terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ufanismos, messianismos e outras mentiras

Ricardo Gondim

O tempo tudo destrói. O vento da história cobre todas as coisas de poeira. Impérios, outrora avassaladores, hoje entediam alunos secundaristas, que só precisam conhecê-los para passar de ano. Napoleão, o temido imperador francês, virou nome de cachorro. Na mitologia, Kronos, o deus do tempo, inclemente, devorava seus filhos.

O escritor português Vergílio Ferreira percebeu que muitos tratados são escritos sobre a infância, juventude e idade adulta. E em todos se “fala de ir” -- ir para o futuro. Desejos, sonhos e ambições impulsionam a vida. Mas para qual futuro? Vergílio Ferreira conclui que esse tal “ir” é rumar para a velhice; “velhice é estar”. De fato, velhice é a idade em que passamos o restante da vida. E, existencialmente, não há muita opção: ou se morre cedo, como um Camelot, ou se enfrenta a decrepitude dos senis.

Embora não seja oficialmente idoso -- ainda faltam alguns anos --, eu começo a me preparar para os derradeiros anos. Não quero viver os próximos anos de minha vida como meros sobejos dos bons tempos que já vivi. Reafirmo que ninguém é velho enquanto estiver disposto a aprender. Eu quero me manter flexível na madureza. Sei que nada sei.

Sobretudo, quero aprender a despojar-me de falsas onipotências. Já confiei em minha capacidade de ordenar a vida. Imaginava que verdades e princípios me blindariam contra decepções, tristezas e contrapés existenciais. Porém, como disse Chico Buarque, veio a Roda Viva e carregou o destino pra lá. Padeci desnecessariamente porque superestimei a minha capacidade de anular contingências existenciais.

Acreditei na mensagem religiosa que prometia engrenar o cotidiano, garantindo vitória sobre vitória. Esforcei-me o quanto pude para tornar a obediência capaz de livrar-me de tribulações. Eu buscava a excelência como chave para o dia-a-dia encapsulado na mais pura felicidade. Depois de vários tombos, inúmeras bobagens, enormes desapontamentos e grandes decepções, acordei. A vida não se deixa encabrestar. Vi que nunca havia conseguido adequar-me ao superego exigente que carregava dentro de mim. Eu me contemplava em espelhos distorcidos. A imagem que enxergava sempre foi maior do que eu mesmo. A juventude engana, mas a meia-idade esvazia os delirantes de seus devaneios.

Devido à minha onipotência, idealizei auditórios. Acreditei que a minha oratória seria capaz de arrebatar multidões. As longas horas em que preparei sermões representavam uma capacitação especial para ser uma extensão concreta e real do poder de Deus. Eu não admitia a minha ineficácia em converter, transformar, santificar. Confundi talentos naturais com “eleição”; minha habilidade com a oratória me inebriava. Mas, enquanto meus cabelos pratearam, dei-me conta que muitos meninos e meninas de nossa comunidade haviam desistido da fé. Minha eloquência não se mostrara tão infalível quanto eu supunha.

Muitas culpas nascem da falsa onipotência. Por me sentir com a responsabilidade de carregar o mundo nas costas, raramente me permitia vivenciar atividades que não redundassem no avanço da missão. Lazer, só para recompor, manter o vigor, e voltar a trabalhar. Poesia, nem pensar; poesia não ajuda a argumentar. Contente, acostumei-me a encaixar passeios em viagens missionárias. Considerava o convite para falar em uma conferência uma boa ocasião para tirar férias.

O simples correr dos anos bastou para minar tantos ufanismos juvenis. Aprendi a cantar com Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa/ E levo esse sorriso/porque já chorei demais/ Hoje me sinto mais forte,/ mais feliz quem sabe/ Eu só levo a certeza de que/ muito pouco eu sei, eu nada sei”.

Pretendo seguir o restante da jornada, despretensiosamente. Sem arroubos, oferecer minhas frágeis intuições. Espero aprender como “mais me gloriar nas fraquezas” e poder repetir o apóstolo Paulo: “Porque, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.10).

Começo a reconhecer limites e a dar de ombros ao imperativo religioso de superar a humanidade. Não sou angelical. Já não me considero um conquistador de utopias. Mantenho as utopias, mas as tenho como meras alavancas de minhas iniciativas. Não me considero apto a concretizá-las.

As minhas despedidas foram trágicas, meus lutos, inconsoláveis e minhas decepções, amargas. Aceito que a vida é frágil. Sei que não sou autossuficiente. No reconhecimento de minha debilidade, reaprendo a ser grato; gratidão nasce de uma memória que não é soberba. Sou agradecido por todos os que já me ajudaram; todos encarnaram o amor de Deus e eu quero mantê-los na lista das bênçãos recebidas.

O tempo que tudo desgasta, paradoxalmente, aviva a pergunta do profeta Miqueias, a que eu me antecipo a responder sim: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom, e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6.8).

Soli Deo Gloria
04-10-10

domingo, 3 de outubro de 2010

Percepções em um dia de eleição

Confesso que tenho quase nenhuma esperança numa mudança que venha pelo poder. Acredito na ação do amor, que vem nas micro-relações.

Um sistema não será derrubado enquanto ele se mostrar, em aparência, estabilizado. Grandes lideres surgiram em grandes instabilidade, quando se percebeu que não era. Foram erguidos pela voz.

Mas é preciso que percebamos a estrutura corrompida que vivemos. Ela exclui. Mas não vemos. Nós nos divertimos indignados com a política.

Acredito na ação que vem das nossas percepções das dores e necessidades do outro. Só em nós esta o poder de uma fraqueza q reconstrói: O Amor.

O Reino de Deus não será manifestado através de um presidente. Muito impessoal para o Amor. Ele só se manifesta nas relações ao próximo.

Cristo prega transformações que nascem de relações profundas e de extrema proximidade, onde a dor do outro se interpola com a sua alegria.

Amar ao próximo me leva a entender que a restauração da dignidade dos homens não virá através de governantes, mas de uma profunda relação entre os mesmo.

sábado, 2 de outubro de 2010

Proclamando o reino de Deus: Jesus é Senhor

Retirado do Blog - A Bacia das Almas


O cerne da mensagem e do ministério de Jesus residia na proclamação do reino de Deus. Do mesmo modo, o reino deveria ocupar posição central na proclamação e na natureza da igreja contemporânea. “Proclamar o evangelho da aurora do reino é o primeiro e mais importante elemento na missão de Jesus, na missão do Espírito e na missão da igreja”1.
Grande parte da teologia que tem exercido maior influência sobre a igreja ocidental tem negligenciado a centralidade da mensagem do reino. Isso é resultado de uma leitura das cartas de Paulo que as remove de seu contexto histórico e as separa do evangelho de Jesus. 
A igreja segue Jesus, não os líderes do estado nacional.
Quando entendida de forma adequada, a linguagem de Paulo, embora diferente da linguagem de Jesus, está firmemente enraizada na perspectiva do reino, e não faz sentido fora dela2. Jesus proclamou o reino, e Paula proclama Jesus – isso porque Jesus é, ele mesmo, o rei. A igreja que proclama o reino de Deus é a igreja que proclama o senhorio de Jesus. Paulo, em conformidade com o restante do Novo Testamento, afirma enfaticamente que Jesus, e não César, é Senhor.

A proclamação do senhorio de Jesus por parte da igreja, no entanto, só fará sentido quando a igreja se recusar a reconhecer quaisquer outros senhores. Isso quer dizer que o senhorio de Jesus será revelado ao mundo quando os cristãos se desapegarem dos ídolos do consumismo, dos ídolos da cultura e dos ídolos das democracias liberais ocidentais. A igreja segue Jesus, não os líderes do estado nacional. A igreja adora Jesus, não os ídolos do capitalismo. A igreja proclama o senhorio de Jesus abandonando os modelos culturais de segurança e passando a viver pela fé. A igreja proclama o senhorio de Jesus doando em vez de arrecadar. A igreja proclama o senhorio de Jesus recusando-se a perpetuar os ciclos de pecado e de morte e rompendo os ciclos de pobreza, de força, de alienação e de abandono.
Porque Jesus, e só Jesus, é Senhor, a igreja deve viver uma relacionalidade aberta definida por prodigalidade, promoção da paz, irmandade e intimidade. Do mesmo modo, como Jesus é declarado Senhor de todos, Senhor do universo, a proclamação cristã do senhorio de Jesus deve levar a sério a relação entre a humanidade e o resto da criação. Preocupações ambientais e ecológicas estão por essa razão intimamente ligadas ao evangelho do reino. A proclamação do reino interrompe os ciclos de poluição que tratam a terra como propriedade da humanidade, e leva os cristãos a viverem uma relação simbiótica com a terra – que não pertence à humanidade, mas a Jesus.
Daniel Oudshoorn

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A história de Pedro, Leonardo e o pai

Contam que havia um pai com dois filhos: Leonardo e Pedro.

Desde cedo, ficou claro que havia um problema no relacionamento da família. Dizem que Pedro só comia porque alguns vizinhos lhe davam de comer. O pai mesmo, nunca se preocupou. Suas atenções estavam todas voltadas para Leonardo.

Pedro nunca ganhou uma roupa do pai. Todas que vestia eram doadas por quem se compadecia de sua situação. Por outro lado, Leonardo sempre usou roupas boas, capazes de fazê-lo sentir quente e confortável.

Quando perguntavam para o pai o motivo de deixar Pedro passar fome e frio, ele explicava que o tinha gerado para sofrer. Esse era seu destino. Já não era o caso de Leonardo: esse fora gerado para ser feliz.

Leonardo e Pedro cresciam. Leonardo sempre bem vestido e alimentado, enquanto Pedro amargava sua existência.

Certo dia, Leonardo disse para o pai:

- Pai, estou com fome.
- Poxa meu filho, vamos resolver isso agora mesmo! – respondeu o pai.

Foram até um restaurante onde Leonardo matou aquilo que o estava matando.

Na noite do mesmo dia, Pedro foi até o pai:

- Pai, estou com fome.
- Pedro, sinto muito. Gastei tudo o que tinha com o seu irmão – respondeu o pai, sem olhar o filho nos olhos.

Pedro foi dormir com fome.

Naquela mesma semana, numa conversa com o pai, Leonardo disse:

- Pai, preciso de um tênis novo.
- Claro! Vamos até o shopping comprar um e resolver esse problema – retrucou o pai, entusiasmado em presentear o filho.

Assim, foram no shopping e compraram um lindo par.

No mesmo dia, Pedro se dirigiu ao pai:

- Pai, ainda estou com fome. Faz quase uma semana que não como nada.
- Pedro, hoje usei meu dinheiro guardado para comprar um tênis para o seu irmão. Você terá que esperar mais um pouco para comer – respondeu o pai, que jogava bafo com Leonardo.

Mais uma vez, Pedro foi dormir com fome. Por sorte, no dia seguinte encontrou uma vizinha octogenária que lhe deu um prato de sopa.

Era assim que a vida da família de se desenrolava. Todos do bairro conheciam o relacionamento deles. Uns achavam estranho, pois Pedro era rejeitado pelo pai, que não dava a mínima para as suas necessidades básicas. Outros achavam normal, pois Pedro havia sido gerado para sofrer, portanto, seu destino estava se cumprindo.

Leonardo entrou na faculdade, enquanto Pedro nem terminou o primário. Ele não conseguia acompanhar as atividades da escola, pois vivia desnutrido.

Desistiu também de pedir comida ao pai, pois nunca tinha obtido sucesso, e, na última vez, o pai simplesmente o ignorou.

Pedro já não comia há quase um mês. Suas forças estavam acabando, tinha dificuldade até para manter os olhos abertos. Ouvindo o pai conversar com Leonardo enquanto assistiam televisão juntos, Pedro ouviu a conversa:

- Pai, estou precisando de um carro para ir até a faculdade. Os ônibus estão sempre cheios, e o metrô mais perto de caso fica a 3 Km daqui!
- Léo, fique em paz. Amanhã mesmo compraremos o seu carro. Você não terá mais transtorno para se locomover – respondeu o pai, sorrindo para o filho.

Naquela mesma noite, Pedro fugiu de casa, se arrastando pelo chão, debaixo dos olhos do pai, que parecia não notá-lo. Engatinhou por apenas alguns quilômetros até morrer. Seu corpo não suportou a falta de comida e se entregou.

No enterro, o pai não derramou uma lágrima. Num determinado momento, pediu a palavra:

- Pedro nasceu para sofrer. Foi para isso que o gerei. A sua miséria já estava determinada. Contudo, vejam o Leonardo: esse nasceu para vencer. O gerei para fazê-lo vitorioso.

Leonardo, convencido pelo discurso do pai, sorria, orgulhoso, com olhar de superioridade.

Alguns poucos repudiaram aquela família, mas, estranhamente, muitos outros passaram a adorá-la.

Os que adoraram, a partir daquele dia, passaram a chamar aquele pai de Deus. Passaram a acreditar que Leonardo fora eleito para salvação. Em contrapartida, passaram a acreditar que Pedro fora eleito para a danação.
Depois de algum tempo, começaram a dizer Leonardo tinha o favor do pai porque lhe oferecia sacrifícios, favores, e coisas afins, enquanto Pedro nunca havia lhe oferecido nada. A questão girava em torno do ego de Deus. Para outros, a questão era a determinação a priori de Deus a respeito do destino de seus filhos.

Muitas teorias surgiram para explicar essa história - que nunca foi bem contada. O que se sabe é que todos queriam ser Leonardo. Assim, agiam com superioridade e orgulho - se julgavam eleitos.

Pedro se tornou um assunto obsoleto, indesejado, incômodo.  Ninguém queria pensar sobre como Deus o tratava ou porque o havia gerado. A questão toda era a respeito de Leonardo e seu sucesso. 

Há quem acredite nessa história sobre Deus pai. Até hoje falam sobre ele, que gera uns para a salvação e outros para a danação. Que dá a um filho tudo do bom e do melhor, e simplesmente ignora a miséria do outro. Fazem orações dia e noite para que ele, o pai, os trate como tratou Leonardo - porque ninguém quer ser Pedro.

Mas alguns, como eu, não acreditam. Não aceitam a existência de um Deus pai impassível, que trata seus filhos de forma arbitrária. Pensamos que é uma falácia criada por seres humanos sem coração.

Lucas Lujan


Como disse uma vez pra o Lucas, para um Deus assim, eu prefiro ser o Pedro, do que viver a eternidade do lado dele...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ou Isto ou Aquilo


Paulo Brabo - via A Bacia das Almas
Obscenidade é um conceito moral no arsenal verbal da classe dominante, que abusa do termo aplicando-o não a expressões de sua própria moralidade, mas às de outros. Obscena não é a imagem de uma mulher nua expondo seus pelos pubianos, mas a de um general em traje de gala expondo as medalhas que angariou numa guerra de agressão; obsceno não é o ritual dos hippies, mas a declaração de um alto dignatário da igreja de que a guerra é necessária para se promover a paz.
Herbert Marcuse, An Essay on Liberation, 8

domingo, 19 de setembro de 2010

11 de Setembro

Paulo Brabo -via Bacia das Almas

Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).

Em qualquer dia marcado como santo – ou designado como momento de se recordar um evento passado – vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.

Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?

A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou “desapareceram”, dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram “situações de trauma extremo”.

Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com o apoio da CIA, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).

Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos – aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários – tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem).

Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente – uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald’s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.

O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao “11 de setembro” ou a “11/9″; não se fala em “11 de setembro de 2001″ ou “11/09/2001″. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.

O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana. Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 – em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão “super-Guatamano” de Obama na base da Força Aérea em Bagram.

O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.

Portanto, hoje seremos lembrados a “nunca esquecer” os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.

Daniel Oudshoorn

sábado, 18 de setembro de 2010

A saúde do Movimento Evangélico


Ricardo Gondim

Na adolescência, abandonei o catolicismo e fui rebatizado na Igreja Presbiteriana de Fortaleza. Desde então, migrei por várias tendências do protestantismo, que no Brasil assumiu-se como Movimento Evangélico. Fui membro da Convenção Geral das Assembléias de Deus (CGADB). Cooperei com a Associação Evangélica Brasileira (AEVB). Já falei em incontáveis congressos e conferências. Meu código genético religioso, portanto, é bem definido pelo Movimento Evangélico.

Pastoreio uma igreja com diversas comunidades locais espalhadas pelo Brasil. Caminho ao lado de parceiros e parceiras que levam a sério a vocação ministerial.

Reconheço, porém, que vez por outra peso nas tintas ao criticar o Movimento Evangélico. Não o faço como um observador frio e distante. Eu não me condenei ao ostracismo espiritual. Nunca quis tornar-me profeta auto-referenciado, sem interlocutores. Lido com gente; falo para mais de 3 mil pessoas todos os domingos. E, por mais que tente evitar, sempre que escrevo deixo as minhas impressões digitais religiosas.

Ao criticar, entendo que necessito ser cuidadoso. Não posso portar-me como o fariseu que corava de raiva quando se quebrava o til ou a vírgula da lei, mas era insensível para o abuso de princípios éticos que carcomiam a sua própria alma.

Ao criticar o Movimento Evangélico, não posso passar ao largo da iniquidade que condena milhões de brasileiros a viverem abaixo da linha da miséria. Escolado em ambientes puritanos sei como é possível ver-se sugado para o debate moralista. Eu não teria dificuldade de discursar sobre rigor sexual e arrancar bons aplausos dos que veem promiscuidade até nos desenhos animados que divertem crianças nas manhãs de sábado.

Não é difícil agradar os auditórios religiosos. Basta uma pitada de perspicácia: diante de um auditório burguês é suficiente repetir algumas doutrinas ortodoxas e todos se sentem felizes.

Insisto em escrever e falar porque o imperativo cristão não me larga. Não consigo calar diante de temas fundamentais como: justiça, solidariedade, tolerância, honestidade. O Evangelho me constrange. Sinto-me convocado a engajar-me na defesa do indefeso, na inclusão do excluído e na busca de justiça para o injustiçado. Diante desse categórico, nascem perguntas que não posso fugir: Qual a força do sistema de alienar-me? Para que lado ir na encruzilhada da Avenida Conforto com a Rua Responsabilidade?

Acomodação ética não é desvio, mas deformação. Está deformada qualquer instituição, religiosa, política ou educacional, que seja ágil para denunciar o menos importante e lenta para detectar o essencial.

Uma geração periga quando diminuem os profetas (nestes tempos, não se conhece sequer a função de um profeta – secular ou religioso). A camisa de força da mesmice vem sufocando a criatividade. O patrulhamento do conservadorismo conspira contra a liberdade de pensar. Faltam profetas.

Carecemos de homens e mulheres que não tenham medo de denunciar com o dedo em riste: Esta geração está inebriada pela doutrina do sucesso e vai se afogar na ganância e na complacência.

Minha crítica ao Movimento Evangélico começou há alguns anos, quando vi líderes indignados com questões periféricas, mas silentes diante de atrocidades. Raras vozes se levantaram contra evangélicos norte-americanos que abençoaram uma guerra absurda. O Iraque foi invadido e destruído devido a uma mentira (Onde estavam as armas de destruição em massa?). Faz-se silêncio sobre a morte de centenas de milhares.

Noto o constrangimento de alguns conservadores que não gostam de serem considerados do mesmo naipe que Benny Hinn, Kenneth Hagin, Edir Macedo ou Valdemiro Santiago. Mas eles se sentem orgulhosos de confessar a mesma doutrina que Franklin Graham, Pat Robertson, John McArthur, Chuck Colson e Max Lucado. Talvez considerem esses senhores dignos porque repetem a "doutrina verdadeira" e são de um país riquíssimo.

Por mais que seja difícil sentar ao lado de neopentecostais ávidos por lucro, acredito ser exponencialmente pior participar da roda de quem, sob o manto do conservadorismo teológico, sustenta a agenda de direita belicosa dos Estados Unidos. George W. Bush se aposentou mas a sua cartilha ainda continua a valer entre os evangélicos: lutar contra o aborto e contra os homossexuais, mas defender a pena de morte e apoiar a National Rifle Association.

Mas adesismo não destoa dentro do Movimento Evangélico. Quando os militares dominaram a política brasileira, havia um acordo tácito entre pastores e ditadores. Os ditadores deixavam os pastores pregarem e conduzirem campanhas evangelísticas e os pastores faziam vista grossa para a tortura.

Não é possível varrer para debaixo do tapete da piedade que o Movimento Evangélico brasileiro se esmera no irrelevante. Igrejas se multiplicam nas redondezas urbanas, mas não têm agenda contra preconceito racial ou de gênero. Impressionam as estatísticas sobre os avanços dos evangélicos; resta perguntar se alteram a sorte de milhões de crianças que vivem em ruas fétidas e estudam em escolas sucateadas.

Lamentavelmente, enquanto os evangélicos se reúnem em conferências para discutir e defender sua identidade, o Brasil permanece na lista dos mais injustos do planeta.

Mesmo decepcionado e muitas vezes desestimulado, continuo escrevendo, pregando e trabalhando. Sei que uma nova geração se levanta; acredito que milhões de rapazes e moças desejam ser leais ao Evangelho e anseiam por novos ventos.

Também não jogo a toalha porque acredito que se nos calarmos as pedras clamarão.
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