terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Epidemias - Exposição Experiências de Vida

O sem-teto, a cara-pintada e o sinal fechado

Conversas de semáforo tendem a ser objetivas. Por vezes, produzem hai cais da urbanidade. Não é este o caso, narrado por um advogado ao blog, o que não exclui o fato de haver certo lirismo presente nele.
Em uma esquina movimentada de São Paulo, caras-pintadas abordavam os veículos:
- Oi, tudo bem? Você poderia me dar uma moedinha. Eu passei.
Vendo a cena, um morador de rua que também fazia ponto naquele local, provido de uma ironia deliciosa, achegou-se:
- O senhor também poderia me dar uma? Eu também passei. Passei fome, passei frio, passei necessidade…
Dar dinheiro alegremente – quiçá projetando-se no outro a fim de reviver um saudoso momento e participar de um rito comum à sua classe social – ou de forma constrangida – por ter melhores condições em um país extremamente rico e proporcionalmente desigual e se sentir obrigado diante da circunstância no semáforo, sem contar o efeito de sentimentos nobres como a dó, e ser chamado na chincha?
Qual foi o desfecho? Nem te conto. Fica mais interessante que cada um termine a história do seu próprio jeito. Se bem que eu arriscaria dizer, se o mundo fosse maniqueísta, para qual lado a balança penderia…

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sem-teto gays de SP andam juntos para se proteger


“Acordem, meninas. São 7h, a diária acabou”, diz o vigia de um estabelecimento comercial localizado na avenida Paulista.
Ele está falando com Samuel, 38, Joaquim, 35, Josué, 42, e Leandro, 23. Os quatro são gays e mendigos, moradores de rua.
Eles vivem em grupo para se proteger. Nos últimos meses, cresceram as agressões a moradores de rua e contra gays na avenida Paulista.
Por serem pedintes, por serem homossexuais e por estarem naquela região, os quatro se dizem triplamente expostos. Dizem já ter sido espancados pela polícia, por skinheads e até por outros moradores de rua.
Todos esses mendigos gays têm em comum histórias de rejeição da família, de dependência de álcool e drogas, de prostituição e de abuso sexual na infância.
Todos têm uma “identidade” feminina. Josué é Kelly (“de Grace Kelly”). Samuel é Sam. Joaquim é Giovanna Antonelli. E Leandro é Ludimila. Deste ponto em diante, serão chamadas por seus nomes de mulher.
A maior queixa é a intransigência dos abrigos, que proíbem a entrada de mendigos travestidos. “Dizem: ‘senhora, tem de colocar roupa de homem’”, diz Kelly.
Com isso, muitos buscam escamotear a homossexualidade para conseguir vaga nos albergues e se precaver da violência e da discriminação dos outros abrigados.
“Sou uma mulher presa num corpo de homem. Não consigo representar uma coisa que não sou”, diz Cláudio, nome de batismo de Cláudia, 39, travesti em terapia hormonal para ter traços femininos e crescer mamas.
A situação chegou aos bancos acadêmicos e virou tema de pesquisas de pós-graduação na USP e em outras universidades paulistas.
“Quanto maior a identidade transgênica, maior é a violência. Agregam estigmas que agravam a exclusão social”, diz a psicóloga Fernanda Maria Munhoz Salgado, que faz mestrado na PUC sobre mendigos homossexuais.
Também mobilizou a militância gay, que negocia com a prefeitura a abertura do primeiro albergue exclusivo para gays, lésbicas, travestis e transexuais de São Paulo.
“Se cederem o imóvel, no estado em que estiver reformo com o meu próprio dinheiro”, afirma o empresário Douglas Drumond, dono da sauna gay 269, na região da avenida Paulista.
Segundo o censo da prefeitura, havia 13.666 moradores de rua em São Paulo em 2009. No próximo recenseamento, deve ser incluída uma pergunta sobre a orientação sexual para saber, ao menos, quantos são.
VEJA (acima) O DOCUMENTÁRIO “O OUTRO LADO”, DE DOUGLAS DRUMOND
fonte: Folha.com

A Verdade é Plural

O pensamento ocidental tem sido por longo tempo dominado pela ideia de que o erro é plural e a verdade é singular. Podemos estar errados de muitos modos diferentes, mas certos de um modo só. De acordo com essa visão, que podemos chamar de monismo ou singularismo, só existe uma forma correta de se entender o mundo, um único verdadeiro sistema de moralidade, um único modo de se conduzir uma vida correta, uma única religião verdadeira, um único modo de organizar a sociedade e assim por diante. Nosso dever é atingir a verdade, seja ela cognitiva, moral ou religiosa, através da razão, que é entendida como uma faculdade transcendental e quase divina que se eleva sobre as barreiras psicológicas, sociais, culturais ou de outra natureza. Essa visão de mundo tem consequências tanto positivas quanto negativas. Ela inspirou a maior parte das investigações intelectuais, as normas de debate racional e também uma determinação a expor e combater erros. 
Toda comunidade cultural representa uma forma particular de excelência humana.
Porém gerou também arrogância, intolerância, incapacidade de apreciar as diferenças, a tendência a associar diversidade com aberração e também muita violência.

O pluralismo cultural contesta essa visão de verdade e de virtude. Ele enxerga a razão como uma qualidade não semidivina ou transcendental mas humana, com tudo que isso implica. Como parte do pressuposto de que a cultura vem embutida nos seres humanos, ele sustenta que a razão é moldada e estruturada pela cultura. Isso não quer dizer que as pessoas não são capazes de criticar ou de revisar a sua cultura; quer dizer que não sejam capazes de transcender todas as sutis e profundas influências da cultura, enxergando-a a partir de um não-existente ponto de vista arquimediano. As pessoas podem substituir uma cultura por outra, mas não tem como postar-se totalmente fora do âmbito da cultura.
Para o pluralismo cultural o mundo pode ser entendido de diferentes modos dependendo de nosso aparato, linguagem, interesses e propósitos conceituais, das perguntas que fazemos e do tipo de conhecimento que buscamos e valorizamos.
Como a verdade em geral, a verdade moral ou virtude é também plural. As capacidades humanas e valores morais entram em conflito, e não podem ser integradas num sistema harmonioso sem perda. Diferentes comunidades culturais organizam-se com base em diferentes visões de uma vida correta, e fomentam diferentes capacidades, disposições e virtudes humanas. Toda comunidade cultural representa uma forma particular de excelência humana, com todas os seus pontos fortes e limitações característicos. Nenhuma cultura é perfeita, nenhuma encarna a virtude de modo completo e nenhuma é por completo desprovida de virtude.
Toda cultura, portanto, requer outras como interlocutores críticos. No curso de um diálogo com elas, cada cultura torna-se consciente de sua especifidade e ganha acesso a outros valores, a virtudes que ela mesma marginaliza ou ignora. Quando se pressupõe que a verdade e a virtude são singulares, nenhum diálogo dessa espécie é necessário. Na melhor das hipóteses, seu propósito é expor os erros dos outros e refutá-los num espírito de agressão e de arrogante condescendência. Na visão da cultura pluralista, o diálogo é central à vida moral e intelectual, sendo o único modo de se adquirir uma compreensão completa de sua matéria de estudo.
Pluralismo cultural é inteiramente diferente de relativismo, e não deve ser confundido com ele. Para o relativista, a verdade é relativa e sua validade está limitada a uma comunidade em particular. Como o monista, o relativista pressupõe que a verdade é singular, sendo a única diferença entre os dois que enquanto o primeiro declara a validade universal de um visão de mundo particular, o relativista a limita a uma determinada unidade social. O pluralismo cultural contesta os dois.
O pluralismo cultural é uma ideia radical com implicações profundas. Ela nos imuniza contra a tendência sedutora e muito comum de pensarmos que só nossa visão de mundo, nossa religião ou sistema de moralidade é que são corretos, e podem ser com justiça serem usados para julgar todos os outros. Ele portanto gera humildade, respeito aos outros, abertura ao diálogo e o espírito de auto-crítica. Encoraja-nos também a ver os outros não como estranhos ou como ameaça, mas como parceiros de conversação que nos trazem os dons da auto-consciência e o acesso a seus tesouros, e cuja existência é pré-condição de nosso crescimento.
No nível social e político o pluralismo cultural implica que o discurso público não pode ser conduzido num único idioma conceitual e moral, devendo passar a admitir uma diversidade de dialetos e linguagens. Isso põe em dúvida o conceito dominante e dúbio de que uma sociedade não tem como ser estável a não ser que todos os seus membros concordem substantivamente a respeito dos valores de uma vida correta. Também desafia nossos juízos estabelecidos sobre conceitos centrais como autonomia pessoal, igualdade, liberdade e justiça, que podem todos ser definidos e amarrados de modos diferentes. Não é de se admirar que a predominância do pluralismo cultural em anos recentes tenha desestabilizado as filosofias moral, social e política tradicionais; que tenha nos forçado a repensar nossos pressupostos e a redesenhar nossas instituições sociais e políticas. É provável que essa tarefa vital, iniciada por Rawls e continuada por seus seguidores e críticos, nos ocupe ao longo de toda parcela de futuro que somos capazes de prever.
Bhikhu Parekh, em The Philosopher’s Magazine

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Menores Soldados: o drama continua em pelo menos 24 países

Adital

As organizações Alboan, Anistia Internacional, Entreculturas, Fundación el Compromiso, Save the Children e o Serviço Jesuítas a Refugiados se mobilizam no dia internacional contra a utilização de menores soldados – celebrado amanhã, 12 de fevereiro – para denunciar as graves violações de direitos humanos, às quais são submetidos diariamente meninos e meninas em numerosos países.

As organizações solicitam aos Estados que ainda não fizeram, que ratifiquem o Protocolo Facultativo da Convenção dos Direitos do Menino e da Menina sobre a participação de menores em conflitos armados. Trata-se da ferramenta jurídica de proteção mais importante para os menores em conflito.


O Protocolo é um instrumento imprescindível para assegurar que meninos e meninas não sejam utilizados em conflitos armados. Aumenta para 18 anos a idade mínima para a participação direta nos enfrentamentos, em comparação com a idade mínima anterior fixada em 15 anos na Convenção sobre os Direitos do menino e da menina. Também obriga os Estados Parte a colocarem em vigor disposições estritas ali onde não se cumpre.


Atualmente, 134 países ratificaram este Protocolo; 23 firmaram, mas não ratificaram (como Camarões, Gana, Libéria, Paquistão ou Somália); e um total de 35 nem firmaram nem aceitaram fazer (como Guiné Equatorial, Etiópia, Malásia, Myanmar, Arábia Saudita ou Zimbabwe). Espanha o ratificou em 2002.


Com esta iniciativa, as organizações se somam à campanha das Nações Unidas: "Nenhum menor de 18/ Zero under 18” que pede a ratificação universal deste Protocolo para 12 de fevereiro de 2012 – quando se completará o 10° Aniversário de sua entrada em vigor. A campanha quer que nenhum menor de 18 anos seja recrutado nem utilizado nas forças armadas ou nos grupos armados, já que a associação com forças armadas priva os meninos e as meninas de seus direitos e de sua infância, sendo devastador o impacto físico e psicológico que provoca neles.


Finalmente, as organizações solicitam aos Estados que já firmaram e ratificaram o protocolo que realizem esforços adicionais para sua adequada implantação, proporcionando os recursos adequados. Em El Chad, estão sendo recrutados meninos e meninas entre 13 e 17 anos de idade por parte das Forças Armadas e utilizados em combates; estão utilizando menores de 10 anos como mensageiros e em funções de transporte. Isto contradiz claramente o Protocolo e supõe um descumprimento claro das obrigações internacionais deste país.


Informação adicional


É impossível calcular com exatidão o número de meninos e meninas soldados. Existem dezenas de milhares em todas as regiões do mundo. Segundo o último relatório global sobre meninos e meninas soldados da Coalizão Internacional de 2008, pelo menos 24 países de todas as regiões do mundo recrutavam menores de 18 anos.


Desde então, milhares de menores soldados têm sido liberados das forças combatentes, já sejam grupos governamentais ou insurgentes, após acordos de paz e programas de desmobilização e reinserção em Afeganistão, Burundi, Costa do Marfim, Libéria, República Democrática do Congo, Sul de Sudão e outros países. No entanto, durante estes anos, tem-se estourado, reiniciado ou intensificado conflitos em países como El Chad, Iraque, República Centro-Africana, Somália e Sudão (Darfur), aumentando nestes lugares o recrutamento de menores.


Meninos, meninas e adolescentes soldados estão submetidos a situações extremas, nas quais alguns têm sido testemunhas do assassinato de seus familiares ou têm sido utilizados como instrumentos para cometer atrocidades. Muitos têm sido vítimas de maus tratos, violações e outras formas de sexualidade forçada, incluindo "matrimônios” com os combatentes, no caso das meninas. Em numerosas ocasiões, têm sido drogados para vencer o temor ao adversário, utilizados como arma de guerra, obrigados a realizar saques, violações ou a mutilar pessoas.


A noticia é do Serviço Jesuíta a Refugiados da América Latina e Caribe

Tempo que foge!

Ricardo Gondim

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.
Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

Soli Deo Gloria

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O sonho de Nabucodonosor



Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital
Os países ricos do Ocidente, cuja democracia se baseia no poder do dinheiro, não têm princípios, apenas interesses. Acusam Cuba de ser uma ditadura que não respeita os direitos humanos por não admitirem o caráter socialista daquela Revolução que, há mais de 50 anos, resiste às agressões do maior império econômico e bélico da história da humanidade.
No entanto, tecem loas à China. Fazem vista grossa ao regime escravocrata de mão de obra barata, onde se fabrica tudo aquilo que, no Ocidente, exigiria pagar salários mais altos, reduzindo a margem de lucro das empresas ocidentais. Inúmeros produtos em oferta em nossas lojas, embora grifadas por marcas originárias do Ocidente, são "made in China”.
Para governos como o dos EUA, do Reino Unido, da França e da Alemanha, o fato de um ditador como Hosni Mubarak ocupar, por 30 anos, o poder no Egito, não tem a menor importância. Desde que sirva a seus interesses geopolíticos numa região explosiva. Vale para Mubarak o que John Foster Dulles dizia do ditador Anastácio Somoza, da Nicarágua: "É um filho da p., mas é nosso filho da p.”
De olho no petróleo, os governos ocidentais sempre respaldaram os governos tirânicos do mundo árabe. Negócios, negócios, princípios à parte. Qual potência europeia rompeu com uma das tantas ditaduras militares que assolaram a América Latina nas décadas de 1960 e 1970?
O Ocidente nunca se incomodou com a ausência de eleições periódicas nos países árabes, a opressão da mulher, a perseguição aos homossexuais, o luxo nababesco dos governantes frente à miséria da grande maioria da população. Quantos ditadores africanos engordam os cofres dos bancos europeus?
Agora os EUA estão como o rei da história de Hans Christian Andersen: nu, despido de sua arrogância supostamente democrática, de sua prepotência imperial. E o pior, colocado entre a cruz e a caldeirinha: se Mubarak permanece, a Casa Branca sustenta uma ditadura e despreza o clamor do povo egípcio. Se é derrubado, há o risco de o Egito se transformar, como o Irã, numa nação islâmica, hostil a Israel e aos propósitos ocidentais.
Narra a Bíblia que o profeta Daniel (2, 31-36) foi convocado para interpretar um sonho que tanto inquietava o rei Nabucodonosor, da Babilônia: "Era uma grande estátua, alta e muito brilhante. Ela estava bem à frente de Vossa Majestade e tinha aparência impressionante. A cabeça era de ouro maciço; o peito e os braços eram de prata; a barriga e as coxas, de bronze; as canelas de ferro e os pés, parte de ferro e parte de barro. Vossa Majestade contemplava a estátua quando, sem ninguém jogar, caiu uma pedra que bateu exatamente nos pés de barro e ferro da estátua, quebrando-os. Em segundos, tudo desmoronou. Ferro, barro, bronze, prata e ouro ficaram como palha no terreiro em final de colheita, palha que o vento carrega sem deixar sinal. Depois, a pedra que tinha atingido a estátua se transformou numa enorme montanha que cobriu o mundo inteiro.”
A pedra, no caso do mundo árabe, é a ânsia popular de democracia entendida como justiça social e paz. O que pensa um iraquiano vendo seu país há anos dominado por tropas ocidentais que tratam os habitantes como escória da humanidade? O que pensa um afegão vendo aviões ocidentais bombardearem aldeias, matando crianças, mulheres, idosos, sob a desculpa de se tratar de um refúgio talibã?
A pedra é a cultura religiosa, muçulmana, que grassa naqueles países, e que nada tem a ver com o suposto cristianismo do Ocidente. Em nome de Deus e de Jesus, o Ocidente subjugou, durante séculos, a África, a Ásia e a América Latina. Escravizou habitantes, extorquiu riquezas, transferiu para a Europa preciosidades arqueológicas, como a Pedra de Roseta – hoje no Museu Britânico -, fragmento de uma estela de granodiorito do Egito antigo, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios. Sua inscrição registra um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis, em nome do rei Ptolomeu V.
O pensamento islâmico não distingue a fronteira entre religião e política. Esta deve ser monitorada por aquela. E a autoridade religiosa é encarada, como ocorria no Ocidente medieval, detentora do poder político.
Para tal conjuntura, o Ocidente só conhece uma resposta: armas, guerras, ocupações, subornos e ditaduras. Porque é incapaz de empreender o diálogo interreligioso, de reconhecer o direito daqueles povos à autodeterminação, de pautar-se por princípios e não pela voracidade obsessiva do mercado por lucro.
Se o fundamentalismo islâmico incute em jovens a mística do martírio, introduzindo uma forma de terrorismo incontrolável, o fundamentalismo do mercado incute nos ocidentais a convicção de que igrejas e mesquitas devem ceder lugar aos shopping centers, templos de consumismo e miniaturização do paraíso na Terra.
Eis a pergunta que, esta semana, se repete em Dakar, no Fórum Social Mundial, e exige resposta urgente: Um outro mundo é possível?
[Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
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