1 No princípio ele criou a sua própria igreja, alugando um lugar para reunir algumas pessoas sem ter denominação alguma e declarou a si mesmo “pastor”.
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2 E a igreja era sem forma e vazia, mesmo assim algumas pessoas vieram apoiá-lo. E até então o Espírito de Deus pairava sobre a face daquele lugar.
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3 E o pastor disse: façamos uma oferta para arrumar a igreja e a oferta foi recolhida.
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4 E o pastor viu que a oferta e as pessoas eram boas e apoiavam suas idéias; então separou uma oferta para a igreja e outra para si mesmo.
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5 E o pastor chamou aquilo de doações para não pagar impostos e as que cobriam suas despesas foram chamadas de dízimo. E passou a tarde e a manhã pedindo dinheiro.
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6 Então disse o pastor: haja expansão entre os congregantes e separou as pessoas que o interessavam das que não interessavam muito.
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7 E fez o pastor uma expansão e separou os menores de idade e os chamou de crianças e adolescentes e os maiores de idade de: assembleia geral, grupo de homens, de mulheres, de adultos solteiros… E assim por diante.
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8 E o pastor chamou a expansão de “Minha igreja”. E passou a tarde e a manhã fazendo uma reunião especial para atrair mais pessoas.
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9 Então disse o pastor: Juntem-se aqueles que sabem tocar algum instrumento e descubram quem gosta de cantar. E isso aconteceu.
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10 E chamou o pastor os que tocavam e cantavam de “Meu grupo de louvor” e as outras pessoas de servos. E viu o pastor que isso era bom e lhe convinha.
11 Então disse o pastor: Surja dentre o povo quem venha para a igreja disposto a lavar e limpar os banheiros, cadeiras e deixar tudo arrumado e limpo. E isso aconteceu.
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12 Pois a igreja produzia pessoas de bom coração que ajudavam sem reclamar, pessoas que trabalhavam sem esperar nada em troca e sabiam em seu coração que aquilo que faziam valia a pena, mesmo sem serem reconhecidos. E viu o pastor que para ele isso era bom e lhe convinha.
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13 E passaram a tarde e a manhã fazendo limpeza e arrumando o templo e colocavam todos dinheiro do próprio bolso para isso.
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14 Então disse o pastor: Haja luz e aparelhos de som para as reuniões e também para eventos especiais; pessoas que entendam de som e venham antes da reunião para preparar tudo e sejam tão comprometidos que posso reclamar se algo não ficou muito bom
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15 e dar ordens como se fossem meus empregados mesmo que nunca recebam um centavo sequer para isso e me servam por muitos anos. E isso aconteceu.
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16 E fez o pastor duas grandes equipes de líderes, os 12 líderes “importantes”, seus amigos e vice-líderes de célula para lhe obedecer sem precisar se relacionar com eles. Assim nasceram as “estrelas”.
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17 E fez o pastor a expansão de sua igreja e chamou isso de “ministérios”
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18 para exercer domínio em todas as áreas de serviço, o tempo todo procrurando ofuscar os outros e fingindo ter elevados níveis de espiritualidade para alcançar uma posição de liderança. E viu o pastor que isso era bom nisso e o ajudava a controlá-los melhor.
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19 E houve durante a tarde e a manhã cursos de “liderança”.
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20 Disse o pastor: Produzam mais pessoas responsáveis pelas crianças, porque são muito inquietas e distraem os pais da minha pregação da e hora da oferta.
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21 E criou os grandes animais do pastor e os traumas de infância, enchendo as crianças de histórias repetitivas em aulas chatas, professores sem preparação que só conseguiram fazer que ninguém queria ouvi-lo. E lá estava o pastor que não era bom.
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22 O pastor parabenizou os líderes dizendo: “sejam frutíferos, multipliquem os membros de minha igreja, me tragam ofertas e relatos de pessoas que estão em rebeldia por não pensarem como eu para que possa convencê-las ou mandar embora. E os líderes concordaram.
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23 E houve durante a tarde e a manhã uma refeição apenas para os doze líderes.
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24 Então disse o pastor : Gravem um CD de louvor ao vivo de nossa congregação, um site, uma editora para os meus livros e tudo que seja necessário para que vejam como a minha igreja é mais moderna, mais abençoado e melhor que as outras . E isso aconteceu.
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25 E fez ele congressos de jovens, de mulheres, de homens, de líderes de louvor, teve livros publicados, CDs de música gravados; vendeu pregação, ingressos para cafés, seminários, pré-encontros, encontros, reuniões e pós-encontros. E viu o pastor que para ele isso era bom.
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26 Então disse o pastor : “Façamos Deus à minha imagem e semelhança, do jeito que sou e tudo que eu digo de bom ou de ruim, aceitável ou inaceitável, incluindo música, televisão, cinema, roupas, forma de falar, de liderar uma reunião e assim por diante. Mesmo quando não há base bíblica e são apenas meros caprichos serei respeitado. Quem pensar o contrário será julgados à revelia e expulso de minha igreja. Eu vou reinar sobre todos os membros da minha igreja dizendo: “Deus quer, Deus me disse, Deus me mostrou”, quando na realidade é apenas o que “eu digo, eu sinto e eu amo”
27 E o pastor criou Deus à sua imagem… e Deus viu que isso não era bom.
tradução: Jarbas Aragão
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dica do Ricardo Gondim
terça-feira, 6 de setembro de 2011
sábado, 3 de setembro de 2011
A falta que o respeito faz
Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
A cultura moderna, desde os seus albores no século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito. Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos(Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina. Em sua "Brevíssima Relação da Destruição das Indias” (1562) conta Bartolomé de las Casas, como testemunho ocular, que os espanhóis "em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, havendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana”(Décima Réplica). Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas e negociados como "peças” no mercado e consumidos como carvão na produção.
Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, de ciganos e de outros considerados inferiores.
Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como o mostrou bem Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado. Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e de autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco seja pessoas ou qualquer outro ser.
Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros” (Vozes 2010), adverte que se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.
O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Da Alsácia, era um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus” é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história; mas não são livros históricos. São teologias que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo. Abandonou a cátedra de teologia, deixou de dar concertos de Bach (era um de seus melhores intérpretes) e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E ai trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida.
Confessa explicitamente: "o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum sentido. O que importa mesmo é, tornar-se um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.
No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é: "Respeito diante da vida”, que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem”, diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver”. E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.
Como é urgente ouvir e viver esta mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.
[Leonardo Boff é autor de "Convivência, Respeito, Tolerância”, Vozes 2006].
terça-feira, 30 de agosto de 2011
O diabo que se apaixonou por Deus
Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.
Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.
– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.
Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.
– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.
– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.
– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.
– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.
O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.
O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.
– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.
– Eu sei – disse o diabo, e seu rosto estava impassível.
– A divindade certamente não ignora que estou transgredindo deixando você entrar; porém Deus está tão distante que quando sua punição chegar já terei há muito deixado de existir. São poucos os que se dispõem a gastar a sua longevidade transpondo o espaço até ele.
E soltou o braço do diabo, que atravessou o limiar e desapareceu sala do trono adentro.
O trajeto até o trono de Deus demorou várias eternidades. As estrelas que o diabo trazia nos olhos se apagaram, e as flores perenes que trazia como presente converteram-se em sequidão e decrepitude e ele deixou-as no caminho, e o trono não chegava. Galáxias nasceram e morreram, e à sua sombra foi-se encurvando e distorcendo a espinha dorsal de todas as coisas, mas o diabo continuou andando. Atravessou resignadamente o silêncio das eras e a esterilidade dos mundos, e quando alcançou a outra extremidade da sala estava velho e cansado, e não trazia mais consigo nenhuma das certezas que lhe haviam iluminado o caminho.
Para sua surpresa, quando chegou ao fim do caminho não havia trono algum, nem qualquer indício da residência de Deus: só uma porta baixa com uma cortina barata de miçangas, e por trás dela um esplendor. O diabo bateu palmas uma vez, depois duas, e por fim uma voz o convidou a atravessar.
Ele afastou com as mãos as fileiras de contas, abaixou a cabeça e do outro lado encontrou um homem decrépito, desdentado, seminu e cheio de chagas, dormindo em imundícia sobre caixas de papelão numa avenida da cidade grande.
O diabo estava velho e cansado, mas seu rosto de diabo ainda era belíssimo, o corpo forte e obediente, os trajes impecáveis e magníficos. Ele reconheceu Deus imediatamente, ajoelhou-se sem qualquer recato sobre a imundícia, tomou-o nos braços e beijou-o longamente na boca sem dentes.
Depois tirou a capa e fez menção de cobrir com ela a nudez divina, mas Deus deteve sua mão com um braço raquítico.
– Não, não faça isso! Minha nudez e minha velhice e minha fome são meu brasão nobiliárquico, e decidi há muito tempo não tentar, até o final, seduzir os homens com outro recurso.
– Mas Deus – implorou o diabo, – eu atravessei eternidades e dormi no vácuo entre as estrelas só para poder finalmente declarar-lhe o meu amor! Permita-me vesti-lo, alimentá-lo e acalentá-lo, para que minha jornada não tenha sido em vão! Permita que eu o carregue de volta até o Paraíso, onde os santos lhe tratarão as chagas, onde os anjos lhe alimentarão de pão e onde a luz sem mácula da santidade lhe restaurará a saúde e a glória!
Mas Deus apertou a mão do diabo e olhou-o firmemente nos olhos.
– Não, não, mil vezes não! Não posso retribuir o seu amor, porque minha paixão é outra – e nesse ponto Deus apertou ainda mais o cingir dos dedos, – mas eu aceito o seu amor. Eu o aceito e o perdoo, como você vai perdoar o meu. A mim também disseram que a viagem seria impossivelmente longa e que, quando eu chegasse, aquele que amo não seria capaz de me reconhecer. A mim também disseram que o encontro com meu amado representaria o meu imediato e derradeiro fim, e que tudo que há de bom e virtuoso em mim seria imediatamente consumido pela minha decisão de partilhar da sua condição. A mim também disseram que neste trajeto o risco seria apenas meu, e que eu estaria derramando em vão o mais precioso amor por quem se mostraria inteiramente incapaz de aceitá-lo e de retribuir.
E o diabo chorava convulsivamente.
– Mas – e Deus levantou sobrancelhas patéticas e sorriu com três ou quatro dentes, – valeu à pena. É por isso que convém até o final que o homem me veja assim, sem qualquer disfarce, para que possa quem sabe me reconhecer e me amar.
O diabo então sentou-se em seus trajes magníficos ao lado da divina miséria, e dormia abraçado a Deus para proteger-lhe do frio, e exultava quando um homem parava um instante para deitar aos seus pés uma moeda ou um pedaço de pão. E de noite acordava sobressaltado, quando não tinha certeza se ainda ouvia no divino peito o divino coração.
Paulo Brabo - A Bacia das Almas
Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.
– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.
Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.
– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.
– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.
– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.
– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.
O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.
O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.
– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.
– Eu sei – disse o diabo, e seu rosto estava impassível.
– A divindade certamente não ignora que estou transgredindo deixando você entrar; porém Deus está tão distante que quando sua punição chegar já terei há muito deixado de existir. São poucos os que se dispõem a gastar a sua longevidade transpondo o espaço até ele.
E soltou o braço do diabo, que atravessou o limiar e desapareceu sala do trono adentro.
O trajeto até o trono de Deus demorou várias eternidades. As estrelas que o diabo trazia nos olhos se apagaram, e as flores perenes que trazia como presente converteram-se em sequidão e decrepitude e ele deixou-as no caminho, e o trono não chegava. Galáxias nasceram e morreram, e à sua sombra foi-se encurvando e distorcendo a espinha dorsal de todas as coisas, mas o diabo continuou andando. Atravessou resignadamente o silêncio das eras e a esterilidade dos mundos, e quando alcançou a outra extremidade da sala estava velho e cansado, e não trazia mais consigo nenhuma das certezas que lhe haviam iluminado o caminho.
Para sua surpresa, quando chegou ao fim do caminho não havia trono algum, nem qualquer indício da residência de Deus: só uma porta baixa com uma cortina barata de miçangas, e por trás dela um esplendor. O diabo bateu palmas uma vez, depois duas, e por fim uma voz o convidou a atravessar.
Ele afastou com as mãos as fileiras de contas, abaixou a cabeça e do outro lado encontrou um homem decrépito, desdentado, seminu e cheio de chagas, dormindo em imundícia sobre caixas de papelão numa avenida da cidade grande.
O diabo estava velho e cansado, mas seu rosto de diabo ainda era belíssimo, o corpo forte e obediente, os trajes impecáveis e magníficos. Ele reconheceu Deus imediatamente, ajoelhou-se sem qualquer recato sobre a imundícia, tomou-o nos braços e beijou-o longamente na boca sem dentes.
Depois tirou a capa e fez menção de cobrir com ela a nudez divina, mas Deus deteve sua mão com um braço raquítico.
– Não, não faça isso! Minha nudez e minha velhice e minha fome são meu brasão nobiliárquico, e decidi há muito tempo não tentar, até o final, seduzir os homens com outro recurso.
– Mas Deus – implorou o diabo, – eu atravessei eternidades e dormi no vácuo entre as estrelas só para poder finalmente declarar-lhe o meu amor! Permita-me vesti-lo, alimentá-lo e acalentá-lo, para que minha jornada não tenha sido em vão! Permita que eu o carregue de volta até o Paraíso, onde os santos lhe tratarão as chagas, onde os anjos lhe alimentarão de pão e onde a luz sem mácula da santidade lhe restaurará a saúde e a glória!
Mas Deus apertou a mão do diabo e olhou-o firmemente nos olhos.
– Não, não, mil vezes não! Não posso retribuir o seu amor, porque minha paixão é outra – e nesse ponto Deus apertou ainda mais o cingir dos dedos, – mas eu aceito o seu amor. Eu o aceito e o perdoo, como você vai perdoar o meu. A mim também disseram que a viagem seria impossivelmente longa e que, quando eu chegasse, aquele que amo não seria capaz de me reconhecer. A mim também disseram que o encontro com meu amado representaria o meu imediato e derradeiro fim, e que tudo que há de bom e virtuoso em mim seria imediatamente consumido pela minha decisão de partilhar da sua condição. A mim também disseram que neste trajeto o risco seria apenas meu, e que eu estaria derramando em vão o mais precioso amor por quem se mostraria inteiramente incapaz de aceitá-lo e de retribuir.
E o diabo chorava convulsivamente.
– Mas – e Deus levantou sobrancelhas patéticas e sorriu com três ou quatro dentes, – valeu à pena. É por isso que convém até o final que o homem me veja assim, sem qualquer disfarce, para que possa quem sabe me reconhecer e me amar.
O diabo então sentou-se em seus trajes magníficos ao lado da divina miséria, e dormia abraçado a Deus para proteger-lhe do frio, e exultava quando um homem parava um instante para deitar aos seus pés uma moeda ou um pedaço de pão. E de noite acordava sobressaltado, quando não tinha certeza se ainda ouvia no divino peito o divino coração.
Paulo Brabo - A Bacia das Almas
sábado, 27 de agosto de 2011
Jesus: A revisão da identidade de Deus
Peço as mais sinceras desculpas aos amigos humanistas, os quais tenho na mais alta estima, que entendem ser o homem o protagonista da Bíblia. Permitam-me discordar e afirmar o contrário: Deus é o grande protagonista apresentado no sacro texto. A Bíblia é a biografia de Deus. Peço as mesmas sinceras desculpas aos amigos protestantes crentes ou somente protestantes, que igualmente estimo - que podem pensar que, embora tardiamente, estou me redimindo dos últimos escritos doutrinariamente escorregadios -, pois, quero fazer outras duas afirmações: Há um manifesto conflito na natureza divina, e o que consta no Novo Testamento é o registro da revisão da identidade de Deus.
A questão da imutabilidade de Deus choca-se com o fato inegável constatado no Antigo Testamento de que há em sua personalidade traços contraditórios, ao mesmo tempo em que se afirma que ele é o mesmo sempre e que sua natureza é invariável. O monoteísmo cristão ao tentar suprimir a incômoda tensão dinâmica no interior da divindade expressa pelo monoteísmo judeu, parece acalmar somente quando dissolve esses traços contraditórios e a notória mudança frequente do temperamento de Deus, na evidência de serem os registros originários de diferentes fontes antigas. A saída da crítica histórica para suavizar esse conflito e não desconsiderar totalmente o Antigo Testamento, foi explicá-lo através da referência aos vários autores que, ao empunharem a pena, carregaram a escrita com suas visões históricas pessoais. O que mais parece um politeísmo construído com muitas partes sob muitas mentalidades, e não há quem tenha argumentos suficientes para refutá-lo.
O conflito na natureza divina, para ser observado como tal, não deve ser analisado, tampouco descrito, através das conclusões da sistemática. Antes, deve ser considerado como demonstrado pela própria narrativa em curso, em que a personalidade de Deus aparece em progresso, como reação ao longo percurso palmilhado com os hebreus, de forma mais estreita, e com o resto do mundo, de forma mais ampla.
Uma personalidade ainda mais complexa do que a do Deus Único do Antigo Testamento emerge com Jesus no Novo Testamento, também no curso da narrativa. O Deus que não se insinua mais através de vapores, raios e imponentes eventos, o Deus encarnado encontrado na forma humana, Jesus de Nazaré, agora reivindica lentamente em sua passagem por estes campais provisórios, todas as funções que no passado foram desempenhadas por intermediários humanos. Ele é, de uma nova maneira, Adão, Moisés, Davi, Elias, Jonas. À imagem de Deus é o primogênito de uma nova criação. O cumpridor de toda a Lei que divulga uma nova Torá. O inaugurador de um novo Reino, um Reino que não é desse mundo, nem de visível aparência. O operador milagres que antevê o desenrolar da história até sua consumação. O único que sobe plenamente vivo e consciente da morada dos mortos depois de três dias morto.
A palavra que Deus antigamente proferia por intermédio de outros agora se fez carne e armou sua tenda entre nós.
Como se não bastasse um conflito na natureza de Deus, Jesus não só os tem como também os torna mais graves ao falar hora como Deus, hora como homem, dando de sobra referências textuais para quem deseja diminuir a tensão ao falar em duas naturezas habitando, cada uma com sua função bem definida, num mesmo ser. A crítica histórica tenta enfraquecer a crise, ao falar de diferentes Jesuses, maquiados por diferentes autores, para obterem retorno de diferentes ouvintes.
Ao ser reconhecido como o protagonista dos Evangelhos, o Deus encarnado traz consigo as lembranças da vida anterior de Deus, sua relação com o povo de Israel, tudo o que o povo lhe fez bem como tudo o que ele fez ao povo. O Deus que esteve aqui antes por meio da sua Shekinah, mas que silenciara por cerca de quatrocentos anos parecendo ter se retirado do mundo, agora está de volta como Deus Filho e cada esperança que um dia fora infundida na memória e tradição dos judeus é transferida para Jesus, que elimina algumas e incendeia outras.
Barnabé escrevendo aos Hebreus declara que tendo Deus antigamente falado por intermédio dos profetas, Jesus é quem em seu tempo deu o timbre definitivo à voz divina. Jesus é a palavra de Deus em pessoa. Se Jesus é a palavra de Deus o contrário também é verdade, as palavras de Deus proferidas anteriormente também são palavras de Jesus. A afirmação do evangelista de que Jesus era Deus encarnado, nos leva a crer que tudo o que ele faz, ensina, e sofre, é tudo o que por Deus é feito, ensinado e sofrido. Se não adotarmos a saída fácil proposta pela crítica histórica e tivermos fé nas palavras do Deus encarnado como palavras do Deus do Antigo Testamento, seremos levados a crer numa irônica revisão da identidade divina percebidas somente em progresso na narrativa. Jesus é, na forma mais improvável possível, o resultado dessa revisão.
Mas por que Deus agiu assim? Por que ele se fez homem? Mais ainda. Por que ao se tornar homem ele escolhe se tornar o tipo mais desprezível? Por que afinal de contas um leão resolve se comportar como um cordeiro?
Comparado a uma enorme fera devoradora no Antigo Testamento, um Deus que foi capaz de aniquilar sem esforço o maior exército-império do mundo antigo, por que agora se tornara um carpinteiro de vida comum que acaba seus dias com pouco mais de trinta anos como um maldito, trocado por um bandido e agonizando até a morte entre outros dois numa cruz?
O papel sacrificial que Jesus assume deixa seus discípulos perturbados, Pedro até tenta aliviar o pessimismo do mestre em relação ao prognostico que faz sobre si mesmo, e é repreendido como um Satanás por esse descuido. De início Nietzsche certamente teria concordado com Pedro e teria achado a encarnação como sendo o grande azar que se abateu sobre o Senhor dos Exércitos. Ao refletir um pouco mais, o dionisíaco Nietzsche capta melhor do que nós, apolíneos devotos, o significado da palavra da cruz que é loucura.
Deus ainda tem algo inconcebível a dizer sobre si, que só pode ser dito humilhando-se a si próprio. Para não destruir a esperança o Senhor de Toda a Terra arranjou um meio para ser ele próprio sentenciado à morte, não como qualquer um, mas como Rei dos Judeus, a assim substituir uma esperança vã que não irá se realizar – sair debaixo do julgo de Roma –, por outra possível de ser realizada. Aquilo que o Senhor dos Exércitos não pode conquistar através do poder das armas ocasionando na inevitabilidade da derrota da nação eleita e sua própria, o Deus encarnado substitui antecipando uma nova esperança, um tipo de vitória que o poder militar não pode conquistar.
A dupla natureza una em Cristo – não duas naturezas de Cristo – tornou possível à Deus valer-se de sua morte deixando expressa a pedagogia da formação de sua identidade, que não poderia ser demonstrada a menos que ele fosse encontrado em forma humana. Se, como Deus ele não pode cessar sua existência, como homem pode provar a morte, tornando dramática a mensagem, que por ser acintosamente violenta não há como ser comunicada em palavras. Derrotado por Roma e sentindo novamente o gosto amargo da opressão que havia experimentado com o cativeiro babilônico, Deus de maneira inesperada e surpreendente transforma a derrota em triunfo quando do rebaixamento a que se submete existir, ergue-se em exaltação no lenho. No gesto do Deus encarnado a ousadia transgressora em se deixar derrotar de uma maneira para triunfar de outra, afronta a mais pudorizada e aparada imagem que dele fazemos. O Deus de Israel, o Senhor de Toda Terra, foi confrontado na forma mais terrível e intensa possível, morrendo nas mãos do inimigo de seu povo eleito ao invés de libertá-lo e salvar-se a si próprio.
Como Leão da tribo de Judá Deus ruge e não pode ser ameaçado nem ser morto, no entanto, como Cordeiro, Deus emudece, é levado ao matadouro, esmagado e morto. No Novo Testamento a biografia de Deus em suas últimas páginas é revisada de forma extraordinária; ele desce às partes baixas da terra, torna-se um ser humano. Como o Deus das Eras ele não sabe o que é a morte, faltando-lhe algo. Para que possa ser completo, ele deve provar tudo com toda a intensidade. Como Jesus ele prova a morte e emerge como o primogênito dos mortos encorpando sua biografia, dando aos homens a possibilidade de se erguerem da morte juntamente com ele, conhecendo a vida eterna, unindo céu e terra, completando-se.
Transformando-se não em qualquer homem, mas neste homem, Jesus de Nazaré, morto nas mãos do inimigo, Deus provoca uma reversão aterrorizante em sua natureza, dando retoques finais em sua identidade, revisando-a completamente desde o início.
Alex Sandro Carrari
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Por que se desespera a maioria dos jovens haitianos?
Wooldy Edson Louidor
Colaborador de AlterPresse
Adital
Tradução: ADITAL
Bogotá, 23 de Agosto de 2011.
Por ocasião do Dia Mundial da Assistência Humanitária, no passado 19 de agosto de 2011, o Serviço Jesuíta a Refugiados (SJR) convidou a todos os atores envolvidos na intervenção humanitária no Haiti para unir-se e enfrentar um dos principais desafios do país, a saber: devolver a esperança à maioria das/os jovens haitianos.
Agora é o momento de perguntar-nos por que essa maioria de jovens haitianos se desespera.
O desespero dos pais de família
Ao escutar a vários jovens haitianos que fogem do Haiti em busca de oportunidades na América do Sul, nos surpreendemos com as principais razões colocadas por eles para explicar sua decisão de emigrar, fortemente determinada pela impossibilidade de viver com dignidade em seu próprio país.
Em primeiro lugar, se impõe uma observação preliminar. Nos fluxos migratórios haitianos para a América do Sul, a maioria são jovens e de distintas categorias: desde os mais pobres e os que sabem apenas ler e escrever, até os que provém de famílias de classe média e que terminaram o ensino médio; alguns até já são profissionais... Por exemplo, em um diagnóstico que o SJR acaba de realizar no Equador sobre os haitianos que vivem nesse país, 46% de um total de 283 migrantes entrevistados (majoritariamente jovens, entre 20 e 34 anos) esperava estudar enquanto que 16% disse que queria estudar e trabalhar.
Vários jovens que emigram para a América do Sul são apoiados economicamente por algum de seus parentes que vivem nos Estados Unidos e que estão dispostos a fazer grandes sacrifícios para retirá-los do Haiti e ajudá-los a encontrar um futuro melhor no exterior.
De fato, a grande maioria de jovens, enganados por traficantes que lhes prometeram bolsas de estudos, pagaram aos delinquentes entre 3 a 5 mil dólares americanos, para que os levassem para a América do Sul. As famílias se sacrificaram, vendendo tudo o que lhes restou após o terremoto e, inclusive, hipotecando suas propriedades, para investir no futuro de suas/seus filhas/os. Isto é, para retirar seus filhos de um país que não oferece nada, especialmente para os jovens, inclusive para os que já têm uma carreira profissional ou técnica. Em vez de deixar seus filhos nesse mar de incertezas, as famílias preferem correr o risco de entregá-los a desconhecidos com a esperança de que esses os levem para um destino melhor, aceitando pagar uma grande soma de dinheiro pela "ajuda”.
Durante esse ano, as autoridades equatorianas prenderam a um dos traficantes que enganava aos jovens haitianos, prometendo-lhes bolsas de estudo e, inclusive, oportunidades de emprego; porém, após alguns meses, o delinquente os expulsava da casa onde os tinha mal alojado, sem cumprir com nenhuma das promessas, após ter cobrado de 3 a 5 mil dólares americanos e mais outros gastos de alimentação, alojamento e transporte. Vários jovens, vítimas dos enganadores, quiseram regressar ao Haiti; mas, quando chegaram à sua comunidade de origem, seus pais diziam, desesperados: "e agora, o que vamos fazer?” Esses parentes sofreram não só por ter perdido o dinheiro que investiram, mas por ter perdido a esperança de poder oferecer um futuro melhor aos seus filhos.
O desespero dos próprios jovens
Muitas/os das/os jovens haitianos que encontramos no Brasil, no Equador ou no Chile nos expressaram o cansaço e o desespero que experimentam em seu país de origem ante a falta de perspectivas para o futuro.
Após o terremoto, os jovens e todo o país esperavam uma mudança profunda apesar de, ou melhor, em meio à dor e ao sofrimento que se vivia ante tantas mortes e perdas materiais e humanas.
À medida que o tempo passa, essa esperança vai se desvanecendo como um castelo de areia, já que, nas palavras dos próprios jovens, "a ajuda humanitária não tem servido para nada”; apenas para os interesses das próprias organizações internacionais e das organizações não governamentais (ONGs).
Os jovens criticam também a falta de seriedade e de vontade da comunidade internacional para iniciar o processo de reconstrução do Haiti, apesar de tantos fóruns internacionais e shows midiáticos. Além disso, sentem-se excluídos do planejamento da reconstrução, já que não levam em consideração nem sua participação e nem suas ideias e contribuições ao processo.
São também muito críticos com os políticos haitianos, a quem qualificam de "egoístas”, no sentido de que os últimos defendem somente seus interesses pessoais e os de seus grupos. Além disso, consideram que ditos políticos têm se mostrado incapazes para dar orientações destinadas a oferecer um futuro melhor ao país. Os jovens dão como exemplo a impossibilidade do presidente Martelly e do parlamento de chegarem a um acordo sobre a nomeação de um Primeiro Ministro para dirigir o novo governo. Dois candidatos, Gérard Daniel Rouzier e Bernard Honorat Gousse, que haviam sido designados anteriormente pelo chefe de Estado foram rechaçados pelo Poder Legislativo, no dia 21 de junho e no dia 2 de agosto passados, respectivamente. Atualmente, o chefe de Estado está dialogando e negociando –sem ter assegurada nenhuma possibilidade de êxito- com os parlamentares para poder dotar o país de um governo constitucional depois de cem dias desde que tomou posse como presidente (no passado 14 de maio).
A necessidade de dotar o Haiti de um governo é cada vez mais urgente diante da gravidade dos problemas socioeconômicos enfrentados no país, tais como a falta de acesso aos direitos fundamentais da população; a precariedade de suas condições de vida; sua vulnerabilidade aos desastres naturais, tais como os furacões. Por exemplo, nesse momento, o país está ameaçado pelo furacão Irene, pelo que as autoridades declararam alerta vermelho.
Outro exemplo: a presidência haitiana acaba de informar que a reabertura das aulas, programada para o dia 12 de setembro, acontecerá somente no dia 3 de outubro. A razão dessa decisão é "para permitir que a Presidência, os financiadores e a todas as outras partes envolvidas possam preparar-se melhor para esse momento, dada a situação política atual”, confessa a própria presid~encia em um comunicado de imprensa.
O desespero, talvez a mais profunda crise do Haiti
Talvez a crise mais profunda vivida no Haiti nesse momento seja esse desespero expressado pelos jovens haitianos, principalmente as e os que fugiram de seu país de origem para a América do Sul. E isso, mais do que o agravante da crise humanitária após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, da epidemia de cólera e dos desastres naturais, principalmente das intempéries e dos furacões da temporada ciclônica anual. Mais do que a crise sociopolítica atual provocada pela pugna entre o Poder Executivo e o Parlamento, bem como pelo deterioro cada vez mais profundo dos tecidos sociais e comunitários definidos como "capital social”.
Definitivamente, nem as autoridades haitianas durante a administração do ex-presidente René Préval, nem do atual chefe de Estado, Michel Martelly, nem da Comunidade Internacional conseguiram devolver aos jovens haitianos a esperança de que o país seja reconstruído o quanto antes. Essa é uma das principais razões de desespero da maioria dos jovens.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
O que você não está preparado para ouvir
De tudo que não sinto falta na experiência do cristianismo institucional (e a lista só tende a aumentar) há três ou quatro coisas cuja mera lembrança me leva o estômago a recuar em sincera repulsa. Tanto depois, hesito mesmo mencioná-las.
Aqui está uma: estar numa sala com um ou mais líderes, conversando livremente sobre qualquer assunto, até que alguém interrompe uma pausa com um suspiro e uma observação:
– Mas o povo não está preparado para ouvir isso.
Ou às vezes, com pureza ainda mais declarada de coração:
– Pena que o povo não está preparado para ouvir isso.
Nessa única frase e no silêncio solidário que a acompanhava nos congratulávamos por sermos naquela sala líderes esclarecidos tratando de assuntos controversos que uma parcela dos nossos ouvintes potenciais – dentre eles talvez você, potencialmente imaturo leitor, – não considerávamos pronta para enfrentar. Desejávamos que fosse diferente; queríamos muito que você fosse um cara maduro e que não corresse o risco de desmoronar diante do que teríamos para revelar. Mas a realidade era dura e determinadas coisas sentíamo-nos heroicamente obrigados a calar. Para poupar você.
Testemunhei esta cena tantas vezes, em tantos contextos com tantos protagonistas diferentes, que tenho de concluir que pelo menos metade dos líderes e pastores de todos os matizes (e isso para mencionar só a porção evangélica do cristianismo) propaga e endossa publicamente uma versão menos controversa da sua crença do que aquela que realmente abraça, e escondem essa falsidade ideológica por trás da conveniente piedade de estarem protegendo da confusão e da apostasia a porção mais despreparada (e, supõe-se, mais numerosa) do seu rebanho.
Naturalmente ninguém é obrigado a propagar aos quatro ventos aquilo em que realmente crê; eu mesmo deixei de fazer isso há muito tempo. Mas esses são caras que fizeram de propagar a sua fé a sua vocação e o seu modo de vida; são sujeitos que afirmam que o destino de cada um, inclusive o deles mesmos, depende de se abraçar e de se professar de modo sincero e consistente aquilo em que se crê. E o meu testemunho é este: grande parte desses caras (talvez a maioria) sonega da sua pregação pública aquilo em que realmente acredita. Alegam estar protegendo os mais fracos da controvérsia e da perplexidade, mas nisso protegem apenas a si mesmos. Porque, graças a Deus, o povo não está preparado para ouvir, então ninguém deve dizer.
Na prática isso quer dizer que muitos pastores e líderes estão deixando de partilhar informações, convicções e dúvidas que poderiam se mostrar grandemente libertadoras para pelo menos parte de seus ouvintes. E o fazem protegidos pelo álibi da melhor das intenções.
Para trazer à memória um exemplo espetacular dessa mentalidade, basta lembrar (e que seja entre nós a última vez) a omissão dos três últimos capítulos na edição brasileira de Culpa e graça, de Paul Tournier. Como ficou provado, a porção mais controversa, menos ortodoxa e mais libertadora do livro foi sumariamente sonegada dos leitores brasileiros – isso, porque, sem margem de dúvida, algum punhado de líderes decidiu muito piedosamente que aquilo “o povo não estava preparado para ouvir”.
Renira Cirelli, que foi com sua irmã gêmea uma das tradutoras originais do livro, mandou-me um email alguns dias depois de ler meu artigo sobre o assunto. Sua mensagem, da qual cito a seguir alguns parágrafos, fornece confirmação para uma história que já não se requeria grande esforço para reconstruir:
Brabo,
Que pena [que você não me contatou antes de escrever sobre o assunto]! Você ficaria conhecendo toda a verdade de uma testemunha ocular, auditiva e dinossáurica desde os idos de 1975 a 76. Isso mesmo, foi quando entreguei a versão completíssima nas mãos dos responsáveis pela Editora da ABU na época.
Demoraram dez anos para editar e publicar! Fizeram modificações na tradução, não mantiveram o estilo coloquial do Paul Tournier e cortaram os três últimos capítulos por acharem que a ABU seria hostilizada e estigmatizada como universalista.
Entregamos todos os 24 capítulos; não recebemos quase nada pelo trabalho (fizemos mesmo como missão), mas ficamos apaixonadas pelo Paul Tournier (ainda traduzi outra obra dele muitos anos depois). Fiquei muito brava com todos, porque só então descobri que cortariam os três últimos capítulos. Lembro-me como se fosse hoje do diálogo que mantivemos, eu em pé, vinda de ônibus, com um bloco imenso de folhas sulfite datilografadas nas mãos:
“Mas gente, o livro vai ter 18 capítulos sobre culpa e só 3 sobre graça! Vocês já vão alterar bastante o título original. Cada um que leia tudo e tenha seu próprio discernimento. Escrevam uma linha dizendo que a editora não se responsabiliza pelas ideias do autor, sei lá… isso não está certo!”
Voz vencida, mera serviçal do Reino… ainda fiz a tradução e versão das várias cartas daqui pra lá e de lá para cá (entre ABU e Delachaux & Niestlé, na Suíça). As cartas solicitavam a permissão da editora e do autor para serem retirados os três últimos capítulos. Eles concederam a permissão sem muita dificuldade.
Foi só desse modo, com seu conteúdo mais controverso devidamente represado, que o Culpa e graça chegou ao mercado e ao leitor brasileiro. Foi só desse modo que chegou às minhas mãos, talvez às suas: depois que gente mais iluminada do que nós certificou-se que só restava no volume impresso o que estávamos preparados para ouvir.
Culpa e graça foi publicado em 1985, mas fato é que – terceiro milênio adentro – estamos longe de abandonar a mentalidade que levou à mutilação do seu texto, porque ela é alimentada pela nossa própria obsessão em infantilizar e sermos infantilizados. A questão de meses eu conversava com um editor cristão que se via diante de dilema semelhante (e de tentação semelhante) com relação à publicação da tradução de um autor contemporâneo – e tratava-se de um texto em grande parte mais ortodoxo do que o de Tournier.
Ainda resta, e em todos nós, a tentação piedosa de censurar. John Stott era reconhecidamente conservador, mas opinou publicamente que o relato da criação em seis dias não deve ser tomado literalmente, e que o ser humano evoluiu a partir de formas de vida menos sofisticadas. Talvez você compartilhe dessa mesma convicção – mas concordará que essa é uma opinião que “o povo” está “preparado para ouvir”?
Parte do problema, naturalmente, está na importância excessiva doentia que atribuímos à opinião de pastores e líderes – para grande proveito deles, mas com a nossa conivência. É como se, se seu pastor por acaso se declarasse à favor da união entre homossexuais, você mesmo fosse obrigado a concordar com ele – ou a se casar com ele. Como se, se seu líder opinasse que a virgindade de Maria não deve ser entendida literalmente, você devesse imediatamente deixar de se ajoelhar diante de Jesus. Porque, em grande parte, estamos ligados à liderança deles de modo tão infantil que essas reações não seriam tão absurdas quanto parecem. Desprezamos os dogmas do catolicismo, mas apenas porque encontramos em nossos líderes e ortodoxias substitutos à mão.
A própria noção de pastores e líderes requerem que eles sejam mais ou menos infalíveis, e portanto pouco controversos. Além disso, e como observa meu amigo Ivan, ninguém vai querer servir-se de um líder que não se deixe manipular; se os líderes forem sempre sinceros e honestos serão sempre imprevisíveis – isto é, permanecerão inúteis para fins políticos. Em todos os casos, será menos custoso para todo mundo se eles deixarem de dizer o que realmente pensam. Mas a contrapartida é evidente: esse pacto de silêncio acaba apenas perpetuando a infantilidade que o impulsiona e patrocina. Dito mais claramente: enquanto não ouvirem determinadas opiniões, as pessoas jamais estarão preparadas para ouvi-las.
No fim das contas o que você não está preparado para ouvir talvez seja justamente isso: que o seu líder pode estar sonegando de você não só as convicções dele, mas as dúvidas dele – e isso quando por vezes basta uma dúvida compartilhada para promover uma verdadeira libertação. Por vezes a certeza de que mais desesperadamente carecemos é a de não estarmos sozinhos em nossas incertezas.
Um pastor que conheço bem certa vez alertou uma ovelha sua a meu respeito: “O Paulo é gente boa; só cuidado com o que ele escreve”. O sujeito achou aquilo adorável e veio me contar. Tive de alertar eu mesmo: “Seu pastor é muito gente boa; só cuidado com o que ele não escreve“.
O sujeito foi embora devidamente deliciado, e fiquei sozinho matutando o que Jesus teria dito se só tivesse dito o que estaríamos preparados para ouvir.
Fonte: Paulo Brabo
Leia também:
A fé que você não precisa ter
Aqui está uma: estar numa sala com um ou mais líderes, conversando livremente sobre qualquer assunto, até que alguém interrompe uma pausa com um suspiro e uma observação:
– Mas o povo não está preparado para ouvir isso.
Ou às vezes, com pureza ainda mais declarada de coração:
– Pena que o povo não está preparado para ouvir isso.
Nessa única frase e no silêncio solidário que a acompanhava nos congratulávamos por sermos naquela sala líderes esclarecidos tratando de assuntos controversos que uma parcela dos nossos ouvintes potenciais – dentre eles talvez você, potencialmente imaturo leitor, – não considerávamos pronta para enfrentar. Desejávamos que fosse diferente; queríamos muito que você fosse um cara maduro e que não corresse o risco de desmoronar diante do que teríamos para revelar. Mas a realidade era dura e determinadas coisas sentíamo-nos heroicamente obrigados a calar. Para poupar você.
Testemunhei esta cena tantas vezes, em tantos contextos com tantos protagonistas diferentes, que tenho de concluir que pelo menos metade dos líderes e pastores de todos os matizes (e isso para mencionar só a porção evangélica do cristianismo) propaga e endossa publicamente uma versão menos controversa da sua crença do que aquela que realmente abraça, e escondem essa falsidade ideológica por trás da conveniente piedade de estarem protegendo da confusão e da apostasia a porção mais despreparada (e, supõe-se, mais numerosa) do seu rebanho.
Naturalmente ninguém é obrigado a propagar aos quatro ventos aquilo em que realmente crê; eu mesmo deixei de fazer isso há muito tempo. Mas esses são caras que fizeram de propagar a sua fé a sua vocação e o seu modo de vida; são sujeitos que afirmam que o destino de cada um, inclusive o deles mesmos, depende de se abraçar e de se professar de modo sincero e consistente aquilo em que se crê. E o meu testemunho é este: grande parte desses caras (talvez a maioria) sonega da sua pregação pública aquilo em que realmente acredita. Alegam estar protegendo os mais fracos da controvérsia e da perplexidade, mas nisso protegem apenas a si mesmos. Porque, graças a Deus, o povo não está preparado para ouvir, então ninguém deve dizer.
Na prática isso quer dizer que muitos pastores e líderes estão deixando de partilhar informações, convicções e dúvidas que poderiam se mostrar grandemente libertadoras para pelo menos parte de seus ouvintes. E o fazem protegidos pelo álibi da melhor das intenções.
Para trazer à memória um exemplo espetacular dessa mentalidade, basta lembrar (e que seja entre nós a última vez) a omissão dos três últimos capítulos na edição brasileira de Culpa e graça, de Paul Tournier. Como ficou provado, a porção mais controversa, menos ortodoxa e mais libertadora do livro foi sumariamente sonegada dos leitores brasileiros – isso, porque, sem margem de dúvida, algum punhado de líderes decidiu muito piedosamente que aquilo “o povo não estava preparado para ouvir”.
Renira Cirelli, que foi com sua irmã gêmea uma das tradutoras originais do livro, mandou-me um email alguns dias depois de ler meu artigo sobre o assunto. Sua mensagem, da qual cito a seguir alguns parágrafos, fornece confirmação para uma história que já não se requeria grande esforço para reconstruir:
Brabo,
Que pena [que você não me contatou antes de escrever sobre o assunto]! Você ficaria conhecendo toda a verdade de uma testemunha ocular, auditiva e dinossáurica desde os idos de 1975 a 76. Isso mesmo, foi quando entreguei a versão completíssima nas mãos dos responsáveis pela Editora da ABU na época.
Demoraram dez anos para editar e publicar! Fizeram modificações na tradução, não mantiveram o estilo coloquial do Paul Tournier e cortaram os três últimos capítulos por acharem que a ABU seria hostilizada e estigmatizada como universalista.
Entregamos todos os 24 capítulos; não recebemos quase nada pelo trabalho (fizemos mesmo como missão), mas ficamos apaixonadas pelo Paul Tournier (ainda traduzi outra obra dele muitos anos depois). Fiquei muito brava com todos, porque só então descobri que cortariam os três últimos capítulos. Lembro-me como se fosse hoje do diálogo que mantivemos, eu em pé, vinda de ônibus, com um bloco imenso de folhas sulfite datilografadas nas mãos:
“Mas gente, o livro vai ter 18 capítulos sobre culpa e só 3 sobre graça! Vocês já vão alterar bastante o título original. Cada um que leia tudo e tenha seu próprio discernimento. Escrevam uma linha dizendo que a editora não se responsabiliza pelas ideias do autor, sei lá… isso não está certo!”
Voz vencida, mera serviçal do Reino… ainda fiz a tradução e versão das várias cartas daqui pra lá e de lá para cá (entre ABU e Delachaux & Niestlé, na Suíça). As cartas solicitavam a permissão da editora e do autor para serem retirados os três últimos capítulos. Eles concederam a permissão sem muita dificuldade.
Foi só desse modo, com seu conteúdo mais controverso devidamente represado, que o Culpa e graça chegou ao mercado e ao leitor brasileiro. Foi só desse modo que chegou às minhas mãos, talvez às suas: depois que gente mais iluminada do que nós certificou-se que só restava no volume impresso o que estávamos preparados para ouvir.
Culpa e graça foi publicado em 1985, mas fato é que – terceiro milênio adentro – estamos longe de abandonar a mentalidade que levou à mutilação do seu texto, porque ela é alimentada pela nossa própria obsessão em infantilizar e sermos infantilizados. A questão de meses eu conversava com um editor cristão que se via diante de dilema semelhante (e de tentação semelhante) com relação à publicação da tradução de um autor contemporâneo – e tratava-se de um texto em grande parte mais ortodoxo do que o de Tournier.
Ainda resta, e em todos nós, a tentação piedosa de censurar. John Stott era reconhecidamente conservador, mas opinou publicamente que o relato da criação em seis dias não deve ser tomado literalmente, e que o ser humano evoluiu a partir de formas de vida menos sofisticadas. Talvez você compartilhe dessa mesma convicção – mas concordará que essa é uma opinião que “o povo” está “preparado para ouvir”?
Parte do problema, naturalmente, está na importância excessiva doentia que atribuímos à opinião de pastores e líderes – para grande proveito deles, mas com a nossa conivência. É como se, se seu pastor por acaso se declarasse à favor da união entre homossexuais, você mesmo fosse obrigado a concordar com ele – ou a se casar com ele. Como se, se seu líder opinasse que a virgindade de Maria não deve ser entendida literalmente, você devesse imediatamente deixar de se ajoelhar diante de Jesus. Porque, em grande parte, estamos ligados à liderança deles de modo tão infantil que essas reações não seriam tão absurdas quanto parecem. Desprezamos os dogmas do catolicismo, mas apenas porque encontramos em nossos líderes e ortodoxias substitutos à mão.
A própria noção de pastores e líderes requerem que eles sejam mais ou menos infalíveis, e portanto pouco controversos. Além disso, e como observa meu amigo Ivan, ninguém vai querer servir-se de um líder que não se deixe manipular; se os líderes forem sempre sinceros e honestos serão sempre imprevisíveis – isto é, permanecerão inúteis para fins políticos. Em todos os casos, será menos custoso para todo mundo se eles deixarem de dizer o que realmente pensam. Mas a contrapartida é evidente: esse pacto de silêncio acaba apenas perpetuando a infantilidade que o impulsiona e patrocina. Dito mais claramente: enquanto não ouvirem determinadas opiniões, as pessoas jamais estarão preparadas para ouvi-las.
No fim das contas o que você não está preparado para ouvir talvez seja justamente isso: que o seu líder pode estar sonegando de você não só as convicções dele, mas as dúvidas dele – e isso quando por vezes basta uma dúvida compartilhada para promover uma verdadeira libertação. Por vezes a certeza de que mais desesperadamente carecemos é a de não estarmos sozinhos em nossas incertezas.
Um pastor que conheço bem certa vez alertou uma ovelha sua a meu respeito: “O Paulo é gente boa; só cuidado com o que ele escreve”. O sujeito achou aquilo adorável e veio me contar. Tive de alertar eu mesmo: “Seu pastor é muito gente boa; só cuidado com o que ele não escreve“.
O sujeito foi embora devidamente deliciado, e fiquei sozinho matutando o que Jesus teria dito se só tivesse dito o que estaríamos preparados para ouvir.
Fonte: Paulo Brabo
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A fé que você não precisa ter
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Vazio Perigoso
Ricardo Gondim
Sucessivos terremotos sacodem o mundo econômico e político. Malucos se estouram e explodem os demais por todos os lados. Há uma carência desesperada de segurança. As portas dos asilos parecem ter se escancarado. O mundo endoidou de vez.
Faltam heróis. O cenário parece pronto para o surgimento de algum messias. Um déjà vu maligno espreita a humanidade no perigo de guindar um doido varrido para algum posto de comando, como aconteceu na véspera da Segunda Guerra. Se chegar um fanfarrão que saiba oferecer sensação de controle, ganhará reconhecimento imediato.
Abriu-se a brecha para revolucionários de última hora encantarem multidões. Quem ousar, mesmo um populista sem vergonha, arrebata as massas. Um tirano que pareça desafiar o status quo será reverenciado sem grandes dificuldades. Enormes marchas aclamarão quem parecer com as rédeas nas mãos. O ego inflado de algum demagogo será massageado sem muito critério se ele apresentar soluções. Ficou fácil canonizar opiniões formatadas e surradas de qualquer caudilho corajoso de quinta categoria. Se parecer altivo, vícios, erros e estupidez, ficarão varridos sob os carpetes da eficiência. No prado da mediocridade, o especialista sempre se sobressai.
O perigo religioso também se tornou agudo. Na aridez do consumismo materialista, o porta-voz da divindade se agiganta. Basta um pouco de manipulação para que saiba fazer acreditar que resistir ao sacerdote significa resistir a Deus e que, obedecer os comandos do ungido, é obedecer aos comandos celestiais.
O campo anda fértil para farsantes competentes. O falso caridoso é bem sucedido em esconder seu egoísmo com choros. O santarrão comove com seu discurso meloso. O pseudo-casto, o prosaico beato de coração caiado, camufla sua torpeza com interjeições escandalosas contra a imoralidade. O avarento, o ganancioso, sabe discursar sobre a graça de contribuir e repartir.
Sim, os tempos estão sombrios. Resta acreditar no poder residual do bem. Se uma fagulha incendeia a floresta, esperemos que um tracinho de bondade resista a tudo isso. Esperemos que mansidão, antítese do abuso de poder, germine um novo amanhã, e que gentileza, irmã da graça, substitua a arrogância como marca da espiritualidade. Simplicidade pode, sim, estancar o avanço da prepotência, que transforma homens e mulheres em demônios.
O futuro depende de carisma não prevalecer acima de caráter, e de clichês não dissimularem empáfia. A humanidade aguarda a verdadeira espiritualidade se sobrepondo à competência; e que a próxima geração não se acomode na ingenuidade típica dos rebanhos. Mas que também não insista em repetir os erros que deixaram o mundo do jeito que está.
Soli Deo Gloria
Sucessivos terremotos sacodem o mundo econômico e político. Malucos se estouram e explodem os demais por todos os lados. Há uma carência desesperada de segurança. As portas dos asilos parecem ter se escancarado. O mundo endoidou de vez.
Faltam heróis. O cenário parece pronto para o surgimento de algum messias. Um déjà vu maligno espreita a humanidade no perigo de guindar um doido varrido para algum posto de comando, como aconteceu na véspera da Segunda Guerra. Se chegar um fanfarrão que saiba oferecer sensação de controle, ganhará reconhecimento imediato.
Abriu-se a brecha para revolucionários de última hora encantarem multidões. Quem ousar, mesmo um populista sem vergonha, arrebata as massas. Um tirano que pareça desafiar o status quo será reverenciado sem grandes dificuldades. Enormes marchas aclamarão quem parecer com as rédeas nas mãos. O ego inflado de algum demagogo será massageado sem muito critério se ele apresentar soluções. Ficou fácil canonizar opiniões formatadas e surradas de qualquer caudilho corajoso de quinta categoria. Se parecer altivo, vícios, erros e estupidez, ficarão varridos sob os carpetes da eficiência. No prado da mediocridade, o especialista sempre se sobressai.
O perigo religioso também se tornou agudo. Na aridez do consumismo materialista, o porta-voz da divindade se agiganta. Basta um pouco de manipulação para que saiba fazer acreditar que resistir ao sacerdote significa resistir a Deus e que, obedecer os comandos do ungido, é obedecer aos comandos celestiais.
O campo anda fértil para farsantes competentes. O falso caridoso é bem sucedido em esconder seu egoísmo com choros. O santarrão comove com seu discurso meloso. O pseudo-casto, o prosaico beato de coração caiado, camufla sua torpeza com interjeições escandalosas contra a imoralidade. O avarento, o ganancioso, sabe discursar sobre a graça de contribuir e repartir.
Sim, os tempos estão sombrios. Resta acreditar no poder residual do bem. Se uma fagulha incendeia a floresta, esperemos que um tracinho de bondade resista a tudo isso. Esperemos que mansidão, antítese do abuso de poder, germine um novo amanhã, e que gentileza, irmã da graça, substitua a arrogância como marca da espiritualidade. Simplicidade pode, sim, estancar o avanço da prepotência, que transforma homens e mulheres em demônios.
O futuro depende de carisma não prevalecer acima de caráter, e de clichês não dissimularem empáfia. A humanidade aguarda a verdadeira espiritualidade se sobrepondo à competência; e que a próxima geração não se acomode na ingenuidade típica dos rebanhos. Mas que também não insista em repetir os erros que deixaram o mundo do jeito que está.
Soli Deo Gloria
domingo, 14 de agosto de 2011
A fé que você não precisa ter
Ao longo da maior parte da história do cristianismo a fé que está sendo requerida de você não foi requerida do cristão comum. Pense séculos; não, pense um milênio ou dois. Durante mais de mil anos foi tomado como certo que a essência do cristianismo residia em outra coisa que não aquilo que aprendemos a associar à fé.
Nos primeiros mil e quinhentos anos, ser cristão foi visto como tentar imprimir sobre a vida real as implicações da revelação; nos últimos quinhentos anos ser cristão tem sido visto como acreditar (e tentar demonstrar) que o conteúdo da revelação aconteceu na vida real.
Essa distinção pode requerer elucidação mais extensa e reflexão mais profunda.
Basta entender, e entendido isso tudo ficará claro, que durante séculos a verossimilhança da narrativa judaico-cristã não precisou ser grandemente defendida ou colocada em dúvida. Durante esse período o conteúdo da revelação bíblica foi visto por judeus e cristãos como especialmente fidedigno e singular, e assim defendido contra revelações competidoras – mas não se requeria de quem se aproximava dessa revelação uma fé no mundo sobrenatural que já não estivesse presente no cidadão comum. Ninguém se preocupava em argumentar em favor ou estabelecer a credibilidade das alegações da Bíblia, porque as pessoas em geral acreditavam por si mesmas em deuses, milagres, aparições, demônios, portentos, feitiços, revelações, divinos embates e divinas paixões, intervenções de anjos e toda sorte de outras sobreposições do mundo invisível no mundo natural.
Durante mais de mil anos, portanto, a questão da factualidade da revelação cristã raramente entrou em discussão. A esmagadora maioria das pessoas acreditava ou estava predisposta a acreditar em alguma forma de mundo sobrenatural, pelo que não se requeria delas um esforço particular para que acreditassem na ressurreição dos mortos, na concepção virginal, numa criação em seis dias ou em Jesus andando sobre as águas. Todos os homens pressupunham algum conteúdo sobrenatural; a revelação cristã apenas apresentava sua descrição do mundo sobrenatural e de seus mecanismos como especialmente fidedigna.
Ninguém se preocupava muito, como fazem hoje alguns de nós, em insistir que o planeta inteiro esteve coberto de água durante o Dilúvio, ou que em situações de grandes stress seres humanos podem de fato suar sangue, ou que se pode comprovar cientificamente que homens e dinossauros caminharam lado a lado.
Como não se requeria fé para crer-se no conteúdo da revelação cristã, o foco da vida religiosa era mantido sobre a interpretação desse conteúdo particular. Para incontáveis gerações de cristãos, na verdade, a fé consistia no exercício de pesar e aplicar na vida real as implicações da narrativa cristã.
Esse mundo, naturalmente, não existe mais, e a maior parte de nós ignora que nossa presente atitude com relação à fé não se origina na tradição cristã ou nas ênfases da própria narrativa bíblica. A transição ocorreu quando deixamos de nos preocupar com o desafio do conteúdo da fé e desenvolvemos a obsessão de convencer o mundo e nós mesmos a acreditar nele.
A maré começou a mudar com o Renascimento, com a Reforma e com a a visão mecanicista da natureza que caracterizou a ciência a partir do século XVII. A virada definitiva, no entanto, parece ter coincidido historicamente com o raiar do Iluminismo – também chamado, muito significativamente, de Idade da Razão – movimento que afetou irresistivelmente a ciência, a política, as artes e o comportamento da porção ocidental do planeta, consolidando as tendências do que ficaria estabelecido como era Moderna. Foi esse o dia em que nasceu o nosso mundo.
A partir desse momento começamos todos a pensar de modo científico, racionalista e mecanicista, e – apesar de Woodstock, do movimento hippie, de Paulo Coelho e da Era de Aquário (e na verdade com a plena cumplicidade de todos eles) – nunca chegamos a aprender o caminho de volta. Tornamo-nos incapazes de enxergar o mundo com os olhos antigos.
O mundo que enxergamos hoje, o único mundo válido e admissível, é o da realidade física, palpável e mensurável; para ser devidamente aceito por nós, até mesmo Deus deve conformar-se a ele. Eventos sobrenaturais, se admitidos, devem ser considerados uma exceção ao fluxo natural e real das coisas; não somos mais capazes de abraçar a sério o conceito oposto, que predominava antes: de que o mundo físico é mera sombra de um mundo invisível maior e mais real.
Porém a revolução racionalista da era Moderna não apenas moldou o nosso modo de ver a natureza e a realidade; mais prenhe de consequências foi o fato de ter alterado para sempre o modo como pesamos a própria verdade.
Em particular, aprendemos a tomar verdade e factualidade como coisas idênticas ou inseparáveis. Hoje em dia, para nós a verdade é sempre factual – isto é, pertence ao âmbito da realidade física, podendo ser medida e atribuída a um ponto concebível do tempo e do espaço, quer submetendo-se ou sobrepujando as leis naturais, mas sempre confirmando-as. Se uma afirmação não é factual, para nós ela simplesmente não é verdade – e, talvez mais grave, não cremos que possa haver numa afirmação não-factual alguma medida de verdade. Aprendemos a contrastar verdade não apenas com mentira ou com inverdade, mas com superstição, com crença, com utopia, com ficção, com faz-de-conta – com fé.
Numa palavra, para nós verdade é o que pode ser verificado. Se a terra não foi criada em seis dias de 24 horas que poderiam ter sido medidos por um hipotético observador isento, a narrativa da criação em Gênesis 1 não diz a verdade. Se por ocasião do Dilúvio a água não cobriu comprovadamente o topo do monte Everest, e se a arca de Noé não tiver sido grande o bastante para comportar um casal de cada animal terrestre da criação, a Bíblia está faltando com a verdade. Se a virgindade de Maria por ocasião da sua concepção era de tal modo que não poderia ter sido verificada por uma criteriosa e hipotética junta médica multidisciplinar, não há verdade na alegação de Mateus de que Jesus nasceu de uma virgem. Se depois da crucificação Jesus não sofreu verificável morte cerebral seria incorreção dizer que ele ressuscitou, porque ele nunca teria estado tecnicamente morto. E assim por diante.
O incrível é que de fato cremos que se essas coisas não forem factuais nada temos a aprender com elas. De fato cremos que se não forem factuais não há nelas verdade alguma.
Essa crença de que a verdade se esgota no que pode ser verificado no mundo físico se mostraria inteiramente incompreensível para os grandes mestres da antiguidade, e isso antes, durante e depois de Jesus. Seria ainda duramente rejeitada se tentássemos convertê-los a ela os pelos primeiros cristãos – pois fica claro que criam que a verdade não é definida pela correspondência com a realidade física, mas pela correspondência com uma realidade espiritual: uma realidade narrativa ou literária com um arco maior e mais grandioso do que o da experiência crua do dia a dia. Criam, com o autor da carta aos Hebreus, que a fé não se fundamenta no que se pode ver, medir ou comprovar; criam que o mundo físico não esgota ou caracteriza a realidade, mas justamente o contrário: “o visível não foi feito daquilo que se vê”.
A questão é que não foram apenas os céticos e cientistas a abandonar o modo narrativo-espiritual de interpretar a realidade. Hoje em dia nem mesmo os religiosos tem verdadeiro acesso ao modo antigo de pensar e de destrinchar o mundo. Nossa transfiguração foi completa. Hoje em dia ateus e agnósticos combatem com argumentos científicos os que defendem uma verdade maior do que a do mundo físico, mas todos – especialmente os religiosos – parecem ignorar que o triunfo do racionalismo contaminou os dois lados da discussão, não apenas os que não creem.
Até mesmo os cristãos compraram a ideia de que se uma afirmação não for factual não há nela nenhuma verdade, e nessa única transação não só negamos todo o mistério que prometemos, mas nos rebaixamos a discutir a verdade nos termos de nossos antagonistas, para os quais a realidade se esgota no que há de mensurável neste mundo.
Por essa razão, muitos cristãos realmente acreditam que sua grande tarefa neste mundo é convencer os céticos de que as histórias de Gênesis ocorreram do modo e na cronologia em que estão narradas, que Jesus nasceu literalmente de uma virgem e ressurgiu corporeamente dos mortos, que sua gentileza quer nos livrar de um inferno físico para um céu físico – porque sentimos que se nada disso for factual, ou se alguma dessas coisas não for factual, a Bíblia não é verdadeira. Que, se essas coisas não forem verdadeiras no sentido de correspondência com o mundo físico, a mensagem cristã é uma absoluta farsa e o evangelho de Jesus um engano que nada tem a nos ensinar e não tem cacife para nos transformar.
É por isso necessário refazer o trajeto uma última vez, para que fique claro que durante mais de mil anos não foi assim. Na maior parte da história do cristianismo não ocorreu aos cristãos que sua tarefa fosse convencer as pessoas do inacreditável – porque, para praticamente todos, ela nada tinha de particularmente inacreditável.
Penso não haver engano em supor que antes da idade Moderna as pessoas, num certo sentido, eram tão céticas quanto somos hoje. Não suponho que estivessem em geral mais preparadas para acreditar na ressurreição dos mortos do que nós. Porém naquele tempo o desafio não seria convencê-las de que milagres acontecem, mas convencê-las de que determinados milagres de fato aconteceram. As leis que vemos hoje como “naturais” não haviam sido tabuladas ou estabelecidas, pelo que eventos miraculosos eram vistos menos como transgressões notórias da realidade do que como parte misteriosa dela – tão estranhos, digamos, como os fenômenos da memória, da imaginação, da reprodução, dos pesadelos, dos sonhos.
Perdemos esse modo integrado de ver as coisas, e é fundamental entendermos que essa foi uma mudança recente. A era Moderna catequizou-nos por completo com o dogma de que o que existe é o universo espaço-tempo, o mundo da massa, da matéria e da energia. Passamos a crer que o que sustenta a complexa realidade não é uma intervenção secreta do mundo invisível, mas um conjunto muito sensato e bastante ortodoxo de leis de causa e efeito que tudo sujeitam e tudo explicam. Em termos gerais, essas leis explicam tudo na nossa experiência, inclusive o que costumávamos chamar de alma e espírito. O mistério que resta é aparente: deve-se às leis naturais que ainda não aprendemos a tabular ou a interpretar.
O curioso é que, de tão catequizados que estamos, perdemos a noção do quanto é absurdo que gente que alegue alguma fidelidade com a tradição cristã compre uma ideia dessas. E a prova que compramos essa ideia está no tempo que gastamos defendendo milagres diante de quem aprendeu a duvidar deles. Se no universo das leis naturais (que representa a realidade última, como todos acreditam, até mesmo nós) milagres simplesmente não acontecem, nós esperneamos para que aconteçam – porque se os milagres da Bíblia não forem todos eles factuais, não há neles nenhuma verdade.
Duvidar da factualidade de um único milagre tornou-se o mesmo que duvidar da legitimidade de toda a revelação: o mesmo que duvidar do próprio Deus.
E enquanto céticos e crentes discutem circularmente sobre a factualidade dos milagres, deixamos de considerar o que consideraram gerações e gerações de cristãos: o que os milagres da narrativa bíblica tem a nos ensinar. Qual é o seu significado. O que representam. Quais são suas implicações na vida real, na minha vida e na sua.
Nosso literalismo, que alimentamos na esperança de preservar o conteúdo da mensagem bíblica, termina por sufocá-lo e apagá-lo por completo. Ficamos discutindo que se Jesus não nasceu literalmente de uma virgem, se não foi concebido literalmente pela divina semente portando o divino DNA, não pode ser tomado legitimamente como Filho de Deus – e perdemos de vista a maravilha e o mistério de que a história conte que o filho crucificado do carpinteiro tenha angariado a fama de filho de Deus, e a tenha angariado também para nós. Argumentamos que Adão e Eva devem ter sido personagens reais abocanhando uma fruta literal, do contrário desmoronaria por completo o edifício do Pecado Original e seu magnífico anexo, o da Redenção – e nisso deixamos de ouvir a história, que conta como a divina misericórdia soube abraçar com toda a maturidade as contradições da liberdade e os horrores sagrados do amor.
Nosso literalismo, ao invés de preservar a mensagem, acaba por nos proteger eficazmente dela; seu papel é devidamente anular qualquer efeito que a revelação poderia ter sobre nós. Quando afirmamos que para demonstrar fidelidade à herança cristã basta crer que essas coisas aconteceram, estamos efetivamente dizendo que nenhuma delas tem implicações. O dilema da fé foi transferido de como reagir ao conteúdo da revelação para simplesmente acreditarmos nele. Deus não morreu, mas é agora indistinguível de Papai Noel. Acreditemos em fadas, se não Sininho pode morrer.
Isso quando, por mil e quinhentos anos, cristãos de todas as estirpes debruçaram-se sobre essa mesma narrativa e ponderaram solenemente de que modo podiam ser efetivamente tocados por ela; pesaram o que verdadeiramente representava o nascimento virginal e a ressurreição; tiveram sonhos e visões, na tentativa de iluminar quais seriam as implicações desses milagres na sua própria experiência. Passaram a vida vasculhando essas histórias em busca da verdade profunda e misteriosa que transmitiam a cada um, enquanto passamos a vida asseverando diante dos outros a verdade que têm na superfície.
Porém milagres de fato acontecem, e nas últimas décadas a modernidade tem se transfigurado lentamente em pós-modernidade. Já há gente sensata falando abertamente contra o regime totalitário do razão, e alguns desses estão sendo ouvidos; o necessário paradoxo é que poucas dessas vozes são de cristãos, aqueles que deveriam ter se mantido mais enfaticamente céticos com relação à suficiência da razão em primeiro lugar.
Mas paciência, basta a cada dia o seu mal. Já há cristãos defendendo abertamente o que por séculos foi tomado como evidente, e que dito hoje poderá soar como heresia: que a verdade da mensagem bíblica e cristã não depende da sua factualidade. John Stott só morreu depois de defender publicamente que a criação em seis dias não deve ser entendida literalmente, e que Deus usou a evolução como seu legítimo instrumento. Outros cristãos lançam resignadamente as bases de uma teologia narrativa (isto é, teologia nenhuma), outros tem visões de um cristianismo secular, ainda outros postulam uma verdade que seja essencialmente parabólica – isto é, transversal, narrativa e profundamente pessoal: aquilo que costumávamos chamar de “espiritual”.
E não há como não enxergar esse princípio nas parábolas de Jesus. O significado de uma parábola – sua intrínseca verdade – não depende da sua factualidade. Insistir no ponto de que as parábolas de Jesus narram “fatos reais”, verificáveis no tempo e no espaço, equivaleria a perder deliberadamente de vista o seu propósito e o seu poder transformador1. Que demônio nos convence a insistir na factualidade – e não no significado – das demais histórias que cercam a boa notícia do evangelho?
Não pode ter sido por acaso, portanto, que Jesus escolheu revestir o seu ensino de um manto metafórico, apresentando-o na forma de pequenas narrativas que destacam diferentes aspectos de uma verdade que não poderia ser contemplada de forma mais direta. As parábolas de Jesus coroam e comprovam o princípio que temos nos recusado, ao longo de toda a era Moderna, a encarar de frente: o de que histórias não necessariamente verdadeiras podem estar absolutamente repletas de verdade.
E a reviravolta da coisa toda está nesse “não necessariamente”. Porque essa nova perspectiva absolutamente não requer que você negue a factualidade da narrativa bíblica. Ninguém está pedindo para você acreditar em milagres, ou para deixar de acreditar neles. Basta que nos deixemos transformar pela narração deles.
Tudo isso encontrei no segundo capítulo de The First Christmas, de Marcus J. Borg e John Dominic Crossan, e parei de ler o livro antes que ele passasse a se ocupar das narrativas propriamente ditas do Natal. Tive de parar, porque notícias tão portentosas requerem a mais solene das pausas.
Porque, se uma narrativa como a do nascimento de Jesus pode afetar-me independentemente da sua factualidade, não tenho mais como escapar dela. Não pode mais proteger-me quer meu ceticismo diante dos fatos descritos, quer minha convicção de que ocorreram exatamente como foram narrados. Se reconheço que a verdade mais essencial de uma história independe da sua correspondência servil com o mundo “real”, aproximo-me da história como se aproximaria dela uma pessoa, e não como faria uma mente desencarnada ou uma razão pura. E uma pessoa é um saco de contradições, mas um saco de contradições que a narrativa certa, ouvida com o devida humildade (isto é, com o devido assombro), pode chegar a balançar. Trata-se menos de almejar uma deliberada ingenuidade do que uma deliberada humanidade. E essa humanidade é precisamente o que requer a apreensão desta história, que fala de um Deus que revestiu-se de humanidade e revestiu a humanidade de um caráter divino.
Tenho sincero pavor de me aproximar da Bíblia com essa postura, porque meu racionalismo e meu filosofismo não tem mais como me manter à salvo dela. Terei de me deparar, como Kierkegaard, com a desolação e a vertigem de estar “sozinho com o Novo Testamento”.
A fé que se requer de mim não é a de acreditar nessa história, mas a de vulnerabilizar-me diante dela. A de deixar-me afetar. A fé passa a ser postar-me como gente diante dos desafios de uma narrativa comum de que posso incrivelmente fazer parte, o desafio de conformar-me e inconformar-me ao fato de partilhar dessa humanidade e dessa imagem de Deus, o desafio de ser quem sabe curado por essa divina perspectiva, essa divina perplexidade.
Fonte: Paulo Brabo
Leia também:
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Qual mito
Mito e metáfora
Minha fé não é aquilo em que acredito
NOTAS
O que não impediu um um pastor que conheci de asseverar que todas as parábolas contadas por Jesus (digamos, a do negociante de pérolas e a da centésima ovelha) aconteceram necessariamente na vida real, porque Jesus não se rebaixaria a contar uma mentira. [↩]
Nos primeiros mil e quinhentos anos, ser cristão foi visto como tentar imprimir sobre a vida real as implicações da revelação; nos últimos quinhentos anos ser cristão tem sido visto como acreditar (e tentar demonstrar) que o conteúdo da revelação aconteceu na vida real.
Essa distinção pode requerer elucidação mais extensa e reflexão mais profunda.
Basta entender, e entendido isso tudo ficará claro, que durante séculos a verossimilhança da narrativa judaico-cristã não precisou ser grandemente defendida ou colocada em dúvida. Durante esse período o conteúdo da revelação bíblica foi visto por judeus e cristãos como especialmente fidedigno e singular, e assim defendido contra revelações competidoras – mas não se requeria de quem se aproximava dessa revelação uma fé no mundo sobrenatural que já não estivesse presente no cidadão comum. Ninguém se preocupava em argumentar em favor ou estabelecer a credibilidade das alegações da Bíblia, porque as pessoas em geral acreditavam por si mesmas em deuses, milagres, aparições, demônios, portentos, feitiços, revelações, divinos embates e divinas paixões, intervenções de anjos e toda sorte de outras sobreposições do mundo invisível no mundo natural.
Durante mais de mil anos, portanto, a questão da factualidade da revelação cristã raramente entrou em discussão. A esmagadora maioria das pessoas acreditava ou estava predisposta a acreditar em alguma forma de mundo sobrenatural, pelo que não se requeria delas um esforço particular para que acreditassem na ressurreição dos mortos, na concepção virginal, numa criação em seis dias ou em Jesus andando sobre as águas. Todos os homens pressupunham algum conteúdo sobrenatural; a revelação cristã apenas apresentava sua descrição do mundo sobrenatural e de seus mecanismos como especialmente fidedigna.
Ninguém se preocupava muito, como fazem hoje alguns de nós, em insistir que o planeta inteiro esteve coberto de água durante o Dilúvio, ou que em situações de grandes stress seres humanos podem de fato suar sangue, ou que se pode comprovar cientificamente que homens e dinossauros caminharam lado a lado.
Como não se requeria fé para crer-se no conteúdo da revelação cristã, o foco da vida religiosa era mantido sobre a interpretação desse conteúdo particular. Para incontáveis gerações de cristãos, na verdade, a fé consistia no exercício de pesar e aplicar na vida real as implicações da narrativa cristã.
Esse mundo, naturalmente, não existe mais, e a maior parte de nós ignora que nossa presente atitude com relação à fé não se origina na tradição cristã ou nas ênfases da própria narrativa bíblica. A transição ocorreu quando deixamos de nos preocupar com o desafio do conteúdo da fé e desenvolvemos a obsessão de convencer o mundo e nós mesmos a acreditar nele.
A maré começou a mudar com o Renascimento, com a Reforma e com a a visão mecanicista da natureza que caracterizou a ciência a partir do século XVII. A virada definitiva, no entanto, parece ter coincidido historicamente com o raiar do Iluminismo – também chamado, muito significativamente, de Idade da Razão – movimento que afetou irresistivelmente a ciência, a política, as artes e o comportamento da porção ocidental do planeta, consolidando as tendências do que ficaria estabelecido como era Moderna. Foi esse o dia em que nasceu o nosso mundo.
A partir desse momento começamos todos a pensar de modo científico, racionalista e mecanicista, e – apesar de Woodstock, do movimento hippie, de Paulo Coelho e da Era de Aquário (e na verdade com a plena cumplicidade de todos eles) – nunca chegamos a aprender o caminho de volta. Tornamo-nos incapazes de enxergar o mundo com os olhos antigos.
O mundo que enxergamos hoje, o único mundo válido e admissível, é o da realidade física, palpável e mensurável; para ser devidamente aceito por nós, até mesmo Deus deve conformar-se a ele. Eventos sobrenaturais, se admitidos, devem ser considerados uma exceção ao fluxo natural e real das coisas; não somos mais capazes de abraçar a sério o conceito oposto, que predominava antes: de que o mundo físico é mera sombra de um mundo invisível maior e mais real.
Porém a revolução racionalista da era Moderna não apenas moldou o nosso modo de ver a natureza e a realidade; mais prenhe de consequências foi o fato de ter alterado para sempre o modo como pesamos a própria verdade.
Em particular, aprendemos a tomar verdade e factualidade como coisas idênticas ou inseparáveis. Hoje em dia, para nós a verdade é sempre factual – isto é, pertence ao âmbito da realidade física, podendo ser medida e atribuída a um ponto concebível do tempo e do espaço, quer submetendo-se ou sobrepujando as leis naturais, mas sempre confirmando-as. Se uma afirmação não é factual, para nós ela simplesmente não é verdade – e, talvez mais grave, não cremos que possa haver numa afirmação não-factual alguma medida de verdade. Aprendemos a contrastar verdade não apenas com mentira ou com inverdade, mas com superstição, com crença, com utopia, com ficção, com faz-de-conta – com fé.
Numa palavra, para nós verdade é o que pode ser verificado. Se a terra não foi criada em seis dias de 24 horas que poderiam ter sido medidos por um hipotético observador isento, a narrativa da criação em Gênesis 1 não diz a verdade. Se por ocasião do Dilúvio a água não cobriu comprovadamente o topo do monte Everest, e se a arca de Noé não tiver sido grande o bastante para comportar um casal de cada animal terrestre da criação, a Bíblia está faltando com a verdade. Se a virgindade de Maria por ocasião da sua concepção era de tal modo que não poderia ter sido verificada por uma criteriosa e hipotética junta médica multidisciplinar, não há verdade na alegação de Mateus de que Jesus nasceu de uma virgem. Se depois da crucificação Jesus não sofreu verificável morte cerebral seria incorreção dizer que ele ressuscitou, porque ele nunca teria estado tecnicamente morto. E assim por diante.
O incrível é que de fato cremos que se essas coisas não forem factuais nada temos a aprender com elas. De fato cremos que se não forem factuais não há nelas verdade alguma.
Essa crença de que a verdade se esgota no que pode ser verificado no mundo físico se mostraria inteiramente incompreensível para os grandes mestres da antiguidade, e isso antes, durante e depois de Jesus. Seria ainda duramente rejeitada se tentássemos convertê-los a ela os pelos primeiros cristãos – pois fica claro que criam que a verdade não é definida pela correspondência com a realidade física, mas pela correspondência com uma realidade espiritual: uma realidade narrativa ou literária com um arco maior e mais grandioso do que o da experiência crua do dia a dia. Criam, com o autor da carta aos Hebreus, que a fé não se fundamenta no que se pode ver, medir ou comprovar; criam que o mundo físico não esgota ou caracteriza a realidade, mas justamente o contrário: “o visível não foi feito daquilo que se vê”.
A questão é que não foram apenas os céticos e cientistas a abandonar o modo narrativo-espiritual de interpretar a realidade. Hoje em dia nem mesmo os religiosos tem verdadeiro acesso ao modo antigo de pensar e de destrinchar o mundo. Nossa transfiguração foi completa. Hoje em dia ateus e agnósticos combatem com argumentos científicos os que defendem uma verdade maior do que a do mundo físico, mas todos – especialmente os religiosos – parecem ignorar que o triunfo do racionalismo contaminou os dois lados da discussão, não apenas os que não creem.
Até mesmo os cristãos compraram a ideia de que se uma afirmação não for factual não há nela nenhuma verdade, e nessa única transação não só negamos todo o mistério que prometemos, mas nos rebaixamos a discutir a verdade nos termos de nossos antagonistas, para os quais a realidade se esgota no que há de mensurável neste mundo.
Por essa razão, muitos cristãos realmente acreditam que sua grande tarefa neste mundo é convencer os céticos de que as histórias de Gênesis ocorreram do modo e na cronologia em que estão narradas, que Jesus nasceu literalmente de uma virgem e ressurgiu corporeamente dos mortos, que sua gentileza quer nos livrar de um inferno físico para um céu físico – porque sentimos que se nada disso for factual, ou se alguma dessas coisas não for factual, a Bíblia não é verdadeira. Que, se essas coisas não forem verdadeiras no sentido de correspondência com o mundo físico, a mensagem cristã é uma absoluta farsa e o evangelho de Jesus um engano que nada tem a nos ensinar e não tem cacife para nos transformar.
É por isso necessário refazer o trajeto uma última vez, para que fique claro que durante mais de mil anos não foi assim. Na maior parte da história do cristianismo não ocorreu aos cristãos que sua tarefa fosse convencer as pessoas do inacreditável – porque, para praticamente todos, ela nada tinha de particularmente inacreditável.
Penso não haver engano em supor que antes da idade Moderna as pessoas, num certo sentido, eram tão céticas quanto somos hoje. Não suponho que estivessem em geral mais preparadas para acreditar na ressurreição dos mortos do que nós. Porém naquele tempo o desafio não seria convencê-las de que milagres acontecem, mas convencê-las de que determinados milagres de fato aconteceram. As leis que vemos hoje como “naturais” não haviam sido tabuladas ou estabelecidas, pelo que eventos miraculosos eram vistos menos como transgressões notórias da realidade do que como parte misteriosa dela – tão estranhos, digamos, como os fenômenos da memória, da imaginação, da reprodução, dos pesadelos, dos sonhos.
Perdemos esse modo integrado de ver as coisas, e é fundamental entendermos que essa foi uma mudança recente. A era Moderna catequizou-nos por completo com o dogma de que o que existe é o universo espaço-tempo, o mundo da massa, da matéria e da energia. Passamos a crer que o que sustenta a complexa realidade não é uma intervenção secreta do mundo invisível, mas um conjunto muito sensato e bastante ortodoxo de leis de causa e efeito que tudo sujeitam e tudo explicam. Em termos gerais, essas leis explicam tudo na nossa experiência, inclusive o que costumávamos chamar de alma e espírito. O mistério que resta é aparente: deve-se às leis naturais que ainda não aprendemos a tabular ou a interpretar.
O curioso é que, de tão catequizados que estamos, perdemos a noção do quanto é absurdo que gente que alegue alguma fidelidade com a tradição cristã compre uma ideia dessas. E a prova que compramos essa ideia está no tempo que gastamos defendendo milagres diante de quem aprendeu a duvidar deles. Se no universo das leis naturais (que representa a realidade última, como todos acreditam, até mesmo nós) milagres simplesmente não acontecem, nós esperneamos para que aconteçam – porque se os milagres da Bíblia não forem todos eles factuais, não há neles nenhuma verdade.
Duvidar da factualidade de um único milagre tornou-se o mesmo que duvidar da legitimidade de toda a revelação: o mesmo que duvidar do próprio Deus.
E enquanto céticos e crentes discutem circularmente sobre a factualidade dos milagres, deixamos de considerar o que consideraram gerações e gerações de cristãos: o que os milagres da narrativa bíblica tem a nos ensinar. Qual é o seu significado. O que representam. Quais são suas implicações na vida real, na minha vida e na sua.
Nosso literalismo, que alimentamos na esperança de preservar o conteúdo da mensagem bíblica, termina por sufocá-lo e apagá-lo por completo. Ficamos discutindo que se Jesus não nasceu literalmente de uma virgem, se não foi concebido literalmente pela divina semente portando o divino DNA, não pode ser tomado legitimamente como Filho de Deus – e perdemos de vista a maravilha e o mistério de que a história conte que o filho crucificado do carpinteiro tenha angariado a fama de filho de Deus, e a tenha angariado também para nós. Argumentamos que Adão e Eva devem ter sido personagens reais abocanhando uma fruta literal, do contrário desmoronaria por completo o edifício do Pecado Original e seu magnífico anexo, o da Redenção – e nisso deixamos de ouvir a história, que conta como a divina misericórdia soube abraçar com toda a maturidade as contradições da liberdade e os horrores sagrados do amor.
Nosso literalismo, ao invés de preservar a mensagem, acaba por nos proteger eficazmente dela; seu papel é devidamente anular qualquer efeito que a revelação poderia ter sobre nós. Quando afirmamos que para demonstrar fidelidade à herança cristã basta crer que essas coisas aconteceram, estamos efetivamente dizendo que nenhuma delas tem implicações. O dilema da fé foi transferido de como reagir ao conteúdo da revelação para simplesmente acreditarmos nele. Deus não morreu, mas é agora indistinguível de Papai Noel. Acreditemos em fadas, se não Sininho pode morrer.
Isso quando, por mil e quinhentos anos, cristãos de todas as estirpes debruçaram-se sobre essa mesma narrativa e ponderaram solenemente de que modo podiam ser efetivamente tocados por ela; pesaram o que verdadeiramente representava o nascimento virginal e a ressurreição; tiveram sonhos e visões, na tentativa de iluminar quais seriam as implicações desses milagres na sua própria experiência. Passaram a vida vasculhando essas histórias em busca da verdade profunda e misteriosa que transmitiam a cada um, enquanto passamos a vida asseverando diante dos outros a verdade que têm na superfície.
Porém milagres de fato acontecem, e nas últimas décadas a modernidade tem se transfigurado lentamente em pós-modernidade. Já há gente sensata falando abertamente contra o regime totalitário do razão, e alguns desses estão sendo ouvidos; o necessário paradoxo é que poucas dessas vozes são de cristãos, aqueles que deveriam ter se mantido mais enfaticamente céticos com relação à suficiência da razão em primeiro lugar.
Mas paciência, basta a cada dia o seu mal. Já há cristãos defendendo abertamente o que por séculos foi tomado como evidente, e que dito hoje poderá soar como heresia: que a verdade da mensagem bíblica e cristã não depende da sua factualidade. John Stott só morreu depois de defender publicamente que a criação em seis dias não deve ser entendida literalmente, e que Deus usou a evolução como seu legítimo instrumento. Outros cristãos lançam resignadamente as bases de uma teologia narrativa (isto é, teologia nenhuma), outros tem visões de um cristianismo secular, ainda outros postulam uma verdade que seja essencialmente parabólica – isto é, transversal, narrativa e profundamente pessoal: aquilo que costumávamos chamar de “espiritual”.
E não há como não enxergar esse princípio nas parábolas de Jesus. O significado de uma parábola – sua intrínseca verdade – não depende da sua factualidade. Insistir no ponto de que as parábolas de Jesus narram “fatos reais”, verificáveis no tempo e no espaço, equivaleria a perder deliberadamente de vista o seu propósito e o seu poder transformador1. Que demônio nos convence a insistir na factualidade – e não no significado – das demais histórias que cercam a boa notícia do evangelho?
Não pode ter sido por acaso, portanto, que Jesus escolheu revestir o seu ensino de um manto metafórico, apresentando-o na forma de pequenas narrativas que destacam diferentes aspectos de uma verdade que não poderia ser contemplada de forma mais direta. As parábolas de Jesus coroam e comprovam o princípio que temos nos recusado, ao longo de toda a era Moderna, a encarar de frente: o de que histórias não necessariamente verdadeiras podem estar absolutamente repletas de verdade.
E a reviravolta da coisa toda está nesse “não necessariamente”. Porque essa nova perspectiva absolutamente não requer que você negue a factualidade da narrativa bíblica. Ninguém está pedindo para você acreditar em milagres, ou para deixar de acreditar neles. Basta que nos deixemos transformar pela narração deles.
Tudo isso encontrei no segundo capítulo de The First Christmas, de Marcus J. Borg e John Dominic Crossan, e parei de ler o livro antes que ele passasse a se ocupar das narrativas propriamente ditas do Natal. Tive de parar, porque notícias tão portentosas requerem a mais solene das pausas.
Porque, se uma narrativa como a do nascimento de Jesus pode afetar-me independentemente da sua factualidade, não tenho mais como escapar dela. Não pode mais proteger-me quer meu ceticismo diante dos fatos descritos, quer minha convicção de que ocorreram exatamente como foram narrados. Se reconheço que a verdade mais essencial de uma história independe da sua correspondência servil com o mundo “real”, aproximo-me da história como se aproximaria dela uma pessoa, e não como faria uma mente desencarnada ou uma razão pura. E uma pessoa é um saco de contradições, mas um saco de contradições que a narrativa certa, ouvida com o devida humildade (isto é, com o devido assombro), pode chegar a balançar. Trata-se menos de almejar uma deliberada ingenuidade do que uma deliberada humanidade. E essa humanidade é precisamente o que requer a apreensão desta história, que fala de um Deus que revestiu-se de humanidade e revestiu a humanidade de um caráter divino.
Tenho sincero pavor de me aproximar da Bíblia com essa postura, porque meu racionalismo e meu filosofismo não tem mais como me manter à salvo dela. Terei de me deparar, como Kierkegaard, com a desolação e a vertigem de estar “sozinho com o Novo Testamento”.
A fé que se requer de mim não é a de acreditar nessa história, mas a de vulnerabilizar-me diante dela. A de deixar-me afetar. A fé passa a ser postar-me como gente diante dos desafios de uma narrativa comum de que posso incrivelmente fazer parte, o desafio de conformar-me e inconformar-me ao fato de partilhar dessa humanidade e dessa imagem de Deus, o desafio de ser quem sabe curado por essa divina perspectiva, essa divina perplexidade.
Fonte: Paulo Brabo
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Inseridas e entrelaçadas
Qual mito
Mito e metáfora
Minha fé não é aquilo em que acredito
NOTAS
O que não impediu um um pastor que conheci de asseverar que todas as parábolas contadas por Jesus (digamos, a do negociante de pérolas e a da centésima ovelha) aconteceram necessariamente na vida real, porque Jesus não se rebaixaria a contar uma mentira. [↩]
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