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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Governos inconscientes e irresponsáveis

"O Brasil neste sentido é uma lástima. Se há um pais no mundo que goza das melhores oportunidades ecológicas e geopolíticas para ajudar a formular um outro mundo necessário para toda a humanidade, este seria o Brasil."
Leonardo Boff

Quem teve o privilégio de acompanhar a cúpula dos povos (192) na ONU nos dias 24-26 de junho para encontrar saídas includentes para a crise econômico-financeira, vivenciou dupla perplexidade. A primeira, o fato de se ter chegado a um surpreendente consenso acerca de medidas econômicas e financeiras a serem implementadas a curto e a médio prazo, em função do desenvolvimento /crescimento. A segunda, verificar que tudo se concentrou apenas no aspecto econômico-financeiro sem qualquer referência aos limites da biosfera e à devastação da natureza que o tipo de desenvolvimento vigente implica. Quer dizer, a economia virou um conjunto de teorias e fórmulas que expertos dominam e as aplicam nos países, esquecendo-se de que é parte da sociedade e da política, algo, portanto, ligado à vida das pessoas. Era como se os políticos e expertos, não respirassem, não comessem, não se vestissem e andassem nas nuvens e não no solo. Mas para eles, tais coisas importantes são meras externalidades que não contam.


Ao ouvi-los, pensava eu lá com meus botões: quão inconscientes e irresponsáveis são estes políticos, representantes de seus povos, que não se dão conta de que a verdadeira crise não é esta que discutem, mas a da insustentabilidade da biosfera e a incapacidade de a Mãe Terra de repor os recursos e serviços necessários para a humanidade e para a comunidade. Bem advertiu o ex-secretário da ONU Kofi Annan: esta insustentabilidade não apenas impede a produção e a reprodução senão que põe em risco a sobrevivência da espécie humana.

Todos são reféns da economia-zumbi do desenvolvimento, entendido como puro crescimento econômico (PIB). Ora, exatamente este paradigma do desenvolvimento mentirosamente sustentável do atual modo de acumulação mundial está levando a humanidade e a Terra à ruína. As pessoas são as últimas a contar. Primeiro vêm sempre os mercados, os bancos, o sistema financeiro. Com apenas 1% do que se aplicou para salvar os bancos da falência (alguns trilhões de dólares) poder-se-ia resolver toda a fome do planeta atesta a FAO. E atualmente, a mesma FAO advertiu, existem 40 países com reserva alimentar de apenas três meses. Sem uma articulada cooperação mundial grassará fome e morte de milhões de pessoas.

Discutir a crise econômico-financeira sem incluir as demais crises: o aquecimento global, a alimentar, a energética e a humanitária é mentir aos povos sobre a real situação da humanidade.

Temo que nossos filhos e netos, daqui a alguns anos, olhando para o nosso tempo, tenham motivos para nos amaldiçoar e de nos devotar um soberano desprezo, porque não fizemos o que devíamos fazer. Sabíamos dos riscos e preferimos salvar as moedas e garantir os bônus quando poderíamos salvar o Titanic que estava afundando.

O Brasil neste sentido é uma lástima. Se há um pais no mundo que goza das melhores oportunidades ecológicas e geopolíticas para ajudar a formular um outro mundo necessário para toda a humanidade, este seria o Brasil. Ele é a potência das águas, possui a maior biodiversidade do planeta, as maiores florestas tropicais, a possibilidade de uma matriz energética limpa à base da água, do vento, do sol, das marés e da biomassa, mas não acordou ainda. Nos fóruns mundiais vive em permanente sesta política, inconsciente, "deitado eternamente em berço esplêndido". Não despertou para as suas possibilidades e para a responsabilidade face à preservação da Terra e da vida.

Ao contrário, na contramão da história, estamos construindo usinas à base do carvão. Desmatamos a Amazônia em 1.084 quilômetros quadrados entre agosto de 2008 a maio de 2009. E somos o quinto maior poluidor do mundo. O fator ecológico não é estratégico no atual governo. Somos ignorantes, atrasados, faltos de senso de responsabilidade face ao nosso futuro comum.

Fora da Zona de Conforto! [10/07/09]

MSF e DNDi fazem ato público pelo Centenário de Chagas
Nesta quinta, às 13h, no Posto 6 da praia de Copacabana as duas organizações lançam campanha internacional sobre a doença

Estratégia de Combate à Doença de Chagas não pode continuar a ignorar os pacientes
MSF faz um apelo a países endêmicos para que diagnostiquem e tratem doentes e por mais pesquisas de medicamentos


Maior receptor de vítimas de tráfico de pessoas não tem ações de combate
A entidade afirma que a Espanha não possui um plano de ação para combater a violência e o tráfico de mulheres para fins sexuais.

Problemas no parto geram morte de 185 mães, por cada 100.000 nascidos
De cada 100.000 crianças nascidas vivas no Peru, estima-se que 185 mães morrem em decorrência de complicações na gravidez ou no parto.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Fora da Zona de Conforto! [08/07/09]

Somália: Maioria da população do norte de Mogadíscio foge
Nova onda de deslocamento começou após intensificação do conflito. MSF pede que segurança de civis seja respeitada

MSF interrompe atividades em Honduras devido à crise
Devido aos conflitos, equipe da organização não consegue chegar à rua em que fica seu centro pediátrico

Missão denuncia assassinato de três manifestantes contrários a Micheletti
A Missão pela Democracia e os Direitos Humanos Guatemala-Honduras divulgou hoje (7), em entrevista coletiva, um comunicado em que denuncia a morte de três manifestantes contrários ao presidente provisório de Honduras, Roberto Micheletti.

É gente humilde, que vontade de chorar




Dá uma dor no peito quando vemos que a nossa agenda de preocupações femininas passa longe da vida real de milhões de mulheres no Brasil. Uma moça de 29 anos, Manuela Costa, fez na quinta-feira passada o que toda grávida faz no momento sagrado de dar à luz. Procurou um hospital. Nós, jornalistas do blog 7×7, e vocês, que comentam, jamais passaríamos pelo pesadelo de Manuela. Teríamos uma vaga numa maternidade, nosso obstetra, e o risco de vida, para nós e nosso bebê, seria mínimo.

Mas Manuela foi ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Zona Sul e nobre da cidade, para uma emergência. Estava em dores, no sétimo mês de gestação, o que tornaria o parto prematuro. O médico plantonista, sem condição de atendê-la porque não havia leitos, simplesmente mandou Manuela pegar um ônibus para uma maternidade em São Cristóvão, a Fernando Magalhães – e rabiscou no braço dela (foto) o número do ônibus e o endereço da maternidade. Pode-se levar uma hora de ônibus entre os dois hospitais, dependendo do trânsito. A placenta de Manuela tinha descolado.

Ela perdeu o bebê.

Além de Manuela, mais duas grávidas passaram pelo mesmo processo absurdo, com braços rabiscados, mas tiveram mais sorte. Maria José, 27 anos, moradora da Rocinha, e Valquíria Bernardo, de Duque de Caxias. Ambas tiveram meninos e passam bem.

Manuela ficou mal, foi para a Unidade de Tratamento Intensivo. O médico foi afastado e repreendido publicamente por todas as autoridades de saúde do Rio. E pelo prefeito, Eduardo Paes, que disse: “Não há crise no sistema de saúde que justifique sua atitude desrespeitosa. Se as acusações forem confirmadas, ele será demitido”. Ex-diretor do Miguel Couto, o vereador Paulo Pinheiro enxergou no caso uma violação de direitos humanos: “Descolamento prematuro de placenta exige operação de emergência. Se não há leitos na obstetrícia, que fosse levada para o centro cirúrgico”.

Nessa história de horrores, o braço rabiscado é talvez a cereja estragada do bolo indigesto, porque reflete o quê? Indigência – não há papel e caneta no Miguel Couto, além de 11 leitos da obstetrícia estarem interditados por obras? Descaso com o ser humano, como se mulheres estivessem sendo marcadas como vacas? Pressa, inexperiência e bloqueio emocional de plantonistas jovens que ficam mais de 24 horas em hospitais vendo gente chegar com todo tipo de ferimento, por tiro, faca etc? O juramento médico é jogado fora junto com o diploma? Estamos virando pedras? Não se pode chamar uma ambulância para levar uma grávida em situação de risco para outro hospital?

O médico acusado pode ser condenado a até oito anos de prisão por recusar atendimento às três grávidas – seria indiciado por homicídio culposo, caso se confirme que o bebê de Manuela morreu por omissão de socorro. Mas ele não pode ser o único culpado.

Muito ainda virá à tona na investigação do caso. Já se sabe que o plantonista não teria condições de avaliar o risco de Manuela e seu bebê porque o único aparelho no Hospital Miguel Couto para identificar casos de sofrimento fetal está quebrado desde fevereiro. Vistoria ontem na maternidade do Miguel Couto revelou a falta de pelo menos seis enfermeiros e 18 técnicos em enfermagem.

Não tenho a menor ideia das condições – humanas e de equipamentos –enfrentadas pelos plantonistas no Miguel Couto. Não recorro ao sistema de saúde pública. Mas sabemos que esse caso só ganhou as manchetes porque um bebê morreu. Quantos milhões de mulheres grávidas são tratadas assim no país, e ficamos sem saber de nada? No estado do Rio de Janeiro, são registradas 76 mortes para cada 100 mil partos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera aceitável um índice de 20 mortes para cada 100 mil partos.Fiquei revoltada de cara com o médico que rabiscou o braço da grávida e mandou que ela pegasse um ônibus para outra maternidade, longe dali. Mas o que me preocupa mais é: será um caso isolado? Vai resolver o problema? Quantas Manuelas ainda perderão seus bebês ou a sua própria vida por um conjunto de deficiências e despreparo que pune a maioria absoluta da população? Nem a CPMF deu jeito. Eu estaria disposta a pagar ainda mais impostos se tivesse certeza de que o dinheiro não sumiria nos ralos da incompetência e da corrupção – se eu soubesse que poderia ajudar a salvar a vida do bebê de Manuela.


Ruth de Aquino, no blog 7 por 7.
Dica no site do Pavablog

terça-feira, 7 de julho de 2009

Gaza: um milhão e meio de pessoas encurraladas em desespero

... de dentro do aquário:
Quem não viu esta notícia importantíssima que passou diversas vezes e em diversos telejornais e sites?

O britânico Ben Southall, de 34 anos, venceu nesta quarta-feira (6) a corrida para o "melhor trabalho do mundo", anunciaram os organizadores do concurso. Durante os próximos seis meses ele vai ser zelador de uma ilha paradisíaca (Hamilton), localizada em meio à grande barreira de corais da Austrália, no estado de Queensland. O salário é de cerca de US$ 105 mil.

... do lado de fora desta tranquilidade:

Gaza: um milhão e meio de pessoas encurraladas em desespero
Depois de seis meses do início da operação militar israelense em Gaza, no dia 27 de dezembro de 2008, que durou três semanas, os habitantes de Gaza ainda não conseguem refazer suas vidas. Muitas pessoas passam por dificuldades extremas para viver de suas rendas. Pacientes gravemente doentes tropeçam nas travas para receber o tratamento que necessitam. Muitas crianças sofrem de profundos problemas psicológicos. Os civis, cujas moradias e pertences foram destruídos durante o conflito, não conseguem se recuperar.

Durante os 22 dias da operação militar israelense, não havia um lugar seguro para os civis em Gaza. Os hospitais não davam vazão ao número de feridos, dentre os quais estavam crianças pequenas, mulheres e idosos. O pessoal de saúde demonstrou uma força e uma determinação incríveis, trabalhou dia e noite para salvar vidas em circunstâncias extremamente difíceis. Enquanto isso, os ataques diários com foguetes lançados de Gaza punham em risco os moradores do sul de Israel. Em Israel, as equipes de saúde prestaram assistência à população traumatizada, além de cuidarem e evacuarem os feridos.
Em Gaza, muitas pessoas sofreram com a perda de um filho, um pai, um parente ou um amigo. A operação militar de Israel deixou milhares de moradias total ou parcialmente destruídas. Bairros inteiros foram reduzidos a escombros. Os bombardeios causaram danos em escolas, jardins de infância, hospitais, quartéis de bombeiros e ambulâncias.A pequena faixa costeira está isolada do mundo. Antes mesmo das recentes hostilidades, as severas restrições que as autoridades israelenses impuseram ao trânsito de pessoas e bens, sobretudo desde outubro de 2007, levaram a um aumento da pobreza, a um aumento no índice de desemprego e à ruína dos serviços públicos, como a assistência médica e os serviços de água e saneamento. A cooperação insuficiente entre a Autoridade Palestina em Ramalah e a administração do Hamas, em Gaza, também atingiu a prestação de serviços essenciais. Como resultado disso, quando as hostilidades se intensificaram no final de dezembro, a população de Gaza já sofria uma crise importante que afetava todos os aspectos da vida diária.Seis meses depois, as restrições para a importação impedem a população de Gaza de retomar uma vida normal. As quantidades de bens que agora entram em Gaza são muito inferiores ao que a população precisa para satisfazer suas necessidades. Em maio de 2009, apenas 2.662 cargas de caminhão entraram em Gaza, uma queda de quase 80 % com relação as 11.392 cargas de caminhão autorizadas durante o mês de abril de 2007, antes de o Hamas tomar o poder no território.
leia +

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Paquistão: Atendimento médico não consegue suprir demanda

...de dentro do aquário: "(...)Cerca de 85 mil pessoas lotaram o estádio Santiago Bernabéu para ver pela primeira vez Cristiano Ronaldo(...). Maior contratação da história do futebol mundial - foi comprado por € 94 milhões (aproximadamente R$ 256 milhões) -, o 'gajo' de 24 anos assinou contrato por seis temporadas (especula-se que ganhará mais de R$ 2 milhões por mês) (...)". - Globo.com

... fora das tranquilas águas:

Paquistão: Atendimento médico não consegue suprir demanda

Unidades médicas de Mardan estão sobrecarregadas com a chegada de deslocados das zonas de conflitos, no Vale do Swat e em Buner
Na ala das mulheres no Complexo Médico de Mardan, uma mãe deslocada do Swat senta em uma cama com seu bebê de três meses. O menino pesa apenas 1,8kg e está mole em seus braços. O hospital distrital em Mardan transferiu o bebê para ala gerenciada por Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Complexo Médico de Mardan, um hospital próximo à cidade.“Esse bebê desnutrido precisa de observação 24 horas por dia e deve ser alimentado com leite terapêutico a cada três horas”, disse o Dr. Salha Issoufu, o coordenador de emergência de MSF em Mardan. “É muito difícil para a equipe no hospital distrital oferecer esse tipo de tratamento quando o número de pacientes que eles recebem praticamente triplicou desde a chegada de tantas pessoas deslocadas.”O hospital distrital, no centro de Mardan, é de fácil acesso aos habitantes locais e aos recém deslocados, e foi rapidamente sobrecarregado pelo aumento no número de pacientes, depois que os conflitos começaram no Vale do Swat e Buner. Enquanto as autoridades de saúde do Paquistão rapidamente reforçam suas equipes, enviando pessoal médico de todo o país a Mardan, o hospital permanece, mesmo assim, funcionando além de sua capacidade. Para aliviar a carga de pacientes, MSF abriu uma ala de 20 leitos no Complexo Médico de Mardan no dia 4 de junho, que rapidamente dobrou de tamanho. Em 19 de junho, MSF começou a trabalhar na emergência do hospital.“Nós não vimos sinais alarmantes de uma emergência médica típica, a não ser a necessidade de aumentar a capacidade das estruturas de saúde locais”, disse o Dr. Issufou. “Alguns dos problemas médicos mais comuns que vimos até agora estão relacionados à desidratação, devido a diarreia e calor intenso. As famílias deslocadas vêm de um clima muito mais frio nas montanhas. Crianças e idosos são particularmente vulneráveis ao calor. Em relação a epidemias, a cólera é endêmica na região, então uma vigilância epidemiológica foi montada pelas autoridades, e MSF está pronta para oferecer apoio se necessário.”
Expandindo serviços para suprir necessidades crescentes
O Centro Rural de Saúde Takht Bhai fica a cerca de 30 minutos de carro do Complexo Médico de Mardan. Em cooperação com as autoridades de saúde locais, MSF começou a trabalhar no local no dia 2 de junho, e está conduzindo consultas para pessoas deslocadas, incluindo pré-natal. A organização também montou uma sala de parto nesse centro.“Quando chegamos ao Centro de Saúde Takht Bhai, a situação parecia caótica porque a equipe estava totalmente sobrecarregada”, disse Jean Pierre Amigo, coordenador de emergência de MSF em Mardan. “MSF já estava realizando consultas em campos vizinhos para pessoas deslocadas, mas nós também precisávamos dar apoio às unidades de saúde fora do campo. Havia uma necessidade específica de providenciar uma sala de parto 24 horas, então renovamos a que já existia em Takht Bhai e asseguramos um atendimento médico 24 horas para dar assistência nos partos”.Junto com as autoridades de saúde locais, MSF começou uma campanha para assegurar que as mulheres soubessem da existência dos serviços 24 horas gratuitos. “Não existe nenhuma razão realmente para que as mulheres tenham que dar a luz em condições perigosas quando elas têm um centro recém reabilitado, com uma equipe médica disponível 24 horas por dia para ajudá-las”, disse Jean Pierre. “Toda semana, o número de partos e consultas dobra, incluindo pré-natal. Nós estamos reabilitando mais salas no centro de saúde, para expandir a capacidade.”De volta ao Complexo Médico de Mardan, um menino com diarreia aguda chega de um hospital distrital e é rapidamente isolado.“Eles não têm salas para casos isolados no hospital distrital, então o menino foi enviando para cá”, disse o Dr. Issufou. “O hospital distrital está tão cheio que existem dois ou três pacientes para cada cama na ala pediátrica. Em alguns leitos, você pode encontrar um menino como esse, com diarreia aguda, dividindo espaço com uma criança sofrendo de infecção respiratória. Superlotação aumenta o risco de infecções se espalharem entre os pacientes.”Enquanto isso, o pequeno bebê desnutrido admitido no dia anterior parece mais alerta e está começando a olhar em volta – um bom sinal.“Eu passei os últimos meses levando-o a diferentes hospitais”, disse a mãe, “mas eu não consegui continuar indo a Peshawar porque é muito caro. Então, eu o trouxe para casa, no Swat. Nós fugimos dos conflitos e viemos ficar com nossa família que vive aqui. Eu tenho sete filhas e este é o meu único filho. Eu só quero que ele melhore.”O Dr. Issufou está otimista.“Nas últimas 24 horas a situação do bebê melhorou. Ele está comendo bem e está bem mais acordado do que quando chegou. Em mais duas semanas, ele deve estar bem o bastante para deixar o hospital”, diz.Entre 4 e 20 de junho, um total de 153 pacientes foram admitidos na ala de MSF no Complexo Médico de Mardan. No dia 19 de junho, MSF começou a trabalhar na sala de emergência, onde 41 pacientes foram tratados nos primeiro três dias de atividade.No Centro Rural de Saúde de Takht Bhai, um total de 2.900 atendimentos de saúde básica e consultas de emergência aconteceram entre os dias 2 e 20 de junho, somado às 205 consultas pré-natal e aos 13 partos. No distrito de Mardan, MSF também opera em clínicas ambulatoriais e em campos para pessoas deslocadas, abrigando 5.800 pessoas e oferecendo refúgio, itens de emergência e serviços de água e saneamento. Clínicas móveis oferecem consultas pré-natal e foram a oito escolas diferentes que estão abrigando famílias deslocadas.No Paquistão, MSF não aceita financiamento de nenhum governo ou agência doadora e confia somente nos doadores privados do público em geral para realizar este trabalho.

Deve ser terrível acredita num Deus assim

A momumental arquitetura de palavras que a Igreja constituiu através dos
séculos, a teologia dita ortodoxa, tem como seu alicerce o Inferno.

A Trindade, a imaculada conceição, a encarnação, a cruz, a expiação, a redenção, a salvação,
o céu -
todas essas doutrinas foram elaboradas em resposta à grande questão:
como livrar os homens do Inferno.

Se eliminar o Inferno, o edifício inteiro implode.

Agora, imaginar que Deus, que as Sagradas Escrituras declaram ser Amor,
seja capaz de uma viangança tamanha, vingança eterna, contra pecadores que
fizeram os seus pecados no tempo - isso me é inimaginável.

Deve ser terrível
acreditar num Deus assim.

Rubem Alves

domingo, 5 de julho de 2009

Aos Indigentes

Conheci diversas pessoas neste tempo de universidade e uma delas não tenho a menor idéia de qual o seu nome, muito menos a sua história, mas já sou agradecido por estar comigo nos meus primeiros momentos de Medicina. Seu corpo é uma cidade desconhecida para mim, do qual a cada dia suas vias vão recebendo nomes de artérias e nervos. Seus bairros são músculos bastantes finos mas que provavelmente já fizeram bastante força para buscar comida. Geralmente estes corpos são de indigentes, mendigos que durante muito tempo foram excluídos de serem de alguma forma relevante para a sociedade. Mas pra falar a verdade, pra que ser relevante para uma sociedade que no seu periodo de vida você não é importante? Triste pensar que a vida que pulsava nela não moveu muitas pessoas para se ter nem que seja um nome.
Agora a morte que reina em seu corpo, impedido de continuar seu progresso, é usado para de alguma forma melhorar a vida dos vivos, muitos deles os quais nem se importaram com estes indigentes quando vivos e desviaram seus olhos quando estenderam as suas mãos para lhes pedir ajuda. Não sei onde aqueles pés pisaram fugindo ou correndo em direção a algo ou onde aqueles olhos desfigurados olharam, amaram ou odiaram. Gostaria de conhecer ele quando a vida pulsava em seu coração. Mas não posso. O que posso dizer é que eles são heróis, não mortos, vivos, porêm desconhecidos! Acredito que há um lugar depois da morte e gostaria de ser vizinho deles lá.

Suênio

Ajudem... Surto de Meningite. Sua doação faz a diferença.

clique na imagem para ampliar.
R$ 36,00 = Seringas para vacinar 130 pessoas.
R$ 43,00 = 2 crianças gravemente desnutridas recebem alimento terapêutico (plumpy nut) por uma semana.
R$ 58,00 = 30 crianças são vacinadas contra meningite.
R$ 75,00 = 700 crianças recebem Vitamina A (previne a cegueira).
R$ 100,00 = Caixa térmica para manter 1.000 vacinas refrigeradas.
R$ 178,00 = Tratamento com antibióticos contra meningite epidêmica para 10 pessoas.
R$ 420,00 = 1.000 crianças são vacinadas contra sarampo.
R$ 2.524,00 = Kit para uma operação de vacinação para 1.000 pessoas.
VEJA AGORA O VÍDEO QUE MOSTRA A CRISE QUE ACONTECE AGORA NA ÁFRICA OCIDENTAL E A AÇÃO DO MSF NO CAMPO.


Para doar entre no link:
http://www.msf.org.br/vacinacao/formulario/

Médicos Sem Fronteiras

Conto - O Lixo

Acordei-me sobre um grande monte de lixo. Não conseguia mais ver terra ou água potável. O céu estava coberto por nuvens carregadas de escuridão onde apenas se via o lampejar de diversos relâmpagos. Tudo estava encoberto de lixo. Em uma parte estavam diversas árvores destruídas pelos desmatamentos. Elas estavam em decomposição e com várias fogueiras acumuladas em alguns pontos. Muitos destes pontos de fogo eram enormes. Entre as árvores caídas corriam rios totalmente escuros, cheios de dejetos e lixos flutuantes.
Aparentemente não havia movimento algum sobre ele. Nem as moscas pareciam existir. Nada de vida existia sobre ele. Apenas o cheiro fétido exalado pelas comidas em decomposição. Talvez estas eram as únicas vidas. As microscópicas bactérias que decompunham os alimentos.
Eram quilômetros de lixo que se perdia de vista. E eis que bem distante consegui observar um movimento. Era um animal que parecia muito magro. Sua silhueta de um lado quase se confundia com a do outro lado. Estava com as patas sobre alimentos em decomposição. E devorava o pouco que tinha, aparentemente para resistir a mais um dia em sua sobrevida. Muitos lixos continuavam a se formar sobre restos que já existiam, mas não sabia de onde vinham.
Procurei me aproximar daquele animal e foi quando comecei a perceber que ele não tinha pêlo sobre o corpo magro. Comecei a diferenciar sua silhueta. O focinho que parecia claro a distância, agora não havia mais. Foi então que fiquei totalmente assustado. Não era um animal. Era um homem! Magérrimo. Negro. Com as costelas cobertas apenas por pele, e totalmente nuas. Havia feridas em todo o corpo, onde se podia ver o sangue coagulado. Havia furos pelo corpo no formato de tiros, frutos de alguma guerra que vivenciou. Vergões percorriam toda a sua costa formando pequenos rios de sangue, frutos também da escravização. Mais próximo dele percebia-se o quanto suas chagas eram profundas. A perna esquerda estava mutilada para cima do joelho, onde ele se apoiava na perna direita e os braços sobre o lixo e com a cabeça próxima ao chão, devoravam o pouco de alimento sem decomposição que encontrou.
Que cena terrível. Não conseguia mais olhar para este homem. Virei minha face para o outro lado para não me enjoar com esta cena, e me deparei com um televisor ligado. Mas não havia energia.Nele passava o noticiário sobre os ricos e milionários vivendo nas mansões mais elegantes do mundo. Outra noticia era os EUA invadindo mais um país do oriente médio, afirmando sobre existência de armas de destruição em massa. Os paises europeus, responsável pelas guerras civis na áfrica apenas estão preocupado com os gastos de suas riquezas internas, frutos das diversas colonizações por todo século sobre os paises pobres. Outra notícia fala sobre os bilhões de dólares que estão sendo gastos em moda, estética corporal, carros e barcos luxuosos pelos ricos. Outra notícia fala sobre os políticos que novamente estão envolvidos em corrupção de desvio do dinheiro público.
A televisão muda automaticamente de canal e nele estava passando um líder religioso que explica a nova maneira de se conseguir riqueza, carros e uma vida cheia de ouro e prata a partir de uma nova campanha para mover o braço do seu deus. Milhares de pessoas estão ajoelhados diante deste líder que tinha duas faces. Na que ficava de frente do povo percebia se a face de uma ovelha que dizia frases suaves e convincentes, dizendo sobre como fazer com que o deus que ele servia, pudesse ajudá-los a viver como os ricos. Para isto uma quantia de dinheiro deveria ser ofertado, ou algum sacrifício para acalmar este deus irado. Percebia se que as pessoas que estavam de frente com a face de ovelha tinham sob os seus pés no chão, como desenhos, todas as promessas que aquela suposta ovelha oferecia como resposta do seu deus a fidelidade deste povo.
Então olhei para a outra face. Era a de um lobo voraz com os olhos aguçados e suas presas escorriam um liquido que expressava o prazer que ele sentia sobre suas presas. Mas diante da face do lobo percebi que havia uma multidão. Mas uma coisa me chamou a atenção. A mesma multidão que estava diante daquela face era a mesma que estava do outro lado. Era como um espelho refletindo esta multidão.Mas a diferença era que elas estavam nuas, com chagas por todo o corpo, e estavam chorando, produzindo um choro terrivelmente desesperador.

Percebo então que durante estes programas que mostravam a parte mais fútil do sistema econômico, político e social que vivemos, crianças negras subnutridas, indígenas, e de outras nações começaram a sair por de trás do televisor, engatinhando, mas elas não ficavam muito tempo diante dos meus olhares, pois sempre aparecia um corvo que dava um vôo rasante pegando aquela criança que acabara de sair por de trás do aparelho, e o levava para um lugar atrás de um monte.

Então decidi ir ao alto deste monte e resgatar estas crianças. Ao chegar no cume percebo algo terrível. Não havia mais crianças vivas. Eram milhões de corpos em decomposição. Comecei a identificar os corpos a partir das únicas coisas que não se decompunham com os seus corpos. Eram bandeiras de suas prováveis nações. Nos corpos negros que tinham vários vergões nas pernas e traços de sangue sobre as bandeiras como se tivessem levado chicotadas, consegui decifrar as bandeiras africanas de diversos países como Angola, Moçambique e Quênia. Nos corpos de pele vermelha consegui ver cocais sobre suas cabeças, com bandeiras brasileiras e de outros paises da América Latina. Eram todos os corpos gerados a partir das colonizações européias sobre os povos americanos e de senhores dominadores sobre seus escravos. Havia corpos de todos os lugares. Muitos tinham sobre seus corpos a bandeira de Israel. Talvez eram os judeus que foram mortos nos diversos campos de concentrações alemães. Havia um silêncio aterrorizante. Milhares de corpos e nenhum sinal de vida.
Sai de diante daquela imagem terrível e corri em direção aquele único corpo que tinha vida para ajudá-lo. Quando estava me aproximando de onde o tinha visto, ele não estava mais lá mas no lugar uma cruz fincada sobre o lixo. E nela estava pregado aquele mesmo homem que havia visto de quatro e se alimentava de restos de alimento em decomposição.
Ele estava morto!
Quando me aproximei percebi ele com as mesmas chagas e faltando parte da perna esquerda. Seus olhos estavam abertos e consegui perceber que não tinha o globo ocular. Ele era cego! Mas os seus olhos ainda produziam lágrimas. Estas lágrimas escorriam pelo rosto e começaram a cair no chão e a formar uma poça de água límpida. Em torno desta poça começou-se a formar pequenas plantinhas que começaram a crescer e formar pequenas árvores com diversos frutos. Frutos deliciosos.
Os corvos já não viam mais pegar as crianças que saiam do televisor mas começaram a posar sobre a cruz e a comer levemente partes do corpo que estava ali pregado. Tentei espantar os corvos mas foi em vão minhas tentativas. Mais corvos continuava a posar sobre a cruz e a se alimentar daquele corpo.
Olhei para trás e vi as crianças saindo por de trás do televisor o qual ainda passavam as mesmas notícias sobre as corrupções feitas pelos humanos. Como estavam com muita fome decidi pegar os frutos que foram formados ao pé da cruz e levar a elas. Peguei uma criança totalmente desnutrida. Nela havia chagas pelo corpo todo, o qual manchou toda a minha pele e roupa de sangue. Levei o fruto até sua boca. Ela começou a comer aquele fruto e começou a sumir as chagas pelos seus corpos. Começava a se formar carne debaixo daquela pele que ficava sobre os ossos. Foi então que vi um dos corvos caírem de cima da cruz totalmente morto. A cada criança que eu dava um dos frutos, um dos corvos caia morto de cima da cruz.
Não saia mais crianças por de trás do televisor. Olhando novamente para a imagem que passava nele, começou a passar uma noticia sobre uma religiosa que deu a sua vida entre os pobres asiáticos. Mostrou então um negro falando para o povo americano contra o racismo e pela liberdade. Mostrou um líder asiático liderando uma revolução em paz para ajudar o povo pobre. Vi um outro negro libertando pobres negros em um país africano. Vi várias notícias sobre pessoas que participaram de alguma ação pelos excluídos. Era desde uma pequena noticia sobre uma senhora que ajudou sua vizinha que passava necessidades até grandes lideres que participaram de libertações de nações.
Feliz, me virei para a cruz, e já não vi mais o corpo que estava pendurado sobre ele. Havia apenas a cruz vazia.
Onde estava aquele homem?
Percebi uma luz que vinha por traz de mim. Virei-me e foi quando vi um homem sobre o mesmo monte que havia estado anteriormente. A luz vinha dele como se fosse a de um grande astro solar. Corri para próximo deste homem subindo aquele monte novamente, mas com receio de ver novamente aquela imagem dos corpos. Mas algo me dizia que não era mais assim. Aproximando-se dele eu vi que o monte dos corpos não existia mais. No lugar várias pessoas que aparentemente refletiam a luz vinda do homem que estava em cima do cume. Aproximei-me dele e vi o mesmo homem que estava na cruz agora com o corpo restaurado, podia ver seu globo ocular e percebi que sua perna esquerda estava lá.
Ele pediu para que me levanta-se. Mas eu já estava de pé?
Baseado em Mt 25:31-44, Isaias 53, Lucas 7:15-23, Ezequiel 37:1-14, Mt 27:45-56.
Suênio Alves

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