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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Angústia é ganho


Ricardo Gondim
Nascemos entre a bigorna e o martelo. A noção de perigo nos acompanha pela vida e não demoramos perceber: somos mortais. De repente, damos conta: o oceano onde nadamos não tem porto. Sabedores do fim, cansados de nadar contra a maré, provamos um fel chamado angústia.
Não há como fugir, é o medo existencial que faz nascer a angústia. Dela vem o choro que nunca desengasga. A angústia é mãe de pequenos surtos depressivos – que jamais entristecem totalmente. Angústia dói em todas as línguas. E lateja feito dor de dente.
A vida não se deixa domesticar. Não há unguento que cure o sofrimento de existir. E depois de toda obra e toda aventura, sobra a única certeza: a guilhotina descerá no pescoço de todos.
Não se extirpa a angústia dos ossos, da pele, do coração. Não existe antídoto para sua peçonha. André Comte-Sponville afirmou que “somos fracos no mundo, e mortais na vida. Expostos a todos os medos. Um corpo para as feridas, ou para as doenças, uma alma para as mágoas, e ambos prometidos à morte somente… Ficaríamos angustiados por menos”.
A angústia nunca se deixa descobrir. É assintomática. Oxigênio algum resolve quando falta fôlego na alma. Inexistem saídas. Tudo termina em tragédia. Fernando Pessoa constatou sobrarem pratos na mesa. Era dia do seu aniversário e, triste, disse ser “sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio….”.
Todos vestirão luto um dia.
Pascal comparou o sentimento de angústia a homens acorrentados: “Todos condenados à morte, sendo todos os dias uns deles degolados à vista dos outros. Aqueles que restam veem sua própria condição naquela de seus semelhantes, e, olhando-se uns aos outros com dor e sem esperança, esperam sua vez”. No seu pessimismo, resta enlouquecer ou “ se divertir”. Numa equação shakespeariana: fuga ou loucura, eis a questão.
A modernidade tecnológica também se apropriou do jargão antigo:“Consumamos, consumamos, porque amanhã morreremos”. Nenhum país incorporou tanto essa ideia quanto os Estados Unidos. Lá virou o paraíso do consumo, a nova Roma para onde bárbaros desejam emigrar. Na América, rodam duas vezes mais automóveis per capita que o restante da humanidade. Gasta-se mais energia com ar condicionado que toda a produção energética da China. O desembolso com sapatos tênis fica em torno de doze bilhões de dólares. Mas, o consumismo desenfreado atual deixa as pessoas mais contentes ou felizes do que em 1954? Brinquedos caros ou baratos são impotentes para tirar a vontade de chorar.
Onde está a fonte da juventude eterna? A humanidade conseguiu adiar o dia fatídico. Os avanços da medicina se tornaram espantosos. Com o culto ao corpo, países ricos refizeram padrões estéticos. A beleza atual é bem diferente da medieval. A expectativa de vida aumentou mais nos últimos quarenta anos do que nos 4.000 anos precedentes. Cresceu de 53 anos – incluindo os países mais miseráveis – em 1960 para 67 anos em 2005. Uma criança nascida hoje viverá em média 122 mil horas ou 5,83 mil dias a mais do que uma, nascida há quatro décadas.
Um desdobramento negativo desses avanços é que as pessoas foram condenadas a passar mais tempo convivendo com a realidade.  A longevidade também faz crescer a angústia.
O mesmo soluço que afligiu filósofos gregos e salmistas judaicos soluça hoje. Mudaram os rótulos. Continuam as fobias do passado. O avanço da psicologia e o progresso da espiritualidade não desmentem que viver é um perigo. A força da angústia resiste a comprimidos e todas as alquimias.
Não sobram muitas escolhas. Jogados ao mundo, resta-nos aprender a viver.
O judeu itinerante, Jesus de Nazaré, falou coisas agradáveis, sem, contudo, evitar as antipáticas.  Sua mensagem convidou homens e mulheres a considerarem a vida como rara e imprescindível. Ao referir-se à verdade, ensinou a necessidade de enfrentar a realidade. Ele deixou as pessoas decidirem se queriam ou não lidar com a angústia. Não receitou fórmulas fáceis de como desatar os nós da alma. Seguidores e ouvintes deviam aprender a usar a força negativa da angústia em favor da felicidade. E não basta um estado transitório – estar alegre, feliz. A vida é um convite a ser.
Jesus acreditou que viver é somar pequenas decisões; é juntar experiências boas e más na construção do ser. Fiel à tradição do Eclesiastes, ele viu que só encontramos algum sentido mínimo de existir ao somarmos choros e risos, desejos e realizações, frustrações e sonhos.
Ninguém precisa exorcizar a angústia, que, assumida, gera sede de transcendência. A vida carece também de um lado sombrio para ser eterna. Além do mais, a angústia garantiu a sobrevivência da espécie. Só os angustiados buscam companhia. A angústia fez com que os primeiros seres humanos desejassem viver em sociedade. Ao notarem que eram frágeis e iguais no sofrimento, deram as mãos.
O grito que se ouviu no Calvário – Eli, Eli, lamá sabactini?, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” – tornou-se o grito de toda a humanidade. Os lábios de Cristo passaram a representar os negros que morreram em navios fétidos, as mulheres perseguidas na Inquisição, as crianças que se exauriram em trabalho escravo, os curdos que nunca tiveram pátria. O filho de Deus desentranhou a sua angústia, que ressoou pelos quatro cantos da terra, e passou a ser o grito de todos. Cravados com ele no madeiro da solidão, seguimos o seu exemplo e encaramos qualquer sina – Ele é autor e consumador da fé.
 Soli Deo Gloria

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Os mesmos discernimentos

As narrativas da criação em Gênesis, na verdade todos os onze primeiros capítulos do livro, nada mais são do que mitos contados como se fossem história. Ironicamente, no entanto, o efeito do mito tem sido muito mais forte na nossa sociedade do que na dos israelitas. Não é com frequência que os israelitas mencionam o jardim do Éden na literatura subsequente; nós, porém, sobrepomos de tal modo a história do jardim do Éden com comentários, remitologizamos de tal modo a narrativa, que os próprios hebreus provavelmente acabariam por considerá-la irreconhecível, para não dizer embaraçosa. 

Nenhuma outra história teve efeito mais importante sobre o pensamento ocidental do que a narrativa do jardim do Éden. Em sua versão cristã, em especial, ela tem sido fonte das concepções ocidentais a respeito de vida, morte, imortalidade e sexualidade. Porém muito daquilo que associamos à história está ausente do texto em si; essas associações foram supridas por diversos contextos interpretativos ao longo dos séculos [...], por crentes piedosos que tentavam decifrar essa narrativa simples e até mesmo ingênua. Enquanto isso, os sutis sentidos originais foram removidos por nossas conceitualizações mais amplas.

A história explica acima de tudo que o discernimento moral nos confere uma natureza divina.
O próprio tema da aliança na Bíblia hebraica exige que os homens tenham discernimento moral. A aliança é um acordo formal entre Deus e a humanidade, e requer que os seres humanos o abracem por sua livre vontade. Para adentrar-se a aliança requer-se discernimento moral; ele é absolutamente necessário para a tarefa. Nesse sentido, a história de Adão e Eva, longe de ser apenas a história de como perdemos a imortalidade, pode ser melhor descrita como sendo “a história de como somos capazes de viver corretamente”, tendo recebido a faculdade crítica do discernimento moral e desenvolvido desse modo a habilidade de obedecer à aliança.

E não é só isso. Não apenas a capacidade de discernir certo e errado é a marca do ser humano maduro, mas há outro modo engraçado em que a história do jardim diz respeito à psicologia do desenvolvimento. Precisamente como crianças, o primeiro casal aprende o que é certo e o que é errado recebendo uma regra para obedecer, transgredindo essa regra e sendo punidos por essa razão. A narrativa está fundamentada na simples observação do modo como ensinamos nossos filhos a fazer os mesmos discernimentos. 

Alan F. Segal, Life After Death

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