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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Imcompreensões

Eliel Batista

Me assusta quando vejo pessoas desinteressadas por qualquer conhecimento teológico, quando tudo o que aprenderam sobre sua fé vir apenas da repetição de interpretações oficiais denominacionais, terem um enorme interesse em decidirem quem é quem na sã doutrina.
 
Não existe teologia como verdade absoluta.
 
Existem sim, muitas teologias que formam o cristianismo, razão pela qual existem diferentes cristãos, denominações e linhas teológicas.
 
Este conflito teológico vem desde sempre quando, por exemplo, Paulo teve que resolver o problema de alguns quererem ser dele, de Apolo, de Pedro ou ainda de Cristo. Carnalidade para Paulo não era existir diferente pensar cristão, mas sim tornar isto um fator divisor, de guerra entre irmãos.

A INCOERÊNCIA
 
Ricardo Gondim tem sido sistematicamente acusado de: Liberal, Teísta Aberto, universalista, ecumênico, defensor da causa gay, teólogo da libertação, ateu e outros rótulos que comprovados com “provas convenientes” servem para sabe-se lá o que.
 
Quem assim pensa e age, nem se quer se dá ao trabalho de refletir que por si só, os inúmeros rótulos deveriam demonstrar que há algo incompreendido.
 
É possível alguém ser tantas coisas ao mesmo tempo? Não seria melhor pensar que outra coisa estaria sendo dita?
 
Dizem que suas pregações são excelentes, mas sua teologia não. Um verdadeiro contrassenso, pois toda pregação é fruto de uma teologia. Há quem chegou a dizer que a pregação agrada porque “no púlpito ele mente”.
 
Quer dizer, ele ficou rotulado de tal forma que os fatos não servem para nada, apenas os achismos apresentados com cara de verdade.
 
O que ele mesmo diz e como ele é não serve para seus opositores como comprovação do que ele crê, mas somente o que opinam sobre ele.
 
Aquilo que se divulga na internet é usado convenientemente como mais verdadeiro do que a própria vida da pessoa.

O FUNDO DO PROBLEMA
 
Por mais que o Gondim diga que crê em Deus, em seu poder, que Deus é o único Senhor, não lhe ouvem. Por que?
 
Porque ele afirma que este senhorio não nega o homem e nem impõe seu poder, antes ama e liberta.
 
Quanto ao controle divino, mesmo sabendo que não há quem de fato tenha uma fé prática em que Deus esteja no controle, pois se assim fosse, não haveria orações, nem crenças em milagres, discordam de seu posicionamento.
 
Um ataque ilógico e incoerente, mas que junta provas improváveis. Vejamos!

O TEMA DA HOMOSSEXUALIDADE
 
Gondim posicionou-se a favor de um estado laico e, portanto, não poderia negar o direito civil da união homossexual, porém a divulgação que ocorreu em sites de fofoca gospel distorceu o fato enfatizando que ele “defende casamento gay” ou ainda que “Gondim apoia a PL122”.
 
Neste tema ainda, surgiu a ideia do deputado Jean em fazer uma moção de aplauso ao Frei Betto por um texto que escreveu e alguém sugeriu que fizesse também ao Gondim, tendo em vista a perseguição contra ele por se posicionar a favor do direito dos homossexuais à uma união civil.
 
Adivinhem qual foi a divulgação da fofoca com cara de notícia?
 
Que o Gondim receberia a moção por apoiar a causa GLBT.

A VOLTA DE CRISTO
 
Em um vídeo divulgado na internet, o Gondim apresenta de maneira breve e genérica as diferentes linhas teológicas, ou modelos da escatologia, e coloca uma “novidade”, pelo menos para os paupérrimos leitores do movimento evangélico brasileiro: uma pequena parte da teologia do alemão Jürgen Moltmann.

CONTEXTO DO RACIOCÍNIO
 
Como não há possibilidade de se tecer comentário sobre uma teologia, sem colocá-la em seu contexto, é importante perceber mesmo que superficialmente, quais as pilastras desta teologia.
 
Moltmann teve seu encontro com Cristo como prisioneiro de guerra quando lhe entregaram um N.T. com Salmos. Ele sofria horrores e profunda vergonha do que sua nação, a Alemanha, fizera.
 
Dedicou-se aos estudos, e não se conformava com a “Igreja Estatal” que para ele, inviabilizava o cristianismo e demonstrava um ateísmo dentro do cristianismo.
 
Dentro disto, viu que um grande problema do “cristianismo confessional” era de uma escatologia que negava a felicidade para o humano agora, remetendo-a somente ao futuro e tornando a fé somente teórica.
 
Em suma, sua conclusão sobre a teologia foi de que ela tem que ser construída à luz de seu objetivo futuro.
 
Escatologia não deve ser o seu fim, mas o seu começo.
 
Para Moltmann, criação e escatologia dependem um do outro. Existe um processo contínuo de criação, Deus não foi só o Criador, Ele é.
 
E por fim, a consumação da criação consistirá na transformação escatológica da criação para a nova criação.
 
Quer dizer, Moltmann não nega um fim, mas busca ler o texto em seu sentido prático e de seu propósito – para o que a revelação foi dada, e isto a partir da ressurreição de Cristo. Ele se esforça em transferir a Revelação para a ação, pois para ele a fé não é a-histórica, mas a história é a Revelacional.
 
O objetivo da revelação, portanto, é colocar o cristão como um cristão no mundo.
 
Voltando ao vídeo, depois que o Gondim apresentou o modelo conhecido e chamou a atenção para o que este modelo, ou ainda teoria sobre o fim, (se não fosse teoria não existiriam muitas), tem causado na prática de fé, que é a negação de uma ação cristã no mundo, propôs a escatologia da esperança de Moltmann, pois ela coloca em ação a revelação.
 
Em dada altura do vídeo o Gondim disse que a ideia seria sair de um modelo, mas não jogar fora o outro e ainda lança uma retórica do para que serviria este modelo de Moltmann, respondendo que tem por objetivo demonstrar o Reino hoje.
 
Em outras palavras, um convite para se compreender o tema Volta de Cristo em duplo sentido:
 
Um fim que além de ser fim, serve como modelo daquilo que devemos realizar.
Interessante a rejeição deste modelo, já que o mesmo utiliza-se das mesmas ferramentas teológicas usadas no outro.
 
Qualquer pré-tribulacionista para fazer valer sua teoria escatológica, lê a Bíblia em duplo sentido:
 
Algo que de fato aconteceu serve de modelo profético para aquilo que virá.
Pois, pergunto qual o problema de se ler algo que virá como modelo daquilo que deve acontecer?
 
A teologia de Moltmann propõe outro modelo, que convoca a uma prática de fé.
Mas qual a divulgação?
 
Que para ele a volta de Jesus é fictícia!!!

ESCATOLOGIA OFICIAL?
 
E demais a mais quem elegeu a escatologia compreendida no Brasil como a verdade oficial divina?
 
A história revela diferentes compreensões e interpretações para a Bíblia e isto nunca descaracterizou o cristianismo.
 
Já se considerou Eclesiastes como a insanidade de Salomão. E quanto a Lutero que recusava a carta de Tiago como um livro inspirado?

BREVE RELATO HISTÓRICO:
 
No início do século XIX John Nelson Darby, depois de ordenado pela igreja da Inglaterra repudiou-a para esperar a volta de Cristo e se uniu a um grupo puritano de Irmãos, que em 1830 formaram os irmãos Plymounth.
 
Suas ideias não foram bem recebidas pela igreja da Inglaterra onde não obteve muito sucesso, mas extremamente bem recebida e difundida nos Estados Unidos.
 
Ele escreveu 32 volumes que estruturaram os pré-milenaristas.
 
Ele afirmou que Deus lida com a humanidade em fases específicas. Desta maneira o relógio do tempo parou com a crucificação e ressurreição de Jesus – primeira fase, e o arrebatamento – segunda fase, faria com que o relógio do tempo voltasse a funcionar.
 
Disto se seguiria a tribulação, o Armagedom e aquele restante que normalmente se aprende na Escola Bíblica Dominical.
 
Ele insistiu em algo que a Igreja jamais admitiu: a Bíblia precisava ser lida literalmente. Se a Bíblia é Palavra de Deus, e sua palavra é profecia, e é orientadora para casa pessoa, nada demais fazer de sua leitura uma “bibliomancia”.
 
Nasceu assim o lema de que a Bíblia nunca erra, mas seus intérpretes sim.
 
 Aqui cabe a pergunta:
 
Crendo desta maneira não é contraditório acreditar em intérpretes?
 
Ou ainda acreditar em quem faz afirmações categóricas de suas interpretações?
 
Se sim, discordar de qualquer interpretação em nome da sã doutrina não faz o menor sentido.
 
É Darby que trás para o contexto cristão o tema de arrebatamento, fator deflagrador do fim com o início da Grande Tribulação, inclusive acreditando que se daria antes de morrer em 1882.
 
Incorporado por Scofield que em sua Primeira Bíblia de Referência explica esta teoria detalhadamente.
 
Assim esta interpretação foi recebida no século XX no Brasil como oficial.

O PROBLEMA EM SI
 
Qual o pecado do Gondim? Não crer? Não! Seu pecado é pensar diferente.
 
Qual o pecado de seus detratores? Não querem ler, entender e nem ouvir. Tudo é pretexto.
 
No fundo não é por causa do que se pensa, é o inconsciente coletivo religioso que criou a necessidade de se ter um inimigo ou este tipo de fé não sobrevive.
 
Ouso afirmar que se houvesse possibilidade de se comprovar que o diabo não existe, as igrejas esvaziariam, pois este tipo de cristianismo não se desenvolve no amor, mas na guerra.
 
Não vejo nenhum problema naqueles que se dedicaram aos estudos, conheceram as diferentes linhas teológicas, para não chamar de teorias, e fizeram sua escolha sobre onde apoiar sua fé.
 
Mas considero uma grande insanidade e maldade considerarem que suas escolhas são a verdade absoluta, colocando qualquer pensamento diferente como heresia ou anticristã. E pior ainda, cheios de textos bíblicos incitar os que ignoram estes assuntos contra os que não escolheram as mesmas teorias.
 
Independente da linha teológica, nada mais anticristão do que incitar um contra o outro.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

ONU precisa de doações para operação histórica de socorro após declarar fome na Somália

ONU precisa de doações para operação histórica de socorro após declarar fome na Somália
A pior seca em décadas agravou a situação na Somália onde quase metade da população – 3,7 milhões de pessoas – é atingida pela crise humanitária. Destas, 2,8 milhões vivem no sul, fazendo com que as Nações Unidas declarassem fome em Bakool e Baixa Shabelle nesta quarta-feira (20/07).
“Cada dia de atraso na ajuda é literalmente uma questão de vida ou morte para crianças e suas famílias nas áreas afetadas pela fome”, disse o Coordenador de Assistência Humanitária da ONU para a Somália, Mark Bowden.
A fome é declarada quando taxas de subnutrição aguda atingem mais de 30% das crianças, mais de duas a cada 10 mil pessoas morrem por dia, e não há acesso a comida e outras necessidades básicas. No sul da Somália, mais de seis crianças com menos de 5 anos a cada 10 mil estão morrendo por dia. Nos últimos meses, dezenas de milhares de somalis morreram de fome, a maioria crianças.
“Se não agirmos agora, a fome vai se espalhar por todas as oito regiões do sul da Somália em dois meses, por causa das colheitas escassas e surtos de doenças infecciosas”, prevê Bowden. “Ainda não temos todos os recursos para alimentos, água limpa, abrigo e serviços de saúde para salvar as vidas de centenas de milhares de somalis em necessidade desesperadora.”
Assistência emergencial
Para agilizar a entrega de suprimentos para as áreas mais afetadas, a ONU iniciou o transporte aéreo de urgência médica, nutricional e de abastecimento de água. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) avalia uma série de opções para assegurar que os mais necessitados recebam ajuda, incluindo o envio de biscoitos altamente energéticos e suplementos alimentares altamente nutritivos, especialmente para crianças, grávidas e mães que estão amamentando.
Esta pode se tornar a maior operação de distribuição destes produtos já realizada na história, segundo a agência. “Operações na Somália estão entre as de maior risco no mundo e o PMA perdeu 14 funcionários lá desde 2008”, disse a Diretora Executiva do PMA, Josette Sheeran.
As agências da ONU pediram 1,6 bilhão de dólares para os programas essenciais no Chifre da África, mas só receberam metade da quantia. Quênia, Somália, Etiópia e Djibuti estão enfrentando a pior crise em 50 anos. Aproximadamente 11 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária.
Como ajudar
Doações podem ser feitas por meio do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, clicando aqui), do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR, clicando aqui) – escolher Somália -, do Programa Mundial de Alimentos (PMA, clicando aqui) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, clicando aqui).

Há consolo no luto?

Ricardo Gondim

Ao abraçá-la, senti seu corpo magro. Notei que seus olhos baços me contemplavam sem entusiasmo. Na primeira palavra, percebi a voz quebrada de uma mulher sofrida. Eu imaginava, mas não alcançava a angústia que minha amiga atravessava. Ela experimentava a hora mais dolorida e mais terrível da existência: a hora do luto.

A morte é sorrateira, insidiosa, traiçoeira. Alguns, desenganados, recebem o bilhete fatal e dispõem de tempo para arrumar a casa antes da partida. Mas para minha amiga a guilhotina desceu sem aviso. A morte não respeitou sequer possíveis imaturidades de sua alma; serpenteou, deu o bote, feriu e carregou quem escolheu. O que dizer, diante de uma mãe que chora, de uma esposa que perdeu o chão e que não sabe mais se terá forças para achar um norte?

As respostas aparentemente confortadoras se esvaziam. “Deus tem um plano”; “Ele leva para si os bons”; “Chegou a hora”. Tais frases, funcionam como aspirina que alivia sem curar o problema. Em um esforço medonho de não parecer professoral, procurei oferecer-lhe outro modelo de como perceber os atos misteriosos de Deus. Mas logo notei que meu esforço era inútil. Minha amiga esperneava dentro da cerca teológica que fora educada. “Deus governa e como um dramaturgo celestial, conduz o desenrolar de nossas vidas. Deus não permite que nada aconteça sem que esteja previsto em seu roteiro”.

Silenciei, abraçado. Depois, voltei ao hotel e chorei. Por horas não consegui apagar o sofrimento daquela mãe. Além de ter que aprender a repetir a litania fúnebre do “nunca mais”, ela terá de brigar com o seu Deus. Que tristeza! Deitado, insone, escutei sua indignação lacerante: “Por que Deus é tão obscuro em seus planos? Por que, tão indiferente? Vou ter que esperar quanto tempo até entender seus motivos para levar (“levar” não passa de um pobre eufemismo para “matar”) um pai precioso, um amigo querido, um filho especial?”. Debulhei-me em lágrimas.

A morte baterá em outras portas e continuará a subtrair vidas. Não distinguirá justos de injustos. Traficantes viverão mais que mulheres bondosas. Pais enterrarão seus filhos, quando o certo deveria ser o contrário. Acidentes eliminarão de uma só tacada, jovens e idosos. Os amigos de Jó erraram nas conjecturas sobre o sofrimento universal. O justo Jó via-se arrasado por todo tipo de infortúnio, mas eles continuavam sem a menor idéia dos porquês. Não, não me arvoro a decifrar o enigma dos enigmas.

Contudo, prefiro a revelação bíblica de um Deus que não é um títere a puxar cordões de marionetes. Chamo-o de Emanuel: O Deus presente em nós. Jesus encarnou e viveu a sua humanidade até as últimas consequências. Semelhantes a ele, no espaço de nossa liberdade, também estamos cercados de perigos, e sempre à beira do derradeiro suspiro. Deus não arbitra quem morre e quem vive segundo critérios inacessíveis, mas se compromete a revelar seu amor quando o soluço da perda for asfixiante. Deus se mostra em cada abraço, em cada palavra de solidariedade e em cada gesto de lealdade. “A nossa dor dói em Deus”, disse Isaías. Sim, Deus é cheio de compaixão - Segundo as duas raízes de “com-paixão”, Deus “sofre junto”.

Nada sei e nada posso especular sobre a morte, mas minha intuição avisa que reconhecer a companhia fiel de Deus traz mais conforto do que ficar questionando o porquê.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O credo narrativo dos judeus

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

No princípio eram os judeus. Isso foi antes dos cristãos.

Outro modo de dizer a mesma coisa é lembrando que antes da teologia havia a narrativa.

Os cristãos, certamente sob a influência do pensamento [circular] greco-romano, aprenderam logo a expressar e compreender a sua fé sob a forma de conceitos e abstrações: idéias como salvação, remissão, morte substitutiva, eleição, trindade, onisciência, justificação e predestinação; coisas que habitam uma dimensão paralela fora do tempo e da experiência do dia-a-dia.

Menos ambiciosos e certamente mais coerentes com a tradição bíblica, os judeus desde o começo (e até os nossos dias) entenderam a sua vocação de um ponto de vista narrativo. O que os judeus sabem é que fazem parte de uma história singular e é isso que os define e lhes basta. Não há espaço para teologia porque não há simplesmente necessidade dela.

Esse modo linear de ver o mundo, como uma narrativa que progride de um ponto a outro sob a direção de Deus, era tremendamente inusitado no cenário em que surgiu há cerca de quatro mil anos – época em que o que predominava eram os ritos circulares. A singularidade dessa consciência histórica sustentou a sobrevivência do judaísmo por milhares de anos diante da mais selvagem competição de religiões alternativas, inclusive por parte do cristianismo. A visão de mundo linear seria silencioso gatilho, séculos depois, de escolas de pensamento como o positivismo (que abriu mão da condução de Deus mas não do otimismo com relação à trajetória da flecha da história, que, cria-se, acabaria atingindo seu alvo glorioso).

A diferença de visão de mundo entre judeus e cristãos fica mais espetacularmente evidente quando se compara o credo de um com o de outro. A profissão de fé judaica, a ser repetida anualmente pelo adorador quando trazia ao santuário os primeiros frutos da colheita, encontra-se no trecho entre o quinto e o décimo verso do vigésimo-sexto capítulo do livro de Deuteronômio. E diz o seguinte:

Arameu prestes a perecer foi meu pai, e desceu para o Egito, e ali viveu como estrangeiro com pouca gente; e ali veio a ser nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios nos maltrataram, e afligiram, e nos impuseram dura servidão. Clamamos ao SENHOR, Deus de nossos pais; e o SENHOR ouviu a nossa voz e atentou para a nossa angústia, para o nosso trabalho e para a nossa opressão; e o SENHOR nos tirou do Egito com poderosa mão, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres; e nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel. Eis que, agora, trago as primícias dos frutos da terra que tu, ó SENHOR, me deste.

Entre outras coisas, essa liturgia evidencia como a religião judaica transformou um evento eminentemente circular, a celebração anual da colheita, num momento que celebrava uma cosmovisão linear – Deus está envolvido nos eventos da vida do seu povo – através da rememoração da primordial história do Êxodo.

O que acho especialmente notável nessa confissão de fé é o fato dela ser totalmente narrativa; interpretativa por certo e talvez tendenciosa, mas inteiramente livre de abstrações e de necessidades teológicas. O adorador reconhece a mão de Deus na história do seu povo e na sua própria, e é grato por ela. Ponto final. Nenhuma tentativa de explicar a natureza de Deus ou destrinchar o seu plano. Nenhuma ambição de expor o mecanismo do universo ou da salvação. Compare com o credo dos apóstolos:

Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo um só seu Filho, Nosso Senhor: o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e mortos; creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.

Apesar do cerne narrativo que mantém o cristianismo na estatura linear, cravando Jesus num momento específico da história, o credo apostólico é um campo minado: cuidadosíssimo jogo de palavras em que cada termo inocente remete a um complexo conceito teológico correspondente. Algumas das expressões e conceitos do credo que apontam para seus próprios tratados de teologia:

Deus Pai

Deus Todo-Poderoso

Criador do céu e da terra

Jesus Cristo um só

Jesus Cristo seu Filho

Jesus Nosso Senhor

concebido pelo poder do Espírito Santo

Maria Virgem

desceu aos infernos

está sentado à mão direita de Deus

julgar os vivos e mortos

Espírito Santo

Santa Igreja

Igreja Católica

comunhão dos Santos

remissão dos pecados

ressurreição da carne

vida eterna

Isso, naturalmente, em poderoso contraste com o caráter límpido da profissão de fé de Deuteronômio, que por ser narrativa – uma história – pode ser lido e assimilado de imediato por qualquer um.

Como resultado da obsessão dos cristãos com abstrações e filigranas teológicas, prefiguradas no credo mas desenvolvidas à exaustão nos séculos seguintes, o cristianismo tornou-se religião essencialmente menos linear – mais circular, etérea e teórica – do que o judaísmo.

O judeu, em seu credo, recorda o que Deus fez na história e retraça a atividade divina do nascimento do seu povo até o preciso momento presente e sua precisa benção. O cristão, no seu, estabelece distinções e categorias que pressupõe fundamentais, define termos e parece crer que o que caracteriza sua fé pessoal está na sua capacidade de elencar e abraçar uma série precisa de crenças corretas.

Jesus, que (judeu como era) se deslocava no terreno da vida real, da necessidade do momento e do poder evocativo da narrativa, ergueria por certo uma sobrancelha intrigada.

Ou duas.
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