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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O egoísta esclarecido e a prosperidade universal

Paulo Brabo - Bacia das Almas

Bendito seja Dostoiévski, que colocou na boca do personagem mais detestável de Crime e Castigo um discurso que faz hoje a cabeça de ainda mais gente do que no tempo dele:

«Não, não se trata de lugar comum, meu senhor! Se até agora, por exemplo, diziam-me para ‘amar o meu próximo’ e eu o amasse, qual seria o resultado? O que acontecia é que eu rasgava a minha túnica em dois, compartilhava-a com o meu próximo e ficávamos os dois meio nus, em concordância com o provérbio russo que diz que quem corre atrás de muitas lebres fica sem nenhuma.»

«Porém a ciência diz: ‘ama-te a ti mesmo acima de tudo, porque tudo no mundo está fundamentado no interesse próprio’. Se você ama a si mesmo conduzirá os seus assuntos sensatamente, e a sua túnica permanecerá uma única peça. A verdade econômica acrescenta que quanto mais sensatamente conduzidos são os negócios pessoais e, por assim dizer, mais túnicas inteiriças há na sociedade, mais firmes são as suas fundações e melhor arranjada a sua causa comum.»

«Conclue-se que ao beneficiar economicamente única e exclusivamente a mim mesmo, estou dessa forma precisamente beneficiando economicamente a cada um, por assim dizer, e trabalhando para que o meu próximo tenha mais do que uma túnica rasgada, não mais como resultado de generosidades particulares e isoladas, mas como resultado da prosperidade universal.»

Por trás das tragédias



Ed René Kivitz

Fiz visitas pastorais a duas mulheres que vestem luto. Lá pelas tantas uma delas disse entre lágrimas: “Deus deve ter as razões dele para levar meu filho, mas está difícil de entender”. Após um silêncio cauteloso e respeitoso, perguntei se ela considerava a possibilidade de Deus não ter tido razão alguma na morte de seu filho. Ela aquiesceu e enxugou os olhos, como quem diz, “é, você tem razão, Deus não tem nada com isso”.


Assim acredito. Afirmar que Deus tem lá suas razões por trás das tragédias equivale a atribuir a Deus a causa de tais tragédias. Algo como Deus decidir dia e hora de virar nosso mundo de pernas para o ar, movido pela firme convicção de que tem algo a nos dar ou ensinar ou um lugar onde deseja chegar às custas de nosso sofrimento.

A pergunta que me faço é, afinal de contas, o que Deus quer fazer em mim, comigo, por mim, através de mim ou contra mim que pode ser mais importante do que a vida do meu filho? Não encontro qualquer resposta suficientemente razoável para acreditar que Deus precise sacrificar vidas por minha causa.

Aliás, Deus já sacrificou a única vida que precisava de fato ser sacrificada por minha causa. O Calvário foi testemunha.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mais uma catástrofe



Ricardo Gondim

Por qualquer critério de justiça, os haitianos deveriam constar entre os últimos a receberem os ataques da fúria divina. Não é necessário repassar os índices da miséria que os assola; miséria crônica, injusta, maligna. No Haiti, a mortalidade infantil é campeã e a anarquia política contribui para que a pouca riqueza seja pessimamente distribuída. Tenho amigos que trabalham na Visão Mundial e já sabia dessas estatísticas. Como poderia vir sobre este povo tão sofrido um terremoto de proporções épicas? Qual o sentido de matar indiscriminadamente feiticeiros anônimos, a preciosa Zilda Arns, bebês, empregados da ONU que lutavam pela paz, turistas e soldados brasileiros?

Quando recebi a notícia do cataclismo, fiquei sem ação. O Haiti fica longe. Impotente, procurei expressar meu pesar. Chorei diversas vezes diante da televisão. Era véspera do meu aniversário. Atropelado por cenas horrorosas, tentei, mais de uma vez, coordenar minhas convicções, ligar os pontos de minha espiritualidade, descer do pedestal de minha verdade. Naquele momento frágil, vi que era necessário, pelo menos, esvaziar afirmações simplistas que formaram o chão de minha fé por muitas décadas. Diante de cenas grotescas, continuar com as mesmas declarações não só me distanciaria do sofrimento humano, como deformaria ainda mais a minha relação com Deus.

Mas parece que cada texto que escrevo, no dia seguinte a uma tragédia, provoco inquietação em fundamentalistas, liberais, ortodoxos, pensadores narrativos (sem pretensão de minha parte). Dos ortodoxos vêm os golpes mais mordazes: “Incoerente, irresponsável com o texto bíblico, propagador de um Deus pequeno e desnecessário”. Os demais criticam por que “busco respostas onde não existe”. Muitos estão contentes com o mistério. E repetem que não se deve querer especular. “A hora é de estender a mão ao que sofre”. Embora goste mais da crítica do liberal, confesso que despejei no papel minha inquietação só porque precisava quebrar possíveis paredes que me afastavam dos que sofriam. Mas, de novo, dei-me muito mal.

Sei que não adianta explicar nada. As trincheiras estão formadas. Entendo que não converterei ninguém – e nem estou interessado nisso. Entretanto, como a internet é veículo de comunicação rápido, também é suscetível a deturpações. Devo tentar debulhar melhor alguns pensamentos – talvez acirre ainda mais os ódios e as incompreensões, mas acho que vale a pena.

Procurarei esboçar ponto por ponto.

1. Os mistérios insondáveis. Sempre que em uma sinuca de bico com as convicções, parece fãcil escapar com afirmações: “isso é mistério e não convém perder tempo especulando sobre o que a gente não sabe”. Embora eu concorde em parte com esse tipo de raciocínio, acredito que muitas vezes essa postura reflete preguiça ou indisposição de demolir antigos conceitos. Não acredito que seja pecado perguntar (Em Isaías, Deus manda que o povo o questione). Alguém me provocou no twitter se eu queria “repensar tudo”. Outra pessoa respondeu por mim, e eu concordei: “E por que não?”. Sinceramente, não acredito que a fé se perde diante de perguntas difíceis. Pelo contrário, se alguma convicção não se sustentar diante do inquiridor mais feroz, talvez não mereça continuar. Perguntas podem levar a novas perguntas e a outra e outras. Mesmo que fiquemos sem resposta, o aprofundamento das questões e a busca por mais respostas é por si só, fascinante.

2. Dissimular o argumento com frases piedosas. Geralmente o debate se esvazia antes que se consiga pensar nos conteúdos porque vem precedido de frases piedosas. “Então, você está querendo acabar com a soberania de Deus?”. Essa afirmação já coloca o debate sob suspeita. Ora, se no pensamento do movimento evangélico Deus planejou, governa, gerencia, administra, todas as coisas então só um herege doido pode duvidar. Não adianta querer argumentar, a pessoa deixará de ouvir o que será dito dali em diante. Os religiosos são assim, qualquer um: espírita, muçulmano, católico, protestante. As verdades são aceitas sem racionalidade e qualquer tentativa de chamar ao bom-senso esbarra na questão da fé. “Eu creio assim e não admito que você tente me dissuadir do contrário”. Ponto final. Acontece que o Evangelho afirma que a verdade liberta. Se a verdade não pode ser confinada aos parâmetros anteriormente riscados, é preciso coragem para confrontar, duvidar. Colocar em xeque todos os alicerces das convicções é salutar. Por que não testá-las diante de tragédias? Degustá-las no silêncio? Ferí-las com os estiletes que até os ateus usam?

3. Deus tem tudo sob seu controle? Sim e não! A ambigüidade não é minha, mas do texto bíblico. A Bíblia, ao contário do que preconizam os fundamentalistas, não é homogênea. Existem sim textos, principalmente no Antigo Testamento, em que Deus é apresentado em total controle de cada mínimo detalhe de vidas e de acontecimentos históricos. Contudo, outras passagens mostram claramente que sua vontade não é sempre cumprida.

Está escrito em Lucas 7.30 que os indivíduos possuem liberdade de dar as costas ao conselho ou propósito (grego, boulê) de Deus: “Mas os fariseus e os peritos da lei rejeitaram o propósito (boulê) de Deus para eles, não sendo batizados por João”.

Também está escrito em Lucas 13.34 que a vontade (grego, thelô) de Deus pode ser frustrada. O lamento de Jesus sobre Jerusalém é emblemático: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!”.

Se a sua vontade pode ser frustrada por um fariseu, também pode por um estuprador. Portanto, o estupro seguido de morte da mocinha pobre não era da vontade de Deus! A favela não é da vontade de Deus. A criança que morre de diarréia no alto da Amazônia não é da vontade de Deus. O dinheiro da corrupção depositado na Suíça não é da vontade de Deus. E se nada disso é da sua vontade, o malvado não cumpre qualque propósito, mas expressa rebelião contra o Senhor. Deus não está no controle da chacina, do genocídio, do campo de concentração, porque se estivesse viveríamos no céu, no Paraíso, menos na terra.

Pensar em soberania como um preceito teológico desconectado da vida, mas em sintonia com textos pinçados criteriosamente para fazer valer a doutrina, parece ortodoxo, mas transforma Deus em parceiro de facínoras. Os calnivistas dormem bem com esse tipo de lógica. Eu não.

Esses pontos são suficientes para que os inimigos que ganhei com o Tsunami da Ásia se enfurecessem com o Terremoto do Haiti. Não, não ofereço todas as respostas para a morte estúpida e desnecessária de mais de cem mil almas. Contudo, assim como o pensamento do judaísmo mudou com Auschwitz, espero que a minha ortodoxia cristã seja outra depois de Porto Príncipe. Continuo disposto a provocar novas inquietações e a suscitar novas perguntas. Se não conseguir esclarecer coisa alguma, pelo menos vou me despedindo das respostas simplistas de outrora. Para mim, isso será suficiente.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A parábola da bola


Ed René Kivitz

Os dez homens importantes sentados ao redor da bola discutiam acaloradamente:

– A bola é grená, disse um.
– Claro que não, a bola é bordô, retrucou outro em tom raivoso.

Todos estavam fascinados pela beleza da bola e tentavam discernir a cor da bola. Cada um apresentava seu argumento tentando convencer os demais, acreditando que sabia qual era a cor da bola. A bola, no centro da sala, calada sob um raio de sol que entrava pela janela, enchia a sala de uma luminosidade agradável que deixava o ambiente ainda mais aconchegante, exceto para aqueles dez homens importantes, que se ocupavam em defender seus pontos de vista.

– Você é cego?, ecoou pela sala gerando um silêncio que parecia ter sido combinado entre os outros nove homens importantes. Era até engraçado de observar a discussão – na verdade era trágico, mas parecia cômico. Todos os dez homens importantes usavam óculos escuros, cada um com uma lente diferente. Talvez por causa dos óculos pesados que usavam, um deles gritou “você é cego?”, pois pareciam mesmo cegos.

Depois do susto, a discussão recomeçou. O sujeito que acreditava que a bola era cor de vinho debatia com o que enxergava a bola alaranjada, mas um não ouvia o que o outro dizia, pois cada um usava o tempo em que o outro estava falando para pensar em novos argumentos para justificar sua verdade. Aos poucos, a discussão deixou de ser a respeito da cor da bola, e passou a ser uma troca de opiniões e afirmações contundentes a respeito das supostas cores da bola. A partir de um determinado momento que ninguém saberia dizer ao certo quando, os dez homens tiraram os olhos da bola e passaram a refutar uns ao outros. Em vez de sugestões do tipo: – A bola é vermelha, todos se precipitavam em listar razões porque a bola não era grená, nem cor de vinho, nem mesmo alaranjada.

De repente, alguém gritou: – Ei pessoal, onde está a bola? Todos pararam de falar – estavam todos falando ao mesmo tempo, e foi então que perceberam um alarido parecido com aquelas gargalhadas gostosas que as crianças dão quando sentem cócegas. Correram para a janela e viram uma criançada brincando com a bola, que parecia feliz sendo jogada de mão em mão. Ficaram enfurecidos com tamanho desrespeito com a bola. Ficaram também muito contrariados com a bola, que parecia tão feliz, mas não tiveram coragem de admitir, afinal, a bola, era a bola.

Lá fora, sem dar a mínima para os dez homens importantes, estavam as crianças brincando e se divertindo a valer com a bola que os dez homens importantes pensavam que era deles. E nenhuma das crianças sabia qual era a cor da bola.

The God Delusion

Por Donald Miller

Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe - e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.

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Donald Miller é autor de Fé em Deus e pé na tábua, e Como os pinguins me ajudaram a entender Deus, ambos publicados pela Thomas Nelson Brasil.

Poder e sucesso, justiça e santidade


Por Jung Mo Sung

A nossa esperança e o nosso testemunho não podem ser fundados na fé em Deus-poder ou na divinização de alguma pessoa, grupo social ou instituição. A fé cristã nos apresenta um caminho inverso: ao invés da divinização de um ser humano muito poderoso ou de alguma instituição social (como o mercado) ou religiosa – proposta sedutora de muitas religiões e ideologias sociais –, o Evangelho de Jesus nos propõe um Deus que se esvazia do seu poder divino para entrar na história como escravo, e como escravo se assemelhar ao humano (Filipenses 2.6,7).

Deus se revela no esvaziamento do poder para mostrar que o poder e o sucesso não são sinônimos da justiça e da santidade. Pessoas ou igrejas que se consideram justas e santas porque são ricas e/ou poderosas ou porque têm muito ibope não conhecem a verdade sobre Deus e sobre o ser humano. Não é a riqueza que lhes dá dignidade e justifica a sua existência; a nossa existência está justificada e nós somos dignos antes da riqueza, poder ou sucesso, pois nós somos justificados pela graça de Deus que se esvaziou do poder porque ama gratuitamente a toda a humanidade e a toda a criação.

Essa fé e esperança podem ser experienciadas quando perseveramos na nossa opção pelos pobres e por uma Igreja mais servidora do Povo de Deus, mesmo quando a contabilidade de nossa luta e a frustração pessoal nos diz que não há mais por que esperar. No momento em perseveramos somente porque amamos é que podemos testemunhar esta esperança que é a esperança cristã, que nasce da morte na cruz de um Deus encarnado.

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Jung Mo Sung é professor no Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo e concentra suas pesquisas na relação entre teologia/religião – economia – educação.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Haiti e o sofrimento sem sentido


Jung Mo Sung *
Adital -

As imagens de destruição da capital de Haiti e dos corpos estendidos nas calçadas, cobertos com o que é possível, como uma forma de última homenagem ou de fazer sair da vista a miséria e a dor das mortes sem sentido, de vidas já muito sofridas ceifadas por um inesperado terremoto, tocam os lugares mais profundos do nosso ser.

Muito já se falou e ainda vai se falar sobre os aspectos geológicos, econômicos, sociais e políticos dessa grande tragédia que abateu sobre o país mais pobre das Américas. É claro que se a população não fosse tão pobre, se as infra-estruturas funcionassem e se tantas outras coisas fossem diferentes, o número dos mortos e feridos seria menor. Muitos vão exaltar a solidariedade que situações desse tipo fazem brotar, outros vão aproveitar o desastre para falar mal da globalização, do imperialismo ou da soberba humana que não respeita a natureza. Falar e falar muito, até como uma forma de catarse do mal estar que se estabelece em nós.

Desastres naturais de grandes proporções sempre nos incomodam profundamente porque questionam a nossa forma rotineira e ordenada de ver e viver a vida e porque nos colocam diante de perguntas difíceis que surgem com o mal e o sofrimento inesperados que atingem indistintamente "os bons e os maus". Essa indistinção corrói a nossa forma de ver o mundo, que é sempre uma forma de ordenar a partir das diferenças, e nos introduz em um mundo de desordem e caos. Em momentos assim, a tentação imediata é buscar um "culpado" para tentar explicar a situação e nos tirar do mal-estar.

Alguns responsabilizam a "misteriosa vontade de Deus", pois preferem crer que tudo o que acontece nas nossas vidas ocorrem segundo a vontade onipotente de Deus. Se o mal e o sofrimento vieram das mãos de Deus, devem ter alguma função salvífica. Mesmo que esse Deus pareça meio cruel, essa visão religiosa tem o papel de tentar restabelecer uma ordem estável e segura para o seu mundo e vida, ameaçados pela desordem e caos. Assim, o sofrimento sem sentido poderia encontrar algum sentido.

Outros preferem culpar a sociedade moderna e o capitalismo selvagem que explora os pobres e destrói a natureza. Mesmo que a origem do desastre tenha sido uma falha geológica na crosta terrestre, a culpabilização da sociedade moderna e do capitalismo globalizado tem seus atrativos porque exerce a mesma função de oferecer um "culpado" no qual podemos canalizar as nossas frustrações e raiva. Além disso, é fundamental para manter a idéia ou o projeto do mundo moderno de que é possível criar uma "nova sociedade" isenta desses desastres e crises, assim como de todos os tipos de males. Isto é, o sonho da criação de um mundo totalmente ordenado, sem sofrimentos imprevisíveis. E a realização plena desse sonho só será possível se todos os males e sofrimentos tiverem origem e causa nas ações humanas e na própria sociedade, e se formos capazes de criar um ser humano e uma sociedade sem esses problemas.

No fundo, essa postura é uma forma de manter a ilusão de que nós somos, podemos ou devemos ser messias de nós mesmos e salvar a humanidade da sua condição de precariedade, contradições, com seus potenciais e limites.

Contudo, o terremoto que atingiu Haiti, assim como o tsuname que atingiu a Indonésia e arredores, teve origem em fenômeno geológico que independe da vontade ou da ação humana ou da sociedade. É claro que há aspectos humanos e sociais que agravam ou minoram os sofrimentos humanos, mas pouco podemos fazer para evitar que ocorram, por ex., terremotos.

É claro que não quero, com essas reflexões, propor uma postura de passividade ou resignação frente à morte e sofrimento que assolam o povo de Haiti e ao grande desafio de reconstruir aquele país e de ajudar o seu povo a superar a situação de miséria e pobreza que deve agravar ainda mais nos próximos meses.

O que eu quero é simplesmente propor que antes de nos deixarmos levar pela tentação de "falar e falar" e de procurar "respostas fáceis", mergulhemos no silêncio, nas regiões mais profundas do nosso ser para meditarmos sobre a fragilidade e imprevisibilidade que marcam as nossas vidas. Como diz o Evangelho, precisamos ficar atentos e "vigiar". Não porque devamos viver com medo, mas porque, reconciliando com a nossa condição humana, reconhecemos que não há religião, razão, tecnologia ou política que possam impor uma "ordem de harmonia perfeita" sobre a vida e a natureza; não há como prever e controlar todos os aspectos da vida (seja na relação dos seres humanos com a natureza, seja com outros seres humanos e com sociedades).

O que podemos e somos chamados é viver vigilantes a vida no espírito de amor e solidariedade, sentindo em nós a dor e o sofrimento do nosso próximo (mesmo que geograficamente longe), fazendo o melhor possível para construirmos relações humanas e sociais que possibilitem uma vida digna e alegre para as pessoas. Mesmo que não encontremos sentido (se é que há) para tanto sofrimento inocente.

(Professor de Pós-Grad em Ciências da Religião e autor, entre outros, de "Cristianismo de Libertação").

O homenzinho e deus


Paulo Brabo

A cidade foi atacada por um deus enorme e descalço
que ninguém podia vencer.
Tombaram exércitos e quebraram-se espadas,
morreram centenas,
e nada o fazia parar.

Foi quando um homenzinho inofensivo baixou sua lança e disse à multidão
que venceria o deus sem matá-lo; iria derrubá-lo sem ferir.
O deus riu um riso despreocupado de deus e com um golpe tremendo do braço fez o homem voar;
esmagou o homem com os pés e triturou-o entre as coxas,
despedaçou-o com os dentes e banhou-o em sangue e urina;
cuspiu, xingou e provocou.

Quando o homenzinho mal se podia pôr em pé
o gigante deu-lhe para segurar sua própria espada divina
e ofereceu de peito aberto seu divino coração,
mas o homem abaixou a espada e aquietou.

“Covarde”, disse o deus, e atravessou o homem despedaçado
com a lança que o próprio homem tinha deixado para trás.
Ferido de morte, o homenzinho entoou baixinho uma canção blasfema,
“venha o que vier, amar-te-ei pela eternidade”.
O deus inclinou-se para ouvir e o homem sussurrou-lhe ao ouvido, “sou seu filho”, e morreu.

O Pronunciamento


Paulo Brabo

Os quatro eram teólogos e estavam mortos, mas suas indignações não descansavam.

– Numa crise dessa magnitude – disse o primeiro – seria impreterível que Deus não se esquivasse, como tem feito com demasiada frequência, de um pronunciamento oficial. O ideal seria que ele lesse pessoalmente, em cadeia planetária, uma nota redigida por nós.

– Se ele continua se recusando a liberar os recursos celestiais para as operações de salvamento e reconstrução – disse o segundo – o absoluto mínimo que ele deveria fazer seria manifestar de forma inequívoca sua solidariedade pelas vítimas e familiares. Repito: o absoluto mínimo.

– O que também não pode ser contornado indefinidamente – exigiu um o terceiro, abrindo seu laptop e apontando para uma pasta impossivelmente repleta do seu Google Reader – é o caso do comportamento temerário de Pat Robertson e de seus asseclas. Esses andam dizendo, em nome de Deus mas evidentemente sem o seu endosso, que a calamidade é intervenção divina, castigo aplicado devido à impenitente simpatia dos atingidos pela ortodoxia errada. Seria conveniente que no seu pronunciamento Deus deixasse bem claro o seu distanciamento dessa posição.

– Pelo contrário – asseverou um quarto, como se já viesse aguardando esse momento. – Em seu pronunciamento Deus deverá endossar cada palavra de seu servo Pat Robertson, de modo a expor as mentiras dos liberais e confundi-los publicamente. Tendo em vista a posição oficial da divindade com relação à sua própria soberania, inaceitável é o que andam afirmando os teólogos liberais: que Deus nada tem a ver com o desastre em questão e que, como se não bastasse, nada poderia ter feito para evitá-lo. Desnecessário apontar que é essa a posição sem qualquer precedente escriturístico, sendo além de tudo heresia defendida há séculos por ateus desprovidos de qualquer mérito.

E, apesar das suas diferenças doutrinárias, nos dias que seguiram os teólogos conseguiram redigir uma nota contendo sete pontos essenciais sobre os quais os quatro concordavam, a respeito da origem do mal e da posição divina diante das grandes calamidades. Deixaram o documento na caixa de sugestões do céu, que não tem fundo, juntamente com uma carta de apresentação e um abaixo-assinado com poucas assinaturas, mas de prestígio.

A resposta demorou meses a vir, e chegou endossada por um número impossivelmente abundante de selos, rubricas e carimbos, cada um atestando a passagem do processo por uma repartição celeste.

“O último pronunciamento oficial da divindade foi abraçar uma plena humanidade e morrer, e no intervalo entre uma coisa outra investir seus esforços em mitigar os sofrimentos dos homens e reparar as injustiças a que se submetem mutuamente, tendo deixado instrução para que seus seguidores vivessem e morressem dessa mesma forma. Não existe qualquer previsão para uma revisão deste pronunciamento, e a divindade não encontra-se disponível para esclarecimentos adicionais. A primeira vez em que foi visto publicamente Deus estava com as mãos sujas de barro, e na sua última aparição pública ostentava as cicatrizes de sua paixão pelos seres humanos. A administração do céu não reconhece outro lugar onde Deus possa ser encontrado, ou outra maneira pela qual possa ser reconhecido”.

– Lamentáveis essas respostas automáticas – disseram os teólogos uns aos outros, e passaram o resto da tarde lamentando a burocracia celestial.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Poema sobre o desastre de Lisboa


Excerto do Poema sobre o desastre de Lisboa [Poème sur le désastre de Lisbonne], de Voltaire (1755).

(…) Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludos que bradais «Tudo está bem»;
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados
Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,
Enterrados com seus tetos terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espectáculo medonhos de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,
Que de um Deus livre e bom requer o discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes?»
Que crime, que falta cometeram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris.(…)

via Amarelo Fosco : dica do pavablog
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