terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Teólogo: um ser quase impossível

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
Muitos estranham o fato de que, sendo teólogo e filósofo de formação, me meta em assuntos, alheios a estas disciplinas como a ecologia, a política, o aquecimento global e outros.

Eu sempre respondo: faço, sim, teologia pura, mas me ocupo também de outros temas exatamente porque sou teólogo. A tarefa do teólogo, já ensinava o maior deles, Tomás de Aquino, na primeira questão da Suma Teológica é: estudar Deus e sua revelação e, em seguida, todas as demais coisas "à luz de Deus” (sub ratione Dei), pois Ele é o princípio e o fim de tudo.

Portanto, cabe à teologia ocupar-se também de outras coisas que não Deus, desde que se faça "à luz de Deus”. Falar de Deus e ainda das coisas é uma tarefa quase irrealizável. A primeira: como falar de Deus se Ele não cabe em nenhum dicionário? A segunda, como refletir sobre todas as demais coisas, se os saberes sobre elas são tantos que ninguém individualmente pode dominá-los? Logicamente, não se trata de falar de economia com um economista ou de política como um político. Mas falar de tais matérias na perspectiva de Deus, o que pressupõe conhecer previamente estas realidades de forma critica e não ingênua, respeitando sua autonomia e acolhendo seus resultados mais seguros. Somente depois deste árduo labor, pode o teólogo se perguntar como elas ficam quando confrontadas com Deus? Como se encaixam numa visão mais transcendente da vida e da história?

Fazer teologia não é uma tarefa como qualquer outra como ver um filme ou ir ao teatro. É coisa seríssima, pois se trabalha com a categoria”Deus” que não é um objeto tangível como todos os demais. Por isso, é destituída de qualquer sentido, a busca da partícula "Deus” nos confins da matéria e no interior do "Campo Higgs”. Isso suporia que Deus seria parte do mundo. Desse Deus eu sou ateu. Ele seria um pedaço do mundo e não Deus. Faço minhas as palavras de um sutil teólogo franciscano, Duns Scotus (+1308) que escreveu: "Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. Quer dizer, Deus não é da ordem das coisas que podem ser encontradas e descritas. É a Precondição e o Suporte para que estas coisas existam. Sem Ele as coisas teriam ficado no nada ou voltariam ao nada. Esta é a natureza de Deus: não ser coisa, mas a Origem das coisas.

Aplico a Deus como Origem aquilo que os orientais aplicam à força que permite pensar: "a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. A Origem das coisas não pode ser coisa.

Como se depreende, é muito complicado fazer teologia. Henri Lacordaire (+1861), o grande orador francês, disse com razão: "O doutor católico é um homem quase impossível: pois tem de conhecer todo o depósito da fé e os atos do Papado e ainda o que São Paulo chama de os ‘elementos do mundo’, isto é tudo e tudo”. Lembremos o que asseverou René Descartes (+1650) no Discurso do Método, base do saber moderno: "se eu quisesse fazer teologia, era preciso ser mais que um homem”. E Erasmo de Roterdam (+1536), o grande sábio dos tempos da Reforma, observava: "existe algo de sobrehumano na profissão do teólogo”. Não nos admira que Martin Heidegger tenha dito que uma filosofia que não se confrontou com as questões da teologia, não chegou plenamente ainda a si mesma. Refiro isso não como automagnificacão da teologia, mas como confissão de que sua tarefa é quase impraticável, coisa que sinto dia a dia.


Logicamente, há uma teologia que não merece este nome porque é preguiçosa e renuncia a pensar Deus. Apenas pensa o que os outros pensaram ou o que o que disseram os Papas.


Meu sentimento do mundo me diz que hoje a teologia enquanto teologia tem que proclamar aos gritos: temos que preservar a natureza e harmonizarmo-nos com o universo, porque eles são o grande livro que Deus nos entregou. Lá se encontra o que Ele nos quer dizer. Porque desaprendemos a ler este livro, nos deu outro, as Escrituras, cristãs e de outros povos, para que reaprendêssemos a ler o livro da natureza. Hoje ela está sendo devastada. E com isso destruímos nosso acesso à revelação de Deus. Temos, pois, que falar da natureza e do mundo à luz de Deus e da razão. Sem a natureza e o mundo preservados, os livros sagrados perderiam seu significado que é reensinarmos a ler a natureza e o mundo. O discurso teológico tem, pois, o seu lugar junto com os demais discursos.


[Leonardo e Clodovis Boff escreveram Como fazer teologia da libertação Vozes 2010].

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Teoria da transformação social

Jung Mo Sung
Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo
Adital


Uma das novidades da Teologia da Libertação Latino-Americana (TLLA) nas suas origens não foi simplesmente criticar o "mundo”, falar em favor dos pobres ou propor ações de "caridade”, mas sim a de propor (a) o uso metódico das ciências sociais para compreender as razões das injustiças e opressões e (b) práticas de transformação das estruturas sociais e culturais.
O desejo de luta e de transformações que nasce da indignação ética diante das injustiças e sofrimentos das pessoas mais vulneráveis pode se perder em discursos vazios e em ações bem intencionadas, mas ineficazes. Para tentar evitar isso, a TLLA deveria se assumir como o momento segundo, sendo o primeiro as práticas de libertação, e que o primeiro passo deste momento segundo deveria ser o diálogo com as ciências do social para compreender as causas da situação. O segundo passo seria interpretar à luz da fé, da Bíblia e da tradição teológica a situação e as práticas realizadas, para no terceiro passo elaborar novas práticas dentro de estratégias de ação transformadora. E esta reflexão teológica deveria estar a serviço das práticas de libertação, com reflexões críticas sobre o mundo, o cristianismo, teologias, e até mesmo da religiosidade do povo.
Passadas quatro décadas do início da TLLA, podemos dizer que equívocos foram cometidos, mas não podemos negar que esta forma de fazer teologia iluminou as práticas e "deu razão da nossa esperança” para muitas comunidades cristãs e não-cristãs espalhadas pela AL e mundo afora.
Há um ponto que acho fundamental retomarmos: o debate sobre as teorias de transformação social. A teoria mais utilizada pela TLLA para compreender as injustiças e opressões sociais foi a "teoria da dependência” de inspiração marxista. Esta teoria não oferecia somente o diagnóstico, mas também uma linha de ação. A dominação era vista como resultado da dependência e subordinação dos países periféricos aos países centrais do capitalismo e a manutenção dessa relação era resultado (a) de uma elite nacional que se beneficiava disso (b) da alienação do povo diante dessa realidade política. Assim, a estratégia alternativa era (a) conscientizar o povo; (b) organizar o povo; (c) ir para política para "tomar o Estado” em favor dos pobres, (d) promover profundas mudanças econômicas e sociais. Por isso tanto esforço em promover cursos bíblicos, análises de conjuntura, cursos de fé e política, atuação em partidos políticos e movimentos sociais. As pequenas ações eram compreendidas e realizadas dentro deste grande perspectiva estratégica.
Hoje, o capitalismo se tornou globalizado e as lutas de libertação se ampliaram e se complexificaram (pobres, gênero, etnia, etc – tema tratado no artigo anterior), porém penso que não temos uma nova teoria sobre as transformações econômicas, sociais e culturais articulando nossas análises e ações. Isso ficou aparente no Fórum Mundial de Teologia ocorrida em Dakar. Nas mais diversas exposições e debates, era possível ver claramente contra o que lutamos e onde queremos chegar, mas muito pouco sobre como transformar a situação e qual a contribuição específica das religiões e teologias críticas neste processo.
Esta falta de visão estratégica de transformação também tem a ver com a precariedade das nossas análises sobre as atuais dinâmicas de dominação econômica, étnica, de gênero etc. Por ex, como o patriarcalismo, machismo e racismo penetraram de uma forma tão profunda no inconsciente das culturas asiáticas marcada por confucionismo, budismo, filosofia de complementaridade (ying e yang)? Como se articulou historicamente a relação entre racismo, dominação de gênero e a exploração capitalista na AL? Como transformar isso? Ou então, por que os povos dos países pobres sonham adentrar no mercado de consumo global, ao invés de desejarem um outro mundo? De onde vem o fascínio do atual Império Capitalista Global? Quais contribuições que as religiões em geral e cristianismo em particular podem e devem fazer nestas lutas?
São perguntas difíceis. Mas devemos enfrentá-las. Esta é uma das funções da teologia e das teorias críticas. Se não assumirmos este debate, nossos discursos teológicos e religiosos serão marcados por idealismos, abstrações e visões românticas, mas com pouca concreticidade e dialeticidade da história. Com discursos abstratos, sem mediações históricas, – que sempre encontra o seu público que aplaude–, a eficiência das nossas práticas ficarão aquém das possibilidades.
[Co-autor com Hugo Assmann do livro "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”, Paulus].

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pacientes com mal de chagas não conseguem remédio para o coração

O problema é que o governo só dá o remédio para chagas. Medicamento para o coração é difícil achar no posto de saúde.



Marcelo Canellas
Nazaré da Mata, PE
Casa de pau a pique ainda existe. Mal de chagas, também. E não só nos bolsões de pobreza. No Brasil, a DNDi, uma força-tarefa mundial para o desenvolvimento de medicamentos para doenças, já alcançou uma conquista. É o que mostram os repórteres Marcelo Canellas e Luiz Quilião na última reportagem da série Doença do Silêncio.
“Eu comecei a sentir com 33 anos de idade”, conta o aposentado Manoel Mariano do Nascimento. Médico nenhum descobria a causa dos desmaios misteriosos. Manoel ficou furioso. O aposentado lembra como cobrou os médicos: “Vocês são um bocado de burros. Vocês estudaram para quê? Eu preciso saber o que é que eu tenho. Diga logo que eu tenho câncer”.
Não era câncer. Manoel revela como descobriu a doença: “O senhor tem doença de chagas. Eu olhei bem assim e perguntei: ‘o que é isso’”?
O coração de Manoel já sofria de um dos principais efeitos da doença. “Perguntaram se eu queria operar ou morrer. Eu perguntei: ‘me operar como’? Disseram: ‘colocar um marcapasso, porque o seu batimento cardíaco está 29 por minuto’”.
Presidente da Associação dos Portadores de Doença de Chagas, Manoel conhece todo mundo que tem marcapasso em Pernambuco. Ele cita o nome das pessoas. Os voluntários da associação monitoram os casos suspeitos.
A agricultora Severina Maria da Silva limpa o retrato dos parentes que a doença levou e conta que perdeu o marido e pai de chagas. “Quando fazia uns três anos que eu era casada, ele morreu. Ninguém estava esperando. Eu sabia que ele estava doente, mas não esperava que ele fosse morrer assim. Quando eu vi, ele caiu assim. Caiu, e já estava pronto”.
É uma doença típica da pobreza, ligada às condições de vida da população, porque o barbeiro, o inseto transmissor do parasita Trypanosoma cruzi, que causa o mal de chagas, vive nas frestas das casas de pau a pique.
A aposentada Santina Rodrigues da Silva sabe que foi picada por um deles. “Nasci, me criei e me casei tudo em casa de taipa”, revela.
Chagas pode levar até 30 anos para se manifestar no organismo. Tem cura se for descoberta no início. Mas, depois que vira doença crônica, dá para tratar somente as complicações. O problema é que o governo só dá o remédio para chagas. Medicamento para o coração é difícil achar no posto de saúde.
“De vez em quando, uma caixa que a gente consegue e da mais barata. O mais caro a gente tem que comprar. Ou bem você compra remédio, ou bem se alimenta direito”, diz Maria Ribeiro da Silva, filha de Santina.
A escolha da aposentada Josefa Liberto foi a de comprar comida. Para o remédio, não dá. “Eu sinto o coração acelerado. De tempos em tempos, ele fica acelerado”, afirma. Ela ainda revela que não tem R$ 200 para pagar de remédio por mês e, por isso, não consegue se tratar.
O aposentado Manoel Mariano do Nascimento reconhece que não tem condições de prometer a Josefa que ela vai receber os remédios e se tratar sempre que precisar. “Eu não vou prometer uma coisa que eu não posso cumprir. A prevenção e os medicamentos são essenciais. Diante disso, só Deus ou a morte”, declara.
Sem dinheiro e sem remédio, Josefa apenas espera que nada de mal lhe aconteça.
Sem hospitais especializados, sem distribuição de medicamentos, sem nenhum tipo de atendimento médico específico para o mal de chagas, a alternativa oferecida aos doentes é o ônibus. Em Nazaré da Mata (PE), por exemplo, todos os dias, às 4h, a prefeitura leva os pacientes para o Recife. O jogo de empurra só vai acabar mesmo quando amanhecer.
O aposentado Valdeci Vicente de Melo enfrenta a jornada sempre que precisa atualizar um exame no Recife. A doença apareceu bem na fase mais produtiva da vida. Ele conta que está afastado do trabalho há dez anos.
Cada vez que viaja, Valdeci teme não chegar a tempo. “Mas se der um negócio, uma tontura ou um desmaio, tem que socorrer e trazer para aqui. Quando chegar aqui, já está morto. O coração não espera por tempo. É um relógio. É um relógio que para ligeiro”, ressalta.
O relógio de Genaro só não parou por que ele botou um marcapasso. “A parte elétrica do coração fica bloqueada e, com isso, o coração passa a trabalhar menos. Em alguns pacientes com a doença de chagas, em que o bloqueio é só no sistema elétrico, mas não há um envolvimento importante do músculo cardíaco, o implante do marcapasso prolonga a vida, além de melhorar bastante a qualidade de vida”, aponta o cardiologista Wilson de Oliveira Jr, dirige o Ambulatório de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz.
Alguns pacientes têm que operar o esôfago, porque a doença de chagas também pode atacar o aparelho digestivo. O Sistema de Saúde paga caro para tentar remediar as consequências da enfermidade, quando poderia ter economizado antes. “Em cada US$ 1 que você investe em prevenção, você economizaria US$ 17”, afirma o cardiologista Wilson de Oliveira Jr.
Em 2006, o Brasil recebeu da Organização Pan Americana de Saúde o certificado de eliminação do Triatoma infestans, a principal espécie de barbeiro transmissor da doença. Mas para o Dr. Wilson, que dirige o Ambulatório de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz, no Recife, é um erro acreditar que isso é suficiente. “O grande equívoco é que controle não é sinônimo de erradicação. Em nenhum momento, nós negamos o avanço, mas é necessário dizer que se não permanecer uma vigilância epidemiológica sustentada, com participação inclusive da comunidade, essa doença pode voltar”, alerta.
É muito importante a identificação e o tratamento logo no início, quando a doença tem cura. O desafio é encontrar a dosagem certa para crianças do único remédio eficiente contra chagas, descoberto há 35 anos.
“O benzonidazol disponível é um comprimido de 100 miligramas. É um comprimido que é impossível você imaginar que uma criança vai tomar. É um comprimido grande, duro”, critica Fabiana Piovesan Alves, gerente de estudo clínico da DNDi (sigla em inglês para Medicamentos para Doenças Negligenciadas).
A boa notícia é que o Brasil começa a fabricar um comprimido infantil que já está em fase de liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “O objetivo final é justamente garantir a eficácia e o tempo de tratamento, porque o tempo de tratamento em chagas é um tempo bastante logo, cerca de 60 dias”, afirma Flávia Morais, coordenadora do Lafepe.
Diante de tão poucas novidades, não deixa de ser uma conquista. “É uma doença de pobre. Para eles, não dá lucro”, declara o aposentado Manoel Mariano do Nascimento.
Justamente por isso, cada dia de vida é uma vitória. Manoel revela que já colocou seis marcapassos. “A coisa mais importante no mundo é a vida. A vida não tem preço. As outras coisas são coisas banais. Casa, carro, tudo: são coisas banais. Mas a vida não. A vida é muito preciosa”, aposta.

Crianças trabalham ao redor do mundo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O verdadeiro custo da irresponsabilidade social das empresas

Desigualdade social e renda injusta

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital


Entre os 15 países mais desiguais do mundo, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Atenção: não confundir desigualdade com pobreza. Desigualdade resulta da distribuição desproporcional da renda entre a população.

O mais desigual é a Bolívia, seguida de Camarões, Madagascar, África do Sul, Haiti, Tailândia, Brasil (7º lugar), Equador, Uganda, Colômbia, Paraguai, Honduras, Panamá, Chile e Guatemala.

A ONU reconhece que, nos últimos anos, houve redução da desigualdade no Brasil. Em nosso continente, os países com menos desigualdade social são Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai.

Na América Latina, a renda é demasiadamente concentrada em mãos de uma minoria da população, os mais ricos. São apontadas como principais causas a falta de acesso da população a serviços básicos, como transporte e saúde; os salários baixos; a estrutura fiscal injusta (os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos que os mais ricos); e a precariedade do sistema educacional.

No Brasil, o nível de escolaridade dos pais influencia em 55% o nível educacional a ser atingido pelos filhos. Numa casa sem livros, por exemplo, o hábito de leitura dos filhos tende a ser inferior ao da família que possui biblioteca.

Na América Latina, a desigualdade é agravada pelas discriminações racial e sexual. Mulheres negras e indígenas são, em geral, mais pobres. O número de pessoas obrigadas a sobreviver com menos de um dólar por dia é duas vezes maior entre a população indígena e negra, comparada à branca. E as mulheres recebem menor salário que os homens ao desempenhar o mesmo tipo de trabalho, além de trabalharem mais horas e se dedicarem mais à economia informal.

Graças à ascensão de governos democráticos-populares, nos últimos anos o gasto público com políticas sociais atingiu, em geral, 5% do PIB dos 18 países do continente. De 2001 a 2007, o gasto social por habitante aumentou 30%.

Hoje, no Brasil, 20% da rendas das famílias provêm de programas de transferência de renda do poder público, como aposentadorias, Bolsa Família e assistência social. Segundo o IPEA, em 1988 essas transferências representavam 8,1% da renda familiar per capita. De lá para cá, graças aos programas sociais do governo, 21,8 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema.

Essa política de transferência de renda tem compensado as perdas sofridas pela população nas décadas de 1980-1990, quando os salários foram deteriorados pela inflação e o desemprego. Em 1978, apenas 8,3% das famílias brasileiras recebiam recursos governamentais. Em 2008, o índice subiu para 58,3%.

A transferência de recursos do governo à população não ocorre apenas nos estados mais pobres. O Rio de Janeiro ocupa o quarto lugar entre os beneficiários (25,5% das famílias), antecedido por Piauí (31,2%), Paraíba (27,5%) e Pernambuco (25,7%). Isso se explica pelo fato de o estado fluminense abrigar um grande número de idosos, superior à media nacional, e que dependem de aposentadorias pagas pelos cofres públicos.

Hoje, em todo o Brasil, 82 milhões de pessoas recebem aposentadorias do poder público. Aparentemente, o Brasil é verdadeira mãe para os aposentados. Só na aparência. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE demonstra que, para os servidores públicos mais ricos (com renda mensal familiar superior a R$ 10.375), as aposentadorias representam 9% dos ganhos mensais. Para as famílias mais pobres, com renda de até R$ 830, o peso de aposentadorias e pensões da previdência pública é de apenas 0,9%.

No caso do INSS, as aposentadorias e pensões representam 15,5% dos rendimentos totais de famílias que recebem, por mês, até R$ 830. Três vezes mais que o grupo dos mais ricos (ganhos acima de R$ 10.375), cuja participação é de 5%.

O vilão do sistema previdenciário brasileiro encontra-se no que é pago a servidores públicos, em especial do Judiciário, do Legislativo e das Forças Armadas, cujos militares de alta patente ainda gozam do absurdo privilégio de poder transferir, como herança, o benefício a filhas solteiras.

Para Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, no Brasil "o Estado joga dinheiro pelo helicóptero. Mas na hora de abrir as portas para os pobres, joga moedas. Na hora de abrir as portas para os ricos, joga notas de cem reais. É quase uma bolsa para as classes A e B, que têm 18,9% de suas rendas vindo das aposentadorias. O pobre que precisa é que deveria receber mais do governo. Pelo atual sistema previdenciário, replicamos a desigualdade.”

A esperança é que a presidente Dilma Rousseff promova reformas estruturais, incluída a da Previdência, desonerando 80% da população (os mais pobres) e onerando os 20% mais ricos, que concentram em suas mãos cerca de 65% da riqueza nacional.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Médicos Sem Fronteiras no Paquistão: Quando a chuva caiu

Egito e os milhares de heróis da revolução

Após 18 dias de protestos, o ditador egípcio Hosni Mubarak renunciou nesta sexta pondo fim a 30 anos de poder. O país tem importância estratégica. Tem um dos maiores exércitos profissionais da região, possui localização estratégica (entre a África e a Ásia, o Índico e o Mediterrâneo, com o canal de Suez encurtando distâncias), é – até agora – um parceiro importante de Washington, mantendo relações cordiais com Tel-Aviv. A praça Tahrir, no centro do Cairo, que foi o epicentro da revolta popular, entrou em uma festa que rompeu a madrugada e seguiu por este sábado. Afinal de contas, não é todo o dia que o povo consegue derrubar um ditador de forma pacífica.
Os militares assumiram o poder, prometendo uma transição rápida ao governo civil. Como a democracia será consolidada é uma incógnita. Há muitas variáveis envolvidas e a construção de instituições é um processo lento e que demanda confiança dos envolvidos. Esperemos que esse sentimento de união nacional e entendimento seja mantido para fazer frente ao desafio de tirar 40% da população de uma pobreza de menos de R$ 3,50 por dia. Pois foi exatamente a incapacidade de dar respostas econômicas e sociais à essa situação (enquanto levantamentos apontam que os Mubarak amealharam uma fortuna de US$ 40 bi ao longo do período no poder) o estopim que explodiu as ruas das maiores cidades do país.
Apesar de apoiar governos alguns bisonhos até quase o fim para cumprir sua política de Estado, Washington salta fora do barco antes que ele naufrague por completo. No caso da Indonésia, para citar outro exemplo, a então secretária de Estado Madeleine Albright veio a público sugerir que o ditador Suharto deixasse o poder após os protestos terem ganhado as ruas do arquipélago em 1998. Traduzindo: “Mermão, agora é contigo”. Foi o que se repetiu agora. Outro atores, mesma saída.
Escrevi neste espaço, há exatas duas semanas, que a pressão popular levaria os Estados Unidos a retirarem seu apoio. Ontem e hoje já tive a oportunidade de ouvir e ver alguns “especialistas” creditarem a queda de Mubarak a uma decisão do governo Obama, por ter removido o suporte ao regime, como se a própria chancelaria norte-americana não tivesse mudado de posição ao longo dos dias em decorrência do redemunho formado pela população nas ruas do Egito.
Em seu poema Perguntas de um Trabalhador que lê, Bertold Brecht pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra?”
Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais, mas todos que têm uma conta de twitter, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, são tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram reis que derrubaram um ditador, mas os carregadores de pedra. Isso não tem sido o padrão da História, que supervaloriza e mitifica o indivíduo em detrimento ao coletivo quando escrita e passada adiante. Não tiro a importância de pessoas, mas buscamos heróis quando eles, simplesmente, não precisam existir.
Em homenagem ao pessoal da praça Tahrir, posto o poema inteiro do dramaturgo alemão.
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?

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