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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Não peço que os tires do mundo...

João Cap. 17

Quando conhecemos a Cristo nossa tendência é esperar que nossa vida mude para melhor em todas as áreas. Aquela saúde impecável, aquele carro razoável, aquela casa própria, aquele amor para a vida toda. Todas estas coisas entram no nosso imaginário evangélico esperando que de alguma forma Deus nos tire da nossa realidade atual e nos transporte imediatamente para um novo mundo, onde todas estas coisas maravilhosas são reais nas nossas vidas.
Bom, nos convertemos e por estranho que pareça, nossa fé não nos tirou do mundo que viviamos, onde eramos desempregados ou doentes e não nos tornamos em homens de um "novo mundo" já no presente. Parece que a Vida Eterna não nos trouxe uma existência nova, onde iremos numa entrevista de emprego e seremos beneficiados por uma intervenção divina. Não parece que esta Vida Eterna traz algo como cura para nossas doenças, apesar de alguns receberem milagres raros e pontuais na história. Não parece que esta Vida Eterna nos torna imortais pois irmãos da fé também estam morrendo de diversas doenças.
Então que Vida Eterna é esta? Que novo mundo é este que não acontece já?
O que precisamos compreender é que quando cremos no Cristo Ressurreto, esta fé não nos tira de nossa realidade existencial. Nós continuamos inseridos nela. Continuamos sujeitos a um mundo onde o desemprego assola, a fome cresce, onde crianças tem morrido de aids e fome. Esta fé não nos tira do mundo, como Jesus disse em João Cap. 17:15 "Não rogo pois que os tire do mundo, mas que os proteja do Maligno".
Ele nos protege dentro da realidade que estamos inserido, mas não nos tira dela. Ele nos protege do Maligno sem nos tirar do mundo e da realidade que vivemos. Ele não nos transfere para uma nova realidade onde nada de mal nos possa acontecer, mas nos ajuda com seus ensinamentos a passar as tribulações do dia a dia.
Qual é o objetivo do Maligno? Nos tirar a Vida Eterna.
A Vida eterna não é nos tirar agora da realidade do nosso mundo e nos tornar protegidos de doenças, do desemprego ou de um mal que nos possa acontecer. Veja o que significa Vida Eterna na Bíblia: João Cap 17:3: "A Vida Eterna é esta: Que te conheçam, o único Verdadeiro Deus, e a Jesus Cristo, a quem enviaste".

Então a Vida Eterna não é proteção divina contra as horrendas realidades que vivemos no mundo? Não é uma Vida que nos tira deste mundo? Não! A Vida Eterna é conhecer a Deus e a Jesus.
Então Deus irá nos proteger do Maligno, não nos tirando da realidade que vivemos, mas nos guardando em conhecimento Dele e de Cristo.

Ai vem aquela frase famosa: "Oras, que vantagem Maria leva?" Não chamo isto de vantagem, mas privilégio em conhecer a Deus e a Jesus. Este conhecimento nos ajuda a entender-nos e desta maneira enfrentar os infortúnios da vida com uma outra mentalidade moral, espiritual, racional, nos tornando mais humanos como Cristo.

Nos não fazemos parte desta realidade, mas continuamos vivendo nela, para que possamos levar a Vida Eterna a outros. O mundo nos odeia por que o Reino de Deus é a contra-mão do mundo que vivemos.
Quando começarmos a inserir a realidade do Reino no mundo em que vivemos, não seremos bem quisto, mas é preciso, para que todos possam conhecer a Vida Eterna. Para que neste "mundo do qual não somos", possamos inserir com nossas mãos um pouco do "mundo do qual somos", que é o Reino de Deus, ao próximo, para que no Reino Vindouro sejamos um com o Pai assim como Cristo é com Ele.

Suênio Alves

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

In God We Trust



NEGÓCIOS DE DEUS: Minhas reflexões, em minha última crônica, sobre os descaminhos da Santíssima Trindade levaram-me a pensamentos mais perturbadores sobre o assunto. Notei que há alguns que chegam ao despudor de ligar o nome de Deus aos seus projetos capitalistas. Tal é ( ou foi ) a situação de um famoso banco, cujo nome não vou dizer para não sofrer retaliações no crédito, que tinha impressa, nos seus papeis, a seguinte frase: “ Nós confiamos em Deus.” ( Deveríam ter acrescentado: “ Mas não confiamos nos clientes”. ( Alguém definiu um banco como uma instituição que lhe empresta dinheiro se você provar que não precisa... )

Percebi logo que tal afirmação religiosa era inspirada nas notas de dolar americano que portam a declaração: “ In Gold we trust”. Perdão, perdão pelo lapso. Corrijo-me: “ In God we trust.” Ah! Confiam nada. Pois se confiassem iriam seguir os ensinamentos de Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra onde os ladrões minam e roubam... Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres.” Existirá algo mais contrário ao espírito bancário? Pode ser que o Deus deles seja diferente.

E há os outros, mais despudorados ainda, que ligam Deus à política. Político invocou o nome de Deus eu exconjuro! É coisa do demônio. O presidente Bush, para justificar sua guerra contra o Iraque, dizia que conversava todas as manhãs com Jesus. Que comovente! Como o presidente Bush é bom e cristão! Foi essa sua reza diária que lhe permitiu apresentar-se como o grande campeão do Eixo do Bem.

Faz muitos anos, eleição de Lula x Collor. Claro que eu votei no Lula e até escrevi um artigo que se tornou famoso! Aí uns petistas aqui de Campinas me telefonaram perguntando se eu assinaria um manifesto a favor do Lula. Mas é claro. Assino. Mas quero ler o manifesto primeiro. Não era um manifesto. Era um sermão com citações bíblicas do princípio ao fim. Refuguei imediatamente e disse: Se querem que eu assinem um manifesto dizendo que acho o Lula melhor que o Collor, contem comigo. Mas transformá-lo num personagem da história sagrada, num herói bíblico, isso não. Não assinei. Mas o PT parece ter uma vocação teológica. É explicavel, em virtude de suas conexões religiosas com setores da Igreja Católica. Ouvi que um líder teológico do PT disse que o Programa Fome Zero era a continuação da multiplicação dos pães. Se é, o PT é a continuação da encarnação de N. S. Jesus Cristo. E me lembro, faz muitos anos, do dito por um líder do PT,
que a cor vermelha da sua bandeira é o sangue de N.S. Jesus Cristo. Nesse caso o filme do Mel Gibson ganha, porque tem mais sangue.

Político que invoca Deus não fica bom. Político que invoca Deus tem um ditador morando dentro dele. Como o Bush. Se eu converso diariamente com Jesus, por que dar ouvidos à comunidade mundial? Jesus vale mais e eu ouço a voz de Jesus. As maiores barbaridades têm sido perpetradas na história por homens que as fizeram invocando o nome de Deus. Seríamos mais fieis a Deus se o deixássemos fora das nossas confusões políticas. Assim teríamos de assumir a responsabilidade pelo que fazemos sem jogar a culpa em Deus em cujo nome falamos.

Se não me engano as famosas marchas que antecederam a ditadura invocavam o nome de Deus. Marcha da Família com Deus... Não me lembro bem. E também o Salazarismo. E o Franquismo. Vejam o filme “A lingua da mariposas”. Vejam como os adversários políticos são eliminados pela acusação de impiedade e com a bênção da igreja. No Chile a mansa mãe de Deus foi promovida a generala do exército, comanda canhões,
metralhadoras e decreta mortes...

Rubem Alves

Perspectivas

NÃO VI E NÃO GOSTEI: Sou feito cachorro: não abocanho sem antes cheirar. Cheirei e não gostei do cheiro. Cheiro de sangue. O filme do Mel Gibson sobre a morte de Cristo. Não fui assistir. Meu Deus não tem cheiro de sangue. Tem cheiro de criança suada, quando volta dos brinquedos, como o descreveu Alberto Caeiro.

A psicanálise ensina que tudo o que a gente faz tem a cara da alma da gente. Conclui que o Mel Gibson é um poço de pecados para causar tanto sofrimento e N.S. Jesus Cristo. Cristo teve de sofrer aquilo tudo por causa dele. O filme, por tudo o que li, é uma expressão moderna de uma espiritualidade antiga que encontra os seus prazeres sado-masoquistas na contemplação de feridas, sangue e corações dilacerados por punhais.

Os santos são sempre uns sofredores. Não conheço nenhum santo sorridente, alegre com a vida. Estão todos sofrendo perfurados por flechas, punhas, afligidos por feridas, etc. Um Deus que precisa que os homens sofram tanto para se sentir apaziguado – eu não o chamaria de Deus. Eu o chamaria do oposto... Quem gosta de ver os homens sofrendo é o demônio.

O filme do Gibson tem por objetivo provocar sentimentos de dó e culpa naqueles que o vêem. Para que? Para poder dominá-los. Os que se sentem culpados são sempre fracos. Andam sempre de cabeça baixa. Estão sempre prontos a fazer a vontade daqueles frente aos quais se sentem culpados. Os judeus têm uma fina percepção do significado do sentimento de culpa. Inventaram essa piadinha. Uma mãe italiana, quando está furiosa com o filho, faz uma gritaria, joga pratos, pega o rolo de macarrão, o filho foge correndo pela porta enquanto ela diz: “Desgraçado, eu te mato...” A mãe judia, quando está furiosa com o filho, chega-se mansamente a ele, uma lágrima escorrendo pelo rosto, e diz bem baixinho: “Meu filho, eu me mato...”

Há um hino protestante que diz o que eu disse de maneira absolutamente clara: “ Morri, morri na cruz, por ti. Que fazes tu por mim?” A cruz, vista pelos olhos do Mel Gibson, não liberta. Escraviza. Por isso não gostei do filme.


Rubem Alves

Aos habitantes das cidades


Ed René Kivitz

Como podemos reagir à explosão de violência e terror que invadiram nossas cidades e nossas vidas nos últimos tempos? O que podemos fazer para não perdermos a alegria de viver, não nos alienarmos e não nos deixarmos dominar pelo medo e a insegurança? Podemos ouvir palavra de Deus:


"Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia: 'Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e dêem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela'." (Jeremias 29.4-7)

"A justiça habitará no deserto, e a retidão viverá no campo fértil. O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranqüilidade e confiança para sempre. O meu povo viverá em locais pacíficos, em casas seguras, em tranqüilos lugares de descanso, mesmo que a saraiva arrase a floresta e a cidade seja nivelada ao pó. Como vocês serão felizes, semeando perto das águas, e deixando soltos os bois e os jumentos!" (Isaías 32.16-20)

Devemos lembrar que a cidade não é o lugar do nosso descanso, é nosso exílio. A monstruosa cidade, com suas relações humanas conflituosas, suas estruturas de poder carcomidas pela ganância e pela indiferença ao sofrimento alheio, suas redes criminosas de poder, seus justos acuados e seus valentes agredidos e mortos, não é outro lugar senão o ambiente do exílio, onde não nos sentimos em casa nem mesmo no conforto do lar.

Devemos nos alimentar da esperança: a justiça triunfará e a paz nascerá como o sol do meio-dia. Nascerá o sol da justiça trazendo tranqüilidade e confiança para sempre. Os que confiam em Deus habitarão lugares pacíficos, casas seguras e tranqüilos lugares de descanso, apesar da guerra, da peste, da morte e da fome.

Devemos resistir até a última gota de sangue e de lágrima. Resistir com amor, trabalho, diversão e arte. Continuaremos a viver romances, fazer amor e gerar filhos. Construiremos casas, plantaremos pomares e desafiaremos a morte nos lambuzando nos frutos do nosso trabalho. Cultivaremos jardins no meio do caos e encheremos o vale da sombra da morte com nossas flores.

Resistiremos com família e oração. Andaremos de mãos dadas com nossos filhos, nossos amigos, nossos irmãos. Ergueremos as mãos aos céus em oração e súplica pela cidade. Empreenderemos para a prosperidade da cidade e prosperaremos com ela. Continuaremos caminhando, cantando e servindo. Até chegar aquele dia, quando todas as vítimas serão acolhidas no reino de Deus e a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor como as águas cobrem o mar. No céu haverá festa sem fim. E o inferno ficará em silêncio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O céu está aqui mesmo entre vocês

O ego está destinado a dissolver-se, e com ele todas as estruturas fossilizadas; quer sejam instituições religiosas, corporações ou governos, desintegrar-se-ão a partir de dentro, não importa o quão entrinecheiradas aparentem estar.

Ego não é nada mais do que isso: identificação com a forma. Se o mal tem alguma realidade, essa é a sua definição: completa identificação com a forma – formas físicas, formas de pensamento, formas emocionais. O resultado é uma total ignorância da minha conexão com o todo, da minha intrínseca unidade com cada “outro” bem com com a Fonte. Esse esquecimento é pecado original, sofrimento e engano. Quando essa ilusão de completa separação domina tudo que penso, digo e falo, o que acontece? Para saber a resposta observe como os seres humanos relacionam-se uns com os outros, leia um livro de História, assista o noticiário da noite.

Se as estruturas da mente humana permanecerem inalteradas, acabaremos sempre recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, os mesmos defeitos.

Uma profecia da Bíblia [. . .] fala da aniquilação da presente ordem do mundo e do surgimento de “um novo céu e uma nova terra”. Devemos entender que o céu não é um local no espaço, mas refere-se ao domínio interior da consciência. A terra, por outro lado, é a manifestação externa da forma, que é sempre reflexo do que está no interior.

Portanto o novo céu, a consciência despertada, não é um estado futuro a ser alcançado. Um novo céu e uma nova terrra estão surgindo dentro de você agora mesmo. O que Jesus disse aos seus discípulos? “O céu está aqui mesmo entre vocês” (Lucas 17:21).

Eckhart Tolle, The New Earth

O Fim do Mundo não é um evento cataclísmico de cujo terror punitivo e final nos aproximamos cada vez mais. O Fim do Mundo acontece diariamente para aqueles cuja percepção espiritual permite que enxerguem o mundo como ele é, transparente para a transcendência: um sacramento de mistério, ou, como escreveu o poeta William Blake, “infinito”. O Fim do Mundo é, portanto, metáfora do nosso começo espiritual ao invés de imagem do nosso final implacável e ardente.

Eugene Kennedy, escrevendo sobre Joseph Campbell



Dica: Paulo Brabo no blog Bacia das Almas

Bem-aventurados os Fracos


Ricardo Gondim

Passo por uma fase em que meus valores vêm mudando muito. Ultimamente sinto atração pelos fracos, pelos caídos e pelos desafortunados na vida. Tenho vontade de gritar: chega de campeões, chega de relatórios bombásticos, chega de testemunhos de vitória. Cada vez mais venho aprendendo a partilhar da felicidade dos que não faziam parte de meu universo. À medida que envelheço, percebo nuanças que meus olhos juvenis não enxergavam.

São bem-aventurados os que não têm pedigree. Afortunados os que vêm de famílias pobres e por isso podem cantar, como Luis Gonzaga: “Ai, Ai, que bom/ que bom que é/ Uma estrada e a lua branca/ No sertão de Canindé/ Automóvel lá nem sabe se é homem ou se é mulher/ Quem é rico anda em burrico/ Quem é pobre anda a pé/ Mas o pobre vê nas estradas/ O orvalho beijando as flores/ Vê de perto o galo campina/ Que quando canta muda de cor/ Vai molhando os pés no riacho/ Que água fresca, nosso Senhor!/ Vai olhando coisa a granel/ Coisa que, pra mode vê/ O cristão tem que andar a pé”. Esses serão amigos de gente como Jefté, filho de uma prostituta; de Davi, excluído por seu pai e irmãos; de Nelson Mandela, que viveu sem calçar sapatos até quase a vida adulta. Eles são felizes porque não nasceram de pais frustrados com o seu quinhão na vida. Assim, sem rédeas manipuladoras, puderam optar por vocações, dar vazão a talentos e seguir por sendas que não se prestavam a satisfazer o ego ou as expectativas dos que precisam se projetar em crianças indefesas.

Bem-aventurados os que não são belos. Felizes os que não se conformam aos parâmetros estéticos da sua geração. Essas pessoas precisam vencer os preconceitos mais sutis, que valorizam a beleza da pele e esquecem os valores do caráter. Elas são afortunadas porque precisam de uma têmpera diferente para vencer. Quando se candidatam a um emprego, sabem que não impressionarão pela cor dos olhos nem pelos seios volumosos. Essas pessoas trabalharão com mais afinco, valorizarão o suor que brota pela persistência, pois não vivem iludidas pelo reflexo que matou Narciso. Elas serão amigas de Lia, cuja beleza não se comparava à de Raquel, e entenderão o provérbio bíblico: “A beleza é enganosa, e a formosura é passageira” (Pv 3.10).

Bem-aventurados os deficientes físicos, os meninos com síndrome de Down e as meninas com paralisia cerebral. Suas vidas valem muito para os seus pais; seus sorrisos são valiosos e suas existências, uma constante lembrança de que os padrões da normalidade são mais largos do que essa geração hedonista admite. Eles nos lembram de que nossa existência não é um passeio despretensioso e que não podemos viver na ilusão do eterno prazer. A felicidade dos deficientes que disputam as para-olimpíadas, de Hellen Keller, que, cega e surda, graduou-se em universidade, e Ray Charles, que nos encantou com sua voz maravilhosa, tem um peso diferente do riso soberbo dos ricos e dos poderosos.

Bem-aventurados os que já pecaram, os que já deram vexames, os que já se desviaram da vontade de Deus, mas voltaram arrependidos tal qual o filho pródigo. Esses não têm o coração altivo, não se sentem merecedores de coisa alguma. Vivem dependentes da misericórdia; jamais teriam coragem de reclamar seus direitos. Os perversos mais malignos são pessoas que nunca transgrediram, que jamais erraram; portanto, não sabem como é a dor da maldade, não conhecem a culpa do mal praticado. Mas aqueles que já amargaram o fracasso são felizes, porque celebram a graça; não esquecem que se não fosse o favor de Deus, há muito já teriam perecido. Eles caminham ao lado de Abraão, que mentiu, de Moisés que matou, de Davi, que adulterou, de Pedro, que negou, e com eles repetem: “Suas misericórdias duram para sempre”. Só eles podem dizer, como a virgem Maria: “Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, pois atentou para a humildade da sua serva” (Lc 1.46-48).

Bem-aventurados os que nunca experimentaram grandes vitórias e vivem sem grandes arroubos. São eles que não nos deixam esquecer que a maior parte de nossa existência acontece no contexto da rotina. Eles são felizes porque souberam viver sem a fadiga dos ativistas cheios de adrenalina. Vivem despretensiosamente ao redor de pessoas amadas e não se sentem obrigados a carregar o mundo inteiro em seus ombros. Não deitam a cabeça no travesseiro para acordar no dia seguinte com olheiras. Eles são felizes porque souberam caminhar pela existência sem desejos grandiloqüentes, sem ambições ou invejas. Eles serão parceiros de João Batista, José, Bartolomeu, Joana, e tantos outros discípulos de Jesus, cujas vidas aconteceram no anonimato.

Bem-aventurados os que não precisam viver uma vida sempre coerente. Eles sabem que estamos sempre em fluxo, que mudamos e precisamos abrir mão de verdades a que no passado já nos apegamos com muita firmeza. Eles não são dogmáticos, intolerantes nem legalistas. Essas pessoas são felizes porque nos lembram que o amor nos tornará incoerentes e imprevisíveis e que o nazismo montou-se sobre uma pretensa lucidez filosófica.

Bem-aventurados os que não sentem a cobrança de uma divindade infinitamente exigente. Eles podem ser eles, mesmos quando se percebem diante de Deus; não se amedrontam por serem imperfeitos ou por carregarem complexos e traumas interiores. Não temem a rejeição de Deus e por isso não precisam encenar uma espiritualidade plástica e afetada. Eles também ouvirão a voz que afirmou Jesus no dia do seu batismo: “Este é o meu filho amado em quem o meu coração está satisfeito”. Felizes os que nos ensinam que viver em intimidade com Deus significa saber que ele está satisfeito conosco e que não precisamos nos provar, pois seu amor não depende de nossa perfeição.

Bem-aventurados os que não se comparam aos poderosos nem invejam os triunfantes. Eles captam o significado do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, e sabem que é falsa a pretensão daquele que alardeia ter sido campeão em tudo. Reconhecem que o poeta está correto quando afirma: “Estou farto de semideuses”. E, em parceria com Pessoa, também clamam: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana”. E, como ele, também gritam: “Arre, estou farto de semideuses. Onde é que há gente no mundo?” Esses serão amigos de Paulo, que mesmo no fim de sua vida, afirmou: “Eis uma verdade digna de toda aceitação; Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”.

Assim, os meus novos heróis são pessoas que sempre estiveram ao meu redor e que nunca percebi. Agora vejo que nunca dera conta de que eles são descritos no Sermão da Montanha. Admito que essas constatações chegaram muito tarde em minha vida; contudo, espero que você aprenda a reconhecer os verdadeiros heróis antes do que fui capaz. Se conseguir lhe ajudar nessa tarefa, eu também me sentirei bem-aventurado.

Soli Deo Gloria.

Perguntar não ofende.


Ricardo Gondim

Há perguntas que são teimosas. Elas insistem em ressoar no peito da gente e, por mais que tentemos, não calam.

Por que houve um interesse imenso dos Estados Unidos e da Inglaterra de liberar o Iraque de um ditador sanguinário e não se percebe o mesmo interesse com o Haiti que vive a desordem? A violência é menos perversa ali? Será que o governo norte americanos não consegue ouvir com o mesmo cuidado o clamor de um povo que vive a menos de quinhentos quilômetros de sua fronteira? Eles já não haviam aprendido a se condoer com a sorte de quem vive do outro lado do mundo?

Por que as igrejas evangélicas norte-americanas não se lembraram das palavras de Jesus: “Quem com a espada fere, com a espada será ferido? Ou bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus?” Como sal e luz, os pastores não deveriam ter lembrado ao Presidente Bush nos muitos Cafés da Manhã que a Casa Branca promoveu, que ele iniciaria um ciclo interminável de violência? Quem é mais responsável pelos mais de cem mil iraquianos mortos, mais de mil e duzentos soldados americanos que já foram enterrados? A política atrapalhada dos políticos ou os profetas que se calaram?

Por que no Texas conservador e fundamentalista a taxa de divórcios é maior do que em Massachusetts que é liberal e tolerante? Quais os valores morais mais importantes para se eleger um presidente? As reivindicações dos homossexuais de se casarem ou a destruição do sistema ambiental? O aborto de fetos ou o avanço endêmico do HIV na África? As medidas protecionistas que destroem nações inteiras ou propagandas sensuais na televisão? O que os evangélicos consideram vital para que o seu país seja cristão? Um monumento de pedra na porta de um tribunal com os Dez Mandamentos? Uma volúpia consumista? Por que a falta de autocontrole e gula não são combatidos com veemência? Por que um país que diz experimentar um avivamento religioso, apresenta os maiores índices de obesidade mórbida do planeta? E que esses obesos são, inclusive, os próprios cristãos?

Por que o PT não aproveitou sua imensa popularidade e promoveu as grandes mudanças estruturais que o Brasil precisa? Será que os votos dados ao Lula não foram um clamor para que não continuássemos com a política promovida pelo governo Fernando Henrique Cardoso de boa convivência com as elites? O Lula precisava continuar beijando a mão das oligarquias que sempre se locupletaram no poder? Será que George Orwell pensou no Brasil quando escreveu o seu Animal Farm?

Por que se fala muito em redistribuição de renda no Brasil e não há nenhuma ação concreta para reverter os mais escandalosos modelos concentradores de riqueza do mundo? Para onde vão os impostos arrancados de trabalhadores que, sem poderem contornar, contemplam seus salários minguarem em fatias cavalares? Por que os que se dizem mais patriotas não aceitam tocar em seus privilégios?

Por que se prega tanto prosperidade nas igrejas evangélicas e a grande maioria do povo continua pobre? Desde que as igrejas neo-pentecostais começaram a falar de riqueza, já não dava tempo para alterar algum índice nacional? Os salários continuam achatados ou os crentes estão escondendo a suas fortunas?

Algumas perguntas são teimosas e continuarão ecoando. São elas que acabam por abater os poderosos. E elas precedem o brilho do sol da justiça. Então, mesmo que não estejamos sendo ouvidos, continuemos questionando.

Soli Deo Gloria.

domingo, 8 de novembro de 2009

Consultoria Eclesiástica

Resolvi entrar no mercado de consultoria eclesiástica. Após mais de 20 anos de contatos com modelos metodológicos que visam otimizar os resultados das igrejas acredito que já consegui alinhavar algumas idéias suficientemente testadas e aprovadas. Ofereço, portanto, e de graça, conselhos para líderes que desejam fazer sua igreja crescer.

Antes, recomendações bibliográficas. Leia Guy Debord para adquirir noções a respeito da sociedade espetáculo, onde até mesmo a fé é show. Leia também Pierre Bourdier para se familiarizar com a realidade dons bens simbólicos no mercado, inclusive religioso. Finalmente, leia Maquiavél, e medite sobre o postulado da primazia dos fins sobre os meios.

Eis os conselhos.

Pratique o ilícito, afinal você não vai conseguir chegar muito longe sem umas boas maracutaias. Faça com que as pessoas trabalhem para você e depois mande que busquem seus direitos na justiça, encontre fiadores para seus negócios e não tenha escrúpulos em deixar que eles se virem para pagar a conta, em caso extremo, dê calote sem dó nem piedade, e, principalmente, use e abuse dos ambiciosos e vaidosos que darão até as calças para serem identificados como as pessoas de sua confiança – pegue as calças deles. Não se importe com títulos protestados, aliás, encontre número suficiente de laranjas e crie empresas fantasmas para fazer escoar todas as demandas judiciais contra você. Externalize, companheiro, o máximo possível.

Invista na comunicação de massa: rádio, tv e shows, muitos shows, mega shows. O mundo gospel está cheio de artistas talentosíssimos, bem intencionados e precisando ganhar o pão de cada dia. Prometa o pão. Grave os caras, promova a banda deles, mas retenha todos os direitos em sua propriedade e faça amarrações contratuais de tal maneira que eles sejam obrigados a comer na sua mão.

Não tenha vergonha de pedir dinheiro. Faça com que todos acreditem que doar para sua igreja é a mesma coisa que doar para Deus. Crie alguns projetos de fachada e divulgue os resultados como pretexto para pedir mais dinheiro. Desvie todos os recursos doados para (1) empresas comerciais e (2) patrimônio pessoal. Preserve seu patrimônio colocando tudo em nome de laranjas ou em contas no exterior. Institua uma fundação que possa funcionar como plataforma de lavagem de dinheiro e use também as igrejas (multiplicadas em sistema de franquia) como forma de burlar o fisco.

Assuma uma postura de liderança espiritual como celebridade. Ande rodeado de asseclas, serviçais e guarda-costas. Faça muito barulho ao chegar e ao sair. Não permita que sua presença passe despercebida. Ostente todos os sinais exteriores possíveis de riqueza: roupas, jóias, cabelos, canetas, relógios, carros, e, se possível dê um jeito de aparecer na revista Caras. Faça com que o povo veja como você é próspero e repita à exaustão que tudo o que você possui é uma evidência da benção de Deus sobre a sua vida. Faça com que todos acreditem que poderão chegar onde você está. Ou melhor, faça com que tenham inveja de você e se disponham a fazer qualquer coisa para chegar aonde você chegou, ou, na pior das hipóteses, ficar perto de você.

Satanize todos os seus críticos e opositores. Transforme todos eles em inimigos de Deus. Pouca coisa une mais um povo do que um inimigo comum: encontre um, a Globo, por exemplo. Construa um discurso persecutório, repita sem parar que você é vítima de perseguição religiosa, que estão sendo injustos contra você e que na verdade perseguir você é apenas uma artimanha do diabo para levantar oposição a Deus e ao evangelho. Crie símbolos de amarração simbólica e crie um espírito de corpo do tipo “nós contra o mundo e todo mundo é contra nós”. Lance campanhas de compromissos até a morte, crie slogans com palavras de ordem, uniformize seu exército – faça todos os líderes usarem a mesma camiseta e venda camisetas iguais para o povo.

– Cale a voz da sua consciência. Deus costuma falar através dela. Afaste-se de todas as pessoas sérias que aparecerem no seu caminho. Afaste-as de você. Invente calúnias contra elas. Deixe-as fragilizadas, com uma mão na frente e outra atrás, e assim não terão forças emocionais para enfrentar você e lutar pelo que é justo, pois estarão ocupadas tentando se reerguer. Não olhe nos olhos do povo simples que segue você, não se deixe mover por compaixão, abafe todos os impulsos de bondade e honestidade. Quando sentir vergonha de ser quem você é, fique quietinho, esperando a vergonha passar. Em último caso, tente se convencer de que as pessoas sinceras e realmente tocadas por Deus no meio dessa confusão toda que você criou ao seu redor serão cuidadas pelo próprio Deus. Chore de noite, escondido ou escondida. Com o tempo sua consciência se cauteriza e a coisa flui que é uma beleza.

– Creia que é possível nascer de novo. Ou, se for o caso, creia que é possível voltar ao primeiro amor.

Não tenho dúvidas que sua igreja vai crescer. A história demonstra que não apenas igrejas evangélicas, mas também movimentos políticos e econômicos, bem como seitas de toda sorte usam regras semelhantes e prosperam. Caso você volte ao primeiro amor, não se envergonhe do evangelho de Jesus Cristo. Levante as mãos para o céu e agradeça. Deus vai lhe dar forças para você conviver com sua memória e reescrever sua história.

Ed René Kivitz

Fora da Zona de Conforto! [08/11/09]

Atraso dos EUA no envio de alimentos aprofunda fome na Somália, diz ONU
o fornecimento de ajuda alimentar crítica à Somália foi interrompido e que as rações para as pessoas famintas tiveram que ser cortadas, em parte devido ao governo norte-americano ter atrasado as contribuições de alimentos por temer serem desviadas aos terroristas.

Corrupção custa até US$40 bilhões por ano a países mais pobres
"Estima-se que de 20 bilhões a 40 bilhões de dólares por ano de recursos desviados saem de países em desenvolvimento para países desenvolvidos todos os anos"

Seca afeta mais de um milhão de pessoas na China
Mais de um milhão de pessoas sofrem com a escassez de água potável pela seca que castiga as províncias de Jiangxi e Fujian, no leste da China, informou a agência oficial de notícias Xinhua.

Campanha de vacinação usada como isca para atacar civis
Exército da RDC (Congo) lançou ataques em sete pontos onde MSF imunizava crianças contra o sarampo

Recuo de financiamento pode prejudicar terapia de Aids
Relatório mostra que expansão do programa para a doença ajudou a reduzir a mortalidade em países com alta incidência de HIV

Sudão: assistência emergencial para os mais vulneráveis em Darfur e sul do Sudão
O CICV está profundamente chocado com o sequestro do funcionário Gauthier Lefèvre em Darfur Ocidental, em 22 de outubro. A organização pede aos sequestradores que o liberem imediata e incondicionalmente e continua determinada a seguir ajudando os mais vulneráveis no Sudão. Segue o relatório das atividades do CICV no Sudão.

Paquistão: ter civis como alvo é uma recusa absoluta ao cumprimento do Direito Humanitário
Depois do bombardeio de quarta-feira em Peshawar – o mais recente e mais sangrento de uma sequência de ataques que tem os civis como alvo – o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) está alarmado com o impacto duro e intenso da violência sobre a população civil no Paquistão.

Os impactos de um mega-projeto de subdesenvolvimento no RJ
Para viabilizar Porto do Açu, o autoproclamado “Homem mais rico do Brasil” ameaça desapropriar mais de 6 mil pessoas e afetar 170 propriedades em 7 mil hectares

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