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sábado, 9 de julho de 2011

Que uma serpente não decida por nós


Alex Carrari - Herdeiros do Deserto

Adão e Eva são o Todo Homem e Toda Mulher bíblicos, seu pecado é o nosso pecado

Deixemos de lado Adão e Eva como nomes próprios. Não os tratemos como indivíduos sobre os quais pese a total culpa do primeiro delito. Não pensemos que Adão e Eva eram invólucros de pleno purismo interior vivendo em estado de imperturbada perfeição (A perfeição do homem é a perfeição de uma vocação, não de uma situação, como escreve F. Varillon). Desprendamo-nos da idéia de um primeiro casal exemplar e puro sulcando delituosamente a maçã num paraíso primordial. Desconsideremos que a árvore ocultava uma ameaça. Que o mal estava contido no fruto.
No lugar do casto e ingênuo casal das origens, coloquemo-nos a nós mesmos, com seco realismo, abocanhando nossa mais alucinada ganância, nossa mais ostentosa ambição, nosso mais agudo desejo de dominação.

Como Deus sereis. O prêmio é a conquista imediata da alteridade, o completo desimpedimento da percepção. A árvore não é boa nem má, a ciência é neutra, sua manipulação é que a inclina para o bem ou para o mal. Dependendo da vontade daquele que da ciência se apropria, pode ser que seja inventada a cura para o câncer, ou, pode ser que apareça uma bomba mais devastadora do que a de Nagasaki e Hiroshima. A cobiça gerada no coração, de onde procedem os maus desígnios como dizia o Nazareno, é que antecede a fatídica dentada. O gesto consumado só evidencia a mais ativa e sombria potencialidade que se abriga em nosso íntimo, o mal em estado embrionário.

Convidados a tomar parte na vida divina através do humilde acolhimento, inaugurando alvoradas, fruindo crepúsculos dias a fio no mundo, optamos pela via do rompimento; a negação de nossa humana vocação. Colocado em termos que diariamente arrazoamos sobre seus benefícios, nada mais tentador que inventarmo-nos como Deus. Quanto aos encargos de conhecer o bem e o mal fingimos não saber do que se trata, melhor ainda – e isso limpa a nossa barra – dizemos que tanto o bem quanto o mal pertencem a Deus, e que não nos compete arquitetar sobre o caso. O velho determinismo fatalista disfarçado de piedade.

Tapamos o entendimento para a evidência de que a Bíblia não fecha com a afirmação de ser o homem totalmente mau – totalmente depravado como queria o obscuro legista de Genebra – nem totalmente bom – como querem alguns educadores atuais –, mas que é dotado de ambas as tendências. Inclina-se tanto para uma quanto para a outra. Desconversamos quanto ao relato do Gênesis onde queremos ver uma “Queda”, a escritura não classificar, e não dar espaço, para compreendermos o ato de Adão como pecado. Parece que o melhor para nossa disposição ao cinismo é não sabermos que na opinião do Pentateuco o homem é dotado de “impulsos malignos”, quer dizer, há em seu caráter uma tendência para o mal.

Fazemos de conta que nunca ouvimos dizer que a expressão que a Bíblia usa para essa tendência para o mal é yetzer, palavra que deriva da raiz YZR, que significa “formar”, “modelar”, algo como o ceramista que modela o barro para fazer um vaso. Que a palavra yetzer tem como significado “forma”, “estrutura”, “propósito” com referência a imaginação. Yetzer, portanto, significa fantasias, sejam elas boas ou más. Não, não levamos em conta que estes impulsos só são possíveis à base daquilo que é peculiarmente humano: a imaginação. Ser bom ou mal é algo dado somente ao ser humano. A questão problema do bem e do mal surge quando há imaginação[1]. Jesus deixa isso às claras quando alerta para o enraizamento da maldade na profundidade de nosso ser, onde fervilham maquinações que quando colocadas para fora revelam o que realmente vai em nosso interior.

Está certo que o homem só desenvolve seu impulso para o mal após ter rompido sua unidade primordial com a natureza e ter adquirido autoconsciência e aprimorado, com malignidade, sua imaginação. Na concepção judaica – que não leva em conta as neuras de Stº Agostinho e Calvino – o homem nasce com a capacidade de pecar, mas pode também de voltar-se para Deus e se redimir alinhando seus passos ao desejo divino, sem que para isso precise ser forçado, ou predestinado. A idéia de escolha é fundamental na mentalidade judaica, pois, ela determina quais impulsos o homem vai seguir se para o bem, se para o mal.

Que uma serpente não decida por nós

Não levamos em consideração que o “pecado original” nos termos em que fomos treinados a acreditar se conforma à nossa ociosa falta de atitude e brio pessoal em nos colocarmos em nosso lugar e arcarmos com os desmazelos próprios do nosso ego avultado. Nossa preguiça, e, pouca ou nenhuma disposição para cingir tudo o que estamos destinados a ser, avoluma o débito impagável que Adão e Eva deixaram em nossa conta. Até polimos a expressão do Bispo de Hipona, não por ser coesa com o Sacro texto, mas por ser coerente com nossa anuência em deixar que uma serpente sempre decida por nós.

A noção de “pecado original” como enunciado dogmático provoca em nós uma resignação aliviante ao sugerir que entramos na vida com dois pontos a menos em nosso cômputo, ambos perdidos lá no Éden, sem sequer termos tido a chance de protestar – como se por um acaso fosse-nos dada a chance de fazê-lo fossemos mesmo capazes. No início não queríamos, com o tempo, deixamos de ser homens, falidos e descontentes com nossa sorte, porém, relutantes em assumir nossa responsabilidade pelo que fizemos no passado e pelo que faremos daqui em diante. A sublimação voluntária de nossa responsabilidade e consciência evolutiva do mal que nós mesmos gestamos, fizeram florescer imagens de Satãs e Luciferes heróicos como o de Milton ou patéticos como o de Goethe, tornando o pecado mais interessante e o pecador mais atraente que o santo, embora não admitamos publicamente.
Isolando o dogma, a necessidade de redenção pessoal foi arquitetada a partir da noção de “pecado original” e “Queda”, que não constam em Gênesis, mas para todos os efeitos é dito e ensinado que constam, tornando-se pedras fundamentais sobre as quais foi construída a mensagem cristã de salvação.

O pecado de todos nós e o que estamos destinados a ser

Passivos e trêmulos observamos da coxia Adão, o homem-pecador em cena, homem-insurrecionário, altivo e rebelde tumultuando o céu, instalando com apenas uma dentada a desordem cósmica como efeito do orgulho que lhe penetrou o coração. (Um início caricatural do mundo, em que Deus cria tudo perfeitamente e o homem abala essa perfeição introduzido o caos e a desordem). Daí as imagens de auto-afirmação – a cobiça de Adão no Éden ao pé da árvore da ciência – seguidas de sexo desordenado – fora dele quando foram expulsos – que povoam nossa mente quando pensamos no pontual primeiro delito e em sua extensão; e viram que estavam nus. Não por acaso, no imaginário cristão, o primeiro casal só foi conhecer o sexo após a "Queda" e a expulsão do paraíso. Uma definição prometéica do pecado, que nas obras de T.S.Eliot começou a ser redefinida.
Eliot expôs um mundo de lume fosco acinzentado, habitado por homens ocos e empregados de aparência débil, diagnosticando a verdadeira doença de nosso tempo, enquanto que nossa geração avança manquejando, não para sua realização, mas para o queixume e o tédio. Becket nos apresentou personagens que lançam olhares apreensivos das latas de lixo e dos montes de sujeira, onde chafurdam inertes e impotentes, trocando palavras desconexas e banais. Kafka nos fez apavorar com a parábola do ordinário empregado de escritório cuja primeira reação, ao ver-se transformado num terrível inseto, é calcular se ainda dará pra chegar a tempo ao trabalho. No século XXI a figura prometéica perdeu lugar na cena, que foi ocupada pelos fracos, passivos e trêmulos observadores da coxia.

Ao localizarmos a “Queda” com excessivo rigor na história do fruto proibido, nublamos o entendimento para o verdadeiro gerador do pecado no homem que consta, por exemplo, na paulada criminosa de Caim em Abel, na arrogância religiosa da Torre de Babel, na tentativa de homicídio contra José; a recusa do homem em viver em reciprocidade com seu próximo, compartilhando a terra e dividindo seus frutos e conquistas. O primeiro pecado humano não é um pecado de orgulho, é um pecado de condescendência. A má ação original de Eva – que representa o Todo Homem e Toda Mulher – não foi comer o fruto, pois, antes mesmo de esticar o braço e apanhá-lo seu coração já o havia cobiçado, renunciando a sua posição de domínio sobre si e responsabilidade sobre seus atos. A má ação original de Eva foi deixar que uma cobra lhe dissesse o que fazer.

A meia verdade da mítica serpente, não por acaso fálica, se confirmou, não morreram eles e não morremos nós ao comermos da árvore. Não se trata dessa morte que, acossados, tanto fazemos questão de desconversar. Não se trata desse nosso medo mais acirrado. Trata-se de outro tipo de morte. Da morte antecipada, da morte provocada, da vida abreviada, do fôlego extinto ao meio dia, das primaveras corrompidas. Asseveramos com tanta ansiedade a inauguração da morte física como um castigo divino, que ofuscamos o brilho de nossa mais fulgente virtude, emanar as qualidades invisíveis do Eterno antes que se rompa o fio de prata. Ambicionamos ser iguais a Deus sem acolhe-lho, então negamos, suprimimos, rejeitamos nossa humanidade, nos desumanizamos no processo; deixamos de ser homem. O homem é a criatura que está destinada a realizar seu próprio destino através do acolhimento do divino. Quando cede esse direito de decisão a outrem, e opta por não acolher o dom da reciprocidade divina, deixa de ser homem, se torna desumano.

O pecado que convencionamos chamar de “original” não é o pecado apenas de um, ou dois indivíduos num estranho e longínquo Jardim de Delícias, antes, é o pecado de todos nós na secularidade das nossas vidas, porque todos pecaram. No egoísmo somos solidários em pecado com o genérico Adão, para a morte. Na reciprocidade somos solidários em santidade com o Cristo ressuscitado, para a vida. O apático esquivamento de nossas responsabilidades, nossas decisões pessoais transferidas a outrem, a alienação de uma vida de harmonia com o semelhante, a passividade diante das varias expressões da maldade, a negação da nossa humana vocação; eis o pecado em sua origem. Eis o pecado original.

[1] Erich Fromm, O ESPÍRITO DE LIBERDADE, p 128-131

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Morte nas trincas da competência

Ricardo Gondim

Na passarela do Miss Universo, beleza depende de uma polegada. No estádio, centésimos definem o campeão. Para cada vaga na melhor faculdade, centenas ficam de fora. O robô virou dragão que rouba emprego na linha de montagem. As regras se tornaram claras: não há espaço para quem não tem competência ou excelência.

As exigências estão cada vez maiores. Para se manter na superfície, é preciso mostrar-se excepcional. Não basta capacidade intelectual. Com a cibernética, só superdotados têm vez. Todo mundo já conhece a definição do nerd: jovem austero, grave, que não conhece outra vida senão estudar - encarnação do gênio de óculos grossos e engordurados.

A prosaica lenda da cigarra e da formiga voltou a estruturar o imaginário popular. Brincar ou passar fome. O futuro pertence às formigas operárias e não às cigarras cantoras.

Lucidez filosófica e integridade vocacional foram substituídas por “Pensamento Estratégico”. Esqueça-se “Quociente de Inteligência”. As versões cult de “Inteligência Emocional” ficaram para trás. Passa a valer “Inteligência de Risco” - capacidade de manobrar e apostar nos voláteis cassinos financeiros. Prodígio é quem sabe transformar tempo em dinheiro e afeto em lucro. Apareceu um novo tipo de genialidade: moças e rapazes bem dotados, com tirocínio para ganhar bilhões de dólares; basta-lhes uma ideia na cabeça; nem precisam de martelo, foice, trator ou alicate na mão.

A internet não aplainou o mundo, abriu espaço para que entrem os antenados e conectados. Para estes, a rede tem tudo. Sites, blogs, ferramentas de busca, aplicativos e GPS comunicam, informam, orientam. Negócios, conspirações, namoros, casamentos e até suicídios acontecem online.

Muitas vezes alheia à concretude humana, a internet também criou uma “raça de impolutos”, de inoxidáveis. Nas redes sociais todos riem, se descrevem servos e servas de Deus, amantes da vida e, claro, sinceros. Rugas desaparecem nos avatares, devidamente maquiados no photoshop.

Infelizmente, mesmo encantada consigo mesma, essa geração demonstra pouca alegria. A vida só tem graça nas imagens digitalizadas. O leque de cores é infinito. A possibilidade de ser feliz se transferiu para o espaço binário.

Espiritualidade ganhou novos contornos. O deus do ineditismo tecnológico tem o seu altar. Produtos são lançados em reuniões que parecem um culto. Catedrais se erguem para celebrar a transcendência que só os computadores podem dar. O Paraíso já vem com a maçã mordida.

Respira-se uma nova liberdade. A democracia virtual abriu espaço para todo tipo de gente. Poetas e censores se encontram. Mercenários e militantes se conhecem. Milhões se sentem motivados a escrever em blogs. Autoproclamados especialistas surgem por todos os lados. Enaltecer ou esculhambar ficou fácil. Gente ávida por fama passa horas procurando maneiras de se projetar em cima dos outros. Heróis de araque, covardes em qualquer embate tête-à-tête, vociferam zelo. Analfabetos funcionais, que nunca leram um livro, acham-se capazes de criticar poetas de primeira grandeza. (Chico Buarque riu - para mim, um riso nervoso - , mas eu me assustei com os comentários ácidos sobre sua obra).

Sem saudosismo, sem querer estancar o curso da história, acredito possível humanizar a internet – antes que se transforme no novo ópio da humanidade. Ainda dá para fugir de idealizações, triunfalismos e bravatas, típicos de quem se esconde atrás da tela. Aterrissemos e vamos encarar a miséria como insulto, a guerra como anacronismo e o trabalho infantil como maldição.



Minha esperança se sustenta na tênue percepção de que um dia, enfatuados com power-points bonitinhos, vamos desejar botar os pés no chão. Por enquanto, dá para pedir: -Por favor, não deixemos a vida se esvair pelas trincas da competência.

Soli Deo Gloria

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Menina comete suicídio para doar órgãos a familiares

Agência Pavanews, com informações de Daily Mail e Blippitt

 
imagem ilustrativa

No final do mês passado, uma história cousou comoção na Índia. A menina Mumpy Sarkar, de 12 anos,  era membro de uma família muito pobre de Jhorpara, na região de Bengala. Mridul, seu pai, precisava de um transplante de córneas pois estava ficando cego. Ao mesmo tempo, a família sofria com a doença de Monojit, irmão de Mumpy, que precisava de um transplante de rins para não morrer. Como a família não tinha condições de pagar pelas cirurgias e achar doadores compatíveis é sempre um desafio, o desespero tomou conta de todos.

Mumpy acreditou que tinha a solução para todos os problemas. Ela iria se matar e seus órgãos seriam doados para seus entes queridos. Porém, o bilhete suicida em que explicou seus motivos e o desejo de ajudar o pai e o irmão só foi encontrado no dia após ela ser cremada, como é costume na Índia. Somente então Monica, irmã mais velha de Mumpy, contou que sabia do plano da caçula que tentou inclusive convencê-la a fazer o mesmo, caso algo desse errado. Mas Monica não aceitou. 

Mumpy bebeu uma grande quantidade de pesticida sozinha e morreu mesmo depois de ter sido levada a um hospital da região.  ”Nós demoramos muito para entender os sentimentos de uma criança muito sensível”, lamenta Mridul. Sua esposa, Rita, teve de ser internada ao entrar em estado de choque com a notícia.

Ao saber da notícia, políticos locais se comprometeram a ajudar a família oferecendo auxílio médico.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Defender-me? Por quê?

Ricardo Gondim

Não pedi, não procurei e jamais imaginei ser alvo de tanta raiva religiosa. Mas, embora magoe, não me impressiono com a veemência dos neoinquisidores. Por anos, fui igual a eles. Eu também não notava que minha obstinação religiosa não passava de obscurantismo.  Renego ter sentado na cadeira do fariseu intolerante. Sinto muito, espezinhei quem parecia diferente. Lamento ter sido um inclemente que pensava defender a “verdadeira doutrina” – de certa forma colho o que semeei.

Pratiquei uma religiosidade corporativa. Calei ao presenciar horrores éticos. Eu achava a mensagem grandiosa e procura me convencer: os erros das pessoas não podem enfraquecer o Evangelho. Nessa lógica enviesada, fui conivente. Sinto vergonha de ter calado. Eu devia denunciar. Hoje confesso que convivi e participei de um clericalismo doente.

Sim, eu mudei bastante nos últimos anos. Há pouco, soube que um pastor anunciou de púlpito que enlouqueci. O que dizer? Como provar sanidade? Talvez devesse antecipar-me ao aviso e dizer: não pretendo ser bem falado por gente com ele. Os guardiões da glória de Deus me enfadam. (Estranho, um sacerdote tratar alguém como louco e não lembrar de Mateus 5.22: “Qualquer que disser [ao próximo]: ‘Louco!’ corre o risco de ir para o fogo do inferno”).

Caso ceda à patrulha dos Cruzados, arrisco a asfixiar o pouco de criatividade que me resta. Sinto que não devo explicar-me. Vou fazer-me de mouco e continuar. É impossível convencer o gramático sobre a licença poética de prosear. Limitado, nunca conseguirei convencer que meus textos pessimistas só querem exorcizar ufanismos antigos.

Resta isolar-me e, no deserto, trocar de pele. Estou consciente de que não sou um lunático fundador de seita. Mesmo acusado de pregar novidade, sei que não articulo nada inédito. Apenas tento, precariamente, sintetizar o que já foi pesquisado por teólogos de primeira grandeza.

A bem da verdade, reconheço: muitos dos que venho lendo também se distanciaram dos cânones oficiais da Igreja Católica Romana e do Movimento Evangélico anglo-saxônico pseudo-protestante. Talvez esse tenha sido o meu erro: ler gente da estirpe de Juan Luis Segundo, Gustavo Gutierrez, René Padilla, Orlando Costas, Leonardo Boff, Jung Mo Sung, Andrés Torres-Queiruga, Jean Delumeau.

Apresentado a Brian McLaren, Rob Bell e aos malucos da “Emergent Church”, critiquei a superficialidade com que tratavam de temas que teólogos europeus já haviam aprofundado. Mas, não cobro deles em demasia. Considerando o peso cultural dos Estados Unidos, esse pessoal até que avançou bastante. Depois de lê-los, não consegui gostar de Max Lucado. Não tenho a menor tentação de organizar a minha igreja com os “propósitos” do Rick Warren.

Não estou na vanguarda de nenhuma nova teologia, carrego apenas um anseio de liberdade. Com as pedradas que recebi, aprendi que dogmáticos antipatizam os que tentam olhar por cima da cerca e eu só quero a liberdade de olhar.

Acusam-me de humanista. Nem sei o que esse rótulo encerra, mas não sou ingênuo. Repito: a balsa da humanidade está à deriva. Embora continue acreditando, como um romântico desvairado, na liberdade, não me iludo: o progresso tecnológico não conseguiu aliviar a perversidade do mal. Concordo com Karl Rahner: “a liberdade é sempre mediada pela realidade concreta do espaço e tempo, pela corporalidade e pela história do homem”[1].

Jürgen Moltmann afirmou: “liberdade é um movimento criador". Portanto, não aceito cabrestos ideológicos que procuram gerar aceitação tácita da realidade. “Aquele que em pensamentos, palavras e ações transcende o presente em direção ao futuro, este é que é livre. O futuro é para se entendido como o espaço livre para liberdade criadora”[2].

Paul Tillich disse, e eu concordo, que liberdade é fundante do destino: “A liberdade é experimentada como deliberação, decisão e responsabilidade... Á luz dessa análise de liberdade, torna-se compreensível o sentido de destino”[3].

O rabino Jonathan Sacks pontuou sobre liberdade como o alicerce do vínculo pactual entre Deus e o homem:

“O conceito de um vínculo pactual entre Deus e o homem é revolucionário e não tem paralelo em nenhum outro sistema de pensamento. Para os antigos, o homem estava à mercê de forças impessoais que tinham que ser aplacadas... no humanismo secular, o homem está sozinho num universo cego às suas esperanças e surdo às suas preces. Todas estas visões são coerentes, e cada uma tem seus adeptos. 

Mas somente no judaísmo encontramos a asserção de que, apesar da sua completa disparidade, Deus e o homem se encontram como “parceiros no trabalho da Criação”. Não conheço nenhuma outra visão que confira ao ser humano tamanha dignidade e responsabilidade “[4].

Parto da vida com seus paradoxos e ambiguidades. Minha pedra de arranque não é a teoria, mas a realidade de gente que me rodeia. Não quero premissas teóricas, filhas do arrazoamento “científico” da verdade. Desencantado com devaneios conceituais sobre o mundo do "andar de cima", pretendo lidar com a revelação aqui, dentro da história. Se minhas ideias não se ligarem ao mundo onde ponho os pés, eu as considerarei inválidas. Desafio a mim mesmo a perceber o amor de Deus no decorrer da existência. Quero conhecer os atos divinos na poeira da estrada. O que a vida traz de bom e de ruim será a matéria prima de minha articulação.

Eu também não procuro interpretar o mundo, só quero modificá-lo ao antecipar os sinais, ainda que precários, do Reino de Deus. Repito as palavras de Moltmann em sua análise sobre a Teologia da Libertação:

“Ao contrário das teologias metafísicas, trancendentalistas ou personalistas, a Teologia... começa com a história como palco da manifestação de Deus e do encontro do homem com Deus. Com isto ela se liga às tradições bíblicas da história de Israel e da história de Cristo... “[5].

Neste chão hermenêutico, faço teologia. Quero fazer práxis; enfrentar estruturas injustas, opressoras e alienantes como alguém que acredita em milagre. Não desmereço a ortodoxia clássica, sei de seu valor na história, mas desejo ir além. Prefiro as ações transformadoras da realidade à exatidão de um discurso. O Nazareno disse: “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” [João 13.35].

Carlos Mesters ensina que Deus se relaciona com o povo e sempre apela ao dinamismo , nunca à resignação. Ele interpela para encontrar cooperadores:

A presença de Deus na vida era percebida [no relato bíblico], antes de tudo, como apelo, como dinamismo, como futuro, que atraía e chamava o povo a ultrapassar-se, não permitindo que se acomodasse na estrada. A frase tantas vezes repetida: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo (Ex 6.7), fazia saber que o relacionamento com Deus no presente era apenas uma amostra-grátis daquilo que ele seria no futuro. 

A outra frase, igualmente frequente despertava o povo a nunca contentar-se com o que já possuía, e a aprofundar onde estava escondido o germe de toda liberdade. 

Com outras palavras, a presença de Deus era percebida e vivida como o fundamento da esperança que os animava e os fazia caminhar. Ela era uma força que dinamizava a vida para a frente, levando o povo a conquistar-se e a conquistar o futuro que ele entrevia no contato com esse Deus[6].

Teologia não deve se restringir ao discurso metafísico sobre Deus, mas em organizar a vida com os valores revelados pelo Espírito. Missão não se contenta em preparar gente para o céu, almeja mostrar que Deus se interessa com aqui e o agora. Vida abundante começa já.

A pitada existencialista do que venho escrevendo  brota da promessa: “O Reino de Deus chegou”. Se procuro transformar a minha espiritualidade em força que pode concretizar essa promessa, não tenho do que arrepender-me.

Soli Deo Gloria
4-07-11



[1] Rahner, Karl – Curso Fundamental de Fé – Edições Paulinas, 1989, p. 53.
[2] Moltmann, Jürgen – O Espírito da Vida. Editora Vozes, 1999, p. 118.
[3] Tillich, Paul – Teologia Sistemática, Editora Sinodal, 2005, p.193.
[4] Sacks, Jonathan – Uma Letra da Torá – Editora Sêfer, 2002, p. 109.
[5] Moltamann, Jürgen – O Espírito da Vida – Editora Vozes, 1999, p.111.
[6] Mesters, Carlos – Por Detrás das Palavras – Editora Vozes, 1999, p. 113.
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