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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os sinos dobram no meu aniversário



Ricardo Gondim


Hoje, 14 de janeiro, celebro meu aniversário com a bandeira hasteada a meio pau. Ouço sinos a dobrar no horizonte e me pergunto: Por quem dobram os sinos? A resposta ressoa em um uivo melancólico: Eles dobram pelo povo do Haiti, e por ti.

Celebro a minha existência com o sabor amargo de uma catástrofe que engasga a alma. Meu sorriso não disfarça o desalento. Sinto-me no vórtice desse evento trágico que aflige o povo famigerado do Haiti. O badalar dos sinos lembra o poeta inglês do século XVI, John Donne. Suas palavras tingem meu aniversário de um baço consternado: “A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

O Haiti consta entre os mais miseráveis do planeta. Não tem um Estado que gerencie minimamente o dia a dia dos cidadãos. Sem Corpo de Bombeiros, não tem qualquer serviço de ambulância; os hospitais, precaríssimos matam mais do que curam. Embora localizado nas barbas dos Estados Unidos, por anos contou com uma ajuda “humanitária” insignificante, migalhas que caem da mesa dos filhos preferidos de Deus. Pingos de creolina para um oceano de fezes. O mundo não teve dificuldades de encontrar bilhões para resgatar mega corporações financeiras, mas joga sobejos para os haitianos que rastejam na absoluta desgraça.

Já estou preparado para ouvir os argumentos dos arautos do conservadorismo teológico: “Deus, em sua presciência e eterna sabedoria, pré-ordenou todas as coisas. Ele organizou o mundo de tal maneira que até a desgraça de milhões traz glória para seu santo nome”. Fundamentados na literalidade de textos dos genocídios, limpezas étnicas e pragas atribuídas ao furor divino, os arautos da Reta Doutrina fazem de Deus não só o autor, mas o gerente de calamidades tão dantescas.


Sim, os relatos da Bíblia hebraica revelam uma Divindade que, uma vez ofendida, não hesita em destruir tudo e todos os que se interpõem ao seu propósito. O pensamento que transforma Deus no autor de calamidades elabora da seguinte maneira: “Deus é bom, mas também justo. E se no passado matou cidades inteiras, crianças, animais, idosos, também tem o direito arrasar com milhões de pessoas nos dias atuais. E ninguém seria sábio ou misericordioso o suficiente para questioná-lo”. Entendo que este tipo de leitura da Bíblia se sustenta, porque possui uma lógica interna rigorosa – alguns desses pensadores são pós-doutores em teologia.

Contudo, eu já me despedi da racionalidade desse pacote. Não tolero que as conclusões medievais de Santo Anselmo calcem o meu chão teológico. Ele pensou a partir da ideia sinistra de que a Divindade estava ofendida pelo pecado da humanidade. Praga bubônica, tsunamis, devastação de colheitas por secas e inundações ainda são insuficientes para aplacar o ódio do Senhor – segundo o calvinismo, as crianças já chegam ao mundo condenadas; devido ao pecado original, “nascem debaixo da ira de Deus”. Antecipo dizerem que vez por outra Deus precisa mesmo dar uma mexidinha nas placas tectônicas para mostrar seu grau de cólera com a humanidade.

Não refuto tais argumentos. Eles fecham o esquema lógico do raciocínio daqueles que se autodenominam Reformados. Porém, como acreditar em um Deus que escolheria exatamente os haitianos para revelar o tamanho de sua ofensa? Por que exatamente sobre um povo já esquecido em sua indigência? Os calvinistas que fiquem com esta divindade, eu não posso acreditar que exista um Deus que sempre começa a sua vingança com os indefesos.

Claro que os ricos se protegem melhor das tragédias enviadas pelo Altíssimo. No Japão, um terremoto dessa magnitude traria sérias consequências, mas os danos seriam minorados pela belíssima infra estrutura do país – ressalte-se que a maioria de japoneses é secularizada, e como outros povos abastados, não se interesse muito pelo Deus dos cristãos. Se o Todo Poderoso castigou a pequena ilha do Caribe devido a sua idolatria primitiva e grosseira, porque não pune os Países do Primeiro Mundo pela idolatria sofisticada e dissimulada do materialismo?

Que Deus é esse que permite que ricos se defendam de sua ira extrema? New Orleans está conseguindo voltar ao normal depois do Catrina. Para os haitianos condenados ao charco pútrido, as mortes continuarão por décadas. O que lhes acontecerá quando o próximo furacão voltar a açoitar sem misericórdia?

Acredito em um Deus que se relaciona com a humanidade em outras bases. Deus é amor. A bonança e a tempestade são elementos da Contingência, espaços para a liberdade. Não creio na teologia da Providência (se não conhecer o seu significado, bastar pesquisar nos melhores manuais calvinistas). Aceito que Deus amorosamente participa nas iniciativas de bondade e nos movimentos de justiça que um cataclismo possa desencadear. Não imagino que o Deus de Jesus Cristo possa estar por detrás de um acidente tão horrendo. Ele é luz e interpela homens e mulheres de bem para que se façam presentes na catástrofe, minorando o sofrimento dos pobres. Descreio das lógicas que transformam os pensamentos divinos em maldição. Deus é o Deus da paz.

As lágrimas de Deus pelo Haiti são semelhantes às de Jesus diante da sepultura de Lázaro. Seu lamento ressoa no repique dos sinos que devem bater mansos, hoje, 14 de janeiro. No meu aniversário, partilho a dor dos negros, pardos e brancos que choram a morte de seus queridos ainda debaixo de escombros em Port-au-Prince.

Soli Deo Gloria

Súplica pelos que choram


Ed René Kivitz


Pai Celestial, hoje erguemos nossas vozes em intercessão pelos que choram seus mortos.

Reconhecemos que és Deus de amor e bondade, Deus de toda consolação, pleno em compaixão e rico em misericórdia, e por isso clamamos que derrames sobre todos os corações porção suficiente de tua paz que excede todo o entendimento.

Rogamos que tomes pela mão aqueles que estão perdidos em meio à escuridão, amedrontados no vale da sombra da morte, e os conduza em serenidade para a luz, dando-lhes novo frescor para a alma, renovando-lhes a esperança para a construção do amanhã, firmando-lhes os pés para a continuação da jornada, devolvendo-lhes a força para viver.

Rogamos que enxugues cada lágrima, recebendo-as como a mais pura oração, acolhendo-as como tributos aos que se foram, dando-lhes sentido e significado, transformando-as em memórias felizes e lembranças de amor e saudade que produzam frutos de vida.

Rogamos que com tua presença amorosa preenchas o vazio deixado pelas ausências, suprindo as faltas, recolhendo em teu colo de Pai cada um dos que hoje choram e dando-lhes a provisão em resposta às suas aflições, angústias e medos, mostrando-te companheiro e parceiro para a vida que segue.

Rogamos que consoles as mães e pais que perderam seus filhos e filhas, os apaixonados que perderam seus amores, as crianças que perderam seus pais, os amigos que perderam seus pares, e que derrames porções de amor suficiente para que a falta dos que se foram seja redimida por reconciliações, aproximações e aprofundamento dos laços de afeto de todos quantos ainda temos vida e oportunidade de amar.

Rogamos a ti, que és o Senhor da vida, que detenhas o poder da morte, e cuides dos que estão vestidos de luto para a que a morte de seus amados não lhes roube a alegria de viver; clamamos que detenhas o poder destrutivo desta tragédia, inspirando atos de solidariedade, compaixão e comunhão; e suplicamos que transformes a indignação e revolta destes dias em sementes que floresçam para a beleza e frutifiquem para a justiça.

Rogamos, nosso Pai, que fortaleças aqueles que perderam seus amados para que ergam memoriais de honra aos que se foram, para que vençam a morte com a insistência em viver, o medo com fé, a desesperança com a insistência em semear a terra regada pelo sangue dos inocentes.

Pai Celestial, em nome de teu Filho Jesus, que venceu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade, rogamos que envies teu Espírito Santo a consolar todos os que choram, a cuidar dos que estão com o coração quebrantado e a por, sobre os que de luto estão, uma coroa em vez de cinzas, vestes de alegria ao invés de pranto, manto de louvor ao invés de espírito angustiado, afim de que se levantem como carvalhos de justiça, para a tua glória. Amém.

Que se resgate a Esperança.



Ricardo Gondim.

Esperança já foi criticada como armadilha; ao prometer um futuro melhor, enganaria os incautos. Amaziada com a utopia, adiaria as iniciativas transformadoras do presente. Os corojosos, acreditava Nietzsche, não precisam de suas juras futeis, e só os covardes se valem de seus acenos.

Esperança se tornou substantivo que se desgastou por uso excessivo; na boca de demagogos, palavra piedosa que não comunica coisa alguma.

Porém, Esperança permanece o alento que resta aos pobres. Quem aguarda novos céus e nova terra levanta a cabeça. Por sua causa, na Páscoa, os judeus se cumprimentaram em guetos imundos: “No próximo ano, em Jerusalém”. Inspirados na Esperança, escravos negros cantaram nos velórios: “Free at last, free at last!”.

Esperança é irmã mais frágil da fé. Sua fragilidade vem da insustentabilidade. Esperança não nasce de certezas. O chão da Esperança, inseguro como areia movediça, será sempre improvável. Nas Escrituras, lê-se que “a Esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo?” (Romanos 8.24).

Mesmo incerta e incapaz de fazer promessas absolutas, Esperança alimenta o herói em sua gesta heróica. Animado pelo impossível, ele desenvolve sensibilidades que adensam os sonhos da Cidade futura, onde paz e justiça se beijarão.

Esperança espera, mas jamais obedece a mecânica do tempo. Nela, não existem cronogramas, relógios e planejamentos estratégicos. Enquanto flui, Esperança não se obriga senão que satisfará os que se engajarem pela vida. O galardão da Esperança resume-se a fazer da excelência um fim em si mesmo, jamais um meio.

A cor da Esperança dizem ser verde. Então, eis o tom que anima o vencido a continuar resoluto. Só ela ressuscita audácia em corações arruinados. Esperança devolve ao desiludido, lambuzado de cinza, as cores da vida.

Esperança exorciza mau agouro, cala pessimistas e revoga os decretos do Destino. Esperança não sobrevive de quimeras; não procura construir castelos nas nuvens; não doura pílulas; não promove viagens alucinógenas. Todo esperançoso se torna companheiro de valentes, de intrépidos, de aventureiros. Neles, pulsa o coração de um batalhador, de onde surge a poesia mais inspiradora.

Esperança se move de trás para frente. Réstias de sua luz emanam desde o futuro longínquo para iluminar o presente. Esperança é a força derradeira que anima o velho e o brilho que anima os olhos da mãe quando embala o filho.

Abraão, Moisés, Don Quixote, Martin Luther King Jr., e o Eródoto, meu pai, foram homens que navegaram nas águas da Esperança; oceano que conhecemos tão pouco, mas que sem ele não sobreviveríamos.

Soli Deo Gloria.

Miséria na cultura: decepção e depressão


Leonardo Boff
Adital

Em 1930 Sigmund Freud escreveu seu famoso livro "O mal-estar na cultura" e já na primeira linha denunciava: "no lugar dos valores da vida se preferiu o poder, o sucesso e a riqueza, buscados por si mesmos". Hoje tais fatores ganharam tal magnitude que o mal-estar se transformou em miséria na cultura. A COP-15 em Copenhague trouxe a mais cabal demonstração: para salvar o sistema do lucro e dos interesses econômicos nacionais não se teme pôr em risco o futuro da vida e do equilíbrio do planeta já sob o aquecimento que, se não for rapidamente enfrentado, poderá dizimar milhões de pessoas e liquidar grande parte da biodiversidade.
A miséria na cultura, melhor, miséria da cultura se revela por dois sintomas verificáveis mundo afora: pela generalizada decepção na sociedade e por uma profunda depressão nas pessoas. Elas têm razão de ser. São consequência da crise de fé pela qual está passando o sistema mundial. De que fé se trata? A fé no progresso ilimitado, na onipotência da tecno-ciência, no sistema econômico-financeiro com seu mercado como eixos estruturadores da sociedade. A fé nesses deuses possuía seus credos, seus sumos-sacerdotes, seus profetas, um exército de acólitos e uma massa inimaginável de fiéis.


Hoje os fiéis entraram em profunda decepção porque tais deuses se revelaram falsos. Agora estão agonizando ou simplesmente morreram. Os G-20 em vão procuram ressuscitar seus cadáveres. Os professantes desta religião de fetiche, agora constatam: o progresso ilimitado devastou perigosamente a natureza e é a principal causa do aquecimento global; a tecnociência que, por um lado, tantos benefícios trouxe, criou uma máquina de morte que só no século XX matou 200 milhões de pessoas e hoje é capaz de erradicar toda a espécie humana; o sistema-econômico-financeiro e o mercado foram à falência e se não fosse o dinheiro dos contribuintes, via Estado, teriam provocado uma catástrofe social. A decepção está estampada nos rostos perplexos dos lideres políticos, por não saberem mais em quem crer e que novos deuses entronizar. Vigora uma espécie de nihilismo doce.

Já Max Weber e Friedrich Nietszche haviam previsto tais efeitos ao anunciarem a secularização e a morte de Deus. Não que Deus tenha morrido, pois um Deus que morre não é "Deus". Nietszche é claro: Deus não morreu, nós o matamos. Quer dizer, Deus para a sociedade secularizada não conta mais para a vida nem para coesão social. Em seu lugar entrou um panteão de deuses, referidos acima. Como são ídolos, um dia, vão mostrar o que produzem: decepção e morte.

A solução não reside simplesmente na volta a Deus ou à religião. Mas em resgatar o que eles significam: a conexão com o todo; a percepção de que o centro deve ser ocupado pela vida e não pelo lucro e a afirmação de valores compartidos que podem conferir coesão à sociedade.

A decepção vem acolitada pela depressão. Esta é um fruto tardio da revolução dos jovens dos anos 60 do século XX. Ai se tratava de impugnar uma sociedade de repressão, especialmente sexual e cheia de máscaras sociais. Impunha-se uma liberalização generalizada. Experimentou-se de tudo. O lema era: "viver sem tempos mortos; gozar a vida sem entraves". Isso levou a supressão de qualquer intervalo entre o desejo e sua realização. Tudo tinha que ser na hora e rápido.

Disso resultou a quebra de todos os tabus, a perda da justa-medida e a completa permissividade. Surgiu uma nova opressão: o ter que ser moderno, rebelde, sexy e o ter que desnudar-se por dentro e por fora. O maior castigo é o envelhecimento. Projetou-se a saúde total, padrões de beleza magra até a anorexia. Baniu-se a morte, feita espantalho.

Tal projeto, pós-moderno, também fracassou, pois não se pode fazer qualquer coisa com a vida. Ela possui uma sacralidade intrínseca e limites. Uma vez rompidos, instaura-se a depressão. Decepção e frustração são receitas para a violência sem objeto, para o consumo elevado de ansiolíticos e até para o suicídio, como vem ocorrendo em muitos países.

Para onde vamos? Ninguém sabe. Somente sabemos que temos que mudar se quisermos continuar. Mas já se notam por todos os cantos, emergências que representam os valores perenes da "condição humana". Precisa-se fazer o certo: o casamento com amor, o sexo com afeto, o cuidado para com a natureza, o ganha-ganha em vez do ganha-perde, a busca do "bem viver", base para a felicidade que hoje é fruto da simplicidade voluntária e de querer ter menos para ser mais.

Isso é esperançador. Nessa direção há que se progressar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Nasce uma criança


Há alguns anos escrevi uma música chamada Nasce Uma Criança, que postulava que Deus é paciente, pensa sempre a longo prazo e é um incorrigível otimista. “Se há algum problema pra se resolver”, dizia a canção, Deus não toma os pés pelas mãos: ele “faz alguém nascer” – alguém que poderá com o tempo, e se tudo der certo, ajudar na resolução do problema. Quando decidiu que Israel precisava de um libertador, Deus não teve qualquer pressa: fez nascer Moisés, que só começaria oitenta anos depois a resolver o problema da servidão no Egito. Quando Israel precisou de um rei que representasse um exemplo para todos os seus sucessores, nasceu uma criança na casa de Jessé – e assim por diante.

Quando decidiu resolver o maior problema de todos Deus, naturalmente, mandou o seu Filho.

Do ponto de vista de Deus, portanto, os seres humanos nascem para ajudar na resolução dos problemas criados pelos seus antecessores. Viver de forma integral e “cumprir toda a justiça” é, portanto, [1] ajudar na resolução do problema que nascemos para resolver, [2] fazendo ao mesmo tempo todo o possível para não gerar outros.

Viver de forma integral é ajudar na resolução do problema que nascemos para resolver, fazendo todo o possível para não gerar outros.


Como a vida e a morte do próprio Jesus deixaram entrever, o problema que nascemos para resolver, aquele cuja solução devemos perseguir, nunca é o nosso próprio, mas o dos outros. O pecado é, em grande parte, apenas a nossa obstinação em resolver o ilusório (aquilo que cremos ser o nosso problema, a nossa carência fundamental por aquilo de que cremos estar injustamente desprovidos) enquanto negligenciamos o problema real (a necessidade do outro).

Na equação divina de Nasce uma Criança, quando resolvemos o problema do outro, resolvemos magicamente também o nosso.

Tiago descreveu brilhantemente a equação quando ousou decretar que “a religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo” – ou seja, cumprir a nossa missão fundamental de atender as necessidades dos outros e impedir que a formatação egoísta do mundo nos impeça de desempenhá-la.

Nascemos, então, com essa dupla e exigente incumbência de resolver um problema e não criar outros. Graças ao Natal e a Jesus, Deus e homens têm finalmente razões para serem otimistas a esse respeito.


A Ortodoxia é o mundo dos mortos


O ortodoxo tenta preservar o velho. O herege tenta destruir o velho, para que o novo nasça. O ortodoxo tem medo do novo, da surpresa, do inesperado. Eles ameaçam a sua salvação. O herege vê o velho apenas como um caminho na direção do novo. O velho não é definitivo. É o provisório. Etapa a ser ultrapassada. Visões de mundos que se opõem. O ortodoxo vê um mundo petrificado, acabado, completo, fixo, imutável. O herege vive num mundo que se move, ainda incompleto, aberto, inacabado. Mundo onde é necessário buscar. Processo descontínuo, de saltos qualitativos, onde a vida e a liberdade se mantêm pela dialética da morte e da ressurreição. Quem preserva o passado está condenado a viver nele. Perdeu o futuro. O mundo da ortodoxia é aquele que foi um dia criado por homens então vivos. Mas eles morreram. Recebemos suas idéias como um herança, monumentos de um momento vivo que agora não mais existe. A ortodoxia afirma a eternidade deste mundo morto. Usa-o como uma jaula onde a vida deve ser encerrada.

(Rubem Alves, Religião e Repressão, pág. 326.)


O SEMPRE E O DE VEZ EM QUANDO


Ed René Kivitz


Outro dia alguém pinçou uma de minhas afirmações para afirmar que eu não acredito em milagres. A afirmação que fiz foi que Deus deseja fazer algo em nós, e não necessariamente por nós. De fato, representa muito do meu pensamento: a principal obra de Deus no humano é a conformação do humano à imagem de seu Filho Jesus, que Paulo, apóstolo, chama de “primogênito entre muitos irmãos”. Mais do que fazer coisas boas para o ser humano, Deus está comprometido em transformar o ser humano, ainda que isso custe deixar ou permitir que coisas ruins aconteçam a este ser humano em processo de transformação. Deus não atua no ramo de “conforto para os fiéis”. Deus atua no ramo de transformação do humano à imagem de Jesus Cristo.

Daí a extrapolar que eu não acredito em milagres é um pulinho. Confundir a ênfase da minha teologia – “Deus faz em nós, e não necessariamente por nós”, com “Deus nunca faz nada por nós”, é até compreensível.

Na verdade, o que pretendo dizer é melhor compreendido quando se dá atenção ao “não necessariamente”: Deus deseja fazer algo em nós, e não necessariamente por nós. Sublinhe o “não necessariamente”. Isso significa que Deus pode fazer e pode não fazer, e que o fazer ou deixar de fazer é imponderável, afetado por muitas variáveis que extrapolam o nosso controle e nosso entendimento. O que acredito, portanto, é que Deus sempre deseja fazer algo em nós, mesmo quando não faz algo por nós. Deus está sempre agindo para nossa transformação, mesmo quando não atua em nossas circunstâncias.

Por esta razão, minha conclusão é óbvia e simples: não devemos pautar nosso relacionamento com Deus na expectativa de que Ele faça algo por nós, mas na certeza de que Ele deseja fazer algo em nós. Quando Ele faz algo por nós, amém, quando não faz, amém também. O que não podemos permitir é que a expectativa de que Ele faça algo por nós nos deixe cegos ou imobilizados para o que Ele quer fazer em nós.

A maioria dos cristãos baseia seu relacionamento com Deus na dimensão “por nós”: o Deus de milagres, o Deus de poder. Alguns poucos baseiam seu relacionamento com Deus no “em nós”: o Deus de amor que nos constrange a viver para Ele e não para nós mesmos, onde viver para Ele implica sempre morrer para si mesmo, tomar a cruz e meter o pé na estrada. O milagre é problema (ou solução) de Deus. A fidelidade é problema meu. Atuar em minhas circunstâncias é o imponderável do mistério de Deus. Atuar em mim é o essencial do propósito de Deus. Você escolhe a base de sua relação com Deus: aquilo que pode acontecer ou não – o milagre, ou aquilo que certamente acontece – a transformação.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Também sou um sobrevivente


Ricardo Gondim

Li e reli “Alma Sobrevivente” do Philip Yancey (Mundo Cristão, 2004). No livro, Yancey confessa seu quase abandono da igreja evangélica. O fundamentalismo, racismo e obscurantismo de sua pequena comunidade no sul dos Estados Unidos quase o asfixiaram na fé. Identifiquei-me com o autor em seu desencanto.

Por outras razões, já pensei em me auto-exilar do mundo evangélico; aliás, já cogitei, até cometer um “suicídio institucional”. Só não o fiz porque minha biografia, como a dele, também foi marcada por gente, histórias comovedoras e testemunhos formidáveis que me preservam a fé cristã. Eu também posso listar pessoas e eventos que não me deixam desistir. Recordo-me de dois acontecimentos significativos.

Há alguns anos, fui convidado para pregar em uma igreja evangélica carismática no Canadá. Eu e minha família aterrissamos naquela pequena cidade, debaixo de um frio de 28 graus negativos. Um pavor, para quem chegava do Ceará. Porém, não me assustei com o clima quente dos cultos pentecostais canadenses. Vindo da Assembléia de Deus brasileira, já me acostumara com reuniões emotivas e sempre eufóricas.

Falei em três ocasiões diferentes. No domingo, depois que findou o culto, fomos convidados para uma “reunião de grupo caseiro”. Essa igreja participava de um movimento que procurava identificar os interesses dos membros para estabelecer “redes ministeriais” que serviam para formar vínculos entre as pessoas e para evangelização. Na casa que fomos visitar, todos tinham o “dom de colecionar miniaturas de trens”.

O sistema funcionava da seguinte maneira: oito ou nove casais que se interessavam em colecionar miniaturas de trens, se reuniam semanalmente e, enquanto trocavam idéias, consertavam, montavam e faziam os trens passearem, desenvolviam boa fraternidade. Os encontros serviam também de “isca” para atrair pessoas refratárias à fé. Não-cristãos que se interessassem por trenzinhos poderiam ser convidados para essas reuniões e ser evangelizados.

Como éramos de um país pobre e nunca havíamos participado de uma fraternidade cristã que usava trens em miniatura para gerar interesse pelos conteúdos do evangelho, recebemos uma verdadeira aula sobre o funcionamento do grupo e sua lógica ministerial. Cada um queria mostrar sua coleção de vagões, a montagem dos trilhos e as mini-estações com minúsculos passageiros. Espantei-me com a quantidade de dinheiro gasto com o passatempo dos irmãos. Uma autêntica réplica de uma locomotiva a vapor do início do século 20, se não me engano, havia custado 8 mil dólares.

Fui dormir angustiado naquela noite. Meu coração não me deixava dormir. Eu me perguntava: “Onde o cristianismo ocidental se perdeu?”.

Cinco dias depois, cheguei aos Estados Unidos, no estado de Virginia, para três palestras no final de semana. Mas, desta vez, minha vida seria impactada de forma diferente. Eu experimentaria um dos momentos mais significativos de minha vida e cuja memória mantém minha fé viva ainda hoje.

Preguei numa igreja também carismática. Quando terminou o culto do sábado, um rapaz me convidou para jantar na casa do reitor da Universidade Estadual. Segundo ele, o reitor já visitara o Brasil e se sentiria muito feliz em me conhecer.


Hoje, já não me lembro do nome do reitor, mas vou chamá-lo de John Doe. Ao lado de sua mulher, ele me recebeu com um largo sorriso. Os dois abriram os braços e saudaram com um “bem vindo” em português com fortíssimo sotaque.

A família freqüentava uma igreja presbiteriana bem formal em sua liturgia e bem liberal em sua teologia. Bastaram alguns minutos e entendi a ligação do casal com o Brasil.

Eles tinham uma família de treze filhos, todos adotivos e com alguma deficiência física. O casal decidiu que adotaria crianças de vários países do mundo em situação de abandono, ou por carregarem alguma doença genética ou por sofrerem algum estigma cultural. Assim, tinham uma filha coreana que era cega, surda e muda, um menino africano que nascera sem as pernas, dois ou três com síndrome de Down, e outros com diferentes anomalias genéticas. Os brasileiros eram três: uma menina cega, vinda do sertão da Paraíba e dois meninos infratores, que viviam abandonados nas unidades da Febem de São Paulo e Rio de Janeiro.

Sentamos à mesa e agradecemos a Deus pelo alimento; enquanto comíamos, eu tomava consciência que jamais seria o mesmo. A glória de Deus encheu aquele lar com uma leveza que, em alguns momentos, precisei me beliscar para perceber que não sonhava. Tentei conter minhas lágrimas que escaparam duas ou três vezes e que limpei com o guardanapo de papel.

Não resisti e narrei para eles a diferença abismal entre aquela noite e a dos trenzinhos, que tanto me chocaram. John Doe, educado e discretíssimo, não quis alongar minha observação, apenas comentou: “É uma pena, lá eles nunca ouvirão a voz doce de uma criança, dizendo, ‘obrigado, papai’”!.

Despedi-me da família e minha jornada espiritual deu uma guinada. Primeiro, percebi como é fácil adequar o evangelho de Jesus Cristo à mentalidade consumista de uma classe média burguesa, e ainda justificar essa manipulação, com um rótulo espiritual. Depois, roguei para que minha vocação, como pastor pentecostal, não contribuísse para fomentar uma espiritualidade desencarnada. Eu já participara de muitos ambientes em que o clima emocional não se transformava em atos de justiça.

Mas acima de tudo, naquela noite, perdi alguns dos meus preconceitos. Eu fora treinado com uma formação teológica que evitava contato com os liberais. Gente que não lesse a Bíblia e não soubesse repetir o nosso catecismo, deveria ser mantida à distância. De repente, eu estava sentado à mesa de um homem que cultuava a Deus em uma igreja que eu considerava fria. Contudo, seus valores cristãos eram muito mais nobres que os meus.

A partir daquele jantar, abri-me para pessoas que vivem fora dos contornos de meu gueto religioso. Aprendi que muitas vezes, outros também encarnam os valores do Reino de Deus até com mais exuberância do que os que se auto-intitulam defensores da sã doutrina.

Acredito que foi Santo Agostinho quem disse: “Deus já possui ovelhas em seu aprisco que a igreja ainda não alcançou”. Hoje celebro os gestos nobres de instituições como Médicos Sem Fronteiras, reverencio o altruísmo de freiras que cuidam de orfanatos e respeito a disposição de padres que se entregam a leprosos. Louvo a Deus por cristãos que, mesmo não participando de nenhuma instituição, comportam-se como bons samaritanos.

Enquanto ceava com o senhor John Doe e sua linda família, recordei-me das palavras de Jesus quando ele reunir todas as nações no último dia. O Senhor separará uma das outras, como pastor separa as ovelhas dos bodes e dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos do meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber, fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive preso, e vocês me visitaram’ (Mateus 24.31-46).

Madre Teresa repetia que cuidava de mendigos e leprosos com todo amor, porque Deus poderia estar disfarçado no meio deles. E as palavras de Jesus confirmam: “Digo-lhes a verdade: o que vocês fizerem a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”.

Em dezembro de 2004, um cristão sugeriu que eu usasse relógio, não para marcar horas, mas como uma jóia. Ele confessou que colecionava vários modelos suíços como verdadeiras relíquias. Enquanto ele tentava me convencer, lembrei-me do reitor John Doe, e na noite do réveillon, preferi dar meu dinheiro para as vítimas do Tsunami.

Soli Deo Gloria.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Os paradoxos da minha fé (Parte 3): História

Os paradoxos de minha fé afirmam que:
. Deus escreve a história através das mãos humanas
. Deus age soberanamente levando em conta a liberdade humana
. Deus conhece os fatos que ainda não aconteceram

A pergunta a respeito da relevância destas afirmações para a vida e o relacionamento com Deus e a caminhada no discipulado de Cristo deve ser respondida à luz do paradigma da kenosis. Isto é, o conceito de kenosis me coloca diante da necessidade de viver baseado na segunda metade de cada uma destas afirmações. Nesse caso, o que compete a Deus, fica sob o cuidado de Deus, pois ocupa o espaço do imponderável para minha consciência e compreensão, e não depende de minha vontade ou ação. Devo viver tendo como referência aquilo de que estou consciente e que compreendo e, principalmente, assumindo a responsabilidade daquilo que em boa medida depende de mim.

Creio que Deus escreve a história, agindo soberanamente, e inclusive conhece o que ainda não está escrito. Mas isso, em relação à minha consciência está na categoria do mistério, do imponderável. No meu horizonte de consciência e influência está o fato de que Deus se utiliza de mãos humanas, respeita a liberdade humana, e os fatos ainda não aconteceram. Por esta razão, vivo agindo livremente para construir o futuro em cooperação com Deus. Com licença da expressão, o que Deus está escrevendo, ou fazendo, e o que sabe a respeito do futuro, é problema dele. O meu problema é o que eu estou fazendo, a maneira como uso minha liberdade, e que tipo de futuro existiria se tudo dependesse apenas das minhas escolhas e decisões.

Talvez você pergunte o que tem a kenosis a ver com isso? Respondo que tem tudo a ver, pois a kenosis estabelece o padrão para o relacionamento de Deus comigo. Leio a Bíblia Sagrada como o registro autoritativo da revelação de Deus: quem Deus é – seu caráter, mente e coração, como deseja se relacionar comigo, e como me inclui nEle mesmo e em seu propósito eterno. Leio a Bíblia como o relato de uma grande história na qual Deus vai se desvendando através de seus relacionamentos. E nestes relacionamentos, seja com algumas pessoas específicas ou com uma nação, percebo que o que conta de fato para aqueles que com Ele se relacionam não é sua ação soberana e nem mesmo seu conhecimento do futuro, mas sua grandeza em andar na velocidade destas pessoas. Deus cede espaço para que as pessoas escrevam capítulos de sua história, mesmo incluindo páginas que Ele jamais incluiria; respeita a liberdade dos seus colaboradores; e age como se não tivesse qualquer conhecimento do futuro, fazendo com que seus colaboradores acreditassem naquilo que de fato é: o futuro está sendo construído inclusive por suas escolhas e decisões – Deus não está brincando de liberdade e nem fingindo que as pessoas têm papel preponderante no processo histórico. Deus não se relaciona com marionetes.

Esta postura me coloca diante de um paradoxo: morro de medo de fazer besteira e colocar a história em trilhos não aprovados por Deus, mas ao mesmo tempo acredito de todo o coração que não importa em que trilho eu coloque a história, o destino final está garantido, não por mim, mas por Deus, senhor da história. Em outras palavras, morro de medo de não chegar em Canaã, mas não tenho a menor dúvida de que alguém vai chegar lá.

Para caminhar entre estas duas possibilidades sem enlouquecer, apelo para o Espírito Santo, o Deus em trânsito. Isto me leva à quarta parte dos paradoxos da minha fé.
Ed René Kivitz
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