terça-feira, 31 de janeiro de 2012

PRIMEIRO PASSO: Viva a intolerância contra os religiosos


PAULO BRABO  - A BACIA DAS ALMAS

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

Como vivo dizendo, ser cristão tornou-se insulto adequado para todo tipo de conduta, menos na escandalosa acepção original: a de quem assume a trilha de Jesus em sua espiral voluntária e redentora à desintegração e à morte – e quem sabe, à glória, mas por essa única via. Aprendemos a sensatamente desbastar todo o conteúdo subversivo da mensagem de Jesus (da forma como fazemos, naturalmente, com profetas menos consagrados, de Sócrates a Nietzsche), até o ponto em que o que Jesus disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.

A fim de remediar essa situação, meu desejo é fazer como o ateu da parábola e resgatar para o público contemporâneo o contéudo ideológico do bem-intencionado mas cabeça-dura rabi que os cristãos garantem ser o messias dos judeus, que os judeus negam ser o messias e o único Filho de Deus e que os muçulmanos afirmam ser profeta incompreendido do único Deus, que não tem filhos.

Este, senhoras e senhores, é o primeiro capítulo de um Novíssimo Manual de Conduta do seguidor de Jesus, a ser lançado em breve para todo Brasil pelo Scriptorium do Monastério de São Brabo, em laboriosas cópias manuscritas. Resolvi chamá-lo de Em Seis Passos Que Faria Jesus, por motivos que se não ficaram evidentes ainda ficarão.

Você quer ser como Jesus? Seguindo esses seis passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra e consagração a médio prazo no céu. A pressa é sua.

PRIMEIRO PASSO:

VIVA A INTOLERÂNCIA 
RELIGIOSA
 CONTRA OS RELIGIOSOS


A intolerância religiosa tem de ser tão antiga quanto a própria idéia de religião, mas é duvidoso mérito dos cristãos (e a partir de agora usa a palavra na pior acepção do termo, e também a única) ter refinado o conceito associando a alternativa à escravidão, à tortura e à morte em larga escala. O cristianismo foi a primeira religião da história a ganhar verdadeiro peso cultural através da conversão – ao contrário das pacíficas religiões anteriores, das quais restam algumas, e que preferiam apostar a eventual consagração no milenar e lentíssimo método de transmissão e reelaboração de pai para filho.

O cristianismo histórico foi desde o início, exatamente como nos nossos dias, empreendimento de curto prazo, indústria de resultados. Jesus passou de ilustre desconhecido a único Deus do vertiginoso Império Romano em meros 300 anos – menos que um piscar de olhos em termos históricos. Não é de estranhar que pelo menos metade dessa conversão nominal do mundo tenha sido adquirida na ponta da espada. A fim de salvar os incréus era necessário não tolerar a sacrílega religião deles: os cristãos entenderam o imediatismo do Ide e saíram pelo mundo fazendo inimigos, ostracizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Essa dupla paixão pelos resultados e paixão pela publicidade deixam claro que o cristianismo histórico não é o menos eloqüente antecessor do convulsivo capitalismo contemporâneo.

Essa implacável visão de mundo, da expansão numérica e comercial como missão divina, determinou toda a história do ocidente, inclusive a sangrenta colonização das Américas. Em 1454 o Papa Nicolau V resume essa postura geral na sua Bula Romanus Pontifex, em que concede ao rei Afonso de Portugal (e a seu príncipe D. Henrique, que daria forma final à nau oceânica portuguesa e assim o chute inicial às Grandes Navegações), uma singela série de privilégios materiais associados à sua pureza de coração:

”(…) concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar e subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes (…)”

Nenhuma manifestação do cristianismo institucional dos nossos dias difere, em qualquer sentido importante, da inclinação geral do parágrafo acima. Os filhos do Rei permanecem reclamando seus direitos, absolutamente convencidos da primazia da sua condição. Os religiosos cristãos chafurdam em seus merecimentos, e oram descaradamente para extrair alguma prosperidade dos inimigos de Cristo ou reduzi-los à servidão – o que for mais imediato ou der mais prazer (e é naturalmente graças aos cristãos que cremos que essas duas últimas coisas andam juntas).

Por alguma razão que Cristo não teria como entender, os que hoje se consideram cristãos são os que se consideram religiosos. E, dentro da mesma lógica ignorante dos fatos, os que não se submetem à religião são inimigos de Cristo.

Talvez baste para você pensar e agir assim, mas se você quer ser de fato como Cristo é absolutamente necessário dar o primeiro e louquíssimo passo na direção de Deus e para longe da religião. Porque Jesus, como deixam abundantemente claro os evangelhos, promovia e aplicava consistentemente uma forma muito particular de intolerância religiosa: a intolerância contra os religiosos.

Jesus, que comia com estelionatários, bebia com agiotas e era amigão de prostitutas, tolerava aparentemente tudo em todos. “Eu não condeno você”, ele ousou blasfemar aos ouvidos da mulher adúltera. O rabi puxava conversa com divorciadas promíscuas, tocava leprosos de que todos desviavam o olhar e dormia nas camas rendadas de inimigos do povo. O sujeito conseguiu o feito inédito de sustentar a fama de homem de Deus ao mesmo tempo em que abraçava os puxadores de fumo, traficantes, travestis e aidéticos do seu tempo.

Mas havia um limite para a sacanagem que ele podia engolir. A única classe de pessoas que fazia Jesus perder a paciência e a compostura era, formidavelmente, a dos religiosos. Aquele que mostrou-se disposto a acolher sem qualquer transição um criminoso no seu paraíso não tinha uma única palavra de tolerância para os devotos, os carolas, os piedosos, os santinhos. Esses despertavam a sua ira, e para ser como Jesus é necessário – por difícil que possa parecer – que despertem também a sua.

Para demonstrar de forma conveniente a implacável intolerância de Jesus para com os religiosos seriam necessários quatro evangelhos. Deve bastar, no entanto, o relato da homérica lavada que levou um fariseu imprudente que convidou Jesus para jantar. Fique pelo menos a lição: se não quer ser como ele, pelo menos não convide Jesus para jantar.

Enquanto ele ainda estava falando, um fariseu pediu que Jesus fosse jantar com ele. Ele entrou na casa do fariseu e reclinou-se à mesa para comer.

O fariseu ficou surpreso ao ver que ele não havia lavado as mãos antes da refeição.

– Vocês, fariseus – o Senhor disse a ele, – limpam a parte de fora dos copos e dos pratos, mas por dentro estão cheios de cobiça e perversidade. Loucos! Aquele que fez o exterior não foi o mesmo que fez o interior? Dêem como esmola o que vocês têm no interior dos pratos, e para sua surpresa tudo será puro para vocês. Mas ai de vocês, fariseus, que dão a décima parte até da hortelã, da arruda e de toda espécie de hortaliças, mas passam longe do veredito e do amor de Deus. O certo era que fizessem uma coisa sem deixar de fazer a outra. Ai de vocês, fariseus que amam os lugares mais importantes da sinagoga, e amam ser cumprimentados nas praças. Ai de vocês, estudiosos da lei e fariseus! Impostores! Vocês são como sepulturas não marcadas, sobre as quais as pessoas andam sem saber.

Neste ponto um perito na Lei que estava presente disse:

– Mestre, quando o senhor diz isso também está nos ofendendo.

Mas ele disse:

– Ai de vocês também, peritos na Lei! Vocês sobrecarregam as pessoas com cargas difíceis de se levar, mas vocês mesmos não mexem sequer um dedo para carregá-las. Ai de vocês, que constroem mausoléus para os profetas, quando foram os pais de vocês que os mataram. Fazendo isso vocês confessam que estão de acordo com o que os seus pais fizeram: eles mataram os profetas, vocês constroem sepulturas para eles. É por isso que a sabedoria de Deus diz: “Eu enviarei a vocês profetas e apóstolos; alguns deles vocês matarão, outros vocês irão perseguir. Para que dessa geração seja requerido o sangue de todos os profetas derramado desde que foram lançadas as bases do universo: do sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e a casa de Deus.” Eu afirmo a vocês que isso será exigido desta geração. Ai de vocês, peritos na Lei! Vocês negaram às pessoas o acesso à chave do conhecimento; vocês mesmos não entraram, e impediram os que estavam entrando (Lucas 11:37-52).

É preciso ainda ressaltar que a religiosa intolerância de Jesus para com os religiosos em nenhum momento esteve voltada para o que chamaríamos hoje de pagãos. A Jerusalém do tempo de Jesus era cidade ocupada pelos romanos, apinhada de sacrílegos templos, estátuas, estádios, quartéis, teatros e banhos públicos que os judeus piedosos só faziam condenar. Incrivelmente, não chegou até nós nenhuma palavra de condenação de Jesus contra essas barbaridades; pelo contrário, que Jesus estava favoravelmente familiarizado com a cultura romana fica claro, por exemplo, no uso natural e muito apropriado que ele faz do termo hipócrita (ator, mascarado, canastrão), emprestado do teatro, forma de arte que os judeus de boa estirpe ao mesmo tempo desconheciam e abominavam.

O desconcertante é que, ao mesmo tempo em que tolerava os pagãos (talvez porque eles mesmos eram muito tolerantes), Jesus batia de frente contra os que afirmavam terem o monopólio de acesso ao Verdadeiro Deus©. Jesus reconhecia que o vasto e inclassificável Deus das escrituras hebraicas era também o seu, mas ao mesmo tempo asseverava que os sacerdotes, fariseus e intérpretes que pretendiam tê-lo seqüestrado para si, fechando-o dentro de um sistema religioso estanque, confortável e opressor, não tinham a mínima idéia de com quem e de quem estavam falando.

O primeiro passo para fazermos no nosso tempo o que Jesus fez no dele é, incrivelmente, abrir mão de qualquer palavra de condenação contra os ateus, os feiticeiros, os satanistas, os liberais, os wiccans, os macumbeiros, os budistas, os hindus, os animistas – agnósticos e pagãos de todos os matizes. O alvo da nossa intolerância deve ser outro, o alvo que foi também o de Jesus: os que passeiam pelo mundo crendo ter o aval inequívoco e a credencial indelével do Verdadeiro Deus©. Aqueles que, nas palavras de Paulo, estão “persuadidos de serem guias dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutores de ignorantes, mestres de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade” – mas que “ensinam os outros sem ensinarem a si mesmos”.

Nós.

Quando apenas esses nos fizerem perder toda a paciência e a compostura; quando apenas esses nos levarem a abrir a boca em imprecações e maldição, estaremos sendo como Jesus.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A sedução da ortodoxia


Paulo Brabo - A Bacia das Almas

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado comocrença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.
SÓ A ORTODOXIA SALVA.
A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.
A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão dagnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

domingo, 29 de janeiro de 2012

As razões ao contrário


Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Os dois momentos decisivos de Nicodemos e o Vento, de Philip Leroyer – extensa novela publicada postumamente em 2006 e, ao que se saiba, sua única obra completa – se passam num hoje célebre convento numa região remota e montanhosa de Portugal, cujo edifício abriga tanto um asilo quanto um orfanato. Esse palco peculiar é epítome e explicação da parábola; sua epígrafe, quase desnecessária, é o terceiro verso do décimo oitavo capítulo do evangelho de Mateus: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”.
A primeira página apresenta-nos austeramente ao Abrigo de Santa Luzia do Meira, que já conheceu dias melhores e em que restam dezenas de celas vagas e cinco freiras encarquilhadas. Há numa área reservada uma parede coberta de fotografias, há banheiros com piso de losango, há num pátio um poço que durante certo Pentecoste a Saúde mandou impossivelmente selar. É uma inclemente noite de inverno e um carro deixa, à porta do asilo, uma maca com o corpo inconsciente e nu de um velho anônimo.

Movidas de compaixão, as freiras arrastam a maca para um dos muitos quartos disponíveis, banham o estranho, vestem-no com um puído pijama azul e aquecem-no com cobertores e fogareiros. Com um tossido ou soluço o homem volta a si; seis semanas depois é capaz de sentar-se; seis meses depois, de andar e entreter os órfãos com histórias de um tempo em que a terra era informe e vazia. Quando crê-se inteiramente recuperado, deixa dobrado um pijama impecável sobre a cama e parte de ônibus pela estrada sinuosa.

Vai morar em Braga, depois Lisboa, depois Paris. Com o passar gentil dos anos cresce-lhe uma selvagem cabeleira de finíssimos cabelos grisalhos; seu rosto ganha um renovado rubor e ele deixa crescer um bigode viril. Numa visita de rotina ao hospital, encontra uma companheira e toma-a pela mão. Vão para casa juntos e compartilham castamente da cama naquela noite.

Sessenta anos e oitocentas páginas depois o estranho retorna com a esposa ao convento de Meira, que está (mesmo o meu leitor já o terá adivinhado) inteiramente outro: um órfão despeja água fresca no poço aberto do pátio; a superiora remove uma única moldura da parede reluzente e cheirando a tinta; o sino da capela dispersa mais de meia centena irriquieta de jovens freiras. O estranho e sua esposa sorriem assombrados para o espelho no fundo do corredor e sentam-se de mãos dadas numa das camas do orfanato. Não é o fim de suas aventuras e o livro não chegou ainda a seu clímax, mas o círculo está perto de fechar.

Philip Leroyer escreveu no leito de morte. Nicodemos e o Vento é obra lenta, laboriosa e extensa, vertiginoso esforço de um escritor que não se esquivou à agonia de 1200 páginas para deixar uma primeira, última e unificada impressão. Lidas as primeiras cem páginas não haverá leitor que não tenha intuído a reviravolta central; sagazmente, Leroyer, não faz com que o livro dependa dela. As incessantes revelações são apresentadas ternamente, surrealmente; há, por exemplo, o dente que o viajante encontra em certo parque de Paris e encaixa com sucesso no espaço entre um incisivo e um molar; há a belamente executada cena da revoada de corvos numa estação de trem; há o sutil rejuvenescimento dos protagonistas, cuja improbabilidade é aplacada ou exacerbada pelo rejuvenescimento do mundo a seu redor.

Nicodemos e o Vento não é, como comprova o artigo crítico de Harold Bloom, a primeira obra de ficção a pressupor um sentido reverso para o passar dos anos. É, no entanto – tanto quanto eu saiba, – o primeiro a produzir uma lógica inerente para este universo invertido. Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, não é inconcebível para a física contemporânea. Leroyer supre essa nossa lacuna intuitiva com uma bem construída lógica interna, deixando no caminho da narrativa um número mais do que satisfatório de – para usar a expressão de Bloom – “razões ao contrário”. Nada no mundo reverso imaginado por Leroyer é arbitrário; o que poderiam parecer coincidências fortuitas são representação e explicação de um anelo sincero dos personagens; não estão em momento algum separados de sua busca. O universo deNicodemos e o Vento não é mais improvável do que o nosso.

Porém a ambição do autor é maior; ele não apenas deseja que sua criação apresente coerência interna satisfatória. Leroyer quer que seu mundo de tempo reverso faça mais sentido do que o convencional; quer que a lógica do seu universo seja capaz de explicar todas as idiossincrasias do nosso. Quando, depois de quatro anos juntos no orfanato, o jovem protagonista e sua jovem esposa finalmente se despedem (são agora crianças e estão, no fluir implacável do que chamamos de futuro para o que chamamos de passado, vendo-se pela última vez), o momento é ao mesmo tempo emocional e celebratório; o peso da experiência comum e transformadora dos anos é aplacado pela perspectiva de um destino premente, uno e glorioso. A misteriosa intensidade do que no nosso mundo chamaríamos de paixão à primeira vista é explicada no universo reverso de Leroyer como a emoção mista da separação feliz depois de uma longa convivência.

Philip Leroyer, que era pastor da seita evangélica dos nicodemitas e escrevia em seu pijama puído numa cama de ferro no asilo de Santa Luzia do Meira, não esconde no pósfacio que seu livro é rigorosamente uma apologia à sua crença e uma autobiografia reversa.

Os nicodemitas, como hoje não há quem não saiba, crêem que é apenas uma diabólica ilusão que nos faz acreditar que o tempo prossegue do passado em direção ao futuro – e portanto da integridade à decadência, da vida à morte, da inteireza à dissolução. A realidade (e se tivéssemos fé suficiente seríamos capaz de enxergá-lo) é simetricamente inversa: o tempo caminha do futuro ao passado, da dissolução para a inteireza, da separação para a impensável união, de Apocalipse para Gênesis.

Os partidários da seita, da qual o pai de Leroyer foi fundador formal, encontram abundante (porém nunca incontroversa) evidência na Escritura para sua posição. Os evangelhos não escondem que Jesus falava em parábolas; os nicodemitas crêem que apenas eles sabem o quanto. Quando afirma que os mortos ressuscitarão de seus túmulos e que o mar dará de si os seus mortos, Jesus não está falando de um momento imponderável no futuro, mas apenas asseverando o rumo natural das coisas. No mundo reverso dos nicodemitas, em que a vida começa na morte e glorifica-se no nascimento, os homens nascem adultos, erguidos solenemente do chão em seus caixões, depois de terem sido formados do pó da terra – o que é, naturalmente, prefigurado na narrativa da criação em Gênesis.

O momento emblemático da revelação dessa boa nova encontra-se, conta-nos o posfácio de Leroyer, na conversa de Jesus com Nicodemos registrada no terceiro capítulo do evangelho de João.

“Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, começa Jesus, expondo já a essência da revelação. Porém é Nicodemos que coloca a coisa com todas as letras:

“Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer?”

“Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo,” replica Jesus. E acrescenta, esclarecedoramente: “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai”.

O vento, asseveram tranqüilamente os nicodemitas, é aqui (como em toda Escritura) símbolo inequívoco do tempo. Nicodemos, segundo Jesus, pode ouvir o sopro do tempo, mas é incapaz de reconhecer a sua direção – de onde vem ou para onde vai. A denotação é clara: o tempo sopra, ao contrário do que parece sugerir nossa pobre intuição, do futuro para o passado, da morte para a vida, da velhice para o nascimento – que é o mergulho estarrecedor e unificador e batismal no ventre materno. “Importa-vos nascer de novo” e “se não vos tornardes como crianças de modo algum entrareis no reino dos céus” não são meras injunções de Jesus; são sua desapaixonada constatação.

No universo de tempo reverso, que os nicodemitas querem crer ser o verdadeiro e único, todas as coisas tendem à restauração e à unidade, em necessário contraste com o nosso, em que tendem à decadência e à divisão. O apocalipse é experiência diária, e as pessoas nascem diariamente de seus túmulos; a existência humana na terra é um eterno rejuvenescimento que sara todas as feridas e apazigua todos os rancores. O que chamamos de último suspiro é o primeiro, e o nascimento é o “voltar ao ventre materno” profetizado por Nicodemos. A humanidade experimenta um irreversível processo de unificação, prefigurado na genealogia inversa do terceiro capítulo da primeira carta aos Coríntios, que começa em Jesus e termina em Adão, e por fim, no próprio Deus: ”…Lameque, filho de Metusalém, filho de Enoque, filho de Jarede, filho de Maalalel, filho de Cainã, filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus”.

O destino da humanidade, sua redenção, é recuperar a unidade com Deus; quando tivermos todos mergulhado no ventre de nossos pais, quando todos os livros e todas as artes e toda obra humana reverterem ao silêncio e formos todos Adão, mergulharemos – seremos batizados – no ventre de Deus e o vento do Espírito será desnecessário e deixará de soprar.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. No pátio de Santa Luzia do Meira, na parábola biográfica de Leroyer, convivem órfãos e anciões: os últimos são os recém-chegados, os primeiros os experientes; os últimos estão aprendendo austeramente viver, os primeiros brincam de roda para celebrar incessantemente seu destino iminente no ventre da inteireza.

Philip Leroyer foi casado com Edda de Oliveira, que morreu de câncer num hospital de Paris. Não tiveram filhos.

Leroyer era adotado. Na cena final de Nicodemos e o Vento as freiras devolvem sobriamente o bebê (que é Philip e já foi um velhinho e um homem de bigode e um marido adolescente e uma criança orfã, nessa ordem) a sua mãe, que o recebe em lágrimas e leva-o, vicariamente, para casa.

sábado, 28 de janeiro de 2012

O culto do ócio


Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Antes de encerrar esta série sobre o papel do espírito protestante na formação e na glorificação do capitalismo (a despeito do choque muito evidente com a pregação de Jesus a respeito da acumulação de riquezas), não tenho como não enfatizar que tudo que discutimos até aqui aplica-se diretamente apenas às nações ocidentais do hemisfério norte.

Nosso aquário ideológico aqui no Brasil é outro, e é apenas recentemente (digamos, sessenta anos) que a pregação americana do culto da perfomance tem alcançado verdadeira penetração entre nós – especialmente na metade meridional do país e nas capitais em geral – e, mesmo assim, com assimilação e resultados mistos.
EU NÃO GANHO PRA ISSO.
Graças a uma colonização diferente, o que professamos e praticamos aqui é uma postura virtualmente oposta a de americanos e europeus: eles têm o culto da performance, nós temoso culto do ócio.

Fomos colonizados por senhores católicos e portanto latinos; o espírito protestante não deixou mais do que uma marca de dente nos anos da nossa história colonial. Nossos colonizadores criam de todo o coração em desfrutar das riquezas deste mundo, mas desconfiavam com a mesma convicção do mérito do trabalho. Sujar as mãos era coisa de escravo, e trocar a nossa roupa e dar-nos banho trabalho de criado. A agenda do senhor colonial era bocejar entediado, fazer o filho de cada dia, olhar pela janela e ver o espetáculo dos que davam o sangue para acumulhar riquezas em seu nome.

O culto do ócio é a crença de que feliz mesmo é quem é rico sem ter de trabalhar. Pela sua onipresente influência, vivemos todos no Brasil a eterna expectativa de ganhar na loteria, de arranjar algum emprego público, de granjear um cargo de confiança, de encontrar o padrinho perfeito, de descansar numa aposentadoria precoce. Eu não ganho pra isso – é sua rancorosa profissão de fé.
INVEJAMOS OS RICOS, MAS NÃO AO PONTO DE NOS DOBRARMOS À BAIXEZA DE ECONOMIZAR.
Invejamos os ricos, mas não ao ponto de nos dobrarmos à baixeza de economizar para alcançar uma posição financeira mais confortável. Trabalhar, sentimos, já é humilhação suficiente.

Pela mesma razão, o trabalho para nós não tem o mesmo objetivo que tem para americanos e europeus. Para eles trabalhar é uma maneira de garantir um futuro melhor; para nós, é um modo de prover alguma gratificação instantânea. Se cometemos a baixeza de trabalhar é para vivermos mesmo que por um instante como se não o precisássemos.

É como resume magistralmente o refrão do Forró pé-de-chinelo de Marinês:
Coisa melhor é ver o dia amanhecer
Não querer nem saber que a gente tem que trabalhar
Que trabalhar é pra poder ganhar dinheiro
Ganhar dinheiro pra poder se esbandalhar
 
***
De um lado então, estão protestantes americanos, que crêem que há evidente mérito em trabalhar, porque possibilita a acumulação de riquezas; do outro, católicos brasileiros, que crêem que há evidente mérito em desfrutar de riquezas, desde que não exija a acumulação de trabalho.

Tanto um pensamento quanto o outro afastam-se a seu modo da posição radical de Jesus, que cria não haver qualquer mérito na acumulação ou no desfrutar de riquezas. A postura de Jesus não prescinde do trabalho mas não o glorifica; não glorifica o ócio mas exige tranqüilidade. As aves não acumulam reservas, e ainda assim o Pai as alimenta – argumentava ele, não querendo com isso dizer que as aves não trabalham. Pelo contrário, a força do exemplo está em que as aves trabalham incessantemente, mas não movem um músculo para acumularem aquilo de que em última instância não precisam.

Os frugais é que são felizes, e rico é quem não precisa de nada.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O salvador e seu próximo


Qual dos dois fez a vontade do pai?
Mateus 21:31

Certo salvador, depois de sua ressurreição, descia de Jerusalém quando veio a cair em mãos de salteadores, que queriam roubar-lhe tudo, causar-lhe muitos ferimentos e deixá-lo como morto. Escapando deles, o salvador tomou uma vereda próxima que levava secretamente ao Paraíso, mas seu testamento caiu na beira da estrada, onde ficou por dois mil anos.

Casualmente, subia um católico por aquele mesmo caminho, e vendo o testamento, pisou-o e seguiu adiante. Semelhantemente, um evangélico subia por aquele lugar e, vendo o testamento, também passou-lhe por cima.

Certo ateu, que seguia o seu caminho, passou perto do testamento e, vendo-o, compadeceu-se, dizendo:

– Esse era um homem bom e bem-intencionado, e suas idéias eram belas e ousadas. É injusto que seu testamento permaneça sem ser cumprido.

E, chegando-se, tomou o testamento e levou-o consigo para sua cidade, onde cumpriu os últimos desejos do salvador em que não cria, atentando para eles e reparando-lhe a honra.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os sanguessugas evangélicos



O Brasil descobriu que tem lobos vestidos de pastores; uma corja imunda. São os políticos evangélicos que gatunaram o Ministério da Saúde; testas-de-ferro de igrejas, apóstolos e bispos mentirosos que afirmavam haver necessidade de eleger crentes para o Congresso Nacional com um discurso de que almejavam os interesses do Reino de Deus.

Por favor, não insistam em me pedir que seja misericordioso com esses ratos alados: eles sugaram o sangue de brasileiros pobres. A única sugestão que tenho para eles é que cada um amarre uma corda no pescoço e se jogue de uma ponte para dentro de qualquer esgoto.

Por favor, não insistam comigo. Não serei compreensivo. Estou enfurecido. De nada me valerão argumentos de que esses políticos evangélicos podem ser escuma fétida, mas que pregam uma mensagem libertadora. Não tolero mais ouvir essa desculpa. Não acredito que a causa evangélica precise conviver com tanta ignomínia, desde que “salve almas”. Nenhuma “salvação” seria tão excelente que justifique essa indecência que veio à tona, mas que há tempos corre frouxa nos porões das mega “empresas-igrejas” que mercadejam esperanças.

Por favor, não insistam em me dizer que esses políticos foram inocentes úteis, ludibriados por máfias poderosas. Ora, ora, qual o grande discurso triunfalista evangélico, repetido até cansar? “Somos cabeça e não cauda!”. E agora? Depois que se ouviu tanto que a presença de políticos crentes no Congresso salgaria o Brasil, como se organizará a próxima “Marcha pela Salvação da Pátria?”.

Por favor, não insistam em me dizer que os ladrões são poucos, e que não representam o perfil evangélico. A bancada evangélica foi a maior desse escândalo das ambulâncias superfaturadas. Os crentes lideraram essa gigante maracutaia.

Se alguma igreja, que elegeu um desses congressistas, tivesse um mínimo de brio humano (nem precisaria ser brio cristão), deveria retirar do ar seu programa de televisão; pedir um tempo; expulsar seus políticos; prometer que jamais tentará eleger alguém; e fazer uma Reforma em sua teologia. Porém, sabe-se que isso jamais acontecerá, o que eles menos têm é vergonha na cara.

Por favor, não insistam em me pedir que algum dia me sente em qualquer evento, simpósio ou conferência na companhia dessas igrejas, ou que argumente sobre suas teologias e mentalidades. A Bíblia me proíbe de sentar na roda dos escarnecedores. Não devo considerá-los irmãos; esses pastores, bispos e apóstolos devem ser encarados como escroques, que merecem mofar na cadeia o resto da vida.

Por favor, não insistam que eu me cale diante de engravatados de Bíblia na mão, quando sei que eles tentam esconder sua condição de sepulcros caiados. Neles, cabe a carapuça de raça de víboras; mataram velhinhos, condenaram crianças e acabaram com os sonhos de muitas mães. Igrejas que se beneficiaram do esquema de roubo do orçamento da saúde merecem ser sepultadas numa vala comum, e tratadas com o mesmo desprezo que tratamos as empresas de fachada do narcotráfico.

Por favor, me acompanhe em minha indignação. Os líderes evangélicos não podem permanecer de braços cruzados, corporativamente defendendo meliantes fantasiados de sacerdotes.

Por favor, não esperemos que um próximo escândalo nos acorde de nossa complacência.

Há necessidade de uma reforma ética entre os evangélicos.

E ela tem que ser urgente.

Soli Deo Gloria.


Sabedoria e mortalidade

Fermentado por   PAULO BRABO


Tal como a nuvem se desfaz e some,
aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir.Jó 7:9

Talvez aproximar-se da Bíblia sem grandes prejulgamentos baste para se entender que é com muita hesitação que o próprio texto bíblico se aproxima da ideia de imortalidade. Em termos narrativos, históricos e literários, é só a terceira terça parte da Bíblia que tem algo a dizer sobre vida eterna – e mesmo assim não fala, muito provavelmente, da vida eterna como a estamos acostumados a imaginar.

Porém, o que quer que se conclua sobre a vida eterna em Daniel e no Novo Testamento, permanece o fato de que os dois primeiros terços da Bíblia tendem a sugerir, com impressionante consistência, que o que existe é esta vida – que deve ser bem vivida, com gratidão, com integridade e com gosto, porque é somente esta.

Esse silêncio em relação à vida depois da morte é no mínimo curioso, tendo em vista que a ideia de imortalidade pessoal é mais antiga do que os mais antigos textos bíblicos. A antiquíssima cultura egípcia, em particular, desenvolveu muito cedo as noções de [1] uma sobrevivência do eu depois da morte, de [2] um tribunal no além em que os atos desta vida eram pesados contra uma medida eterna de integridade, e de [3] uma eternidade de glória no céu (literalmente no céu, entre o sol e as estrelas) para os que se mostrassem dignos depois de passar por uma série de provas. Inicialmente esse destino eterno estava reservado exclusivamente ao faraó, mas pouco a pouco foi se estendendo ao restante da aristocracia egípcia (essencialmente, todos que tinham recursos suficientes para cobrir os custos dos rituais necessários, inclusive a mumificação).

O Egito foi um dos dois berços de Israel, mas o Antigo Testamento testemunha que o sonho egípcio de uma vida depois da morte no céu não deixou qualquer marca na religião judaica. Alguns trechos do Pentateuco parecem ter sido escritos de modo a polemizar e desacreditar a religião egípcia, deixando clara a superioridade do Deus e da fé dos hebreus, mas alguma forma vida depois da morte não parece ter sido considerada necessária para comprovar essa supremacia.

O pacto de Deus com a descendência de Abraão prometia, essencialmente, realização e fertilidade e prosperidade nesta vida para os que cumprissem a lei e os mandamentos. A eternidade que a Israel seria dada experimentar residia no fato de serem um povo, uma genealogia, uma semente: uma eternidade fundamentada na hereditariedade e na perpetuação do sangue, não na imortalidade pessoal.

E não é só que a Bíblia hebraica tem pouco a dizer sobre a questão da imortalidade; o espantoso é o quanto ela tem a dizer sobre a mortalidade.

A mortalidade é, na verdade, tema essencial do fio da narrativa bíblica e do modo bíblico de explicar o mundo. E sua tese central é esta: para seres humanos como nós, mortalidade e sabedoria devem andar sempre juntas. Não há um modo aceitável de separá-las.

Se refletimos sobre assunto, parecerá haver algo de terrível e trágico, algo de fundamentalmente injusto, no fato de sermos sábios e de sermos simultaneamente mortais. Para a Bíblia hebraica, que não pensa como nós, é apenas inevitável que gente sábia seja mortal e que gente mortal seja sábia. Uma coisa não deve existir sem a outra.

Um dos argumentos mais recorrentes dos livros de sabedoria – Salmos, Provérbios, Eclesiastes – é precisamente este: não é apesar de sermos mortais, é porque somos mortais que devemos aprender a viver com sabedoria. Quem tem visto temporário nesta terra não se pode dar ao luxo de viver sem prudência, sem integridade e sem inteligência. É precisamente isso o que dizem e querem dizer declarações como “ensina-nos a contar os nossos dias, de modo a que alcancemos corações sábios” (Salmo 90:12). O motor para se viver bem deve ser a consciência de que ninguém vive para sempre.

O fundamento dessa tradição bíblica é a ideia de que a sabedoria deve ser abraçada com gosto e com paixão porque ela é um dom divino. A sabedoria é um atributo de Deus do qual – pelo tempo limitado da sua vida na terra – é dado ao homem a possibilidade de desfrutar. Por isso, “tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Eclesiastes 9:10). Viva com sabedoria hoje, porque “[quando alguém morre] sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos” (Salmo 146:4).

Segundo essa visão, a vida humana é duplamente preciosa porque é curta e porque, em sua brevidade, permanece ainda estendida ao homem a oportunidade de viver (de modo temporário e honorário) como Deus – em sua sabedoria. Nesse modo de ver as coisas, os animais têm vida mas não têm sabedoria, o homem tem sabedoria mas não é eterno: Deus é único a pisar simultaneamente os domínios da vida, da sabedoria e da eternidade.

É por isso que a única forma nobre de se viver esta vida mortal é vivê-la com aquilo que ganhamos em comum com Deus: o conhecimento da maneira certa de se portar e de se viver.

É precisamente isso o que ensina – é isso o que explica – a história da árvore do conhecimento do bem e do mal no livro de Gênesis: sabedoria e mortalidade são coisas inseparáveis nesta condição humana. O mesmo fruto que nos deu o dom da sabedoria (porque, na história, o conhecimento do bem e do mal é uma coisa boa, um verdadeiro dom e atributo de Deus) nos vedou o acesso à imortalidade. O preço de ser sábio é ser mortal, e a compensação de ser mortal é ser sábio. É menos a história da queda do que a história das contradições da condição humana.

De certo modo, essa história fundacional de Gênesis antecipa o que acabaram concluindo antropólogos, psicólogos e pensadores existencialistas muito tempo depois: a angústia da condição humana e sua simultânea glória reside no fato de sabermos que nossos dias estão contados. Os animais não chegarão a ser sábios porque não sabem que vão morrer.

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