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sábado, 3 de julho de 2010

"A gente durmimo" no quentinho

Helena Beatriz Pacitti

 A gente durmimo no quentinho

Uma familia extremamente necessitada recebeu um presente anônimo às vésperas do inverno. Quem intermediou a ação foi uma enfermeira que conhecia as redondezas.

O volume foi entregue logo pela manhã, antes que a mãe saísse de casa e deixasse, como sempre, as três crianças pequenas trancadas no minúsculo cômodo em que viviam. Talvez não fosse a melhor opção, mas quem mora em uma área carente da Baixada Fluminense não pode se dar ao luxo de deixar os filhos soltos pelas ruas.

Em meio à surpresa matinal, os embrulhos foram abertos rapidamente pelos três. Havia pacotes coloridos com cobertores novos, brinquedos, pares de meias, chocolates. Chocolate era uma preciosidade para eles. A cada fita desenrolada, gritinhos de contentamento. A alegria se estendeu até a noite.

No dia seguinte, saindo de casa, a enfermeira bateu à portinha do barraco e olhou pela janelinha o rosto das crianças. O caçulinha, ainda deitado ao lado dos irmãos, já estava acordado. Seus grandes olhos de jabuticaba brilhavam enquanto passava as mãos vagarosamente pelo cobertor novo.

Ele levantou, chegou perto da janela e estendeu as mãos para a moça. Claro, ela não ia tirá-lo de lá, mas soprou um beijinho e perguntou do que ele mais tinha gostado: dos brinquedos ou dos chocolates?

Ele olhou com ternura para os irmãos adormecidos na única cama, dobrou os bracinhos e, sorrindo, respondeu baixinho:

- O que eu mais gostei é que essa noite ” a gente durmimo” no quentinho.

Quem ensinou esse garotinho que “a gente” é mais importante do que “eu”? Quem colocou tanto amor no seu coração, que preferiu sentir satisfação por terem dormido juntos, “no quentinho“, felizes, mesmo tendo outros presentes?

Quem?

fonte: Timilique!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Os discursos ausentes: Jesus te ama

Paulo Brabo - Bacia das Almas

Para Harold Bloom, a personalidade é uma invenção de Shakespeare; para Derrida, o indivíduo é uma ilusão criada pela intersecção do corpo com o discurso das estruturas de poder. Em alguma medida todos que estudam o assunto concordam que foram necessários milênios de evolução cultural para que o conceito de indivíduo saísse pela primeira vez do oceano indiferenciado da cultura da coletividade. Os gregos lhe deram pernas e o Renascimento moveu-se de paixão por ele, mas foi o capitalismo de livre-mercado – o mundo em que vivemos – que colocou finalmente o indivíduo acima de todos os outros deuses.

Esse lento despertar do indivíduo de seu sono no seio coletivo está refletido no próprio fio narrativo da Bíblia. No Pentateuco e, em grande medida, nas crônicas históricas, a coletividade prevalece de forma muito evidente sobre o indivíduo. Os mandamentos e as promessas, as injunções e as ameaças, dizem respeito ao povo como um todo e requerem coletiva obediência1. Mesmo notáveis como Moisés, Abraão e Davi são celebrados menos pelos seus traços de personalidade do que pelo seu papel na sustentação e fixação do caráter da comunidade. Num certo sentido só existe o coletivo: os méritos de Israel são medidos pelo desempenho do grupo, e todos são castigados pelo erro de uns poucos.

Então, em algum momento da história e talvez sob a influência transversal dos gregos, os profetas abandonam a ênfase tradicional na responsabilidade coletiva e começam a enfatizar a responsabilidade individual. A justiça divina passa a ser compreendida de uma nova maneira, e nela os filhos deixam de ser punidos pelas transgressões dos pais. Deus deixa de visitar as gerações e a massa indistinta dos “filhos de Israel” e passa a procurar homem a homem um coração contrito em que possa reclinar a cabeça.

O ensino de Jesus surge num momento em que o conceito de responsabilidade individual já está bastante desenvolvido no tecido cultural de Israel. O Filho do Homem, por um lado, reforça ao extremo essa tendência, denunciando os abusos da religiosidade coletiva-institucional e requerendo de cada um o posicionamento e o engajamento que o distinga da ilusão da massa. Por outro lado, Jesus reverte por completo o alvo e o fim da individualidade, deixando claro que o indivíduo só encontra realização, significado e verdadeira satisfação no serviço voluntário e não-condicionado do próximo. O conceito de metanoia, como apresentado por Jesus e pelo seu precursor, diz respeito a esse duplo despertar do humano para sua individualidade e para seu destino glorioso no seio do Outro. Porque para Jesus só existe o indivíduo, mas a qualidade da relação do indivíduo com Deus e consigo mesmo tem uma única medida, a da qualidade da sua relação com o outro. “Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, a mim o fizestes”.

Dos discursos ausentes de Atos e do Novo Testamento, o mais revelador – tanto da mentalidade da comunidade original quanto da nossa – talvez seja o apelo ao indivíduo que caracteriza toda a evangelização contemporânea, e encontra sua manifestação mais comum na fórmula “Jesus te ama”.

Os colonizadores bíblicos do reino encontraram muitas maneiras de propor a boa nova, mas parece que nenhuma delas passa por enfatizar o amor individual e incondicional de Jesus (ou de Deus) pelo ouvinte. A Bíblia está muito mais inclinada a dizer que Jesus é Deus, e que Deus é amor, do que a fornecer ao seu leitor o conforto (que oferecemos a qualquer um) de que Jesus o ama. Isso porque articular a boa nova como “Jesus te ama” requer como pré-condição uma sociedade inteiramente obcecada com a ideia do indivíduo: a nossa sociedade.

Há um oceano de diferença entre dizer, como a o Novo Testamento, “Deus é amor”, e dizer, como dizemos, “Jesus ama você”; entre dizer como a Bíblia “andem em amor, como Cristo também os amou”, e dizer como dizemos “Jesus te ama”. A articulação bíblica, de que Deus é amor, requer uma resposta ativa de amor ao outro, e sugere um trajeto que resgate o ouvinte do abismo sem fundo do individualismo. A conclusão necessária de ouvir “Deus é amor” é um incômodo devo amar. Nossa própria articulação, “Jesus te ama”, requer uma resposta meramente passiva e ignora por completo a questão da minha relação com o outro. A conclusão necessária de ouvir “Jesus te ama” é um confortável sou amado. Para a Bíblia, o amor é um desafio que me resgata de mim mesmo; para o evangelismo contemporâneo, é um conforto que me faz afundar ainda mais dentro de mim.

Porque o Novo Testamento, que não cessa de atestar o amor de Deus, não se rebaixa como nós a usar esse amor como fonte de conforto e acomodação. Ao contrário, o amor divino requer a mais urgente e intransigente das respostas, a imitação:

Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.

Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros.

Dizer “Jesus te ama” é sugerir que o sentido do movimento do reino é para dentro do indivíduo; a Bíblia, em contrapartida, insiste que o movimento do reino é no sentido oposto, do indivíduo para fora. Essa, do indivíduo para fora, é na verdade a única definição concebível de amor. Aqui está o padre francês François Varillon, lembrando que amar (isto é, ser salvo; isto é, ser como Deus) requer um movimento, uma transferência de centro, de nós mesmos para o outro:

Descentro-me para que meu próprio centro não mais me pertença; de agora em diante seja você o meu núcleo. [...] Amar é renunciar a viver em si, por si e para si. Eis o mistério da Trindade: se o amor é acolhida, é necessário que haja diversas pessoas em Deus. Ninguém se dá a si mesmo, nem a si mesmo acolhe. A vida de Deus é essa vida de acolhida e dom. O Pai é movimento para o Filho. O Filho é Filho para o Pai e pelo Pai. E o Espírito Santo é o beijo entre eles.

Dizer “Jesus te ama” é dirigir-se circularmente ao indivíduo, e para salvar o indivíduo é preciso resgatá-lo de si mesmo. Na narrativa de Atos a boa nova é que a obra de Jesus libertou seus ouvintes não para descansarem no privilégio inescapável de serem amados – mas para capacitá-los a fazer a coisa certa. E, se pecar é omitir-se, fazer a coisa certa é colocar o amor em prática. É por isso que, para os autores do Novo Testamento, amar (e nisso imitar a divindade) é privilégio e responsabilidade tão grande que diante dele ser amado representa a mais acessória das faculdades.

Nossa tendência é acreditar na pregação que afirma que viver o amor requer a negação do eu e equivale à completa renúncia da individualidade. A verdade é muito mais desafiadora e interessante, porque o amor é a única afirmação possível do eu. Jesus tornou-se grande no que amou; encontrou a mais completa e contagiante humanidade no ato de atribuir valor aos mais desprezíveis dos seus interlocutores. O inferno é o conforto da paralisia do ego, e a inteireza do eu está no trajeto para os outros.

Ao ler este imprescindível texto do Paulo Brabo, fui confrontado a escrever um pensamento:

Um cara se aproximou de mim, e me disse, Jesus te ama. Eu então lhe perguntei: E você me ama? Então me apacente.

Como disse François Varillon:
"Eis o mistério da Trindade: se o amor é acolhida, é necessário que haja diversas pessoas em Deus."

Não pode ser menos que três: pois o três é exatamente a possibilidade amar um e ser totalmente satisfeito, apesar de haver outro ainda, que anseia pelo meu amor.
E nesta incrível semelhança entre eu, minha família e o próximo desconhecido, que percebo a trindade. Diante da possiblidade de amar a minha família, e assim ser totalmente satisfeito, devo me lembrar de não me acomodar, e assim amar o meu próximo desconhecido, que anseia por mim, e eu por ele.
Reconhecer que este meu próximo desconhecido, precisa de meu amor, e a minha existência como um ser amante, é totalmente dependente deste outro.
Não posso me deixar ser embriagado pelo amor familiar, e deixar de me perceber como o centro do amor do outro. Como também perceber que no meu centro, há ainda muitas casas vazias para serem habitadas pelos próximos.

domingo, 27 de junho de 2010

Frustração. 195.000.000 de histórias de desnutrição este ano.

por Marcus Bleasdale - http://www.starvedforattention.org/



Em outro de 2009 eu estava na cidade de Djibouti documentando a desnutrição no ambiente urbano.
Não existe guerra em Djibouti, mas a desnutrição tem proporções de emergência.
Em resposta a este problema, a MSF criou um hospital com 35 leitos.

Eu documentei o cotidiano de cinco membros da equipe da MSF:
Alex, o chefe da missão, Dr. Barry, Sarah, Dr. Djuma e Ouma, lider de divulgação do projeto.

- A insegurança alimentar existe aqui em Djibouti porque o pais importa quase 100% dos alimentos que precisa.
- O primeiro choque ao chegar no pais é a dicotomia absoluta entre as pessoas de muita posse e as pessoas sem posse alguma.
- De uma maneiriar geral a primeira causa de desnutrição e a pobreza.
- Você me dá comida para alimentar as crianças mas nenhum dinheiro para comprar gás. Como faço para cozinhar a comida ou ferver a água?

- Cerca de 60 a 70% da população está desempregada. O fato de as populações nao terem acesso aos alimentos.

- Eu caminho nas ruas, e há este enorme supermercado repleto de alimentos.
- O problema nao é a falta de disponibildade, não é a falta de suprimento, mas sim o preço que é alto demais.
- O problema é o fato de nada crescer em Djibouti e além de as mulheres não terem onde possam cozinhar os alimentos.

- Vamos à comundidade, procuramos pelas crianças, batemos às portas para informar que existe um centro de saúde em cada bairro perto da comunidade.
- No contexto urbano existem pessoas em trânsito, portanto às vezes é difícil encontrá-las e saber exatamente por que deixaram de participar do programa ou porque desapareceram.
- Todos estes fatores contribuem para agravar o estado nutricional e para que este ciclo infernal nunca mude.

- No hospital, nos asseguramos de que os pacientes consumam alimentos nutritivos. Assim que aumentam de peso, nós os encaminhamos para o centro para receberem porções nutricionais semanais. Uma criança é internada, melhora, recebe alta e volta mais tarde.

- Assim, a desnutrição torna-se endêmica.

- É muito frustrante ver que você faz o melhor que pode para tratar, mil crianças e muitas delas voltam, e voltam, e voltam...

- O índice é muito maior que o padrão da OMS em termos de desnutrição. É frustrante trabalhar neste ambiente pois a sensação é que provavelmente você poderia fazer muito mais.

- Somos uma pequena parte de um enorme sistema tentando salvar as pessoas que vemos todos os dias, e cada vez mais sabemos que a solução é maior que isso.

A MSF tratou mais de 1700 crianças em seu programa em Djibouti em 2009.
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