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sábado, 29 de maio de 2010

Herodes perdeu o nome...

Porque eu não pude viver como vocês?
Quem lhes dá o direito de me privar do direito de viver?
Maria do Socorro viveu apenas 13 dias.


Deitado na rede, não dormi. Fiquei olhando o céu pelos buracos nas paredes e nas telhas. As paredes são de barro. Eu pensava nas 18 crianças que acabei de batizar. Quantas ainda estariam vivas depois de um ano? Na minha memória voltava a cena dos batizados que fiz na sede da paróquia no mês anterior.

Era domingo, 19 de outubro. Havia 43 crianças para serem batizadas. Uma delas se chamava Maria do Socorro. Trazida por Raimunda, a irmã mais velha, ela já estava morrendo. Pediram que eu fizesse o batismo quanto antes, pois a criança podia morrer a qualquer momento. Batizei-a ali mesmo, na casa paroquial, e prometi a Raimunda fazer uma visitinha na casa dela. Á tarde fomos lá. Casa muito pobre. Tão pobre quando a casa de Genésio e Totônia onde eu estava deitado do na rede, olhando o céu pelos buracos das parede e das telhas, lembrando o fato. A única diferença era a cor do barro. Barro escuro, quase preto. Entramos.

A mãe de Maria do Socorro tinha morrido no parto, treze dias antes. O pai tinha fugido. Ficaram os dez irmãos e irmãs para acolher a nova irmãzinha, Maria do Socorro. Eles estavam lá todos. Todos pequenos. Na semi-escuridão da sala, vi a turminha, em pé, ao redor da Raimunda, que estava sentada com a irmãzinha, mais nova no colo. Nunca mais vou esquecer esta cena trágica. Raimunda, ainda não refeita da morte da mãe e da fuga do pai, enfrentava hoje a morte da irmã mais nova e teria de arcar com a responsabilidade de educar seus dez e teria de arcar com a responsabilidade de educar seus dez irmãos. Pelo jeito dela, não parecia ter mais de 15 ou 16 anos.

Entramos e perguntei:

– Morreu?

– Ainda não! Ainda tem um pouquinho de vida nela. Alguns minutos atrás, ele deu um soluço!

Diagnóstico de pobre! Ficamos todos em silêncio sem saber o que fazer ou dizer. Todos olhando para Maria do Socorro, no colo da Raimunda. Na mãozinha pequena segurava a vela acesa do batismo. O vestido era branco e comprido, vestido do batismo. A vela tinha sido acesa no círio pascal. O símbolo da vida, agora de novo crucificado, aqui, nesta vida indefesa de Maria do Socorro, cuja mãe morrera, dando a sua vida por esta menina que estava morrendo! Ninguém falava nada! Falar o quê? Quem defende a vida? Maria pedia socorro! E não havia quem pudesse salvar a sua vida! Todos impotentes diante da morte! Quem estava massacrando esta vida nova? A mão assassina era invisível. Não aparecia! Como em Belém:

“Em Rama se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação porque eles já não existem” (Mt 2,17).

Isto aconteceu, quando Jesus acabava de nascer para proteger a vida! Onde Jesus renasce hoje, para reassumir a defesa da vida contra a morte, contra a mão assassina de Herodes? Aqui, nem lamento havia mais. A fonte das lágrimas parecia ter secado. Tamanha era a dor, misturada nos fato!

O Herodes de ontem podia ser acusado, porque o seu crime era manifesto. Ele tinha nome. O Herodes de hoje passa livre e honrado. Ninguém o acusa, porque o seu crime não aparece. Ele perdeu o nome. Quem estava matando Maria do Socorro naquela sala pobre de sapé? Quem? Os irmãos dela não sabem responder. Não sabem nem levantar esta pergunta. Eles só viam o imediato: a irmãzinha morrendo nos braços da Raimunda. Talvez repitam a frase, tantas vezes ouvida: “Paciência! Vida de pobre é assim mesmo!” Será?

Irmã Maria quebrou o silêncio:

– Raimunda, quanto tempo faz que a Maria do Socorro ficou assim? Ela nasceu doente?

– Nasceu não, senhora! Nasceu forte.

– Então, o quê que houve?

– Anteontem, deu uma diarréia nela. Por isso, está assim.

Era desidratação! Irmã Maria continuou perguntado:

– O que vocês estão dando para ela?

– A gente dá o que tem: um pouco de leite Ninho em pó!

– Só?

– Só!

Para quem entende destas coisas, sabe que tal remédio, em vê de melhorar, acaba de matar criança com diarréia. Mas eles não tinham outra coisa. Não havia médico! Não havia remédio! Não havia receita! Não havia nada!

Nesta hora Raimunda mexeu com o dedo nos olhos de Maria do Socorro e disse:

– Acho que ela morreu. Não mexeu mais com os olhos. Morreu, sim! Morreu!

Os outros repetiam em coro, murmurando:

– Morreu!

Atestado de óbito de pobre! Raimunda levantou-se, colocou o corpo de Maria do Socorro em cima da mesa e disse para um dos irmãos:

– João, vai comprar uma vela no botequim! Vai logo! Pegue o animal!

João sai correndo.

Maria do Socorro morreu. Viveu 13 dias! Nasceu, viveu, morreu. Não teve registro de nascimento, não teve atestado de óbito. É como se não tivesse existido. Nada falou, apenas chorou. É como se não tivesse existido. Nada falou, apenas chorou. Leve como uma pluma, não pesava nem 3 quilos. Mas a sua morte pesa, peso grande! Ela grita mais forte do que qualquer pregador ou político. Ela acusa a humanidade:

– Porque eu não pude viver como vocês? Quem lhes dá o direito de me privar do direito de viver?

Mas estas reflexões e perguntas, sou em quem as faço. Os irmãos, os pobres mesmos, eles ficavam só olhando. Não se revoltaram. Choraram um pouco.Acenderam as velas, trazidas por João. Velaram o corpo. E na boca da noite, levaram a irmãzinha para o cemitério: sem cerimônia, sem atestado de nascimento nem de óbito, sem pai, sem mãe! Mais um “anjo” a engrossar as fileiras da multidão dos “anjos” que nos acusam:

“Tome cuidado, disse Jesus, para não desprezar nenhum desses pequenos, porque eu digo para vocês: os anjos desses meninos estão o tempo todo bem pertinho do meu Pai, lá no céu!” (Mt 18,10)

Estávamos olhando o corpo morto da menina. Alguém disse:

– Vamos embora!

– Convém rezar um pouco!. Disse eu.

– É bom! Disse Raimunda.

Mas rezar o quê? Pregar a revolta? Adianta cortar jacarandá com gilete, derrubar avião a jato com pedra de estilingue?

Rezei:

– Senhor Jesus, Maria do Socorro acaba de entrar no céu. Reencontrou sua mãe. Nós ficamos cá embaixo, sem saber como cuidar da saúde e da vida do povo. Nós Vos pedimos: fazei que Maria do Socorro e sua mãe nos venham socorrer, para que nunca deixemos de cuidar da vida e da saúde dos irmãos e para que eliminemos da vida tudo o que a mata e oprime!
Saímos. Falamos pouco. Mais um “anjo”!

Pedro desabafou:

– E o pior é que isso acontece todos os dias, e ninguém o percebe!

– Fiquei arrasado. Festa bonita! Quase cinqüenta batizados! Igreja cheia de gente! O prefeito no primeiro banco!! E a menina morrendo por falta absoluta de condições de viver! Tem valor uma cerimônia assim? Não sei não!

A noite daquele mesmo dia, já em casa, recebemos a visita de Dona Maria, nossa vizinha, já bem gorda, cujo filho acabou de nascer na véspera da nossa viagem como já contei. Terezinha perguntou:

– Dona Maria, quando vai descansar?

– No mês que vem.

– Vai descansar aqui mesmo ou no hospital?

– Aqui mesmo!

– Porque não vai no hospital, mulher?

– Sei não! Cova de mulher se abre, quando pega criança na barriga, e fecha um mês depois de descansar! Nascimento de menino parece que faz a gente chegar mais perto da morte!

– Acha bom ter criança todo ano?

– Sei não. Pobre é assim mesmo. Tem muitos filhos. Os ricos que tem tudo não têm criança quase. É castigo de Deus! Não é?

Riu e puxou o peito para dar de mamar ao filho pequeno que carregava nos braços.

Uma história terrivelmente real retirada do Livro Seis Dias nos Porões da Humanidade - Carlos Mesters

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Os discursos ausentes: céu e inferno



Por Paulo Brabo - Bacia das Almas

Visões de céu e inferno prestam serviço à evangelização.
Alan F. Segal, Life After Death

Todo texto tem em alguma medida o sonho de alterar a realidade, e parte do pressuposto de que para isso bastará alterar a realidade dos seus leitores. Talvez mais do que qualquer outro escritor bíblico, o autor de Lucas/Atos investiu pesado nesse aspecto “formador de uma cultura” do seu discurso. Seu texto é pontuado por momentos decisivos que requerem um posicionamento do leitor, e estamos agora postados sobre o mais exigente e memorável desses pontos fulcrais. É o momento da improvável e custosa encarnação, na vida real, de um sonho – o sonho encapsulado no modo de vida e no modo de morte de Jesus. Lucas é sua única testemunha, e seu testemunho é este: a nova e ideal comunidade dos três mil e tantos, de cujas luzes temos nos ocupado, é para ser encarada como primeira moldagem de um vaso adequado para reter e distribuir mundo afora mundo o fluido sagrado da herança de Jesus.

Uma comunidade é definida pela intersecção dos discursos que a originaram, e Lucas trata de deitar muito claramente as diretivas que deverão caracterizar o legítimo movimento do reino. Como vimos, e o fio da narrativa deverá nos dar oportunidade de confirmar, neste dia de Pentecostes os desbravadores do reino dobraram-se à exigente persuasão do espírito, de que Jesus estava certo ao sustentar que arrepender-se é mudar o mundo e pecar é omitir-se. Desafiada e confrontada pela exposição de Pedro, uma pequena multidão ousou adentrar de mãos dadas esse mundo além do perdão, em que meros homens abraçam o exemplo não-condicionado de Jesus, encenam continuamente a sua subversão e inauguram uma comunhão tão escandalosamente generosa, desarmada e inclusiva que acabará representando ameaça a todas as manifestações controladoras de poder.

Antes de deixarmos para trás esta visão da glória de uma comunidade inteiramente humana (e portanto inteiramente divina) e avançarmos para o confronto dessa sociedade revolucionária com um mundo avesso a mudança, será necessário fazer outra digressão. Porque, se enfatizamos cada um dos discursos presentes (todos eles não-condicionados e portanto subversivos), não traçamos ainda os discursos ausentes – aqueles que não fazem parte da exposição e da incorporação da boa nova no livro de Atos, mas acabaram ganhando destaque nas obsessões e ênfases da igreja institucional até os nossos dias.

Se é objetivo do autor de Atos estabelecer quais devem ser as expectativas e as prioridades de uma comunidade que se proponha a levar avante o legado de Jesus, devemos crer que ele assenta a sua posição tanto pelo que diz quanto pelo que não diz. Denunciar os discursos ausentes, que intrometeram-se mais tarde na ideologia cristã, servirá não apenas para contrastar a límpida comunidade do reino com a turva igreja institucional que terminaria por sequestrar a sua herança; deverá servir também para elucidar porque esses discursos se intrometeram. Ficará evidente que a igreja apossou-se desses conceitos piedosos a fim de tornar a experiência cristã mais devocional e menos existencial – isto é, tornar passível de domesticação o que era incontrolável, tornar condicionado o que era não-condicionado. Nesse processo, terminou por ocultar o desafio e a integridade da boa nova do reino, tornando nula qualquer alegação de sua relação com ele.

O primeiro desses discursos ausentes, que não comparece no testemunho de Atos mas recebeu tremendo destaque depois, a ponto de tornar-se absolutamente central na articulação ideológica do “evangelismo”, é a questão de céu e inferno.

Porque na descrição do jorrar do espírito, na apresentação da boa nova por parte de Pedro e na primeira “conversão” exemplar não há nenhuma promessa de vida após a morte – nenhuma visão do paraíso, nenhuma ameaça de inferno1.

O discurso de Pedro, que parece ter articulado o que o espírito estava dizendo a todos e através de todos, pode ser resumido da seguinte forma: Jesus, o homem de Deus cujo ensino íntegro os homens consideraram insuportável ao ponto de assassiná-lo sem motivo por essa razão, Deus o fez Senhor e Messias. Agora que a própria morte mostrou-se incapaz de retê-lo, e estando em posição indistinguível da posição de Deus, ele confere que todos sejam capazes de compartilhar da lucidez do seu modo de ver a vida, de viver e de morrer. Ou, numa versão ainda mais resumida: Deus conferiu ao Marginal a posição de destaque, a fim de que abracemos a sua estirpe de marginalidade e dediquemos nossa vida à inclusão dos marginais.

De uma forma ou de outra, o argumento decisivo da argumentação de Pedro (e, como veremos, de toda apresentação da boa nova no livro de Atos) reside na singularidade de Jesus. A ressurreição é mencionada como desconcertante confirmação dessa singularidade, mas Pedro não oferece nenhuma indicação de que essa ressurreição seja ela mesmo algo menos do que singular – isto é, seu argumento não estende a vida após a morte como padrão ou promessa adicional. Sendo assim, quando seria o momento mais favorável para pressionar o seu público com os horrores da punição e as recompensas da eternidade, Pedro se abstém de fazê-lo: sua ênfase permanece no perdão dos pecados, isto é, na reparação das omissões passadas, e no arrependimento, isto é, na adoção (no momento presente) do modo de vida de Jesus. Seu apelo é “salvem-se da mesquinheza desta geração.”

Em contraste com essa postura, a igreja acabaria deslocando por completo o argumento decisivo de seus esforços evangelísticos, transferindo-o da singularidade de Jesus para a ameaça do inferno e a oferta do céu. De longe, a forma mais comum de se apresentar a fé cristã (e isso retém em comum os dois lados da igreja formal separados pelo fissura da Reforma), é oferecendo-se ao ouvinte uma chance de “salvação” – apresentada, bem-entendido, como uma oportunidade de escapar da condenação do inferno e abraçar a vida eterna no céu2.

De acordo com essa visão, converter-se não é assumir o perdão e adotar a vocação de alterar a tessitura do mundo, mas aceitar o convite de beneficiar-se pessoalmente do sacrifício de Jesus de modo a, por um lado, escapar de uma punição sem pausa no inferno e, por outro, ganhar a vida eterna no céu ao lado dos que você ama3.

Agora, se o livro de Atos descreve os primeiros passos do que viria a ser conhecido como igreja, e se deita as diretrizes apostólicas para se “ganhar pessoas para Jesus”, por que céu e inferno não são mencionados – não só nestes dois primeiros capítulos, mas até o final? Por que a recompensa futura e a punição incessante não recebem a ênfase que a igreja aprendeu a dar a ela?

Este não será o espaço para analisar o processo histórico através do qual a igreja acabou colocando céu e inferno no centro do seu discurso; não será nem ao menos necessário estabelecer a distinção entre a ideia de céu e inferno, como foram entendidos depois, e o conceito de ressurreição dos mortos (e renovação da terra) que consistia basicamente na estirpe de eternidade aguardada pelos judeus no tempo de Jesus4.

Bastará, em primeiro lugar, que tenhamos em mente que o discurso da eternidade está por completo ausente dos procedimentos exemplares da igreja nascente no livro de Atos e que não aparece no Novo Testamento associado à transmissão da mensagem e do legado de Jesus. Como os autores do Novo Testamento viam a coisa, evangelizar ou estender ao mundo a boa nova do reino não é acenar diante das pessoas com um ingresso gratuito para o paraíso, nem ameaçá-las com uma rampa até os fogos eternos.

Em segundo lugar, devemos aprender a reconhecer o papel que céu e inferno passaram a desempenhar na ideologia cristã. Alan F. Segal observa que “visões de céu e inferno prestam serviço à evangelização”, e disso resta abundante evidência mesmo nos nossos dias. Recorrer a céu e inferno como argumento decisivo na evangelização tem o duplo efeito de tornar a boa nova mais “espiritual” (isto é, mais palatável e menos exigente, no sentido de ter menos consequências para esta vida) ao candidato a cristão, e apelar para o instinto de “autopreservação emocional” que todos os homens têm em comum. Quem não se sentirá compelido a esquivar-se do sofrimento e a ganhar o gozo, numa transação que não requer esforço algum de sua parte?

Porém não é só na hora de angariar convertidos que céu e inferno se mostram ferramentas úteis. O domínio da vida eterna tem ainda uma poderosa função controladora sobre as pessoas. Numa sociedade que crê nesse tipo de coisa, quem tem o monopólio sobre o além tem também o controle das pessoas nesta vida, e pode manejá-las a seu bel-prazer.

Tanto no céu quanto no inferno os mortos servem para tornar concretas e legitimar as estruturas éticas e hierárquicas de uma sociedade. Aqueles que retém as chaves do paraíso tornam-se logo os mais temidos e legítimos representantes do poder terreno, sendo que seu poder é exercido em dois níveis. Primeiro, as pessoas ficam mais fáceis de controlar porque creem que a preservação de suas almas no além depende de que sigam à risca as expectativas e normas deitadas pelos líderes do presente sistema. Segundo, como a vida eterna oferece um futuro em que todas as injustiças serão corrigidas, qualquer tentativa de se implementar um mundo justo ainda nesta vida é vista com maus olhos, algo beirando ou ultrapassando o limite da heresia.

Como se vê, o resultado da adoção do discurso de céu e inferno é precisamente o oposto daquele que, acabamos de ver, ocasionou a distribuição do espírito subversivo de Pentecostes. Em Atos a boa nova é a transformação do mundo; no discurso de céu e inferno a boa nova é que este mundo não precisa ser transformado. Em Atos a boa nova origina uma comunidade não-condicionada que representará constante ameaça ao estado de coisas, estando destinada a “virar o mundo de cabeça para baixo”; no discurso de céu e inferno, a boa nova é usada para legitimar e sustentar um estado condicionado de coisas, sequestrando o apelo universal da imagem de Jesus enquanto garante que os efeitos de sua popularidade se mantenham sob controle.

Não é de estranhar, portanto, que no livro de Atos céu e inferno permaneçam à margem do discurso da comunidade do reino, porque seus membros tomam por absolutamente central manter vivo neles mesmos o caráter não-condicionado de seu mestre. Permanecerão uma comunidade viva, no sentido em que estarão inteiramente mergulhados na solução das questões sempre cambiantes desta vida. Nada que possa ser usado como ferramenta de dominação fará parte do seu vocabulário ideológico, porque a boa nova deverá permanecer libertadora em todos os sentidos.

Nesse sentido, os revolucionários do reino estão mantendo-se inteiramente fiéis às ênfases de Jesus, que mostrou-se muito mais disposto a apresentar desafios e soluções para esta vida do que a prometer os confortos da próxima. Nos evangelhos se Jesus distribuía curas, ou até mesmo ressurreições, era porque queria resgatar a dignidade e reforçar os desafios desta vida. Ele ressuscitava porque, muito claramente, cria que as pessoas ainda tinham a sua missão – a missão dele – para cumprir, e porque cria que na balança das eras é só este lado da eternidade que conta. Sua proposta incessante era de que que a experiência humana na terra requer a redenção e a reviravolta da mudança de critérios, cujo resultado é a paulatina implantação do reino. Mesmo o perdão dos pecados, com o qual o batismo estava associado, era oferecido como libertação destinada a derrubar qualquer impedimento que se interpusesse entre o ser humano e o assombro da transformação do mundo – este mundo.

Foi precisamente dessa forma que os romeiros de Pentecostes entenderam a sua vocação; não como a certeza da vida eterna no céu, mas como a certeza da urgência dos desafios desta terra. Sua conversão não estava fundamentada na esperança do paraíso, que pelo que sabemos não foi nem sequer mencionado. Quem investe todo o conteúdo da sua fé na garantia de uma felicidade futura age como que não tem pressa, e a postura dos revolucionários do reino é de absoluta urgência. Por isso despojam-se radicalmente de todo embaraço, por isso estão sempre juntos, por isso prestam contínua assistência uns aos outros e a todos que estão chegando: o céu pode esperar, mas a cura deste mundo exige atenção imediata.

NOTAS
  1. Na verdade, esse sistemático silêncio sobre céu e inferno estende-se a todo o restante do livro de Atos. Embora o livro registre uma série de discursos evangelísticos e conversões exemplares, o argumento das ruas de ouro e do lago de fogo nunca comparece. []
  2. Para a maioria de nós, suficientemente expostos aos discursos cristãos, não será necessário demonstrar essa obsessão formal do cristianismo com céu e inferno. A visita a uma catedral da Idade Média, o comparecimento a uma “série de conferências” de uma igreja evangélica ou a leitura de um folheto evangelístico do século passado terão o mesmo efeito para confirmar essa centralidade da ideia de vida/punição eterna no discurso cristão. []
  3. Desde que, naturalmente, os que você ama também tenham concordado em beneficiar-se da mesma transação. Essa pendência servirá, por si só, como tremendo incentivo à evangelização. []
  4. Paralelamente, teremos de deixar de fora a controvérsia sobre a tradução do adjetivo grego que é tradicionalmente vertido como “eterno” (por exemplo, “vida eterna” em Atos 13:46,48) e que alguns intérpretes acreditam significar algo muito distinto. []

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Graça

Ricardo Gondim

Ainda há pouco, ao reler o admirável Sermão do Monte, percebi como a graça esteve presente nos princípios expostos por Jesus. Mesmo reconhecendo que a graça foi exaustivamente estudada e definida pela teologia, é preciso redescobri-la nos lábios do Nazareno. Os favores imerecidos de Deus não podem ficar circunscritos às codificações teológicas. Naquele relvado, na encosta de um morro qualquer, Cristo falou de assuntos diversos, mas não se esqueceu de explicitar que Deus se relaciona com seus filhos diferente de todas as divindades conhecidas. Após séculos de argumentação sobre os significados da graça, os cristãos precisam despertar para ao fato de que ela é o chão da espiritualidade cristã.

Um neopaganismo levedou a fé de tal forma que muitos transformaram a oração em uma simples fórmula para canalizar e receber os favores divinos. Para obter resposta às petições, implora-se, pena-se, insiste-se, no aguardo de que Deus escute. Quando não se recebe, justifica-se assumindo culpas irreais, como falta de disciplina. Acha-se que é necessário continuar implorando para Deus se sensibilizar. Mede-se a espiritualidade pelo número de respostas aos seus pedidos e, quando malsucedidos, castiga-se por não merecer. A própria linguagem denuncia romeiros católicos e evangélicos, que lotam os espaços religiosos: é preciso “alcançar uma graça”.

Graça liberta do imperativo de dar certo. O Sermão da Montanha começa felicitando pobres em espírito, chorosos, mansos e perseguidos. Os triunfantes não podem se gloriar de serem mais privilegiados do que os malogrados. Graça revela um Deus teimosamente insistindo em permanecer do lado de quem não conseguiu triunfar; até porque a companhia de Deus não significa automática reversão das adversidades.

Graça permite o autoexame, a análise das motivações mais secretas da alma, sem medo. Na série de afirmações sobre ódio, adultério, divórcio e vingança, Cristo deixou claro que ninguém pode se vangloriar quando desce às profundezas do coração. No nível das intenções, todos são carentes. O olhar sutil indica adultério. O ódio despistado revela homicidas em potencial. A vingança disfarçada contamina as ações superficiais. Lá onde brotam as fontes das decisões, tudo é confuso; vícios e virtudes se confundem. Somente com a certeza de que não haverá rejeição é possível confrontar os intentos do coração para ser íntegro.

Graça convida a amar. Jesus afirmou que Deus “faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos”. Para revelar sua bondade, Deus não precisou ser convencido a querer bem. Deus não faz acepção de pessoas; o seu amor não está condicionado a méritos. Quando as pessoas são inspiradas por gratidão, reconhecimento e admiração por tão grande amor, se sentem impulsionadas a imitá-lo. Deus surpreende por dispensar bondade sem contrapartida de virtude. Assim, na improbabilidade de os seres humanos se mostrarem graciosos, os discípulos devem almejar a única virtude que pode torná-los perfeitos como Deus -- o amor.

Graça é convicção de que o acesso a Deus não depende de competência. Quem acredita que será aceito pelo tom de voz piedoso ou pela insistência em repetir preces nega a paternidade divina. Antes de pedirmos qualquer coisa, Deus já estava voltado para nós. Os exercícios espirituais não precisam ser dominados como uma técnica, mas desenvolvidos como uma intimidade. O secreto do quarto fechado representa um convite à solitude, à tranquilidade que não acontece com sofreguidão.

Graça libera energia espiritual que pode ser dirigida ao próximo. Buscar o reino de Deus e sua justiça só é possível porque não é preciso preocupar-se com o que comer e vestir e por jamais ter de bater na porta do sagrado para conquistar benefícios particulares. Basta atentar para os lírios do campo e pardais para perceber que as ambições devem escapar à mesquinhez de passar a vida administrando o dia-a-dia.

Graça devolve leveza para que os filhos de Deus sintam-se à vontade em sua presença, como meninos na casa dos avós. Graça libera as pessoas para se tornarem amigas de Deus, em vez de vê-lo como um adestrador inclemente. Graça não permite delírios narcisistas. Nenhuma soberba se sustenta diante da percepção de que Deus aposta na humanidade e ainda se convida a cear entre amigos.

Graça distensiona o culto porque avisa: tudo o que precisava acontecer para reconciliar a humanidade com Deus foi concluído: “Consumatum est”. Portanto, enquanto a graça não for redescoberta de fato como a mais preciosa verdade da fé, as pessoas podem até afirmar que foram livres, mas continuarão presas à lógica religiosa das compensações. Devedores, jamais entenderão que o reino de Deus é alegria. A graça liquida com pendências legais. Não restam alegações a serem lançadas em rosto -- “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?”.

A religiosidade legalista insiste que é perigoso falar excessivamente sobre a graça. Anteparos seriam então necessários para proteger as pessoas da liberdade que a graça gera. Mas o amor que tudo crê, tudo espera e tudo suporta não aceita outro tipo de relacionamento senão abrindo espaço para que haja amadurecimento. Deus ama assim, e o Sermão da Montanha não deixa dúvidas de que todo discurso sobre o reino de Deus deve começar com graça.

Soli Deo Gloria
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