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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O crepúsculo dos deuses

Eu
Quero um lugar
Que não tenha dono
Qualquer lugar

Somos gente, e gente precisa de mitos, aquelas grandes narrativas formadoras que nos alçam para além das perplexidades paralisantes da realidade cotidiana e servem de espinha dorsal sobre a qual suportamos e orientamos o arco da vida.

Como já foi suficientemente demonstrado, todos vivemos debaixo de uma narrativa deste tipo, mesmo os mais céticos e descrentes dentre nós. Talvez não baste dizer que os seres humanos precisam de mitos; mais acertado seria dizer que são os mitos que nos tornaram humanos em primeiro lugar, e que são eles os patrocinadores do que nos resta de humanidade.

O ocidente pré-moderno via o arco ascendente da existência como desenhado exclusivamente por Deus: era a divindade que víamos nos conduzindo gradualmente de um presente incerto a um futuro de segurança. A condução divina era nossa narrativa sustentadora.

Na era moderna, Deus foi grosso modo substituído pela razão. Passamos a crer que a razão (equipada por todos os seus periféricos ideológicos: a ciência, a autonomia, a liberdade, a democracia, o materialismo, a privatização da produção e da vida social, o otimismo humanista, o capitalismo liberal) é quem nos guiaria de um presente incerto para um futuro de segurança. Criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.Nossa narrativa orientadora passou a ser arco ascendente do progresso conduzido pela mente racional.

Parte fundamental da estrutura de um mito (como tentei indicar acima na expressão “arco ascendente” e em verbos como “conduzir” e “guiar”) é o seu componente geográfico. Em cada mito está embutida uma promessa de deslocamento, a promessa de que seremos através da eficácia do próprio mito transferidos de um lugar para outro – em particular, do lugar em que estamos para um lugar melhor.

Independentemente do mito/narrativa que nos conduz, estamos todos antevendo e ansiando por esse “lugar melhor” de tranquilidade e abundância ao qual cremos que o mito pode nos levar. Esse destino já foi, para um punhado de hebreus sem-terra, o fulgor da Terra Prometida, que manava leite e mel. Para milhões de mulheres, escravos, párias e marginalizados de todos os impérios, foi o Paraíso em que reinariam a paz e a justiça que não encontraram na experiência terrena. Para a Europa cristã saturada, exaurida, injusta e infértil da segunda metade do milênio passado, a Terra Prometida foram as Américas, destino de impensável abundância e de irrestrita liberdade. Para os norte-americanos decepcionados com o convencionalismo, a rigidez social e o corporativismo das colônias do Atlântico, o “lugar melhor” foi o Oeste Selvagem, terra da oportunidade, da igualdade e do ouro1.

Portanto cada época (e, num certo sentido, cada lugar) teve seu próprio “mito de migração redentora” subalterno ao seu mito principal. Vivemos todos debaixo da expectativa perpétua desse lugar de abundância e de realização, esse destino ao mesmo iminente e distante, onde poderemos finalmente ser quem somos e não teremos mais de viver debaixo das limitações e constrangimentos da vida que temos agora – isto é, aqui.

No século XX, ao mesmo tempo em que a tradição cristã perdia definitivamente para a ciência o primeiro lugar como mito orientador no ocidente, os homens terminavam de mapear o globo e ponderavam com terror crescente as consequências da limitação de sua circunferência. Havendo os destinos terrestres de abundância finalmente se esgotado, a humanidade esboçou um mito de migração redentora que se adequasse ao seu novo mito orientador, e criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.

As profecias do novo mito, contendo suas promessas e advertências, passaram a ser registradas nos livros de ficção científica, que são um ramo contemporâneo da milenar literatura apocalíptica. No Apocalipse de João a salvação dos homens está na cidade celeste que desce do céu à terra; na ficção científica a salvação da terra está nos homens que sobem ao céu para edificar as cidades celestes.

A ficção científica prometeu que colonizaríamos os planetas, que viveríamos em estações orbitais sustentáveis, que exploraríamos galáxias e pisaríamos sistemas planetários repletos de riquezas que a imaginação não pode conceber. Ensinou-os que descobriríamos no espaço novas formas de vida, novas fontes de energia e recursos, para todos os efeitos, inesgotáveis. Doutrinou-os com a ideia que a exploração espacial representaria uma retomada muitas vezes multiplicada do espírito da Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, e que recuperaríamos nela nossa vocação de plantar colônias e esbarrar em novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.

O espaço tornou-se o nosso destino redentor, “a fronteira final” que prometia e possibilitava a grande futura migração – a mágica transferência para um domínio que representaria a solução de todos os problemas energéticos, populacionais e culturais que caracterizam a condição circular do nosso planeta.

A ideologia da exploração espacial ao mesmo tempo justificou a exploração dos recursos da Terra e a requereu. Se não tomamos medidas para conter a superpopulação foi porque a ficção científica implantou no inconsciente coletivo a noção de que no futuro estaríamos colonizando o espaço sem fim. Se não tomamos medidas para conter a radical espoliação dos recursos da terra foi porque a literatura apocalípticaA exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. da exploração espacial prometeu que em breve teríamos acesso aos recursos inesgotáveis e sem precedentes das estrelas e dos planetas2.

Porém nas últimas décadas temos testemunhado o que pode ser uma interrupção radical de toda essa narrativa, e o recente encerramento do projeto do ônibus espacial é apenas o símbolo mais recente dessa quebra de continuidade. A exploração espacial como a sonhamos talvez não seja impossível, mas o sonho tem perdido em golpes implacáveis da realidade o seu poder de factibilidade e de oportunidade, e portanto sua força de mito redentor.

Tudo que diz respeito à colonização do espaço tem se mostrado mais complexo e cheio de obstáculos do que costumávamos prever. Colocamos o pé na lua meia dúzia de vezes – custou caro e ensinou-nos muito em todas as áreas, mas foi só. Nenhum pé humano pisou o solo do mais próximo dos planetas do nosso próprio sistema, e não há qualquer perspectiva de que essa visita possa materializar-se nas próximas décadas. Se não temos como sequer antecipar ou arrebanhar a tecnologia e os recursos necessários para a mais simples das viagens interplanetárias, o sonho da colonização do nosso próprio sistema permanece distante ao ponto do irreal – quanto mais o de uma viagem a outro sistema planetário, quanto mais o de uma realidade em que esse tipo de viagem se torne coisa comum, factível e de retorno garantido.

Em particular, os cientistas intuem com cada vez mais clareza que a exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. Se, apesar das dificuldades, conseguirmos acesso aos recursos de outros destinos planetários, será com toda probabilidade tarde demais – tarde demais, isto é, para resolver os problemas que nos apertam na nossa presente experiência no planeta.

Os cientistas esperavam, pelo menos tanto quanto os cristãos, que a salvação viesse do céu, mas estamos todos aprendendo juntos a perder essa fé3. Perdemos nosso mito subalterno de migração redentora, e hoje em dia contribuímos para o naufrágio planetário sem contar sequer com a ilusão de um plano de fuga.

Talvez não seja cedo para concluir que o nosso primeiro planeta será também o nosso último. Talvez não seja cedo para celebrar que o universo pode estar para sempre a salvo de nós.
                 

NOTAS
  1. Os exemplos se pode indefinidamente multiplicar: para nordestinos esmagados pela seca, o destino de esperança foi o sul Brasil; para gente apertada pela falta de oportunidade no interior, é a cidade grande. []
  2. Ou seja, nada mudou muito desde que a tradição cristã ensinou que podíamos violentar esta terra sem qualquer escrúpulo porque em breve Deus nos daria outra. []
  3. Essa quebra de paradigma tem se refletido na própria ficção científica. O seu mito de migração redentora permanece mais ou menos inalterado, mas com cada vez menos frequência chegamos a esse novo destino através de foguetes, tecnologia convencional ou iniciativa humana. Daí a crescente importância, na literatura de ficção científica mais recente, de abismos negros, portais, wormholes e fendas no tecido espaço-tempo – soluções ou atalhos que aproximam-se, em espírito e em execução, do arrebatamento dos santos e da transição ao céu prometidos pela tradição cristã. Exemplos: a saga Stargate e as séries Primeval, Torchwood e Terra Nova. []

domingo, 2 de outubro de 2011

Comentários de pastor evangélico sobre Alzheimer causam agitação nos EUA


Erik Eckholm

A sugestão do pastor evangélico Pat Robertson de que um homem cuja esposa “se foi” devido ao mal de Alzheimer deve se divorciar dela, caso sinta a necessidade de uma nova companheira, provocou uma tempestade de condenação por parte de outros líderes cristãos, mas uma resposta mais mista, até mesmo compreensiva, por parte de médicos e defensores de pacientes.

Em seu programa de televisão, “The 700 Club”, na terça-feira, Robertson, um evangélico proeminente que já concorreu à presidência, recebeu um telefonema de um homem que perguntou como ele deveria aconselhar um amigo, cuja esposa estava com demência avançada e não mais o reconhecia.

“A esposa dele, como ele a conhece, se foi”, disse o autor da pergunta, e o amigo “está amargo com Deus por permitir que sua esposa esteja nessa condição, e agora ele começou a sair com outra mulher”.

“Isso é uma coisa terrivelmente difícil”, disse Robertson, claramente tendo dificuldade para encontrar um caminho naquela situação. “Eu odeio o Alzheimer. É uma das coisas mais terríveis, porque ali está o ente querido –a mulher ou homem que alguém amou por 20, 30, 40 anos, e de repente aquela pessoa se foi.”

“Eu sei que soa cruel”, ele prosseguiu, “mas se ele pretende fazer algo, ele deve se divorciar dela e começar tudo de novo, mas assegurar que ela receba os cuidados, que alguém cuide dela”.
Quando a co-apresentadora de Robertson no programa perguntou se aquilo era consistente com os votos matrimoniais, Robertson notou a promessa do “até que a morte nos separe”, mas acrescentou, “isso é um tipo de morte”.

Ele disse que a pergunta lhe apresentou um dilema ético além de sua capacidade de responder.
“Eu certamente não faria você se sentir culpada se decidisse que precisa ter uma companhia, que se sente só e precisa de companhia”, disse Robertson.

A reação de muitos líderes evangélicos, que veem o casamento tradicional, para toda a vida, como a pedra fundamental da moralidade e da sociedade, foi dura e de descrença.

“Isso é mais do que um embaraço”, escreveu Russell D. Moore, reitor da Escola de Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky, em um blog na quinta-feira. “Isso é mais do que cruel. Isso é um repúdio ao evangelho de Jesus Cristo.”

Mas Beth Kallmyer, diretora sênior de serviços da Associação do Alzheimer, em Chicago, se recusou a questionar os comentários de Robertson.

“Esta é uma doença desafiadora, devastadora e no final terminal, que afeta todo mundo de modo diferente”, ela disse. “O mais importante é que as famílias recebam ajuda.”

Na experiência da associação, ela disse, é raro as pessoas se divorciarem devido ao Alzheimer. Mas o Alzheimer pode durar anos ou décadas, piorando progressivamente.

“As decisões que as pessoas tomam são pessoais”, disse Kallmyer.

A médica Amanda Smith, diretora do Instituto do Alzheimer da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, disse sobre os comentários de Robertson: “Eu acho que ele tentou dar para alguém a liberdade de seguir em frente, mas ele levou em consideração apenas quem cuida, sem levar em consideração a paciente”.

“Mesmo quando alguém não reconhece um cônjuge como sendo especificamente seu cônjuge, frequentemente há uma familiaridade com a pessoa e uma sensação de conforto, especialmente se estiverem casados há décadas”, disse Smith.

Ao mesmo tempo, disse Smith, quando a doença está avançada, ela não vê nada errado com os prestadores de cuidados desenvolverem outros relacionamentos “que tragam alegria e preencham o vazio”. Da mesma forma, ela disse, “não há problema se um paciente em uma clínica encontra uma namorada com a qual se sentar ao jantar toda noite”.

James E. Galvin, neurologista que dirige uma clínica de demência no Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, disse que é errado afirmar que as pessoas com Alzheimer “se foram”, ou chamar seus últimos estágios de “um tipo de morte”.

“Apesar de ser verdade que nos estágios terminais os pacientes podem não estar plenamente cientes do que está acontecendo, eles tendem a reconhecer as pessoas que estão mais próximas deles”, disse Galvin.

“Com bons cuidados, as pessoas podem viver 15 a 20 anos com a doença, grande parte desse tempo em casa”, disse Galvin. Se eventualmente se mudarem para uma clínica e parecerem não saber o que está acontecendo ao seu redor, ele disse, então os cônjuges enfrentam uma “decisão individual” sobre quando e como desenvolver novos relacionamentos, baseada em religião e ética, não em ciência.

Robertson ajudou a transformar a Coalizão Cristã em uma força política formidável nos anos 90 e é um televangelista popular. Mas ao longo dos anos, ele também provocou fúria entre alguns cristãos conservadores, com declarações consideradas não ortodoxas para um grupo ou outro, incluindo a defesa da política de um só filho da China e as afirmações de que eventos terríveis como os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011 e o terremoto do Haiti foram punições de Deus.

“Poucos cristãos ainda levam Robertson a sério”, escreveu Moore, do seminário batista do Sul. “A maioria vira os olhos para cima e balança suas cabeças quando ele faz outro comentário bizarro.”

Por meio de um porta-voz, Robertson se recusou a falar sobre seus comentários na televisão.

Tradução: George El Khouri Andolfato

O que Copa e Olimpíadas fazem pelas cidades?

Por RENATA NEDER, da ONG Action Aid

“Bilhões de dólares foram gastos em estádios e outras obras, mas nós permanecemos em barracos sem energia. Eles pediram para a gente “sentir a Copa” [expressão usada no slogan oficial do evento], mas nós não sentimos nada além da dor da pobreza piorada pela dor da repressão. O dinheiro que deveria ser gasto urbanizando as comunidades mais pobres foi desperdiçado. A Copa do Mundo vai terminar no domingo e nós ainda seremos pobres.”

Essa foi a fala de um jovem de Johannesburgo durante a Copa do Mundo de 2010. Reflete o sentimento de muitos sul-africanos em relação ao evento.

Eu estive na África do Sul alguns meses antes do início da Copa. Encontrei um país em obras e muita gente reclamando. Mas, quando os jogos começam, os problemas costumam ser esquecidos. Passada a euforia do momento, começam as discussões sobre os impactos do evento, o uso dos recursos, quem se beneficiou realmente… e por aí vai.

Essa discussão não termina, porque acaba emendando nas discussões daqueles que já estão preocupados com o futuro das suas cidades que serão sede das próximas Copas e Olimpíadas. Já existem muitas informações disponíveis e que merecem atenção.

Em 2010, as Nações Unidas lançaram um relatório sobre o impacto das Olimpíadas nas cidades-sede. Os números são chocantes. Seul (1988): 15% da população foi desalojada, 48 mil edifícios foram destruídos. Pequim (2008): Um milhão e meio de pessoas foram removidas. Atlanta (1996): 15 mil pessoas removidas. E essas remoções e despejos, na maior parte das vezes, foram feitos de forma violenta e desrespeitando direitos básicos da população.

Além do impacto direto das obras e de como elas são feitas, também há o ponto importante de quem realmente se beneficia com a realização destes eventos. Na África do Sul, por exemplo, muitos homens e mulheres artesãos, comerciantes, vendedores, trabalhadores, etc, acreditaram que poderiam se beneficiar e aumentar um pouco sua renda durante os jogos. Mas não foi assim. Os pequenos comerciantes e artesãos não tiveram acesso aos estádios e arredores. Um perímetro de exclusividade foi criado ao redor dos estádios. Ali, apenas as grandes redes e marcas poderiam comercializar seus produtos. Resultado: quem lucrou foram as grandes empresas, não os sul africanos.

E falando em estádio… hoje, apenas um ano depois da Copa, já se discute na África do Sul a demolição de alguns dos estádios construídos. O custo da manutenção é alto demais, não justifica manter o “elefante branco” em pé.

E o que falar dos gastos? A Copa da África do Sul acabou custando 17 vezes mais do que o previsto inicialmente. Cidades que foram sede de mega eventos se endividaram além de suas capacidades e passaram muitos anos pagando a conta. È o caso de Atenas (2004) e Montreal (1976) que sediaram os Jogos Olímpicos.

Quanto mais investigamos, mais vemos cenários desanimadores. Mas, como disse o cientista político Antonio Gramsci, não devemos ficar apenas no pessimismo da razão. Devemos ter o otimismo da vontade.

O otimismo da minha vontade diz que é possível trilhar outros caminhos em que a realização de megaeventos esportivos promova inclusão social, gere renda e diminua desigualdades. Mas o caminho que leva a esse legado é o caminho da participação popular, da transparência, do controle social sobre as políticas e uso de recursos públicos.

O Brasil e o Rio de Janeiro podem aprender muito com outras experiências e escolher um caminho melhor para a realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016.

Extraído do sítio da revista “Época”. Leia aqui.
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