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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Big Brother: A vigilância sem trégua do espetáculo

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Uma das primeiras e mais fundamentadas críticas articuladas contra o capitalismo foi que, em nome da eficiência, ele separava os trabalhadores do produto do seu trabalho. Pela primeira vez na história acontecia de trabalhadores livres encontrarem-se alienados em larga escala do esforço produtivo das suas mãos. Graças à curiosa mágica do capitalismo, você podia trabalhar a vida inteira numa linha de montagem sem chegar a ter um Fiat na garagem; podia trabalhar numa agência de viagens sem chegar a deixar o país.

Estamos ainda aprendendo a sobreviver às seqüelas dessa alienação. Muitos críticos sensatos sugerem que a separação entre o trabalhador e fruto do seu trabalho criou uma forma incapacitadora de castração mental: sob o capitalismo, o operário abre deliberadamente mão do privilégio fundamental de autocondução da vida; vende a primogenitura da liberdade pela segurança da benção do sistema. O que o operário vende é o seu trabalho (e portanto sua vida) à máquina capitalista, renunciando dessa forma a privilégios de autodeterminação de que ainda desfrutam, em alguma escala, trabalhadores rurais, artesãos, mendigos, militares, artistas, pescadores e professores.
O problema essencial dessa concessão é que ela abre espaço para inúmeras outras. O capitalismo acaba separando não apenas o trabalhador do fruto do seu trabalho: separa também o consumo das necessidades. O consumidor capitalista não consome porque precisa ou mesmo porque quer: sua vida de consumo subsiste inteiramente à parte das suas verdadeiras necessidades, quaisquer que sejam, com as quais ele perdeu todo o contato.

O primeiro passo abre precedente para o segundo: sob o capitalismo o trabalhador não abre mão apenas de (1) o trabalho das suas próprias mãos, mas também de (2) determinar quais sejam as suas próprias necessidades. O sistema fechado que o protege e sustenta deixará muito claro aquilo que ele deve consumir e desejar. Veja esta torradeira, este laptop, este iogurte. Agora com nova embalagem. Você sabe que quer um igual – o sistema alimentou-o direitinho. Resistir é inútil.
* * *
A questão mais recente e por certo mais grave é no entanto outra. Até recentemente restava ao trabalhador capitalista vestígios de autodeterminação na maneira como ele decidia conduzir a sua vida social e utilizar o seu tempo livre. Essas brechas possibilitavam alguma liberdade e espaço para desintoxicação. Mesmo que tivesse de se dobrar à máquina 8 horas por dia, cinco dias por semana, sobrava ao operário o resto da vida, – preciosíssimo nicho dentro do qual ele podia recuperar o espectro total do potencial humano através da prática criativa.
A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO É O MOMENTO EM QUE O CONSUMO CONQUISTOU A OCUPAÇÃO TOTAL DA VIDA SOCIAL.
Isso foi antes que a sociedade capitalista fosse inteiramente engolida pela onipresença do espetáculo – e entenda-se como espetáculo tudo que, não sendo trabalho, também não é vida social ou prática criativa: cinema, TV, esportes e shows pela TV, teatro, conteúdo da internet, jogos de computador, noticiários, shows de música, documentários, apresentações de powerpoint, desenhos animados, jornais, Reality TV, revistas, CDs de música, DVDs, programas de calouros, de perguntas e respostas, trailers, pornografia, videocassetadas, rádio, filmes da internet, arquivos mp3, cartuns, histórias em quadrinhos, animações da internet – e, muito mais freqüentemente do que uma vez já foi, também formaturas, bailes, festas, cultos, missas e cerimônias de casamento.

Vivemos o que a Escola de Frankfurt (Horkheimer e Adorno em 1972; Marcuse em 1964), chama de sociedade “totalmente administrada” ou “unidimensional”. Ou, segundo Guy Debord: “A sociedade do espetáculo é o momento em que o consumo conquistou a ocupação total da vida social”. E este, senhoras e senhores, é um dos conceitos mais fundamentais do nosso tempo.

“Essa transição estrutural para uma sociedade do espetáculo envolve a transformação em mercadoria de setores previamente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle burocrático aos domínios do lazer, do desejo e da vida cotidiana”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).


A diferença entre ontem e hoje está em que nossos hobbies e nossa vida social éramos nós mesmos que definíamos; o espetáculo sem trégua da TV/internet nós consumimos de forma inerte e – eis a pegada – o tempo todo. Da Copa do Mundo ao Big Brother ao novo Super-Homem aos canais da TV fechada ao cartum da internet ao culto dominical à formatura de judô da Mariana – só nos resta tempo livre para o espetáculo.

E como é a aplicação do tempo livre que determina o que somos (ou sentimos que somos), não nos resta autodeterminação alguma. Não restamos. Somos recortes de papelão numa sociedade unidimensional.
* * *
É a absolutização da política do pão e circo: enquanto está consumindo o espetáculo você não representa ameaça alguma. E não corre o risco de descobrir quem é.

“Para Debord, o espetáculo é uma ferramenta de pacificação e de despolitização; é uma ‘guerra do ópio permanente’, que estupidifica os agentes sociais e distrai-os da tarefa mais urgente da vida real. O conceito de Debord de espetáculo está intimamente relacionado aos conceitos de separação e passividade, pois em espetáculos consumidos passivamente o espectador é alienado de produzir ativamente a sua própria vida”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).


Na novela 1984 George Orwell imagina uma sociedade inteiramente subjugada por um governo burocrático e totalitário: todas as casas e aposentos são monitorados por câmeras ocultas de vídeo, e o mundo tem suas iniciativas esmagadas pela vigilância eterna do Grande Irmão (Big Brother).

Orwell, embora se julgasse pessimista, nos superestimou. A realidade é muitas vezes menos inteligente e certamente mais incrível. Nossa sociedade é absolutamente controlada e inofensiva, não porque o Big Brother nos vigia o tempo todo, mas porque assistimos o tempo todo ao Big Brother.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Se ele era inocente


Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.

Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.

Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.

Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.

Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Estou cansado

Ricardo Gondim
Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensina que Deus restaura as forças do que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista. Contudo, não consigo dissimular: eu me acho exausto.

Não, não me afadiguei com Deus ou com minha vocação. Continuo entusiasmado pelo que faço; amo o meu Deus, bem como minha família e amigos. Permaneço esperançoso. Minha fadiga nasce de outras fontes.

Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Cansei com os programas de rádio em que os pastores não anunciam mais os conteúdos do evangelho; gastam o tempo alardeando as virtudes de suas próprias instituições. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas.

Canso com a leitura simplista que algumas correntes evangélicas fazem da realidade. Sinto-me triste quando percebo que a injustiça social é vista como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Não consideram os séculos de preconceitos nem que existe uma economia perversa privilegiando as elites há séculos. Não agüento mais cultos de amarrar demônios ou de desfazer as maldições que pairam sobre o Brasil e o mundo.

Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças.

Canso com os estereótipos pentecostais. Como é doloroso observá-los: sem uma visitação nova do Espírito Santo, buscam criar ambientes espirituais com gritos e manifestações emocionais. Não há nada mais desolador que um culto pentecostal com uma coreografia preservada, mas sem vitalidade espiritual. Cansei, inclusive, de ouvir piadas contadas pelos próprios pentecostais sobre os dons espirituais.

Cansei de ouvir relatos sobre evangelistas estrangeiros que vêm ao Brasil para soprar sobre as multidões. Fico abatido com eles porque sei que provocam que as pessoas “caiam sob o poder de Deus” para tirar fotografias ou gravar os acontecimentos e depois levantar fortunas em seus países de origem.

Canso com as perguntas que me fazem sobre a conduta cristã e o legalismo. Recebo todos os dias várias mensagens eletrônicas de gente me perguntando se pode beber vinho, usar “piercing”, fazer tatuagem, se tratar com acupuntura etc., etc. A lista é enorme e parece inexaurível. Canso com essa mentalidade pequena, que não sai das questiúnculas, que não concebe um exercício religioso mais nobre; que não pensa em grandes temas. Canso com gente que precisa de cabrestos, que não sabe ser livre e não consegue caminhar com princípios. Acho intolerável conviver com aqueles que se acomodam com uma existência sob o domínio da lei e não do amor.

Canso com os livros evangélicos traduzidos para o português. Não tanto pelas traduções mal feitas, tampouco pelos exemplos tirados do golfe ou do basebol, que nada têm a ver com a nossa realidade. Canso com os pacotes prontos e com o pragmatismo. Já não agüento mais livros com dez leis ou vinte e um passos para qualquer coisa. Não consigo entender como uma igreja tão vibrante como a brasileira precisa copiar os exemplos lá do norte, onde a abundância é tanta que os profetas denunciam o pecado da complacência entre os crentes. Cansei de ter de opinar se concordo ou não com um novo modelo de crescimento de igreja copiado e que vem sendo adotado no Brasil.

Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza.

Canso de explicar que nem todos os pastores são gananciosos e que as igrejas não existem para enriquecer sua liderança. Cansei de ter de dar satisfações todas as vezes que faço qualquer negócio em nome da igreja. Tenho de provar que nossa igreja não tem título protestado em cartório, que não é rica, e que vivemos com um orçamento apertado. Não há nada mais desgastante do que ser obrigado a explanar para parentes ou amigos não evangélicos que aquele último escândalo do jornal não representa a grande maioria dos pastores que vivem dignamente.

Canso com as vaidades religiosas. É fatigante observar os líderes que adoram cargos, posições e títulos. Desdenho os conchavos políticos que possibilitam eleições para os altos escalões denominacionais. Cansei com as vaidades acadêmicas e com os mestrados e doutorados que apenas enriquecem os currículos e geram uma soberba tola. Não suporto ouvir que mais um se auto-intitulou apóstolo.

Sei que estou cansado, entretanto, não permitirei que o meu cansaço me torne um cínico. Decidi lutar para não atrofiar o meu coração.

Por isso, opto por não participar de uma máquina religiosa que fabrica ícones. Não brigarei pelos primeiros lugares nas festas solenes patrocinadas por gente importante. Jamais oferecerei meu nome para compor a lista dos preletores de qualquer conferência. Abro mão de querer adornar meu nome com títulos de qualquer espécie. Não desejo ganhar aplausos de auditórios famosos.

Buscarei o convívio dos pequenos grupos, priorizarei fazer minhas refeições com os amigos mais queridos. Meu refúgio será ao lado de pessoas simples, pois quero aprender a valorizar os momentos despretensiosos da vida. Lerei mais poesia para entender a alma humana, mais romances para continuar sonhando e muita boa música para tornar a vida mais bonita. Desejo meditar outras vezes diante do pôr-do-sol para, em silêncio, agradecer a Deus por sua fidelidade. Quero voltar a orar no secreto do meu quarto e a ler as Escrituras como uma carta de amor de meu Pai.

Pode ser que outros estejam tão cansados quanto eu. Se é o seu caso, convido-o então a mudar a sua agenda; romper com as estruturas religiosas que sugam suas energias; voltar ao primeiro amor. Jesus afirmou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma. Ainda há tempo de salvar a nossa.
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