domingo, 2 de outubro de 2011

Comentários de pastor evangélico sobre Alzheimer causam agitação nos EUA


Erik Eckholm

A sugestão do pastor evangélico Pat Robertson de que um homem cuja esposa “se foi” devido ao mal de Alzheimer deve se divorciar dela, caso sinta a necessidade de uma nova companheira, provocou uma tempestade de condenação por parte de outros líderes cristãos, mas uma resposta mais mista, até mesmo compreensiva, por parte de médicos e defensores de pacientes.

Em seu programa de televisão, “The 700 Club”, na terça-feira, Robertson, um evangélico proeminente que já concorreu à presidência, recebeu um telefonema de um homem que perguntou como ele deveria aconselhar um amigo, cuja esposa estava com demência avançada e não mais o reconhecia.

“A esposa dele, como ele a conhece, se foi”, disse o autor da pergunta, e o amigo “está amargo com Deus por permitir que sua esposa esteja nessa condição, e agora ele começou a sair com outra mulher”.

“Isso é uma coisa terrivelmente difícil”, disse Robertson, claramente tendo dificuldade para encontrar um caminho naquela situação. “Eu odeio o Alzheimer. É uma das coisas mais terríveis, porque ali está o ente querido –a mulher ou homem que alguém amou por 20, 30, 40 anos, e de repente aquela pessoa se foi.”

“Eu sei que soa cruel”, ele prosseguiu, “mas se ele pretende fazer algo, ele deve se divorciar dela e começar tudo de novo, mas assegurar que ela receba os cuidados, que alguém cuide dela”.
Quando a co-apresentadora de Robertson no programa perguntou se aquilo era consistente com os votos matrimoniais, Robertson notou a promessa do “até que a morte nos separe”, mas acrescentou, “isso é um tipo de morte”.

Ele disse que a pergunta lhe apresentou um dilema ético além de sua capacidade de responder.
“Eu certamente não faria você se sentir culpada se decidisse que precisa ter uma companhia, que se sente só e precisa de companhia”, disse Robertson.

A reação de muitos líderes evangélicos, que veem o casamento tradicional, para toda a vida, como a pedra fundamental da moralidade e da sociedade, foi dura e de descrença.

“Isso é mais do que um embaraço”, escreveu Russell D. Moore, reitor da Escola de Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky, em um blog na quinta-feira. “Isso é mais do que cruel. Isso é um repúdio ao evangelho de Jesus Cristo.”

Mas Beth Kallmyer, diretora sênior de serviços da Associação do Alzheimer, em Chicago, se recusou a questionar os comentários de Robertson.

“Esta é uma doença desafiadora, devastadora e no final terminal, que afeta todo mundo de modo diferente”, ela disse. “O mais importante é que as famílias recebam ajuda.”

Na experiência da associação, ela disse, é raro as pessoas se divorciarem devido ao Alzheimer. Mas o Alzheimer pode durar anos ou décadas, piorando progressivamente.

“As decisões que as pessoas tomam são pessoais”, disse Kallmyer.

A médica Amanda Smith, diretora do Instituto do Alzheimer da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, disse sobre os comentários de Robertson: “Eu acho que ele tentou dar para alguém a liberdade de seguir em frente, mas ele levou em consideração apenas quem cuida, sem levar em consideração a paciente”.

“Mesmo quando alguém não reconhece um cônjuge como sendo especificamente seu cônjuge, frequentemente há uma familiaridade com a pessoa e uma sensação de conforto, especialmente se estiverem casados há décadas”, disse Smith.

Ao mesmo tempo, disse Smith, quando a doença está avançada, ela não vê nada errado com os prestadores de cuidados desenvolverem outros relacionamentos “que tragam alegria e preencham o vazio”. Da mesma forma, ela disse, “não há problema se um paciente em uma clínica encontra uma namorada com a qual se sentar ao jantar toda noite”.

James E. Galvin, neurologista que dirige uma clínica de demência no Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, disse que é errado afirmar que as pessoas com Alzheimer “se foram”, ou chamar seus últimos estágios de “um tipo de morte”.

“Apesar de ser verdade que nos estágios terminais os pacientes podem não estar plenamente cientes do que está acontecendo, eles tendem a reconhecer as pessoas que estão mais próximas deles”, disse Galvin.

“Com bons cuidados, as pessoas podem viver 15 a 20 anos com a doença, grande parte desse tempo em casa”, disse Galvin. Se eventualmente se mudarem para uma clínica e parecerem não saber o que está acontecendo ao seu redor, ele disse, então os cônjuges enfrentam uma “decisão individual” sobre quando e como desenvolver novos relacionamentos, baseada em religião e ética, não em ciência.

Robertson ajudou a transformar a Coalizão Cristã em uma força política formidável nos anos 90 e é um televangelista popular. Mas ao longo dos anos, ele também provocou fúria entre alguns cristãos conservadores, com declarações consideradas não ortodoxas para um grupo ou outro, incluindo a defesa da política de um só filho da China e as afirmações de que eventos terríveis como os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011 e o terremoto do Haiti foram punições de Deus.

“Poucos cristãos ainda levam Robertson a sério”, escreveu Moore, do seminário batista do Sul. “A maioria vira os olhos para cima e balança suas cabeças quando ele faz outro comentário bizarro.”

Por meio de um porta-voz, Robertson se recusou a falar sobre seus comentários na televisão.

Tradução: George El Khouri Andolfato

O que Copa e Olimpíadas fazem pelas cidades?

Por RENATA NEDER, da ONG Action Aid

“Bilhões de dólares foram gastos em estádios e outras obras, mas nós permanecemos em barracos sem energia. Eles pediram para a gente “sentir a Copa” [expressão usada no slogan oficial do evento], mas nós não sentimos nada além da dor da pobreza piorada pela dor da repressão. O dinheiro que deveria ser gasto urbanizando as comunidades mais pobres foi desperdiçado. A Copa do Mundo vai terminar no domingo e nós ainda seremos pobres.”

Essa foi a fala de um jovem de Johannesburgo durante a Copa do Mundo de 2010. Reflete o sentimento de muitos sul-africanos em relação ao evento.

Eu estive na África do Sul alguns meses antes do início da Copa. Encontrei um país em obras e muita gente reclamando. Mas, quando os jogos começam, os problemas costumam ser esquecidos. Passada a euforia do momento, começam as discussões sobre os impactos do evento, o uso dos recursos, quem se beneficiou realmente… e por aí vai.

Essa discussão não termina, porque acaba emendando nas discussões daqueles que já estão preocupados com o futuro das suas cidades que serão sede das próximas Copas e Olimpíadas. Já existem muitas informações disponíveis e que merecem atenção.

Em 2010, as Nações Unidas lançaram um relatório sobre o impacto das Olimpíadas nas cidades-sede. Os números são chocantes. Seul (1988): 15% da população foi desalojada, 48 mil edifícios foram destruídos. Pequim (2008): Um milhão e meio de pessoas foram removidas. Atlanta (1996): 15 mil pessoas removidas. E essas remoções e despejos, na maior parte das vezes, foram feitos de forma violenta e desrespeitando direitos básicos da população.

Além do impacto direto das obras e de como elas são feitas, também há o ponto importante de quem realmente se beneficia com a realização destes eventos. Na África do Sul, por exemplo, muitos homens e mulheres artesãos, comerciantes, vendedores, trabalhadores, etc, acreditaram que poderiam se beneficiar e aumentar um pouco sua renda durante os jogos. Mas não foi assim. Os pequenos comerciantes e artesãos não tiveram acesso aos estádios e arredores. Um perímetro de exclusividade foi criado ao redor dos estádios. Ali, apenas as grandes redes e marcas poderiam comercializar seus produtos. Resultado: quem lucrou foram as grandes empresas, não os sul africanos.

E falando em estádio… hoje, apenas um ano depois da Copa, já se discute na África do Sul a demolição de alguns dos estádios construídos. O custo da manutenção é alto demais, não justifica manter o “elefante branco” em pé.

E o que falar dos gastos? A Copa da África do Sul acabou custando 17 vezes mais do que o previsto inicialmente. Cidades que foram sede de mega eventos se endividaram além de suas capacidades e passaram muitos anos pagando a conta. È o caso de Atenas (2004) e Montreal (1976) que sediaram os Jogos Olímpicos.

Quanto mais investigamos, mais vemos cenários desanimadores. Mas, como disse o cientista político Antonio Gramsci, não devemos ficar apenas no pessimismo da razão. Devemos ter o otimismo da vontade.

O otimismo da minha vontade diz que é possível trilhar outros caminhos em que a realização de megaeventos esportivos promova inclusão social, gere renda e diminua desigualdades. Mas o caminho que leva a esse legado é o caminho da participação popular, da transparência, do controle social sobre as políticas e uso de recursos públicos.

O Brasil e o Rio de Janeiro podem aprender muito com outras experiências e escolher um caminho melhor para a realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016.

Extraído do sítio da revista “Época”. Leia aqui.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Eva arrependida e de luto


Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não dizer vaidoso demais).

Usariam, ao contrário, vestes humildes, de modo a transmitir uma aparência miserável, andando pelo mundo como Eva arrependida e de luto, a fim de através de toda veste de penitência expiar de modo mais completo aquilo que [cada uma de vocês] deriva de Eva:Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. a vergonha, quero dizer, do primeiro pecado, e a infâmia da perdição humana.

“Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção e em dor darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.”

E vocês não sabem que são, cada uma de vocês, uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês persiste nesta era; necessariamente, a culpa persiste também. 

Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a descerradora da árvore [proibida]; é a primeira desertora da lei divina. Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção – isto é, a morte, – até mesmo o Filho de Deus teve de morrer.

E você pensa ainda em adornar-se acima e além de sua túnica de pele? Ora, imagino que se no princípio do mundo os milesianos já criassem ovelhas, os serianos já fiassem árvores, os tirianos já tingissem, os frígios já bordassem com a agulha e os babilônios com o tear; se pérolas já cintilassem, se pedras de ônix já reluzissem e se o ouro já tivesse brotado do solo; se o espelho já tivesse se tornado coisa tão comum, então Eva, mesmo depois de expulsa do paraíso, mesmo depois de morta, teria também cobiçado todas essas coisas.
Não mais, portanto, a mulher deve agora desejar ou conhecer, se é que deseja voltar a viver, aquilo que quando viva não possuía nem conhecia. Todas essas coisas são a bagagem da mulher em seu estado de condenação e morte, instituídas como que para acentuar a pompa de seu funeral.

Tertuliano (160-220 d.C.), pai da igreja,
em Sobre a indumentária feminina

domingo, 25 de setembro de 2011

História em construção

Ricardo Gondim

Disseram-me que à medida que envelhecemos, melhor nos lembramos do passado. Não é verdade! Embora não esteja nem próximo da terceira idade, já posso constatar: muitos eventos se perderam irremediavelmente sob os escombros de um vento corrosivo chamado tempo.

Gostaria de lembrar o dia exato em que eu e meu pai saímos para colher cajus num matagal. Se eu cravasse essa data, seria meu feriado nacional. Elegeria como uma data mais importante que o natal ou a páscoa. Esse dia faz parte de minha memória mais remota. Não consigo registrar data mais antiga; e nela conquistei uma selva.

Vivíamos em um bairro muito ermo com um nome peculiar: Cocorote. Só depois de adulto, numa conversa informal, aprendi seu significado; quando um brigadeiro da Força Aérea Brasileira nos divertia em um jantar em sua homenagem, contando peculiaridades do mundo da aeronáutica. Sei que ele nem percebeu a minha felicidade quando jocosamente explicou o nome do meu primeiro bairro.

Inicialmente nos informou que os americanos usaram Fortaleza como pista de apoio e reabastecimento para poderem alcançar a costa da África na II Guerra Mundial. Como na cabeceira da pista de decolagem, corria o imponente rio Cocó, os aviões subiam na rota do Cocó – “The Coco Route”, em inglês. Anos depois, construíram algumas casas, entre cajueiros e denominaram aquelas redondezas de Cocorote – obviamente em “cearensês”. Foi ali, antes de nascer o bairro da Aerolândia, que armado de um bambu, derrubei infinitos cajus. Minha primeira bravura em um mundo selvagem.

Gostaria de lembrar uma história que ouvi da vovó Maria Cristina quando me punha para dormir. Ela embalava uma rede e me embriagava de sono com as travessuras de Pedro Malazarte, figura do folclore nordestino. Há pouco, bisbilhotando uma livraria, achei um Pequeno Dicionário de Lendas, Fábulas e Contos Populares Nordestinos.

Havia uma seção todinha para o tal Pedro Malazarte, peralta imaginário, aprontador de estripulias e que sempre se safa com uma lição de moral. Li o livro inteiro e não consegui associar nenhum dos relatos aos resíduos que ainda guardo dessas histórias fabulosas de minha infância. Se me lembrasse, emolduraria em minha sala. Com elas, iniciei-me pelo mundo da ficção, do romance. Com a voz doce de minha avó, viajei por mundo imaginários onde os gatos falavam, as botas papavam léguas e o final sempre era feliz.

Gostaria muito de lembrar da primeira música que ouvi em um ambiente evangélico, nos corredores da Liga Evangélica de Assistência – que abriga pessoas idosas e é mantido pela igreja presbiteriana. A família que me evangelizou, visitava esse abrigo todas as tardes de domingo, realizando culto entre os velhinhos. Logo ouvi cantando acompanhado por uma sanfona um homem cego, negro e com uma deformidade na pele horrível. Horrorizei-me com sua aparência: as pontas do seu nariz e orelhas cresciam como cogumelos gigantes. Mas sua música me marcou profundamente.

Narrava a vida dos personagens bíblicos que muito padeceram; depois afirmava que mesmo não possuindo nada nesse mundo, tinham o amor de Deus: “E por isso eram mais que milionários”. Se pudesse me lembrar dessa música, pediria para nunca mais cantarem “Parabéns para você” no meu aniversário. Esse seria o hino de minha vida. Para nunca esquecer que comecei a minha carreira cristã num asilo de velhos; ouvindo um cego negro e doente cantar que era mais que milionário.

Gostaria muito de me lembrar dessas coisas para ser grato, ser para sempre grato; ser com o meu coração, com o espírito grato a Deus, ele que me traz em seu regaço desde as minhas origens e com mãos de joalheiro escreve a minha história.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sexo e Poder

Paulo Brabo - A Bacia das Almas 

Que as três grandes ortodoxias que brotaram do tronco bíblico são sexualmente conservadoras não deve haver dúvida, mas às vezes penso que não gastamos tempo suficiente tentando determinar porquê. À primeira vista pode parecer que as coisas são assim porque religiões lineares como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tendem à ordenação e ao controle, e em seu processo civilizatório sentem-se impelidas a produzir mecanismos que refreiem o poder socialmente disruptivo do sexo. Desde o primeiro momento, afinal de contas, Deus aparece levantando restrições e barreiras que protejam sua criação de resvalar no caos original – e parece haver poucos emblemas mais unânimes e mais formidáveis do caos do que a multiforme, embriagadora e infracionável bagagem sexual humana.

Esse argumento de contenção do caos, pode estar ocultando, no entanto, uma lógica falha. Talvez seja vantajoso para o sistema, justamente a fim de manter o estado de coisas e perpetuar a dominação, sustentar artificialmente a ideia de que o sexo tem um poder socialmente disruptivo que na realidade não tem. Se o sexo não se mostrar na prática tão socialmente destrutivo quanto se supunha que fosse, as ortodoxias perderão grande margem de alavancagem em outras áreas. Esse, por si só, pode ser um excelente motivo para que as instituições mantenham sua ênfase na obediência estrita aos regulamentos: desse modo a base não comprovada dos seus argumentos permanecerá oculto pela cortina das proibições.

Mas estou me adiantando, e talvez da forma errada.

Talvez eu devesse colocar em cheque logo de início as suas preconcepções, e explicar que quando a Bíblia fala de sexo não está falando de pureza, mas de mecanismos de dominação. Onde parece estar falando de contatos proibidos entre corpos, está na verdade ilustrando e estabelecendo (e por vezes desafiando) jogos sociais de poder e mecanismos sociais de controle.

Para demonstrar adequadamente este ponto será necessário um livro que ainda não comecei a escrever. Por enquanto algumas indicações terão de bastar.

Antigo Testamento: a honra do macho

Para começar há o Antigo Testamento, e a vantagem de começarmos por aqui é que não há lugar em que essas coisas fiquem mais claras. Se as legislações do Pentateuco dão a impressão de ter um caráter chauvinista e patriarcal é porque em grande parte o tem. Essa ênfase fica muito clara nas passagens que regulamentam o sexo. Embora por vezes aparente estar tratando da questão geral da legitimidade dos contatos sexuais (de modo a beneficiar a todos), A principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação.o texto está essencialmente levantando barreiras sociais que protejam a honra do macho1 (de modo a legitimar a supremacia do ser humano adulto do sexo masculino).

Isso porque, como em muitas culturas da Antiguidade (e até recentemente em muitas culturas ocidentais), na esfera do Antigo Testamento a principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação. O sexo era tido como um ritual estilizado de poder e de submissão que refletia em privado uma diferença de status muito real na esfera social.

Nessa configuração, tomada como válida por muita gente ainda nos nossos dias, a própria anatomia é interpretada como confirmando o status superior do homem, primazia que a relação sexual periodicamente celebra. O homem tem papel ativo: ele supre, penetra, domina, possui e fertiliza; o papel da mulher é passivo: ela acolhe, é penetrada, é dominada, é possuída e é fertilizada. Tudo nessa visão clássica da relação, bem como nas palavras que escolhemos para descrevê-la, serve para maximizar o papel do homem e minimizar o papel da mulher. O ativo é honrado e valoroso, o passivo é submisso e desprezível2.

Parece haver pouca dúvida de que os povos da Antiguidade desenvolveram essa visão do sexo como emblema de dominação a partir da observação do comportamento dos animais, já que para muitos mamíferos superiores o sexo tem uma função claramente política, além da reprodutiva. O líder é via de regra o grande reprodutor, o macho fertilíssimo que tem o maior número de parceiras, e ele pode resolver ilustrar a sua superioridade e a submissão dos demais tomando como parceiros passivos até mesmo os machos abaixo dele na hierarquia.

Muito claramente, foi essa visão da sexualidade como registro social de dominação e controle, e não nenhuma inclinação homossexual generalizada, que levou os homens de Sodoma a rejeitar as filhas virgens de Ló em favor do sexo com os seus visitantes. Eram homens bárbaros que queriam mostrar barbaramente o seu poder; na sua visão de mundo, possuir visitantes ilustres simbolizaria mais formidavelmente a sua potência do que simplesmente violentar moças locais3.

Embora em muitos sentidos mais generosa, mais liberal e mais sofisticada do que as leis que regiam outros povos na mesma época, a legislação do Pentateuco toma como certa essa noção do sexo como ritual de dominação. Ele favorece claramente a ideologia da supremacia do macho, e deita medidas explícitas para proteger a sua honra. O adultério, por exemplo, é visto como transgressão especialmente grave não por violar a santidade da família4, mas porque representa uma afronta à honra e à potência/suficiência do homem casado/macho reprodutor.

O sexo entre homens é julgado “abominável” essencialmente pela mesma razão. Um homem não deve deitar-se com outro homem “como se fosse com mulher”, porque isso ilustraria uma relação de dominação e de submissão entre agentes que para o sistema devem permanecer invariavelmente dominantes – nunca submissos ou passivos. O banimento do comportamento homossexual não está embasado no intercâmbio entre corpos incompatíveis, mas na conotação politicamente inaceitável que uma relação “desigual” entre “iguais” é interpretada como tendo. Ambos os transgressores devem ser mortos: um porque aceita a submissão que denigre a honra inerente do macho, outro porque a proporciona.

Semelhantemente, de modo a manter a virtude masculina intocada, um homem não deve absolutamente deitar-se com uma mulher menstruada (isto é, inadequada e impura), e um homem com os testículos esmagados deixa de ter cacife para apresentar ofertas diante de Deus: tudo para que o homem ideal permaneça o grande dominador de honra intacta, o eficaz reprodutor suficiente e desimpedido.

Em conformidade com essa tendência, na Bíblia são sempre as mulheres que são estéreis, nunca os homens. Não conviria a um herói magnífico como Abraão mostrar-se deficiente (mesmo que divinamente suprido, como ocorre com Sara) nessa mais significativa das áreas. Em retrospecto, talvez a função original de Hagar e de Ismael na narrativa tenha sido apenas deixar claro além da dúvida que a culpa pela infertilidade do casal residia sobre Sara, não sobre seu marido.

Roland Boer estava apenas em parte brincando quando escreveu seu provocativo e constrangedoramente meticuloso artigo The Patriarch’s Nuts: Concerning the Testicular Logic of Biblical Hebrew (As bolas do patriarca: considerações sobre a lógica testicular do hebraico bíblico). Os autores do Antigo Testamento de fato criam que algo grande, sagrado e preferencialmente inviolável residia entre as coxas do ser humano do sexo masculino; isso fica evidente no uso quase reverente que fazem dos termos hebraicos que em português se traduzem comumente como “lombos” ou “coxa”, mas são eufemismo para regiões do corpo mais exclusivamente masculinas (como, por exemplo, na expressão “fruto dos teus lombos”). Os testículos, mais do que o pênis, eram tidos como residência da masculinidade e da iniciativa, e portanto daquilo que a humanidade tinha de mais íntegro, momentoso e admirável5.

Nesse mundo, em que o sexo era visto como registro social do status de dominação e de submissão de seus participantes, e os testículos como os tabernáculos mais sagrados da virtude, apenas as manifestações sexuais que não comprometiam a honra e a primazia do macho eram tidas como legítimas.

A seguir nesta série:
Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor

Sexo e poder

  1. Sexo e poder
NOTAS
  1. Embora também esteja, em menor grau, estabelecendo mecanismos que perpetuem a nação judaica diante da competição cultural e numérica dos povos que a circundam. []
  2. A religião do Antigo Testamento (e portanto a vida social do judaísmo antigo) estava estruturada de modo a perpetuar e ilustrar essa distância. No Templo de Jerusalém as mulheres não podiam aproximar-se do santo dos santos mais do que o pátio externo que levava o seu nome; nas sinagogas, seu espaço de adoração e de aprendizado delimitava uma distância e uma desigualdade semelhante. No tempo de Jesus, mais de mil anos depois da publicação do Pentateuco, não era de bom tom (porque seria desonroso para o homem) que um marido fosse visto falando em público com sua própria esposa. []
  3. Indícios muito claros desse modo de ver as coisas restam no nosso mundo e no nosso linguajar. Assim um homem ofendido pode dizer a outro “vou te foder” (querendo dizer “vou me vingar e mostrar quem é que manda”), e quem está numa situação difícil pode dizer “estou fodido” (querendo dizer “estou numa situação desfavorável e desprezível” []
  4. O Pentateuco parece ser muito tolerante com relação à poligamia, por exemplo, e tem pouco a condenar no homem casado que faz sexo com mulheres solteiras. []
  5. Em particular, e como observa Boer, manusear as gônadas de um homem adulto era visto como tendo implicações legais profundas. Quando quiseram obter um juramento inviolável de seu servo e de seu filho José, tanto Abraão quanto Isaque ordenaram: “Põe a mão debaixo da minha coxa e prometa” (Gênesis 24:2-3, 47-29). []

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Gênesis de uma igreja contemporânea

1 No princípio ele criou  a sua própria igreja, alugando um lugar para reunir algumas pessoas sem ter denominação alguma e declarou a si mesmo “pastor”.
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2 E a igreja era sem forma e vazia, mesmo assim algumas pessoas vieram apoiá-lo. E até então o Espírito de Deus pairava sobre a face daquele lugar.
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3 E o pastor disse: façamos uma oferta para arrumar a igreja e a oferta foi recolhida.
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4 E o pastor viu que a oferta e as pessoas eram boas e apoiavam suas idéias; então separou uma oferta para a igreja e outra para si mesmo.
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5 E o pastor chamou aquilo de doações para não pagar impostos e as que cobriam suas despesas foram chamadas de dízimo. E passou a tarde e a manhã pedindo dinheiro.
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6 Então disse o pastor: haja expansão entre os congregantes e separou as pessoas que o interessavam das que não interessavam muito.
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7 E fez o pastor uma expansão e separou os menores de idade e os chamou de crianças e adolescentes e os maiores de idade de: assembleia geral, grupo de homens, de mulheres, de adultos solteiros… E assim por diante.
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8 E o pastor chamou a expansão de “Minha igreja”. E passou a tarde e a manhã fazendo uma reunião especial para atrair mais pessoas.
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9 Então disse o pastor: Juntem-se aqueles que sabem tocar algum instrumento e descubram quem gosta de cantar. E isso aconteceu.
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10 E chamou o pastor os que tocavam e cantavam de “Meu grupo de louvor” e as outras pessoas de servos. E viu o pastor que isso era bom e lhe convinha.

11 Então disse o pastor: Surja dentre o povo quem venha para a igreja disposto a lavar e limpar os banheiros, cadeiras e deixar tudo arrumado e limpo. E isso aconteceu.
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12 Pois a igreja produzia pessoas de bom coração que ajudavam sem reclamar, pessoas que trabalhavam sem esperar nada em troca e sabiam em seu coração que aquilo que faziam  valia a pena, mesmo sem serem reconhecidos. E viu o pastor que para ele isso era bom e lhe convinha.
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13 E passaram a tarde e a manhã fazendo limpeza e arrumando o templo e colocavam todos dinheiro do próprio bolso para isso.
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14 Então disse o pastor: Haja luz e aparelhos de som para as reuniões e também para eventos especiais; pessoas que entendam de som e venham antes da reunião para preparar tudo e sejam tão comprometidos que posso reclamar se algo não ficou muito bom
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15 e dar ordens como se fossem meus empregados mesmo que nunca recebam um centavo sequer para isso e me servam por muitos anos. E isso aconteceu.
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16 E fez o pastor duas grandes equipes de líderes, os 12 líderes “importantes”, seus amigos e vice-líderes de célula para lhe obedecer sem precisar se relacionar com eles. Assim  nasceram as “estrelas”.
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17 E fez o pastor a expansão de sua igreja e chamou isso de “ministérios”
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18 para exercer domínio em todas as áreas de serviço, o tempo todo procrurando ofuscar os outros e fingindo ter elevados níveis de espiritualidade para alcançar uma posição de liderança. E viu o pastor que isso era bom nisso e o ajudava a controlá-los melhor.
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19 E houve durante a tarde e a manhã cursos de “liderança”.
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20 Disse o pastor: Produzam mais pessoas responsáveis ​​pelas crianças, porque são muito inquietas e distraem os pais da minha pregação da e hora da oferta.
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21 E criou os grandes animais do pastor e os traumas de infância, enchendo as crianças de histórias repetitivas em aulas chatas, professores sem preparação que só conseguiram  fazer que ninguém queria ouvi-lo. E lá estava o pastor que não era bom.
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22 O pastor parabenizou os líderes dizendo: “sejam frutíferos, multipliquem os membros de minha igreja, me tragam ofertas e relatos de pessoas que estão em rebeldia por não pensarem como eu para que possa convencê-las ou mandar embora. E os líderes concordaram.
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23 E houve durante a tarde e a manhã uma refeição apenas para os doze líderes.
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24 Então disse o pastor : Gravem um CD de louvor ao vivo de nossa congregação, um site, uma editora para os meus livros e tudo que seja necessário para que vejam como a minha igreja é mais moderna, mais abençoado e melhor que as outras . E isso aconteceu.
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25 E fez ele congressos de jovens, de mulheres, de homens, de líderes de louvor, teve livros publicados, CDs de música gravados; vendeu pregação, ingressos para cafés, seminários, pré-encontros, encontros, reuniões e pós-encontros. E viu o pastor que para ele isso era bom.
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26 Então disse o pastor : “Façamos Deus à minha imagem e semelhança, do jeito que sou e tudo que eu digo de bom ou de ruim, aceitável ou inaceitável, incluindo música, televisão, cinema, roupas, forma de falar, de liderar uma reunião e assim por diante. Mesmo quando não há base bíblica e são apenas meros caprichos serei respeitado. Quem pensar o contrário será julgados à revelia e expulso de minha igreja. Eu vou reinar sobre todos os membros da minha igreja dizendo: “Deus quer, Deus me disse, Deus me mostrou”, quando na realidade é apenas o que “eu digo, eu sinto e eu amo”


27 E o pastor criou Deus  à sua imagem… e Deus viu que isso não era bom.
tradução: Jarbas Aragão
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dica do Ricardo Gondim

sábado, 3 de setembro de 2011

A falta que o respeito faz


Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital


A cultura moderna, desde os seus albores no século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito. Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos(Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina. Em sua "Brevíssima Relação da Destruição das Indias” (1562) conta Bartolomé de las Casas, como testemunho ocular, que os espanhóis "em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, havendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana”(Décima Réplica). Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas e negociados como "peças” no mercado e consumidos como carvão na produção.

Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, de ciganos e de outros considerados inferiores.

Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como o mostrou bem Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado. Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e de autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco seja pessoas ou qualquer outro ser.

Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros” (Vozes 2010), adverte que se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.

O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Da Alsácia, era um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus” é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história; mas não são livros históricos. São teologias que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo. Abandonou a cátedra de teologia, deixou de dar concertos de Bach (era um de seus melhores intérpretes) e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E ai trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida.

Confessa explicitamente: "o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum sentido. O que importa mesmo é, tornar-se um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.

No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é: "Respeito diante da vida”, que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem”, diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver”. E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.

Como é urgente ouvir e viver esta mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.

[Leonardo Boff é autor de "Convivência, Respeito, Tolerância”, Vozes 2006].

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O diabo que se apaixonou por Deus

Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.

Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.

– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.

Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.

– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.

– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.

– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.

– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.

O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.

O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.

– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.

– Eu sei – disse o diabo, e seu rosto estava impassível.

– A divindade certamente não ignora que estou transgredindo deixando você entrar; porém Deus está tão distante que quando sua punição chegar já terei há muito deixado de existir. São poucos os que se dispõem a gastar a sua longevidade transpondo o espaço até ele.

E soltou o braço do diabo, que atravessou o limiar e desapareceu sala do trono adentro.

O trajeto até o trono de Deus demorou várias eternidades. As estrelas que o diabo trazia nos olhos se apagaram, e as flores perenes que trazia como presente converteram-se em sequidão e decrepitude e ele deixou-as no caminho, e o trono não chegava. Galáxias nasceram e morreram, e à sua sombra foi-se encurvando e distorcendo a espinha dorsal de todas as coisas, mas o diabo continuou andando. Atravessou resignadamente o silêncio das eras e a esterilidade dos mundos, e quando alcançou a outra extremidade da sala estava velho e cansado, e não trazia mais consigo nenhuma das certezas que lhe haviam iluminado o caminho.

Para sua surpresa, quando chegou ao fim do caminho não havia trono algum, nem qualquer indício da residência de Deus: só uma porta baixa com uma cortina barata de miçangas, e por trás dela um esplendor. O diabo bateu palmas uma vez, depois duas, e por fim uma voz o convidou a atravessar.

Ele afastou com as mãos as fileiras de contas, abaixou a cabeça e do outro lado encontrou um homem decrépito, desdentado, seminu e cheio de chagas, dormindo em imundícia sobre caixas de papelão numa avenida da cidade grande.

O diabo estava velho e cansado, mas seu rosto de diabo ainda era belíssimo, o corpo forte e obediente, os trajes impecáveis e magníficos. Ele reconheceu Deus imediatamente, ajoelhou-se sem qualquer recato sobre a imundícia, tomou-o nos braços e beijou-o longamente na boca sem dentes.

Depois tirou a capa e fez menção de cobrir com ela a nudez divina, mas Deus deteve sua mão com um braço raquítico.

– Não, não faça isso! Minha nudez e minha velhice e minha fome são meu brasão nobiliárquico, e decidi há muito tempo não tentar, até o final, seduzir os homens com outro recurso.

– Mas Deus – implorou o diabo, – eu atravessei eternidades e dormi no vácuo entre as estrelas só para poder finalmente declarar-lhe o meu amor! Permita-me vesti-lo, alimentá-lo e acalentá-lo, para que minha jornada não tenha sido em vão! Permita que eu o carregue de volta até o Paraíso, onde os santos lhe tratarão as chagas, onde os anjos lhe alimentarão de pão e onde a luz sem mácula da santidade lhe restaurará a saúde e a glória!

Mas Deus apertou a mão do diabo e olhou-o firmemente nos olhos.

– Não, não, mil vezes não! Não posso retribuir o seu amor, porque minha paixão é outra – e nesse ponto Deus apertou ainda mais o cingir dos dedos, – mas eu aceito o seu amor. Eu o aceito e o perdoo, como você vai perdoar o meu. A mim também disseram que a viagem seria impossivelmente longa e que, quando eu chegasse, aquele que amo não seria capaz de me reconhecer. A mim também disseram que o encontro com meu amado representaria o meu imediato e derradeiro fim, e que tudo que há de bom e virtuoso em mim seria imediatamente consumido pela minha decisão de partilhar da sua condição. A mim também disseram que neste trajeto o risco seria apenas meu, e que eu estaria derramando em vão o mais precioso amor por quem se mostraria inteiramente incapaz de aceitá-lo e de retribuir.

E o diabo chorava convulsivamente.

– Mas – e Deus levantou sobrancelhas patéticas e sorriu com três ou quatro dentes, – valeu à pena. É por isso que convém até o final que o homem me veja assim, sem qualquer disfarce, para que possa quem sabe me reconhecer e me amar.

O diabo então sentou-se em seus trajes magníficos ao lado da divina miséria, e dormia abraçado a Deus para proteger-lhe do frio, e exultava quando um homem parava um instante para deitar aos seus pés uma moeda ou um pedaço de pão. E de noite acordava sobressaltado, quando não tinha certeza se ainda ouvia no divino peito o divino coração.

Paulo Brabo - A Bacia das Almas
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