quarta-feira, 14 de outubro de 2009

OLIM-PIADAS


Todo mundo feliz que o Rio vai sediar as Olimpiadas 2016. E os governantes do Rio mais ainda. São eles que vão superfaturar as obras olímpicas, passar a mão na nossa grana e investi-la no tráfico de drogas. E o povo comemora!

Nos Jogos Pan-Americanos 2007 o Rio não cumpriu quase nenhuma das promessas/exigências. Mas vamos nos alegrar! É dada uma nova oportunidade para não cumpri-las de novo!

Minha amiga Denise Dambros jura de pé junto que os responsáveis pelos fogos de abertura dos Jogos Olímpicos 2016 serão os traficantes do morro.

Ela disse também que a Olímpiada pode ser confusa. Os corredores nunca saberão ao certo se aquilo que acabaram de ouvir foi mesmo o tiro de largada.

Eu já posso até dar meus palpites de quem leva o maior número de ouro pra casa: Os trombadinhas. E os governantes e as empreeiteiras de seus compadres, claro. Já tinha falado disso no começo do texto.

Quando o atleta chegar no podium vai ter um flanelinha guardando seu lugar.

Aposto que os atletas estarão liberados do exame anti-doping, afinal, como proibir que desfrutem da maior fonte de renda da cidade?

As Olimpíadas do Rio será a prova definitiva que o Michael Phelps realmente é o melhor do mundo. Se ele conseguir bater algum recorde nadando com o colete a prova de balas, então ele é o cara.

Isso tudo é piada de mal gosto. Me perdoem. O Rio em 2016 será tranquilo e perfeito. A polícia vai fazer um acordo com os traficantes que será mais ou menos assim: “Deixem a época olímpica em paz e nós deixaremos vocês dominarem o Rio em paz durante um longo período depois”. E o povo comemora. O importante é o final feliz da novela de mentirinha, não importa que serão reféns depois que a cortina do espetáculo fechar.

Meus pais pareciam chatos e duros quando eu era criança. Mas quando eu cresci vi que eles tinham razão. Eles só deixavam eu comer a sobremesa se antes comesse todo o arroz com feijão. Isso me garantiu um crescimento saudável. Eu estaria muito feliz com as Olimpiadas no Brasil se antes disso esse mesmo Brasil tivesse uma justa distribuição de renda, ensino e saúde de qualidade e se a cidade sede dos Jogos Olimpícos não fosse também a cidade sede de tanta familia desfeita por drogas, morte violenta e fonte de hipocrisia e corrupção aliada ao tráfico de drogas. Como eu seria hoje se comesse a sobremesa sem comer antes os legumes? Banguelo, anêmico, obeso, com deficit de vitaminas e achando que posso fazer qualquer coisa quando na verdade não passo de um tremendo idiota. O Brasil devia comer mais arroz e feijão antes de provar a sobremesa.

Quando Lula disse que "não é porque o Brasil tem problemas que não pode sediar uma Olimpiadas" ele enraizou ainda mais no consciente do zé povinho o que move (ou deixa de mover) o brasileiro: A idéia que merecemos as coisas por esmola. “Não somos melhores que Chicago, Madrid e muito menos que Tóquio. Definitivamente não merecemos mais que eles... mas poxa... dá as Olimpiadas de esmolinha ai pelo amor de Deus... somos pobrezinhos... vai...”

Lula chorou quando o Rio ganhou as Olimpiadas. Ele deveria chorar quando visita um hospital público ou anda num onibus nesse mesmo Rio. E não estou dizendo do Rio Zona Sul, cartão postal, lindo, onde quem tem uma certa grana vive feliz e confortável. Estou dizendo dos outros 70% do Rio, esquecidos pelo País porque não são interessantes pra ser cenário de novela (apenas pra ser cenário de filme de chacina policial). O caminho que o turista faz do aeroporto pro hotel não passa por esse Rio que não foi retratado naquele vídeo da campanha. Fernando Meirelles desviou a camera desse Rio, assim ninguém se incomoda. No Rio das Olímpiadas o carioca desse outro Rio que estou falando é tão turista como outra pessoa qualquer.

Mas vamos comemorar! Finalmente o Brasil terá a enorme honra de ter o mundo inteiro olhando só pra ele em 2016 enquanto assiste Estados Unidos, China, Cuba, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Suécia... nos derrotando em nosso próprio solo.

Brasileiro se acha tão feliz e malandro mas no podium dos otários é sempre o recordista.

O progresso acontece quando você perde mais tempo se incomodando com as coisas ruins do que se acomodando com as coisas boas.

Danilo Gentili

dica: Pavablog

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Desabrigados em SP

No mesmo país das Olimpíadas, Copa do Mundo, das igrejas evangélicas que pedem ofertas de R$900 reais prometendo uma vida blindada e próspera... homens, mulheres e crianças perderam o pouco que tinha, vítimas de uma sociedade que prioriza outras coisas que parecem ser mais importante:

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Dois rapazes trocam socos e rolam no meio da lama com cinza do incêndio dominical. Um minuto antes estavam batendo boca. "Eu não quero negociar nada com esses pilantras", disparou um. "Você me chamou do quê?", respondeu o outro, já peitando o vizinho. O pessoal do "deixa disso" se enlameou e sobraram pedaços de pau carbonizados na cabeça de alguns.

CINZAS, LAMA E REVOLTA

  • Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem

    Máquina da Prefeitura derrubou as poucas paredes que ficaram em pé e foi alvo de pedradas

  • Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem

    Crianças e adultos se concentram em quadra de escola que está abrigando os desalojados

  • Fred Chalub/Folha Imagem

    Policias retiram os moradores que invadiram conjunto habitacional vizinho para protestar

A polícia, montando guarda na frente de um conjunto habitacional em construção, via à distância o quebra-pau entre moradores que perderam tudo com o fogo que tragou 300 barracos e deixou 1.300 pessoas que viviam na favela Nova Jaguaré, zona oeste de São Paulo, desabrigadas no último domingo.

Os nervos ficaram acirrados nesta terça-feira (13). Quando os moradores voltaram ao local e viram um escavadeira derrubar as poucas paredes de alvenaria que ficaram em pé, alguns se revoltaram e jogaram pedras no veículo, abandonado então pelo motorista.

Depois foi a vez de nova tentativa de invasão do conjunto habitacional em construção. A ação foi barrada por um grupo de oito guardas municipais e três policiais militares. Os moradores já tinham, no feriado de segunda-feira, tomado o espaço para reivindicar a inclusão deles em planos habitacionais. Saíram seis horas depois com a promessa de cadastramento.

"Estamos há dois dias vivendo a leite azedo e bolacha, que nos dá a Defesa Civil. E a gente nem pode se inscrever na prefeitura porque nossos documentos também queimaram. Não podemos tirar novos porque temos que ficar aqui para cuidar de nosso espaço", afirma Vandrei Ferreira, operador de telemarketing que já dormiu em um clube vizinho e na casa de uma amiga nessas duas noites após o incêndio.

Negociador com os órgãos públicos, Elias Ferreira dos Santos, líder comunitário da Nova Jaguaré, tentava convencer os favelados a não tentar represálias até segunda-feira (19), dia em que a prefeitura se comprometeu a dar solução para os desabrigados. Diante de um coro de "vamos invadir a marginal", ele tentou acalmar os ânimos: "Nossa luta é por moradia, não adianta enfrentar a polícia."

Uma senhora não se contentou: "Você é um safado, eu vou me endividar no depósito de material, mas construo meu barraco de novo aqui." Elias cochichou para ela: "Na fechada, eu digo para você fazer isso. Nós prometemos que não vamos invadir o CDHU do lado, mas não prometemos que não iríamos reconstruir nossas casas."

Dos desalojados, 150 alegaram não ter um local para morar, e foram levados para o centro desportivo no bairro de Presidente Altino, onde permanecerão por cerca de 30 dias. Muitos se queixam das condições por lá. "O chão e os banheiros são sujos. Hoje, a única alimentação foi um biscoito cream cracker às 14h. Não tem um fogão para a gente cozinhar a cesta básica que recebemos no domingo", reclama o desempregado Luis da Silva.

Apartando briga e negociando com a polícia estava o garçom Joaquim Ribeiro da Silva, 70 anos de vida e 45 anos de Jaguaré. O barraco onde viviam suas duas filhas, um genro e cinco netos foi totalmente carbonizado. "Eles estão morando que nem cachorro, porque meu barraco está em pé, mas não cabe todo mundo. Cachorro vive melhor que a gente", desabafa.

Ele conta que seu neto de 15 anos acabou com queimaduras no braço para salvar um menino. "Minhas filhas não perderam muita coisa porque pobre que falar que tinha muito está mentindo. Foi uma TV, um fogão, um geladeira. Tudo velho. Mas era o cantinho deles", conta Joaquim.

sábado, 10 de outubro de 2009

A pobreza é igual à morte

O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, um dos iniciadores da Teologia da Libertação, disse que a pobreza é contrária à vontade de Deus. Gutiérrez ministrou palestra sobre a jornada da Igreja latino-americana nos últimos 40 anos, desde a II Conferência de Medellín até a V Conferência de Aparecida.

A palestra foi proferida aos participantes da Oficina de Teologia, Evangelização e Comunicação, evento realizado em Lima, no Peru, de 22 a 24 de junho, promovido pela Organização Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (OCLACC), com o apoio de organizações cristãs de comunicadores.

Durante o encontro com os comunicadores de vários países do continente, Gustavo Gutiérrez assinalou que o documento de Aparecida não constitui “nenhuma surpresa”, porque o que nela foi incluído tem vinculação direta com a vida da Igreja latino-americana desde Medellín.

Para o teólogo, os aspectos mais importantes do Documento de Aparecida podem ser resumidos em três itens fundamentais, como a recuperação do método “Ver, julgar e agir”, que se perdeu na Conferência de Santo Domingo. Esse método permite realizar uma leitura dos sinais dos tempos, o que ajuda a ver a realidade a partir dos mais frágeis da sociedade, à luz do capítulo 25 do Evangelho de São Mateus.

Na perspectiva de Gutiérrez, o segundo item está vinculado ao desafio representado pela pobreza que, segundo Medellín, é anti-evangélica, constituindo um “desafio à fé e à comunicação da fé”. O pobre é “o que não conta, o insignificante”, assinalou, ao concluir que, sob a perspectiva bíblica, a pobreza é contrária à vontade de Deus.

A modernidade é um desafio à fé, um fato histórico. A pobreza é igual à morte, e “não se pode estar com os pobres sem lutar contra a pobreza”, disse o teólogo ao destacar que o documento Aparecida continua com a opção preferência da Igreja latino-americana pelos pobres. O amor de Deus é universal e preferencial, explicou. Nessa dimensão, disse, é que se deve entender a opção pelos pobres, que corresponde a uma opção centrada em Cristo e teocêntrica.

Um terceiro item está relacionado à comunicação do Evangelho, comunicação que deve ter repercussões sociais na história, disse. Segundo o teólogo, no Documento de Aparecida consta que a Igreja é “advogada dos pobres” e da justiça. É preciso reconhecer o pobre como dono de seu destino e agente de sua própria história, apontou.

No diálogo com os comunicadores católicos, Gustavo Gutiérrez explicou que a comunicação faz parte da evangelização, e que nessa comunicação deve estar presente o amor ao próximo e uma leitura permanente da realidade.

Ed Renee Kivitz - Pastor da Igreja Batista de Água Branca


Transformar o mundo é responsabilidade nossa

Certa vez perguntaram a Bertrand Russell, que era um ateu convicto, o que ele faria se, depois da morte, acabasse encontrando Deus. Consta que Russell teria respondido, “Vou perguntar a ele: Senhor Deus, por que deste tão pouca evidência de sua existência?”. Decerto o mundo apavorante em que vivemos não parece – ao menos na superfície – um lugar em que uma benevolência toda-poderosa esteja no comando. É difícil entender como um ordem mundial compassiva pode incluir tantas pessoas afligidas pela miséria aguda, fome persistente e vidas desesperadas e deprived, e por que milhões de crianças inocentes têm de morrer todos os anos por falta de comida, cuidados médicos ou assistência social.

O tema, claro, não é novo, e foi objeto de uma série de discussões entre teólogos. O argumento de que Deus tem suas razões para querer que nós lidemos com esses problemas por nossa conta tem tido considerável sustentação intelectual. Enquanto uma pessoa não-religiosa, eu não tenho condições de avaliar os méritos teológicos deste argumento. Mas eu posso apreciar a força da alegação de que as pessoas devem ter responsabilidade pelo desenvolvimento e transformações do mundo em que vivem.

Ninguém precisa ser devoto ou não-devoto para aceitar esta conexão básica. Enquanto pessoas que – em sentido amplo – vivem juntas, não temos como escapar da idéia de que as terríveis ocorrências que vemos à nossa volta são, essencialmente, problemas nossos. Elas são nossa responsabilidade – quer sejam ou não de mais alguém também.

trecho de Development as Freedom (Desenvolvimento como Liberdade], de Amartya Sen. Ele recebeu o Nobel de 1998 em Ciência Econômica.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Evangelho terá que enfrentar um concorrente muito poderoso

Reparei que pobre nunca coloca fotografia de pobre na parede. Isso, ao que parece, só os ricos fazem. Casa de rico está cheia de fotografias e pinturas de gente pobre: objetos de índios, pinturas do sertão seco, estatuazinhas de sertanejos, e mais coisas assim. Pobres só colocam fotografias de gente rica! Quando eles abrem a revista Veja (tinhamos trazido dois números), eles só estão interessados em ver as páginas de propraganda (Não entendem as notícias).
Por que será? Será que é projeção do ideal que alimentam? Será que a parede de casa do pobre é a expressão da esperança que ele nutre? Nesse caso, a esperança do Evangelho terá que enfrentar um concorrente muito poderoso. Será que a propaganda vai conseguir nutrir esta esperança falsa no povo? Verdadeira miragem, sem consistência!

Carlos Mesters - Seis dias nos porões da Humanidade

Pan de 2007 queimou recursos incalculáveis, sem nada deixar

No aquário, o Brasil mostra que é um país do presente, investindo para o desenvolvimento de uma estrutura que visa as olimpíadas:

"Nós queremos que essas Olimpíadas sejam a celebração do Brasil, do fato de nós termos deixado de ser o país do futuro e sermos o país do presente."
Dilma Rousseff

Enquanto isto, a realidade é bem diferente:

Embora seja a prova de que o país é capaz de realizar grandes eventos, o Pan de 2007 queimou recursos incalculáveis, sem nada deixar

Leandro Uchoas, do Rio de Janeiro (RJ)

Como hoje, as promessas também eram muitas. Investimentos maciços em transporte, reestruturação urbana, meio-ambiente (com despoluição de lagoas), educação, esportes e tecnologia. As possibilidades de o Pan-americano de 2007 trazer grandes melhorias ao Rio de Janeiro saltavam aos olhos. O que se viu, especialmente antes e depois do evento, foi uma sucessão de absurdos. Antes, foram as obras atrasadas, o orçamento multiplicado, a busca de socorro estatal, os pagamentos sem entrega, investimentos quase inexistentes em transporte e meio-ambiente e reformas urbanas sob a lógica de criminalização da pobreza. Depois, foi a manutenção da política conservadora de esportes e a inacreditável quantidade de edificações caríssimas que, agora, não têm qualquer utilidade.


A prefeitura anunciava que os equipamentos esportivos seriam disponibilizados a todas as crianças da rede pública de ensino: 750 mil. Hoje, a afirmação parece piada de bar. Só para o programa favela-bairro, o então prefeito César Maia (DEM) anunciava R$ 1 bilhão em recursos, nunca efetivados. Os prometidos investimentos privados não vieram, as obras atrasaram uma enormidade e lá foi o governo federal disponibilizar recursos públicos. O orçamento de R$ 400 milhões chegou muito próximo a dez vezes o previsto. Os motivos? Até hoje não se pode definir. O evento foi concebido, organizado e realizado sem qualquer transparência. A Câmara Municipal do Rio, por iniciativa do vereador Eliomar Coelho (Psol), tentou aprovar em 2008 uma CPI para investigar o Pan, sem sucesso.


Os principais atores dessa história, para desespero de muitos, são os mesmos de hoje. Do governador Sérgio Cabral (PMDB), que deve utilizar o feito de Copenhague para estimular sua reeleição, ao antigo secretário de Esportes, Eduardo Paes (PMDB), hoje prefeito. Há pessoas que não aguentam mais ouvir Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), fazer as mesmas promessas de dois anos atrás. Ricardo Leyser Gonçalves, cotado para liderar a organização das Olimpíadas, acaba de ser condenado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a devolver R$ 18,4 milhões à União por irregularidades cometidas na administração do Pan. Só em serviços sem execução comprovada teriam sido gastos R$ 6,8 milhões. Em pagamentos com duplicidade, outros R$ 4,1 milhões. Os valores de superfaturamento são ainda mais assustadores.


Arbitrariedades

Pouco antes do evento, os patrocinadores viraram as costas à instalação de um velódromo e de um parque aquático na região da antiga pista do autódromo Nelson Piquet. A concessão para que a Marina da Glória e o aterro do Flamengo se tornassem área de complexo turístico e comercial privado foi renovada por meio século. Comunidades como a do Canal do Anil foram afetadas de forma maléfica pelas intervenções urbanas, que desprezaram áreas mais pobres. Houve até remoções parciais. O Estádio Olímpico, conhecido como Engenhão, construído às pressas com recursos públicos, é uma bela obra de difícil acesso. O Botafogo herdou sua utilização muito mais pelo desprezo dos outros três grandes clubes do que por vontade própria.


A linha 4 do Metrô mais uma vez ficou só na promessa. As vilas olímpicas permanecem subutilizadas. Remodelado para o Pan, o parque aquático Julio Delamare, por ironia, corre riscos de ser derrubado já para a Copa de 2014. Fica próximo ao Maracanã e atende, diariamente, quase mil pessoas, mas pode transforma-se em estacionamento. O parque aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, está abandonado. Parece que o único legado positivo do Pan 2007 é a própria Olimpíada, por ter comprovado a capacidade do país de realizar eventos desse porte. A título de comparação com a herança trágica do evento, a capital de Cuba viveu experiência diferente. Sede do Pan 1991, Havana destinou aos trabalhadores que ergueram as vilas as próprias dependências que construíram.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

E o amor se fez carne

O nome político do amor


Por que o socialismo, em tese uma alternativa humanitária ao capitalismo, fracassou na Europa e na Ásia? O capitalismo teve a esperteza de, ao privatizar os bens materiais, socializar os bens simbólicos. De dentro do barraco de uma favela uma família miserável, desprovida de direitos básicos como alimentação, saúde e educação, pode sonhar com o universo onírico das telenovelas e ter fé de que, através da loteria, da sorte, da igreja que lhe promete prosperidade ou mesmo da contravenção, haverá de ter acesso aos bens supérfluos.

O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os simbólicos, e confundiu crítica construtiva com contra-revolução; cerceou a autonomia da sociedade civil ao atrelar ao partido os sindicatos e movimentos sociais; coibiu a criatividade artística com o realismo socialista; permitiu que a esfera de poder se transformasse numa casta de privilegiados distantes dos anseios populares; e cedeu ao paradoxo de conquistar grandes avanços na corrida espacial e não ser capaz de suprir devidamente o mercado varejista de gêneros de primeira necessidade.

Hoje, resta Cuba como exemplo de país socialista. Todos conhecemos os desafios que a Revolução enfrenta às vésperas de seu meio século de existência. Sabemos dos efeitos nefastos do bloqueio imposto pelo governo dos EUA e de como a queda do Muro de Berlim deteriorou a economia da Ilha.

Apesar de todas as dificuldades, nesses 49 anos a Revolução logrou assegurar a 11,2 milhões de habitantes os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Elevou a auto-estima da cidadania cubana, que tão bem se expressa em suas vitórias nos campos da arte e do esporte, bem como na solidariedade internacional, através de milhares de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação presentes em mais de uma centena de países do mundo, em geral em regiões inóspitas marcadas pela pobreza e a miséria.

O socialismo cubano não tem o direito de fracassar! Se acontecer, não será apenas Cuba que, como símbolo, desaparecerá do mapa, como ocorreu à União Soviética. Será a confirmação da funesta previsão de Fukuyama, de que “a história acabou”; a esperança – uma virtude teologal para nós, cristãos – findou; a utopia morreu; e o capitalismo venceu, venceu para uns poucos – 20% da população mundial que usufrui de seus avanços – sobre uma montanha de cadáveres e vítimas.

Nós, amigos da Revolução cubana, não esperamos de Cuba grandes avanços tecnológicos e científicos, serviços turísticos de primeira linha, medalhas de ouro em disputas desportivas. Esperamos mais do que isso: a ação solidária de que falava Martí; a felicidade de um povo construída em base a valores éticos e espirituais; o princípio evangélico da partilha dos bens; a criação do homem e da mulher novos, como sonhava o Che, centrados na posse, não dos bens finitos, e sim dos bens infinitos, como generosidade, desapego, companheirismo, capacidade de fazer coincidir a felicidade pessoal com os sucessos comunitários.

Em resumo, almejamos que, em Cuba, o socialismo seja sempre sinônimo de amor, que significa entrega, compromisso, confiança, altruísmo, dedicação, fidelidade, alegria, felicidade. Pois o nome político do amor não é outro senão socialismo.

Frei Betto é escritor, autor de A mosca azul – reflexões sobre o poder (Rocco), entre outros livros.
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