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sábado, 22 de janeiro de 2011

O aeroporto tá parecendo rodoviária

Antonio Prata

O FUNCIONÁRIO do supermercado empacota minhas compras. A freguesa se aproxima com sua cesta e pergunta: “Oi, rapazinho, onde fica a farinha de mandioca?”. “Ali, senhora, corredor 3.” “Obrigada.” “Disponha.”

A cena seria trivial, não fosse um pequeno detalhe: o “rapazinho” já passava dos quarenta. Teria a mulher uma particularíssima disfunção neurológica, chamada, digamos etariofasia aguda? Mostra-se a ela uma imagem do Papai Noel e outra do Neymar, pergunta-se: “Quem é o mais velho?”, ela hesita, seu indicador vai e vem entre as duas fotos, como um limpador de para-brisa e… Não consegue responder.

Infelizmente, não me parece que a mulher sofresse de uma doença rara. Pelo contrário. A infantilização dos pobres e outros grupos socialmente desvalorizados é recurso antigo, que funciona naturalizando a inferioridade de quem está por baixo e, de quebra, ainda atenua a culpa de quem tá por cima.

Afinal, se fulano é apenas um “rapazinho”, faz sentido que ele nos sirva, nos obedeça e, em última instância, submeta-se à tutela de seus senhores, de suas senhoras.

Nos EUA, até a metade do século passado, os brancos chamavam os negros de “boys”. Em resposta, surgiu o “man”, com o qual os negros passaram a tratar-se uns aos outros, para afirmarem sua integridade.

No Brasil, na segunda década do século XXI, o expediente persiste.

Faz sentido. Em primeiro lugar, porque persiste a desigualdade, mas também porque todo recurso que escamoteie os conflitos encontra por aqui solo fértil; combina com nosso sonso ufanismo: neste país, todo mundo se ama, não?

Pensando nisso, enquanto pagava minhas compras, já começando a ficar com raiva da mulher, imaginei como chamaria o funcionário do supermercado, se estivesse no lugar dela. Então, me vi dizendo: “Ei, “amigo”, você sabe onde fica a farinha de mandioca?”, e percebi que, pela via oposta, havia caído na mesma arapuca.

Em vez de reafirmar a diferença, reduzindo-o ao status de criança, tentaria anulá-la, promovendo-o ao patamar da amizade. Mas, como nunca havíamos nos visto antes, a máscara cairia, revelando o que eu tentava ocultar: a distância entre quem empurra o carrinho e quem empacota as compras.

“Rapazinho” e “amigo” -ou “chefe”, “meu rei”, “brother”, “queridão”- são dois lados da mesma moeda: a incapacidade de ver, naquele que me serve, um cidadão, um igual.

Não é de se admirar que, nesta sociedade ainda marcada pela mentalidade escravocrata, haja uma onda de preconceito com o alargamento da classe C, que tornou-se explícito nas manifestações de ódio aos nordestinos, via Twitter e Facebook, no fim do ano passado.

Mas o bordão que melhor exemplifica o susto e o desprezo da classe A pelos pobres, ou ex-pobres que agora têm dinheiro para frequentar certos ambientes antes fechados a eles, é: “Credo, esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!”. De tão repetido, tem tudo para se tornar o “Você sabe com quem está falando?!” do início do século XXI. Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, os rapazinhos, que horror!, ganharão cada vez mais espaço e a coisa só deve piorar. É preocupante. Nesse ritmo, num futuro próximo, quem é que vai empacotar nossas compras?

fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pinóquio e o Campo dos Milagres


Carlo Collodi (e uma pequena participação do Ricardo Gondim)

Minha mãe leu toda a obra de Monteiro Lobato enquanto nos colocava para dormir. Repito o mesmo hábito com Naran, meu neto, enquanto ele passa as férias conosco. Terminamos “Alice no País das Maravilha”. Começamos “As Aventuras de Pin óquio” de Carlo Collodi (Editora Iluminuras , 2002). Quanto enlevo!

Chegamos ao capítulo XII. Comefogo, o dono de um teatrinho de bonecos, dá de presente cinco moedas de ouro para Pinóquio para que ele as leve para Gepeto, seu pai; e Pinóquio em vez disso, deixa-se enrolar pela Raposa e pelo Gato e vai embora com eles.

O texto é carregado de significados. E as lições servem não apenas para crianças, mas para adultos enredados por espertalhões de todo tipo, inclusive religioso. Muitos continuam a cair na mesma esparrela que Pinóquio.

Ao transcrevê-lo, faço várias conexões com as promessas abundantes do meio em que estou mais familiarizado: igrejas evangélicas.

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No dia seguinte, Comefogo chamou Pinóquio de lado e perguntou:

-Qual é o nome do seu pai?

-Gepeto.

-E o que ele faz?

-É um pobre.

-Ele ganha muito?

-Ele ganha tanto quanto é preciso para não ter nunca um centavo sequer no bolso. Imagine que para comprar minha Cartilha da escola teve que vender a única jaqueta que vestia, uma jaqueta que, entre consertos e remendos, estava caindo aos pedaços.

-Pobre sujeito! Me dá até dó! Eis aqui cinco moedas de ouro. Leve-as logo para ele e mande lembranças de minha parte.

Pinóquio, com é fácil imaginar, agradeceu mil vezes o patrão, abraçou, um por um, todos bonecos da Companhia, até os guardas, e, delirando de felicidade, seguiu viagem para voltar para casa.

Mas não tinha andado nem meio quilômetro ainda quando encontrou pelo caminho uma Raposa manca de uma pata e um Gato cego dos dois olhos, que iam andando devagarinho, ajudando-se um ao outro, como bons companheiros de infortúnio. A Raposa, que era manca, caminhava apoiando-se no Gato, e o Gato, que era cego, deixava-se guiar pela Raposa.

-Bom dia, Pinóquio – disse a Raposa, cumprimentando-o educadamente.

-Como é que você sabe meu nome? - perguntou o boneco.

-Eu conheço bem o seu pai.

-Onde você o viu?

-Eu o vi ontem na soleira da porta da casa dele.

-E o que ele estava fazendo?

-Ele estava só de camisa e estava tremendo de frio.

-Pobre papai! Mas, se Deus quiser, de hoje em diante ele não vai mais tremer!...

-Por quê?

-Porque eu me tornei um rico senhor.

-Você, um rico senhor? - disse a Raposa, e começou a rir com uma risada desengonçada e zombeteira; e o Gato também ria, mas, para disfarçar, penteava os bigodes com as patas da frente.

-Não tem graça nenhuma – gritou Pinóquio ofendido. - Sinto muito se vou deixar vocês com água na boca, mas estas aqui, se é que vocês entendem isso, são cinco belíssimas moedas de ouro. E tirou do bolso as moedas que Comefogo lhe dera de presente.

Ao som agradável daquelas moedas, a Raposa, por um impulso involuntário, espichou a pata que parecia encolhida e o Gato esbugalhou todos os dois olhos, que pareceram duas lanternas verdes, mas logo depois voltou a fechá-los, tanto é que Pinóquio não percebeu nada.

-E agora – perguntou a Raposa -, o que você vai querer fazer com essas moedas?

-Antes de mais nada – respondeu o boneco -, quero comprar para o meu pai uma bela jaqueta nova, toda de ouro e prata e com os botões de brilhantes, e depois quero ir para a escola e começar a estudar para valer.

-Olhe só para mim! - disse a Raposa. - Por causa da minha paixão tola pelo estudo, perdi uma perna.

-Olha só para mim! - disse o Gato. - Por causa da minha paixão tola pelo estudo fiquei cego dos dois olhos.

Enquanto isso, um Melro branco que estava empoleirado sobre a cerca à beira da estrada cantou como de costume e disse:

-Pinóquio, não dê ouvidos aos conselhos de más companhias, senão você vai arrepender-se!

Pobre Melro, teria sido melhor se não tivesse feito isso! O Gato, dando um grande salto, atirou-se em cima dele e, sem lhe dar nem ao menos tempo de dizer Ai, devorou-o de um só bocado, com as penas e tudo.

Depois de comê-lo e de limpar a boca, fechou novamente os olhos e voltou a se fazer de cego como antes.

-Pobre Melro – disse Pinóquio ao Gato -, por que você o tratou tão mal?

-Fiz isso para lhe dar uma lição. Assim, da próxima vez, ele vai aprender a não se meter nas conversas dos outros.

Já tinham andado mais da metade do caminho quando a Raposa, parando de supetão, disse para o boneco:

-Você quer dobrar as sua moedas de ouro?

-Como assim?

-Você quer que essas cinco miseráveis moedas de ouro virem cem, mil, dua mil?

-Pudera! De que jeito?

-De um jeito muito fácil. Em vez de voltar para casa, você deveria vir conosco.

-E aonde vocês querem levar-me?

-Ao País das Antas.

-Pinóquio pensou um pouco, depois disse com determinação:

-Não, não quero ir. Agora já estou perto de casa e quero ir para casa, onde meu pai está esperando-me. Quem sabe, pobre velho, como ficou ansioso ontem quando não me viu voltar. Infelizmente fui um mau menino, e o Grilo-falante tinha razão quando dizia: “Os meninos desobedientes não conseguem nada de bom neste mundo”. E eu aprendi isso às minhas custas, porque muitas desgraças me aconteceram, e ontem à noite, na casa de Comefogo, corri perigo...Brrr! Me dá um arrepio só de pensar!

-Então – disse a Raposa -, você quer mesmo ir para casa? Então vá, e pior para você.

-Pior para você! - repetiu o Gato.

-Pensei bem, Pinóquio, porque você está virando as costas para a sorte.

-Para a sorte! - repetiu o Gato.

-As suas cinco moedas de ouro de hoje para amanhã teriam virado duas mil.

-Duas mil – repetiu o Gato.

-Mas como é possível que virem tantas assim? - perguntou Pinóquio, ficando de boca aberta de tão estupefato.

-Já vou explicar para você – disse a Raposa. - É preciso saber que no país das Antas tem um campo abençoado que todos chamam de Campo dos Milagres. Você cava neste campo um pequeno buraco e coloca dentro dele, por exemplo, uma moeda de ouro. Depois você cobre o buraco com um pouco de terra, rega-o com dois baldes de água de chafariz, joga por cima um punhado de sal, e, no fim da tarde, você vai sossegado para a cama. Enquanto isso, durante a noite, a moeda de ouro brota e dá flor e, na manhã seguinte, ao levantar, você volta para o campo e o que você encontra? Encontra uma bela árvore carregada de tantas moedas de ouro quantos são os grãos de trigo de uma bela espiga no mês de junho.

-Então vejamos – disse Pinóquio cada vez mais atônito -, se eu enterrasse naquele campo as minhas cinco moedas de ouro, na manhã seguinte quantas moedas de ouro eu encontraria?

-É uma conta facílima – respondeu a Raposa -, uma conta que você pode fazer na ponta dos dedos. Suponhamos que cada moeda dê um cacho de quinhentas moedas; faça quinhentas vezes cinco e na manhã seguinte você vai encontrar no seu bolso duas mil e quinhentas moedas ouro brilhando e tinindo.

-Oh, que bom! - gritou Pinóquio, dançando de alegria. - Assim que eu tiver colhido essas moedas de ouro, vou ficar com duas mil para mim e vou dar as outras quinhentas de presente para vocês dois.

-Um presente para nós? - Gritou a Raposa indignando-se e dizendo-se ofendida. - Deus me livre!

-Me livre! - repetiu o Gato.

-Nós – prosseguiu a Raposa – não trabalhamos por interesses mesquinhos, nós trabalhamos unicamente para enriquecer os outros.

-Os outros! - repetiu o Gato.

-Que pessoas de bem! - pensou Pinóquio consigo. E, esquecendo-se na mesma hora do seu pai, da jaqueta nova, da Cartilha e de todas as suas boas intenções, disse para a Raposa e para o Gato:

-Vamos logo. Eu vou com vocês!

PS. Faça as conjecturas, veja se essa história faz sentido ou não, e tome cuidado, as Raposas e os Gatos continuam por aí).

Querem proibir Paulo Freire!

Selvino Heck - Adital

Notícia recente, na coluna de Elio Gaspari (É dura a Vida no Arizona, 12.01.11): "O diretor da rede escolar pública de Tucson, Estado do Arizona, EUA, quer fechar os cursos de história e cultura latinas. Entre os livros que pretende tirar dos currículos está a ‘Pedagogia do Oprimido’, de Paulo Freire."

Em novembro de 2009, em Brasília, durante o Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, a Caravana da Anistia promoveu o julgamento político e declarou formalmente para a sociedade a anistia de Paulo Freire, em nome do governo brasileiro. Escrevi: "Paulo Freire, educador popular e cidadão do mundo, finalmente vai voltar a ser cidadão brasileiro em sentido pleno: com direito a reconhecimento formal de sua brasilidade e de sua contribuição à educação como prática da liberdade, à pedagogia do oprimido, da indignação e da autonomia." E concluía: "O povo e o governo brasileiro o reconhecem cidadão brasileiro em sentido pleno e o oferecem ao mundo também como seu cidadão" (Paulo Freire Cidadão brasileiro, 23.11.2009).


A crise econômica mundial, especialmente nos países ricos (não sei se ainda dá para dizer ‘desenvolvidos’), está levando a um rápido aumento da xenofobia, à expulsão sumária de imigrantes, à exclusão do diferente, seja por expulsão, segregação, repressão, e, em casos mais extremos, ao simples assassinato e a todo um conjunto de medidas e iniciativas de retorno a valores ultraconservadores.

"Políticos republicanos de seus Estados, entre os quais o Arizona,querem cassar a cidadania dos filhos americanos de imigrantes que entraram ilegalmente nos Estados Unidos. Só em 2008 nasceram 340 mil. A iniciativa é inconstitucional, mas, para o Tea Party (movimento político americano ultraconservador), atrai votos. A Constituição americana, como a brasileira, dá a cidadania a quem nasce na terra. Numa nação de imigrantes, a intolerância de parte da sociedade já perseguiu negros, católicos, irlandeses, chineses, coreanos e japoneses. A bola da vez, há tempos, são os latinos. Eles formam a maioria dos 12 milhões de estrangeiros que trabalham no país sem a devida documentação. Talvez 700 mil sejam brasileiros. Cidadãos do Estado organizam-se em milícias para patrulhar a fronteira com o México. Uma delas é filonazista. É dura a vida no Arizona. Qualquer estrangeiro de aparência suspeita pode ser parado na rua. Se não tiver os papéis, será deportado" (Elio Gaspari).

A crise do capitalismo não é apenas econômica. Vai muito além disso. O que acontece nos EUA, também acontece nos países mais ricos da Europa. A crise do desemprego brutal, da diminuição da renda, do enfraquecimento da economia revela a podridão da sociedade. Baseada apenas no lucro, que enriquece desmedidamente a poucos, a organização econômica mostra que a mesma separação entre o luxo, a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, está presente também nos valores que orientam a convivência. Da mesma forma de que quem tem tudo não precisa dos outros ou só precisa para explorá-los, não precisa da natureza, a não ser para servir-se dela e dela tirar seus ganhos e aumentá-los todo dia. Agora aparece à luz do sol que quem trabalha para sobreviver sofre antes de todos as conseqüências. Se conseguia ‘conviver’ com o opulento e sua riqueza que antes não aparecia, e tudo parecia certo e dentro da lei e da ordem, agora não consegue conviver com seu vizinho que é pobre, tão ou mais pobre que ele.

Da segregação pela riqueza que vai para poucos de quem sempre apenas sobreviveu, passa-se à segregação da convivência e das idéias. Brasileiros, argentinos, costarriquenhos, mexicanos, haitianos têm outra pele, outra cultura e outros costumes. Não fazem parte do ‘american way of life - o modo americano de viver -, tão celebrado em filmes e na arte em geral. O americano é superior, invade outros países sem pedir licença, impõe suas idéias e valores ao resto do mundo. E agora, na crise e na dor, mostra que seus valores supostamente superiores se esfumaçam no vento da intolerância e do preconceito.

Paulo Freire está sendo proibido nos currículos escolares de Tucson, Arizona (Aliás, um comentário paralelo. Lá ele está nos currículos das escolas públicas, aqui mal é conhecido, senão rejeitado. Ora pelo exílio forçado, ora pela desinformação, ora pela pequenez de visão e conservadorismo dos gestores educacionais pátrios.)

O Brasil (re)declarou-o cidadão brasileiro e promoveu sua anistia política de forma pública. E agradeceu ao mundo que durante a ditadura militar o adotou como seu cidadão e pedagogo reconhecido, inclusive os Estados Unidos da América, que o acolheram por um tempo. Agora, parece que é preciso fazer um movimento para reconhecer sua cidadania planetária, antes que queimem mais uma vez seus livros e idéias em praça pública.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Deus e deuses


Quando uma pessoa me diz que não acredita em Deus ou afirma categoricamente que Deus não existe, pergunto: De que Deus você está falando? Isso é necessário, pois dependendo do Deus referido eu também não acredito


A hipótese de que por detrás de nomes diferentes, como Alá e o Deus de Jesus, todos nós adoramos e veneramos a um único e mesmo Deus, e que só o reconhecimento desse fato pode nos trazer a paz entre as religiões e civilizações, é contestada por Jung Mo Sung: “Se é verdade que por detrás de nomes diferentes que nomeiam a Deus, ou deuses, nós adoramos a um único e mesmo Deus, deve ser também verdade que por detrás de diversas imagens de Deus dos cristãos adoramos e veneramos ao mesmo e o único Deus. Entretanto, eu tenho muita dificuldade para aceitar e acreditar que por detrás do nome de Deus de Jesus Cristo invocado para legitimar os massacres contra os indígenas na América Latina ou para legitimar torturas nas ditaduras militares esteja o mesmo Deus invocado pelas vítimas ou cristãos que morreram lutando contra os massacres ou torturas. Pois, se assim fosse, não haveria o problema das falsas imagens de deuses e nem o da idolatria. Todas as imagens de Deus de Jesus invocadas – sejam para matar os inocentes (imagem sacrificial de deus), sejam para defender as vítimas (Deus que pede misericórdia, ao invés de sacrifício; Mt 9,13) – remeteriam a um único e verdadeiro Deus. E, portanto, não haveria uma diferença qualitativa entre elas. O que é logicamente um absurdo e teologicamente um erro.

Se nem os cristãos, quando usam o nome do Deus de Jesus, estão se referindo a um único e mesmo Deus, como podemos dizer que por detrás de diversos nomes divinos de diversas religiões está um único e o mesmo Deus? Com esse questionamento eu não estou defendendo a idéia de que existem realmente diversos Deuses – e que assim o politeí¬smo estaria certo e o monoteísmo errado -, muito menos a tese de que o cristianismo é a única religião que conhece, adora e anuncia o único Deus verdadeiro. O que eu quero apontar é que as “coisas” são muito mais complexas do que essa equação que, aparentemente, simplifica e facilita o diálogo religioso e a construção de paz no mundo.

Hoje, as guerras no Oriente Médio são feitas ou legitimadas, em boa medida, em nome da vontade divina. Só que por detrás de “deus de Bush” ou do “deus do Al-Qaeda” não está o único e o mesmo Deus. Os defensores da “guerra santa” – dos mundos cristão, judaico ou islâmico – o fazem em nome das imagens de deus que eles veneram. Só que a imagem de deus não é Deus! Quem mata em nome da imagem de deus confunde a imagem com o próprio Deus e comete, segundo a tradição bíblica, o pecado da idolatria. O problema é que nós não podemos conhecer a Deus como ele é, somente as imagens que fazemos dele”.

A esse entendimento de Jung Mo Sung, acrescento minha convicção de que qualquer imagem a respeito de Deus encontra em Jesus Cristo seu gabarito e padrão para validação. “Jesus Cristo é a imagem do Deus invisível”, como bem disse Paulo apóstolo. Pois Jesus “é o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1.15-19).

Nisto consiste a fé cristã: enxergar Deus através de Jesus, na verdade, enxergar Deus em Jesus, o que, necessariamente, nos coloca de joelhos diante de Jesus Cristo, em adoração ao próprio Deus.

Amor e liberdade

O amor precisa de liberdade para ocorrer. Mas por ser amor, ele mesmo dentro de extrema liberdade, se limita pelo outro, para que o outro tenha a mesma liberdade de exercer seu amor.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As Fogueiras do Reino

Elienai Jr - Blog

O melhor e mais importante de nossa história resulta dos planos que não deram certo. E esta é a descoberta que nos atordoa e redime.

Em um mundo de liberdades, o incerto e o imprevisível criam o espaço mais doloroso, e mais rico. Naquilo em que nos tornamos, somos desenhados, com uma freqüência surpreendente, pelas linhas oblíquas de nossos projetos frustrados.

Ele desfila expectativas, propósito e determinação nos caminhos que inauguram seu Reino. É possível ver em seus olhos o foco intransigente de quem acredita com força e urgência em sua utopia. E para toda utopia há uma estratégia tão rigorosa quanto crédula. O Reino virá agora, eis sua paixão. Israel, reinventado, inaugurará a política que salvará o mundo e a Torá, reinterpretada, encantará as nações da Terra. Para uma nova política, um novo rei. Para uma nova religião, uma nova pedagogia.

A fé encontrará novos sentidos, frutos de uma leitura imaginativa e de uma pedagogia que dialogará com o mundo concreto. As parábolas recontarão a história da humanidade.

O tempo é fermentado pelos que tem fome e sede de justiça. Os que choram inspiram uma nova pregação. Os pobres enfileiram os que tomarão com a força de sua necessidade o destino dos povos. Os mansos darão o ritmo dos que sobreviverão para herdar a Terra. Eis o novo Reino e sua bem-aventurança!

Só esta ingênua determinação explica o deslize deselegante com aquela desgraçada. Desesperada, mas sirofenícia. E este era seu defeito. Persegue Jesus e os discípulos aos gritos. Fresca na memória a advertência de que sua missão era com os filhos de Israel, aqueles pedidos incomodam mais do que deveriam. Mas a mulher teima como insistente é sua tragédia. Tem uma filha possuída pelas forças do mal. Seu grito é finalmente silenciado por uma truculenta, mas previsível resposta. O pão da mesa é dos filhos e não dos cachorrinhos.

Os que não carregam a oportunidade estratégica da etnia terão sua vez, mas não agora. Ele acredita que um novo mundo virá depois de uma nova etnia. Mas a réplica de uma mãe histérica é a fissura inevitável na lógica encantada pelo grande plano. Os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa. Logo se descobrirá que aquela piedosa mesa, tão fartamente servida, jamais saciará. O sentido da revolução pretendida por Jesus não será o do farto pão à mesa, mas o das involuntárias migalhas. Do chão dos esquecidos. Dos que carecem. Dos que estão à margem. Só eles poderão entender o evangelho. As migalhas no chão saciarão mais que o pão na mesa.

Aquele instante é ainda a réstia da grande luz, que iluminará pela dor da decepção um novo horizonte para seus empenhos.

Não foi preciso muito tempo para ver seus planos esbarrarem nas estruturas adoecidas da política e da religião e descobrir seu projeto como remendo novo em pano velho, vinho novo em odres velhos. Assistir àquele a quem mais se admira com a cabeça presenteada em uma bandeja de prata expôs a desproporcional força e patética dos que amam o poder. Os espaços do mando sempre guilhotinam os que não vestem suas máscaras.

Ser amado pelo pão que multiplica em detrimento da injustiça que subtrai custou o desencontro insuperável com as multidões. Convergir adeptos é sempre distorcer sentidos.

Assistir aos seus gestos de misericórdia agredirem os escrúpulos dos que frequentam o templo mostrou-lhe as vendas religiosas que cegam a fé. Sempre que um dogma precisa ser salvo, um aflito acaba esquecido.

Estes foram os dias da grande decepção. Aqueles que jamais terminaram de tão definitivos para o evangelho de Jesus. A eles deve ter se referido João quando retratou a história do Filho de Deus. Veio para os seus, mas os seus não o receberam. E a todos os que o receberam deu-lhes o direito de serem chamados filhos de Deus. Desde os dias funestos, não se viu mais Jesus nos mesmos lugares. A casa do pecador tornou-se seu espaço de comunhão. Todos foram para o templo, mas ele foi visto em um lugar estranho, nos pavilhões indesejados do Tanque Betesda. Ao escapar das multidões e seus desencontros, a casa de um maldito, o publicano Zaqueu, tornou-se a sua. Sua fama agora é de quem gosta das festas, com suas comidas, bebidas e gente despretensiosa e livre.

Na cruz morre um homem porque não quis ser o que seu mundo lhe impôs. Mas também, e na mesma cruz, morre o homem que Jesus nunca foi. Termina na cruz, porque é assim que se faz com os que destoam. Termina na cruz a imagem colada pelos seguidores em seu líder. Talvez apenas este paradoxo explique o estranho fenômeno de desconhecimento que acompanhou os dias do Cristo ressurreto entre os mais íntimos.

Maria o confundiu com um jardineiro atrevido, provável responsável pelo sumiço do corpo do Mestre amado. Os discípulos de Emaús o confundiram com um judeu mal informado sobre os acontecimentos de Jerusalém. Os discípulos o tomaram por uma ameaça ao refúgio para os perigosos dias que seguiram sua morte. Os que mais o conheceram não conseguiram reconhecê-lo. Não será porque o Cristo glorioso, aquele do grande plano, fora desconstruído rumo à morte na cruz? E este, que agora vêem, não será aquele que não conseguiram, mas deveriam, enxergar o tempo todo?

Naquele dia o mar não estava para peixes. Nada muito novo na árdua tarefa dos que pescam. Ele caminha na praia como quem espera ansioso pela volta dos que deveriam trazer os peixes. Aflito, sem poder esperar mais, vê os pescadores voltarem aos poucos com os barcos vazios. De longe ainda, pede peixe. Ninguém o reconhece. Antes que desistam totalmente da pesca, ele fala como quem sabe e aponta aonde entende que os peixes estão.

Pescadores desapercebidos lançam as redes e, finalmente, o reconhecem. Quem sabe depois de Pedro se lembrar de outra pesca prodigiosa orientada pelo Rabi? É Jesus? Mas é outro. Mas é Jesus. Pula do barco e, às braçadas, desliza saudoso em direção ao não mais tão estranho assim. Na areia, as brasas já assam alguns peixes e pães. O cheiro doce da comida dissolve apreensões. Um a um, todos chegam, sentam-se e comem. A comida espalha endorfina e relaxa o corpo outrora teso e o calor da fogueira espanta o frio doído da brisa que já sopra no fim do dia. Logo a adrenalina daqueles dias dá lugar ao prazer, as palavras antes engasgadas, ficam fluidas e os sorrisos, tão raros ultimamente, retornam fáceis.

Encantado observo, mesmo que inseguro. A cena é constrangedora, mas também é a indicação de um livramento. O Reino do Cristo está ali, aquecido por aquela fogueira, feito de uma gente despida de qualquer imponência ou virtuosismo. Pondero abismado enquanto passo os olhos no grupo. O líder, alguém que acabou de passar por uma terrível humilhação pública. A multidão desistiu dele e de seu fosco projeto de Reino. Pedro, não conseguiu ser leal na hora mais aflita do anunciado, mas desprestigiado amigo. Os Filhos de Zebedeu, João e Tiago, brigaram por espaço e pompa até há pouco. Nós, os demais, dispersamos confusos e amedrontados no momento mais tenso da trajetória. E há um terrível vácuo, uma ausência amarga, um companheiro, antes tão presente, não está mais ali. Ele preferiu desistir da vida a encarar sua fraqueza. Amigos precários, mas amigos. Reunidos pelo breve e fugidio tempo de uma brasa. Sagrando os afetos com comida e conversa. Este é o Reino. Este é o evangelho que contagiará inalcançáveis almas.

Barriga cheia. Conversas fartas de memórias. Cristo chama por Pedro. O nome destacado na roda poderia indicar um grave e adiado acerto de contas. Ainda pairam dúvidas. Ao contrário do que poderia se imaginar, Jesus não pede explicações pelos tropeços, nem suscita grandes promessas para novas e também grandes expectativas. Não oportuniza um pedido formal de perdão. Ah! Nossos ritos de perdão! Fragmentos do grande plano. Pedimos perdão como quem pode retomar a fantasia de não mais frustrar. Perdoamos e iludimos novamente nosso coração com a panacéia de amigos que não decepcionam. Mas nada disso acontece ali. A pergunta é tão singela e quente e saborosa quanto à comilança em torno da fogueira. A brasa crepita e pausa os assuntos. Pedro, você me ama? A resposta é tímida, mas fluente. Você sabe que te amo! Pergunta e resposta se repetem como em um diálogo dramático. Num só lance e roubando o fôlego. E aos três movimentos modestos e teatrais de amor, um pedido despretensioso se segue: cuida das minhas ovelhas. E todos respiram aliviados.

Desde então, sempre que homens e mulheres se reúnem para comer e beber e conversar, esquecem-se das grandes utopias e suas perversas expectativas, tornam-se mais amigos e amantes, cuidam-se como pastores de suas ovelhas e Jesus volta e seu Reino e seu Deus.

Elienai Cabral Junior

Satã roga pelos homens

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Depois de tentar Jesus de todas as formas que conhecia, Satã deu-lhe as costas e começou a se afastar, considerando que valia à pena deixá-lo sozinho no deserto ponderando tudo de que havia aberto mão.

A poucos passos de distância ele parou de repente, como se uma absurda noção lhe houvesse ocorrido. Ainda de costas, o tentador virou apenas o rosto, para que Jesus pudesse ouvi-lo.

– Só mais uma coisa – ele disse. – Um conselho de amigo.

Jesus não respondeu. Sem se deixar abater, o tentador virou inteiramente o corpo, olhando Jesus de frente.

– Quero lhe recomendar uma coisa. Encare como tentação, se quiser, mas dentre todas essa deveria lhe interessar. Minha recomendação… Não: meu pedido é – e ele falava com simpatia sincera – não destrua a religião dessa gente.

Jesus ergueu para o outro dois olhos furiosos, mas permaneceu imóvel e em silêncio.

– Sei que já fiz muita coisa errada – o tentador deu de ombros, como que se confessando – mas convenhamos, hoje em dia a maldade anda no piloto automático: quase nunca preciso intervir diretamente. E, para falar a verdade, acabei me afeiçoando a essa gente. Caramba, eles são um bando de perdidos. Não há como não ter pena deles.

Satã olhou para conferir a reação de Jesus. Nenhuma.

– O que estou querendo dizer é o seguinte – ele levou a mão ao queixo e olhou para baixo, como se quisesse escolher bem as palavras.

Ele ergueu finalmente o rosto. Era um rosto bonito.

– Quero que essa seja uma briga justa, pra mim, pra você e até pra eles – ele fez um gesto vago indicando o resto do mundo. – E se você destruir a religião desse povo isso vai me dar uma vantagem que não quero de jeito nenhum.

Ele deu um passo na direção de Jesus.

– Então, se é isso que você tem em mente, peço que pense duas vezes. Esse é um povo sofrido, meu querido. Essa gente não tem nada. A religião é a última coisa, a única coisa a que essa gente pode de fato se apegar. Todo o resto eu tiro deles ou eles tiram uns dos outros. Eles se vendem, se compram, se destróem, mas a religião fica. Dá ordem à vida deles. Rédeas. E não se iluda – o Diabo ergueu um dedo enfático. – Não pense que eles vão se lembrar de Deus se você abolir a religião deles. Nenhuma chance. Eu minto muito bem mas não estou mentindo agora.

Ele deu mais um passo adiante, mais confiante agora.

– Eu sei como você é. Deve estar se preparando agora mesmo para sair denunciando as barbaridades dos que falam em nome Dele. Está certo, eu e você sabemos que não são poucas. Você deve estar sonhando que vai libertar os cativos, que vai dar genuíno cumprimento completo à Lei. Mas se é esse o seu plano, saiba que é o contrário é que vai acontecer. Nada escraviza mais do que a liberdade. Nada é mais incerto, e as pessoas precisam de segurança, a segurança que só a religião, especialmente a sua, pode dar. O mundo vai cair em confusão se você tirar o chão de debaixo deles. Não confunda essa gente. Faça essa cortesia: não por mim, mas por eles. Faça o que quiser, mas não tire a religião dos homens.

Satã deu um longo suspiro antes de concluir, com a seriedade da absoluta convicção:

– Ninguém quer a liberdade que você quer dar. Isso ninguém pode mudar. Nem você.

Jesus, que havia dispensado as tentações anteriores com um único verso da Escritura, sabia que esta exigiria muito mais. O pacote completo.

– No princípio… – ele começou.

E o Diabo o deixou, porque não era mais necessário.

Denúncia

O brilho da dignidade, da integridade e da denúncia de Dom Manuel da Cruz, ontem, diante do Senado Federal
Dica: Lucas Lujan

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

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