Ocorreu um erro neste gadget

sábado, 28 de maio de 2011

O medo mora no desfecho

Frase que não entendo:

"Deus ama o pecador, mas não o pecado." 

Sim ela tem um sentido verdadeiro. Mas pergunte o desfecho à quem pronuncia ela.

O desfecho é o seguinte:

Se o pecador continuar pecando, este amor não será suficiente para evitar mandá-lo para o inferno. 

É interessante isto, porque dizem que não há nada que eu faça para merecer o céu. E eu concordo. Não é por merecimento, e sim por Graça. 

Mas então porque existe algo que eu faça que me torne merecedor do inferno?

Entenda uma vez por todas:

Isto é Graça.

E é por tão aterrorizante Amor incondicional que me sinto livremente levado a não praticar o pecado. Não é mais o medo que me leva a evitar o pecado. Eu não vou mais praticar o pecado por medo do inferno, ou pior, por medo de perder o Amor de Deus (nunca vamos perdê-lo), mas porque sei que em suas palavras existe uma mensagem de vida eterna.


A pessoa que compreende realmente a "constrangedora" Graça nunca vai abusar dela.

Vai amá-la.

O último cristão


Escândalo. Insensatez. Vergonha.

Os primeiros caras a divulgar e propor o cristianismo ao mundo tem o mérito adicional de terem escolhido muito bem as palavras. Segundo o enfezado apóstolo Paulo, apegar-se à singularidade de um sujeito mortalmente pregado à cruz e inteiramente despregado das prioridades usuais do mundo é para o observador isento de fato escândalo, insensatez e vergonha – e nem teria como ser diferente.
Os últimos serão os primeiros.

É insensatez porque tanto a doutrina quanto o precedente de vida (e morte) do fundador ensinam que o sucesso se obtém no mais inequívoco fracasso e a grandeza na mais abjeta humilhação; é escândalo porque ele sustenta que a alma é sólida e a matéria rala, e que não faz portanto sentido o sujeito adquirir o mundo inteiro e ver a vida escorrer, sem consistência, na peneira final; é vergonha porque para beneficiar-se do pacote a pessoa tem de pagar o mico de reconhecer-se não melhor do que ninguém.

Ser cristão requer-se ver-se incessantemente no outro: olhar para fora de si mesmo e ver Deus pregado na cruz e o cachaceiro derrubado na rua e sacar que de alguma forma misteriosa você é agora eles; que a tragédia de um é a tragédia de todos, e entrou em ação um mistério tremendo de relacionamento, de favores devidos e de identidade; que o único jeito decente de viver é baixar a bola e salvar o que der da dignidade dos outros de forma a salvaguardar algo da sua. E da de Deus.

Essa percepção de uma glória pessoal que se esconde sob o manto da tragédia compartilhada (“ninguém tem amor maior do que dar a vida pelos seus amigos”, nas palavras de Jesus) foi, naturalmente, perdida ao longo dos séculos do cristianismo institucional. Escândalo, insensatez e vergonha foram devidamente sanitizados em prosperidade, ortodoxia e sucesso. A empatia e a preocupação generosa com o outro secaram-se em glorificação dos apetites de cada um.

Insensato é agora o cristão que não exige do Patrocinador sucesso financeiro, realização profissional, saúde, assistência dentária e tratamento de beleza.

Pelos critérios de Jesus, para quem os menores é que são grandes e os humildes os verdadeiramente gloriosos, o cristianismo evangélico contemporâneo atira no próprio pé na ilusão de que está mirando nas alturas. O evangelho revisto e atualizado rende-se à lógica inescapável do anúncio de página dupla: bem-aventurados os ricos, os saudáveis, os espertos, os bonitos, os inteligentes e os bem-sucedidos, porque são invejados por todos. Porque deles é a chave do modelo 2007 e o controle remoto do Sound System. Porque estão fazendo MBA. Porque tomam leite desnatado sem camisa olhando de sua janela envidraçada para uma praia deserta.

Está mais do que na hora de resgatar o escândalo, a insensatez e a vergonha que foram legitimamente e desde o princípio associados ao cristianismo. Quero adicionar portanto aos meus 10 motivos para não ser cristão este: ser cristão requer carregar nas costas dois milênios da má reputação de um cristianismo tosco, incompetente, incompleto e com demasiada freqüência nocivo.

O ensino de Jesus só permanece novo porque nunca foi tentado. Nos últimos mil e oitocentos anos, pelo que sabemos, esteve longe de ser colocado em prática com esse nome.

Esqueça as revelações do Evangelho de Judas: são as páginas de Mateus, Marcos, Lucas e João que contém material inédito. São elas que dão testemunho perturbador de uma radiante insensatez que não temos coragem de cometer, porque requeriria tudo de nós – o que é, naturalmente, insensato dar e pedir. Como o narrador de Borges, preferimos honrar um exemplo virtuoso com palavras a reconhecer que somos por demais covardes para nos rebaixarmos à glória.

Melhor seria portanto não manchar a reputação irretocável de Cristo com o nome de cristão. Ele merece esse nosso sacrifício. Você deveria talvez fazer como meu amigo inglês Julian, que é espiritual sem ser religioso; que confessa-se cristão platônico e assume em todo momento a conduta de Cristo. Ou como o Farah, que está praticamente muçulmano, tem a alma inesgotavelmente rica e o coração generoso e dá testemunho da graça. Como Gandhi, que recusou austeramente a etiqueta de cristão e levou terrivelmente a sério (e às últimas conseqüências) as palavras de Jesus.
Está na hora de resgatar o escândalo, a insensatez e a vergonha que foram desde o princípio associados ao cristianismo.

Uma deliberada e silenciosa desconversão em massa, pensando bem, talvez trouxesse finalmente toda a glória que o ensino, o exemplo e a obra de Jesus desconheceram nos últimos milênios. Permaneceríamos cristãos em segredo, a portas fechadas, lutando consistentemente, em absoluto sigilo e completa dedicação, pelo Nome que não ousamos macular ou pronunciar. No fracasso institucional e na crucificação ideológica do cristianismo talvez estejam a semente da sua ressurreição.

O último cristão pode muito bem ser o primeiro.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Igrejas também morrem

Ricardo Gondim

Na Inglaterra, entrei em um salão de snooker sentindo náuseas. A vertigem que invadiu meu corpo foi diferente de tudo que já sentira antes. As mesas verdes espalShadas pelo largo espaço lembravam-me um necrotério.
Eu explico o porquê. Aquele salão havia sido a nave de uma igreja, que definhou através dos anos, até ser vendido. O pastor que me levou nessa insólita visita relatou que na Inglaterra há um grande número de igrejas que morreram lentamente. Devido aos altos custos de manutenção, só restava ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são os muçulmanos, donos de lojas de antigüidades e, infelizmente, de bares e boates. Vendo o púlpito talhado em pedra com inscrições de textos bíblicos — "Pregamos a Cristo crucificado"; "O sangue Cristo nos purifica de todo pecado" —, voltei no tempo e lembrei-me de que aquela igreja, fundada durante o avivamento wesleyano, já fora um espaço de muita vitalidade espiritual. As placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar — então balcão do bar — pregaram pastores e missionários ilustres. Imaginei aquele grande espaço, hoje cheio de homens vazios, lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a Inglaterra. Perguntei a mim mesmo: "o que levou essa congregação a morrer de forma tão patética?". Nesses meus solilóquios, pensei no Brasil. 
Semelhantemente ao avivamento wesleyano, experimentamos um crescimento numérico nas igrejas brasileiras. Há uma efervescência religiosa em nosso país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem muitos CD’s. Publicam-se revistas e livros. Comercializam-se bugigangas religiosas nas várias livrarias, que também se multiplicam, interligadas pelo sistema de franquias. Por outro lado, diferentemente do que aconteceu na Inglaterra, o despertamento religioso brasileiro tem uma consistência doutrinária rala, demonstra pouca preocupação ética e um mínimo de impacto social.

Os desdobramentos destas constatações são preocupantes. Se, com toda a firmeza doutrinária, ética e disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil? Infelizmente sim. As razões que implodiram inúmeras congregações européias, obviamente são diferentes. Lá, houve um forte movimento anti-clerical motivado pela secularização do Estado e das universidades. A teologia liberal minou o ânimo evangelístico e os processos de institucionalização do que era apenas um movimento jogaram a última pá de cal nos sonhos dos antigos avivalistas ingleses.

Quais os perigos que ameaçam o futuro do movimento evangélico brasileiro? Alguns já se mostram de forma exuberante.

A trivialização do sagrado

Visitar qualquer igreja evangélica no Brasil é oportunidade para perceber uma forte tendência teológica e litúrgica na busca de uma divindade que se molde aos contornos teológicos dessa igreja e que ofereça apoio aos anseios e caprichos pessoais. Faltam temor e espanto diante de Deus. O único medo é o do pastor: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de expansão. A cultura evangélica nacional está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente não é o Deus da exortação de Hebreus 12.28-29: "Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor". O tom de voz exigente e determinante como se fala com Deus hoje deixa a dúvida quanto a quem é o senhor de quem. As experiências que só geram arrepios pelo corpo são relatadas como se Deus fosse apenas um estimulante químico. Certos pastores dizem falar e ouvir a voz de Deus — para serem contraditos pelas suas próprias falsas profecias — sem levar em conta que "Deus não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão". Os milagres, aumentados pela manipulação, revelam uma falta de temor. O descaso com o sagrado é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra grande familiaridade, por outro, gera complacência. Complacência e enfado são sinônimos entre si. Se nos acostumarmos com o mistério de Deus e trivializarmos sua presença, acabaremos colocando-o na mesma categoria de nossos encontros mais corriqueiros, daqueles que podem ser adiados ou não, dependendo de nossas conveniências. Acabaremos entediados de Deus.

O esvaziamento dos conteúdos

Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos púlpitos evangélicos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Servem para esconder o despreparo teológico e a falta de esmero ministerial. Manipulam-se os auditórios, eleva-se a temperatura emotiva dos cultos, mas não se cria um enraizamento de princípios. Gera-se um falso júbilo, mas não se fornecem ferramentas para criar convicções espirituais. Hannah Arendet, filósofa do século XX, ao comentar sobre o fato de que Eichmann, nazista, braço direito de Hitler, respondeu com evasivas às interrogações do tribunal de guerra que o julgava sobre seus crimes, afirmou: "Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos".

Qual será o futuro dessa geração que se contenta com um papagaiar contínuo de frases ocas que só prometem prosperidade, vitória sobre demônios e triunfo na vida?

A mistura de meios e fins

Por anos, combateu-se a idéia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa justificava comportamentos aéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio, a paixão por títulos, revelam que muitas igrejas já não sabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia.

O livro do Apocalipse mantém a advertência, muitas vezes desapercebida, de que igrejas morrem. As sete igrejas ali mencionadas — inclusive a irrepreensível Filadélfia — acabaram-se. Resumem-se a meros registros históricos. Não podemos achar abrigo na promessa de Mateus 16 — de que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja — para justificar qualquer irresponsabilidade. O livro do Apocalipse adverte: "Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas" (Ap 2.5).

Crescer numericamente não imuniza a igreja de perigos. Pelo contrário, torna-a mais vulnerável. Resta perguntar: Será que agora, famosos e numericamente profusos, não estamos precisando de profetas? Será que o tão propalado avivamento evangélico brasileiro não necessita de uma Reforma? Aprendamos com a história. Um pequeno desvio hoje pode tornar-se um abismo amanhã. Imaginar que podemos condenar nossas igrejas a se tornarem bares de snooker é um sonho horrível. Porém, se não fizermos algo, esse pesadelo pode se tornar realidade. Que Deus nos ajude.

Soli Deo Gloria.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mito e Metáfora


– A palavra “mito” significa “mentira” – começou ele. – Um mito é uma mentira.

– Não, um mito não é uma mentira. Uma mitologia completa é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metafóricas das possibilidades da experiência humana e da plena realização de uma dada cultura num dado momento.
Como resultado temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como fatos, e outros que classificam-se como ateus porque crêem que as metáforas religiosas são mentiras.

– Uma mentira.

– Uma metáfora.

– Uma mentira.

Isso se estendeu por vinte minutos. Percebi que o entrevistador não sabia de fato o que era uma metáfora, e resolvi tratá-lo como ele estava me tratando.

– Não, estou dizendo que é uma metáfora. Me dê você um exemplo de metáfora.

– Vou tentar. Meu amigo John corre muito rápido. As pessoas dizem que ele corre como uma gazela. Isso é uma metáfora.

– Isso não é metáfora. A metáfora é: João é uma gazela.

– Isso é uma mentira.

– É uma metáfora.

E o programa acabou. O que esse incidente sugere a respeito da nossa compreensão popular a respeito da metáfora?

Fez-me refletir que metade das pessoas no mundo pensa que as metáforas das suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos. E a outra metade sustenta que não são fatos de forma alguma. Como resultado temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como fatos, e outros que classificam-se como ateus porque crêem que as metáforas religiosas são mentiras.

Joseph Campbell, em Thou Art That

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Imposto sobre Fortunas é símbolo de civilidade


O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, declarou que a criação do Imposto sobre Grandes Fortunas não está em discussão no governo federal. Segundo a Agência Brasil, ele afirmou que “esse imposto cria mais distorções que receitas e acaba levando à transferência de riquezas para fora do país” durante seminário para discutir a reforma tributária na Câmara dos Deputados. Defendeu a tributação de heranças e de transferências de bens como forma de contribuir com a transferência de recursos dos mais ricos aos mais pobres.

Também concordo que uma taxação pesada sobre grandes heranças é um instrumento bastante eficaz para reduzir a desigualdade social no longo prazo. Mas isso não invalida o Imposto sobre Grandes Fortunas, que nunca foi regulamentado (e, pelo lobby junto aos congressistas e o governo, nem vai ser tão cedo). É claro que isso pode levar à evasão de recursos para além das fronteiras por contribuintes sedentos em não-contribuir. Contudo a força desse instrumento não reside apenas nos recursos que ele é capaz de arrecadar, mas no simbolismo de um Estado que assume o papel de corrigir distorções históricas e de tratar desiguais de forma desigual.

Durante as eleições presidenciais, poucas vezes os candidatos foram verdadeiramente pressionados a se posicionarem a respeito de projetos concretos de interesse dos assalariados ou dos mais pobres. Temas como redução da jornada de trabalho, aumento da licença maternidade, taxação de grandes fortunas, correção dos índices de produtividade da terra, entre outros, foram tratados como polêmicas ou tabus. Bom mesmo é gastar a paciência do eleitor condenando a sexualidade alheia.

O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional. Luiz Inácio Lula da Silva, antes de se tornar o queridão do mercado, também defendia abertamente a redução na jornada de trabalho. O poder muda as pessoas, é fato. O pior é ter que ouvir dos próprios que eles não mudaram, apenas ganharam uma consciência ampliada a partir da cadeira que ocuparam.

O que me leva a crer que a culpa por tudo isso é da cadeira no Palácio do Planalto. Ela tem um encosto e precisa de uma sessão de descarrego antes que faça novas vítimas. Urgentemente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma bancada (nada) evangélica


Há algumas pessoas que se sentem mais tranquilas em saber que no Congresso Nacional existe uma bancada chamada de evangélica. Em tese, os valores e a cosmovisão cristã seriam defendidos ou mesmo difundidos por meio daqueles que eles apoiaram nas eleições a fim de que fossem seus representantes.

E é claro que a Bancada Evangélica se apresenta como defensora das bandeiras hasteadas pelos evangélicos. No entanto, na prática a coisa não reflete bem aquilo que na teoria é visto como a maneira ideal cristã de fazer política. Os políticos da dita bancada não se mostraram relevantes em casos como o “dos Sanguessugas”, nem denunciaram a existência do “Mensalão”, não protestam contra o funcionários fantasmas dos gabinetes dos assessores dos políticos, não se posicionam radicalmente contra a impunidade e falta de ética que permeiam a vida cotidiana da política nacional.


O que sobrou? Quase nada. Por isso esses caras precisam justificar sua existência. Eles precisam legitimar diante da grande massa evangélica a necessidade de se eleger um político que a represente. Caso contrário, tendo em vista que eles se assemelham em quase tudo aos políticos não envolvidos abertamente com a religião, não haveria razão por que elegê-los.


Obviamente, os figurões das grandes denominações sabem muito bem qual a utilidade desses indivíduos. Dentre as várias atividades na função de “despachantes” de igreja, eles servem para facilitar os processos de concessão de rádios, televisões, e outros favores cujas manobras políticas sejam necessárias. Contudo, isso não é tão forte assim para conquistar os votos dos fieis, do povão (até porque essas coisas são sempre feitas às escuras).


É aí que sobram alguns temas “relevantes” para que os políticos crentes se manifestem: homossexualismo, aborto e pedofilia. Ora, são temas relevantes que precisam ser analisados por toda a sociedade. No entanto, estando diante de um assunto que mexe com o imaginário e as emoções dos religiosos, eles se valem do sensacionalismo para chamar a atenção de seus eleitores. Não discutem o tema, apenas e tão se posicionam radicalmente contra. Especialmente quando a questão é aborto e homossexualidade.


No caso do PL122, por exemplo, certamente que há alguns exageros na redação desse Projeto. Não obstante, por trás das reivindicações dos homossexuais há o apelo sincero e justo de pessoas que sofrem uma série de agressões devido sua identidade ou opção sexual. A favor ou contra a prática homossexual, cristãos deveriam ser a favor da luta em prol do respeito e dignidade de quem quer que seja.


Enquanto escrevo esse texto, nas igrejas Brasil afora, politiqueiros sedentos pelo poder propagam alguma teoria da conspiração, segundo a qual os homossexuais vão lançar no xilindró pastores e padres que se recusarem a realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Ora, não é exatamente isso que eles têm pleiteado na legislação, além de que a própria Constituição garante liberdade de crença e expressão, o que significa que o Estado não deverá intervir nas particularidades das crenças religiosas dos cidadãos.


Assim como alguns ministros se negam a casar mulheres grávidas, e não lhes é imputada qualquer pena, enquanto a Constituição de 1988 vigir não poderá haver qualquer imposição a que líderes religiosos devam se submeter nesse sentido.


Repito, há muitos pontos questionáveis no PL122. De fato esse texto é polêmico e requer a atenção tanto dos religiosos quanto dos próprios homossexuais, que também precisam tomar cuidado para que, em suas militâncias, não atraiam para si mesmos o repúdio da sociedade.


Quanto aos cristãos evangélicos e sua Bancada de prática nada evangélica, os “currais” eleitorais das igrejas precisam se emancipar, tornar-se apenas igreja, e o povo crente precisa ser mais politizado. No entanto, são raros os pastores que têm algum interesse em, como líderes sociais, capacitar seus membros a fim de que estes possam analisar os políticos e suas maracutaias com a autonomia intelectual que todo cidadão deveria ter. É uma lastima, mas infelizmente é assim...

domingo, 22 de maio de 2011

10 motivos para não ser cristão (mesmo sendo a coisa certa a se fazer)

Paulo Brabo

Ser cristão requer, como sugiro às vezes, estômago forte. Embora seja para todos, definitivamente não é para qualquer um.

Houve tempo em que para ser socialmente aceito no Ocidente era requisito mostrar certificado de batismo. Hoje em dia, graças aos céus, não é mais assim: ninguém mais precisa ser cristão só por ser a coisa politicamente correta a se fazer. Há porém motivos adicionais para você abandonar essa idéia de seguir consistentemente os ensinamentos de Jesus, se é que você se preocupa com essas coisas.

Selecionei dez; deve haver mais.
10 MOTIVOS PARA NÃO SER CRISTÃO
  1. PUREZA DE MOTIVOS. Algumas religiões, menos ambiciosas, exigem um comportamento exterior impecável. O cristianismo requer pureza interior de motivos, que é coisa muitas vezes mais difícil de alcançar e que talvez ninguém seja capaz de apresentar. De acordo com Jesus, não basta fazer a coisa certa, é necessário fazê-lo com a motivação correta. E, talvez pior e mais comum: basta contemplar com simpatia a maldade para ser culpado dela.
  2. DESAPEGO A COISAS MATERIAIS. Poucas coisas caracterizaram a pregação cristã desde o início mais do que um selvagem desapego a riquezas e outras distrações palpáveis. “Não ajuntem tesouros na terra”, recomendava a análise econômica de Jesus, que lembrava ainda que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu. Os primeiros cristãos acreditaram: venderam tudo que possuíam e deram aos pobres, e do que restava a cada um “ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo lhes era comum” (Atos 4:32).
  3. RENÚNCIA AO PODER. Problema semelhante está na exigência, reforçada continuamente no Novo Testamento, de humildade e da renúncia de todos privilégios, mesmo (ou especialmente) os merecidos. “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mateus 20:25-26). Mesmo quando a humildade era vista como virtude politicamente correta e ambição como vício de caráter, poucos efetivamente se dobravam a essas duras exigências. Que dirá hoje.
  4. AMAR OS INIMIGOS. O Antigo Testamento exigia o razoável: que tratássemos nossos vizinhos com civilidade, mesmo quando não o mereciam – comportamento que garantia, com certa medida de esforço, um mínimo de coesão na sociedade. Jesus perdeu aparentemente todo o senso de proporção quando pediu que amássemos nossos inimigos e intercedessemos diante de Deus pelos que nos odeiam. De nada adianta amarmos o que nos amam, argumentava ele, porque os mais vis salafrários fazem o mesmo. Todo mundo ama quem o ama, e Jesus queria mais do que esse pacote básico: pedia singelamente que fôssemos “perfeitos como Deus é perfeito” – que fôssemos graciosos como Deus, que derrama o sol e a chuva sem distinção sobre bons e maus – sobre merecedores e cafajestes (Mateus 5:45,48). Essa sua exigência permanece tão impopular hoje quanto quando foi proferida pela primeira vez – talvez ainda mais, já que só restamos nós cafajestes e ninguém mais se dá ao trabalho de fingir-se de merecedor.
  5. PERDOAR PARA SER PERDOADO. O Pai de Jesus não é dado a barganhas, mas essa, curiosamente, ele não se esquiva em fazer. O perdão é gratuito desde que ousemos estendê-lo aos outros com a mesma disposição cavalheiresca. “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:14,15). Como se vê, somos todos imperdoáveis, mas a culpa não é de Deus.
  6. PUREZA SEXUAL. O sexo não era para os judeus a neura que se tornou para os através dos cristãos, mas uma boa medida de consistência na conduta sexual sempre foi medida da experiência cristã. Com o tempo, e por motivos que não cabe discutir aqui, o pecado sexual tornou-se no discurso cristão o pecado por excelência. Hoje em dia o sexo fora do casamento é, na prática, a única conduta aberta não-tolerada numa comunidade cristã evangélica. Ambição, ganância, mentira e rancor são bem-vindos a olhos vistos, mas se for para você for acordar na cama errada ou acalentar pensamentos impuros faça como o resto de nós e não dê bandeira. A única coisa que Jesus tem a dizer sobre esses assuntos é, continuamente, “quem não tem culpa no cartório atire a primeira pedra” – e “vá e não peques mais”.
  7. PRATICAR A VIRTUDE. É crença fundamental do cristianismo que somos salvos da condenação não como compensação pelos nossos esforços no sentido de praticar o bem, mas pela iniciativa gratuita e infundada de Deus, que resolve nos dar de presente o que ninguém teria como fazer por merecer. Apesar disso, a ênfase na prática ultrapassada da virtude – fazer o bem sem olhar a quem – é tecla em que batem continuamente os escritores do Novo Testamento. Como se sabe, a virtude e a integridade são vistas hoje como fraqueza e vício, e é politicamente incorreto sequer mencioná-las num contexto positivo. A lei de Gérson revogou essas curiosidades da história.
  8. SEREMOS JULGADOS PELOS NOSSOS ATOS. “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras” (Mateus 16:27). Parece contradição, mas o ensino do Reino é o de que somos aceitos pela graça (isto é, não pelos nossos próprios esforços em fazer o que é certo) mas seremos julgados – pasme-se – pela nossa conduta. De um modo misterioso, basta abraçar a graça para ser aceito incondicionalmente por ela (como aconteceu a um dos ladrões na cruz); por outro lado, não basta, e o discurso de Jesus requer uma tremenda consistência na conduta pessoal. “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?” (Lucas 6:46).
  9. A INSENSATEZ DA GRAÇA. Como se os escândalos retromencionados não bastassem, há o terrível constrangimento de que para ser cristão é preciso engolir a insensatez da graça – a crença na atitude cavalheiresca e generosa pela qual Deus aceita e abraça quem nós mesmos excluiríamos e condenaríamos de imediato, irreversivelmente e com toda a convicção. Nossa tendência natural é olhar os desprezíveis com desprezo, nunca com misericórdia. Aceitar quem não merece ser aceito não é apenas terrivelmente exigente, é conduta que convida ao mais impiedoso ostracismo social. Ninguém respeita quem não se dá ao respeito, e o cristianismo exige que engulamos a peculiaríssima noção de que “a substância da nossa fé consiste na convicção de que foras-da-lei, pecadores e criminosos podem chamar Deus de Pai, e de que prostitutas podem entrar no reino de Deus antes dos religiosamente respeitáveis” (Brennan Mannigan). Ser cristão é admitir um Deus que não se dá ao respeito. Um Deus sem critério. Um Deus vulgar. Definitivamente, não é para quem tem estômago fraco.
  10. EXIGE A VIDA INTEIRA. Finalmente, ser seguidor de Jesus requer viver como ele viveu, o que não é pouco, considerando como ele terminou. “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio,” disse Jesus aos seus primeiros seguidores, e os mais espertos dentre eles logo interpretaram a sentença, corretamente, como querendo dizer “eu os envio para darem suas vidas [por quem não merece o esforço]”. Ser cristão requer, infelizmente, tudo, a vida inteira, o tempo todo e até o fim. Não há meio-termo, meias-palavras, trégua ou feriado semanal. “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:33). Segundo a mensagem cristã, no entanto, não há de fato barganha maior do que perder a vida, porque “quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á; e quem a perder de fato a salvará” (Lucas 17:33).
Mas trata-se, convenhamos, do ensino de um sujeito idealista que dizia coisas como “ninguém tem maior amor do que dar a vida pelos seus amigos”. Se houve um mundo em que esse convite pode ter parecido menos popular, é o nosso.

Agir dessa forma, se fosse possível, seria naturalmente a coisa certa a se fazer. Mais um motivo para você não ser cristão, se não quiser pagar mico. Hoje em dia ninguém exige o impraticável dos outros ou de si mesmo. Fazer a coisa certa?

Não está mais aqui quem falou.
Related Posts with Thumbnails