segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar

Paulo Brabo - Bacia das Almas

Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109). Talvez seja necessário reler este parágrafo.

A tradição cristã defendeu desde sempre, a partir de indicações do Novo Testamento, a dupla noção de que a morte de Jesus foi de alguma forma necessária, e de que a passagem de Jesus pela terra – incluindo sua vida, morte e ressurreição – ocasionou de um modo misterioso mas inequívoco a Singularidade, a plenitude dos tempos, a redenção dos homens. Porém Anselmo foi o primeiro a tomar sobre a si a tarefa de montar um sistema teológico que explicasse exatamente porque a cruz havia se mostrado necessária, e de que modo a obra de Jesus havia ocasionado a redenção.

E para ele tudo tinha sido uma questão de honra.

Segundo Anselmo, a obrigação primeira de todos os homens é devolver a Deus a honra que lhe pertence por direito. Pecar é essencialmente sonegar a honra devida a Deus: é ao mesmo tempo roubá-lo de sua dignidade e desonrá-lo. O problema está em que, como a honra é a característica mais inegociável da natureza divina, Deus não é livre para perdoar o pecado por um simples ato de vontade: “nada é menos tolerável na ordem das coisas do que uma criatura tomar do Criador a honra que lhe é devida sem repor aquilo que tomou”. O pecado gera um débito, diante do qual a reparação da dignidade divina só pode ser obtida de duas formas: [1] pela punição implacável dos devedores ou [2] pelo satisfação da dívida, o que só ocorre quando se devolve a Deus mais do que foi tirado dele.

A redenção, então, se resumiria nisso: o homem deve devolver a honra que roubou de Deus; como só um homem deve satisfazer esse débito e como só um Deus é capaz de efetuá-lo, foi necessário que o homem-Deus fosse obediente até a morte para reparar essa injustiça e restaurar o prestígio divino.

A teologia de Anselmo (que acabou sendo conhecida como doutrina “satisfacional” ou, de modo ainda mais revelador, doutrina “comercial” da redenção) é, como todas, reflexo rigoroso da época em que foi concebida. A ideia de satisfação era fundamental na justificação do sistema corrente de penitências; a ênfase no ressarcimento era característica da obsessão romana/latina com o Direito Penal; e, finalmente, os conceitos de honra ferida e de compensação da honra através da obediência eram parte essencial da estrutura ideológica do feudalismo em que Anselmo vivia1.

A primeira e maior falha na doutrina de Anselmo é também aquela que geraria mais graves consequências no futuro. Ao limitar a redenção à satisfação de um débito e ao limitar essa satisfação à obediência da cruz, Anselmo isolou a morte de Jesus do restante de sua obra de vida. A obsessão com os méritos da morte acabaria tornando a vida de Jesus irrelevante – como se sua vida não tivesse feito parte parte do seu esforço redentor. Nas palavras de Harnack: “Esse Deus-homem não precisava ter pregado e fundado um reino; nenhum discípulo precisava ter sido reunido: dele só era requerido que morresse.”

Em segundo lugar, se a redenção é essencialmente uma estratégia de Deus para recuperar o seu próprio prestígio, seu motivo não está fundamentado – a despeito da insistência das Escrituras neste ponto – no seu amor aos homens, mas no amor ao prestígio. Anselmo inaugurou um universo em que Deus mandou seu filho ao mundo por sua causa, não nossa. Ao contrário do que parecem insistir os autores bíblicos, a ênfase da reparação não está na reconciliação entre as partes, mas na restauração da mesma sorte de prestígio que um vassalo deve reconhecer ininterruptamente no suserano.

Finalmente, se a satisfação do débito é tão absolutamente incontornável e central na economia da redenção, em que a morte de Jesus tem a significância de uma transferência bancária, Deus é em última instância incapaz de perdoar, ao contrário do que sugerem a Bíblia e a tradição. Se o único modo de apagar a dívida é o inevitável ressarcimento, a fim de aprendermos a perdoar, desligar e esquecer devemos recorrer a um exemplo que não seja Deus. Orar pedindo “perdoa as nossas dívidas” passa a ser uma incorreção teológica e uma temeridade.

A doutrina de Anselmo ganhou poucos aderentes e causou quase nenhum impacto por 400 anos. Seu duvidoso mérito foi ter servido de base para a teologia da Reforma, que ecoa, será inevitável lembrar, com os mesmos temas: pagamento de débito, substituição, a redenção jurídica de uma condenação inalienável.

Lutero começou onde Anselmo havia começado, com a noção de que Deus não é livre para perdoar os pecados por um ato de livre vontade, porque o perdão do pecado não punido seria essencialmente injusto. Porém, ao contrário de Anselmo, que postulava que a redenção visava preservar a dignidade de Deus, Lutero sustentou que o que estava sendo protegido era a ordem moral do universo, que absolutamente requer alguém em quem se descarregar os débitos morais gerados pelo pecado.

Em Lutero a característica incontornável de Deus não é a sua honra, mas a sua justiça. Ao contrário do que havia sugerido Anselmo, a satisfação do pecado não pode ser obtida através da obediência, mas através da punição.

Se Anselmo havia drenado todo mérito da vida de Jesus e concentrado o mérito em sua morte, Lutero deu o passo seguinte nesse projeto de alienação. Para Anselmo, somos resgatados porque Jesus obedeceu quando nós é que deveríamos ter obedecido; para Lutero, somos resgatados porque Jesus foi punido quando nós é que deveríamos ter sido punidos. O mérito da morte de Jesus não foi ativo, como Anselmo havia pensado (obediência), mas meramente passivo (punição). Nas palavras de Jonathan Edwards, o moço:

Ouso dizer ainda que, não apenas a redenção de Cristo não consistiu essencialmente em sua ativa obediência, como sua ativa obediência não teve qualquer papel na redenção.

Se Anselmo havia conferido ao mundo um Deus obcecado com sua própria dignidade, Lutero deu ao mundo um Deus que não apenas imolou o seu Filho Amado, mas derramou sobre ele toda a ira e toda a maldição, porque sua justiça absolutamente requeria que ele descarregasse essas penas sobre alguém. Está dito na Confessão Saxã (1551) de Melâncton: “tamanha é a severidade da sua justiça que não pode haver reconciliação a não ser que a penalidade seja paga. Tamanha é a intensidade da ira de Deus que o Pai eterno não pode ser aplacado a não ser pela morte de seu Filho”.

Em conformidade com isso, Lutero deixou abundantemente claro que o seu Deus era limitado e definido pela justiça e não pelo amor. Seu Deus não tinha obrigação alguma de ser misericordioso, mas absolutamente não tinha como deixar de ser justo.

A Reforma ganhava assim um discurso – em vocabulário contemporâneo, um “diferencial”. Em Lutero a redenção encontrava uma explicação que ganharia tremenda popularidade porque refletia, num momento de absoluta transição, todo o espírito da nascente era Moderna. Ao mesmo tempo em que os homens descobriam e começavam a brincar com as Luzes que conduziriam aos movimentos nacionais e à Revolução Industrial, a Reforma oferecia uma doutrina em que a morte de Jesus não tinha apenas um significado (o que muito evidentemente não lhe bastava), mas uma lógica e um mecanismo: uma utilidade.

De tão imbuídos que estávamos no espírito dos tempos, tornamo-nos incapazes de enxergar que uma doutrina que nega qualquer significado ao trajeto terreno da encarnação, que não vê mérito na obediência do Filho do Homem, que postula um Deus incapaz de perdoar sem o recurso da satisfação, um Deus que é Justiça em tamanho grau que não pode dar-se ao luxo de ser Amor – não tem direito a requerer para si qualquer relação com o Deus de Jesus.

Porque, se em última instância o pecado não pode ser perdoado sem o gosto da satisfação, Lutero revelou um mundo em que a graça não é efetivamente graça e efetivamente não pode ser. Este é um universo em que tudo requer pagamento, em que nada pode ser livremente perdoado e em que toda condenação é inalienável (embora algumas sejam felizmente transferíveis). Na doutrina de Lutero Deus não vence a Lei, mas é vencido por ela mesmo no seu mais glorioso instante. A misericórdia não triunfa sobre o juízo, porque o juízo é de pedra e nem mesmo Deus pode conferir a ele um coração de carne.

O curioso está em que o Novo Testamento não nega que o pecado gera um débito; tanto em Jesus quanto em seus cronistas, a ideia de dívida é uma das figuras mais comumente associadas à noção de transgressão. Porém, ao contrário do que sugerem Anselmo e Lutero, a posição da boa nova não é de que o débito requer inescapavelmente o pagamento por parte do devedor ou de um seu substituto. Ao contrário; os evangelhos insistem que a solução da Magnanimidade para o débito não é a satisfação, mas a clemência, o indulto, o perdão: assim no batismo, assim nas parábolas, assim no “setenta vezes sete”, assim na oração do Pai Nosso, assim na absolvição dos executores diante da cruz. “A miseriórdia triunfa sobre o juízo” quer dizer isso mesmo: o amor triunfa sobre a satisfação.

Cada um a seu modo, Anselmo e Lutero abraçaram a Empresa Teológica, que é o esforço muito humano e contraditório de tentar defender a qualquer custo aquilo que em cada momento da história é tido como a coerência interna da divindade. A teologia nasce do amor à ordem, não do amor a Deus. Anselmo afirma claramente que sua doutrina parte do pressuposto de que o universo não deve permanecer desordenado (inordinatum). Não é de admirar que tanto ele quanto Lutero tenham defendido com unhas e dentes a teoria da satisfação, porque é uma doutrina que impõe alguma lógica sobre o que parece não ter razão alguma. No fim das contas o perdão puro e simples representa a maior e mais espetacular das desordens, e esse escândalo os homens moverão terra e céu para deslocar de seu campo de visão.

O Deus da Bíblia, ao contrário do que sugerem essas distrações, é inteiramente incapaz de encontrar satisfação na agonia, na punição e no castigo, que representam mais adequadamente as preferências de Moloque. Muito claramente, e disso dão testemunho todas as parábolas (que são a expressão mais precisa da realidade da redenção), o que pode satisfazer a divindade é somente a integridade voluntária, somente o retorno filial, somente o abraço incondicionado da demanda pela bondade, pela aceitação e pelo amor. É quase criminoso que tenhamos demorado tanto tempo para condenar a noção de que Deus possa se satisfazer com menos.


Leia também:
O amor é mais severo do que a justiça
O clamor que provoca
A sedução da ortodoxia



NOTAS
1. “O pecado”, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da ética e deslocando-o para o da política, “é uma afronta à sua infinita majestade”.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

APELO: PRÊMIO NOBEL DA PAZ 2011 PARA AS MULHERES AFRICANAS

ASSINE JÁ A PETIÇÃO ONLINE NO FINAL DESTE ARTIGO.

A África caminha com os pés das mulheres. No desafio da sobrevivência, todos os dias centenas de milhares de mulheres africanas percorrem as estradas do continente à procura de uma paz duradoura e de uma vida digna. Num continente massacrado há séculos, marcado pela pobreza e sucessivas crises econômicas, o papel desenvolvido pelas mulheres é notório.


A campanha, nascida na Itália, já percorre o mundo para incentivar a entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2011 para as mulheres africanas.

A proposta é da CIPSI, coordenação de 48 associações de solidariedade internacional, e da ChiAma África, surgida no Senegal, em Dakar, durante o seminário internacional por um Novo Pacto de Solidariedade entre Europa e África, que aconteceu de 28 a 30 de dezembro de 2008.

Chama a atenção a luta e o crescente papel que as mulheres africanas desenvolvem, tanto nas aldeias, quanto nas grandes cidades, em busca de melhor condição de vida. São elas que sustentam a economia familiar realizando qualquer atividade, principalmente na economia informal, que permite cada dia reproduzir o milagre da sobrevivência.

Existem na África milhares de cooperativas que reúnem mulheres envolvidas na agricultura, no comércio, na formação, no processamento de produtos agrícolas. Há décadas, elas são protagonistas também na área de microfinanças, e foi graças ao microcrédito que surgiram milhares de pequenas empresas, beneficiando o desenvolvimento econômico e social, nas áreas mais remotas até as mais desenvolvidas do continente.

Além de terem destaque cada vez mais crescente na área de geração de emprego e renda, as mulheres, com seu natural instinto materno e protetor, lutam pela defesa da saúde, principalmente, contra o HIV e a malária. São elas, as mulheres africanas, que promovem a educação sanitária nas aldeias. E, além de tudo, lutam para combater uma prática tão tradicional e cruel na região: a mutilação genital.
São milhares as organizações de mulheres comprometidas na política, nas problemáticas sociais, na construção da paz.

Na África varrida pelas guerras, as mulheres sofrem as penas dos pais, dos irmãos, dos maridos, dos filhos destinados ao massacre e sabem, ainda, acolher os pequenos que ficam órfãos.

“As mulheres africanas tecem a vida”, escreve a poetisa Elisa Kidané da Eritréia.
Sem o hoje das mulheres, não haveria nenhum amanhã para a África.

Em virtude de toda essa luta e para reconhecer o papel de todas elas é que surgiu a proposta de lançar uma Campanha Internacional para dar o Prêmio Nobel da Paz de 2011, a todas as mulheres africanas. Trata-se de uma proposta diferente, já que esta não é uma campanha para atribuir o Nobel a uma pessoa singular ou a uma associação, mas sim, um Prêmio Coletivo, a todas essas guerreiras.

A ideia é lançar um manifesto assinado por milhões de pessoas, por personalidades reconhecidas internacionalmente e criar comitês nacionais e internacionais na África e em outros continentes. Além de recolher assinaturas, a campanha deve estimular também encontros organizados com mulheres africanas, convenções e iniciativas de movimento.

Nós, latino-americanos e latino-americanas, temos muito sangue africano em nossas veias e em nossas culturas. Vamos gritar nossa solidariedade com a África assinando a petição.

A criatividade dos Movimentos Sociais e Populares, das ONGs, grupos religiosos, universidades, sindicatos, etc., pode inventar mil atividades para difundir essa iniciativa e colocar a mulher africana no centro da opinião pública do mundo.

Pode-se criar comitês, eventos com debates sobre a África, show de artistas locais, palestras nas universidades, nos bairros, nas praças, lançamentos da coleta de assinaturas, etc. Nossa criatividade vai fortalecer os caminhos da África.

Os membros da campanha são todos aqueles que assinarem a petição online. E para fazê-lo é simples.

Para mais informações, contate a Campanha pelo endereço: info@noppaw.org ou segretaria@noppaw.org ou no site http://www.noppaw.org/

PARTICIPE DA CAMPANHA:

O clamor que provoca

por Paulo Brabo - Bacia das Almas

Whatever happened, happened.
Jack Shephard

Na descrição clássica da “teologia forte”, Jesus estava apenas refreando seu poder divino a fim de deixar que sua natureza humana sofresse. Ele livremente escolheu cercear o seu poder porque o Pai tinha o plano de redimir o mundo através do seu sangue. Mas se seu Pai tivesse mudado de ideia aqueles soldados romanos iriam sem dúvida lamentar o dia em que nasceram, da mesma forma em que irão certamente lamentar na eternidade. Na minha visão, isso é interpretar erradamente aquela cena em termos unicamente de poder: poder terreno contraposto a poder celestial. Na minha visão, Jesus estava sendo crucificado, e não se refreando; estava sendo pregado ali e sendo executado muito contra sua vontade e contra a vontade de Deus. E ele nunca tinha ouvido falar da ideia cristã, que surgiria mais tarde, de que estava redimindo o mundo através do seu sangue. Sua abordagem diante do mal foi perdão, não o pagamento de um débito devido a seu Pai ou ao diabo, através de sofrimento ou de qualquer outro modo. Seu sofrimento não foi uma moeda em câmbio local na economia do reino. O reino não é uma economia, e Deus não comparece a esta cena como um escriturário de débitos divinos, ou como um alto poder que assiste a coisa toda lá de cima enquanto voluntariamente refreia seu infinito poder de intervenção. Isto é mais uma teologia cosmetizada, é fraqueza que fantasia com um orgasmo de poder – se não agora, poder mais tarde, quando poderemos realmente nos vingar daqueles romanos odiosos.

Essa não é a fraqueza de Deus que estou defendendo aqui. Deus, o evento refugiado no nome de Deus, está presente à crucificação como o poder da ausência-de-poder de Jesus, em e como protesto contra toda injustiça que brota da cruz, em e como palavras de perdão, e não como um poder adiado que visitará mais tarde os seus inimigos. Deus comparece na qualidade de fraco agente do grito que clama do Calvário e clama através das eras, que clama de cada cadáver jamais produzido por todo poder injusto e cruel. O logos da cruz é um clamor de renúncia à violência, não algo que a oculta e adia para depois, numa atordoante façanha que apanha o inimigo de surpresa, abatê-lo com verdadeiro poder, demonstrando ao inimigo quem é realmente poderoso. Era precisamente isso o que Nietzsche criticava sob o nome de ressentimento.

O impacto de situar Deus no lado da vulnerabilidade e do sofrimento injusto não está, naturalmente, em glorificar o sofrimento e a miséria, mas em de protestar profeticamente contra eles; é conferir significado e profundidade divinos à resistência contra o sofrimento injusto, agregar o coeficiente da divina resistência ao sofrimento injusto, motivo pelo qual o sofrimento é a matéria de perigosas lembranças. O grito, o clamor, o rogo que ergue-se da cruz é um grande e divino “não” à injustiça, uma infinita lamentação contra o sofrimento injusto e as vítimas inocentes. Deus está com Jesus na cruz, e ao postar-se com Jesus em vez de com o poder imperial de Roma, Deus posta-se ao lado de um inocente perseguido por repreender os poderes estabelecidos. O nome de Deus é um divino “não” à perseguição, à violência e à vitimização. Semelhantemente, como acabamos de argumentar, a “transcendência” divina tradicional, de cima para baixo, deve ser reformulada de modo a que todos os seus recursos sejam empregados em favor da baixeza e dos desprezados. O efeito de se falar na transcendência de Deus não deve ser o de respaldar e sobrepujar a presença com uma hiper-presença, mas o de perturbar a presença com diferença – permitindo assim que os mais ínfimos alcem-se em divino esplendor.

Nesse modo de ver as coisas – e é essa a posição da teologia fraca, a religião de um anarco-profético-desconstrucionista – a transcendência de “Deus” não quer dizer que Deus eleva-se acima do ser como supra-ser. Ao contrário, Deus arma sua tenda entre seres identificando-se com tudo que o mundo rejeita e deixa para trás. Na verdade, ao invés de se falar em transcendência de Deus, melhor seria falar em in-scendência (incendiária inscendência!) ou “insistência” de Deus no mundo. Em Deus essência e insistência são uma mesma coisa. Com isso quero dizer que Deus se retira da ordem mundana de presença, prestígio e soberania a fim de instalar-se nos bolsões de protesto e de contradição do mundo. Deus pertence ao ar, ao clamor, ao espírito que inspira e aspira, que respira justiça. Deus se instala neste mundo nos recessos formados pelos pequenos, os zés-ninguéns e joões-ninguéns deste mundo – o que em 1 Coríntios Paulo chama de ta me onta. O que estou tentando é fazer com que deixemos de pensar em Deus como a coisa melhor e mais elevada que existe e comecemos a pensar em Deus como o clamor que provoca o que existe, o espectro que assombra o que existe, o espírito que sopra sobre o que existe.

John D. Caputo,
em The weakness of God: a theology of the event

sábado, 29 de maio de 2010

Herodes perdeu o nome...

Porque eu não pude viver como vocês?
Quem lhes dá o direito de me privar do direito de viver?
Maria do Socorro viveu apenas 13 dias.


Deitado na rede, não dormi. Fiquei olhando o céu pelos buracos nas paredes e nas telhas. As paredes são de barro. Eu pensava nas 18 crianças que acabei de batizar. Quantas ainda estariam vivas depois de um ano? Na minha memória voltava a cena dos batizados que fiz na sede da paróquia no mês anterior.

Era domingo, 19 de outubro. Havia 43 crianças para serem batizadas. Uma delas se chamava Maria do Socorro. Trazida por Raimunda, a irmã mais velha, ela já estava morrendo. Pediram que eu fizesse o batismo quanto antes, pois a criança podia morrer a qualquer momento. Batizei-a ali mesmo, na casa paroquial, e prometi a Raimunda fazer uma visitinha na casa dela. Á tarde fomos lá. Casa muito pobre. Tão pobre quando a casa de Genésio e Totônia onde eu estava deitado do na rede, olhando o céu pelos buracos das parede e das telhas, lembrando o fato. A única diferença era a cor do barro. Barro escuro, quase preto. Entramos.

A mãe de Maria do Socorro tinha morrido no parto, treze dias antes. O pai tinha fugido. Ficaram os dez irmãos e irmãs para acolher a nova irmãzinha, Maria do Socorro. Eles estavam lá todos. Todos pequenos. Na semi-escuridão da sala, vi a turminha, em pé, ao redor da Raimunda, que estava sentada com a irmãzinha, mais nova no colo. Nunca mais vou esquecer esta cena trágica. Raimunda, ainda não refeita da morte da mãe e da fuga do pai, enfrentava hoje a morte da irmã mais nova e teria de arcar com a responsabilidade de educar seus dez e teria de arcar com a responsabilidade de educar seus dez irmãos. Pelo jeito dela, não parecia ter mais de 15 ou 16 anos.

Entramos e perguntei:

– Morreu?

– Ainda não! Ainda tem um pouquinho de vida nela. Alguns minutos atrás, ele deu um soluço!

Diagnóstico de pobre! Ficamos todos em silêncio sem saber o que fazer ou dizer. Todos olhando para Maria do Socorro, no colo da Raimunda. Na mãozinha pequena segurava a vela acesa do batismo. O vestido era branco e comprido, vestido do batismo. A vela tinha sido acesa no círio pascal. O símbolo da vida, agora de novo crucificado, aqui, nesta vida indefesa de Maria do Socorro, cuja mãe morrera, dando a sua vida por esta menina que estava morrendo! Ninguém falava nada! Falar o quê? Quem defende a vida? Maria pedia socorro! E não havia quem pudesse salvar a sua vida! Todos impotentes diante da morte! Quem estava massacrando esta vida nova? A mão assassina era invisível. Não aparecia! Como em Belém:

“Em Rama se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação porque eles já não existem” (Mt 2,17).

Isto aconteceu, quando Jesus acabava de nascer para proteger a vida! Onde Jesus renasce hoje, para reassumir a defesa da vida contra a morte, contra a mão assassina de Herodes? Aqui, nem lamento havia mais. A fonte das lágrimas parecia ter secado. Tamanha era a dor, misturada nos fato!

O Herodes de ontem podia ser acusado, porque o seu crime era manifesto. Ele tinha nome. O Herodes de hoje passa livre e honrado. Ninguém o acusa, porque o seu crime não aparece. Ele perdeu o nome. Quem estava matando Maria do Socorro naquela sala pobre de sapé? Quem? Os irmãos dela não sabem responder. Não sabem nem levantar esta pergunta. Eles só viam o imediato: a irmãzinha morrendo nos braços da Raimunda. Talvez repitam a frase, tantas vezes ouvida: “Paciência! Vida de pobre é assim mesmo!” Será?

Irmã Maria quebrou o silêncio:

– Raimunda, quanto tempo faz que a Maria do Socorro ficou assim? Ela nasceu doente?

– Nasceu não, senhora! Nasceu forte.

– Então, o quê que houve?

– Anteontem, deu uma diarréia nela. Por isso, está assim.

Era desidratação! Irmã Maria continuou perguntado:

– O que vocês estão dando para ela?

– A gente dá o que tem: um pouco de leite Ninho em pó!

– Só?

– Só!

Para quem entende destas coisas, sabe que tal remédio, em vê de melhorar, acaba de matar criança com diarréia. Mas eles não tinham outra coisa. Não havia médico! Não havia remédio! Não havia receita! Não havia nada!

Nesta hora Raimunda mexeu com o dedo nos olhos de Maria do Socorro e disse:

– Acho que ela morreu. Não mexeu mais com os olhos. Morreu, sim! Morreu!

Os outros repetiam em coro, murmurando:

– Morreu!

Atestado de óbito de pobre! Raimunda levantou-se, colocou o corpo de Maria do Socorro em cima da mesa e disse para um dos irmãos:

– João, vai comprar uma vela no botequim! Vai logo! Pegue o animal!

João sai correndo.

Maria do Socorro morreu. Viveu 13 dias! Nasceu, viveu, morreu. Não teve registro de nascimento, não teve atestado de óbito. É como se não tivesse existido. Nada falou, apenas chorou. É como se não tivesse existido. Nada falou, apenas chorou. Leve como uma pluma, não pesava nem 3 quilos. Mas a sua morte pesa, peso grande! Ela grita mais forte do que qualquer pregador ou político. Ela acusa a humanidade:

– Porque eu não pude viver como vocês? Quem lhes dá o direito de me privar do direito de viver?

Mas estas reflexões e perguntas, sou em quem as faço. Os irmãos, os pobres mesmos, eles ficavam só olhando. Não se revoltaram. Choraram um pouco.Acenderam as velas, trazidas por João. Velaram o corpo. E na boca da noite, levaram a irmãzinha para o cemitério: sem cerimônia, sem atestado de nascimento nem de óbito, sem pai, sem mãe! Mais um “anjo” a engrossar as fileiras da multidão dos “anjos” que nos acusam:

“Tome cuidado, disse Jesus, para não desprezar nenhum desses pequenos, porque eu digo para vocês: os anjos desses meninos estão o tempo todo bem pertinho do meu Pai, lá no céu!” (Mt 18,10)

Estávamos olhando o corpo morto da menina. Alguém disse:

– Vamos embora!

– Convém rezar um pouco!. Disse eu.

– É bom! Disse Raimunda.

Mas rezar o quê? Pregar a revolta? Adianta cortar jacarandá com gilete, derrubar avião a jato com pedra de estilingue?

Rezei:

– Senhor Jesus, Maria do Socorro acaba de entrar no céu. Reencontrou sua mãe. Nós ficamos cá embaixo, sem saber como cuidar da saúde e da vida do povo. Nós Vos pedimos: fazei que Maria do Socorro e sua mãe nos venham socorrer, para que nunca deixemos de cuidar da vida e da saúde dos irmãos e para que eliminemos da vida tudo o que a mata e oprime!
Saímos. Falamos pouco. Mais um “anjo”!

Pedro desabafou:

– E o pior é que isso acontece todos os dias, e ninguém o percebe!

– Fiquei arrasado. Festa bonita! Quase cinqüenta batizados! Igreja cheia de gente! O prefeito no primeiro banco!! E a menina morrendo por falta absoluta de condições de viver! Tem valor uma cerimônia assim? Não sei não!

A noite daquele mesmo dia, já em casa, recebemos a visita de Dona Maria, nossa vizinha, já bem gorda, cujo filho acabou de nascer na véspera da nossa viagem como já contei. Terezinha perguntou:

– Dona Maria, quando vai descansar?

– No mês que vem.

– Vai descansar aqui mesmo ou no hospital?

– Aqui mesmo!

– Porque não vai no hospital, mulher?

– Sei não! Cova de mulher se abre, quando pega criança na barriga, e fecha um mês depois de descansar! Nascimento de menino parece que faz a gente chegar mais perto da morte!

– Acha bom ter criança todo ano?

– Sei não. Pobre é assim mesmo. Tem muitos filhos. Os ricos que tem tudo não têm criança quase. É castigo de Deus! Não é?

Riu e puxou o peito para dar de mamar ao filho pequeno que carregava nos braços.

Uma história terrivelmente real retirada do Livro Seis Dias nos Porões da Humanidade - Carlos Mesters

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Os discursos ausentes: céu e inferno



Por Paulo Brabo - Bacia das Almas

Visões de céu e inferno prestam serviço à evangelização.
Alan F. Segal, Life After Death

Todo texto tem em alguma medida o sonho de alterar a realidade, e parte do pressuposto de que para isso bastará alterar a realidade dos seus leitores. Talvez mais do que qualquer outro escritor bíblico, o autor de Lucas/Atos investiu pesado nesse aspecto “formador de uma cultura” do seu discurso. Seu texto é pontuado por momentos decisivos que requerem um posicionamento do leitor, e estamos agora postados sobre o mais exigente e memorável desses pontos fulcrais. É o momento da improvável e custosa encarnação, na vida real, de um sonho – o sonho encapsulado no modo de vida e no modo de morte de Jesus. Lucas é sua única testemunha, e seu testemunho é este: a nova e ideal comunidade dos três mil e tantos, de cujas luzes temos nos ocupado, é para ser encarada como primeira moldagem de um vaso adequado para reter e distribuir mundo afora mundo o fluido sagrado da herança de Jesus.

Uma comunidade é definida pela intersecção dos discursos que a originaram, e Lucas trata de deitar muito claramente as diretivas que deverão caracterizar o legítimo movimento do reino. Como vimos, e o fio da narrativa deverá nos dar oportunidade de confirmar, neste dia de Pentecostes os desbravadores do reino dobraram-se à exigente persuasão do espírito, de que Jesus estava certo ao sustentar que arrepender-se é mudar o mundo e pecar é omitir-se. Desafiada e confrontada pela exposição de Pedro, uma pequena multidão ousou adentrar de mãos dadas esse mundo além do perdão, em que meros homens abraçam o exemplo não-condicionado de Jesus, encenam continuamente a sua subversão e inauguram uma comunhão tão escandalosamente generosa, desarmada e inclusiva que acabará representando ameaça a todas as manifestações controladoras de poder.

Antes de deixarmos para trás esta visão da glória de uma comunidade inteiramente humana (e portanto inteiramente divina) e avançarmos para o confronto dessa sociedade revolucionária com um mundo avesso a mudança, será necessário fazer outra digressão. Porque, se enfatizamos cada um dos discursos presentes (todos eles não-condicionados e portanto subversivos), não traçamos ainda os discursos ausentes – aqueles que não fazem parte da exposição e da incorporação da boa nova no livro de Atos, mas acabaram ganhando destaque nas obsessões e ênfases da igreja institucional até os nossos dias.

Se é objetivo do autor de Atos estabelecer quais devem ser as expectativas e as prioridades de uma comunidade que se proponha a levar avante o legado de Jesus, devemos crer que ele assenta a sua posição tanto pelo que diz quanto pelo que não diz. Denunciar os discursos ausentes, que intrometeram-se mais tarde na ideologia cristã, servirá não apenas para contrastar a límpida comunidade do reino com a turva igreja institucional que terminaria por sequestrar a sua herança; deverá servir também para elucidar porque esses discursos se intrometeram. Ficará evidente que a igreja apossou-se desses conceitos piedosos a fim de tornar a experiência cristã mais devocional e menos existencial – isto é, tornar passível de domesticação o que era incontrolável, tornar condicionado o que era não-condicionado. Nesse processo, terminou por ocultar o desafio e a integridade da boa nova do reino, tornando nula qualquer alegação de sua relação com ele.

O primeiro desses discursos ausentes, que não comparece no testemunho de Atos mas recebeu tremendo destaque depois, a ponto de tornar-se absolutamente central na articulação ideológica do “evangelismo”, é a questão de céu e inferno.

Porque na descrição do jorrar do espírito, na apresentação da boa nova por parte de Pedro e na primeira “conversão” exemplar não há nenhuma promessa de vida após a morte – nenhuma visão do paraíso, nenhuma ameaça de inferno1.

O discurso de Pedro, que parece ter articulado o que o espírito estava dizendo a todos e através de todos, pode ser resumido da seguinte forma: Jesus, o homem de Deus cujo ensino íntegro os homens consideraram insuportável ao ponto de assassiná-lo sem motivo por essa razão, Deus o fez Senhor e Messias. Agora que a própria morte mostrou-se incapaz de retê-lo, e estando em posição indistinguível da posição de Deus, ele confere que todos sejam capazes de compartilhar da lucidez do seu modo de ver a vida, de viver e de morrer. Ou, numa versão ainda mais resumida: Deus conferiu ao Marginal a posição de destaque, a fim de que abracemos a sua estirpe de marginalidade e dediquemos nossa vida à inclusão dos marginais.

De uma forma ou de outra, o argumento decisivo da argumentação de Pedro (e, como veremos, de toda apresentação da boa nova no livro de Atos) reside na singularidade de Jesus. A ressurreição é mencionada como desconcertante confirmação dessa singularidade, mas Pedro não oferece nenhuma indicação de que essa ressurreição seja ela mesmo algo menos do que singular – isto é, seu argumento não estende a vida após a morte como padrão ou promessa adicional. Sendo assim, quando seria o momento mais favorável para pressionar o seu público com os horrores da punição e as recompensas da eternidade, Pedro se abstém de fazê-lo: sua ênfase permanece no perdão dos pecados, isto é, na reparação das omissões passadas, e no arrependimento, isto é, na adoção (no momento presente) do modo de vida de Jesus. Seu apelo é “salvem-se da mesquinheza desta geração.”

Em contraste com essa postura, a igreja acabaria deslocando por completo o argumento decisivo de seus esforços evangelísticos, transferindo-o da singularidade de Jesus para a ameaça do inferno e a oferta do céu. De longe, a forma mais comum de se apresentar a fé cristã (e isso retém em comum os dois lados da igreja formal separados pelo fissura da Reforma), é oferecendo-se ao ouvinte uma chance de “salvação” – apresentada, bem-entendido, como uma oportunidade de escapar da condenação do inferno e abraçar a vida eterna no céu2.

De acordo com essa visão, converter-se não é assumir o perdão e adotar a vocação de alterar a tessitura do mundo, mas aceitar o convite de beneficiar-se pessoalmente do sacrifício de Jesus de modo a, por um lado, escapar de uma punição sem pausa no inferno e, por outro, ganhar a vida eterna no céu ao lado dos que você ama3.

Agora, se o livro de Atos descreve os primeiros passos do que viria a ser conhecido como igreja, e se deita as diretrizes apostólicas para se “ganhar pessoas para Jesus”, por que céu e inferno não são mencionados – não só nestes dois primeiros capítulos, mas até o final? Por que a recompensa futura e a punição incessante não recebem a ênfase que a igreja aprendeu a dar a ela?

Este não será o espaço para analisar o processo histórico através do qual a igreja acabou colocando céu e inferno no centro do seu discurso; não será nem ao menos necessário estabelecer a distinção entre a ideia de céu e inferno, como foram entendidos depois, e o conceito de ressurreição dos mortos (e renovação da terra) que consistia basicamente na estirpe de eternidade aguardada pelos judeus no tempo de Jesus4.

Bastará, em primeiro lugar, que tenhamos em mente que o discurso da eternidade está por completo ausente dos procedimentos exemplares da igreja nascente no livro de Atos e que não aparece no Novo Testamento associado à transmissão da mensagem e do legado de Jesus. Como os autores do Novo Testamento viam a coisa, evangelizar ou estender ao mundo a boa nova do reino não é acenar diante das pessoas com um ingresso gratuito para o paraíso, nem ameaçá-las com uma rampa até os fogos eternos.

Em segundo lugar, devemos aprender a reconhecer o papel que céu e inferno passaram a desempenhar na ideologia cristã. Alan F. Segal observa que “visões de céu e inferno prestam serviço à evangelização”, e disso resta abundante evidência mesmo nos nossos dias. Recorrer a céu e inferno como argumento decisivo na evangelização tem o duplo efeito de tornar a boa nova mais “espiritual” (isto é, mais palatável e menos exigente, no sentido de ter menos consequências para esta vida) ao candidato a cristão, e apelar para o instinto de “autopreservação emocional” que todos os homens têm em comum. Quem não se sentirá compelido a esquivar-se do sofrimento e a ganhar o gozo, numa transação que não requer esforço algum de sua parte?

Porém não é só na hora de angariar convertidos que céu e inferno se mostram ferramentas úteis. O domínio da vida eterna tem ainda uma poderosa função controladora sobre as pessoas. Numa sociedade que crê nesse tipo de coisa, quem tem o monopólio sobre o além tem também o controle das pessoas nesta vida, e pode manejá-las a seu bel-prazer.

Tanto no céu quanto no inferno os mortos servem para tornar concretas e legitimar as estruturas éticas e hierárquicas de uma sociedade. Aqueles que retém as chaves do paraíso tornam-se logo os mais temidos e legítimos representantes do poder terreno, sendo que seu poder é exercido em dois níveis. Primeiro, as pessoas ficam mais fáceis de controlar porque creem que a preservação de suas almas no além depende de que sigam à risca as expectativas e normas deitadas pelos líderes do presente sistema. Segundo, como a vida eterna oferece um futuro em que todas as injustiças serão corrigidas, qualquer tentativa de se implementar um mundo justo ainda nesta vida é vista com maus olhos, algo beirando ou ultrapassando o limite da heresia.

Como se vê, o resultado da adoção do discurso de céu e inferno é precisamente o oposto daquele que, acabamos de ver, ocasionou a distribuição do espírito subversivo de Pentecostes. Em Atos a boa nova é a transformação do mundo; no discurso de céu e inferno a boa nova é que este mundo não precisa ser transformado. Em Atos a boa nova origina uma comunidade não-condicionada que representará constante ameaça ao estado de coisas, estando destinada a “virar o mundo de cabeça para baixo”; no discurso de céu e inferno, a boa nova é usada para legitimar e sustentar um estado condicionado de coisas, sequestrando o apelo universal da imagem de Jesus enquanto garante que os efeitos de sua popularidade se mantenham sob controle.

Não é de estranhar, portanto, que no livro de Atos céu e inferno permaneçam à margem do discurso da comunidade do reino, porque seus membros tomam por absolutamente central manter vivo neles mesmos o caráter não-condicionado de seu mestre. Permanecerão uma comunidade viva, no sentido em que estarão inteiramente mergulhados na solução das questões sempre cambiantes desta vida. Nada que possa ser usado como ferramenta de dominação fará parte do seu vocabulário ideológico, porque a boa nova deverá permanecer libertadora em todos os sentidos.

Nesse sentido, os revolucionários do reino estão mantendo-se inteiramente fiéis às ênfases de Jesus, que mostrou-se muito mais disposto a apresentar desafios e soluções para esta vida do que a prometer os confortos da próxima. Nos evangelhos se Jesus distribuía curas, ou até mesmo ressurreições, era porque queria resgatar a dignidade e reforçar os desafios desta vida. Ele ressuscitava porque, muito claramente, cria que as pessoas ainda tinham a sua missão – a missão dele – para cumprir, e porque cria que na balança das eras é só este lado da eternidade que conta. Sua proposta incessante era de que que a experiência humana na terra requer a redenção e a reviravolta da mudança de critérios, cujo resultado é a paulatina implantação do reino. Mesmo o perdão dos pecados, com o qual o batismo estava associado, era oferecido como libertação destinada a derrubar qualquer impedimento que se interpusesse entre o ser humano e o assombro da transformação do mundo – este mundo.

Foi precisamente dessa forma que os romeiros de Pentecostes entenderam a sua vocação; não como a certeza da vida eterna no céu, mas como a certeza da urgência dos desafios desta terra. Sua conversão não estava fundamentada na esperança do paraíso, que pelo que sabemos não foi nem sequer mencionado. Quem investe todo o conteúdo da sua fé na garantia de uma felicidade futura age como que não tem pressa, e a postura dos revolucionários do reino é de absoluta urgência. Por isso despojam-se radicalmente de todo embaraço, por isso estão sempre juntos, por isso prestam contínua assistência uns aos outros e a todos que estão chegando: o céu pode esperar, mas a cura deste mundo exige atenção imediata.

NOTAS
  1. Na verdade, esse sistemático silêncio sobre céu e inferno estende-se a todo o restante do livro de Atos. Embora o livro registre uma série de discursos evangelísticos e conversões exemplares, o argumento das ruas de ouro e do lago de fogo nunca comparece. []
  2. Para a maioria de nós, suficientemente expostos aos discursos cristãos, não será necessário demonstrar essa obsessão formal do cristianismo com céu e inferno. A visita a uma catedral da Idade Média, o comparecimento a uma “série de conferências” de uma igreja evangélica ou a leitura de um folheto evangelístico do século passado terão o mesmo efeito para confirmar essa centralidade da ideia de vida/punição eterna no discurso cristão. []
  3. Desde que, naturalmente, os que você ama também tenham concordado em beneficiar-se da mesma transação. Essa pendência servirá, por si só, como tremendo incentivo à evangelização. []
  4. Paralelamente, teremos de deixar de fora a controvérsia sobre a tradução do adjetivo grego que é tradicionalmente vertido como “eterno” (por exemplo, “vida eterna” em Atos 13:46,48) e que alguns intérpretes acreditam significar algo muito distinto. []

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Graça

Ricardo Gondim

Ainda há pouco, ao reler o admirável Sermão do Monte, percebi como a graça esteve presente nos princípios expostos por Jesus. Mesmo reconhecendo que a graça foi exaustivamente estudada e definida pela teologia, é preciso redescobri-la nos lábios do Nazareno. Os favores imerecidos de Deus não podem ficar circunscritos às codificações teológicas. Naquele relvado, na encosta de um morro qualquer, Cristo falou de assuntos diversos, mas não se esqueceu de explicitar que Deus se relaciona com seus filhos diferente de todas as divindades conhecidas. Após séculos de argumentação sobre os significados da graça, os cristãos precisam despertar para ao fato de que ela é o chão da espiritualidade cristã.

Um neopaganismo levedou a fé de tal forma que muitos transformaram a oração em uma simples fórmula para canalizar e receber os favores divinos. Para obter resposta às petições, implora-se, pena-se, insiste-se, no aguardo de que Deus escute. Quando não se recebe, justifica-se assumindo culpas irreais, como falta de disciplina. Acha-se que é necessário continuar implorando para Deus se sensibilizar. Mede-se a espiritualidade pelo número de respostas aos seus pedidos e, quando malsucedidos, castiga-se por não merecer. A própria linguagem denuncia romeiros católicos e evangélicos, que lotam os espaços religiosos: é preciso “alcançar uma graça”.

Graça liberta do imperativo de dar certo. O Sermão da Montanha começa felicitando pobres em espírito, chorosos, mansos e perseguidos. Os triunfantes não podem se gloriar de serem mais privilegiados do que os malogrados. Graça revela um Deus teimosamente insistindo em permanecer do lado de quem não conseguiu triunfar; até porque a companhia de Deus não significa automática reversão das adversidades.

Graça permite o autoexame, a análise das motivações mais secretas da alma, sem medo. Na série de afirmações sobre ódio, adultério, divórcio e vingança, Cristo deixou claro que ninguém pode se vangloriar quando desce às profundezas do coração. No nível das intenções, todos são carentes. O olhar sutil indica adultério. O ódio despistado revela homicidas em potencial. A vingança disfarçada contamina as ações superficiais. Lá onde brotam as fontes das decisões, tudo é confuso; vícios e virtudes se confundem. Somente com a certeza de que não haverá rejeição é possível confrontar os intentos do coração para ser íntegro.

Graça convida a amar. Jesus afirmou que Deus “faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos”. Para revelar sua bondade, Deus não precisou ser convencido a querer bem. Deus não faz acepção de pessoas; o seu amor não está condicionado a méritos. Quando as pessoas são inspiradas por gratidão, reconhecimento e admiração por tão grande amor, se sentem impulsionadas a imitá-lo. Deus surpreende por dispensar bondade sem contrapartida de virtude. Assim, na improbabilidade de os seres humanos se mostrarem graciosos, os discípulos devem almejar a única virtude que pode torná-los perfeitos como Deus -- o amor.

Graça é convicção de que o acesso a Deus não depende de competência. Quem acredita que será aceito pelo tom de voz piedoso ou pela insistência em repetir preces nega a paternidade divina. Antes de pedirmos qualquer coisa, Deus já estava voltado para nós. Os exercícios espirituais não precisam ser dominados como uma técnica, mas desenvolvidos como uma intimidade. O secreto do quarto fechado representa um convite à solitude, à tranquilidade que não acontece com sofreguidão.

Graça libera energia espiritual que pode ser dirigida ao próximo. Buscar o reino de Deus e sua justiça só é possível porque não é preciso preocupar-se com o que comer e vestir e por jamais ter de bater na porta do sagrado para conquistar benefícios particulares. Basta atentar para os lírios do campo e pardais para perceber que as ambições devem escapar à mesquinhez de passar a vida administrando o dia-a-dia.

Graça devolve leveza para que os filhos de Deus sintam-se à vontade em sua presença, como meninos na casa dos avós. Graça libera as pessoas para se tornarem amigas de Deus, em vez de vê-lo como um adestrador inclemente. Graça não permite delírios narcisistas. Nenhuma soberba se sustenta diante da percepção de que Deus aposta na humanidade e ainda se convida a cear entre amigos.

Graça distensiona o culto porque avisa: tudo o que precisava acontecer para reconciliar a humanidade com Deus foi concluído: “Consumatum est”. Portanto, enquanto a graça não for redescoberta de fato como a mais preciosa verdade da fé, as pessoas podem até afirmar que foram livres, mas continuarão presas à lógica religiosa das compensações. Devedores, jamais entenderão que o reino de Deus é alegria. A graça liquida com pendências legais. Não restam alegações a serem lançadas em rosto -- “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?”.

A religiosidade legalista insiste que é perigoso falar excessivamente sobre a graça. Anteparos seriam então necessários para proteger as pessoas da liberdade que a graça gera. Mas o amor que tudo crê, tudo espera e tudo suporta não aceita outro tipo de relacionamento senão abrindo espaço para que haja amadurecimento. Deus ama assim, e o Sermão da Montanha não deixa dúvidas de que todo discurso sobre o reino de Deus deve começar com graça.

Soli Deo Gloria

sábado, 22 de maio de 2010

O Novo Cristianismo

  • O estudo da Bíblia fez com que perdessem de vista idéias positivas e interesses contemporâneos; concedeu a eles uma inclinação pela pesquisa infrutuosa e uma poderosa tendência à metafísica. No norte da Alemanha, berço do protestantismo, a vagueza de idéias e sentimentos predomina nos textos de seus filósofos mais renomados, bem como em seus mais populares romancistas.
  • O estudo da Bíblia encoraja a crença de que é em si mesmo o tipo mais importante de estudo – o que explica a formação de sociedades bíblicas, que distribuem ao público milhares de cópias da Bíblia por ano. Ao invés de usarem suas energias de modo a produzir e propagar uma doutrina apropriada ao presente estágio da civilização, essas sociedades, assim chamadas cristãs, imprimem uma direção enganosa a seus sentimentos filantrópicos, direção essa contrária ao bem-estar público. Crendo que estão contribuindo para o avanço da mentalidade humana, o que de fato prefeririam, se fosse possível, é fazê-la retroceder.

Duas de quatro razões dadas por Saint-Simon (1770-1825), precursor do socialismo, pelas quais o estudo da Bíblia teria se tornado prejudicial para o movimento protestante. Em Nouveau Christianisme (1825), Saint-Simon denuncia como herética e indigna de Cristo toda orientação de cristianismo, seja católica ou protestante, cujo objetivo principal não seja a melhoria das condições de vida das classes mais pobres.

Paulo Brabo - Bacia das Almas


sexta-feira, 21 de maio de 2010

A índia idosa e seu cobertor repleto de dor

Ricardo Gondim

Em retiro espiritual (1970), Pe François Varillon citou um poema escrito por um russo que estava de passagem por Lima, Peru. O russo viu, nessa cidade, uma moradora de rua que, para se aquecer, se enrolou em jornais que havia encontrado espalhados pelo chão.


Naquela noite, como em muitas outras, seu cobertor era a atualidade do mundo. Sobre seu corpo miserável estavam escritos todos os acontecimentos do mundo, todo o pecado do mundo. Ela estava enrolada, de certo modo, no mal do dia. Sua manta era composta de sofrimento, descaso e injustiça. Aquela desabrigada era metáfora viva de todo o mal que vem impresso nos jornais. A maldade, de certa forma a abrigava da própria inclemência da vida.

Estamos, portanto, em Lima, 1970:

À hora em que morrem os jornais, porque a noite
os torna detritos,
à hora em que o cão, com um resto de comida
entre os dentes, para e vigia,
desconfiado, cada um dos meus passos,
à hora em que despertam todos os vis instintos,
os instintos que, hipocritamente,
se escondem durante o dia,
à hora em que os motoristas de taxi me gritam
“Eh, gringo, queres uma mocinha peruana?
Verás, é chocolate derretido”.
à hora em que já não funcionam as estações de correio
e em que só o telegráfo prossegue sua vigília,
à hora em que um camponês, enrolado em seu poncho,
dormita, encostado a alguém,
imóvel como uma estátua,
para ele totalmente desconhecido,
à hora em que as prostitutas e as musas
tiram maquilagem do rosto,
à hora em que já preparam os detritos de amanhã,
com os seus grandes títulos de primeira página,
à hora em que tudo é visível e invisível,
eu vagueio sem destino e não venho de parte nenhuma,
vagueio fatigado, sozinho, como um cão vadio,
vagueio pelas avenidas noturnas de Lima que se parecem,
então, com um cemitério dos contos.
A rua está toda suja, como de um escarro,
pelo tapete de cascas de laranja,
a rua cheira mal como as latrinas de um imenso estádio.
Mas para, repara.
Uma silhueta humana advinha-se através
de um monte de jornais mortos.
Ali, aninhada e muda; sem se queixar de nada
nem de ninguém,
uma mulher idosa fez um poncho,
um poncho feito de uma notícia sensacional
do dia que passou,
A velha embrulhou-se nele para escapar ao frio,
agasalhou-se na extrema direita e na extrema esquerda,
até aos olhos.
A extrema direita e a extrema esquerda, para a mulher,
são a mesma coisa.
Para ela, a única coisa importante, é ter menos frio.
A mulher idosa embrulhou-se nos escândalos e nas intrigas
e nos truques do esporte, até rente ao cháo.
Comparados com as pernas famosas da manequim inglesa,
Twiggy, os seus pés descalços levam a melhor.
Os automóveis, os submarinos, os foguetes,
esmagam-na com o seu peso
e fazem-na sumir-se no asfalto da rua.
As corridas, os iates, os strip-teases e os banqueiros
pesam sobre os seus ombros de camponesa.
Sobre as suas costas, Rockefeller, Onassis, Dupont,
com o seu sorriso bovino,
saboreiam o seu cocktail.
Sobre o seu corpo, todo entorpecido pelo frio,
Mao e Nixon jogam, prazenteiros,
uma partida de pingue-pongue.
E a pálida claridade do banco espreita, dolorosamente,
por detrás da montra, como da coluna vertebral
desta velhinha ressuma, ainda quente,
o sangue do Vietnam.
Sob imundície e a vergonha desta feira do mundo,
sem força para compreender todo este lodo,
a velhinha olha, como uma lama em apuros,
antiga índia, virgem de dor, mãe da humanidade.
Verga-se sob o peso das suas mentiras,
a tatuagem violenta do seu título, fere-a.
Mas ela é como uma estátua viva,
a estátua da verdade do mundo que repousa
sob o montão de mentiras.
Ó claridade pálida do banco, tu iluminas o seu seio fatigado.
E tu, lama da montra, liberta-a
desta imundície dourada que a cobre,
leva-a contigo para a montanha da salvação.
Eu, o representante de um grande país,
inclino, silenciosamente, a minha cabeça,
como uma criança perdida,
diante desse rosto doloroso,
do seu rosto cor de cobre, sulcado de rugas.
Porque muito no fundo desta mulher idosa esconde-se
ciosamente, esconde-se,
respirando em segredo, o país maior do mundo,
a alma humana.
“Eh, gringo, não queres uma pequena peruana?”
grita-me ele, novamente, com um assobio.
Mas eu, fico ali, sem me mexer, sem poder mexer-me.
Não posso explicar ao motorista de taxi
que a minha peruana, já a encontrei.

Related Posts with Thumbnails