Tawila and Shangil Tobaya.
MSF atua no Sudão desde 1979, oferecendo cuidados médicos gratuitos a vítimas de conflitos armados, enchentes, secas com pouco ou nenhum acesso a tratamentos de saúde. Também trata surtos de doenças e casos emergenciais de desnutrição.
Hoje, MSF continua a prestar assistência médica humanitária por meio de uma série de projetos em diferentes áreas do Sudão, que incluem: Warrap, Jonglei, Alto Nilo; Unidade; Bahr-el-Ghazal do Norte e Bahr-el-Ghazal Ocidental, Equatoria central e ocidental, a área transitória de Abyei, Mar Vermelho, Al-Gedaref e nas regiões norte e sul de Darfur.
MSF é uma organização neutra e autônoma, que atende a todas as pessoas que necessitam de cuidados médicos, independentemente de afiliação racial, política, tribal ou religiosa.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fórum Mundial de Teologia e os seus desafios

Jung Mo Sung
Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo
Adital
No dia 5 de fevereiro começa em Dakar o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, paralelamente ao Fórum Social Mundial. É um bom momento para repensarmos a caminha das mais diversas teologias na perspectiva da libertação ou críticas.

Eu quero enumerar alguns desafios.


A teologia da libertação latinoamericana, no início da década de 1970, assumiu a tarefa de pensar teologicamente as lutas dos pobres e dos seus aliados contra a pobreza, desigualdade e injustiças sociais a partir da teoria da dependência. Esta teoria foi um marco no pensamento sócio-econômico não só na América Latina, mas também em outras partes. Na década de 1980, a realidade econômica mundial mudou e o neoliberalismo passou a ser a ideologia dominante e a ditar as políticas e relações econômicas. Foi uma novidade que muitos da TL não compreenderam muito bem no seu início, tanto que o discurso sobre questões econômicas e sociais da TL mudou muito pouco naquele tempo. Depois, os discursos se concentraram na crítica ao neoliberalismo, mas essa mudança gerou poucas formas novas de crítica teológica, que fossem mais adequadas para o novo tempo. No início do século XXI estamos tendo outras novidades na economia globalizada.


Além do surgimento da China como um dos grandes "atores” na economia mundial e a explosão das "redes sociais” – e o que isso significa em termos econômicos e sociais–, uma das questões fundamentais do nosso tempo é que o Império global de hoje domina por sedução. Os impérios anteriores (até o Império Britânico) sempre usaram força bruta para conquistar e manter a dominação e exploração. Hoje, os povos e países que estão foram do "circuito do Império” desejam entrar e participar do seu modo de vida. É claro que o Império ainda tem a força militar para reprimir os seus inimigos, mas a sua expansão e manutenção se dão ordinariamente por sedução.


A crítica a um sistema tão sedutor assim exige um tipo diferente de crítica teológica. As críticas contra a pobreza não significa mais necessariamente crítica ao sistema, pois pode ser uma demanda para poder entrar nela e viver o seu "modo de vida”. Eu penso que o conceito de "fetiche” (Marx) e de idolatria do Mercado (Hinkelammert e Assmann) podem ser instrumentos muito importantes (e até fundamentais) nesta teológica crítica, de libertação, do nosso tempo.


Um segundo ponto. A TL latinoamericana se constitui tendo como o tema central o pobre, isto é, a questão sócio-econômica. A noção de Deus da Vida, que luta contra as forças de morte e de opressão, gerou também outras teologias críticas em torno de questões como o do gênero (teologia feminista e suas variações), de etnia (a teologia negra, indígena...), o da sexualidade e também da ecologia. O desafio que temos hoje é como articular essas lutas para que cada uma não se perca em sua especificidade ou na "luta interna” para ver qual é a luta mais importante.


Nesta articulação, precisamos perceber que a teologia da libertação privilegiou a relação produtiva, isto é, as relações sociais mediadas pela produção de bens materiais a partir da natureza. Enquanto que outras lutas como a do gênero, etnia e sexualidade tem o foco central nas relações intersubjetivas. As mulheres, negros, indígenas, homossexuais etc desejam ser reconhecidos/as pelos outros e pela sociedade como seres de plena dignidade humana.


O desafio é como elaborar ou assumir uma teoria antropo-social capaz de explicar de uma forma articulada as relações de expropriação, exploração e dominação; isto é, relações produtivas e relações intersubjetivas, e em diálogo com essa teoria elaborar um discurso teológico crítico. (a continuar)

[Autor, com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”].

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Porque sou voluntário?

Na mesma moeda

Paulo Brabo - Bacia das Almas

Alguém, por favor, tire o Lula de lá. Minha caixa de entrada já não comporta mais os e-mails piedosos que enviam-me incessantemente meus amigos cristãos, denunciando as impenitências de Sua Excelência, especialmente a sua ligação execrável e declarada com o (zulivre!) COMUNISMO.
Por motivos que terei de abordar em outra ocasião, os cristãos evangélicos fogem do COMUNISMO mais do que o diabo da cruz; dito de outra forma, fogem mais do COMUNISMO do que do diabo, e tendem também a substituir um pelo outro.
O capitalismo de certa forma sempre existiu, sendo devidamente denunciado por todos os profetas, até Jesus (na linguagem dele “vem fácil vai fácil” escreve-se “de graça recebestes, de graça dai”) e depois. O mérito de Marx está em que ele expôs claramente o mecanismoeconômico da exploração: demonstrou que no capitalismo todos trabalham um preciso tanto a mais do que deveriam se trabalhassem apenas para merecer o que ganham. Essa “contribuição extra”, essa mais-valia, serve para sustentar o sujeito posicionado acima de cada um na Grande Pirâmide. Uma vez que se reflete sobre essa revelação, passa a parecer injusto que você gaste o seu suor para alimentar a ociosidade e os luxos de quem não se dispõe a ralar como você – ajudando a aumentar, de lambuja, a distância irremediável entre trabalho e capital. O COMUNISMO nada mais é do que a inevitável solução que Marx propôs para corrigir o que ele via como essa injustiça inerente ao capitalismo: o sonho de uma sociedade em que todos trabalhassem apenas o necessário para se garantir que cada um teria o que todos precisam. Nenhuma competição. Nenhuma ganância. Nenhuma exploração. Nenhuma mesquinharia.
Trata-se, como se vê, de projeto extremamente louvável.
Como se sabe, as tentativas de implantá-lo foram catastróficas.
TODAS AS TENTATIVAS DE IMPLANTAR O COMUNISMO FORAM DESASTROSAS. PELO MESMO CRITÉRIO, O CRISTIANISMO DEVERIA SER GRANDEMENTE LAMENTADO.
Creio que qualquer um poderia acenar com esse raciocínio para condenar o COMUNISMO, menos os cristãos.
No que me diz respeito poucas idéias humanas são mais inatacavelmente bem-intencionadas e virtuosas do que a doutrina do COMUNISMO; porém, tendo em vista o precedente histórico, tendo em vista todo o mal realizado na tentativa de implantar a idéia,prefiro não permitir que se tente colocá-lo em prática novamente.
Meu problema é que preciso manter a sobriedade e admitir que o mesmo argumento pode ser usado contra o cristianismo. Para mim nada há de mais esplendidamente belo e virtuoso e transformador do que a mensagem do cristianismo, porém alguém pode sempre argumentar que, na prática, a esmagadora maioria dos esforços em implantá-lo produziram terríveis catástrofes sociais, injustiça e exclusão e preconceito e guerra e derramamento de sangue. Pergunte a qualquer cruzado – até Bush serve.
Tendemos a perdoar as nossas mancadas históricas, mas simplesmente não podemos permitir que doutrinas competidoras façam o mesmo: perdoa as nossas dívidas, mas não as dos nossos devedores. Tendemos também a esquecer que o cristianismo é experiência que vem estado em processo de implantação há dois milênios, e o comunismo há pouco mais de cem anos. Há por certo pelo menos um pagão morto em nome do cristianismo para cada inocente torturado em nome do comunismo.
O cristão pode sempre contra-atacar dizendo que nossas dívidas históricas apenas demonstram que muitos dos que afirmaram estar implantando o cristianismo não estavam imbuídos do verdadeiro espírito do cristianismo. Se fosse comunista eu diria imediatamente: está vendo? Os comunistas que você condena não implantaram overdadeiro comunismo – e assim por diante.
O COMUNISMO NUNCA FOI IMPLANTADO CONFORME IDEALIZADO ORIGINALMENTE. O MESMO PODE PROVAVELMENTE SER DITO DO CRISTIANISMO.
Se formos manter a sobriedade, teremos que admitir que o COMUNISMO nunca foi implantado como idealizado originalmente. Nosso problema é que o mesmo pode provavelmente ser dito do cristianismo. Trata-se evidentemente de um caso em que o desastre da implantação não vem da imperfeição da doutrina, mas da imperfeição dos implantadores.

Retórica à parte, nem todas as experiências de implantação do comunismo terminaram em catástrofe; em parte porque há diversas estirpes de comunismo (como de cristianismo), algumas muito moderadas e sensatas (ao contrário do cristianismo, cujas boas estirpes são as que não abrem mão da insensatez da sua mensagem).
Das experiências de utopia socialista-cristã a que me é definitivamente mais cara é a da Colônia Palma, no interior de São Paulo, perto de Tupã – onde, inspirados pelo mesmo avivamento espiritual que os trouxe no seu sopro para o Brasil, famílias inteiras de imigrantes da Letônia viveram e trabalharam numa fazenda na qual tinham “tudo em comum” – com exceção de seus cônjuges. No que me diz respeito o demérito da Colônia Palma é ter definhado e desaparecido antes que eu pudesse experimentá-la.
Quando visitei a Colônia Palma pela primeira vez, em algum momento da década de 1970, restavam ali algumas dezenas de membros originais, morando em impecáveis galpões comunais de madeira, diante de uma estrada ladeada por palmeiras imperiais e sob a vigilância das cascatas do rio que passava imediatamente atrás. Apenas não havia jovens, que haviam escapado um a um para estudar na cidade grande e só voltaram muito eventualmente para visitar parentes e amigos.
Garantem-me os dissidentes que, pelo critério das nossas sensibilidades contemporâneas, não era nada fácil submeter-se ao rigoroso comunalismo da Palma. Mas seria injusto dizer que a Colônia terminou em catástrofe; apenas desabou debaixo do peso das suas próprias exigências.
Desabou debaixo do peso das suas próprias exigências: é o destino que muitos prevêm ou diagnosticam para o cristianismo.
Embora muitos pensadores comunistas tenham sido e permaneçam cristãos (e embora poucas coisas me atraiam mais do que a estonteante possibilidade da vida em comum), não tenho qualquer simpatia verdadeira pelo comunismo. Pessoalmente inclino-me na direção dos anarquistas cristãos como Tolkien, Jacques Ellul e o pessoal dos Jesus Radicals, cujas idéias não descansam. Basicamente, o poder corrompe e se há governo sou contra.
Perfeitamente sensato era Jesus, que nutria um saudável desprezo pelas instituições políticas e não gastou uma gota de saliva condenando a estrutura falida, opressora, corrupta e tremendamente injusta do governo romano. O que deveríamos aprender com o exemplo dele é não esperar nada de bom de governo algum; que nenhum governo merece mesmo que se fale mal dele; que se o reino de Deus está próximo, somos nós que devemos dar evidência da proximidade dele.
De forma muito teologicamente correta, o que Jesus fazia é justiça com as próprias mãos.
Todo seguidor dele deveria ir e fazer o mesmo.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Trocando a insanidade econômica pela economia solidária

Marcus Eduardo de Oliveira
Adital


É fato inconteste que por meio do comportamento econômico é possível compreender a atual situação do mundo, em suas dimensões econômicas e sociais. E, ao compreender essa atual situação que se desenrola nesse século XXI, com 1 bilhão de pessoas passando fome, segundo dados divulgados pela ONU (Organização das Nações Unidas), torna-se inadmissível aceitar a existência de um modelo econômico que produz riqueza gerando pobreza; que eleva a produção agredindo o meio-ambiente; que fabrica bens à base da subordinação de muitos mediante a precarização cada vez mais intensa das relações de trabalho; que faz uso de trabalho escravo e infantil; que desumaniza as relações econômicas em troca do lucro rápido.

Isso é simplesmente uma insanidade econômica que produz para o gosto de alguns apenas extravagâncias e, em nada, absolutamente em nada, contribui para a efetivação do bem-estar coletivo, distanciando-se, pois, do objetivo principal dos modelos econômicos, qual seja: consolidar o desenvolvimento econômico.

Exemplos dessa insanidade econômica não faltam e ganham, a cada dia, maior visibilidade. Enquanto de um lado poucos ganham muito, do outro, muitos sofrem e nada ganham. Essa insanidade econômica parece não ter limites e se reproduz, por consequência, cada vez mais usando trabalho infantil e escravo. Os exemplos disso saltam aos olhos de todos que querem ver. Lojas de tapetes na Índia, no Nepal e no Paquistão usam quase um milhão de crianças na linha de produção. Vários são os casos em que muitas dessas crianças atingiram a cegueira devido ao longo tempo em que passaram costurando.

As casas de prostituição tailandesas, indianas e birmanesas usam meninas de 10 e 11 anos de idade, numa submissão sexual sem precedentes. De igual forma, em várias cidades da região Nordeste do Brasil, são "vendidos" pela rede internet a estrangeiros em visitas às cidades "programas sexuais" com adolescentes menores de 15 anos de idade.

No Oriente Médio, nas famosas corridas de camelo, os jóqueis são meninos entre 12 e 15 anos "comprados" por comerciantes e tratados com brutalidade, da mesma forma como também são tratados os camelos.

No Camboja, a indústria de tijolos e telhas faz uso de meninos descalços e sem nenhuma proteção para o transporte desse produto. Razão pela qual muitas crianças aparecem com braços, pernas e dedos cortados pelo manuseios dos pesados tijolos.

A Nike, fabricante de calçados esportivos, enquanto enche ano a ano seus cofres e torra fortuna em publicidade, continua usando trabalho infantil na Indonésia. A Adidas, outra marca de reconhecimento internacional, fechou fábricas na Europa e transferiu grande parte de sua produção para a Ásia, aproveitando assim a mão-de-obra de baixíssimo custo.

No estado de Tamil Nadu (sul da Índia) quase 400 mil meninos e meninas trabalham manualmente produzindo cigarros da marca "beddies" vendidos exclusivamente a elevado preço no mercado local. O "salário" desses meninos e meninas não ultrapassa 30 centavos de dólar por hora.

Os brinquedos distribuídos junto aos lanches das redes alimentícias Mc Donald´s, Bobs e Burger King, em mais de 140 países, são feitos por crianças com idade entre 11 e 14 anos em galpões sem nenhuma ventilação, a maioria deles localizados em Taiwan. Essas crianças chegam a trabalhar entre 10 e 12 horas por dia em troca de ninharias ao final do mês; grande parte delas apresentam queimaduras em mãos e braços, mediante o uso de componentes químicos. No entanto, em 2008, somente a rede Mc Donald´s anunciou um lucro recorde de US$ 4,3 bilhões (US$ 3,76 por ação) atendendo, em média, 58 milhões de consumidores por dia.

Ainda em termos de brinquedos infantis, talvez os casos mais infelizes aconteçam nas fábricas na China, onde trabalham 70 milhões de crianças e adolescentes. Esse país asiático é o maior exportador de brinquedos do mundo, usando aproximadamente 6 mil fábricas situadas na maior parte na chamada "terra dos brinquedos", a província de Guangdong (sudeste do país).

Desse local procedem, por exemplo, o boneco "Buzz Lightyear" (do desenho "Toy Story"), um dos mais populares da Walt Disney. Há ainda uma ampla gama de produtos da empresa Mattel, a fabricante das bonecas "Barbie". A mão-de-obra infantil usadas nessas fábricas é remunerada a 13 centavos de dólar por hora, numa jornada diária de 14 horas de trabalho. Por sua vez, em 2007, o lucro da Mattel atingiu US$ 379,6 milhões (US$ 1,05 por ação).

No Brasil, apesar da lei estabelecer 16 anos como a idade mínima para o ingresso no mercado de trabalho, mais de 5 milhões de crianças e jovens entre 7 e 15 anos trabalham nesse país, segundo pesquisa do IBGE - grande parte delas na agricultura.

De acordo com dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil ( IPEC ), base 2006, existem no mundo cerca de 350 milhões de crianças entre 5 e 16 anos envolvidas em alguma atividade econômica. Entre elas, cerca de 250 milhões são submetidas a condições consideradas de exploração, o que equivale a uma criança em cada seis no mundo. Destas, 170 milhões trabalham em condições perigosas e 76 milhões têm idade inferior a 10 anos. A maior parte deste "exército de mini-trabalhadores" (entre 5 e 14 anos de idade) vive na Ásia (127 milhões) e na África e Oriente Médio (61 milhões).

Na América Latina e Caribe são 17,4 milhões. Os países industrializados e o leste europeu não são exemplos de boa conduta nesse problema, uma vez que abrigam pelo menos 5 milhões de crianças trabalhando. Uma parte menor, mas dramaticamente consistente, desse contingente de trabalhadores é vitima de escravidão e destinada, por exemplo, à atividade de prostituição - número estimado em 8,4 milhões de crianças no mundo.

Em Bombaim, nos bordéis localizados na rua de Falkland, as meninas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua para atrair clientes. Muitas mulheres são ali despejadas por traficantes, mas muitas são definitivamente "vendidas" pelos pais ou pelos maridos. Estima-se que atualmente 90 mil mulheres - metade das quais despachadas a partir do Nepal para a Índia - trabalham como prostitutas nessa cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a esperança de vida para menos de 40 anos dessas pobres trabalhadoras.

Todos esses poucos (diante de uma infinidade) exemplos fazem parte de um modelo econômico insano que privilegia os ganhos financeiros em detrimento do sofrimento e da dor.

No mesmo instante em que crescem os lucros de empresas como a Nike, Adidas, Matell, das redes alimentícias Mc Donald´s e similares, dos fabricantes de tapetes do Nepal, da Índia e do Paquistão, cresce a dor e o sofrimento de milhões de indivíduos que "contribuem" com horas e horas de trabalho para os ganhos exorbitantes desses grandes conglomerados que superam em importância econômica várias nações. Não por acaso, nesse pormenor, 51% das cem maiores economias do mundo são corporações, e não países.

Enquanto esse modelo econômico perverso não for alterado, o alargamento dos bolsões de pobreza, miséria e indigência será constante. Enquanto o próprio conceito de economia não incluir em suas análises a valorização e a participação do indivíduo, nenhuma mudança será possível. Nesse sentido, enquanto a economia não for solidária e participativa, o modelo econômico atuante será o de sempre: excludente e individual, guiado unicamente pelo egoísmo e pela insensibilidade perante o sofrimento de muitos.

Por Economia Solidária entendemos um sistema econômico em que o indivíduo seja o ponto central na organização da atividade econômica e, acima de tudo, em que os direitos sociais sejam estabelecidos como princípios reguladores da economia. Economia Solidária pressupõe que a responsabilidade seja coletiva, e não individual; onde haja a união do capital ao trabalho, unindo o trabalho associativo (ajuda mútua) entre associações, cooperativas e agências de fomento.

No entanto, não nos iludamos: a mudança para uma economia solidária e participativa exigirá tempo. Necessitará, nas palavras de Riane Eisler, autora de The Real Wealth of Nations, [A Verdadeira Riqueza das Nações], "modificações nos valores culturais e institucionais". Mas, não tenhamos dúvidas: se um número suficiente de pessoas se mobilizar, ela terá lugar.

Dessa forma, a economia precisa urgentemente mudar em prol da melhora de vida dos mais necessitados. Uma economia mais justa e solidária é perfeitamente possível e, com ela, não haverá perdedores - todos ganharão. Diante disso, resta nos mobilizarmos e nos inserirmos participando da economia solidária; afinal, entendemos que a economia (enquanto ciência) deve se pôr exclusivamente à serviço de diminuir as diferenças sociais que são, infelizmente, cada vez mais gritantes.

* Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor universitário - Mestre pela USP em Integração da América Latina e Especialista em Política Internacional - Autor dos livros "Conversando sobre Economia" (ed. Alínea) e "Provocações Econômicas" (no prelo).

José não existe. Por isso, o Congresso o ignora

Blog do Sakamoto


José nasceu no Maranhão, mas mora no Piauí. Nesses Estados, os trabalhadores acabam fugindo do desemprego nas grandes cidades e da falta de condições para cultivar sua própria terra para outros lugares movidos por histórias de serviço farto. José deixou sua casinha em uma favela na periferia da capital Teresina e foi se aventurar no Sul do Pará para tentar dar melhores condições de vida à sua esposa e ao seu filho de quatro meses. Logo chegando, perdeu um dedo da mão ao cortar madeira. “Me deram duas caixas de comprimido: uma para desinflamar e outra para tirar a dor”, conta. Além disso, só um cala a boca. Depois, foi limpar o pasto para o gado e levantar cercas. O “gato” (contratador de mão-de-obra que faz a ponte entre o empregador e o peão) havia o encontrado na rodoviária quando estava passando fome e prometido um bom emprego. Bom emprego… A carne que lhe era dada estava podre, casa de vermes. O pagamento do salário ficava na promessa havia dois meses. Só o trabalho, que lhe comia a mão de tanto aplicar veneno sem proteção, era uma certeza diária. Se não tivesse sido libertado pelo governo federal naquele momento, ia se afogar no seu próprio suor em comemoração ao seu 17º aniversário alguns dias depois.
Tirei esta foto de José tempos atrás, durante a operação de fiscalização que o resgatou. Hoje se comemora o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. Assim como ele, quase outras 40 mil pessoas já foram retiradas dessas condições desde 1995. Muito se fez para combater o problema, mas muito falta a ser feito. Por exemplo, combater de forma eficaz a pobreza, garantindo acesso a serviços públicos e a oportunidades e não apenas se preocupando com a renda.
E o pior de tudo é ter que ouvir, ano após ano, da boca de nobres deputados federais e senadores, que José não existe. E, por isso, aprovar leis sobre o tema (como a que confisca terras em que esse crime for encontrado) é um fato completamente insano. Coisa de louco.
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