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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A graça dos vasos comunicantes

Paulo Brabo

Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho lhe dou.


Viver é administrar critérios, e critérios correspondem, grosso modo, às distâncias que estendemos entre nós mesmos e os demais. Num sentido muito profundo, sentimos que somos definidos pelos nossos critérios; efetivamente cremos que somos a soma das distâncias que estabelecemos entre nós e cada outro que povoa o nosso universo.

E não se trata apenas aquilo que sentimos que somos. Os critérios não apenas nos definem e nos protegem; na prática, tudo que acumulamos, realizamos e “construímos” ao longo da vida é fruto direto de nossa habilidade de gerenciar, articular e manipular as distâncias que nos distinguem dos demais.

Desde a infância somos ensinados não apenas a celebrar essas distâncias, mas a usá-las continuamente em nosso favor. Os mais jovens são ensinados a usar sua juventude contra os mais velhos, e os velhos sua experiência contra os mais novos; os talentosos usam seus talentos de modo a invalidar os medíocres, e os medíocres imitam com sucesso o talento quando percebem o quanto é fácil vender a mediocridade.

Os livros que prometem “Como ficar rico em pouco tempo” limitam-se a ensinar descaradamente o que todos fazemos em oculto: comece com uma pequena distância, um pequeno diferencial que o distinga da massa, e use/manipule os critérios dos outros de modo a transformá-la numa grande distância. Enriquecer e fazer fama não são outra coisa que consolidar a distância entre nós mesmos e os outros, e o mundo não faz outra coisa senão dizer que isso é uma coisa boa e desejável.

O mundo dos homens está finamente equilibrado sobre essas colunas de sensatez, mas de vez em quando caminham entre nossas pernas gigantes incômodos que invalidam por completo nossos critérios, e fazem isso basicamente ignorando-os. São gente minúscula e, segundo os critérios deste mundo, desprezível – mas em sua gentil insubmissão são inteiramente capaz de derrubar-nos dos terraços que construímos para nossas pretensões.

Sócrates foi um desses e Gandhi foi um desses, mas de modo geral gigantes desse porte não deixam herança, e essa sua infertilidade representa a tranquilidade do mundo e nossa paz. Nesse sentido, a singularidade do Filho do Homem e sua espada residem em ter colocado em movimento um reino vivo e sem fronteiras, habitado por gente comum, definido precisamente pela disciplina da inclusão. O avanço sem impedimentos desse movimento representaria a ruína do mundo como o conhecemos, porque a disciplina da inclusão está fundamentada no completo abandono daquilo que o mundo toma por absolutamente fundamental: nossos critérios, e com eles as distâncias reais e imaginárias que representam.

Pedro e João, incrivelmente, são agora portadores dessa contaminação e representantes dessa ameaça. Sua missão não é, como a de todos os homens, a de acentuar as distâncias e diferenças entre si mesmos e os outros, mas precisamente o oposto.

Os colonos do reino são eliminadores de distâncias, e isso retêm em comum com o seu Desbravador. É por isso que sua primeira medida prática, como vimos, foi diluir num esforço distributivo radical as falsas distinções projetadas pela riqueza. Agora, muito claramente o dinheiro não tem como se interpor no caminho da sua missão. “Não tenho prata nem ouro”, eles professam – e é absolutamente afortunado que seja assim, porque o dinheiro é a coisa mais barata que se pode dar a qualquer um.

Se fosse diferente – se Pedro e João de fato tivessem prata e ouro para consolar a sua consciência e a necessidade do homem na porta do templo, nenhuma distância estaria sendo eliminada. Ao contrário, o espaço imaginário que os distinguia/separava daquele homem só teria sido acentuado, como acontece conosco quando pensamos que há verdadeira generosidade em estender uma moeda a quem quer que seja.

Os habitantes do reino, no entanto, estão inteiramente preparados a ter nada a perder, de modo a terem constantemente tudo a oferecer. Quando estendem a mão ao homem necessitado, Pedro e João estão sem exagero dando tudo que tem e que são. De fato, “o que tenho lhe dou”: completa aceitação, completa fraternidade, completo equilíbrio de recursos e de forças. A comunhão de que desfrutam entre si, dois homens estendem sem reservas a um terceiro. Tomam-lhe pela mão e com isso lhe dizem: “você não é um homem que vive de esmolas; a distância que os outros estabeleceram para proteger-se da sua condição é uma farsa. Você é um ser humano; você é um de nós”.

E ficará provado que, uma vez que deixamos de fazer a distinção, ela deixa simplesmente de existir. A graça da inclusão se comunica sem critério de um vaso a outro, e onde todos estão cheios não há distância a ser coberta.

Este artigo faz parte de uma série de textos escritos por Paulo Brabo no blog Bacia das Almas. Aconselho a ler ela completa no blog dele - Bacia das Almas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sou aprendiz da vida e da morte

Hoje, estive na enfermaria do HU, durante uma aula do curso de Medicina, e pude presenciar pela primeira vez os últimos suspiros de um homem.

Sou aprendiz da vida e da morte

Lembro dos seus olhos no dia anterior
Pareciam pedir-me respostas para sua dor
Queria que ele entende-se que eu sou apenas um aprendiz
Não, não sou aprendiz de medicina
Sou aprendiz da vida e da morte

Vi ele partir
Ele partiu e levou um pouco de mim
Foi o primeiro adeus que eu vi
e que tenho certeza que não volta

Senti-me fraco, vendo heróis de branco
esperando seu último suspiro
Indagava dentro de mim: Porque estão parados ali?
Vamos tentar mantê-lo vivo!
Estes homens de branco não podem fazer mais nada?!

Não era isto...

Olhei para os rostos destes homens e seu semblante era de compaixão
Mas eles sabiam que aquele momento não era mais deles
Era agora o momento, apenas daquele homem
Era e seu próprio adeus

A Morte veio buscá-lo
Inclemente, ela não quiz saber se sua história de vida, pagaria mais alguns dias aqui.

O vento que ele soprou durante a vida
Continua soprando no rosto de pessoas que passaram por ele
De seus familiares, de seus amigos, de seus desconhecidos
Cada um leva dele brisas, sopros, ventos e furacões

Eu sou um destes desconhecidos
No meu rosto, levo apenas os seus últimos suspiros
Foi um privilégio único
Quantos, eu não sei, gostariam de ter visto aqueles últimos suspiros?

Eu vi.

Foi então que ele suspirou, suspirou, suspirou.
Silenciou-se o vento.

Suênio Alves

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O mistério de nossa humanidade


Ricardo Gondim

Como idealizei as pessoas que participaram de minha vida! Quando eu era criança, papai parecia inabalável. Eu o via grande; suas mãos eram fortes, seus passos, decididos.

Mais tarde, elegi ícones nos esportes. Depois, na religião. Mas um dia meu velho estava bastante doente, alquebrado pela Síndrome de Alzheimer, e eu precisei descê-lo dentro de uma lona de quatro alças pelas escadas do seu apartamento. Do Eródoto José Rodrigues sobrava muito pouco. Enquanto descíamos, vi seu corpo balançando, decrépito e magro. A rede empunhada por quatro homens o jogava de um lado para outro; a valsa era macabra. Lembrei de quando segurava sua mão e me sentia amparado. A decadência física de meu pai escancarava quão efêmeros nós somos. Daquele dia em diante passei a repetir: ninguém é inabalável em sua subjetividade emocional; as mais sólidas convicções intelectuais sofrem abalos; nenhuma pretensão moral é de aço inoxidável.

Não existem monstros ou santos. Todos somos flamas oscilantes. Carregamos sombras na alma. Não passamos da combinação ingênua de noviços, ineptos em abraçar o bem, e de bandoleiros, hesitantes na prática do mal.

Viver consiste no desafio de alargar o coração e deixar que réstias de luz iluminem as nossas sombras. Não permitamos que trevas se alastrem dentro da gente. Demônios tenebrosos se multiplicam em ambientes lúgubres. No alto da colina da ilha chamada vida, sejamos lanterneiros, sempre a projetar nosso farol na direção de algum viajante perdido. Não esqueçamos: só se credencia a morar no céu quem, na terra, não abandonou o mandato de ser luz.

Fujamos do ar viciado do negativismo. Aprendamos a talhar nossa história sem nos deixar destruir pela perversidade do mundo. Perseveremos em fazer o bem. Os cínicos desistem da lida; os pessimistas ajudam a empurrar a história para o desespero; e os neofundamentalistas tentam fazer nascer, a fórcipes, um mundo desde as suas verdades. Forjemos a nossa humanidade com a constatação de que somos limitados. Esvaziemos a arrogância de ter toda a verdade. A verdade reside na democrática convivência dos povos.

Reconheçamos que cada indivíduo é um universo; suas relações sociais são infinitas. Não tentemos imobilizar a dinâmica da cultura ou da ética. Bem e mal se transformam velozmente. A tarefa de joeirar virtude e vício é complexa. Não há códigos suficientes que abarquem todas as nuanças da vida. Crescemos quando nos abrimos para uma coexistência inclusiva, sem preconceitos e sem ódios. Viver é amadurecer a arte do diálogo. Ao caminharmos na senda do amor, reconheceremos Deus no rosto do próximo.

Os que almejam humanidade fazem escolhas responsáveis; só eles discernem que o futuro jaz, latente, nos grãos plantados hoje. Só germinarão fraternidade e paz quando justiça for semeada. As máquinas de guerra devem ser desmontadas para que, logo, o arado substitua a espada e o cordeiro não tema pastar ao lado do leão.

Humanidade é obra que só pertence a nós, os humanos. Então, que se abandone a ideia de que o bem ressurgirá da ganância, do consumismo, do individualismo e da soberba.

Ergamos a nossa humanidade sempre cientes de nossa pequenez. Sem a soberba dos falsos campeões, celebremos cada encontro. Valorizemos quem amamos. Acolhamos os discriminados, os deficientes, os esquecidos. Contemplemos a história como artesãos que limam o ouro. Defendamos o direito, demos as mãos ao pobre e aguardemos: breve brilhará o sol da justiça, trazendo cura sob suas asas.

Soli Deo Gloria.

domingo, 29 de agosto de 2010

Planeta Faminto: O que o mundo come

Fonte: Blog do Sakamoto

Postei aqui tempos atrás um trabalho do fotógrafo Peter Menzel e do jornalista Faith D’Alusio sobre as diferenças de dietas em diferentes lugares do mundo. Em Hungry Planet: What the World Eats (Planeta Faminto: O que o Mundo Come, Editora Ten Speed Press) mostram como se alimentam 30 famílias em 24 diferentes países. Da fome à obesidade, as fotos são um bom ponto de partida para a discussão sobre desigualdade social. No que pese os enormes avanços no combate à fome que ocorreram nos últimos anos, se a comparação fosse feita dentro das fronteiras do Brasil, a disparidade ainda seria grande, pois teimamos em encontrar quem não come como deveria por aqui. É claro, o que significa um gosto amargo a mais por estamos na mesma sociedade.

(Lembrando que US$ 1 = R$ 1,75.)

Clique nas imagem para ampliar....

Alemanha: Família Melander
Gasto semanal com alimentação: US$ 500,07

Estados Unidos: Família Revis
Gasto semanal com alimentação: US$ 341,98

Itália: Família Manzo
Gasto semanal com alimentação: US$ 260,11

México: Família Casales
Gasto semanal com alimentação: US$ 189,09

Polônia: Família Sobczynscy
Gasto semanal com alimentação: US$ 151,27

Egito: Família Ahmed
Gasto semanal com alimentação: US$ 68,53

Equador: Família Ayme
Gasto semanal com alimentação: US$ 31,55

Butão: Família Namgay
Gasto semanal com alimentação: US$ 5,03

Chade: Família Aboubakar
Gasto semanal com alimentação: US$ 1,23

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