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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A história de Pedro, Leonardo e o pai

Contam que havia um pai com dois filhos: Leonardo e Pedro.

Desde cedo, ficou claro que havia um problema no relacionamento da família. Dizem que Pedro só comia porque alguns vizinhos lhe davam de comer. O pai mesmo, nunca se preocupou. Suas atenções estavam todas voltadas para Leonardo.

Pedro nunca ganhou uma roupa do pai. Todas que vestia eram doadas por quem se compadecia de sua situação. Por outro lado, Leonardo sempre usou roupas boas, capazes de fazê-lo sentir quente e confortável.

Quando perguntavam para o pai o motivo de deixar Pedro passar fome e frio, ele explicava que o tinha gerado para sofrer. Esse era seu destino. Já não era o caso de Leonardo: esse fora gerado para ser feliz.

Leonardo e Pedro cresciam. Leonardo sempre bem vestido e alimentado, enquanto Pedro amargava sua existência.

Certo dia, Leonardo disse para o pai:

- Pai, estou com fome.
- Poxa meu filho, vamos resolver isso agora mesmo! – respondeu o pai.

Foram até um restaurante onde Leonardo matou aquilo que o estava matando.

Na noite do mesmo dia, Pedro foi até o pai:

- Pai, estou com fome.
- Pedro, sinto muito. Gastei tudo o que tinha com o seu irmão – respondeu o pai, sem olhar o filho nos olhos.

Pedro foi dormir com fome.

Naquela mesma semana, numa conversa com o pai, Leonardo disse:

- Pai, preciso de um tênis novo.
- Claro! Vamos até o shopping comprar um e resolver esse problema – retrucou o pai, entusiasmado em presentear o filho.

Assim, foram no shopping e compraram um lindo par.

No mesmo dia, Pedro se dirigiu ao pai:

- Pai, ainda estou com fome. Faz quase uma semana que não como nada.
- Pedro, hoje usei meu dinheiro guardado para comprar um tênis para o seu irmão. Você terá que esperar mais um pouco para comer – respondeu o pai, que jogava bafo com Leonardo.

Mais uma vez, Pedro foi dormir com fome. Por sorte, no dia seguinte encontrou uma vizinha octogenária que lhe deu um prato de sopa.

Era assim que a vida da família de se desenrolava. Todos do bairro conheciam o relacionamento deles. Uns achavam estranho, pois Pedro era rejeitado pelo pai, que não dava a mínima para as suas necessidades básicas. Outros achavam normal, pois Pedro havia sido gerado para sofrer, portanto, seu destino estava se cumprindo.

Leonardo entrou na faculdade, enquanto Pedro nem terminou o primário. Ele não conseguia acompanhar as atividades da escola, pois vivia desnutrido.

Desistiu também de pedir comida ao pai, pois nunca tinha obtido sucesso, e, na última vez, o pai simplesmente o ignorou.

Pedro já não comia há quase um mês. Suas forças estavam acabando, tinha dificuldade até para manter os olhos abertos. Ouvindo o pai conversar com Leonardo enquanto assistiam televisão juntos, Pedro ouviu a conversa:

- Pai, estou precisando de um carro para ir até a faculdade. Os ônibus estão sempre cheios, e o metrô mais perto de caso fica a 3 Km daqui!
- Léo, fique em paz. Amanhã mesmo compraremos o seu carro. Você não terá mais transtorno para se locomover – respondeu o pai, sorrindo para o filho.

Naquela mesma noite, Pedro fugiu de casa, se arrastando pelo chão, debaixo dos olhos do pai, que parecia não notá-lo. Engatinhou por apenas alguns quilômetros até morrer. Seu corpo não suportou a falta de comida e se entregou.

No enterro, o pai não derramou uma lágrima. Num determinado momento, pediu a palavra:

- Pedro nasceu para sofrer. Foi para isso que o gerei. A sua miséria já estava determinada. Contudo, vejam o Leonardo: esse nasceu para vencer. O gerei para fazê-lo vitorioso.

Leonardo, convencido pelo discurso do pai, sorria, orgulhoso, com olhar de superioridade.

Alguns poucos repudiaram aquela família, mas, estranhamente, muitos outros passaram a adorá-la.

Os que adoraram, a partir daquele dia, passaram a chamar aquele pai de Deus. Passaram a acreditar que Leonardo fora eleito para salvação. Em contrapartida, passaram a acreditar que Pedro fora eleito para a danação.
Depois de algum tempo, começaram a dizer Leonardo tinha o favor do pai porque lhe oferecia sacrifícios, favores, e coisas afins, enquanto Pedro nunca havia lhe oferecido nada. A questão girava em torno do ego de Deus. Para outros, a questão era a determinação a priori de Deus a respeito do destino de seus filhos.

Muitas teorias surgiram para explicar essa história - que nunca foi bem contada. O que se sabe é que todos queriam ser Leonardo. Assim, agiam com superioridade e orgulho - se julgavam eleitos.

Pedro se tornou um assunto obsoleto, indesejado, incômodo.  Ninguém queria pensar sobre como Deus o tratava ou porque o havia gerado. A questão toda era a respeito de Leonardo e seu sucesso. 

Há quem acredite nessa história sobre Deus pai. Até hoje falam sobre ele, que gera uns para a salvação e outros para a danação. Que dá a um filho tudo do bom e do melhor, e simplesmente ignora a miséria do outro. Fazem orações dia e noite para que ele, o pai, os trate como tratou Leonardo - porque ninguém quer ser Pedro.

Mas alguns, como eu, não acreditam. Não aceitam a existência de um Deus pai impassível, que trata seus filhos de forma arbitrária. Pensamos que é uma falácia criada por seres humanos sem coração.

Lucas Lujan


Como disse uma vez pra o Lucas, para um Deus assim, eu prefiro ser o Pedro, do que viver a eternidade do lado dele...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ou Isto ou Aquilo


Paulo Brabo - via A Bacia das Almas
Obscenidade é um conceito moral no arsenal verbal da classe dominante, que abusa do termo aplicando-o não a expressões de sua própria moralidade, mas às de outros. Obscena não é a imagem de uma mulher nua expondo seus pelos pubianos, mas a de um general em traje de gala expondo as medalhas que angariou numa guerra de agressão; obsceno não é o ritual dos hippies, mas a declaração de um alto dignatário da igreja de que a guerra é necessária para se promover a paz.
Herbert Marcuse, An Essay on Liberation, 8

domingo, 19 de setembro de 2010

11 de Setembro

Paulo Brabo -via Bacia das Almas

Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).

Em qualquer dia marcado como santo – ou designado como momento de se recordar um evento passado – vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.

Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?

A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou “desapareceram”, dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram “situações de trauma extremo”.

Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com o apoio da CIA, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).

Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos – aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários – tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem).

Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente – uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald’s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.

O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao “11 de setembro” ou a “11/9″; não se fala em “11 de setembro de 2001″ ou “11/09/2001″. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.

O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana. Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 – em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão “super-Guatamano” de Obama na base da Força Aérea em Bagram.

O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.

Portanto, hoje seremos lembrados a “nunca esquecer” os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.

Daniel Oudshoorn

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