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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bíblia Conservadora: Jesus não perdoa

Paulo Brabo - www.baciadasalmas.com

A Bíblia Conservadora é um projeto que tem por objetivo apresentar a palavra de Deus em inglês contemporâneo, removendo ao mesmo tempo as distorções liberais.

The Conservative Bible Project

Em agosto deste ano Andy Schlafly lançou o Projeto da Bíblia Conservadora em seu conservapedia.com,«O erro dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o que quiserem e serão perdoadas.» sáite fundado em 2006 para corrigir o suposto viés liberal da wikipédia.

Até agora o Projeto da Bíblia Conservadora, fundado por Schlafly de seu próprio bolso, completou um terço do Novo Testamento e de Gênesis. As mudanças mais controversas são a eliminação do Novo Testamento das histórias em que Jesus perdoa a mulher adúltera e perdoa seus perseguidores na cruz.

“O erro fundamental dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o quiserem e serão perdoadas, mesmo se não se arrependerem”, afirmou Schlafly.

Schlafly observa – corretamente – que ambas as cenas não constam dos manuscritos mais antigos. Para ele, isso comprova que nunca aconteceram.

“Os liberais amam a cena do apedrejamento porque podem usá-la contra a pena de morte”, disse Schlafly. “Mas naquela época eles não apedrejavam mulheres: eles as estrangulavam”.

Ele também culpa os acadêmicos liberais por terem feito com que as traduções bíblicas do século XX, como a Nova Versão Internacional, promovessem o socialismo, o antiamericanismo e o feminismo, minimizando o julgamento de Deus e os horrores do inferno.

Seria fácil desprezar Schlafly como um excêntrico sem credibilidade, não fosse o fato de que sua conservapedia.com acumula dezenas de milhões de visitas e está presente na lista dos 50 maiores sáites conservadores dos Estados Unidos, segundo o RightWingNews.com

Mark Barna, Conservative bible hits cyberspace

A Bíblia Conservadora obedece as seguintes diretivas:

  • Sistema de referência contra o viés liberal;
  • Não emasculada, evitando linguagem unisex e outras distorções feministas;
  • Utiliza potentes termos conservadores, atualizando palavras como “palavra”, “paz” e “milagre”;
  • Aceita a lógica do inferno, jamais negando ou minimizando a existência do inferno ou do diabo;
  • Expressa as parábolas do livre mercado, esclarecendo as numerosas parábolas econômicas em seu completo sentido de livre mercado;
  • Exclui passagens não-autênticas inseridas posteriormente: remove passagens interpoladas sobre as quais os liberais baseiam seus argumentos, como a história da mulher adúltera.

The Conservative Bible Project

A faculdade de despojar-se

Paulo Brabo

O Filho do Homem, que propunha incessantemente que não havia nada de errado em acumular riquezas, a não ser uma imaculada insensatez, gostava de pontuar que havia uma única e inequívoca vantagem em possuir: a capacidade de despojar-se. Em suas histórias todos despojam-se, e de todas as coisas: o rico comprador de pérolas, o pai do rapaz que pede a herança, o samaritano na beira da estrada, o cidadão de quem exigem a túnica, a viúva pobre diante de sua única moeda, o príncipe diante da soma imperdoável, o dono da fazenda e seu filho diante de seus agricultores.

Foi essa, obviamente, a faculdade que Jesus quis apontar ao jovem rico que cumpria desde a sua infância todos os mandamentos.

Venda tudo que você possui e dê aos pobres.

A subversão que ele propunha era de fato assombrosa. Jesus estava na verdade dizendo, abrace sua posição privilegiada e a oportunidade que apenas você tem: despoje-se. Ouse, transgrida; deleite-se e refestele-se na arrebatadora liberdade de despir-se, ainda no caminho, do que o limita e constrange o seu avanço.

Não foi, obviamente, a fé na suficiência da riqueza que impediu o jovem rico de dar o temível passo que o faria avançar; ninguém de fato acredita na suficiência da riqueza, especialmente e em primeiro lugar os ricos. O que o impediu de avançar foi sua fé, sua exorbitante fé, na suficiência dos mandamentos.

Cumprir a justiça é sempre confortável e limitante demais, pelo que o rabi de Nazaré insiste que a justiça deve ser constantemente ultrapassada (ai de vocês se a sua integridade não exceder a dos mais devotos carolas). E o que pode ultrapassar a justiça é apenas o amor, que não tem critérios (dê aos pobres) e não admite exceções (venda tudo que você tem).

Para o jovem rico, dar ouvidos a Jesus teria representado pisar descalço e sozinho e nu o terrível terreno da liberdade e da responsabilidade – o imoderado domínio que se chama reino de Deus, – mas para adentrá-lo teria sido necessário despojar-se dos mandamentos.

E isso ele não ousou fazer, porque os tinha cumprido desde a infância.

Bacia das Almas

Deus imerso no humano


Ricardo Gondim

Quem é Deus? Por que existe algo ao invés de nada? Estupefatos, contemplamos o céu estrelado, a fúria das marés e inquirimos: Por que a beleza? Diante da mente humana, buscamos entender como nasceu amor e ódio, criatividade e maldade. Onde está Deus? Podemos entender a transcendência absoluta?

A cultura semítica, de onde Jesus formulou os seus conceitos, não especulava, mas se contentava em relacionar-se com Deus como Pai. Judeu nômade, profeta ou sacerdote, não esboçava cartilha para entender a Divindade. Javé não era objeto de estudo, não participava de uma elaboração lógica, dedutiva, que procurava captar mentalmente o ser divino. Na tradição judaica, Deus era crido na dimensão existencial e poética. Eles se contentavam em narrar os atos de Deus na história, na imanência. Não havia preocupação de encaixá-lo em uma racionalidade analógica e dedutiva.

Quando o cristianismo primitivo precisou dialogar com o mundo greco-romano, os Pais da Igreja, geração que sucedeu os apóstolos, mostraram-se cuidadosos em demonstrar que a fé cristã era mais que uma seita judaica. Eles lutavam para que o cristianismo sobrevivesse em um mundo que debatia ideias. A fé, confrontada com o pensamento platônico, não deixaria nada a desejar.

Vários pressupostos filosóficos sobre a Divindade foram então absorvidos pelo cristianismo. Assim como cristianismo influenciou de forma decisiva o Ocidente, o Ocidente também o transformou. A teologia que se consolidou passou a repetir o conceito aristotélico de que a divindade é um “Motor imóvel”. Já que perfeição significava imobilidade na filosofia, Deus era concebido como tão absolutamente perfeito, que nunca poderia experimentar qualquer mudança. Caso mudasse, deixava de ser Deus. Qualquer alteração, para pior ou para melhor, significava não ter, anteriormente, a perfeição absoluta. E um Deus que não fosse perfeito não era Deus.

Quando o cristianismo se espalhou, inúmeros deuses povoavam o mundo antigo - o Panteão estava lotado deles. Ninguém franzia a testa se escutasse sobre a Encarnação. Não espantava acreditar que Deus encarnou e foi visto caminhando pelas estradas poeirentas da Palestina. A dificuldade, a loucura, era afirmar que um contador de histórias, um carpinteiro frágil, manso e amigo de gente imperfeita, era Deus e, pior, havia morrido por mãos humanas.

Isso não era só um paradoxo, mas uma insanidade: Como? Deus morrer? A morte de Jesus, não só demolia o edifício conceitual da filosofia, como se colocava como a contradição mais escandalosa. Essa mensagem correu o mundo. O Transcendente absoluto, o Deus dos deuses, podia ser melhor compreendido olhando para Jesus de Nazaré. As conjecturas gregas não colavam nele. O Filho do Homem não tangenciava Movedor imóvel de Aristóteles.

É preciso retomar a ênfase do cristianismo primitivo. Jesus não se parece com Deus como “Ato Puro”. Em Cristo, Deus não é apático e não está preso pela camisa de força da metafísica. A Divindade se fez gente e mostrou-se comovida de “viscerais afetos” por uma viúva a caminho de enterrar o filho. Chorou diante da sepultura de um amigo (Ah, como a dor humana dói em Deus! – “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado” – Isaías 63.9). Irritou-se com a opressão religiosa. Entendeu, e acolheu, as lágrimas de uma prostituta.

Realmente Jesus não se parecia com o que fora dito sobre Deus. A pregação cristã nasceu em cultura distinta da helênica. O Reino que Jesus anunciou não encontrava paralelo na cultura, nos mitos, nas tragédias. O Deus de Jesus estava além do alcance de poderosos e sábios; mas podia ser intuído por puros de coração, crianças e marginalizados. Para detectar réstias do mundo espiritual, era preciso ouvir o inaudível, ver o imperceptível, tocar no intangível. Grãos de mostarda, ovelhas indefesas, gente inoperante, escravos inúteis, pecadores indignos, filhos pródigos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, exorcistas informais, lírios e pardais, compunham o mosaico que revela Deus.

Jesus não se fantasiou, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses - A plenitude da Divindade habitou em Jesus de Nazaré. Deus mostrou-se imerso no humano. Não era preciso procurá-lo na trans-história, no sobrenatural, mas na vida. “O Reino de Deus chegou!” Jesus foi a revelação mais próxima que jamais teremos de Deus, que escolheu vulnerabilizar-se em seu amor.

Outras divindades podem ser descartadas como ídolos.

Soli Deo Gloria

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