terça-feira, 24 de novembro de 2009

As Vontades de Deus


A vontade de Deus é um dos temas mais controversos da experiência cristã. Os teólogos costumam dizer que Deus tem três tipos de vontades: soberana, moral e específica. A vontade soberana é aquela que se realiza independentemente da concordância ou cooperação humana voluntária. Quando Deus quer agir, ninguém pode impedir: porta que Deus abre ninguém fecha e porta que Deus fecha ninguém abre. Considerando que Deus tem todo poder, isso significa não apenas que Ele pode decidir livremente (direito) como também que pode executar sua decisão (capacidade).

A vontade moral é aquela que reflete o caráter de Deus, em forma de mandamentos ou princípios. Não matar, não roubar, não mentir são bons exemplos. Mas também ser solidário, praticar a misericórdia, promover a justiça, agir com humildade, cultivar relacionamentos íntegros, honrar as promessas e não manipular pessoas também se encaixam na definição.

A vontade específica seria aquela que determina o plano detalhado de Deus para cada circunstância da vida de cada pessoa em particular, como por exemplo, o lugar onde vai estudar, a pessoa com quem vai casar, o emprego e a cidade onde vai morar. Por trás do conceito da vontade específica de Deus está a crença de que tudo o que acontece, desde que não seja um pecado cometido pela própria pessoa, é da vontade de Deus, pois Ele tem um propósito por trás de todas as situações da vida de todas e cada uma das pessoas. Quando alguém fica doente, é preterido para uma promoção ou é demitido do emprego, tem um carro roubado, uma viagem adiada ou uma visita inesperada, tudo foi causado ou permitido por Deus porque Ele quer fazer alguma coisa através daquele evento ou naquela situação específica. Além disso, também há a crença que Deus tem a decisão certa a ser tomada em cada circunstância da vida. A vontade específica, entretanto, mais se parece com a perspectiva pagã do determinismo e do fatalismo, a crença no destino, do que com a abordagem bíblica de um deus que cria seres humanos à sua imagem e semelhança, e portanto livres, e os convoca a que se tornem parceiros na administração da criação e na construção da história. Os cristãos não cremos em destino. Os cristãos acreditamos que Deus tem propósitos para a história humana, mas não tem tudo decidido, como se a humanidade fosse um conjunto de bonecos iludidos, acreditando que são responsáveis por suas histórias, mas na verdade são manipulados pelos dedos de Deus que determinam suas decisões.

É fato que Deus está presente e agindo em todas as situações da vida de todas as pessoas, e que nada acontece sem que Deus permita. Mas isso não significa que Deus é a causa de tudo o que acontece. Permitir é diferente de fazer acontecer. Também é verdade que Deus guia e orienta aqueles que buscam sua sabedoria. Mas isso é diferente de apontar a escolha certa, como se fosse um oráculo. Deus responde orações. Mas não manipula ninguém. Exceto quando livremente decide realizar seus propósitos. Mas aí já não se trata de vontade específica, mas soberana.

Ed René Kivitz

domingo, 22 de novembro de 2009

Deus Negro



Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração!
Eu, perdido num coreto,
Gritando: "Separação"!

Eu, você, nós...nós todos,
cheios de preconceitos,
fugindo como se eles carregassem lodo,
lodo na cor...
E, com petulância, arrogância,
afastando a pele irmã.

Mas,
estou pensando agora,
e quando chegar minha hora?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã?
Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,
se eu chegasse lá e um porteiro manco,
como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,
e eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei?
Se a sua mão tateasse pelo trinco,
como as mãos do cego que não ajudei?
Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei ?
Se uma criança me tomasse pela mão,
criança como aquela que não embalei,
e me levasse por um corredor florido, colorido,
como as flores que eu jamais dei?
Se eu sentisse o chão frio,
como o dos presídios que não visitei?
Se eu visse as paredes caindo,
como as das creches e asilos que não ajudei?
E se a criança tirasse corpos do caminho,
corpos que eu não levantei
dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
que era vagabundagem, mas era fome?

Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome.
E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,
da prostituta que eu usei,
ou do moribundo que não olhei,
ou da velha que não respeitei,
ou da mãe que não amei?
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,
porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
sei lá, só dei desgosto?

E, no fim do corredor, o início da decepção.
Que raiva, que desespero,
se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
o maldito funcionário, e até, até o padeiro,
todos sorrindo não sei de quê?
Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

Deus não está vestido de ouro. Mas como?
Está num simples trono.
Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção.
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara a cara, face a face,
sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!
Deus negro?

E Eu...
Racista, egoísta. E agora?
Na terra só persegui os pretos,
não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão? Que nada.

Meu Deus você é negro, que decepção!

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?
Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

Deus, eu não podia adivinhar.
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto, preto como o engraxate,
aquele que expulsei da frente de casa?

Deus, pregaram você na cruz
e você me pregou uma peça.
Eu me esforcei à beça em tantas coisas,
e cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,
nunca pensei em adivinhar sua cor.

Autor: Neimar de Barros

Curso de escutatória



Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve
nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Não peço que os tires do mundo...

João Cap. 17

Quando conhecemos a Cristo nossa tendência é esperar que nossa vida mude para melhor em todas as áreas. Aquela saúde impecável, aquele carro razoável, aquela casa própria, aquele amor para a vida toda. Todas estas coisas entram no nosso imaginário evangélico esperando que de alguma forma Deus nos tire da nossa realidade atual e nos transporte imediatamente para um novo mundo, onde todas estas coisas maravilhosas são reais nas nossas vidas.
Bom, nos convertemos e por estranho que pareça, nossa fé não nos tirou do mundo que viviamos, onde eramos desempregados ou doentes e não nos tornamos em homens de um "novo mundo" já no presente. Parece que a Vida Eterna não nos trouxe uma existência nova, onde iremos numa entrevista de emprego e seremos beneficiados por uma intervenção divina. Não parece que esta Vida Eterna traz algo como cura para nossas doenças, apesar de alguns receberem milagres raros e pontuais na história. Não parece que esta Vida Eterna nos torna imortais pois irmãos da fé também estam morrendo de diversas doenças.
Então que Vida Eterna é esta? Que novo mundo é este que não acontece já?
O que precisamos compreender é que quando cremos no Cristo Ressurreto, esta fé não nos tira de nossa realidade existencial. Nós continuamos inseridos nela. Continuamos sujeitos a um mundo onde o desemprego assola, a fome cresce, onde crianças tem morrido de aids e fome. Esta fé não nos tira do mundo, como Jesus disse em João Cap. 17:15 "Não rogo pois que os tire do mundo, mas que os proteja do Maligno".
Ele nos protege dentro da realidade que estamos inserido, mas não nos tira dela. Ele nos protege do Maligno sem nos tirar do mundo e da realidade que vivemos. Ele não nos transfere para uma nova realidade onde nada de mal nos possa acontecer, mas nos ajuda com seus ensinamentos a passar as tribulações do dia a dia.
Qual é o objetivo do Maligno? Nos tirar a Vida Eterna.
A Vida eterna não é nos tirar agora da realidade do nosso mundo e nos tornar protegidos de doenças, do desemprego ou de um mal que nos possa acontecer. Veja o que significa Vida Eterna na Bíblia: João Cap 17:3: "A Vida Eterna é esta: Que te conheçam, o único Verdadeiro Deus, e a Jesus Cristo, a quem enviaste".

Então a Vida Eterna não é proteção divina contra as horrendas realidades que vivemos no mundo? Não é uma Vida que nos tira deste mundo? Não! A Vida Eterna é conhecer a Deus e a Jesus.
Então Deus irá nos proteger do Maligno, não nos tirando da realidade que vivemos, mas nos guardando em conhecimento Dele e de Cristo.

Ai vem aquela frase famosa: "Oras, que vantagem Maria leva?" Não chamo isto de vantagem, mas privilégio em conhecer a Deus e a Jesus. Este conhecimento nos ajuda a entender-nos e desta maneira enfrentar os infortúnios da vida com uma outra mentalidade moral, espiritual, racional, nos tornando mais humanos como Cristo.

Nos não fazemos parte desta realidade, mas continuamos vivendo nela, para que possamos levar a Vida Eterna a outros. O mundo nos odeia por que o Reino de Deus é a contra-mão do mundo que vivemos.
Quando começarmos a inserir a realidade do Reino no mundo em que vivemos, não seremos bem quisto, mas é preciso, para que todos possam conhecer a Vida Eterna. Para que neste "mundo do qual não somos", possamos inserir com nossas mãos um pouco do "mundo do qual somos", que é o Reino de Deus, ao próximo, para que no Reino Vindouro sejamos um com o Pai assim como Cristo é com Ele.

Suênio Alves

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

In God We Trust



NEGÓCIOS DE DEUS: Minhas reflexões, em minha última crônica, sobre os descaminhos da Santíssima Trindade levaram-me a pensamentos mais perturbadores sobre o assunto. Notei que há alguns que chegam ao despudor de ligar o nome de Deus aos seus projetos capitalistas. Tal é ( ou foi ) a situação de um famoso banco, cujo nome não vou dizer para não sofrer retaliações no crédito, que tinha impressa, nos seus papeis, a seguinte frase: “ Nós confiamos em Deus.” ( Deveríam ter acrescentado: “ Mas não confiamos nos clientes”. ( Alguém definiu um banco como uma instituição que lhe empresta dinheiro se você provar que não precisa... )

Percebi logo que tal afirmação religiosa era inspirada nas notas de dolar americano que portam a declaração: “ In Gold we trust”. Perdão, perdão pelo lapso. Corrijo-me: “ In God we trust.” Ah! Confiam nada. Pois se confiassem iriam seguir os ensinamentos de Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra onde os ladrões minam e roubam... Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres.” Existirá algo mais contrário ao espírito bancário? Pode ser que o Deus deles seja diferente.

E há os outros, mais despudorados ainda, que ligam Deus à política. Político invocou o nome de Deus eu exconjuro! É coisa do demônio. O presidente Bush, para justificar sua guerra contra o Iraque, dizia que conversava todas as manhãs com Jesus. Que comovente! Como o presidente Bush é bom e cristão! Foi essa sua reza diária que lhe permitiu apresentar-se como o grande campeão do Eixo do Bem.

Faz muitos anos, eleição de Lula x Collor. Claro que eu votei no Lula e até escrevi um artigo que se tornou famoso! Aí uns petistas aqui de Campinas me telefonaram perguntando se eu assinaria um manifesto a favor do Lula. Mas é claro. Assino. Mas quero ler o manifesto primeiro. Não era um manifesto. Era um sermão com citações bíblicas do princípio ao fim. Refuguei imediatamente e disse: Se querem que eu assinem um manifesto dizendo que acho o Lula melhor que o Collor, contem comigo. Mas transformá-lo num personagem da história sagrada, num herói bíblico, isso não. Não assinei. Mas o PT parece ter uma vocação teológica. É explicavel, em virtude de suas conexões religiosas com setores da Igreja Católica. Ouvi que um líder teológico do PT disse que o Programa Fome Zero era a continuação da multiplicação dos pães. Se é, o PT é a continuação da encarnação de N. S. Jesus Cristo. E me lembro, faz muitos anos, do dito por um líder do PT,
que a cor vermelha da sua bandeira é o sangue de N.S. Jesus Cristo. Nesse caso o filme do Mel Gibson ganha, porque tem mais sangue.

Político que invoca Deus não fica bom. Político que invoca Deus tem um ditador morando dentro dele. Como o Bush. Se eu converso diariamente com Jesus, por que dar ouvidos à comunidade mundial? Jesus vale mais e eu ouço a voz de Jesus. As maiores barbaridades têm sido perpetradas na história por homens que as fizeram invocando o nome de Deus. Seríamos mais fieis a Deus se o deixássemos fora das nossas confusões políticas. Assim teríamos de assumir a responsabilidade pelo que fazemos sem jogar a culpa em Deus em cujo nome falamos.

Se não me engano as famosas marchas que antecederam a ditadura invocavam o nome de Deus. Marcha da Família com Deus... Não me lembro bem. E também o Salazarismo. E o Franquismo. Vejam o filme “A lingua da mariposas”. Vejam como os adversários políticos são eliminados pela acusação de impiedade e com a bênção da igreja. No Chile a mansa mãe de Deus foi promovida a generala do exército, comanda canhões,
metralhadoras e decreta mortes...

Rubem Alves

Perspectivas

NÃO VI E NÃO GOSTEI: Sou feito cachorro: não abocanho sem antes cheirar. Cheirei e não gostei do cheiro. Cheiro de sangue. O filme do Mel Gibson sobre a morte de Cristo. Não fui assistir. Meu Deus não tem cheiro de sangue. Tem cheiro de criança suada, quando volta dos brinquedos, como o descreveu Alberto Caeiro.

A psicanálise ensina que tudo o que a gente faz tem a cara da alma da gente. Conclui que o Mel Gibson é um poço de pecados para causar tanto sofrimento e N.S. Jesus Cristo. Cristo teve de sofrer aquilo tudo por causa dele. O filme, por tudo o que li, é uma expressão moderna de uma espiritualidade antiga que encontra os seus prazeres sado-masoquistas na contemplação de feridas, sangue e corações dilacerados por punhais.

Os santos são sempre uns sofredores. Não conheço nenhum santo sorridente, alegre com a vida. Estão todos sofrendo perfurados por flechas, punhas, afligidos por feridas, etc. Um Deus que precisa que os homens sofram tanto para se sentir apaziguado – eu não o chamaria de Deus. Eu o chamaria do oposto... Quem gosta de ver os homens sofrendo é o demônio.

O filme do Gibson tem por objetivo provocar sentimentos de dó e culpa naqueles que o vêem. Para que? Para poder dominá-los. Os que se sentem culpados são sempre fracos. Andam sempre de cabeça baixa. Estão sempre prontos a fazer a vontade daqueles frente aos quais se sentem culpados. Os judeus têm uma fina percepção do significado do sentimento de culpa. Inventaram essa piadinha. Uma mãe italiana, quando está furiosa com o filho, faz uma gritaria, joga pratos, pega o rolo de macarrão, o filho foge correndo pela porta enquanto ela diz: “Desgraçado, eu te mato...” A mãe judia, quando está furiosa com o filho, chega-se mansamente a ele, uma lágrima escorrendo pelo rosto, e diz bem baixinho: “Meu filho, eu me mato...”

Há um hino protestante que diz o que eu disse de maneira absolutamente clara: “ Morri, morri na cruz, por ti. Que fazes tu por mim?” A cruz, vista pelos olhos do Mel Gibson, não liberta. Escraviza. Por isso não gostei do filme.


Rubem Alves

Aos habitantes das cidades


Ed René Kivitz

Como podemos reagir à explosão de violência e terror que invadiram nossas cidades e nossas vidas nos últimos tempos? O que podemos fazer para não perdermos a alegria de viver, não nos alienarmos e não nos deixarmos dominar pelo medo e a insegurança? Podemos ouvir palavra de Deus:


"Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia: 'Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e dêem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela'." (Jeremias 29.4-7)

"A justiça habitará no deserto, e a retidão viverá no campo fértil. O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranqüilidade e confiança para sempre. O meu povo viverá em locais pacíficos, em casas seguras, em tranqüilos lugares de descanso, mesmo que a saraiva arrase a floresta e a cidade seja nivelada ao pó. Como vocês serão felizes, semeando perto das águas, e deixando soltos os bois e os jumentos!" (Isaías 32.16-20)

Devemos lembrar que a cidade não é o lugar do nosso descanso, é nosso exílio. A monstruosa cidade, com suas relações humanas conflituosas, suas estruturas de poder carcomidas pela ganância e pela indiferença ao sofrimento alheio, suas redes criminosas de poder, seus justos acuados e seus valentes agredidos e mortos, não é outro lugar senão o ambiente do exílio, onde não nos sentimos em casa nem mesmo no conforto do lar.

Devemos nos alimentar da esperança: a justiça triunfará e a paz nascerá como o sol do meio-dia. Nascerá o sol da justiça trazendo tranqüilidade e confiança para sempre. Os que confiam em Deus habitarão lugares pacíficos, casas seguras e tranqüilos lugares de descanso, apesar da guerra, da peste, da morte e da fome.

Devemos resistir até a última gota de sangue e de lágrima. Resistir com amor, trabalho, diversão e arte. Continuaremos a viver romances, fazer amor e gerar filhos. Construiremos casas, plantaremos pomares e desafiaremos a morte nos lambuzando nos frutos do nosso trabalho. Cultivaremos jardins no meio do caos e encheremos o vale da sombra da morte com nossas flores.

Resistiremos com família e oração. Andaremos de mãos dadas com nossos filhos, nossos amigos, nossos irmãos. Ergueremos as mãos aos céus em oração e súplica pela cidade. Empreenderemos para a prosperidade da cidade e prosperaremos com ela. Continuaremos caminhando, cantando e servindo. Até chegar aquele dia, quando todas as vítimas serão acolhidas no reino de Deus e a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor como as águas cobrem o mar. No céu haverá festa sem fim. E o inferno ficará em silêncio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O céu está aqui mesmo entre vocês

O ego está destinado a dissolver-se, e com ele todas as estruturas fossilizadas; quer sejam instituições religiosas, corporações ou governos, desintegrar-se-ão a partir de dentro, não importa o quão entrinecheiradas aparentem estar.

Ego não é nada mais do que isso: identificação com a forma. Se o mal tem alguma realidade, essa é a sua definição: completa identificação com a forma – formas físicas, formas de pensamento, formas emocionais. O resultado é uma total ignorância da minha conexão com o todo, da minha intrínseca unidade com cada “outro” bem com com a Fonte. Esse esquecimento é pecado original, sofrimento e engano. Quando essa ilusão de completa separação domina tudo que penso, digo e falo, o que acontece? Para saber a resposta observe como os seres humanos relacionam-se uns com os outros, leia um livro de História, assista o noticiário da noite.

Se as estruturas da mente humana permanecerem inalteradas, acabaremos sempre recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, os mesmos defeitos.

Uma profecia da Bíblia [. . .] fala da aniquilação da presente ordem do mundo e do surgimento de “um novo céu e uma nova terra”. Devemos entender que o céu não é um local no espaço, mas refere-se ao domínio interior da consciência. A terra, por outro lado, é a manifestação externa da forma, que é sempre reflexo do que está no interior.

Portanto o novo céu, a consciência despertada, não é um estado futuro a ser alcançado. Um novo céu e uma nova terrra estão surgindo dentro de você agora mesmo. O que Jesus disse aos seus discípulos? “O céu está aqui mesmo entre vocês” (Lucas 17:21).

Eckhart Tolle, The New Earth

O Fim do Mundo não é um evento cataclísmico de cujo terror punitivo e final nos aproximamos cada vez mais. O Fim do Mundo acontece diariamente para aqueles cuja percepção espiritual permite que enxerguem o mundo como ele é, transparente para a transcendência: um sacramento de mistério, ou, como escreveu o poeta William Blake, “infinito”. O Fim do Mundo é, portanto, metáfora do nosso começo espiritual ao invés de imagem do nosso final implacável e ardente.

Eugene Kennedy, escrevendo sobre Joseph Campbell



Dica: Paulo Brabo no blog Bacia das Almas
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