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sábado, 21 de agosto de 2010

Ela vai morrer



Jung Mo Sung *

Adital -
Diante da reação internacional contra a pena de morte por apedrejamento imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana de 43 anos, viúva e mãe de dois filhos, por supostamente cometer adultério com dois homens, o governo iraniano modificou a acusação de assassinado do seu marido. Isto é, ela é culpada; precisa ser morta; não importam as provas ou tipo de acusação.

Para o mundo moderno e principalmente para as sociedades ocidentais, é incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por apedrejamento por causa de adultério. Mas, de acordo com a legislação iraniana, é a lei. E, em última instância, seria a vontade de Deus, pois em uma teocracia, como o regime iraniano, não há separação entre a lei civil e a lei religiosa. E de acordo com a sharia, ou de acordo com a interpretação dada pelos líderes religiosos do Irã, o adultério é um dos crimes que devem ser punidos com apedrejamento até a morte.

Mesmo que as pressões internacionais consigam suspender ou modificar a punição, ou até mesmo provar que ela é inocente das acusações, essa lei continuará existindo. E diante disso, surge uma pergunta para nós: devemos interferir na religião do "outro" ou na legislação de um país soberano em nome de direitos humanos? Se interferirmos, promovendo ou participando de movimentos de pressão, não estaríamos ocorrendo na soberbia de acharmos que sabemos melhor o que é a verdade e os valores religiosos islâmicos? Se optarmos por uma atitude "humilde" e não interferirmos, não estaríamos caindo em uma atitude de indiferença e até mesmo de cinismo frente aos sofrimentos das pessoas que sofrem sob peso de leis desse tipo?

É em casos assim, bem concretos e polêmicos, que os valores abstratos como respeito à religião ou a cultura dos "outros" são provados ou questionados a fundo. (Aqui não vou discutir o tema da interferência nas questões internas e de legislação de um país soberano.)

Há pessoas que dizem que essa lei não tem fundamento nos ensinamentos de Mohamed, nem no Corão e, que por isso, o mal não é do islamismo. No fundo, é uma tentativa de salvar a tese de que todas as religiões, em sua essência e origem são boas. Contudo, os líderes religiosos responsáveis pela "interpretação correta" do islamismo e do Corão em Irã dizem que essa lei está de acordo com Corão e a vontade de Alá.

Outros aproveitam situações assim para defender a tese de que todas as religiões são perversas em si ou são coisas do passado e que devem ser superadas pelos valores humanistas modernos. Esquecem, porém, que há muitas pessoas islâmicas que, em nome da sua fé, lutam contra esse tipo de interpretação do Corão ou da tradição islâmica.

Na história do cristianismo ocidental, tivemos também casos parecidos, como da inquisição ou da caça às bruxas, que foram realizadas em nome do cristianismo, com apoio das suas autoridades religiosas e da parcela significativa do povo cristão.

Se olharmos para a história, veremos que casos de apedrejamento ou punições similares das mulheres adúlteras não são raros. São punições exemplares e violentas para evitar este grande perigo à vida da comunidade. Afinal, desejar a mulher do próximo é a "coisa" mais antiga da humanidade e uma das forças geradoras conflito e da violência entre os homens da mesma comunidade. (Uma questão que devemos refletir é por que sempre são as mulheres que são as culpadas e condenadas? A resposta fácil de que é por causa do machismo não responde a questão porque não explica a razão desse tipo de machismo.)

No evangelho de João, temos um caso de apedrejamento de mulher adúltera (Jo 8, 3-11). Não há espaço para uma reflexão mais longa aqui, mas eu penso que a solução dada por Jesus pode nos ajudar muito ainda hoje. Ele não nega o erro do adultério, mas também não aprova o apedrejamento. O que me chama atenção é que ele não discute se a interpretação dada pelos escribas e os fariseus de que a lei de Moisés manda apedrejar a mulher adúltera está correta ou não. Ele não resolve a questão no âmbito da discussão teórica ou teológica sobre correta interpretação da lei divina ou religiosa. Ele desloca a discussão para outro nível.

Jesus pergunta: "quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!". A solução verdadeira não está no âmbito da discussão teórica ou da ortodoxia (cristã ou islâmica), mas no reconhecimento de que não há inocentes entre nós. Não há mulher adúltera, sem homens adúlteros; não há adultério sem o desejo da mulher ou do homem do próximo; e não há seres humanos que não desejam o que é do outro ou da outra. Seja cristão ou islâmico, moderno ou tradicional, clero ou leigo, ocidental ou oriental, homem ou mulher, progressista ou conservador, de esquerda ou de direita...

Grupos e instituições que não reconhecem isso estão sempre à procura de bodes expiatórios. Um grande desafio é pensarmos a ação política e propostas sociais a partir desse reconhecimento de que nós todos participamos da ambigüidade humana, dos bons e maus desejos.

[Autor de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres", Paulus].

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Amor, liberdade e responsabilidade

Crer que Deus é amor implica aceitar a liberdade: somos livres. Não há amor sem liberdade, pois não é possível um amor imposto. É impossível obrigar alguém a amar. Apenas na liberdade é possível acontecer o amor.

Deus não poderia amar e, ao mesmo tempo, controlar, pois estaria reprimindo as escolhas. Deus não poderia ser amor e, ao mesmo tempo, determinar a história, pois estaria nos roubando a liberdade, e, portanto, faltando com amor.

Para amar, Deus precisa deixar livre. Por ser amor, Deus respeita nossas decisões, não decide por nós.

Assim sendo, não há história pronta: nem a minha, nem a sua. Nossos destinos não estão escritos. Existimos no espaço das possibilidades.

Precisamos, então, tomar consciência da nossa capacidade criativa: somos autores da História. Devemos assumir a ética da responsabilidade para escrever nosso futuro, pessoal e coletivo, pois estamos todos, de alguma forma, ligados. Ninguém vive isolado.

Somos os protagonistas. Temos liberdade para criarmos a história que quisermos. É uma faca de dois gumes: há a possibilidade de criarmos um inferno, mas há também a possibilidade de criarmos um céu. Deus apostou na segunda.

Não há vida que não possa mudar de rumo. Toda história pode mudar de direção. Podemos intervir em todas as situações, transformá-las, reescrevê-las.

Deus nos deu toda a orientação, nascendo entre nós. Agora, nos cabe assumir o chamado: encarregar-nos da liberdade com responsabilidade, onde o limite é o amor.

Lucas Lujan

Brasil: o celeiro (e a lata de lixo) do planeta

Blog do Sakamoto

“Uma cerimônia em Pequim celebrou os dez anos da parceria estratégica ‘Lixo por Comida’ no qual os países da região do Saara recebem o lixo produzido na China em troca da oportunidade oferecida aos cidadãos da região de vasculhar restos de alimentos nos contâiners e usarem a sucata para os mais diversos utensílios.

O Saara e a Antártida são os dois últimos grandes depósitos terrestres vagos de lixo no planeta. O custo mais baixo de despejar resíduos no deserto africano manteve uma vantagem produtiva para as empresas sediadas na China após o espaço do deserto de Gobi ter se esgotado. Na semana passada, a cidade de São Paulo fechou o mesmo acordo com a prefeitura de Gilbués, no Piauí.”

A notícia é falsa – por enquanto. Tempos atrás, fiz um post com um exercício de futurologia pensando em matérias sobre impactos ambientais possíveis de serem publicadas daqui a uns 70 anos. Alguns me chamaram de idiota pela previsão. Concordo plenamente. Chutar 70 anos foi muito.

Leiam o trecho de uma notícia publicada pelo Uol Notícias:

“O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) divulgou nesta terça-feira (17/08) a apreensão de 22 toneladas de lixo doméstico interceptados no Porto de Rio Grande (RS). O material estava em um contêiner vindo da Alemanha e com descrição de resíduo plástico industrial. Em uma fiscalização de rotina, fiscais da Receita Federal encontraram pacotes de fraldas, embalagens de alimentos e restos de ração para animais. A carga, que saiu do porto de Hamburgo, foi apreendida no último dia 3 de agosto.”

Ou, ainda, o trecho de outra, publicada na Folha de S. Paulo há pouco mais de um ano:

“A Receita Federal e o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul investigam o desembarque de 64 contêineres carregados com cerca de 1.200 toneladas de lixo tóxico, domiciliar e eletrônico nos portos de Rio Grande (RS) e Santos (SP). Na documentação entregue nas alfândegas, consta que a carga seria de polímero de etileno e de resíduos plásticos, que deveriam ser usados na indústria de reciclagem. No entanto, além de sacolas plásticas, havia papel, pilhas, seringas, banheiros químicos, cartelas vazias de remédios, camisinhas, fraldas, tecido e couro, dentre outros. Moscas e aranhas também foram encontradas nos contêineres. O que chamou a atenção é que em um dos contêineres havia um tonel com brinquedos onde estava escrito: ‘Por favor: entregue esses brinquedos para as crianças pobres do Brasil. Lavar antes de usar’.”

Já é prática recorrente países ricos se livrarem do seu lixo, seja ele doméstico, tóxico ou eletrônico, mandando-o para a periferia do planeta (onde as reclamações são ignoradas ou abafadas com dinheiro ou violência). Periferia que produz alimentos e matérias-primas e fica com o que é descartado. A Convenção de Basiléia regula o trânsito de lixo entre países para impedir aberrações. Mas, convenhamos, só é crime se você é descoberto.

Fica a dúvida: quanto tempo vai demorar até a notícia falsa se tornar o jornal velho que, ao invés de ir para o lixo, embrulha o peixe na feira? E, o pior: feira de onde? Provavelmente de algum lugar na África, Sudeste da Ásia ou América Latina.

(Em Gana, por exemplo – vídeo em inglês)



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Haiti: teste para a Humanidade

"A solidariedade é a ternura dos povos."
Che Guevara

O desastre que se abateu sobre o Haiti, arrasando Porto Príncipe e matando milhares de pessoas e privando o povo das estruturas mínimas para a sobrevivência, representa um teste para a humanidade. Segundo os prognósticos dos que acompanham sistematicamente o estado da Terra, não demorará muito e seremos confrontados com vários Haitis, com milhões e milhões de refugiados climáticos, provocados por eventos extremos que poderão ocasionar uma verdadeira devastação ecológica e dizimar incontáveis vidas humanas. O Haiti pode ser um sinal do anjo exterminador que passa, sinistro, ceifando vidas.

É neste contexto que duas virtudes, ligadas à essência do humano deverão ganhar especial relevância: a
hospitalidade e a solidariedade.

A
hospitalidade, já o viu o filósofo Kant, é um direito e um dever de todos, pois todos somos habitantes, melhor, filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade. Estarão as nações dispostas a atender a este direito básico àquelas multidões que já não poderão viver em suas regiões superaquecidas, sem água e sem colheitas? O instinto de sobrevivência não respeita os limites dos estados-nações. Os bárbaros de outrora derrubaram impérios e os novos "bárbaros"de hoje não farão outra coisa, caso não sejam exterminados pelos ecofacistas que usurparam a Terra para si. Paro por aqui porque os cenários prováveis e não impossíveis são dantescos.

A segunda virtude é a
solidariedade. Ela é inerente à essência social do ser humano. Já os clássicos do estudo da solidariedade como Renouvier, Durkheim, Bourgeois e Sorel enfatizaram o fato de que uma sociedade não existe sem a solidariedade de uns para com os outros. Ela supõe uma consciência coletiva e o sentimento de pertença entre todos. Todos aceitam naturalmente viver juntos para juntos realizarem a política que é a busca comum do bem comum.

Devemos submeter à crítica o conceito da modernidade que parte da absoluta autonomia do sujeito na solidão de sua liberdade. Diz-se: cada um deve fazer o seu sem precisar dos outros. Para os seres humanos assim solitários poderem viver juntos precisam, de fato, de um contrato social, excogitado por Rousseau, Locke e Kant. Mas esse individualismo é ilusório e falso. Há que se reconhecer o fato real e irrenunciável de que o ser humano é sempre um ser de relação, um-ser-com-os-outros, sempre enredado numa trama de conexões de toda ordem. Nunca está só. O contrato social não funda a sociedade mas apenas a ordena juridicamente.


Ademais, a solidariedade possui um transfundo cosmológico. Todos os seres, desde os topquarks e especialmente os organismos vivos são seres de relação e ninguém vive fora da rede de inter-retro-conexões. Por isso, todos os seres são reciprocamente solidários. Um ajuda o outro a sobreviver - é o sentido da biodiversidade - e não necessariamente são vítimas da seleção natural. Ao nivel humano, ao invés da seleção natural, por causa da solidariedade, interpomos o cuidado, especialmente para com mais vulneráveis. Assim não sucumbem aos interesses excludentes de grupos ou de um tipo de cultura feroz que coloca a ambição acima da vida e da dignidade.


Chegamos a um ponto da história no qual todos nos descobrimos entrelaçados na única geosociedade. Sem a solidariedade de todos com todos e também com a Mãe Terra não haverá futuro para ninguém. As desgraças de um povo são nossas desgraças, suas lágrimas são nossas lágrimas, seus avanços são nossos avanços. Seus sonhos são nossos sonhos.


Bem dizia Che Gevara: "A solidariedade é a ternura dos povos". Essa ternura temos que exercer para com nossos irmãos e irmãs do Haiti que estão agonizando.

Leonardo Boff é autor de
Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes (2005).

domingo, 15 de agosto de 2010

Uma igreja sob o signo da libertação: Que libertação?

"... não se trata de uma postura de cima para baixo, dando origem ao espírito assistencialista e paternalista, espírito que, a despeito de sua misericórdia, não respeita o pobre porque não lhe reconhece o dinamismo participador, a justiça de suas reivindicações e o direito de suas lutas; mas se trata de uma perspectiva de baixo para cima, valorizando o que é próprio do povo, especialmente seu potencial transformador."

"... faz se mister dizer que a libertação social nunca é meramente social. Ela se constitui em fenômeno humano, carregado de significação, de dignidade e de grandeza humanística. Sempre é grande comprometer-se na luta pela produção de mais humanidade, fraternidade e participação no sentido de que o maior número possível de pessoas sejam sujeitos de seu próprio destino e participem na criação de um destino coletivo. Em terceiro lugar, á luz da fé, este processo histórico-social que se ordena à salvação (ou à perdição), é antecipador e concretizador de dimensões daquilo que na utopia de Jesus Cristo se chamava Reino de Deus. Ele possui, portanto, uma significação transcendente: repercute na eternidade. Neste processo se realiza ou se frutra o desígnio último de Deus, embora o desígnio último tenha também outras dimensões além desta histórico-social. Por isso é que se fala de libertação integral. A fé pode discernir esta dimensão de profundidade; mas não só: ela se constitui em fator de mobilização em favor do compromisso com os oprimidos e por sua libertação. E, por fim, a fé celebra a presença vitoriosa da libertação operada pelos homens na força de Deus, que tudo penetra, e proclama também a plena libertação que já nos foi galardoada, na vida, morte e ressurreição de alguém também oprimido, Jesus Cristo, como sinal de que nossa luta e esperança por uma total libertação não permanece no mero âmbito da utopia. Ela se transforma em ridente [agradável] e completa topia".

Leonardo Boff (1988)
O Caminhar da Igreja com os oprimidos


O evangelho trasforma homens. Homens transformados, transformam o mundo. O mundo transformado, transforma crianças em carvalhos de justiça.



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