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sábado, 12 de maio de 2012

Rabiscos sobre o tempo


Ricardo Gondim

“O tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas” Foi assim que Gaston Bachelard interpretou a frase do historiador francês Gaston Roupnel (1872-1946): “O tempo só tem uma realidade, a do Instante”.

O mistério do Tempo sempre me intrigou. Aliás, desde que deparei, pela primeira vez, com o pensamento de Agostinho, em que o bispo africano separava o Tempo em duas dimensões, o eterno e o histórico, passei a pesquisar o tema.

Jorge Luis Borges, em “História da Eternidade”, afirmou que “o tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança”. Borges referia-se ao Timeu de Platão para concluir que “o tempo é uma imagem móvel da eternidade; e isso é apenas um acorde que a ninguém distrai da convicção de ser a eternidade imagem feita de substância de tempo”.

Em diversas tradições religiosas e filosóficas o tempo foi cíclico, uma roda que se repete perpetuamente; uma inútil vaidade que transparece na tardia influência grega no Eclesiástes: “Gerações vêm, gerações vão, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta, o sol se põe, e depressa volta ao lugar de onde se levanta. O vento sopra para o sul e vira para o norte; dá voltas e voltas, seguindo sempre o seu curso. Todos os rios vão para o mar, contudo, o mar nunca se enche; ainda que sempre corram para lá, para lá voltam a correr. Todas as coisas trazem canseira…” (Eclesiastes 1.4-8).

O próprio Borges, sem se referir ao texto bíblico, previu que as “eternidades platônicas correm o risco de se tornarem insípidas”. Realmente, se tudo se repete num fluxo e refluxo monótono, o destino se torna inevitável. Se o tempo só fica no vai-e-vem, sobra o fatalismo – que é frio, insípido, chato.

O tempo grego, como uma engrenagem, também é trágico. E por trágico quero dizer, inexorável. Se a passagem do tempo não passa de uma roda dentada, encaixada noutras rodas, o futuro já é. E se o futuro já é uma realidade não há como escapar dele.  Tragédia se popularizou pela antiguidade ocidental como um gênero literário porque lidava com o tempo como trilho de aço. Mulheres e homens podiam espernear contra sua sina, mas o mundo superior estava pronto, e, portanto, não permitia mudanças. Eis o motivo porque as forças impessoais que movem o cosmo, que regem a eternidade e que aguilhoam o tempo se tornaram inamovíveis para o mundo helênico. (O que será, será).

Mas, para o rabino britânico Jonathan Sacks, Tragédia não tem equivalente na literatura hebraica ou bíblica; no “judaísmo não há destino inevitável”. Na literatura semita o futuro estava sempre aberto para mudanças. Arrependimento, inclusive, passou a valer como um câmbio no comportamento que altera possíveis desdobramentos. Um tipo de futuro, de acordo com as decisões tomadas no presente, pode deixar de existir. Profetas saíam pelas ruas de Israel e Judá conclamando o povo a mudar o amanhã. Nada tinha que ser como se prenunciava. Profetizar era tarefa árdua pelo simples fato de convocar aquela geração a ver-se responsável pela seguinte.

Infelizmente o cristianismo perdeu de vista a cosmogonia semítica para adotar, acríticamente, a grega. Agostinho, que bebeu mais das águas filosóficas neoplatônicas do que das narrativas judaicas, desenvolveu sua teologia considerando passado e futuro, eternamente, como um “Agora” perene – um presente contínuo.

Para Agostinho, tudo foi providencialmente “escrito e determinado” por Deus e nada ou ninguém pode alterar o que já está pronto. Em seus pressupostos, Agostinho acreditava que toda a realidade já pode ser contemplada pelo Deus eterno como uma coisa só. Passado, presente e futuro acontecem num bloco de realidade. Passado, presente e futuro aos olhos de Deus são realidades simultâneas, portanto, fixas.

Por outro lado, o historiador das religiões Mircea Eliade, ao comparar, por exemplo, o cristianismo com o hinduísmo, afirmou que: “Para um hindu simpatizante do cristianismo, a inovação mais espetacular (se deixamos de lado a mensagem ou a divindade do Cristo) consiste na valorização do tempo, em última análise na salvação do tempo e da história”.

Para Eliade, o cristianismo renuncia a reversiblidade do tempo cíclico para impor um tempo irreversível. Eliade cria na irreversibilidade do tempo não no sentido de estar já pronto, mas por ser linear. O tempo é um devir, um linha que vai se alongando. O tempo, no cristianismo, segue adiante. Se o tempo segue, cada instante tem o valor de uma eternidade.

“Pois desta feita as hierofanias manifestadas pelo tempo não podem ser repetidas: o Cristo viveu, foi crucificado e ressuscitou uma única vez”. O evento crístico portanto significa uma cunha irrepetível na linha do tempo. Eliade, assim, aproxima o cristianismo do pensamento de Gaston Bachelard: “Daí vem uma plenitude do instante, a ontologização do tempo: o tempo consegue ser, o que quer dizer que ele para de tornar-se, que se transforma em eternidade”

Vinicius de Moraes também intuiu, acertadamente sobre marcar o instante como infinito na sua efêmera duração. Ele poetizou: “Eu possa dizer do meu amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”.

Para Eliade o evento distintivo que, por assim dizer, “eterniza” o instante seria o momento favorável. A experiência de vivenciar algo que, por tão caro, deveria se repetir, mas não se repete.  “O instante transfigurado por uma revelação (quer chamemos ou não este “momento favorável” de Kairós).

Assim, se na poesia o amor confere ao instante um valor eterno, na fé cristã a manifestação de Deus na história, sua intenção salvadora (soteriológica) confere plenitude ao tempo. Há um evento que pode ser considerado o zênite, irrepetível, único, singular: a encarnação. “Como poderia ser inútil e vazio o Tempo que viu Jesus nascer, sofrer, morrer e ressuscitar? Como poderia ser reversível e repetir-se ad infinitum?” (Eliade).

A distinção que distinguirá o cristianismo do judaísmo, portanto, vem do acontecimento histórico que “revela o máximo de trans-historicidade: Deus não intervém apenas na história, como foi o caso do judaísmo; ele se encarna num ser histórico para sofrer a existência historicamente condicionada; aparentemente, Jesus de Nazaré não se diferencia em nada de seus contemporâneos da Palestina. Na aparência, o divino é totalmente oculto na história: nada deixa entrever na fisiologia, na psicologia ou na ‘cultura’ de Jesus, o Deus Pai em si; Jesus come, digere, sente sede ou calor como qualquer outro judeu da Palestina. Mas, na realidade ‘ esse acontecimento histórico’, que constitui a existência de Jesus é uma teofania total…” (Eliade).

Borges conclui, formidavelmente, em “Nova Refutação do Tempo” que não se pode imaginar ou experimentar o tempo como mera simultaneidade: “And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal, é terrível porque é irreversível e férreo. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges”.

Deus encarnou na história, se exilou no mundo, se esvaziou em seu Filho. No tempo, andou manso e humilde entre mulheres e homens para que se reconceituesse a percepção da história. No cristianismo não há fatalismo.  Assumisse-se responsabilidade com o futuro (seremos complacentes ou transformadores?).

Eu não conseguiria fazer teologia sem dialogar com tais conceitos. Creio na linearidade histórica, plena de contingências existenciais; na liberdade de um mundo que Deus soberanamente organizou, pleno de surpresas e quanticamente aleatório.

Soli Deo Gloria

Bibliografia:

Eliade, Mircea – Imagens e Símbolos – Martins Fontes, São Paulo, 2002.
Borges, Jorge Luis – Obras Completas, Tomos I e II, Editora Globo, São Paulo, 1999.
Jonathan Sacks – Uma Letra da Torá, Editora Sefer, São Paulo, 2002.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O inevitável e aquele outro

Paulo Brabo - A bacia das almas

NOTA PARA MIM MESMO: escrever sobre o livre-arbítrio quando quiser despertar muitos comentários e apaixonados.

Minha intenção em O karma do livre-arbítrio era essencialmente expor a distinção técnica entre dois modos distintos de se pensar sobre determinismo, o científico e o teológico. Com o risco de dissipar a nuvem de mistério que deve acompanhar minha opinião pessoal sobre o assunto, permitam-me acrescentar uns poucos parágrafos a respeito da minha posição.

Será útil que concordemos, antes de tudo, sobre a distinção entre o que está predestinado e o que é inevitável. Segundo o determinismo teológico calvinista, as coisas acontecem de modo inexorável porque foram pré-dispostas pela inteligência de Deus a acontecerem dessa forma precisa; cada momento é previsível porque está predestinado. Para o determinismo científico, por outro lado, nada é conscientemente escolhido pela inteligência divina ou pela nossa. Ao contrário, tudo é rigorosamente fortuito. As coisas são previsíveis não porque exista por trás delas um planejamento prévio, mas porque, dadas as mesmas condições do sistema, aconteceriam inevitavelmente da mesma forma. Cada momento é previsível porque, dentro das variáveis de um sistema simples como o nosso, é inevitável.

Para o determinismo teológico, seremos capazes de prever o futuro sempre que Deus no-lo revelar. Para o científico, poderemos prever o futuro sempre que tivermos um conhecimento adequado das variáveis envolvidas e da relação entre elas.

Para um calvinista estava sim previsto por Deus, desde antes de toda a eternidade, que o Vinicius estaria escrevendo o seu comentário às 15:03 do dia 28 de março de 2007 enquanto tomava tererê na tarde quente de São Paulo. O cientista cognitivo, por outro lado, opinaria que o Vinicius tomava tererê porque estava quente; que escreveu as 15:03 porque não pudera escrever antes; e que era inevitável que alguém com as suas inclinações e bagagem de experiências acabasse se pronunciando sobre o assunto, e precisamente da forma como fez.

Dito isto, posso afirmar que creio muito mais no conceito deinevitabilidade do que no de predestinação, na forma como os expusemos aqui. Penso estar claro que o mundo vive debaixo da sombra da inevitabilidade. Dado o universo ser como é, as leis da física serem como são e os seres humanos serem de carne como são, o mundo da nossa experiência não tinha como ser diferente. São inevitáveis as coisas que sabemos que nos matam: as injustiças, os assassinatos, os roubos, as invejas, as cobiças, os capitalismos e as guerras. São inevitáveis as coisas que cremos que nos redimem: as gentilezas seletivas, as bondades direcionadas, a proteção dos amigos, o corporativismo entre semelhantes, os preconceitos e as preferências – coisas que, naturalmente, acabam patrocinando todas as injustiças mencionadas no item anterior. Não há predestinação nisso e ela é mesmo desnecessária.

Não é preciso predestinação para que Caim mate Abel, para que Isaque prefira Jacó, para que Jacó prefira José, para que José seja vendido pelos irmãos. Não é preciso predestinação para que tudo dê errado.

NÃO É PRECISO PREDESTINAÇÃO PARA QUE CAIM MATE ABEL.

Minha postura sobre a predestinação está ligada precisamente a esta relação do ser humano com o que inevitável. Com Tolkien e Jacques Ellul, penso que a característica mais curiosa da nossa condição (e o mais convincente indicador da existência de Deus ou de algo que o valha) está em que “o ser humano pode sempre colocar em andamento eventos além daqueles que parecem inevitáveis”.

Creio que se como seres humanos somos predestinados a alguma coisa, é a fazer frente à grossa maré da inevitabilidade que tolhe os nossos movimentos e os de todos à nossa volta. Havendo um Deus, esse nos chamou a todos e a cada um para afundarmos nesse mundo de forma positiva, gerando soluções criativas (e em grande parte paliativas) para o velho problema do que não pode ser evitado. Quando lutamos contra a eloqüência do inevitável estamos fazendo aquilo para que somos escolhidos e predestinados; quando não, escolhemos nos conformar a este simulacro de vida, inteiramente esvaziados do espírito criativo do destemor de Deus.

Ecos desse chamado e da singularidade dos que o ouvem aparecem nas lendas de todas as culturas: o herói é invariavelmente chamado para deter o que não pode ser detido. Ele pode ser pequeno, despreparado e insignificante, mas sua singularidade está em levantar-se contra a maré; essa é em muitos sentidos a sua vitória, sua única vitória. E os heróis nos fascinam porque sentimos que é dessa forma que poderíamos – que deveríamos estar vivendo.

O Sermão do Monte, a história de Gandhi e a vida de Madre Teresa são testemunhos eloqüentes da possibilidade de uma vida postada conscientemente contra a torrente da inevitabilidade. E são, ao mesmo tempo, exemplo da quase completa futilidade desses esforços. Todos esses “lutaram contra a carne”, isto é, lutaram contra as paralisantes limitações inerentes à condição humana, mas não conquistaram muita carne além da sua. Tanto Jesus quanto Gandhi e Madre Teresa deixaram poucos discípulos no que diz respeito ao seu despejo em enfrentar o inexorável.

Não há naturalmente mérito em limitarmo-nos ao sabor do inevitável. Sendo o Brabo quem é, seria inevitável que ele levantasse esta Bacia e depositasse nela este tipo de coisa. Será porém inevitável que eu coloque em prática alguma coisa do que recomendo? De modo algum. Isso requeriria uma estirpe de coragem que não tenho e não quero ter.

No que me diz respeito não há história que reflita mais claramente a glória e os perigos desse trajeto do que o ciclo O Senhor dos Anéis,de Tolkien. A trilogia dá testemunho do trajeto de uns poucos heróis em sua luta contra a inevitabilidade. É inevitável que o Anel do Poder produza algum estrago no universo. É inevitável que Frodo seja contaminado pela posse do Anel. É inevitável que sejamos irremediavelmente contaminados pela existência. É inevitável que sejamos traídos e abandonados por um obsceno número de aliados. É inevitável que tenhamos de encarar de frente a morte, e que a esperança seja encarada, até por nós mesmos, como tolice. É inevitável que a eternidade seja maculada pela amargura que nos marcou a ferro e fogo. Mas quando houver glória, quando houver coragem, quando houver lealdade – ah, essa será como uma estrela resplandecendo na mais impensável escuridão.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Karma do livre-arbítrio



Photo by Mamluke

O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?

Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um Deus realmente soberano, argumentam ainda hoje os calvinistas, não poderia deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da predestinação.

Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação final no conceito inescapável de amor-livre,que apenas transferia para o campo da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão consensual e auto-determinação.

Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.

O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente – ou seja, não é para todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto, vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em O Homem como Máquina.

Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma austera convicção com que os reformados duvidavam dele – mas por motivos inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard Dawkins: “Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles governados pelas leis da física”. A implicação é clara: num sentido muito profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.

Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:

Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados, tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior do seu cérebro.

Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo e livre. Acho a idéia suficientemente bela para ser verdadeira.

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ao contrário

Fonte: A Bacia das Almas - Paulo Brabo

– Por que o Espírito Santo tem de intervir?

– Ele na verdade nos faz raciocinar ao contrário. Na revelação [cristã] temos de começar no final a fim de compreender o início. É precisamente isso o que o Espírito Santo nos leva a fazer: ver a cruz através da ressurreição e, similarmente, os pecados do homem através do perdão. A condenação através da graça. É porque Deus nos perdoa que somos capazes de apreender a extensão do nosso pecado, quando para o homem o método natural seria pecar primeiro e pedir perdão a Deus depois. Para mim, isso é absolutamente aberto e absolutamente liberador. É heresia pregar sobre pecado e condenação sem antes pregar sobre liberdade e perdão.

Jacques Ellul, em entrevista a Patrick Chastenet



domingo, 6 de maio de 2012

Frágeis intuições sobre o amor


Ricardo Gondim

O que se pode falar do amor? Inaptos, hesitantes, imperfeitos, homens e mulheres guardam frágeis intuições sobre o amor. Há de se concordar com Miguel de Unamuno: “o amor é o que há de mais trágico no mundo e na vida; o amor é filho da ilusão e pai da desilusão; o amor é a consolação na desolação, o único remédio contra a morte, da qual ele é irmão”.

Amamos antes de sabermos explicar como funciona o amor. Não há teoria suficiente que elucide os retratos da mãe debruçada sobre o berço, do reencontro de amigos separados há muito por uma guerra, do lamento do filho diante do túmulo da mãe. As cartas ridículas dos namorados valem por qualquer tratado sobre o amor.

Contudo, dá para rabiscar algumas ideias (incipientes e precárias, claro) sobre o amor.  E a partir de três concepções: liberdade, excelência e personificação.

Liberdade

André Comte-Sponville diz que amor “não é dever, mas virtude… [já que] dever é uma coerção e virtude, uma liberdade”.  Nietzsche afirma corretamente: “O que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal”. Para o amor não há lei. Sempre que amor nasce do dever se esgota na rejeição. A adolescente, forçada pelos pais a um relacionamento com a divindade, desentranha sua revolta honesta: “Odeio ter que amar a Deus”.

Não existe amor sem liberdade. Agostinho sintetizou bem: “Ama e faz o que quiseres”. Se o rei mantém um harém, o faz para ter sexo, somente. No dia em que precisar de afeto, por mais déspota que for, terá que cativar. Para ser correspondido no amor, jamais poderá se impor. Ou o rei se fragiliza como qualquer namorado enquanto espera que a amada responda ao seu aceno ou fica sozinho.

Excelência

O amor se desdobra como excelência. Padre Antônio Vieira narrou uma parábola mais ou menos assim: “Certo homem saiu para caçar antes do alvorecer. Ao longo do dia, tentou alvejar vários animais. Errou todos os dardos. Ruim de pontaria foi mal sucedido em abater um bicho que alimentasse a família. Triste, voltou para casa no crepúsculo. A poucos metros da porta da choupana, deparou-se com uma cena desesperadora. Uma cobra se enrolava no pescoço do filho. Sem hesitar, o caçador retesou o arco e mirou a flecha. A cabeça da serpente estava perigosamente próxima do filho. Desta vez, acertou em cheio. E salvou a vida do filho. O que fez o pai para atingir a cabeça da áspide, se era péssimo caçador, ruim de pontaria? Como o homem se fez exímio no arco e flecha?”.  O próprio jesuíta responde: “O amor”. A vida do filho corria risco.

O amor cria especialistas. Excelência nasce do afeto. As pessoas se tornam criteriosas por conta do seu bem querer. Quem ama não aceita a lógica do “de qualquer jeito” – aliás, detesta “jeitinho”. No carinho reside a meticulosidade. Cuidado refina atitudes. Os amantes não se importam em caminhar milhas extras. Quem aprecia transforma decisões banais em imperativos. Esmero e amor se irmanam.

Personalização

O amor descarta ideações. Não se contenta em sobreviver no mundo das ideias. Amor precisa se encarnar. Paixões platônicas ou virtuais se extinguem, morrem de inanição. Unamuno avaliou que o amor na relação com Deus sai do mundo da perfeição para realizar-se no real: “O amor personaliza tudo aquilo que ama. Só nos podemos enamorar de uma ideia, personificando-a. E quando o amor é tão grande e vivo, tão forte e transbordante que tudo ama, então tudo ele personifica, e descobre que o todo total, que o Universo é também Pessoa que tem Consciência, Consciência que por sua vez, sofre, se compadece e ama, como quem diz – é consciência. E esta Consciência do Universo, que o amor descobre personificando tudo aquilo que ama, é o que nós chamamos Deus. E assim a alma compadece-se de Deus, e sente que ele se compadece por seu lado, ama-o e sente-se amado por ele, abrigando a sua miséria no seio da miséria eterna e infinita, que é, pela sua eternidade e infinidade, a suprema felicidade.

Deus é, pois, a personificação do Todo, é a Consciência eterna e infinita do Universo, Consciência presa da matéria, e esforçando-se para se libertar dela. Personalizamos o Todo, para nos salvarmos do nada…”

“… pois o amor é tão forte quanto a morte… Nem muitas águas conseguem apagar o amor; os rios não conseguem levá-lo na correnteza. Se alguém oferecesse todas as riquezas de sua casa para adquirir o amor, seria totalmente desprezado” [Cântico dos cânticos, 8.6-7].

Soli deo Gloria

Microsalvamentos – Como salvar o mundo um instante de cada vez

Paulo Brabo

Sei como salvar o mundo mas até agora não contei para ninguém, porque não tenho a coragem ou a força de caráter para dar exemplo e ser o primeiro. E nem, para falar a verdade, o segundo.

Contra todos os meus instintos, portanto, exponho aqui o Plano Mestre, na esperança que ninguém acredite e coloque em prática. Os resultados seriam incrivelmente desastrosos para a civilização como a conhecemos.

Esqueça o coletivo

A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem intencionadas que sejam, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, Gogues ou Magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência. As ongs tem a tremenda virtude de não serem governamentais, mas contam com a imperdoável falha de serem organizações. Repita comigo: as instituições não existem. Só existem pessoas. Se você não fizer, ninguém vai fazer. Absolutamente ninguém vai fazer.

Eu, pode estar certo que não vou.

O MUNDO É SALVO EM PARTES. EM PARTES PEQUENAS.

Esqueça quem você ama

Não no sentido de deixar de amar quem você ama, mas no sentido de abandonar todas as suas tentativas de salvar, resguardar e proteger quem você ama. Todos os esforços nesse sentido serão contraproducentes. Você precisa de quem você ama, e está portanto inteiramente desqualificado para ajudá-lo. Talvez alguém possa salvar quem você ama, mas não será você. A única coisa a se fazer por quem se ama é a absolutamente mais dolorosa e custosa de todas: abrir mão dos seus esforços de preservar essas pessoas para você, mantendo ao mesmo tempo a [tola] esperança de que elas lhe sejam devolvidas inteiras um dia. Sua missão, aprenda comigo, não será salvar os que você ama. Se fosse, onde estaria o seu mérito?

Salve o momento

O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da existência em grandes e eficientes vassouradas. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desentupir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez.

O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são franciscos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo verdadeiramente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dispendioso, frustrante e tremendamente lento dos microsalvamentos: redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez.

Os microsalvamentos não são glamurosos, não são definitivos, não dão manchete e não são recompensadores. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empurramos até o topo hoje terá deslizado invariavelmente o morro amanhã, e amanhã haverá outras.

Não temos infelizmente o chamado ou a capacitação para salvar o amanhã, o que nos pareceria infinitamente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impensável tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insuportável, irredimível momento.

Alguém pare o momento que quero descer.

Prepare-se para morrer

Se você é esperto como eu, deve estar pensando: “Brabo, você está aí sentado na sua cadeira, muito belo e formoso, me convidando para sair pela vida fazendo o bem sem olhar a quem. Pois deixe-me ser o primeiro a dar-lhe boas vindas ao planeta Terra, meu amigo. Aqui o mundo não é cor-de-rosa desse jeito não. Viver nessa onda de redimir o momento é pauleira, velho. Mesmo que eu conseguisse viver a minha vida consistentemente com a melhor das boas intenções, é preciso mais do que óculos de Pollyanna para não enxergar que o mundo está cheio de gente mal intencionada. Quem garante que eu não vá cair vítima de rejeição, de incompreensão, de falcatrua, de uma bala perdida ou planejada, por parte de um espírito menos bem intencionado do que eu?”

Se você pensou assim, eu não teria dito melhor. Rejeição, traição e morte, confirmam as estatísticas, compõem o final que aguarda todos os que dedicam a vida à proposta insanidade dos microsalvamentos. Gente como Gandhi, Martin Luther King, Jesus a Abraham Lincoln não morre, é colhida pela insuportável singularidade da sua conduta. Ninguém quer estar na pele de pessoas assim, porque não permanecem muito tempo dentro da pele.

Fica então a advertência: você pode até cair nessa de salvar o mundo um momento de cada vez – mas faça suas orações, velho, porque seus dias estão contados. Não comece jamais esse serviço pensando que vai terminar.

Esqueçamos o que eu disse

Como espero ter deixado muito claro, salvar o mundo é atividade perigosa, frustrante, não-remunerada e insalubre. Requer preparo físico, caráter ilibado, sangue de barata e estômago forte. Desconsidere, portanto, tudo que eu disse.

Aliás, você não iria mesmo poder fazer nada sem a minha ajuda. Só eu posso salvar o mundo, e enquanto minha consciência estiver aplacada, o mundo estará perdido.

Mais fácil assim.



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