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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pacientes com mal de chagas não conseguem remédio para o coração

O problema é que o governo só dá o remédio para chagas. Medicamento para o coração é difícil achar no posto de saúde.



Marcelo Canellas
Nazaré da Mata, PE
Casa de pau a pique ainda existe. Mal de chagas, também. E não só nos bolsões de pobreza. No Brasil, a DNDi, uma força-tarefa mundial para o desenvolvimento de medicamentos para doenças, já alcançou uma conquista. É o que mostram os repórteres Marcelo Canellas e Luiz Quilião na última reportagem da série Doença do Silêncio.
“Eu comecei a sentir com 33 anos de idade”, conta o aposentado Manoel Mariano do Nascimento. Médico nenhum descobria a causa dos desmaios misteriosos. Manoel ficou furioso. O aposentado lembra como cobrou os médicos: “Vocês são um bocado de burros. Vocês estudaram para quê? Eu preciso saber o que é que eu tenho. Diga logo que eu tenho câncer”.
Não era câncer. Manoel revela como descobriu a doença: “O senhor tem doença de chagas. Eu olhei bem assim e perguntei: ‘o que é isso’”?
O coração de Manoel já sofria de um dos principais efeitos da doença. “Perguntaram se eu queria operar ou morrer. Eu perguntei: ‘me operar como’? Disseram: ‘colocar um marcapasso, porque o seu batimento cardíaco está 29 por minuto’”.
Presidente da Associação dos Portadores de Doença de Chagas, Manoel conhece todo mundo que tem marcapasso em Pernambuco. Ele cita o nome das pessoas. Os voluntários da associação monitoram os casos suspeitos.
A agricultora Severina Maria da Silva limpa o retrato dos parentes que a doença levou e conta que perdeu o marido e pai de chagas. “Quando fazia uns três anos que eu era casada, ele morreu. Ninguém estava esperando. Eu sabia que ele estava doente, mas não esperava que ele fosse morrer assim. Quando eu vi, ele caiu assim. Caiu, e já estava pronto”.
É uma doença típica da pobreza, ligada às condições de vida da população, porque o barbeiro, o inseto transmissor do parasita Trypanosoma cruzi, que causa o mal de chagas, vive nas frestas das casas de pau a pique.
A aposentada Santina Rodrigues da Silva sabe que foi picada por um deles. “Nasci, me criei e me casei tudo em casa de taipa”, revela.
Chagas pode levar até 30 anos para se manifestar no organismo. Tem cura se for descoberta no início. Mas, depois que vira doença crônica, dá para tratar somente as complicações. O problema é que o governo só dá o remédio para chagas. Medicamento para o coração é difícil achar no posto de saúde.
“De vez em quando, uma caixa que a gente consegue e da mais barata. O mais caro a gente tem que comprar. Ou bem você compra remédio, ou bem se alimenta direito”, diz Maria Ribeiro da Silva, filha de Santina.
A escolha da aposentada Josefa Liberto foi a de comprar comida. Para o remédio, não dá. “Eu sinto o coração acelerado. De tempos em tempos, ele fica acelerado”, afirma. Ela ainda revela que não tem R$ 200 para pagar de remédio por mês e, por isso, não consegue se tratar.
O aposentado Manoel Mariano do Nascimento reconhece que não tem condições de prometer a Josefa que ela vai receber os remédios e se tratar sempre que precisar. “Eu não vou prometer uma coisa que eu não posso cumprir. A prevenção e os medicamentos são essenciais. Diante disso, só Deus ou a morte”, declara.
Sem dinheiro e sem remédio, Josefa apenas espera que nada de mal lhe aconteça.
Sem hospitais especializados, sem distribuição de medicamentos, sem nenhum tipo de atendimento médico específico para o mal de chagas, a alternativa oferecida aos doentes é o ônibus. Em Nazaré da Mata (PE), por exemplo, todos os dias, às 4h, a prefeitura leva os pacientes para o Recife. O jogo de empurra só vai acabar mesmo quando amanhecer.
O aposentado Valdeci Vicente de Melo enfrenta a jornada sempre que precisa atualizar um exame no Recife. A doença apareceu bem na fase mais produtiva da vida. Ele conta que está afastado do trabalho há dez anos.
Cada vez que viaja, Valdeci teme não chegar a tempo. “Mas se der um negócio, uma tontura ou um desmaio, tem que socorrer e trazer para aqui. Quando chegar aqui, já está morto. O coração não espera por tempo. É um relógio. É um relógio que para ligeiro”, ressalta.
O relógio de Genaro só não parou por que ele botou um marcapasso. “A parte elétrica do coração fica bloqueada e, com isso, o coração passa a trabalhar menos. Em alguns pacientes com a doença de chagas, em que o bloqueio é só no sistema elétrico, mas não há um envolvimento importante do músculo cardíaco, o implante do marcapasso prolonga a vida, além de melhorar bastante a qualidade de vida”, aponta o cardiologista Wilson de Oliveira Jr, dirige o Ambulatório de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz.
Alguns pacientes têm que operar o esôfago, porque a doença de chagas também pode atacar o aparelho digestivo. O Sistema de Saúde paga caro para tentar remediar as consequências da enfermidade, quando poderia ter economizado antes. “Em cada US$ 1 que você investe em prevenção, você economizaria US$ 17”, afirma o cardiologista Wilson de Oliveira Jr.
Em 2006, o Brasil recebeu da Organização Pan Americana de Saúde o certificado de eliminação do Triatoma infestans, a principal espécie de barbeiro transmissor da doença. Mas para o Dr. Wilson, que dirige o Ambulatório de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz, no Recife, é um erro acreditar que isso é suficiente. “O grande equívoco é que controle não é sinônimo de erradicação. Em nenhum momento, nós negamos o avanço, mas é necessário dizer que se não permanecer uma vigilância epidemiológica sustentada, com participação inclusive da comunidade, essa doença pode voltar”, alerta.
É muito importante a identificação e o tratamento logo no início, quando a doença tem cura. O desafio é encontrar a dosagem certa para crianças do único remédio eficiente contra chagas, descoberto há 35 anos.
“O benzonidazol disponível é um comprimido de 100 miligramas. É um comprimido que é impossível você imaginar que uma criança vai tomar. É um comprimido grande, duro”, critica Fabiana Piovesan Alves, gerente de estudo clínico da DNDi (sigla em inglês para Medicamentos para Doenças Negligenciadas).
A boa notícia é que o Brasil começa a fabricar um comprimido infantil que já está em fase de liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “O objetivo final é justamente garantir a eficácia e o tempo de tratamento, porque o tempo de tratamento em chagas é um tempo bastante logo, cerca de 60 dias”, afirma Flávia Morais, coordenadora do Lafepe.
Diante de tão poucas novidades, não deixa de ser uma conquista. “É uma doença de pobre. Para eles, não dá lucro”, declara o aposentado Manoel Mariano do Nascimento.
Justamente por isso, cada dia de vida é uma vitória. Manoel revela que já colocou seis marcapassos. “A coisa mais importante no mundo é a vida. A vida não tem preço. As outras coisas são coisas banais. Casa, carro, tudo: são coisas banais. Mas a vida não. A vida é muito preciosa”, aposta.

Crianças trabalham ao redor do mundo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O verdadeiro custo da irresponsabilidade social das empresas

Desigualdade social e renda injusta

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital


Entre os 15 países mais desiguais do mundo, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Atenção: não confundir desigualdade com pobreza. Desigualdade resulta da distribuição desproporcional da renda entre a população.

O mais desigual é a Bolívia, seguida de Camarões, Madagascar, África do Sul, Haiti, Tailândia, Brasil (7º lugar), Equador, Uganda, Colômbia, Paraguai, Honduras, Panamá, Chile e Guatemala.

A ONU reconhece que, nos últimos anos, houve redução da desigualdade no Brasil. Em nosso continente, os países com menos desigualdade social são Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai.

Na América Latina, a renda é demasiadamente concentrada em mãos de uma minoria da população, os mais ricos. São apontadas como principais causas a falta de acesso da população a serviços básicos, como transporte e saúde; os salários baixos; a estrutura fiscal injusta (os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos que os mais ricos); e a precariedade do sistema educacional.

No Brasil, o nível de escolaridade dos pais influencia em 55% o nível educacional a ser atingido pelos filhos. Numa casa sem livros, por exemplo, o hábito de leitura dos filhos tende a ser inferior ao da família que possui biblioteca.

Na América Latina, a desigualdade é agravada pelas discriminações racial e sexual. Mulheres negras e indígenas são, em geral, mais pobres. O número de pessoas obrigadas a sobreviver com menos de um dólar por dia é duas vezes maior entre a população indígena e negra, comparada à branca. E as mulheres recebem menor salário que os homens ao desempenhar o mesmo tipo de trabalho, além de trabalharem mais horas e se dedicarem mais à economia informal.

Graças à ascensão de governos democráticos-populares, nos últimos anos o gasto público com políticas sociais atingiu, em geral, 5% do PIB dos 18 países do continente. De 2001 a 2007, o gasto social por habitante aumentou 30%.

Hoje, no Brasil, 20% da rendas das famílias provêm de programas de transferência de renda do poder público, como aposentadorias, Bolsa Família e assistência social. Segundo o IPEA, em 1988 essas transferências representavam 8,1% da renda familiar per capita. De lá para cá, graças aos programas sociais do governo, 21,8 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema.

Essa política de transferência de renda tem compensado as perdas sofridas pela população nas décadas de 1980-1990, quando os salários foram deteriorados pela inflação e o desemprego. Em 1978, apenas 8,3% das famílias brasileiras recebiam recursos governamentais. Em 2008, o índice subiu para 58,3%.

A transferência de recursos do governo à população não ocorre apenas nos estados mais pobres. O Rio de Janeiro ocupa o quarto lugar entre os beneficiários (25,5% das famílias), antecedido por Piauí (31,2%), Paraíba (27,5%) e Pernambuco (25,7%). Isso se explica pelo fato de o estado fluminense abrigar um grande número de idosos, superior à media nacional, e que dependem de aposentadorias pagas pelos cofres públicos.

Hoje, em todo o Brasil, 82 milhões de pessoas recebem aposentadorias do poder público. Aparentemente, o Brasil é verdadeira mãe para os aposentados. Só na aparência. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE demonstra que, para os servidores públicos mais ricos (com renda mensal familiar superior a R$ 10.375), as aposentadorias representam 9% dos ganhos mensais. Para as famílias mais pobres, com renda de até R$ 830, o peso de aposentadorias e pensões da previdência pública é de apenas 0,9%.

No caso do INSS, as aposentadorias e pensões representam 15,5% dos rendimentos totais de famílias que recebem, por mês, até R$ 830. Três vezes mais que o grupo dos mais ricos (ganhos acima de R$ 10.375), cuja participação é de 5%.

O vilão do sistema previdenciário brasileiro encontra-se no que é pago a servidores públicos, em especial do Judiciário, do Legislativo e das Forças Armadas, cujos militares de alta patente ainda gozam do absurdo privilégio de poder transferir, como herança, o benefício a filhas solteiras.

Para Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, no Brasil "o Estado joga dinheiro pelo helicóptero. Mas na hora de abrir as portas para os pobres, joga moedas. Na hora de abrir as portas para os ricos, joga notas de cem reais. É quase uma bolsa para as classes A e B, que têm 18,9% de suas rendas vindo das aposentadorias. O pobre que precisa é que deveria receber mais do governo. Pelo atual sistema previdenciário, replicamos a desigualdade.”

A esperança é que a presidente Dilma Rousseff promova reformas estruturais, incluída a da Previdência, desonerando 80% da população (os mais pobres) e onerando os 20% mais ricos, que concentram em suas mãos cerca de 65% da riqueza nacional.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Médicos Sem Fronteiras no Paquistão: Quando a chuva caiu

Egito e os milhares de heróis da revolução

Após 18 dias de protestos, o ditador egípcio Hosni Mubarak renunciou nesta sexta pondo fim a 30 anos de poder. O país tem importância estratégica. Tem um dos maiores exércitos profissionais da região, possui localização estratégica (entre a África e a Ásia, o Índico e o Mediterrâneo, com o canal de Suez encurtando distâncias), é – até agora – um parceiro importante de Washington, mantendo relações cordiais com Tel-Aviv. A praça Tahrir, no centro do Cairo, que foi o epicentro da revolta popular, entrou em uma festa que rompeu a madrugada e seguiu por este sábado. Afinal de contas, não é todo o dia que o povo consegue derrubar um ditador de forma pacífica.
Os militares assumiram o poder, prometendo uma transição rápida ao governo civil. Como a democracia será consolidada é uma incógnita. Há muitas variáveis envolvidas e a construção de instituições é um processo lento e que demanda confiança dos envolvidos. Esperemos que esse sentimento de união nacional e entendimento seja mantido para fazer frente ao desafio de tirar 40% da população de uma pobreza de menos de R$ 3,50 por dia. Pois foi exatamente a incapacidade de dar respostas econômicas e sociais à essa situação (enquanto levantamentos apontam que os Mubarak amealharam uma fortuna de US$ 40 bi ao longo do período no poder) o estopim que explodiu as ruas das maiores cidades do país.
Apesar de apoiar governos alguns bisonhos até quase o fim para cumprir sua política de Estado, Washington salta fora do barco antes que ele naufrague por completo. No caso da Indonésia, para citar outro exemplo, a então secretária de Estado Madeleine Albright veio a público sugerir que o ditador Suharto deixasse o poder após os protestos terem ganhado as ruas do arquipélago em 1998. Traduzindo: “Mermão, agora é contigo”. Foi o que se repetiu agora. Outro atores, mesma saída.
Escrevi neste espaço, há exatas duas semanas, que a pressão popular levaria os Estados Unidos a retirarem seu apoio. Ontem e hoje já tive a oportunidade de ouvir e ver alguns “especialistas” creditarem a queda de Mubarak a uma decisão do governo Obama, por ter removido o suporte ao regime, como se a própria chancelaria norte-americana não tivesse mudado de posição ao longo dos dias em decorrência do redemunho formado pela população nas ruas do Egito.
Em seu poema Perguntas de um Trabalhador que lê, Bertold Brecht pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra?”
Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais, mas todos que têm uma conta de twitter, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, são tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram reis que derrubaram um ditador, mas os carregadores de pedra. Isso não tem sido o padrão da História, que supervaloriza e mitifica o indivíduo em detrimento ao coletivo quando escrita e passada adiante. Não tiro a importância de pessoas, mas buscamos heróis quando eles, simplesmente, não precisam existir.
Em homenagem ao pessoal da praça Tahrir, posto o poema inteiro do dramaturgo alemão.
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Epidemias - Exposição Experiências de Vida

O sem-teto, a cara-pintada e o sinal fechado

Conversas de semáforo tendem a ser objetivas. Por vezes, produzem hai cais da urbanidade. Não é este o caso, narrado por um advogado ao blog, o que não exclui o fato de haver certo lirismo presente nele.
Em uma esquina movimentada de São Paulo, caras-pintadas abordavam os veículos:
- Oi, tudo bem? Você poderia me dar uma moedinha. Eu passei.
Vendo a cena, um morador de rua que também fazia ponto naquele local, provido de uma ironia deliciosa, achegou-se:
- O senhor também poderia me dar uma? Eu também passei. Passei fome, passei frio, passei necessidade…
Dar dinheiro alegremente – quiçá projetando-se no outro a fim de reviver um saudoso momento e participar de um rito comum à sua classe social – ou de forma constrangida – por ter melhores condições em um país extremamente rico e proporcionalmente desigual e se sentir obrigado diante da circunstância no semáforo, sem contar o efeito de sentimentos nobres como a dó, e ser chamado na chincha?
Qual foi o desfecho? Nem te conto. Fica mais interessante que cada um termine a história do seu próprio jeito. Se bem que eu arriscaria dizer, se o mundo fosse maniqueísta, para qual lado a balança penderia…

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sem-teto gays de SP andam juntos para se proteger


“Acordem, meninas. São 7h, a diária acabou”, diz o vigia de um estabelecimento comercial localizado na avenida Paulista.
Ele está falando com Samuel, 38, Joaquim, 35, Josué, 42, e Leandro, 23. Os quatro são gays e mendigos, moradores de rua.
Eles vivem em grupo para se proteger. Nos últimos meses, cresceram as agressões a moradores de rua e contra gays na avenida Paulista.
Por serem pedintes, por serem homossexuais e por estarem naquela região, os quatro se dizem triplamente expostos. Dizem já ter sido espancados pela polícia, por skinheads e até por outros moradores de rua.
Todos esses mendigos gays têm em comum histórias de rejeição da família, de dependência de álcool e drogas, de prostituição e de abuso sexual na infância.
Todos têm uma “identidade” feminina. Josué é Kelly (“de Grace Kelly”). Samuel é Sam. Joaquim é Giovanna Antonelli. E Leandro é Ludimila. Deste ponto em diante, serão chamadas por seus nomes de mulher.
A maior queixa é a intransigência dos abrigos, que proíbem a entrada de mendigos travestidos. “Dizem: ‘senhora, tem de colocar roupa de homem’”, diz Kelly.
Com isso, muitos buscam escamotear a homossexualidade para conseguir vaga nos albergues e se precaver da violência e da discriminação dos outros abrigados.
“Sou uma mulher presa num corpo de homem. Não consigo representar uma coisa que não sou”, diz Cláudio, nome de batismo de Cláudia, 39, travesti em terapia hormonal para ter traços femininos e crescer mamas.
A situação chegou aos bancos acadêmicos e virou tema de pesquisas de pós-graduação na USP e em outras universidades paulistas.
“Quanto maior a identidade transgênica, maior é a violência. Agregam estigmas que agravam a exclusão social”, diz a psicóloga Fernanda Maria Munhoz Salgado, que faz mestrado na PUC sobre mendigos homossexuais.
Também mobilizou a militância gay, que negocia com a prefeitura a abertura do primeiro albergue exclusivo para gays, lésbicas, travestis e transexuais de São Paulo.
“Se cederem o imóvel, no estado em que estiver reformo com o meu próprio dinheiro”, afirma o empresário Douglas Drumond, dono da sauna gay 269, na região da avenida Paulista.
Segundo o censo da prefeitura, havia 13.666 moradores de rua em São Paulo em 2009. No próximo recenseamento, deve ser incluída uma pergunta sobre a orientação sexual para saber, ao menos, quantos são.
VEJA (acima) O DOCUMENTÁRIO “O OUTRO LADO”, DE DOUGLAS DRUMOND
fonte: Folha.com

A Verdade é Plural

O pensamento ocidental tem sido por longo tempo dominado pela ideia de que o erro é plural e a verdade é singular. Podemos estar errados de muitos modos diferentes, mas certos de um modo só. De acordo com essa visão, que podemos chamar de monismo ou singularismo, só existe uma forma correta de se entender o mundo, um único verdadeiro sistema de moralidade, um único modo de se conduzir uma vida correta, uma única religião verdadeira, um único modo de organizar a sociedade e assim por diante. Nosso dever é atingir a verdade, seja ela cognitiva, moral ou religiosa, através da razão, que é entendida como uma faculdade transcendental e quase divina que se eleva sobre as barreiras psicológicas, sociais, culturais ou de outra natureza. Essa visão de mundo tem consequências tanto positivas quanto negativas. Ela inspirou a maior parte das investigações intelectuais, as normas de debate racional e também uma determinação a expor e combater erros. 
Toda comunidade cultural representa uma forma particular de excelência humana.
Porém gerou também arrogância, intolerância, incapacidade de apreciar as diferenças, a tendência a associar diversidade com aberração e também muita violência.

O pluralismo cultural contesta essa visão de verdade e de virtude. Ele enxerga a razão como uma qualidade não semidivina ou transcendental mas humana, com tudo que isso implica. Como parte do pressuposto de que a cultura vem embutida nos seres humanos, ele sustenta que a razão é moldada e estruturada pela cultura. Isso não quer dizer que as pessoas não são capazes de criticar ou de revisar a sua cultura; quer dizer que não sejam capazes de transcender todas as sutis e profundas influências da cultura, enxergando-a a partir de um não-existente ponto de vista arquimediano. As pessoas podem substituir uma cultura por outra, mas não tem como postar-se totalmente fora do âmbito da cultura.
Para o pluralismo cultural o mundo pode ser entendido de diferentes modos dependendo de nosso aparato, linguagem, interesses e propósitos conceituais, das perguntas que fazemos e do tipo de conhecimento que buscamos e valorizamos.
Como a verdade em geral, a verdade moral ou virtude é também plural. As capacidades humanas e valores morais entram em conflito, e não podem ser integradas num sistema harmonioso sem perda. Diferentes comunidades culturais organizam-se com base em diferentes visões de uma vida correta, e fomentam diferentes capacidades, disposições e virtudes humanas. Toda comunidade cultural representa uma forma particular de excelência humana, com todas os seus pontos fortes e limitações característicos. Nenhuma cultura é perfeita, nenhuma encarna a virtude de modo completo e nenhuma é por completo desprovida de virtude.
Toda cultura, portanto, requer outras como interlocutores críticos. No curso de um diálogo com elas, cada cultura torna-se consciente de sua especifidade e ganha acesso a outros valores, a virtudes que ela mesma marginaliza ou ignora. Quando se pressupõe que a verdade e a virtude são singulares, nenhum diálogo dessa espécie é necessário. Na melhor das hipóteses, seu propósito é expor os erros dos outros e refutá-los num espírito de agressão e de arrogante condescendência. Na visão da cultura pluralista, o diálogo é central à vida moral e intelectual, sendo o único modo de se adquirir uma compreensão completa de sua matéria de estudo.
Pluralismo cultural é inteiramente diferente de relativismo, e não deve ser confundido com ele. Para o relativista, a verdade é relativa e sua validade está limitada a uma comunidade em particular. Como o monista, o relativista pressupõe que a verdade é singular, sendo a única diferença entre os dois que enquanto o primeiro declara a validade universal de um visão de mundo particular, o relativista a limita a uma determinada unidade social. O pluralismo cultural contesta os dois.
O pluralismo cultural é uma ideia radical com implicações profundas. Ela nos imuniza contra a tendência sedutora e muito comum de pensarmos que só nossa visão de mundo, nossa religião ou sistema de moralidade é que são corretos, e podem ser com justiça serem usados para julgar todos os outros. Ele portanto gera humildade, respeito aos outros, abertura ao diálogo e o espírito de auto-crítica. Encoraja-nos também a ver os outros não como estranhos ou como ameaça, mas como parceiros de conversação que nos trazem os dons da auto-consciência e o acesso a seus tesouros, e cuja existência é pré-condição de nosso crescimento.
No nível social e político o pluralismo cultural implica que o discurso público não pode ser conduzido num único idioma conceitual e moral, devendo passar a admitir uma diversidade de dialetos e linguagens. Isso põe em dúvida o conceito dominante e dúbio de que uma sociedade não tem como ser estável a não ser que todos os seus membros concordem substantivamente a respeito dos valores de uma vida correta. Também desafia nossos juízos estabelecidos sobre conceitos centrais como autonomia pessoal, igualdade, liberdade e justiça, que podem todos ser definidos e amarrados de modos diferentes. Não é de se admirar que a predominância do pluralismo cultural em anos recentes tenha desestabilizado as filosofias moral, social e política tradicionais; que tenha nos forçado a repensar nossos pressupostos e a redesenhar nossas instituições sociais e políticas. É provável que essa tarefa vital, iniciada por Rawls e continuada por seus seguidores e críticos, nos ocupe ao longo de toda parcela de futuro que somos capazes de prever.
Bhikhu Parekh, em The Philosopher’s Magazine

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