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domingo, 10 de junho de 2012

O Segredo do Sucesso

Fonte: A Bacia das Almas

Já li mais livros sobre técnicas de administração, gerenciamento de pessoas e sucesso corporativo do que meu estômago pode suportar impunemente; cheguei, perdoem-me os céus, a traduzir alguns. No meio desse lodaçal de mediocridade e redundância a exceção mais brilhante permanece sendo (não julgue o livro pela capa – ou pelo título) Consultoria - O Segredo do Sucesso, de Gerald M. Weinberg (The Secrets of Consulting, publicado no Brasil pela McGraw Hill em 1990, esgotado).

Weinberg é um cara peculiar. Consultor de tecnologia da informação, sua curiosa especialidade (se é que posso atribuir-lhe essa falha; a especialização é sempre uma desvantagem, particularmente num consultor) é a psicologia e a antropologia do desenvolvimento de software. Mais recentemente Weinberg abandonou a estante de não-ficção e começou a escrever histórias de ficção científica, argumentando que a narrativa é a forma mais poderosa de comunicação e de transformação entre seres humanos.

Como descrever o estilo do sujeito? Fluente? Bem-humorado? Xamânico? Tangencial? O subtítulo original de O Segredo do Sucesso explica um pouco melhor a pegada universal do estilo de Weinberg: Um guia para se dar e se receber conselhos de forma bem sucedida.

Consultor é o improvável profissional que recebe dinheiro para dar conselhos a empresas. À primeira vista, pode parecer que o segredo do sucesso do consultor está em ser capaz de [1] diagnosticar com acerto a condição de uma instituição e [2] delinear as recomendações adequadas para reverter ou aprimorar essa situação. Segundo Weiberg, essa é a parte fácil. Difícil mesmo, e particularmente arriscado para a reputação do consultor, é [3] fazer com que a empresa implemente as mudanças que você afirma que são necessárias.

CERTIFIQUE-SE DE COBRAR O BASTANTE PARA QUE COLOQUEM EM PRÁTICA AS SUAS RECOMENDAÇÕES.

Uma das regras essencias da consultoria segundo Weinberg é, portanto “certifique-se de cobrar o bastante [como consultor] para que [aqueles que estão contratando você] coloquem em prática as suas recomendações”. Caso contrário, se o serviço do consultor não parecer “caro o bastante” para aqueles que o estão contratando, esses poderão sentir-se tentados a não levar a sério as sugestões dele – pelo menos não ao ponto de fazerem o esforço final de colocarem-nas em prática.

Ser barato demais é, portanto, pecado mortal para a reputação e para a eficácia de um consultor. Ele corre o risco de não ver implantadas as soluções que sabe necessárias. Quando estiver vendendo conselhos portando, vale a regra: na dúvida, cobre mais caro.

* * *

Nisso está, naturalmente, o mecanismo segredo do sucesso das religiões que aliam promessas atraentes a regras rígidas, padrões exigentes de comportamento e rituais elaborados e repetitivos. Quanto maior for o preço comportamental exigido pela religião, maior é a probabilidade de que o cultuante sinta-se inclinado aacreditar nas suas sugestões.

Quando for inventar uma religião, portanto, certifique-se de cobrar o bastante para que as pessoas que estão pagando em renúncias pessoais e ofertas monetárias acreditem nos conselhos que você está dando.

Aqui reside, obviamente, a falha fundamental no planejamento de marketing do cristianismo: o fato de estar fundamentado na graça– ou seja, em preço nenhum. Como Jesus não cobra nada, ninguém sente-se nem de perto tentado a levar a sério o que ele diz – quanto mais colocá-lo em prática. O barato sai caro, porque ninguém quer comprar.

Melhor seria para os cristãos, antes que nos vejamos obrigados a fechar a porta da lojinha, contratar um consultor que nos ensine a vender por bom preço o que Jesus está oferecendo de graça. Afinal de contas, será com a melhor das boas intenções: Jesus terá os convertidos que quer, o crente será poupado da liberdade que não quer e nós idealizadores desfrutaremos apenas da recompensa pecuniária pela nobreza dos nossos esforços.

Todo mundo sairá ganhando – se isso não é graça, não sei dizer o que é.



geraldmweinberg.com

Leia também:

Porque as religiões rígidas prosperam



sábado, 9 de junho de 2012

E onde entra o “Deus Todo Poderoso” nisso?

Liesel Hoffmann, no blog Deutsch Brasilien

Email que recebi de um evangélico.

Olá, amigos. Recebi um email hoje que me deixou curiosa. Um rapaz brasileiro questionou meu texto Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nele, que gerou várias visitas ao meu blog. Apesar de ele se identificar com nome, cidade onde mora e igreja que frequenta, não vou divulgar essas informações. Veja apenas o email que recebi e minha resposta:

Prezada Liesel,

Li seu texto com uma certa apreensão em meu coração. Sua forma de se referir ao Deus Todo-Poderoso é um tanto blasfema. Entendo que você passou por um momento delicado, mas nada disso nos dá a permissão de pedir que Deus saia de nossa vida. Ele é o dono da vida. Além do mais, as conclusões a que você tem chegado são erradas e irão te levar a um caminho distante do Todo Poderoso. Ele tem o controle sobre tudo o que acontece sobre nossas vidas, pois não cai uma folha de uma árvore sem a permissão dele, e foi Ele quem permitiu a morte do seu irmão. Se Deus permitiu que isso acontecesse é porque ele tem um propósito maior em sua vida. Se abra a esse propósito de Deus e ele te encherá de poder. Em Cristo somos muito mais que vencedores, e ele pode te fazer vencedora, se você seguir os caminhos dele. E muito cuidado com as pessoas e livros que você tem lido. Ao invés de beber de fontes duvidosas te recomendo ler a Bíblia, a Santa Palavra de nosso Deus. Nela você encontra tudo que precisa, pois ela é “lâmpada para nossos pés e luz  para nossos caminhos”. 

Se ainda assim quiser ouvir pregações ungidas te recomendo o Pastor Silas Malafaia, ou o apóstolo René Terra Nova. Eles sim são homens de Deus, líderes de igrejas ricas e abençoadas, que poderão te abrir a mente para o Deus da Bíblia, o deus de Abraão, Isaque e Jacó. 

Oro para que deus te conduza ao caminho eterno. Paz do Senhor!

Minha resposta:

“Querido,

Não sei quem são os pastores que você me indicou, mas se eles anunciam a mesma mensagem que você tentou me passar por email eu prefiro nem conhecê-los. Eu cresci ouvindo tudo isso que você disse e de nada me serviu. Sabe qual a sensação que eu tinha quando ia à igreja luterana? A sensação de que tudo aquilo era vazio, pois nada faz sentido. Que sentido faz para uma pessoa dizer que é “mais que vencedora” sendo que ela sabe que não é?

Tudo isso me soa como um discurso pronto, repetido apenas para manter presas à religião pessoas que precisam de uma resposta rápida e fácil para problemas complicados. É mais fácil dizer que “deus sabe de tudo” do que tentar chegar ao motivo do problema.

E uso como exemplo uma realidade brasileira: uma pessoa que morre no atendimento de um hospital por má vontade de alguém ou incompetência do governo é mais que vencedora em que? Muito pelo contrário, essa pessoa e a família podem se considerar derrotadas pelas circunstâncias.

E onde entra o “Deus Todo Poderoso” nisso? Acreditar num Deus que controla cada detalhe da sua vida e tem o poder de mudar cada acontecimento, obedecer à regras um tanto confusas com a intenção de não causar a ira desse Deus, mas que te abandona na hora em que você mais precisa dele é motivo o suficiente para o ateísmo. E foi o que vinha acontecendo comigo.

As “fontes duvidosas” que você se referiu são na verdade uma forma diferente de ver a religião, minha última tentativa antes de chegar à conclusão de que realmente não existe Deus nem mundo espiritual. E gostei do que venho lendo e ouvindo, pois faz sentido com a vida.

Penso que uma forma de analisar se a mensagem religiosa é correta ou não é ver se ela faz sentido com a vida. Ouvir mensagens que podem ser muito bonitas dentro da igreja, mas que na rua não fazem o menor sentido é perca de tempo, na minha opinião.

Prefiro algo que faça sentido com a vida pessoal, que eu possa aplicar no meu trabalho, quando saio com meus amigos para tomar cappucino, quando estou no metrô ou quando preciso ir ao banco. E o que tenho aprendido faz sentido com a vida.

Mas mesmo assim agradeço seu email. Sei que sua intenção foi boa, principalmente porque você me mandou o email com sua identificação, o que é algo diferente num mundo virtual onde as pessoas usam o anonimato para iniciar discussões, mas infelizmente não consigo mais acreditar nessa mensagem, apesar de respeitar sua crença. Obrigada por tentar ajudar.

Abraços, Liesel”

Fonte: Pavablog

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Direto ao Ponto - Pecados Sociais

 



Fonte: Betesda TV

A catástrofe do Fim do Mundo


fonte: A Bacia das Almas

Então, se alguém vos disser:

“Eis que o Cristo está aqui”, ou “ali”, não lhe deis crédito.

Mateus 24:23

Quando não está falando e dando evidência da formidável proximidade do Reino de Deus, o Jesus dos evangelhos está apregoando o Fim do Mundo, inescapável catástrofe universal através da qual o Reino será finalmente instaurado e a glória finalmente alcançada - ou, para usar a expressão do próprio em Lucas 17:30, evento através da qual o Filho do Homem será revelado.

O FILHO DO HOMEM SERÁ REVELADO.

Porque se levantará nação contra nação, e reino, contra reino. Haverá terremotos em vários lugares e também fomes.

Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai, ao filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão. Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.

Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo que Deus criou, até agora e nunca jamais haverá.

Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade,

as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.

Então verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória.

Marcos 13:8, 12-13, 17, 19, 24-26

Essa escolha de palavras, retomada em seguida pelos apóstolos, parece sugerir que tanto o Reino quanto a glória do Filho do Homem já estão de alguma forma oculta entre nós (afinal de contas, “o Reino de Deus estápróximo” refere-se no grego original mais ao espaço do que ao tempo). O Fim do Mundo seria a última reviravolta no roteiro do filme, o estertor inevitável que tornaria patente a esquiva verdade essencial que uns poucos intuem e apenas parte do tempo.

De longe a forma mais comum de se interpretar a imagem do Fim do Mundo é como um evento literal no mundo físico – série ordenada de cataclismas universais mais ou menos sincronizada com a volta prometida de Jesus num futuro iminente.

Trata-se, como se sabe, de um futuro que tem permanecido iminente por pelo menos 2000 anos. A história compila uma espetacularmente longa relação de predições furadas sobre a data do apocalipse – muitas das quais apenas o futuro será capaz de demonstrar que são falhas.

A maior parte dos cristãos contemporâneos ignora, obviamente, os detalhes embaraçosos dessa lista. Desconhecendo que a mesma obsessão e as mesmas certezas infectaram cristãos de todos os séculos, muitos escrevem, e um número ainda maior lê, obras que procuram localizar nas figuras e eventos contemporâneos os sinais dos tempos que marcam a proximidade inexorável do momento final.Desta vez - é a impressão da nossa geração, exatamente como a das que nos procederam, - desta vez não passa.

Há os que acreditam, no entanto, que para ser compreendida corretamente a doutrina do Fim do Mundo deva ser interpretada à luz da mensagem integral de Jesus sobre os mistérios do novo nascimento e da proximidade do Reino de Deus – e não como desajeitada interrupção dela.

Da forma como é entendido normalmente, o Fim do Mundo é evento espetacular mas essencialmente burocrático, que mantém intactas todas as garantias que amealhamos nesta vida. É um fim do mundo inofensivo, por assim dizer, pois apenas confirma os rótulos com que estamos familiarizados: não nos ameaça de fato e nada nos custa.

NÃO SENDO CAPAZ DE ENXERGÁ-LO, VIVEMOS NO MUNDO COMO SE O MUNDO NÃO FOSSE O REINO.

Resta, porém, a atordoante possibilidade de que Jesus estivesse usando a linguagem das expectativas apocalípticas judaicas para referir-se de forma figurada a um evento de natureza muito mais pessoal do que universal, muito mais espiritual do que tangível. Sabemos ao certo, por exemplo, que o Reino de Deus anunciado incessantemente por Jesus não é para ser entendido literalmente, como reinado terreno ( “o meu Reino”, garantiu Jesus a Pilatos, “não é deste mundo”). E se o Fim do Mundo vaticinado por ele não fosse para ser entendido literalmente? E se o o Fim do Mundo a que Jesus se refere não for, no fim das contas, “deste mundo”? E se, para que possamos “ver o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória”, for necessário que nossa vida seja formidavelmente transtornada por uma impensável transmutação pessoal? E se tiver de ser o nosso sol interior a escurecer, e as estrelas do nosso céu a cair? E se o requerimento para vermos a glória do Reino for o reviramento e a aniquilação do nosso mundo?

Três citações para adoçar a possibilidade.

* * *

Um dos grandes temas do judaísmo e do cristianismo é o Fim do Mundo. Qual é o significado do Fim do Mundo? O sentido literal é que haverá uma terrível calamidade cósmica e o mundo físico terá fim. Esse, sabemos, é o sentido literal. Qual é o sentido figurado do Fim do Mundo? No capítulo 13 do evangelho de Marcos, Jesus descreve o Fim do Mundo como uma ocasião terrível, em que fogo e enxofre consomem a terra. “Melhor não estar vivo nessa ocasião”, ele diz, e diz também: “Essa geração não passará sem que essas coisas aconteçam”.

[. . .] Ora, no evangelho gnóstico de Tomé, Jesus diz: “O Reino do Pai está espalhado sobre a terra, e as pessoas não o enxergam”. Não sendo capaz de enxergá-lo, vivemos no mundo como se o mundo não fosse o Reino. Enxergar o Reino é o Fim do Mundo.

Joseph CampbellThou Art That

* * *

O ego está destinado a dissolver-se, e com ele todas as estruturas fossilizadas; quer sejam instituições religiosas, corporações ou governos, desintegrar-se-ão a partir de dentro, não importa o quão entrinecheiradas aparentem estar.

Ego não é nada mais do que isso: identificação com a forma. Se o mal tem alguma realidade, essa é a sua definição: completa identificação com a forma – formas físicas, formas de pensamento, formas emocionais. O resultado é uma total ignorância da minha conexão com o todo, da minha intrínseca unidade com cada “outro” bem com com a Fonte. Esse esquecimento é pecado original, sofrimento e engano. Quando essa ilusão de completa separação domina tudo que penso, digo e falo, o que acontece? Para saber a resposta observe como os seres humanos relacionam-se uns com os outros, leia um livro de História, assista o noticiário da noite.

Se as estruturas da mente humana permanecerem inalteradas, acabaremos sempre recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, os mesmos defeitos.

Uma profecia da Bíblia [. . .] fala da aniquilação da presente ordem do mundo e do surgimento de “um novo céu e uma nova terra”. Devemos entender que o céu não é um local no espaço, mas refere-se ao domínio interior da consciência. A terra, por outro lado, é a manifestação externa da forma, que é sempre reflexo do que está no interior.

Portanto o novo céu, a consciência despertada, não é um estado futuro a ser alcançado. Um novo céu e uma nova terrra estão surgindo dentro de você agora mesmo. O que Jesus disse aos seus discípulos? “O céu está aqui mesmo entre vocês” (Lucas 17:21).

Eckhart TolleThe New Earth

* * *

O Fim do Mundo não é um evento cataclísmico de cujo terror punitivo e final nos aproximamos cada vez mais. O Fim do Mundo acontece diariamente para aqueles cuja percepção espiritual permite que enxerguem o mundo como ele é, transparente para a transcendência: um sacramento de mistério, ou, como escreveu o poeta William Blake, “infinito”. O Fim do Mundo é, portanto, metáfora do nosso começo espiritual ao invés de imagem do nosso final implacável e ardente.

Eugene Kennedy, escrevendo sobre Joseph Campbell






quinta-feira, 7 de junho de 2012

Direto ao Ponto - Bíblia

 



Fonte: Betesda TV

Devolvam

Infelizmente, o mundo continua dividido entre feiticeiros e químicos, cientistas e filósofos, gramáticos e poetas. Digo infelizmente porque não foi sempre assim.

Houve tempo em que os astrônomos se enamoravam pelo piscar das estrelas, os físicos acreditavam que uma linda bordadeira havia costurado o universo e os biólogos celebravam que o ser humano respirasse, mesmo tendo sido um boneco de barro.

Houve tempo em que os jumentos falavam, as estéreis geravam filhos (extra)ordinários, os anjos matavam milhares de soldados agressores, os cajados secos floresciam e o sol parava para esperar que os mais frágeis prevalecessem na guerra.

Houve tempo em que as fadas ajudavam as órfãs, o beijo do príncipe ressuscitava a princesa do sono, os espelhos se rebelavam para responderem com honestidade e as crianças, talhadas em madeira, viravam gente.

Houve tempo em que a metáfora reinava na literatura. A copa das árvores era um cálice verde de onde respinga orvalho da manhã, a saudade, uma mulher que arruma o quarto do filho que já morreu e a alma da lua se escondia na garganta do galo que soluça seu canto na madrugada.

SÓ QUERO QUE ME DEVOLVAM O QUE ROUBARAM DE MIM.

Houve tempo em que se falava de Deus como suspiro, olfato ou paladar.

Nele, encontrávamos o colo materno, perdido desde a adolescência. Deus era pastor solitário que, sentado numa pedra, espiava suas ovelhas a pastar numa montanha distante; era o amante que abandona um harém para cortejar sua amada; era o juiz que assume a briga dos mais frágeis; era o médico que traz um bálsamo para aliviar a dor da alma; era o amigo que se achega como irmão; era o rei que anuncia a chegada de uma nova ordem; era o pai que educa seus filhos para uma existência madura e autônoma.

Houve tempo em que se liam os textos sagrados com reverência. Diante do numinoso, o mortal tremia; diante do sagrado, o pecador temia; diante do infinito, o finito se perdia, diante do eterno, o humano encolhia.

Lentamente, teólogos e exegetas, cientistas e técnicos, gramáticos e lingüistas, minaram os sonhos e fantasia dos meninos, esvaziaram a verdade dos poetas, quiseram explicar o mistério, captar a verdade, sistematizar Deus, dissecar o poema e criticar a alegoria. E conseguiram!

Eles exilaram os magos que correm atrás das estrelas; sumiram com os profetas alucinados que falam de rodas de fogo no céu; queimaram as mulheres que sentem no corpo, o êxtase do divino.

Esses assassinos da beleza, no ímpeto de explicar o impossível e mapear os rumos do Espírito, deixaram o mundo mais pobre, a fé mais segura, a oração menos incerta e Deus ficou pequeno.

Agora, quem precisar de milagre, pode dispor de hábeis evangelistas que ajudam a abrir as janelas do céu; quem tiver dúvidas, pode comprar exaustivos manuais sobre Deus; quando a vida parecer ameaçadora, é possível domesticá-la, contratando profetas de aluguel.

Minha alma, porém, anseia pela poesia que me abandone reticente; pela prosa que me ferva o sangue; pela ficção que me comova as entranhas; pelo drama que me arrepie a pele; pelos personagens que saltem dos palcos para encarnar em mim.

Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças; ainda habita onde reside a musa do poeta; ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro.

Sinto que sua habitação fica no vazio, no nada, e que sua glória se esconde numa nuvem espessa e ofuscante.

Sinto que posso perceber sua verdade no desconhecido absoluto e no inaudível, escutar sua voz.

Sinto que Deus é vento imperceptível, verdade diáfana e mistério espantoso.

Portanto, morro para o anseio de fazer análise sintática ou crítica textual dos textos sagrados. Já não invejo os apologetas, só quero que me devolvam o que roubaram de mim: a alma dos poetas, o coração dos meninos e a leveza dos bailarinos.

 

Ricardo Gondim


Fonte: A Bacia das Almas

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Carta a Gondim


D.R.

Olá pastor, admiro a sua coragem e lucidez. Romper com o movimento evangélico hoje é um ato inescapável para quem, em alguma medida, compreende e se compromete com o Evangelho. Já há muito tempo venho rompendo com essa cultura religiosa, falsamente identificada com o Evangelho. Tive passagem por duas instituições religiosas, mas sempre inclinado a uma fé não comportável no institucionalismo religioso.

Depois de algumas tentativas, no decorrer de alguns anos, somente agora percebo que realmente posso firmar o meu ministério pastoral. Bem recentemente me tornei pastor em uma pequena comunidade independente. São duas as razões que me trouxeram de volta ao ministério: a primeira foi ter encontrado um grupo de cristãos que expressa consciente interesse pelo Evangelho; a segunda razão se deu no fato desse grupo ser pequeno.

Entendo ser muito vantajoso pertencer a uma comunidade cristã pequena, pois isso parece ser uma boa condição para que se aprenda a vida comunitária e outros valores do Reino, discernindo-o daquilo que lhe opõe, isto é, daquilo que claramente se apresenta secularizado ou daquilo que, transfigurado em linguagem religiosa, emerge da cultura evangélica.

Percebo desvantajoso o disparado crescimento dos evangélicos no Brasil, pois crescem os evangélicos na mesma proporção em que decresce o Evangelho. A relevância conquistada e testemunhada no acelerado crescimento dos evangélicos se faz pela submissão à lógica desta sociedade, sobre a qual o Evangelho pronuncia seu julgamento. Trata-se de uma relevância manipulada segundo uma lógica não evangélica, em oposição a uma relevância levada a efeito pela graça. Quem se preocupa com relevância, esquece o Evangelho e produz para si uma relevância conformista. Quem se preocupa com o Evangelho, esquece a relevância e alcança graciosamente uma relevância transformadora.

Prefiro viver o Evangelho em comunidade pequena a fim de que o pequeno se torne grande antes de se tornar vultoso. É lançando sementes de mostarda que, com coisas pequenas, lentamente, planta-se coisas grandes. Uma pequena comunidade que aprende e vive o Evangelho nas pequenas coisas do dia a dia se torna bem maior do que a grande massa de uma cultura religiosa, rotulada de evangélica, escandalosamente superficial, que não sabe discernir entre cristianismo e farisaísmo, nem entre graça e mercado.

Pastor, parabéns pelo manifesto tardio, pois sei que o senhor, como eu e outros anônimos, já rompeu há bastante tempo com essa cultura religiosa denominada evangélica. (“evangélico” – mais um caro termo lançado aos porcos).

D.R.
[Preferi deixar o bom pastor anônimo]
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[Prezado amigo,
Sua carta me trouxe muita alegria.
A Bíblia afirma que boa notícia é água fresca em dia de muito calor.
Também admiro seu gesto de optar por uma comunidade pequena, despretensiosa, singela.
Saiba, você vai na contramão das aspirações comuns.
Respeito a coragem de quem opta pela simplicidade.
Reverencio quem admite a necessidade de repensar pressupostos.
Nosso dever de casa é maior do que imaginamos.
As pedras de arranque de nossa teologia, presumíveis fundamentos, carecem de crítica.
Não tema pensar.
Ouse poetizar.
Vá às fronteiras.
Lá, onde os conservadores dizem estarem as fronteiras da heresia, você encontrará o espaço da criatividade.
Abraço

Ricardo Gondim


terça-feira, 5 de junho de 2012

Crônica de uma morte anunciada


Paulo Brabo - A Bacia das Almas
O Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, mas tratamos muito rápido de corrigir essa sua peculiaridade. Miríades e miríades de edifícios ao redor do mundo, tendo pouco em comum seja por dentro ou por fora, seja em concepção ou execução, requerem austeramente para si o status de templos, igrejas e congregações cristãs. Esses edifícios a as assembléias que abrigam devem ser interpretadas, supõe-se, como evidência forte e palpável de que Jesus e sua mensagem permanecem relevantes para a nossa época – seriam evidência, para um mundo incrédulo, de que ele está no meio de nós.
QUANTO TEMPO UMA IGREJA DEVERIA SER PLANEJADA PARA DURAR?
De quem foi a idéia de chamar essas pequenas assembléias e seus lugares de reunião de “igrejas”? De quem foi a idéia de sugerir que essas pequenas assembléias deveriam durar indefinidamente? De quem foi a idéia de sugerir que o reino de Deus e a autoridade da sua boa nova deveriam ser de alguma forma comprovados ou evidenciados pelo número, pela devoção ou pelo nosso sucesso na multiplicação dessas unidades administrativas?
Do Novo Testamento não foi.
O Filho do Homem, como se sabe, gastava praticamente todo o seu tempo ensinando sobre a formidável natureza do reino de Deus e provendo evidência da sobrenatural proximidade desse reino da vida real. Ele não ofereceu mais do que comparações para definir a misteriosa natureza desse reinado de Deus, mas sabemos através dessas indicações que trata-se de projeto muitas vezes mais amplo, ambicioso e abrangente do que aquilo que o próprio Jesus chama, uma vez ou outra, de sua igreja – assim mesmo, sempre no singular.
A categórica ordem final de Jesus aos seus seguidores foi que saíssem pelo mundo fazendo discípulos – não plantando edifícios, não fundando assembléias, não multiplicando unidades administrativas. O livro de Atos e as cartas dão testemunho das soluções a que recorreram os seguidores de Jesus para colocar em prática essa convocação.
Sabemos por esses registros que, por razões estratégicas, os discípulos em construção reuniam-se em grupos, invariavelmente na casa de alguém. A esses agrupamentos as cartas dão ao nome de “a igreja que reúne-se na casa de [alguém]” ou “a igreja em [tal cidade]“. Estava em andamento a primeira fase de implantação (ou, talvez em melhores termos, do descobrimento) do reino de Deus na terra.
A questão é que com o tempo esses agrupamentos passaram de meio a fim. A inércia e a acomodação adiaram o reino: os ajuntamentos temporários e estratégicos da igreja passaram de alguma forma a ser conhecidos e reconhecidos como “igrejas”, entidades em si mesmas que requeriam manutenção e incessante validação para permanecerem relevantes. Logo esses entrepostos foram protegidos por uma camada do verniz da religiosidade que o próprio Jesus procurara demolir; seus edifícios passaram a ser conhecidos, anacronicamente, como “templos” e seus líderes como “sacerdotes”. Acabamos criando uma vaca sagrada que ao mesmo tempo nos embaraça e temos dó de imolar.
O que seria necessário para que os cristãos passassem a encarar a igreja local como meio precário para um fim cujo sucesso prescinde necessariamente do meio? O que seria necessário para que passassemos a ver as igrejas locais como bombas-relógio no sentido mais positivo do termo – empreendimentos projetados para terem um começo, um meio e um glorioso fim? O que seria necessário para que passassemos a ver o cenário de uma igreja fechando definitivamente as suas portas com esperança ao invés de horror – como evidência, na verdade, de que as portas do inferno não prevaleceram finalmente contra ela? Quando seremos capazes de dizer “é hora de descermos desse monte” ao invés de “façamos aqui tendas”? O que seria necessário para que reagíssemos ao anúncio do fim com a expectativa confiante de Jesus ao invés do “de modo nenhum isso aconteça” de Pedro?

O reino de Deus está no meio de nós, Jesus anunciava, por isso toda espécie de desintegração, mesmo daquilo que nos parece mais caro, deveria ser vista como bem-vinda. Na perspectiva mais ampla da boa nova, a mais bem intencionada estirpe de empreendimento espiritual deve ser capaz de abraçar e planejar integralmente a sua precariedade. Como o grupo dos doze discípulos, como a igreja de Jerusalém, como o próprio Jesus, deveríamos ser capazes de conviver de forma criativa e expectante com a perspectiva de uma morte anunciada.
Publicado originalmente na versão online da revista Ultimato.
Leia também:
BABELISMO: A GRACIOSA DESCONSTRUÇÃO DIVINA


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Dizer Deus é Amor


Ricardo Gondim
Faz-se malabarismo com o texto bíblico. Usam-se versículos para tudo. Capítulos servem, ao mesmo tempo, para abençoar a guerra e semear a paz. Nada como um texto canônico para validar mecanismos opressores que perpetuam a pobreza. Como a sagrada Escritura já serviu  para acalmar a revolta dos excluídos!
Um dos textos mais usados, celebrados e repetidos da Bíblia é o capitulo 13 da primeira epístola aos Corintios. Talvez tão celebrado por tratar do amor. Declamado em casamentos. Musicado por diferentes artistas. Seus 13 versículos valem até como cartilha de auto ajuda: “Como aprender a amar bem”.
Geralmente, os três primeiros versículos servem para explicar que amor é mais nobre que dogma, carisma e desempenho religioso:
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá”.
A partir do versículo 4, Paulo descreve alguns atributos do amor. Sua descrição é nobre:
“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.
Belíssimo! repetem até os não religiosos. Acontece que a lista não é receita. Deus é descrito como essencialmente amor. Sendo assim falar de amor é também falar de Deus.
É possível projetar  o pensamento de Paulo sobre o amor na percepção de quem Deus é. Se Deus é amor e o amor tudo sofre – Deus sofre. Se Deus é amor e o amor tudo crê – a existência humana é fruto de um acreditar divino. Se Deus é amor e o amor tudo espera – Deus então espera, aguarda, pacientemente por respostas humanas. Se Deus é amor e o amor tudo suporta – o sofrimento que se universalizou produz uma dor incalculável no coração de Deus.
Infelizmente a cristandade ocidental preferiu compreender Deus a partir da onipotência. Caso tivesse prestado mais atenção ao que a revelação do amor indica, com certeza haveria menos ateus no mundo.
Nunca é preciso hesitar: o amor é simultaneamente frágil e avassalador. Jesus chorou sobre a impenitente Jerusalém.Lamentou a partida de um jovem rico. E contou uma parábola usando a figura de um pai abandonado pelo filho para revelar os sentimentos divinos. O amor que vulnerabiliza também salva.
O que é atrativo em Cristo? Que não sejam as descrições de sua majestade, mas de sua humildade. Sua glória foi revelada na cruz em não em tronos; no perdão e não em vingança.  O texto diz peremptoriamente que o Pai lhe deu um nome que está acima de todos os nomes porque jamais cobiçou poder, mas viveu para servir. Depois de ressuscitado Jesus não procurou esmagar seus algozes. Para sempre se manteve como cordeiro.
O Deus encarnado expressou, com mansidão e humildade, que não há outra maneira de perceber Deus senão na ternura e na mansidão.
Qualquer deus que tente se impor através do poder ou com apelos mágicos não passa de um ídolo.
Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele… No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo“. [1João 16-18]
Soli Deo Gloria

domingo, 3 de junho de 2012

Em nome de Jesus


Paulo Brabo - A Bacia das Almas
O drama da narrativa bíblica reflete, em muitos sentidos, um árduo esforço divino para eliminar da mente humana o conceito de magia: a noção de que, através de fórmulas mágicas ou procedimentos estabelecidos, Deus ou o universo podem ser manipulados para atingirmos o objetivo que temos em mente.
Desde a primeira página, um dos traços mais distintivos do Deus das Escrituras é que ele não faz barganhas. Não há ritual ou palavra mágica que possa torcer o seu braço a fazer o que queremos. Se Deus concede o que homens lhe pedem é reflexo da sua magnanimidade e da intimidade de relacionamento que ele propõe, jamais da habilidade humana em manipulá-lo.
Essa obsessão divina em apagar da experiência humana a idéia da magia explica muito nas filigranas dos mandamentos e da Lei de Moisés. Israel não deve ter “outros deuses além de mim”, entre outras coisas, porque os deuses dos outros povos são entidades manipuláveis – aceitam suborno, dobram-se diante do ritual certo, vendem-se por um sacrifício, negociam, especulam e cedem a barganhas. Deus sabe que não é assim que o seu universo funciona, e não quer que seu povo adote essa visão distorcida do mundo. Pela mesma razão ele deita rigorosas proibições contra feitiçaria, amuletos e toda espécie de adivinhação.
OS CRISTÃOS REINCIDEM CONSTANTEMENTE NA MAGIA.
O próprio regime de sacrifícios não pressupõe qualquer controle mágico do mundo; as prescrições deixam muito claro que trata-se de provisão graciosa para a purificação dos pecados, e não de instrumento de manipulação. Deus faz alianças e assina contratos que beneficiam outros além de si mesmo, mas não distribui senhas ou abracadabras. No mundo dele você pode pedir, mas não pode obter o que quer por mágica, isto é, pela força e pela argúcia.
O que o Primeiro Testamento elucida o Novo escancara: Jesus passeia pelo mundo demolindo a noção essencialmente mágica de favor prestado e retribuição. Deus – explica o Filho do Homem – não distingue méritos e não rebaixa-se a troca de favores, mas “faz que o seu sol se levante sobre maus e bons”. Seus filhos não devem recorrer a repetitivas fórmulas mágicas em suas orações, “porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes”. Não é o pecado nem o bom comportamento que explicam as desgraças ou as felicidades, porque o mundo não funciona pela lógica simplista e retributiva da magia (“Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas?”).
O universo – Jesus explica – funciona pela lógica singular da graça, não pela lógica humana da magia e da retribuição. Esta é, essencialmente, a natureza da boa nova do reino: Deus não pode ser manipulado a fazer o bem que já está disposto a fazer em primeiro lugar.
Porém a magia tem um brilho sedutor, e os cristãos resvalam periodicamente nela: recorremos cheios de esperança a óleos milagrosos, profetas curandeiros, caixinhas oraculares de versículos, bibliomancia, quarentenas de oração e copos d’água. Mesmo a obsessão cristã com o domingo é essencialmente mágica, quando o Apóstolo alerta a não cairmos na velha armadilha de “dias de festa, ou lua nova, ou sábados”, coisas que “têm aparência de sabedoria e de rigor ascético (…), mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne”.
O emblema final e mais eloqüente da capitulação cristã a uma visão mágica do mundo talvez esteja no abuso, popular à náusea entre evangélicos e pentecostais, da expressão “em [o] nome de Jesus”. Orar e pedir “em nome de Jesus”, conforme prescrito no Novo Testamento, era provavelmente para ser entendido como se lê; seria orar “como Jesus oraria”, ou pedir “imbuído do espírito de Jesus”. Com o tempo, o enfoque migrou do espírito para a letra; transferiu-se da pessoa e da postura de Jesus para as palavras, imbuídas supostamente de autoridade e poderes sobrenaturais (de forma semelhante ao Shem Hamphoras da tradição judaica medieval). O conteúdo reduziu-se a fórmula, abracadabra que abre – esperamos – todas as portas.

O Espírito Santo

 



Fonte: Betesda TV

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Compaixão

 

Fonte: Betesda TV

Uma palavra do livro de Jonas

Da correspondência entre Agostinho e Jerônimo
De Agostinho para Jerônimo, 394 d.C.
Convidado pelo papa Dômaso I a transpor a Bíblia completa para o latim, Jerônimo causou controvérsia ao escolher verter o Antigo Testamento a partir do hebraico original ao invés de traduzir a consagrada versão grega da Septuaginta. Agostinho foi um dos que mais enfaticamente se opôs à idéia.
(…) De minha parte não sou capaz de expressar de forma adequada o meu assombro diante da noção de que exista hoje em dia algo que possa ser achado nos manuscritos em hebraico que tenha escapado a tantos tradutores perfeitamente familiarizados com o idioma.
* * *

De Agostinho para Jerônimo, 403 d.C.
 
Como já lhe enviei duas cartas para as quais não obtive resposta, resolvi enviar-lhe agora cópias de ambas, porque não creio que você as tenha recebido.
(…) De minha parte, eu prefiriria que você nos fornecesse uma tradução [latina] da versão grega das Escrituras canônicas conhecida como a obra dos Setenta tradutores. Pois se a sua versão começar a ser lida de forma mais geral nas igrejas, será coisa muito danosa que na leitura da Escritura diferenças devam surgir entre as igrejas de fala latina e as de fala grega, especialmente considerando-se que a discrepância na versão latina é facilmente demonstrável pela produção da versão em grego, que é idioma tão amplamente conhecido; enquanto que se alguém sentir-se perturbado pela ocorrência de algo com que não está habituado na tradução produzida diretamente a partir do hebraico, e alegar que a nova tradução está errada, mostrar-se-á difícil, quando não impossível, acessar documentos em hebraico pelas quais a exceção possa ser defendida.
Ele chegou a uma palavra no livro do profeta Jonas para a qual você oferece uma tradução muito diferente.
Um certo bispo, um de nossos irmãos, tendo introduzido na igreja sobre a qual preside a leitura da sua versão, chegou a uma palavra no livro do profeta Jonas para a qual você oferece uma tradução muito diferente daquela que tem se mostrado há muito tempo familiar aos sentidos e à memória de nossos cultuantes, e tem sido recitada por incontáveis gerações dentro da igreja. Como resultado levantou-se tamanho tumulto na congregação, especialmente entre os de fala grega, corrigindo o que havia sido lido e denunciando a tradução como falsa, que o bispo viu-se obrigado a buscar o testemunho dos judeus residentes. Estes, quer por ignorância quer por despeito, responderam que as palavras do manuscrito hebraico estavam corretamente traduzidas na versão em grego, e que na latina uma delas havia sido subtraída. Que mais preciso dizer? O homem viu-se obrigado a corrigir a sua versão naquela passagem, como se ela tivesse sido falsamente traduzida, pois que não desejava ser deixado sem congregação – calamidade da qual escapou por pouco. A partir deste caso somos levados a pensar que você possa cometer enganos ocasionais. Considere também quão grande se mostraria a dificuldade se isso tivesse ocorrido naqueles escritos que não podem ser explicados comparando-os com o testemunho de idiomas agora em uso.
(…) Você portanto estaria nos concedendo dádiva maior se oferecesse uma tradução latina exata da versão grega da Septuaginta.
* * *
De Jerônimo para Agostinho, 404 d.C.
Você afirma que ofereci uma tradução incorreta de alguma palavra de Jonas, e que um distinto bispo escapou por pouco do seu encargo pelo clamoroso tumulto de sua congregação, causado pela versão diferente desta única palavra. Ao mesmo tempo você me nega o conhecimento de qual palavra foi essa que traduzi mal, privando-me dessa forma da possibilidade de dizer alguma coisa em minha defesa, e evitando também que minha resposta se mostre letal para a sua objeção. Talvez seja a velha discussão a respeito da aboboreira que tenha ressurgido, depois de manter-se em letargia por tantos anos desde que aquele distinto cavalheiro (…) acusou-me de oferecer em minha tradução a palavra “hera” ao invés de “aboboreira”. Já dei resposta suficiente no meu comentário de Jonas. Bastará no momento dizer que nessa passagem, onde a Septuaginta traz “aboboreira” e Áquila e os outros traduziram a palavra por “hera” (kissos), os manuscritos hebraicos trazem “ciceion”, que no idioma siríaco como é falado hoje em dia diz-se “ciceia”. Trata-se de uma planta que tem folhas grandes como uma videira, e que quando plantada cresce até o tamanho de uma árvore pequena, ficando em pé apoiada no próprio caule, sem necessidade de qualquer apoio de varas ou de estacas, como requerem tanto heras quanto aboboreiras. Se, portanto, traduzindo palavra por palavra, eu tivesse colocado “ciceia”, ninguém entenderia o que isso queria dizer; se tivesse usado a palavra “aboboreira”, teria dito o que não é encontrado no hebraico. Coloquei portanto “hera”, para que não me visse diferindo de todos os outros tradutores. Mas se os seus judeus disseram, quer por malícia quer por ignorância, como você mesmo sugere, que a mesma palavra que está no texto hebraico encontra-se também nas versões gregas e latinas, é evidente que eles não são familiarizados com o hebraico, ou resolveram então dizer o que não é verdade a fim de zombar dos que plantam abóboras.
* * *
De Agostinho para Jerônimo, 405 d.C.
Peço-lhe, por favor, enviar-nos a sua tradução da Septuaginta, que eu não sabia que você havia publicado (…) a fim de que possamos ser libertos, tanto quanto for possível, das conseqüências da notável incompetência daqueles que, qualificados ou não, produziram uma tradução latina; e a fim de que aqueles que pensam que olho com inveja para os seus proveitosos esforços possam por fim, se possível, perceber que minha única razão em opor-me à leitura pública da sua tradução do hebraico nas nossas igrejas foi para evitar que, ao apresentar qualquer coisa que parecesse nova e contrária à autoridade da versão Septuaginta, perturbássemos com grave motivo de contrariedade os rebanhos de Cristo, cujos ouvidos e corações habituaram-se a ouvir aquela versão que tem o selo de aprovação dado pelos próprios apóstolos. Por conseguinte, quanto àquela planta do livro de Jonas, se em hebraico não é nem “aboboreira” nem “hera”, mas algo que fica em pé por si mesmo, apoiado pelo próprio caule sem a ajuda de escoras, eu preferiria chamá-lo de “aboboreira” como em todas as nossas versões latinas; pois não creio que os Setenta teriam-na traduzido dessa forma ao acaso, se não tivessem conhecimento de que a planta fosse em alguma coisa semelhante a uma aboboreira…

terça-feira, 29 de maio de 2012

Diversas palavras





Paulo Brabo

Para evangélicos e protestantes a Bíblia não é meramente um livro, nem mesmo um livro sagrado. É ”Palavra de Deus” (ou, às vezes, “a Palavra”) - não apenas a apresentação mais contundente e acurada da verdade revelada, mas uma entidade em si mesma, identificada em muitos sentidos com a pessoa e a autoridade do próprio Jesus, o Verbo (grego logos, Palavra) encarnado.

O problema é que, ao contrário dos muçulmanos, para os quais a única versão autorizada do Corão é aquela na língua original, os cristãos ocidentais contemporâneos convivem mais ou menos pacificamente com diferentes traduções alternativas daquele que é oficialmente o mesmo texto bíblico. A convivência é mais ou menos pacífica porque uma das obsessões do evangelicalismo está justamente em discutir o mérito relativo de diferentes versões da Bíblia - sendo que o que em geral se faz é defender-se a autoridade de determinada tradução e questionar-se apaixonadamente a validade das outras.

De todos os mitos que animam a discussão popular sobre o assunto, de longe o mais comum é o que fala de uma Idade do Ouro em que havia uma única e suficiente tradução da Bíblia, e estavam todos contentes com ela. A frustração com a pluralidade de versões é unânime entre os que se pronunciam sobre o assunto e tem sido expressa, em diversos idiomas, com palavras e argumentos similares. O raciocínio habitual a esse respeito é normalmente expresso mais ou menos da seguinte forma:

Alguém tem sabiamente dito, “um homem que só possui um relógio sabe que horas são, mas o homem que tem dois relógios nunca está seguro o bastante”. De uma maneira análoga, este é o problema com as muitas versões diferentes do Novo Testamento. Uma vez que existem muitas traduções da Escritura, todas alegando serem a Palavra de Deus, as pessoas não estão seguras de “que horas são”. Isto quer dizer, as pessoas não estão seguras de qual tradução (se é que há alguma) é verdadeiramente a Palavra de Deus.

Quem entra na roda e vê o calor da discussão tem motivos para sentir-se intimidado e confuso. Com tantas Bíblias na prateleira, qual é a versão definitiva? Qual é a autorizada? Dentre todas, qual é a Palavra de Deus?

A polêmica ao redor dessas questões, aquecida vez por outra com a publicação de uma nova versão “literal” ou parafraseada da Bíblia, pode gerar a impressão de que este é um problema recente.

Nada mais longe da verdade.

Unidade na diversidade

A variedade de traduções disponíveis da Bíblia já era um problema real na época de Agostinho (354-430 d.C.), o teólogo africano que estabeleceu os fundamentos da teologia moderna. Aos cristãos de fala latina da sua época, quase tão ansiosos quanto os de hoje para resolver a questão da versão mais fidedigna, Agostinho propôe em sua Doutrina Cristã duas soluções distintas. A primeira, ao mesmo tempo mais direta e mais exigente, requeria o conhecimento ou o aprendizado das línguas originais:

O grande remédio para a ignorância dos significados precisos é o conhecimento dos idiomas. E pessoas que falam a língua latina precisam de outros dois idiomas para compreender a Escritura, o hebraico e o grego, para que possam recorrer aos textos originais se a infinita diversidade de tradutores latinos os lança em dúvida.

Já no tempo de Agostinho, entretanto, o conhecimento do hebraico e do grego não era um remédio ao qual a grande massa dos cristãos podia ou se disporia a recorrer. Pensando nesses, para os quais o conhecimento das línguas originais representava uma impossibilidade prática, Agostinho propõe uma segunda solução. Ela baseava-se justamente na “infinita” diversidade de versões disponíveis:

E essa circunstância [a diversidade de traduções disponíveis] deveria facilitar ao invés de dificultar a compreensão da Escritura, se ao menos os leitores fossem menos descuidados. Pois o exame de um maior número de versões freqüentemente lança luz sobre uma passagem obscura. Por exemplo, naquela passagem do profeta Isaías [58.7], um tradutor diz ‘não despreze os domésticos da tua semente,’ enquanto outro diz ‘não dê as costas à tua própria carne’. Cada uma destas versões confirma a outra, pois uma é explicada pela outra. Quando as expressões usadas pelos dois tradutores são comparadas, sugere-se ao leitor um sentido mais provável das palavras, isto é, o mandamento de que não devemos desprezar nossos próprios familiares. Isso porque, quando se compara a expressão ‘domésticos da tua semente’ com ‘carne’ o significado de parentesco vem naturalmente à mente. (…) Não se pode determinar qual seja a tradução literal sem que se recorra ao texto na língua original, mas mesmo assim aos que as lêem com entendimento uma grande verdade pode ser encontrada em cada uma – pois é raro que os intérpretes divirjam tanto a ponto de não tocarem um significado importante.

O parecer de Agostinho é, portanto, que o estudo comparativo de diferentes traduções pode dar ao leitor da Bíblia uma idéia mais aproximada do texto original do que qualquer tradução isolada poderia fazer. Sobrepondo diversas camadas de traduções o leitor pode vislumbrar, através delas, o sentido original do texto, que seria de outra forma inacessível sem o conhecimento das línguas originais.

“O EXAME DE UM MAIOR NÚMERO DE VERSÕES FREQÜENTEMENTE LANÇA LUZ SOBRE UMA PASSAGEM OBSCURA. É RARO QUE OS INTÉRPRETES DIVIRJAM TANTO A PONTO DE NÃO TOCAREM UM SIGNIFICADO IMPORTANTE”.

É justo mencionar que Agostinho não menospreza a importância das traduções literais, “mais próximas à letra do original”. Sua recomendação final é que leitor não deixe de recorrer a elas:

Não que elas [as traduções literais] sejam suficientes, mas porque podemos usá-las para corrigir a liberdade e o erro de outros, que em suas traduções escolheram seguir o sentido das expressões tanto quanto as palavras.

A postura de Agostinho demonstra uma sobriedade que está, na prática, ausente das discussões contemporâneas a respeito do mesmo assunto. O teólogo enfatiza a importância das traduções literais e reconhece o valor das versões dinâmicas, mas nega a qualquer versão particular o status de definitiva. Segundo essa visão, nenhuma tradução é autônoma e suficiente, e todas devem ser vistas como ferramentas que só são úteis na medida em que se completam e se confirmam.

A Bíblia hebraica na biblioteca de Alexandria

Não devemos pensar, no entanto, que a grande explosão de traduções da Bíblia começou na época de Agostinho, nem supor que o teólogo introduziu na polêmica uma tolerância que não existia antes.

De fato, no que diz respeito às versões da Bíblia os antigos mostraram-se em tudo menos resistentes à mudança do que os belicosos cristãos contemporâneos. Muito antes que o Novo Testamento começasse a ser escrito (quando o Antigo Testamento era ainda de direito o Novo), veio à luz uma tradução formal da Bíblia Hebraica em grego, para o benefício das incontáveis comunidades judaicas de fala grega espalhadas pelo Império Romano.

Essa tradução, que viria a ser conhecida como Septuaginta, foi produzida por volta do terceiro século a.C. na cidade egípcia de Alexandria, que abrigava na época a maior colônia judaica do Império fora da Palestina.

Segundo uma tradição preservada na (provavelmente espúria) Carta de Aristéas, a Septuaginta teria surgido da ambição do faraó Ptolomeu Filadelfo de ampliar o acervo da Biblioteca de Alexandria. Sabe-se que Fildelfo, hábil diplomata e governante ambicioso, planejara de fato transformar Alexandria no mais importante centro científico e cultural do seu tempo, e enxergava a vasta Biblioteca como seu eixo principal. Ele estava nesse intento quando, diz a lenda, um bibliotecário desaforado veio lembrá-lo que nas repletas estantes da Biblioteca faltava um volume com os livros sagrados dos judeus.

Filadelfo tinha tanto a sanha do colecionador de livros quanto os recursos para remediar a situação. Ele comprou a liberdade de mil prisioneiros judeus e mandou um grupo de representantes ao sacerdote Eleazar em Jerusalém, pedindo um cópia da Lei judaica e setenta e dois intérpretes, seis de cada tribo de Israel. A delegação de setenta e tantos tradutores (daí o nome de Septuaginta, que significa “setenta” em latim) foi enviada com essa tarefa para Alexandria, onde teria concluído a tradução do Pentateuco com assombrosa unanimidade em meros setenta e dois dias.

O vocabulário do novo

Não sabemos quando e exatamente de que modo o texto completo daSeptuaginta foi concluído, já que muitos tradutores diferentes parecem ter se engajado nas etapas posteriores do projeto. Fato é que a Septuaginta (hoje em dia também conhecida como LXX, “setenta” em algarismos romanos) alcançou em pouco tempo ampla popularidade, e era na época de Jesus a Bíblia de uso corrente dos judeus de fala grega do mundo mediterrâneo (e, não muito depois, também dos primeiros cristãos de fala grega).

Como não temos acesso ao texto usado como base, não temos como saber o quanto a LXX, como tradução, foi literal. Análises comparativas e testemunhos contemporâneos dão a entender que não muito. Em 130 a.C. Jesus ben Siraque, ele mesmo tradutor, opinava sobre a Septuaginta que “as mesmas coisas expressas em hebraico não têm a mesma força quando transpostas para outro idioma. Não apenas isso, mas até mesmo a Lei, as profecias e o restante dos livros diferem não pouca coisa quanto às coisas que dizem”.

TERMOS GREGOS PASSARAM A GANHAR SIGNIFICADOS HEBRAICOS.

Apesar das notórias liberdades tomadas pelos tradutores na sua versão do hebraico, o texto grego da LXX parece ter sido aceito, para todos os fins práticos, como tão confiável e abalizado – tão inspirado – quanto o original. Os próprios autores do Novo Testamento, quando citam passagens “das Escrituras” estão, na maioria das vezes, citando diretamente a tradução grega da LXX. Alguns de seus argumentos, na verdade, fazem mais sentido à luz da versão da Septuaginta do que à do texto autorizado da Bíblia em hebraico, o chamado Texto Massorético, fixado por exegetas judeus entre os séculos VI e X d.C.

Ainda mais importante foi o fato de que a versão da LXX inspirou o estilo, o vocabulário e a estrutura da argumentação dos autores do Novo Testamento, especialmente no que diz respeito a Paulo. Na transposição de palavras hebraicas para palavras gregas, termos gregos passaram a ganhar significados hebraicos. A palavra grega para “graça”, por exemplo, deixou de significar apenas “charme, beleza”, para passar a representar o favor e a postura benevolente de Deus. O mesmo se aplica ao termo “carne”, que Paulo usou em grego esperando que fosse entendido em suas implicações hebraicas.

A quinta coluna de Orígenes

Com a emergência do cristianismo a Septuaginta acabou perdendo a sua popularidade entre os judeus, passando a ser associada quase que exclusivamente ao público cristão. Novas traduções foram surgindo para preencher a lacuna.

Pelo menos três versões da Bíblia Hebraica para o grego vieram à luz durante o segundo século depois de Cristo. Um judeu ou prosélito de Ponto chamado Áquila produziu uma tradução radicalmente literal, talvez com o propósito refletido de opor-se à abordagem e à autoridade da LXX. Em contraposição à versão de Áquila, que muitas vezes sacrificava por completo o sentido e a gramática grega em favor da literalidade, dois tradutores posteriores, Símaco e Teodócio, produziram independentemente traduções bastante livres, em grego ao mesmo tempo acurado e fluente. Ambos chegaram a alcançar alguma popularidade entre os cristãos, que segundo Jerônimo preferiam ler em suas igrejas o livro de Daniel na versão de Teodócio.

No terceiro século o erudito cristão Orígenes empreendeu uma monumental revisão da Septuaginta, concluída em 245 a.C. Essa obra, que tomou vinte e oito anos de trabalho, ficou conhecida comoHexapla (Sêxtupla), e cada uma de sua páginas tinha seis colunas: na primeira ficava o texto hebraico do Antigo Testamento, na segunda o mesmo texto transliterado para letras gregas, na terceira a mesma passagem na versão em grego de Áquila, na quarta a de Símaco, na quinta a LXX revisada por Orígenes e na sexta a versão de Teodócio.

Embora nenhum manuscrito completo da Hexapla tenha sobrevivido, a iniciativa de Orígenes permanece como austero testemunho de uma concepção muito peculiar, e de certa forma perdida, a respeito da autoridade da Bíblia e da natureza e papel da tradução. Essa concepção encontraria eco na posição de Agostinho cem anos mais tarde: a idéia de que nenhuma tradução é boa a ponto de ser suficiente; de que a boa tradução é aquela colocada ao lado de outra contra a qual possa ser comparada.

Apenas a quinta coluna da Hexapla, a LXX de Orígenes, foi preservada na íntegra em diversos manuscritos sobreviventes. As revisões posteriores da Septuaginta foram, em grande parte, desenvolvidas a partir dela.

O mundo converte-se ao latim

Septuaginta era uma tradução para o grego da Bíblia Hebraica (a porção da Bíblia que os cristãos chamam de Antigo Testamento); a difusão do cristianismo, no entanto, dependia da propagação do ensino de Jesus e dos apóstolos, fixada nos evangelhos e nas cartas.

Apesar da popularidade e da universalidade do idioma grego em que foi originalmente escrito, logo surgiram diversas traduções independentes do Novo Testamento em outras línguas. Um dos primeiros esforços nesse sentido foi empreendido por Taciano, que no segundo século traduziu para o siríaco uma compilação dos quatro evangelhos que veio a ser conhecida como Diatessaron. Nos séculos que se seguiram foram produzidas versões do Novo Testamento em copta, armênio (reputada como uma das traduções mais fluentes e fiéis), georgiano e etíope, e porções da Bíblia foram traduzidas para inúmeros outros idiomas.

Ao mesmo tempo em que o cristianismo se expandia, outra importante e imprevisível mudança cultural ocorria em segundo plano: o latim começava a desbancar o grego como língua mais importante do ocidente. A língua de Roma avançava a passos largos no sentido de estabelecer a sua primazia como língua universal, uma primazia que não sofreria qualquer ameaça séria por mais de dez séculos.

Já em meados do quarto século circulavam porções traduzidas de ambos os testamentos em latim, de qualidade desigual e representando as mais diversas origens e tendências. Segundo Agostinho havia, lembremos, “uma infinidade de traduções”; segundo Jerônimo circulavam “quase tantas versões quanto cópias”. A necessidade de uma tradução formal e integral da Bíblia para a língua da vez acumulou-se até 382, quando o papa Dâmaso pediu ao eruditoJerônimo, recém-chegado a Roma, que se dedicasse à tarefa.

“HAVERÁ HOMEM QUE NÃO ME CHAMARÁ DE FALSIFICADOR?”

Jerônimo verteu a Bíblia para o latim a partir das línguas originais: o Novo Testamento a partir do grego e o Antigo Testamento a partir dohebraico. Sua tradução, que veio a ser conhecida como Vulgata (da palavra latina para “comum, acessível, popular”), não foi bem recebida inicialmente, especialmente porque ele havia ousado trabalhar a partir do Antigo Testamento em hebraico, apartando-se das soluções consagradas do grego da Septuaginta, que gente como Agostinho acreditava ser tão inspirada quando o texto hebraico.

Na carta que escreveu ao papa para apresentar a primeira porção daVulgata, a sua tradução dos evangelhos, Jerônimo expôe temores que se refletiriam na mente de tradutores posteriores, mas que no caso dele mostraram-se quase que inteiramente infundados: “haverá homem, instruído ou não, que ao tomar em suas mãos este volume, e perceber que o que lê não condiz com os seus gostos estabelecidos, deixará de irromper imediatamente em linguagem furiosa, e de chamar-me de falsificador e profano por ter tido a audácia de acrescentar o que quer que seja aos livros antigos, ou fazer quaisquer alterações e correções que sejam?”

O mais longo reinado

Nenhuma reação adversa impediu que a Vulgata alcançasse consagração sem precedentes, e se mantivesse por muitos séculos como a única Bíblia de uso universal do mundo católico europeu.

A tradução de Jerônimo, na verdade, influenciaria a história da igreja e da teologia mais do que nenhuma outra. A Vulgata deixou como herança grande parte da terminologia teológica moderna (é por causa dela, por exemplo, que sabemos que no princípio era o Verbo). AVulgata foi também a ponte através da qual inúmeras palavras e conceitos do grego chegaram até nós.

Vulgata sofreria perdas com a acumulação de erros dos copistas, e passaria por importantes revisões ao longo dos anos, mas sua reputação permaneceria praticamente intocada por mais de um milênio. Foi a Bíblia dos monges e mosteiros e abades e reis católicos e cruzados e cavaleiros e descobridores e inquisidores. De fato, a Vulgata foi a Bíblia, a versão padrão e universal da Bíblia, por mais tempo do que qualquer outra.

Mil anos depois da chegada de Jerônimo a Roma, Wycliffe colocou o ponto final na sua famosa tradução da Bíblia para o inglês: era uma versão literal da Vulgata.

Quando Lutero pregou as suas indignadas teses nas portas da igreja de Wittenberg, elas estavam escritas em saudável latim.

Do latim da Vulgata nasceria tanto a reforma quanto a língua portuguesa.

A Bíblia que Jesus lia, e a outra que ele citava

Para resumir o que foi dito pode ser útil visualizar na linha do tempo as duas porções da Bíblia e suas duas principais traduções na Antigüidade:

Não devemos deixar que essa simplificação nos faça perder de vista o fato de que em cada um desses intervalos circulavam inúmeras traduções independentes do texto bíblico, numa infinidade de idiomas.

Muitas delas, na verdade, “circulavam” antes de serem colocadas por escrito.

Cinco séculos antes de Cristo, quando os judeus começaram a voltar do exílio babilônico para a Palestina, o aramaico passou a substituir gradualmente o hebraico como língua falada no dia-a-dia. Nos dias de Jesus o hebraico era usado apenas nas discussões teológicas e no culto, e o aramaico era a língua geral da população.

Logo tornou-se prática usual, para benefício do público, traduzir e explicar em aramaico cada porção da Escritura hebraica lida na sinagoga. Essas versões livres do Antigo Testamento em aramaico foram repetidas e buriladas até o ponto de alcançarem formas fixas que, como o restante das tradições judaicas, passaram a ser transmitidas oralmente. Essas traduções, algumas delas rígidas, outras mais livres do que a mais selvagem paráfrase contemporânea, ficaram conhecidas como targumim (singular targum)da palavra hebraica targem, “transpor, parafrasear, interpretar” (conformeEsdras 4.7).

Vários targumim coexistiam pacificamente na Palestina do tempo de Jesus. Mesmo antes de serem colocados por escrito (a partir do primeiro século, provavelmente) os targumim já desfrutavam de ampla aceitação, e eram por vezes vistos como tendo a mesma autoridade dos textos originais. De fato, algumas citações do Antigo Testamento feitas pelos autores do Novo estão mais próximas do texto na versão dos targumim do que do original em hebraico ou do grego da Septuaginta (por exemplo, Marcos 4.12 e Efésios 4.8).

Pelo que sabemos o próprio Jesus pode ter feito uso das versões livres dos targumim, já que com toda a probabilidade ele falava ao povo em aramaico, a língua das multidões. Evidência em favor dessa idéia é o grito registrado em Marcos 15.34: “Eli, eli, lama sabactani”, uma citação em aramaico do salmo 22.1.

OS JUDEUS DO TEMPO DE JESUS PRENDIAM-SE MENOS ÀLETRA DA LEI DO QUE OS ACIRRADOS CRISTÃOS CONTEMPORÂNEOS.

Esta brevíssima visão geral das versões da Bíblia na Antigüidade bastará para demonstrar que a questão da validade das traduções da Bíblia é muito mais antiga do que costumamos imaginar. Especialmente admirável, no que me diz respeito, é ver nos antigos um grau de maturidade e independência intelectual maior que o dos que hoje em dia se degladiam sobre a questão.

Fato é que os judeus do tempo de Jesus e os primeiros cristãos prendiam-se menos à letra da lei do que os acirrados cristãos contemporâneos. Eles acreditavam na coexistência de diversas traduções e paráfrases, e faziam uso de uma ou de outra versão sem aparente constrangimento. Orígenes e Agostinho defendiam com igual convicção a idéia de que a análise de diferentes traduções possibilitava ao leitor da Bíblia um vislumbre sobrenaturalmente claro do sentido do texto original – mais claro do que qualquer tradução isolada seria capaz de suprir.

Fato é que os escritores do Novo Testamento, quando citavam o Antigo, faziam uso tanto do texto interpretado dos targumim quanto da tradução grega da Septuaginta. Nas sinagogas, como as freqüentadas por Jesus e por Paulo, transitavam traduções e paráfrases amplamente aceitas do Antigo Testamento, tanto em aramaico quanto em grego.

Fato é que a única citação bíblica que Jesus fez na cruz foi uma tradução.





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