sexta-feira, 11 de março de 2011

Meio pão e um livro

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital

Quando alguém vai ao teatro, a um concerto ou a uma festa, se lhe agrada, lamenta que as pessoas de quem gosta não estejam ali. "Como minha irmã, meu pai iriam apreciar”, pensa, e desfruta tomado por leve melancolia.

Esta é a melancolia que sinto, não pela minha família, e sim por todas as criaturas que, por falta de meios e por desgraça, não gozam do supremo bem da beleza, que é a vida com bondade, serenidade e paixão.

Por isso nunca tenho livro, pois presenteio todos os que compro, que são muitíssimos, e portanto estou aqui honrado e contente por inaugurar esta biblioteca do povo, a primeira na região de Granada.

Não só de pão vive o homem. Eu, se tivesse fome e estivesse abandonado na rua, não pediria um pão, pediria meio pão e um livro. Critico violentamente os que falam apenas de reivindicações econômicas, sem jamais ressaltar as culturais, que os povos pedem aos gritos.

Ótimo que todos os homens comam; melhor que todos tenham saber. Que gozem todos os frutos do espírito humano, porque o contrário é serem transformados em máquinas a serviço do Estado, convertidos em escravos de uma terrível organização social.

Lamento muito mais por um homem que deseja saber e não pode, do que por um faminto. Este aplaca a fome com um pedaço de pão ou algumas frutas. Mas um homem que tem ânsia de saber e não possui os meios, sofre uma profunda agonia, porque são livros, livros, muitos livros, de que necessita. E onde estão esses livros?

Livros! Livros! Palavra mágica que equivale a dizer: "amor, amor”, e que os povos deviam pedir como pedem pão ou anseiam por chuva após semearem.

Quando Dostoiévski, pai da revolução russa muito mais que Lenin, se encontrava prisioneiro na Sibéria, isolado do mundo, retido entre quatro paredes e cercado de desoladas extensões de neve infinita, em carta à sua família pedia que o socorressem: "Enviem-me livros, livros, muitos livros, para que minha alma não morra!”

Tinha frio e não pedia fogo; sede e não pedia água; pedia livros, ou seja, horizontes, escadas para subir ao ápice do espírito e do coração. Porque a agonia física, biológica, natural de um corpo faminto, provocada pela fome, sede ou frio, dura pouco, muito pouco, mas a da alma insatisfeita dura toda a vida.

Disse o grande Menéndez Pidal, um dos sábios mais autênticos da Europa, que o lema da República deveria ser: "Cultura”. Porque só através dela é possível solucionar as dificuldades que hoje enfrenta o povo cheio de fé, mas carente de luz.

Palavras de Federico García Lorca ao inaugurar a biblioteca de Fuente de Vaqueros (Granada), em setembro de 1931.

PS: minha homenagem à nova ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e ao novo presidente da Biblioteca Nacional, Galeno Amorim.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O gentil martírio dos desconversos

(foto por minha conta e risco)

Texto surpreendente de Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Não teve por usurpação ser igual a Deus – ao contrário, aniquilou-se a si mesmo.
Filipenses 2:6,7

Que o ocidente encontra-se em franco processo de secularização a ninguém ocorreria negar. Cada dia se levanta e encontra Deus mais distante do centro do palco, onde uma vez incontestavelmente esteve. Menos gente se considera religiosa, menos gente acredita em Deus, menos gente fala com ele. Menos gente se mostra disposta a moldar o seu comportamento diante da ameaça do inferno e do pecado; menos gente acredita em milagres, menos gente os espera e os pede. Há menos orações públicas, menos crucifixos nas paredes, menos menções a alguma divindade na festa de entrega do Oscar. Menos gente recorre a Deus para prover ajuda, e mais gente duvida que Deus seja capaz de prover qualquer ajuda.

Porém, entre os que ainda creem, há uma linha de pensamento1para a qual a secularização do mundo não representa uma vitória de Satanás e o lamentável afastamento da humanidade da promessa da salvação e dos exigentíssimos ideais do evangelho. Muito pelo contrário: o radical escanteamento de Deus, sua paulatina retirada do palco dos acontecimentos e das decisões, não deveriam ser encarados como derrota ou como ameaça, mas como a necessária consequência e a execução final daquele que era seu plano desde o começo. O divino afastamento seria o último e definitivo passo no processo de kenosis – o sacro esvaziamento vaticinado por Paulo no segundo capítulo da carta aos Filipenses e formidavelmente corporificado em Jesus.


Os cristãos, em especial os de matiz evangélico, costumam tomar por diretriz – sem de fato ponderar as implicações da coisa – que o planeta só deverá ser considerado realmente salvo quando todos sobre ele se mostrarem devidamente religiosos. Só diante da conversão completa, só depois que a religião ocupar cada espaço da vida, e em cada um, a boa nova do Reino será vitoriosa e seus arautos poderão descansar. Porém são cada vez mais numerosos os que acreditam encontrar, na Bíblia e na tradição, ampla evidência do contrário: só num mundo em que Deus não precise mais ser ensinado ou mencionado a sua boa nova se mostrará finalmente vitoriosa, finalmente relevante.


Ora, ambos os testamentos sonham com um momento em que a lei estaria gravada não em regras escritas mas nas tábuas do coração, um momento em que Deus seria adorado não em ritos ou palavras, não neste lugar de adoração ou naquele, mas em espírito – isto é, de verdade e na vida real. Apocalipse fala de uma Nova Jerusalém em que não haverá templo, e Bonhoeffer entreviu num fulgor que o cegava a aurora do cristianismo secular. Diante de tonalidade subversiva do Novo Testamento – que enxerga a cruz como vitória, que sustenta absurdamente que para ser grande é preciso ser o menor, e que insiste que Jesus deve estar ausente para que seu espírito esteja presente, – não é inconcebível que a morte de Deus no nosso mundo, aquela proclamada por Nietzsche, represente na verdade a sua incontornável vitória. Talvez a divindade seja humilde o bastante para sonhar com o momento em que será finalmente desnecessária; talvez seja magnânima o bastante para colocá-lo em prática.


Em outras palavras, o afastamento de Deus em palavras e rituais pode representar (ou ser requerimento para) a gradual assimilação de seu espírito por parte da humanidade. Se for assim, a secularização deve ser interpretada como a culminação de um processo apenas iniciado na Encarnação e na descida do Espírito. Quem sabe seja precisamente isso o que devamos entender em vertigens como “onde há o espírito de Jesus há liberdade” e “não os chamo mais de servos, mas de amigos”. É Jesus entendido com o arauto de uma formidável era na qualDeus não deseja servido; uma era na qual Deus não quer seguidores oficiais como o sacerdote e o levita, só quer amigos como o bom samaritano.


Se menciono o assunto, que requer melhor exposição e melhor defesa do que acabei de prover, é porque a coisa veio-me em mente enquanto pensava em dois caríssimos amigos que tomaram recentemente um passo semelhante de secularização. Os dois não se conhecem, mas em outro tempo trilhei com os dois o caminho cheio de recompensas do ativismo religioso. O que têm em comum, além desse espaço compartilhado na minha gratidão, é que no decorrer do último ano ambos encontraram espaço para me confessar – sem proselitismo, sem rancor e com toda a gentileza – que abriram mão não só dos confortos da igreja institucional, mas também os da crença na existência de Deus.


Em ambos os casos essa revelação representou um momento de infinita ternura; poucas vezes experimentei com essa inteireza a amizade, o amor e a comunhão com outro ser humano. Em especial, o instante foi pontuado pela singela graça do retrospecto e da antecipação: o fato de conhecer por experiência a integridade e o amor dessa gente, e a enormidade de saber que nada mudaria em sua postura a despeito da confissão de que haviam me achado digno.


A última vez que meu coração se enchera de ternura semelhante tinha sido diante da recatada conversão de Shayllon Marinho, que antes de dobrar-se à persuasão de Jesus era o mais cavalheiresco, articulado e gentil dos ateus militantes da internet brasileira – e que quando falamos pela última vez tivera apenas a porção ateu militante eliminada do seu caráter. Lembro ter sorrido sozinho ao concluir que Shayllon era figura tão evidentemente grande que nem mesmo o fato de estar tornando-se crente seria capaz de corrompê-lo.
A contradição – aparente contradição – está em que meus dois amigos moveram-se recentemente para longe da crença em Deus pelo mesmo motivo que levou Shayllon a mover-se em direção a ela: a irresistível influência da pessoa de Jesus.


Porque Jesus, debaixo de cuja sombra viveram a maior parte da vida, aparentemente acabou ensinando a meus dois amigos a mais libertadora e terrível das lições, a de que Deus é amor – é apenas e literalmente amor, – e que o amor não exige recompensa e não a espera. Se a prática da virtude depende da eterna vigilância e da promessa do céu, não é de fato virtude. Quem faz o bem esperando recompensa já recebeu, como diria o próprio Jesus, a sua recompensa. Os pecadores, afinal de contas, fazem o mesmo.


Em sua assustadora consistência pessoal, ambos aparentemente não encontraram alternativa de integridade além de recuar do espaço confortável da certeza da recompensa. Abraçaram, a seu modo, as assombrosas implicações do sacro esvaziamento, akenosis.


Essa noção de recato como exibição de genuíno heroísmo cristão já havia sido, como todas as coisas, antecipada na literatura. Está presente, por exemplo, na conclusão do Três versões de Judas de Borges, em que o Salvador, recusando-se a assumir os méritos tão evidentes de Jesus de Nazaré, prefere aniquilar-se a si mesmo, “não tendo por usurpação ser igual a Deus”. Ao rebaixar-se à humanidade, Deus escolhe levar o princípio da encarnação às últimas consequências e abraça completas rejeição, incompreensão e ignomínia: escolhe ser Judas Escariotes.


O mesmo movimento de divino recuo está, de forma ainda mais singela e pungente, apresentado em São Manuel Bueno, Mártir, última obra de Miguel de Unamuno, à qual conduziu-me, com medidas iguais de inclemência e graça, o Alessandro Rodrigues Rocha. Manuel Bueno é a história desiludida (pelo menos na superfície) e avassaladoramente terna de um pároco de aldeia que deixa de acreditar em Deus mas escolhe não revelá-lo a ninguém, continuando a cuidar de suas ovelhas com todo o carinho e a exercer suas funções sacerdotais exatamente como havia feito quando ainda tinha fé. O peso da parábola está em que Dom Manuel deixa de acreditar em Deus mas muito evidentemente não deixa de acreditar no amor: se não revela aos seus paroquianos a sua falta de fé é precisamente porque os ama, porque não quer arrancar deles o único conforto universal que lhes resta, o da religião. O paradoxo, que todo leitor da parábola acaba intuindo, está em que nada pode haver de mais cristão do que essa atitude. O sacerdote que abandonou o cristianismo da fé mas não abandonou o cristianismo do amor torna-se emblema genuíno da encarnação, e Dom Manuel Bueno passa a representar uma nova estirpe de mártir, uma que abre mão até mesmo da consagração e do espetáculo. Sendo que a palavra mártir vem da raiz grega para “testemunha”, na perseverante integridade e no divino recato dos desconversos Deus talvez encontre o seu definitivo testemunho.


Não há credulidade ou incredulidade que resista à história do martírio de Dom Manuel, porque ela acaba demonstrando sem escapatória que diante da prática do amor tanto a incredulidade quanto a crença dissolvem-se em nada. No nosso mundo desiludido, a missão cristã pode ter de ser reescrita em “Dê evidência da existência do amor de Deus; se necessário, creia nele”. Porque se Deus é amor, Deus incrivelmente é amor.


E de fato, não é contraditório ao espírito do evangelho supor que há mais alegria no céu por um ateu que coloca o amor em prática do que por noventa e nove cristãos que dançam e cantam ritualmente ao redor dele. Ou, para fazer justiça aos meus dois amigos que abriram mão do lenitivo de Deus, para os quais “alegria no céu” pode não ser encarada como verdadeiro mérito: há mais fidelidade ao espírito de Jesus em fazer o que é certo sem esperar recompensa do que em quem forçar-se à integridade só para garantir a própria sobrevivência no paraíso.


Um Deus que faz tudo novo não deixaria de apreciar devidamente esta reviravolta. O próprio Jesus achou necessário insistir que, na avaliação final daquele dia, na divisão entre cordeiros e bodes, a integridade e o mérito não serão encontrados naqueles que julgavam-se seus abalizados portadores.


O reino só se descreve em comparações e a boa nova pode ser mais complexa e inesperada do que dão a entender nossas mais sensatas formulações teológicas. Na verdade, para que se faça justiça à inquieta herança do Jesus dos evangelhos, tudo na nossa fé que nos oferece tranquilidade pode ter de ser corajosamente colocado de lado.


Esta, afinal de contas, é a boa nova que esclarece que não basta dizer “Senhor, senhor”. Este, afinal de contas, é o Deus que quer misericórdia e não sacrifício, o Deus que é amor e não ortodoxia. Este, afinal de contas, é o homem que explica que quem quiser preservar a sua vida irá perdê-la, e que quem estiver disposto a perdê-la irá recebê-la de volta. Não me parece injusto supor,como já fez meu amigo Ivan Volcov, que a todos caberá receber o que não esperam: a salvação e a glória, se existirem, talvez estejam reservadas precisamente para aqueles que abriram mão de esperar esses confortos.

NOTAS
  1. Articulada, por exemplo, por Gianni Vattimo em Depois da Cristandade. []

sábado, 5 de março de 2011

A vida, essa estranha!

Elaine Tavares
Jornalista
Adital

Outro dia um amigo me saiu com essa: "não há gente triste na internet”. E eu fiquei a pensar... Pois não é? As mensagens no twitter ou no facebook são sempre de alegria e dão sinais de que tudo está bem. A cerveja no fim da tarde, os amigos, o vinho, a pizza, os bichos, o sol, os sonhos, enfim... Tudo remete a coisas boas e felicidades. Mas então por que na vida real as coisas e as pessoas parecem estar em escombros? Estarão estes seres querendo criar um espelho irreal para mudar o real? Ou estarão tentando enganar a si mesmos com uma felicidade de plástico? Não sei! ... Eu é que não consigo embarcar neste universo de alegrias. Vejo tudo tão sombrio.
 
Há pessoas que circulam em volta de mim que já não conseguem enxergar beleza na vida. "A impressão é de que quando a gente era jovem conseguia suportar melhor os golpes. Agora, parece não haver esperanças...” Outras tentam desesperadamente encontrar um porto seguro onde ancorar suas promessas de amor. Outras não conseguem viver dentro de um mundo que se faz vazio, outras se emaranham num tempo em que parece não haver devir. Olho para os lados e o que vejo são almas em ruínas, tentando alcançar alguma margem, ainda que não saibam qual. O sólido se desmanchando no ar...
 
Seria o espírito do tempo? Estes tempos pós-tudo, sem sonhos ou utopias? Seria a certeza da mortalidade que se aproxima e se faz cada dia mais real, conforme vamos nos aproximando do crepúsculo? Será a perda efetiva da probabilidade de um mundo melhor? Ou a triste certeza de que o niilismo venceu e não há saídas para o último homem?
 
Não sei, mas tal qual já apontou Nietzsche, creio que nos faz falta a meninice, essa coisa boa e tola de pular amarelinha, girar peão, jogar cinco marias, brincar de queimada e de escolher-fita, diabo-rengo, batatinha frita, um, dois três. Creio que precisamos dar mais cambalhotas, fazer castelos na areia, dar muita risada, pisar nas poças de água. Temos de reencontrar a alegria, a despeito de tudo. O riso servindo como um pirilimpimpim mágico, desfazendo as brumas.
 
Outro dia vi na televisão uma reportagem sobre uma pesquisa que se faz desde há 15 anos nos colégios públicos. Ela revela que as crianças estão mais gordas, mais tristes, com menos energia. E por quê? Porque não existem mais campinhos onde jogar bola, porque não se brinca mais na rua, não se corre, não se gasta energia. As crianças vão para a escola de ônibus ou de carro, comem doritos, jogam vídeo game e falam ao celular. Na hora do recreio não pulam nem suam para não estragar o "modelito”. São pequenos adultos sem vibração, prováveis almas em escombros logo ali adiante.
 
Eu, que chego aos 50, diante das ruínas, começo a perceber que é hora de voltar a brincar. Chegar a casa mais cedo, correr com o cachorro, fazer peraltices, suar em bicas, tomar água pura. Meus cântaros se esgotam e eu preciso viver o dia. Sim, há que lutar pela tarifa zero, pela educação, pela vida digna, pela universidade, pela paz no mundo Mas também há que virar cambalhotas e gargalhar. Porque não quero, na noite da vida, observar a minha e outras tantas almas em escombros. Quero ser capaz do riso, e que ele seja uma lamparina, ainda que bruxuleante, a indicar que, mesmo em meio às sombras pode-se encontrar a beleza. Tal como ensinam os navajos, a beleza aí está, em cima, embaixo, nos lados, em frente. Viver é caminhar na beleza. Mas, a vida, essa estranha, insiste em nos desviar!

sexta-feira, 4 de março de 2011

O direito ao desemprego criador

A partir daí tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são centros de consumo, enquanto as de nossas avós e bisavós eram centros de produção. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo que a família precisava estava ao alcance das mãos – de habilidosas mãos – que não só produziam, mas também consertavam, mantinham e adaptavam a novos usos quando algo se tornava definitivamente irrecuperável.
 
[...]
 
Veja bem: tudo que entra em casa gera embalagem e sai na forma de poluição. Nada fica, nada é aproveitado, tudo é jogado fora, como se “fora” existisse. Para tantos que falam de jogar algo fora, deve existir uma mágica no universo, uma vez que “fora” significaria uma espécie de buraco negro onde tudo sumiria, quando de fato o que ocorre é que nosso “fora” significa que algo que não queremos deva ser lançado na cabeça de outra pessoa, de outro sistema ou de outra vizinhança. Transformamos o ciclo da vida em cadeia de geração de lixo. E nos prendemos nessas correntes intermináveis que acabam por nos envenenar corpos e mentes.
 
Para termos acesso a essa cadeia, buscamos dinheiro, e para obtê-lo nos submetemos a mais emprego. Nos coisificamos – reificamos segundo Marx – viramos peça de engrenagem e para manejar a situação buscamos ter mais e melhores empregos e com isso criamos muita poluição. Além de transformar a cadeia em algemas para a vida toda.
 
Para empregarmo-nos temos dois carros por família, ou usamos muito transporte de massa. Comemos comida pronta para ganhar tempo, inflamos as praças de alimentação de cada Shopping Center, onde produz-se em média dois contêineres por dia de restos de alimento que irão apodrecer em um aterro sanitário. A cada refeição geramos saquinhos plásticos, colheres plásticas, copos plásticos, facas plásticas e muito papel, energia e barulho que acompanham cada empregado, ou executivo, enquanto usufrui de sua ração diária. Nossos filhos vão a escolas e geram mais engarrafamento e stress, mais transportes, mais lanchinhos, embalagens e mais embalagens. Como a comida deve ser fácil e rápida, snacks entram no lugar de frutas ou pães, e com isso mais embalagens. Máquinas e mais máquinas, roupas compradas em lojas, e tudo que nos auxilia a consumir mais, ter melhor aparência e adequarmos nossa vida ao emprego, polui e acelera o sistema. E como pagamento por nosso esforço, ganhamos dinheiro, para comprar mais, gastar mais e poluir mais.
 
Emprego polui. E só nos empregamos por que não sabemos fazer outra coisa a não ser gerar dinheiro, para comprar mais e fazer menos. E no meio disso, para obtermos a impressão de descanso, nos entretemos diante de alguma bobagem, para que o consumo nos tenha entre tempos. Nos divertimos, para que nossa mente divirja daquilo que é importante. Saímos em grupos, para não sermos importunados pela família. Ligamos a TV para desligarmos a mente daquilo que nos oprime.

Uma boa medida para combater a extrema poluição que assola nosso planeta seria a busca do direito ao desemprego criador.

O impenitente Claudio Oliver,
que não se cansa de me atormentar
e pode ser encontrado na rua com Deus


quinta-feira, 3 de março de 2011

Donner la vie... End Maternal Mortality in Burkina Faso

Do blog Canadá Anistia: "Todos os anos, mais de 2.000 mulheres morrem em Burkina Faso, de complicações durante a gravidez e o parto. Isso significa que pelo menos cinco mortes maternas ocorrem por dia. A maioria dessas mortes podem ser evitadas. Mulheres que vivem em comunidades pobres e rurais são os mais afectadas pela mortalidade materna. A Anistia Internacional Burkina Faso se juntou com a Save the Children para criar um novo vídeo sobre a mortalidade materna no Burkina Faso. O vídeo da música conta com artistas locais e é uma ferramenta para envolver o público no trabalho de campanha. "

quarta-feira, 2 de março de 2011

Vacinação em massa contra o sarampo no Congo

O vídeo mostra algumas das atividades de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em fevereiro de 2011. Os destaques do mês são a vacinação em massa contra o sarampo na República Democrática do Congo, os desafios para levar cuidados de saúde ao contexto de insegurança da Chechênia, o aniversário de 10 anos do uso de antirretrovirais em pessoas vivendo com HIV no Malaui e o trabalho de MSF para ajudar pessoas com problemas de saúde mental no campo de Burj Al Barajneh, no Líbano.





terça-feira, 1 de março de 2011

Cair na folia para resolver todos os problemas

O carnaval já começa a acordar pelas cidades, com blocos pipocando aqui e ali (para mim, particularmente, os festejos só começam oficialmente quanto ouço aquele repórter de TV em Pernambuco soltando seu eterno “Aqui, em Olinda, a festa não tem hora para acabar”). Parte do país, pelo menos a sua mídia, já entrou no clima – com destaque para os açougues de mulheres em que se transformam muitos veículos de comunicação na busca por audiência. Eu sei, eu sei, parece coisa de gente mal-humorada reclamar disso. Mas para entrar nos festejos de momo, não é preciso deixar o cérebro na chapelaria.
E foi de frente para a TV ontem que quase tive uma síncope. Fiquei imaginando o que aquele comentarista de carnaval (profissão genuinamente tupiniquim) queria dizer com “o brasileiro, novamente, tem a chance de cair na folia para resolver todos os problemas”. Se ainda fosse “ignorar” ao invés de “resolver”, vá lá. Com isso, lembrei-me de uma cena que retratei tempos atrás que mostra que, mesmo diante de tanta gente sorrindo, certas coisas não mudam. Nem com um milhão de confetes e mil quilômetros de serpentina:
A fantasia nova era seu orgulho. E ele, o orgulho dos pais. Espada de plástico, calça, colete, botas e lenço na cabeça – sem esquecer de um indefectível tapa-olho – faziam do menino um pirata no carnaval de rua daquela cidadezinha do interior. A mãe municiava seu pequeno corsário de confete, com o qual ele atacava, sem cerimônias, os transeuntes. Enquanto isso, o pai registrava tudo com uma câmera de vídeo digital – para a posteridade. Sabe como é, os filhos crescem rápido demais.
Sem que fosse sua intenção, um dos ataques de bolinhas de papel acertou em cheio um outro menino, fantasiado de catador de latinhas de alumínio. Fantasia sem graça aquela, feita por uma camiseta esburacada, bermuda encardida e pés descalços. Ao invés de uma reluzente cimitarra de plástico, cinco ou seis latinhas de cerveja carregadas na improvisada bacia formada pelos braços. O tamanho dos dois era o mesmo, tiquinhos de gente de seis anos, no máximo.
O menino fantasiado de catador de latinhas, que seguia em uma marcha firme, se detém. Sem dizerem nada, por um instante, se olham. O pirata deve ter pensado que fantasia estranha era aquela, cheirando a cerveja. Não seria melhor deixar aquelas latinhas ali e vir brincar com ele? Havia confete para todo mundo no saco da mamãe. E a rua era grande o suficiente.
O olhar do outro parou em misto de inveja e resignação – apesar dele não ter idade para entender o que é inveja, muito menos resignação. Ter um fantasia bonita e colorida como aquela seria bom demais. Não ter que trabalhar na noite de domingo, poder brincar com os pais, melhor ainda. Mas o tempo corria – o tempo sempre corre. Tinha que procurar mais latinhas porque a concorrência estava alta e a festa, como a infância, não ia durar muito mais tempo.
Virou o rosto para frente, continuou sua marcha e se perdeu na multidão. O outro ainda ficou parado um instante. Depois, enfiou a mão no saco de confetes e jogou novamente para cima, formando uma chuva de papel.
Afinal de contas, é carnaval. E o brasileiro, novamente, tem a chance de cair na folia para resolver todos os problemas.

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