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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Compaixão

 

Fonte: Betesda TV

Uma palavra do livro de Jonas

Da correspondência entre Agostinho e Jerônimo
De Agostinho para Jerônimo, 394 d.C.
Convidado pelo papa Dômaso I a transpor a Bíblia completa para o latim, Jerônimo causou controvérsia ao escolher verter o Antigo Testamento a partir do hebraico original ao invés de traduzir a consagrada versão grega da Septuaginta. Agostinho foi um dos que mais enfaticamente se opôs à idéia.
(…) De minha parte não sou capaz de expressar de forma adequada o meu assombro diante da noção de que exista hoje em dia algo que possa ser achado nos manuscritos em hebraico que tenha escapado a tantos tradutores perfeitamente familiarizados com o idioma.
* * *

De Agostinho para Jerônimo, 403 d.C.
 
Como já lhe enviei duas cartas para as quais não obtive resposta, resolvi enviar-lhe agora cópias de ambas, porque não creio que você as tenha recebido.
(…) De minha parte, eu prefiriria que você nos fornecesse uma tradução [latina] da versão grega das Escrituras canônicas conhecida como a obra dos Setenta tradutores. Pois se a sua versão começar a ser lida de forma mais geral nas igrejas, será coisa muito danosa que na leitura da Escritura diferenças devam surgir entre as igrejas de fala latina e as de fala grega, especialmente considerando-se que a discrepância na versão latina é facilmente demonstrável pela produção da versão em grego, que é idioma tão amplamente conhecido; enquanto que se alguém sentir-se perturbado pela ocorrência de algo com que não está habituado na tradução produzida diretamente a partir do hebraico, e alegar que a nova tradução está errada, mostrar-se-á difícil, quando não impossível, acessar documentos em hebraico pelas quais a exceção possa ser defendida.
Ele chegou a uma palavra no livro do profeta Jonas para a qual você oferece uma tradução muito diferente.
Um certo bispo, um de nossos irmãos, tendo introduzido na igreja sobre a qual preside a leitura da sua versão, chegou a uma palavra no livro do profeta Jonas para a qual você oferece uma tradução muito diferente daquela que tem se mostrado há muito tempo familiar aos sentidos e à memória de nossos cultuantes, e tem sido recitada por incontáveis gerações dentro da igreja. Como resultado levantou-se tamanho tumulto na congregação, especialmente entre os de fala grega, corrigindo o que havia sido lido e denunciando a tradução como falsa, que o bispo viu-se obrigado a buscar o testemunho dos judeus residentes. Estes, quer por ignorância quer por despeito, responderam que as palavras do manuscrito hebraico estavam corretamente traduzidas na versão em grego, e que na latina uma delas havia sido subtraída. Que mais preciso dizer? O homem viu-se obrigado a corrigir a sua versão naquela passagem, como se ela tivesse sido falsamente traduzida, pois que não desejava ser deixado sem congregação – calamidade da qual escapou por pouco. A partir deste caso somos levados a pensar que você possa cometer enganos ocasionais. Considere também quão grande se mostraria a dificuldade se isso tivesse ocorrido naqueles escritos que não podem ser explicados comparando-os com o testemunho de idiomas agora em uso.
(…) Você portanto estaria nos concedendo dádiva maior se oferecesse uma tradução latina exata da versão grega da Septuaginta.
* * *
De Jerônimo para Agostinho, 404 d.C.
Você afirma que ofereci uma tradução incorreta de alguma palavra de Jonas, e que um distinto bispo escapou por pouco do seu encargo pelo clamoroso tumulto de sua congregação, causado pela versão diferente desta única palavra. Ao mesmo tempo você me nega o conhecimento de qual palavra foi essa que traduzi mal, privando-me dessa forma da possibilidade de dizer alguma coisa em minha defesa, e evitando também que minha resposta se mostre letal para a sua objeção. Talvez seja a velha discussão a respeito da aboboreira que tenha ressurgido, depois de manter-se em letargia por tantos anos desde que aquele distinto cavalheiro (…) acusou-me de oferecer em minha tradução a palavra “hera” ao invés de “aboboreira”. Já dei resposta suficiente no meu comentário de Jonas. Bastará no momento dizer que nessa passagem, onde a Septuaginta traz “aboboreira” e Áquila e os outros traduziram a palavra por “hera” (kissos), os manuscritos hebraicos trazem “ciceion”, que no idioma siríaco como é falado hoje em dia diz-se “ciceia”. Trata-se de uma planta que tem folhas grandes como uma videira, e que quando plantada cresce até o tamanho de uma árvore pequena, ficando em pé apoiada no próprio caule, sem necessidade de qualquer apoio de varas ou de estacas, como requerem tanto heras quanto aboboreiras. Se, portanto, traduzindo palavra por palavra, eu tivesse colocado “ciceia”, ninguém entenderia o que isso queria dizer; se tivesse usado a palavra “aboboreira”, teria dito o que não é encontrado no hebraico. Coloquei portanto “hera”, para que não me visse diferindo de todos os outros tradutores. Mas se os seus judeus disseram, quer por malícia quer por ignorância, como você mesmo sugere, que a mesma palavra que está no texto hebraico encontra-se também nas versões gregas e latinas, é evidente que eles não são familiarizados com o hebraico, ou resolveram então dizer o que não é verdade a fim de zombar dos que plantam abóboras.
* * *
De Agostinho para Jerônimo, 405 d.C.
Peço-lhe, por favor, enviar-nos a sua tradução da Septuaginta, que eu não sabia que você havia publicado (…) a fim de que possamos ser libertos, tanto quanto for possível, das conseqüências da notável incompetência daqueles que, qualificados ou não, produziram uma tradução latina; e a fim de que aqueles que pensam que olho com inveja para os seus proveitosos esforços possam por fim, se possível, perceber que minha única razão em opor-me à leitura pública da sua tradução do hebraico nas nossas igrejas foi para evitar que, ao apresentar qualquer coisa que parecesse nova e contrária à autoridade da versão Septuaginta, perturbássemos com grave motivo de contrariedade os rebanhos de Cristo, cujos ouvidos e corações habituaram-se a ouvir aquela versão que tem o selo de aprovação dado pelos próprios apóstolos. Por conseguinte, quanto àquela planta do livro de Jonas, se em hebraico não é nem “aboboreira” nem “hera”, mas algo que fica em pé por si mesmo, apoiado pelo próprio caule sem a ajuda de escoras, eu preferiria chamá-lo de “aboboreira” como em todas as nossas versões latinas; pois não creio que os Setenta teriam-na traduzido dessa forma ao acaso, se não tivessem conhecimento de que a planta fosse em alguma coisa semelhante a uma aboboreira…

terça-feira, 29 de maio de 2012

Diversas palavras





Paulo Brabo

Para evangélicos e protestantes a Bíblia não é meramente um livro, nem mesmo um livro sagrado. É ”Palavra de Deus” (ou, às vezes, “a Palavra”) - não apenas a apresentação mais contundente e acurada da verdade revelada, mas uma entidade em si mesma, identificada em muitos sentidos com a pessoa e a autoridade do próprio Jesus, o Verbo (grego logos, Palavra) encarnado.

O problema é que, ao contrário dos muçulmanos, para os quais a única versão autorizada do Corão é aquela na língua original, os cristãos ocidentais contemporâneos convivem mais ou menos pacificamente com diferentes traduções alternativas daquele que é oficialmente o mesmo texto bíblico. A convivência é mais ou menos pacífica porque uma das obsessões do evangelicalismo está justamente em discutir o mérito relativo de diferentes versões da Bíblia - sendo que o que em geral se faz é defender-se a autoridade de determinada tradução e questionar-se apaixonadamente a validade das outras.

De todos os mitos que animam a discussão popular sobre o assunto, de longe o mais comum é o que fala de uma Idade do Ouro em que havia uma única e suficiente tradução da Bíblia, e estavam todos contentes com ela. A frustração com a pluralidade de versões é unânime entre os que se pronunciam sobre o assunto e tem sido expressa, em diversos idiomas, com palavras e argumentos similares. O raciocínio habitual a esse respeito é normalmente expresso mais ou menos da seguinte forma:

Alguém tem sabiamente dito, “um homem que só possui um relógio sabe que horas são, mas o homem que tem dois relógios nunca está seguro o bastante”. De uma maneira análoga, este é o problema com as muitas versões diferentes do Novo Testamento. Uma vez que existem muitas traduções da Escritura, todas alegando serem a Palavra de Deus, as pessoas não estão seguras de “que horas são”. Isto quer dizer, as pessoas não estão seguras de qual tradução (se é que há alguma) é verdadeiramente a Palavra de Deus.

Quem entra na roda e vê o calor da discussão tem motivos para sentir-se intimidado e confuso. Com tantas Bíblias na prateleira, qual é a versão definitiva? Qual é a autorizada? Dentre todas, qual é a Palavra de Deus?

A polêmica ao redor dessas questões, aquecida vez por outra com a publicação de uma nova versão “literal” ou parafraseada da Bíblia, pode gerar a impressão de que este é um problema recente.

Nada mais longe da verdade.

Unidade na diversidade

A variedade de traduções disponíveis da Bíblia já era um problema real na época de Agostinho (354-430 d.C.), o teólogo africano que estabeleceu os fundamentos da teologia moderna. Aos cristãos de fala latina da sua época, quase tão ansiosos quanto os de hoje para resolver a questão da versão mais fidedigna, Agostinho propôe em sua Doutrina Cristã duas soluções distintas. A primeira, ao mesmo tempo mais direta e mais exigente, requeria o conhecimento ou o aprendizado das línguas originais:

O grande remédio para a ignorância dos significados precisos é o conhecimento dos idiomas. E pessoas que falam a língua latina precisam de outros dois idiomas para compreender a Escritura, o hebraico e o grego, para que possam recorrer aos textos originais se a infinita diversidade de tradutores latinos os lança em dúvida.

Já no tempo de Agostinho, entretanto, o conhecimento do hebraico e do grego não era um remédio ao qual a grande massa dos cristãos podia ou se disporia a recorrer. Pensando nesses, para os quais o conhecimento das línguas originais representava uma impossibilidade prática, Agostinho propõe uma segunda solução. Ela baseava-se justamente na “infinita” diversidade de versões disponíveis:

E essa circunstância [a diversidade de traduções disponíveis] deveria facilitar ao invés de dificultar a compreensão da Escritura, se ao menos os leitores fossem menos descuidados. Pois o exame de um maior número de versões freqüentemente lança luz sobre uma passagem obscura. Por exemplo, naquela passagem do profeta Isaías [58.7], um tradutor diz ‘não despreze os domésticos da tua semente,’ enquanto outro diz ‘não dê as costas à tua própria carne’. Cada uma destas versões confirma a outra, pois uma é explicada pela outra. Quando as expressões usadas pelos dois tradutores são comparadas, sugere-se ao leitor um sentido mais provável das palavras, isto é, o mandamento de que não devemos desprezar nossos próprios familiares. Isso porque, quando se compara a expressão ‘domésticos da tua semente’ com ‘carne’ o significado de parentesco vem naturalmente à mente. (…) Não se pode determinar qual seja a tradução literal sem que se recorra ao texto na língua original, mas mesmo assim aos que as lêem com entendimento uma grande verdade pode ser encontrada em cada uma – pois é raro que os intérpretes divirjam tanto a ponto de não tocarem um significado importante.

O parecer de Agostinho é, portanto, que o estudo comparativo de diferentes traduções pode dar ao leitor da Bíblia uma idéia mais aproximada do texto original do que qualquer tradução isolada poderia fazer. Sobrepondo diversas camadas de traduções o leitor pode vislumbrar, através delas, o sentido original do texto, que seria de outra forma inacessível sem o conhecimento das línguas originais.

“O EXAME DE UM MAIOR NÚMERO DE VERSÕES FREQÜENTEMENTE LANÇA LUZ SOBRE UMA PASSAGEM OBSCURA. É RARO QUE OS INTÉRPRETES DIVIRJAM TANTO A PONTO DE NÃO TOCAREM UM SIGNIFICADO IMPORTANTE”.

É justo mencionar que Agostinho não menospreza a importância das traduções literais, “mais próximas à letra do original”. Sua recomendação final é que leitor não deixe de recorrer a elas:

Não que elas [as traduções literais] sejam suficientes, mas porque podemos usá-las para corrigir a liberdade e o erro de outros, que em suas traduções escolheram seguir o sentido das expressões tanto quanto as palavras.

A postura de Agostinho demonstra uma sobriedade que está, na prática, ausente das discussões contemporâneas a respeito do mesmo assunto. O teólogo enfatiza a importância das traduções literais e reconhece o valor das versões dinâmicas, mas nega a qualquer versão particular o status de definitiva. Segundo essa visão, nenhuma tradução é autônoma e suficiente, e todas devem ser vistas como ferramentas que só são úteis na medida em que se completam e se confirmam.

A Bíblia hebraica na biblioteca de Alexandria

Não devemos pensar, no entanto, que a grande explosão de traduções da Bíblia começou na época de Agostinho, nem supor que o teólogo introduziu na polêmica uma tolerância que não existia antes.

De fato, no que diz respeito às versões da Bíblia os antigos mostraram-se em tudo menos resistentes à mudança do que os belicosos cristãos contemporâneos. Muito antes que o Novo Testamento começasse a ser escrito (quando o Antigo Testamento era ainda de direito o Novo), veio à luz uma tradução formal da Bíblia Hebraica em grego, para o benefício das incontáveis comunidades judaicas de fala grega espalhadas pelo Império Romano.

Essa tradução, que viria a ser conhecida como Septuaginta, foi produzida por volta do terceiro século a.C. na cidade egípcia de Alexandria, que abrigava na época a maior colônia judaica do Império fora da Palestina.

Segundo uma tradição preservada na (provavelmente espúria) Carta de Aristéas, a Septuaginta teria surgido da ambição do faraó Ptolomeu Filadelfo de ampliar o acervo da Biblioteca de Alexandria. Sabe-se que Fildelfo, hábil diplomata e governante ambicioso, planejara de fato transformar Alexandria no mais importante centro científico e cultural do seu tempo, e enxergava a vasta Biblioteca como seu eixo principal. Ele estava nesse intento quando, diz a lenda, um bibliotecário desaforado veio lembrá-lo que nas repletas estantes da Biblioteca faltava um volume com os livros sagrados dos judeus.

Filadelfo tinha tanto a sanha do colecionador de livros quanto os recursos para remediar a situação. Ele comprou a liberdade de mil prisioneiros judeus e mandou um grupo de representantes ao sacerdote Eleazar em Jerusalém, pedindo um cópia da Lei judaica e setenta e dois intérpretes, seis de cada tribo de Israel. A delegação de setenta e tantos tradutores (daí o nome de Septuaginta, que significa “setenta” em latim) foi enviada com essa tarefa para Alexandria, onde teria concluído a tradução do Pentateuco com assombrosa unanimidade em meros setenta e dois dias.

O vocabulário do novo

Não sabemos quando e exatamente de que modo o texto completo daSeptuaginta foi concluído, já que muitos tradutores diferentes parecem ter se engajado nas etapas posteriores do projeto. Fato é que a Septuaginta (hoje em dia também conhecida como LXX, “setenta” em algarismos romanos) alcançou em pouco tempo ampla popularidade, e era na época de Jesus a Bíblia de uso corrente dos judeus de fala grega do mundo mediterrâneo (e, não muito depois, também dos primeiros cristãos de fala grega).

Como não temos acesso ao texto usado como base, não temos como saber o quanto a LXX, como tradução, foi literal. Análises comparativas e testemunhos contemporâneos dão a entender que não muito. Em 130 a.C. Jesus ben Siraque, ele mesmo tradutor, opinava sobre a Septuaginta que “as mesmas coisas expressas em hebraico não têm a mesma força quando transpostas para outro idioma. Não apenas isso, mas até mesmo a Lei, as profecias e o restante dos livros diferem não pouca coisa quanto às coisas que dizem”.

TERMOS GREGOS PASSARAM A GANHAR SIGNIFICADOS HEBRAICOS.

Apesar das notórias liberdades tomadas pelos tradutores na sua versão do hebraico, o texto grego da LXX parece ter sido aceito, para todos os fins práticos, como tão confiável e abalizado – tão inspirado – quanto o original. Os próprios autores do Novo Testamento, quando citam passagens “das Escrituras” estão, na maioria das vezes, citando diretamente a tradução grega da LXX. Alguns de seus argumentos, na verdade, fazem mais sentido à luz da versão da Septuaginta do que à do texto autorizado da Bíblia em hebraico, o chamado Texto Massorético, fixado por exegetas judeus entre os séculos VI e X d.C.

Ainda mais importante foi o fato de que a versão da LXX inspirou o estilo, o vocabulário e a estrutura da argumentação dos autores do Novo Testamento, especialmente no que diz respeito a Paulo. Na transposição de palavras hebraicas para palavras gregas, termos gregos passaram a ganhar significados hebraicos. A palavra grega para “graça”, por exemplo, deixou de significar apenas “charme, beleza”, para passar a representar o favor e a postura benevolente de Deus. O mesmo se aplica ao termo “carne”, que Paulo usou em grego esperando que fosse entendido em suas implicações hebraicas.

A quinta coluna de Orígenes

Com a emergência do cristianismo a Septuaginta acabou perdendo a sua popularidade entre os judeus, passando a ser associada quase que exclusivamente ao público cristão. Novas traduções foram surgindo para preencher a lacuna.

Pelo menos três versões da Bíblia Hebraica para o grego vieram à luz durante o segundo século depois de Cristo. Um judeu ou prosélito de Ponto chamado Áquila produziu uma tradução radicalmente literal, talvez com o propósito refletido de opor-se à abordagem e à autoridade da LXX. Em contraposição à versão de Áquila, que muitas vezes sacrificava por completo o sentido e a gramática grega em favor da literalidade, dois tradutores posteriores, Símaco e Teodócio, produziram independentemente traduções bastante livres, em grego ao mesmo tempo acurado e fluente. Ambos chegaram a alcançar alguma popularidade entre os cristãos, que segundo Jerônimo preferiam ler em suas igrejas o livro de Daniel na versão de Teodócio.

No terceiro século o erudito cristão Orígenes empreendeu uma monumental revisão da Septuaginta, concluída em 245 a.C. Essa obra, que tomou vinte e oito anos de trabalho, ficou conhecida comoHexapla (Sêxtupla), e cada uma de sua páginas tinha seis colunas: na primeira ficava o texto hebraico do Antigo Testamento, na segunda o mesmo texto transliterado para letras gregas, na terceira a mesma passagem na versão em grego de Áquila, na quarta a de Símaco, na quinta a LXX revisada por Orígenes e na sexta a versão de Teodócio.

Embora nenhum manuscrito completo da Hexapla tenha sobrevivido, a iniciativa de Orígenes permanece como austero testemunho de uma concepção muito peculiar, e de certa forma perdida, a respeito da autoridade da Bíblia e da natureza e papel da tradução. Essa concepção encontraria eco na posição de Agostinho cem anos mais tarde: a idéia de que nenhuma tradução é boa a ponto de ser suficiente; de que a boa tradução é aquela colocada ao lado de outra contra a qual possa ser comparada.

Apenas a quinta coluna da Hexapla, a LXX de Orígenes, foi preservada na íntegra em diversos manuscritos sobreviventes. As revisões posteriores da Septuaginta foram, em grande parte, desenvolvidas a partir dela.

O mundo converte-se ao latim

Septuaginta era uma tradução para o grego da Bíblia Hebraica (a porção da Bíblia que os cristãos chamam de Antigo Testamento); a difusão do cristianismo, no entanto, dependia da propagação do ensino de Jesus e dos apóstolos, fixada nos evangelhos e nas cartas.

Apesar da popularidade e da universalidade do idioma grego em que foi originalmente escrito, logo surgiram diversas traduções independentes do Novo Testamento em outras línguas. Um dos primeiros esforços nesse sentido foi empreendido por Taciano, que no segundo século traduziu para o siríaco uma compilação dos quatro evangelhos que veio a ser conhecida como Diatessaron. Nos séculos que se seguiram foram produzidas versões do Novo Testamento em copta, armênio (reputada como uma das traduções mais fluentes e fiéis), georgiano e etíope, e porções da Bíblia foram traduzidas para inúmeros outros idiomas.

Ao mesmo tempo em que o cristianismo se expandia, outra importante e imprevisível mudança cultural ocorria em segundo plano: o latim começava a desbancar o grego como língua mais importante do ocidente. A língua de Roma avançava a passos largos no sentido de estabelecer a sua primazia como língua universal, uma primazia que não sofreria qualquer ameaça séria por mais de dez séculos.

Já em meados do quarto século circulavam porções traduzidas de ambos os testamentos em latim, de qualidade desigual e representando as mais diversas origens e tendências. Segundo Agostinho havia, lembremos, “uma infinidade de traduções”; segundo Jerônimo circulavam “quase tantas versões quanto cópias”. A necessidade de uma tradução formal e integral da Bíblia para a língua da vez acumulou-se até 382, quando o papa Dâmaso pediu ao eruditoJerônimo, recém-chegado a Roma, que se dedicasse à tarefa.

“HAVERÁ HOMEM QUE NÃO ME CHAMARÁ DE FALSIFICADOR?”

Jerônimo verteu a Bíblia para o latim a partir das línguas originais: o Novo Testamento a partir do grego e o Antigo Testamento a partir dohebraico. Sua tradução, que veio a ser conhecida como Vulgata (da palavra latina para “comum, acessível, popular”), não foi bem recebida inicialmente, especialmente porque ele havia ousado trabalhar a partir do Antigo Testamento em hebraico, apartando-se das soluções consagradas do grego da Septuaginta, que gente como Agostinho acreditava ser tão inspirada quando o texto hebraico.

Na carta que escreveu ao papa para apresentar a primeira porção daVulgata, a sua tradução dos evangelhos, Jerônimo expôe temores que se refletiriam na mente de tradutores posteriores, mas que no caso dele mostraram-se quase que inteiramente infundados: “haverá homem, instruído ou não, que ao tomar em suas mãos este volume, e perceber que o que lê não condiz com os seus gostos estabelecidos, deixará de irromper imediatamente em linguagem furiosa, e de chamar-me de falsificador e profano por ter tido a audácia de acrescentar o que quer que seja aos livros antigos, ou fazer quaisquer alterações e correções que sejam?”

O mais longo reinado

Nenhuma reação adversa impediu que a Vulgata alcançasse consagração sem precedentes, e se mantivesse por muitos séculos como a única Bíblia de uso universal do mundo católico europeu.

A tradução de Jerônimo, na verdade, influenciaria a história da igreja e da teologia mais do que nenhuma outra. A Vulgata deixou como herança grande parte da terminologia teológica moderna (é por causa dela, por exemplo, que sabemos que no princípio era o Verbo). AVulgata foi também a ponte através da qual inúmeras palavras e conceitos do grego chegaram até nós.

Vulgata sofreria perdas com a acumulação de erros dos copistas, e passaria por importantes revisões ao longo dos anos, mas sua reputação permaneceria praticamente intocada por mais de um milênio. Foi a Bíblia dos monges e mosteiros e abades e reis católicos e cruzados e cavaleiros e descobridores e inquisidores. De fato, a Vulgata foi a Bíblia, a versão padrão e universal da Bíblia, por mais tempo do que qualquer outra.

Mil anos depois da chegada de Jerônimo a Roma, Wycliffe colocou o ponto final na sua famosa tradução da Bíblia para o inglês: era uma versão literal da Vulgata.

Quando Lutero pregou as suas indignadas teses nas portas da igreja de Wittenberg, elas estavam escritas em saudável latim.

Do latim da Vulgata nasceria tanto a reforma quanto a língua portuguesa.

A Bíblia que Jesus lia, e a outra que ele citava

Para resumir o que foi dito pode ser útil visualizar na linha do tempo as duas porções da Bíblia e suas duas principais traduções na Antigüidade:

Não devemos deixar que essa simplificação nos faça perder de vista o fato de que em cada um desses intervalos circulavam inúmeras traduções independentes do texto bíblico, numa infinidade de idiomas.

Muitas delas, na verdade, “circulavam” antes de serem colocadas por escrito.

Cinco séculos antes de Cristo, quando os judeus começaram a voltar do exílio babilônico para a Palestina, o aramaico passou a substituir gradualmente o hebraico como língua falada no dia-a-dia. Nos dias de Jesus o hebraico era usado apenas nas discussões teológicas e no culto, e o aramaico era a língua geral da população.

Logo tornou-se prática usual, para benefício do público, traduzir e explicar em aramaico cada porção da Escritura hebraica lida na sinagoga. Essas versões livres do Antigo Testamento em aramaico foram repetidas e buriladas até o ponto de alcançarem formas fixas que, como o restante das tradições judaicas, passaram a ser transmitidas oralmente. Essas traduções, algumas delas rígidas, outras mais livres do que a mais selvagem paráfrase contemporânea, ficaram conhecidas como targumim (singular targum)da palavra hebraica targem, “transpor, parafrasear, interpretar” (conformeEsdras 4.7).

Vários targumim coexistiam pacificamente na Palestina do tempo de Jesus. Mesmo antes de serem colocados por escrito (a partir do primeiro século, provavelmente) os targumim já desfrutavam de ampla aceitação, e eram por vezes vistos como tendo a mesma autoridade dos textos originais. De fato, algumas citações do Antigo Testamento feitas pelos autores do Novo estão mais próximas do texto na versão dos targumim do que do original em hebraico ou do grego da Septuaginta (por exemplo, Marcos 4.12 e Efésios 4.8).

Pelo que sabemos o próprio Jesus pode ter feito uso das versões livres dos targumim, já que com toda a probabilidade ele falava ao povo em aramaico, a língua das multidões. Evidência em favor dessa idéia é o grito registrado em Marcos 15.34: “Eli, eli, lama sabactani”, uma citação em aramaico do salmo 22.1.

OS JUDEUS DO TEMPO DE JESUS PRENDIAM-SE MENOS ÀLETRA DA LEI DO QUE OS ACIRRADOS CRISTÃOS CONTEMPORÂNEOS.

Esta brevíssima visão geral das versões da Bíblia na Antigüidade bastará para demonstrar que a questão da validade das traduções da Bíblia é muito mais antiga do que costumamos imaginar. Especialmente admirável, no que me diz respeito, é ver nos antigos um grau de maturidade e independência intelectual maior que o dos que hoje em dia se degladiam sobre a questão.

Fato é que os judeus do tempo de Jesus e os primeiros cristãos prendiam-se menos à letra da lei do que os acirrados cristãos contemporâneos. Eles acreditavam na coexistência de diversas traduções e paráfrases, e faziam uso de uma ou de outra versão sem aparente constrangimento. Orígenes e Agostinho defendiam com igual convicção a idéia de que a análise de diferentes traduções possibilitava ao leitor da Bíblia um vislumbre sobrenaturalmente claro do sentido do texto original – mais claro do que qualquer tradução isolada seria capaz de suprir.

Fato é que os escritores do Novo Testamento, quando citavam o Antigo, faziam uso tanto do texto interpretado dos targumim quanto da tradução grega da Septuaginta. Nas sinagogas, como as freqüentadas por Jesus e por Paulo, transitavam traduções e paráfrases amplamente aceitas do Antigo Testamento, tanto em aramaico quanto em grego.

Fato é que a única citação bíblica que Jesus fez na cruz foi uma tradução.





segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nele





Liesel Hoffmann


Não sou brasileira, mas sou quase. Meus pais Alfons e Helga saíram de Hamburgo em abril de 1990, quando meu irmão Wolfgang e eu éramos crianças de 10 e 3 anos, respectivamente, e se instalaram em Salvador, Bahia. Desde Hamburgo meus pais eram luteranos, e mantiveram a religião na Bahia, apesar da forte presença católica e das religiões afro-brasilienses. Cresci ouvindo falar em Deus como um controlador do universo, a quem os seres humanos devem obediência e medo. Sempre ouvia falar na igreja que Deus é quem permite ou proíbe que as coisas aconteçam em nossa vida. Me lembro de uma vez num sermão o reverendo comparar Deus a um controlador de voo, responsável por manter os aviões no ar. Nesse dia me lembro de ter falado ao meu pai: mas os aviões caem... 





Crescemos e fomos para o bairro da Moóca, em São Paulo, sempre com a visão de Deus como o controlador do Universo. Eu, por ter vindo para cá bem nova não tive muitos problemas com o idioma, ao contrário de meu irmão que, assim como meus pais, não entendiam o uso dos artigos e pronomes com substantivos masculinos e femininos, o que os levava a falar coisas com "meu casa", "meu mãe", "minha pai", "a namorado de meu irmã", "meu cunhada" e coisas assim, o que sempre era motivo de piada entre os amigos brasileiros. 





Em 2004, meu irmão resolveu fazer faculdade. Aos 24 anos achou que poderia seguir carreira em São Paulo mesmo, já que meus pais não pensavam em voltar para a Alemanha e ele também não tinha o menor interesse em voltar. Se sentia muito bem no Brasil. Nós no sentíamos bem. Iniciou, em fevereiro, o curso de Publicidade e Propaganda no Presbiteriano Mackenzie, uma das melhores faculdades de São Paulo. Havia acabado de adquirir um carro. Tinha uma belíssima namorada brasileira, que era modelo na época. Ele estava muito feliz com a vida. Falava que era um "quase brasileira", e fazia os amigos rirem com isso. Meu irmão e eu nos dávamos muito bem. Ele era meu melhor amigo e eu era a melhor amiga dele, a ponto de confidenciarmos um com o outro coisas que nem nossos pais sabiam. Ele me ensinou a dirigir e eu o ensinava a falar português. Nós nos amávamos muito. Eu o tinha como um herói, e ele me via como uma boneca de porcelana, com ele mesmo dizia. 





No dia 27 de maio de 2004, ao sair da faculdade, meu irmão foi abordado por três homens que o mandaram entregar o carro. Sem esboçar qualquer reação meu irmão lhes entregou a chave e se afastou. Ao entrar no carro, um dos homens acertou meu irmão com um tiro que foi fatal: na mesma hora ele caiu morto em frente a faculdade. Naquele dia eu perdia uma das pessoas mais importantes da minha vida: Wolfgang Rudolph Jung Hoffmann, o Wolf, meu irmão a quem eu tanto amava, que morreu aos 24 anos. A família entrou em crise: meus pais se desesperaram, meus tios pensaram em fazer justiça com as próprias mãos. Mais ainda: minha crença em Deus se esvaziou por completo. Eu, uma adolescente de 17 anos totalmente descrente de Deus. Me lembro de ter dito: que Deus controlador é esse que permite um rapaz tão cheio de vida como meu irmão morrer de uma forma tão injusta? Ninguém me respondia. Na catedral luterana o reverendo dizia apenas: "deus quis assim". Quis assim como? Ele fica feliz com a desgraça da família dos outros? Onde fica o tal amor que a Bíblia tanto fala?





Para encurtar a história, nos mudamos para o interior de SP em 2004 mesmo e em 2005 voltei para São Paulo, para morar sozinha e iniciar minha vida com meus próprios braços. Em dezembro de 2009 minha família resolveu voltar para Hamburgo, Alemanha. O Brasil, essa terra abençoada de gente alegre, era doloroso demais para minha mãe, que lamenta por ter passado uma tragédia tão grande num país tão bonito. E eu que não tinha nada a perder voltei também, mas agora para Berlin, onde vivo hoje.



Desde que meu irmão se foi perdi totalmente a fé em Deus. Fiquei depressiva. Precise de acompanhamento psiquiátrico. Tive crises emocionais. Tinha momentos terríveis em que precisava ser socorrida por estar em uma crise nervosa. Me lembro de um dia, já em Berlin, durante uma crise emocional onde eu gritava de desespero eu dizer: dá pra sair da minha vida, Deus? Você já me trouxe prejuízos demais. E assim vivi. Não queria correr o risco de crer num Deus que eu pensava proteger os que amo e ter de conviver com novas tragédias. 





Agora, depois de viver e estar totalmente estabilizada aqui, começo a ver Deus de uma outra forma. Li o livro de um teólogo chamado Jurgen Moltmann e venho lendo algumas coisas sobre Deus escritas  por alguns líderes religiosos brasileiros. Um deles é o reverendo Ricardo Gondim, da Igreja Betesda em São Paulo. Estou descobrindo uma outra forma de ver Deus: ele não tem nada a ver com os acontecimentos humanos. Deus não controla nada, mas ama os seres humanos e lhes apoia nos momentos difíceis. Há alguns dias atrás, depois de ouvir um dos sermões do rev. Gondim pela internet cheguei à conclusão: Deus não teve nada a ver com a morte do Wolf, pois ele não permitiu nada, mas foi ele quem me ajudou a aguentar viva quando eu tentei tirar minha vida 15 dias após a morte dele. Comecei a chorar na hora. Pedi perdão a Deus por te-lo culpado pelas desgraças da minha vida. Espero que ele me perdoe por isso! 





Ainda tenho várias dúvidas sobre Deus. E até hoje não me recuperei do trauma da morte do Wolf, mas aos poucos as coisas estão se encaixando. Mas independente de uma coisa e outra agora estou me sentindo melhor comigo mesma. Hoje faz exatamente 8 anos que meu irmão se foi, e é o primeiro ano que passo o dia inteiro sem qualquer crise depressiva. Ainda relembro a cena que vi quando cheguei em frente à faculdade, mas lido melhor com isso. Entendo que todos estamos sujeitos à tragédia.



Espero que esse texto seja mais um passo rumo à cicatrização dessa ferida tão dolorosa. 




domingo, 27 de maio de 2012

Pode ou não pode?

 

Fonte: Betesda TV

O testamento do Rei

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Se levarmos em conta que as promessas da vinda do Messias tornaram-se explícitas somente a partir do reinado de Davi, cerca de mil anos antes de Jesus, os cristãos têm esperado pela segunda vinda do Messias por mais tempo do que os leitores da Bíblia Hebraica tiveram de esperar pela primeira. O “Messias longamente esperado”, lembrado inevitavelmente na narração das peças de Natal, não é aquele que nasceu na manjedoura: é aquele que ainda não voltou.

O retorno do Rei

Segundo a meada bíblica, a cronologia das coisas é mais ou menos assim: dois mil anos antes de Jesus, Deus encheu de esperanças epromessas a vida de um velho Abrão, àquela altura ainda sem filhos. Mil anÍos depois seu descendente Davi consolidou o reino de Israel, e Deus fez a ele outra comprometedora e ainda mais embrionária promessa: que da sua descendência nasceria o Rei que reinaria eternamente.

Se, como crêem os cristãos, esse anunciado rei eterno é Jesus, na linha do tempo Davi está mil anos mais próximo dele do que nós:

Há dois mil anos, portanto, os cristãos vêm aguardando a volta definitiva de seu redentor, prometida por ele mesmo e entusiasticamente anunciada pelos seus apóstolos e primeiros discípulos. Mesmo para os que nutrem esperança de que não será necessário esperar outro tanto, a aparente demora do retorno do Rei apresentou conseqüências muito práticas e gerou obstáculos de natureza muito peculiar, como tiveram de perceber os seus discípulos após as primeiras poucas décadas de espera.

Ordens do Rei

Uma das últimas e mais categóricas ordens do Rei, por exemplo, dizia que a boa nova do seu Reino fosse anunciada a todas as nações.

Mesmo sem saber ao certo quantas nações havia para serem atingidas, os primeiros seguidores de Jesus tomaram amplas providências para que a mensagem do seu Reino fosse preservada e começasse a ser divulgada de imediato. Nada menos do que quatro biografias autorizadas de Jesus (os livros que viríamos a conhecer como evangelhos) começaram a circular nas primeiras décadas depois da ressurreição, todas aparentemente escritas por discípulos muito próximos dele ou dos apóstolos.

Aspectos essenciais da mensagem também foram registrados e começaram a ser divulgados através de um meio de comunicação que apenas recentemente o complexo sistema viário romano havia tornado confiável e acessível: a correspondência.

De fato, os primeiros cristãos viveram naquele que talvez tenha sido o primeiro momento da história em que surgia um sistema de troca de informações em larga escala com um grau satisfatório de eficiência e rapidez: em condições favoráveis, uma carta podia chegar de uma província distante a outra em questão de poucos meses.

Não sabemos ao certo, mas calcula-se que cem anos depois de Cristo o Novo Testamento já estava completo há algum tempo: as palavras do Rei estavam sensatamente preservadas nos evangelhos e nas cartas, e uma quantidade sempre crescente de manuscritos dessas obras (copiados trabalhosamente à mão) transitava livremente pelas comunidades cristãs.

Primeiro ao judeu, mas em grego

No primeiro capítulo da sua carta aos Romanos o Apóstolo esclarece que a boa nova de Jesus dirige-se “em primeiro lugar ao judeu, mas também ao grego”. De fato, os primeiros discípulos foram todos judeus de nascimento, que falavam hebraico nas sinagogas earamaico no dia a dia. Quando a boa nova começou a espalhar-se para fora da Palestina, os primeiros a serem atingidos foram também os judeus. Mesmo crendo-se chamado por Deus para pregar aos gentios (a maioria não-judaica do Império) a primeira coisa que Paulo fazia em cada cidade de fala grega que visitava era falar para os judeus na sinagoga local.

Sendo os primeiros discípulos judeus, pode então causar surpresa a revelação de que os livros do Novo Testamento (inclusive a própriacarta de Paulo aos Romanos e a carta aos Hebreus) foram com toda a probabilidade escritos e começaram a circular em grego – não em hebraico ou aramaico.

O grego era naquele momento da história o principal idioma do mundo mediterrâneo. Embora a língua oficial do governo romano fosse o latim, e embora as colônias não fossem de modo algum obrigadas a abandonar o uso de seus idiomas originais, o grego era a língua internacional, falada e entendida de um extremo a outro do Império. Até os judeus da Dispersão, sempre cautelosos em abraçar outros aspectos das culturas estrangeiras, viram-se adotando o grego como língua geral.

Se a idéia era, como havia ordenado o Mestre, atingir todas as nações, escrever em língua grega deve ter parecido aos evangelistas e primeiros discípulos a única escolha sensata. Para o fim em vista, não havia de fato uma alternativa.

O testamento do Rei

Por muito tempo, então, o fato de ter sido escrito em grego foi para o Novo Testamento mais uma vantagem do que um problema. As cópias se multiplicavam e o Testamento do Rei já não corria o risco de ser perdido ou esquecido.

Logo no princípio, porém, pessoas de outras culturas começaram a requerer o privilégio, hoje banal, do acesso ao texto do Novo Testamento em suas línguas maternas. As palavras dos evangelistas e apóstolos foram pela primeira vez transportadas, com diferentes graus de sucesso, para idiomas que os autores originais não dominavam e não teriam compreendido. O texto do Novo Testamento havia sido solto das amarras seguras do seu idioma de origem e começava uma longa e arriscada viagem de navegação cultural que o levaria, se tudo desse certo, a aportar não longe de nós.

Certo é que, no caminho, a transmissão da boa nova teria de transpor dificuldades e distâncias que seus autores não tinham como prever. A sua mensagem teria de alcançar não apenas nações distantes – esse desafio, na verdade, se mostraria relativamente simples. Ela teria de alcançar línguas e culturas que só nasceriam séculos mais tarde.Todas as tribos, povos e raças seriam atingidas, mas grande parte delas estava ainda para nascer.

A história das traduções da Bíblia é a história de gente que cria trabalhar na preservação do Testamento do Rei – gente que lutou em inúmeras frentes (pensando-se às vezes em lados opostos) para que o Rei, quando finalmente voltar, possa encontrar “fé na terra”.

E para que os que restarem possam saber o que isso significa.



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