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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os evangélicos e a impunidade

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Nos Estados Unidos os cristãos evangélicos são freqüentemente associados a uma reputação de obtusidade. Não são conhecidos, digamos assim, pelo seu brilhantismo ou independência intelectual. Trata-se em geral de gente simplória e pouco sofisticada, direitona e tradicional, que vota no George W. Bush, que quer ver o criacionismo sendo ensinado como ciência nas escolas e lamenta balançando a cabeça a vida desregrada e as idéias de liberais yankees como Clinton (ele e ela). São republicanos, freqüentam alguma igrejinha branca todos os domingos, vivem no Cinturão da Bíblia no interior do país a fim de manter-se a salvo dos pecados do mar.

Mas não se engane: são gente bem-intencionada e correta, que defende a validade permanente dos mandamentos, todos os dez, inclusive as partes que falam em não roubar, não adulterar e não dar falso testemunho.

* * *

Ignoro se no Brasil os evangélicos já adquiriram, tendo em vista a sua recém-adquirida visibilidade, alguma reputação tão unânime. Penso que para a vasta maioria dos brasileiros os crentes são aqueles malas-sem-alça, hare-krishnas de terno e gravata, que poluem as ondas do rádio com músicas que pedem que o rio flua e sermões que pedem que o fogo caia.

Politicamente falando, apesar do apadrinhamento dos missionários norte-americanos, muitos dos mais sonoros porta-vozes evangélicos brasileiros pendem sensivelmente (por motivos que espero poder analisar em outra ocasião) para a esquerda – porém a tendência não chega a ser unânime, como atestam os evangélicos direitões que profetizam o apocalipse comunista que desencadeará inexoravelmente o governo Lula (catástrofe que pensam poder evitar enchendo a caixa de entrada do meu email).

Permita-me associar os evangélicos brasileiros à impunidade.

Que há mais evangélicos entre as camadas mais pobres da sociedade é também fato conhecido, embora não seja dado especialmente notável, já que no Brasil a distribuição de renda é tão surrealmente desigual que qualquer fatia fortuita da sociedade, de ornitólogos a corintianos, estará fadada a conter mais pobres do que ricos.

No fim das contas, nem especialmente obtusos nem especialmente brilhantes; nem especialmente esquerdistas nem especialmente direitistas; nem especialmente pobres, nem especialmente ricos. Os evangélicos brasileiros são uma amostra aguardando classificação.

* * *

Até agora.

Requeiro o privilégio de ser o primeiro a associar os evangélicos brasileiros àquilo que lhes é, histórica e ideologicamente, de direito: a impunidade.

Se os evangélicos norte-americanos cultivam uma relação compulsiva e para nós incompreensível com a correção e a integridade, nossa ambição ética é oposta: queremos ser incessantemente perdoados pelo que a ninguém se perdoa. Exigimos imunidade completa, anistia total e irrestrita pelas nossas patifarias, que são muitas. Queremos errar com gosto, e exigimos impunidade.

Deveria ser para nós ironia descomunal que a Reforma Protestante tenha se originado da luta de Lutero contra abusos como as indulgências católicas, conveniente sistema de créditos que permitia que o cidadão adquirisse – com dinheiro, naturalmente – perdão para as faltas que estava ainda para cometer. É irônico porque no Brasil o sistema evangélico de créditos é mais avançado: o perdão é liberado e distribuído em regime just-in-time, à medida que vamos pisando deliberadamente na bola.

Não temos como errar.

Graças a essa sofisticação teológica, refinada em solo tupiniquim, nossos evangélicos sentem-se inteiramente à vontade para defraudar, roubar, espoliar, extorquir e gatunar. Sabemo-nos livres para violar todos os dez mandamentos e aquele novo também; como o perdão flui incessantemente, não temos – mesmo que queiramos – como errar.

Meu amado Shayllon Marinho, quando era ainda atraente e agnóstico – ou seja, antes de abraçar Jesus e engordar como punição – encontrou nessa monumental patifaria evangélica um tremendo obstáculo à sua conversão. Mandou-me uma vez essas linhas indignadas:

Os evangélicos estão tão atolados no pecado e na permissividade quanto eu. Mas se justificam pela salvação. Tipo: eu posso pecar, mas minha barra é limpa. Posso [fazer tal coisa], porque eu estou salvo, e você não…

Como agente de dentro, reconheci imediatamente a eficácia e a difusão interna desse raciocínio. A teologia neo-evangélica da impunidade cobre com sua credencial todas as esferas da atividade e permeia todo o espectro de requerimentos éticos. Onde há um de nós, ninguém está seguro.

Dito de outra maneira, minha gente, a verdade é que muitos evangélicos – um número colossal deles – em todos os níveis e posições, em todas as possíveis nuanças entre a sutileza e o descaramento, são trapaceiros e ladrões – e talvez não por outro motivo além de serem evangélicos, e sentirem-se assim perdoados de antemão em suas falcatruas.

Prefiro não inquirir nomes, escândalos ou litígios específicos, mas creia-me quando digo que os há. Falo de gente muito respeitável que estabelece uma reputação como representante credenciado de Deus e pilar da comunidade e desaparece anos depois com o dinheiro que arrecadou de inúmeros outros para fins outros, deixando atrás de si incontáveis prejuízos, rancores e contas para pagar. Falo de recursos desviados, de falsidade ideológica, de empréstimos esquecidos, de transgressores transferidos para localidades distantes a fim de abafar escândalos sempre mais financeiros (e portanto aparentemente mais atraentes) do que sexuais. Falo de casos abundantes, de impensáveis reincidências, de somas assombrosas. Falo de gente que tem certeza da salvação. Falo de impunidade.

Onde há um de nós, ninguém está seguro.

Num país em que a ladroagem ameaça dos dois lados de todas as portas não deveria ser surpresa encontrá-la entre essa raça tão singular de pecadores que é a dos cristãos evangélicos. A diferença não está em se tratar de gente que faz uso de uma imagem de pureza para aproveitar-se da boa fé alheia (conduta esperada em se tratando de ladrões), mas em ser gente que se julga inocente e baterá o pé pela impunidade neste tribunal e no próximo, e evitará se puder os dois. Falo de lobos que se acreditam ovelhas e por isso abrem mão até mesmo do disfarce.

E, pense comigo, quem se protege na religião para deitar e rolar em causa própria não tem como ser melhor do que quem se abraça a uma carga explosiva e morre pelo que crê ser o avanço da sua. Ambos matam, mas haverá naquele dia mais paciência para este do que para aquele.

Nesse Brasil nosso em que a impunidade é catalisador infalível nas veias de todas as instituições (mesmo entre gente de somenos como os católicos e pagãos), cabe aos evangélicos o duvidoso mérito de termos criado uma justificação teológica e totalmente eficaz para a patifaria: a conivência de Deus.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fé e Crença

Jacques Ellul

De um único verbo, crer, originam-se dois substantivos que representam ações radicalmente opostas: crença e fé. Porém quando quero usar uma forma verbal para expressar a minha fé tenho ainda de usar crer, a não ser que escolha uma fórmula ainda pior, ter fé.

A crença provê respostas a nossas perguntas, a fé nunca o faz. Cremos para encontrar segurança, solução, uma resposta para os nossos questionamentos. As pessoas creem para desenvolverem para si um sistema de crenças. A fé (a fé bíblica) é completamente diferente. O propósito da revelação é fazer com que ouçamos as perguntas, e não suprir-nos com explicações.

A fé, em primeira instância, é ouvir, como Barth tão frequentemente nos faz lembrar. A crença fala e fala, atola-se em palavras, interpola os deuses, toma a iniciativa. A fé requer um posicionamento inteiramente oposto: a fé espera, permanece atenta, colhe sinais, sabe o que fazer das parábolas mais delicadas; ela ouve pacientemente Toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião.o silêncio até que o silêncio seja preenchido pelo que ela toma sendo a inquestionável palavra de Deus, palavra da qual se apropria.

A fé isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas ideias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, quer seja religiosa ou social, falando o mesmo dialeto. A crença age como apaziguadora na sociedade, ela é a chave para o consenso que buscamos, o definitivo e há muito proclamado como necessário elemento essencial da vida comunal. A fé sempre trabalha de maneira exatamente oposta. A fé individualiza; ela é sempre e exclusivamente uma questão pessoal. Fé é o relacionamento pessoal com um Deus que se revela como uma pessoa. Esse Deus singulariza a pessoa, coloca-a à parte, e confere a cada pessoa uma identidade que não é comparável à de nenhuma outra. A pessoa que ouve a palavra de Deus é a única a ouvi-la; neste ato ela está separada das outras pessoas, e nele ela torna-se única – A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida.simplesmente porque o elo que liga esse indivíduo a Deus é único, exclusivo e inviolável. Trata-se de um relacionamento singular com um Deus único e absolutamente incomparável.

Deus particulariza, singulariza a pessoa a quem ele diz “eu te chamo pelo teu nome” (Isaías 45.4). A fé separa cada pessoa das demais e faz única cada uma delas. Na Bíblia a palavra santo significa separado, à parte. Ser santo é ser separado de todos os outros, é ser único em razão da tarefa que não pode ser desempenhada por nenhuma outra pessoa, tarefa que se recebe pela fé.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A fé não é o oposto da dúvida, a crença é. Os soldados da crença agem sem questionamento de acordo com a lei e os mandamentos. São inflexíveis nas suas convicções, não toleram a qualquer desvio. Na articulação de sua crença eles imprimem rigor e absolutismo ao extremo. Refinam incessantemente a expressão da sua crença e buscam dar a ela uma formulação intelectual específica num sistema tão coerente e completo quanto possível. Insistem na completa ortodoxia. Codificam rigidamente modos de pensar e de agir.
Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, e têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária. 
Isso leva a um elevado grau de eficiência; o crente é uma pessoa que faz o que precisa ser feito, mas toda a sua atividade é, no fundo, vazia. Os crentes tem uma realidade própria tão pequena que só são capazes de viver e expressar essa realidade dentro de uma unidade convencionalmente estabelecida. São gente de ajuntamentos. Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, dependem da certeza de que esses outros realmente acreditam, e assim têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária. Multiplicar o número de liturgias, compromissos e atividades dá aos crentes a completa satisfação; rodeados por isso tudo eles não tem necessidade de questionar a verdade ou realidade da sua própria crença: a atividade os mantém ocupados.

Nesse cenário a diversidade de crenças torna-se intolerável. A dúvida e as incertezas são radicalmente destrutivas para a crença, e em razão disso a crença não pode tolerá-las. A crença é inimiga da diversidade. A diversidade é sempre uma fonte de novos questionamentos e propicia um ambiente para a autocrítica. Diante da diversidade corremos o risco de nos depararmos outra vez com a dúvida. Para evitar esse inimigo a crença precisa ser e é de fato rapidamente transformada em senhas, ritos e ortodoxia.

“Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9.24) são as palavras que resumem o que é a fé. A fé me constrange acima de tudo a avaliar o quanto não vivo pela fé – o quão raramente a fé enche a minha vida. A fé coloca à prova cada elemento da minha vida e do meu contexto social; não poupa nada nem ninguém. Ela é implacável em me levar a questionar todas as minhas convicções: cada uma das minhas moralidades, crenças e posições políticas. A fé me impede de atribuir significado definitivo a qualquer área da atividade humana. Ela me desprende e me livra do dinheiro, da família, do meu emprego e da minha capacidade intelectual.
A crença é confortadora. 
Ela é o caminho mais certo para me levar a admitir que a única coisa que sei é que nada sei. A fé não deixa nada intacto. A única coisa que a fé me traz é o reconhecimento da minha impotência, incapacidade e inadequação. Ela faz com que eu me depare com minha condição de incompleto, e desmascara minha incredulidade (naturalmente a fé é a arma mais certeira e letal contra as crenças em geral).

A crença é confortadora. A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura. Ao contrário, a fé continuamente nos coloca no fio da navalha. Embora saiba que Deus é Pai, ela nunca minimiza o seu poder. “Quem é este, que até mesmo o vento e o mar obedecem?” (Marcos 4.41). Essa é uma pergunta da fé. Para a crença as coisas são simples: Deus é Todo-Poderoso. Com a crença nós normalizamos Deus, para que possamos nos sentir confortáveis diante do seu poder. Apenas a fé é capaz de apreciar a imensidão de Deus e a sua verdadeira natureza.

A dúvida, que constitui parte integral da fé, diz respeito a mim mesmo; não diz respeito à revelação de Deus ou ao seu amor nem à presença de Jesus Cristo. Trata-se da dúvida a respeito da efetividade, até mesmo da legitimidade, daquilo que faço e a respeito das forças a que me submeto na minha igreja e na sociedade. Além disso, a fé coloca a si mesma à prova. Se discirno o tumulto da fé dentro de mim, tenho de adotar como primeira regra não enganar a mim mesmo, não me deixando abandonar à crença indiscriminadamente. Passarei a ter de sujeitar minhas crenças a uma crítica rigorosa. Terei de dar ouvidos a todas as negações e ataques dirigidos a elas, de modo que possa compreender o quão é sólido o objeto da minha fé. A fé não apoia meias-verdades e meias-certezas. Ela me obriga a enfrentar o fato de que não sou nada, e ao fazer isso recebo todas as coisas de presente.

A crença está associada a coisas, a realidades e a comportamentos que são elevados ao status de valor definitivo, a ponto de serem merecedores de que se morra por eles. A crença veste realidades humanas finitas para que se apresentem como sendo realidades definitivas, absolutas e fundamentais. Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro.Através da crença tudo que pertence ao âmbito da Promessa, da Palavra de Deus e do Reino é transformado em efeito colateral, em palavras doces e piedosas, em meios de tornar a vida mais fácil e num processo de auto-justificação.

A fé trabalha de forma oposta. Ela reconhece o Definitivo em sua verdade incontestável, e assim atribui pouca importância a qualquer coisa que se apresente como substituto desse Definitivo. Não se trata de olhar para uma fonte externa de uma realidade definitiva; o Reino dos céus está agora entre e ou dentro de vocês. A partir de agora você é que constitui o reino. A fé é a exigência de que encarnemos o Reino de Deus agora, neste mundo e nesta época.

Ninguém jamais progride da crença para a fé, muito embora a fé em muitos, com muita frequência, degenere em crença. Você não pode chegar à fé por meio de qualquer religião ou crença antiga, através de alguma vaga exaltação espiritual ou de emoções estéticas. De um ponto de vista cristão, crer não é melhor do que não crer; ter uma religião não é melhor do que não ter. A crença é uma estrada que não leva à fé. Não é possível transformar uma convicção pessoal a respeito do valor de rituais num ato de postura solitária diante de Deus. A implicação disso é verdadeira: toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião. Elas induzem a escolhas espirituais que não substituem a fé, impedindo-nos de descobrir, de ouvir e aceitar a fé revelada em Jesus Cristo.

Kierkegaard defende a ideia de que, para uma pessoa criada com toda a cultura do Natal, que teve todas as suas pequenas necessidades espirituais satisfeitas pela igreja, é mais difícil receber o choque da revelação, descobrir o Único, e entrar na noite escura da alma, do que para aquele que não fez outra coisa na vida a não ser buscar continuamente sem nunca chegar a uma resposta satisfatória. Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro. Não existe caminho que leve de um pouquinho de religião (de qualquer tipo) a um pouquinho mais e finalmente à fé. A fé destrói toda a religião e tudo que entendemos como espiritual. Por outro lado, a passagem da fé para a crença é possível e uma ameaça constante. É o caminho do retrocesso ao qual a igreja e vida cristã estão sempre sujeitos. A fé está constantemente degenerando em múltiplas crenças. Nenhum termo expressa melhor essa mudança imperceptível do que “ter fé”. Quando nós tomamos posse da fé, quando alegamos sermos proprietários dela, naturalmente estamos pensando que podemos dispor dela do modo que desejarmos. A única coisa que temos o direito de dizer é “a fé me tem”. Todo o resto é mera crença.

Fé não é nem crença nem credulidade. Não é uma aquisição razoável nem um feito intelectual; é mais a conjunção de uma decisão definitiva com uma revelação, e convida-me a efetuar hoje a encarnação da realidade última, o Reino de Deus presente entre nós. Sou intimado por uma Palavra que é eterna, universal e pessoal aqui e agora. Aceitar a intimação. Dispor-se a agir de forma responsável, entrando numa aventura ilógica, sem saber sua origem nem o seu fim. Assim é a fé.

A apologética tenta provar que o cristianismo responde às perguntas da humanidade, que ele é verdadeiro e superior às outras religiões. Fica evidente que isso limita nossa discussão ao nível religioso. Somos capazes de demonstrar que o cristianismo pode conduzir um debate razoável. Ocorre porém que esses debates entre intelectuais são totalmente estéreis; um jamais chega a convencer o outro. Nenhum apologeta chegou a trazer um incrédulo para a fé, Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita.mesmo os que sabiam que haviam vencido a retórica do adversário. A abordagem meramente lógica e intelectualista leva a um beco sem saída. O intelecto não é capaz de invocar ou demonstrar o caminho da fé.
A crença é um refúgio e um escape da realidade. Em nossa busca natural por proteção nos agarramos a ela como uma garantia ou uma apólice de seguros. Radicalmente oposta à crença é a fé. Fé é assumir riscos, deixar para trás segurança e tranquilidade, desprezar garantias: é pisar, como o discípulo, para fora do barco no mar da Galileia. Se vivemos pela fé, não há necessidade de implorar que ele nos salve do perigo. Torna-se suficiente saber que ele está ali, mesmo que o perigo se mostre mortal; o que quer que o amor de Deus queira fazer ou esteja fazendo em nós será feito, não importa o quê.

Por que crer? Usando “crer” no sentido de “participar da fé”, não temos nenhum resposta. Acreditar porquê? Com vistas a quê? Para realizar o quê? Para conseguir o quê? São questões sem sentido. Cremos por razão nenhuma. Não existe razão objetiva para a fé; a fé tem de ser vivida. A fé não tem origem ou objetivo. No momento que admite qualquer objetivo ela deixa de ser fé. Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita. Isso vai parecer chocante, especialmente para os protestantes, que falaram tanto de salvação pela fé, da fé como condição da salvação, que chegaram a dizer “você crê, por isso será salvo”. Mas temos de ficar voltando à fé e a sua gratuidade. Se Deus ama e salva a humanidade sem pedir preço algum, ele quer a contrapartida de ser crido e amado sem propósito algum; Deus quer ser crido e amado sem que seja por mero interesse pessoal, simplesmente por nada.
A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões. 
Isso é escandaloso, e ainda assim tão fácil de compreender se considerarmos o amor. No momento em que um homem e uma mulher se amam por alguma razão concreta, qualquer que seja, dinheiro, prestígio, beleza ou posição, o amor deixa de ser. O amor é sem causa e sem interesses pessoais ; o amor é sem razão.
A fé é uma constante ação recíproca; ela nunca fica estagnada ou se acomoda. Não se pode encarnar a fé de um modo estático e definitivo. A fé é um perene novo ponto crítico. A fé portanto é a contínua presença da tentação e uma visão cada vez mais clara da realidade. Ela implica na crítica à religião cristã, às missões civilizadoras, aos códigos morais cristãos impostos de fora; crítica a uma verdade cristã que exclua reivindicações sobre si de qualquer outra área da cultura humana. A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões. A fé é levada a prosseguir em criticar, julgar e radicalmente rejeitar todas as reivindicações religiosas humanas. Precisamos ser cautelosos nesse ponto. Não são pessoas que estão sendo julgadas ou criticadas aqui; a vontade de poder das pessoas e a expressão disso na forma de religião é que é criticada, julgada e rejeitada. Mas a crítica da religião feita pela fé pode estar enraizada apenas na sua crítica de si mesma.

A fé me leva a tomar parte de tudo, e ao mesmo tempo me mostra tudo sob uma luz que não é a razão, a experiência ou o senso comum. Não se trata de uma operação intelectual, é sim uma atitude existencial. A fé traz a luz a nova pessoa manifestada em amor e lucidez.

Hoje em dia a fé dos cristãos na igreja se desencaminhou. A sua obsessão com o conteúdo da sua fé (teólogos discutindo termos técnicos) ao invés da paixão pelo movimento e pela vida da fé, acabou desencadeando a nossa crise mundial. Mas o imutável permanece imutável. O Último, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro não mudou. A fé é nossa responsabilidade de fazer com que o Transcendente, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro Ser, torne-se uma realidade ativa dia após dia em nosso contexto, hoje onde quer que estivermos. A fé só move montanhas quando fala ao onipotente criador – quando me sujeito a ouvir a palavra da fé.

Postado originalmente em 26 de março de 2005

Extraído de Fé Viva: Crença e Dúvida num Mundo Perigoso. San Francisco: Harper and Row, Publishers, 1983.
Tradução: Paulo Brabo
Revisão: L. Ivan Volcov

domingo, 31 de julho de 2011

Uma Guerra Com Propósito

Paulo Roberto Purim


Rick Warren é atualmente o pastor que o maior número de pastores gostaria de ser. A igreja dele, a Saddleback Church em Lake Forest na Califórnia, é a comunidade evangélica mais fashion, mais badalada e, pelos padrões aceitos, mais bem-sucedida da atualidade. Todas as grandes igrejas evangélicas do Brasil sonham tornar-se uma Saddleback, e algumas estão conseguindo.

A unanimidade do sucesso de Rick Warren é, de fato, difícil de ignorar. O sáite pastors.com (fundado por Rick Warren) conta parte da história:

“Ele e sua esposa Kay deram início à igreja em sua própria casa, em janeiro de 1980, com apenas uma família. Hoje em dia, com um freqüência de 16.000 pessoas por final de semana e mais de 50.000 membros arrolados, Saddleback (...) já recebeu o título de igreja batista de crescimento mais rápido na história e de maior igreja da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos. Nos últimos anos 9.200 novos crentes foram batizados em Saddleback. A igreja deu também início a 34 igrejas-filhas, e enviou mais de 4.000 de seus membros em projetos missionários ao redor do mundo.”

Rick Warren é também o fundador da hoje onipresente franquia Igreja Com Propósito™, que tem tomado de assalto o mundo evangélico, levando Peter Drucker a premiá-lo com o título de “inventor do reavivamento perpétuo”. O livro Uma Igreja Com Propósito (publicado no Brasil pela Editora Vida) vendeu mais de um milhão de cópias em 2o idiomas, tornou-se livro de cabeceira de milhares de pastores, é adotado como livro texto em grande parte dos seminários e foi eleito um dos 100 livros cristãos que mudaram o século XX.

Um sucesso tão unânime, beirando a canonização, não deve fazer bem a ninguém. Não li Uma Igreja Com Propósito, mas devo confessar que antipatizo de cara com o conceito mercantilista de franquia, do pacote pronto indiscriminadamente aplicável, do elixir para todos os males – ainda mais quando propõe-se a atacar algo tão precioso e imponderável quanto os mecanismos que impulsionam a causa de Cristo.

No embalo da recente invasão do Iraque, Rick Warren escreveu um artigo chamado O Que a Bíblia diz Sobre a Guerra, publicado recentemente nO Jornal Batista. Este eu li, e o que li me leva a questionar tudo que sei sobre a bandeira Uma Igreja Com Propósito. Não me apresso a achar defeitos em ninguém, mas tudo que li no artigo de Warren deixou-me indignado ao ponto da fúria: a pretensão do título, a exegese rasa, a leviandade do tratamento dos temas, as absurdas conclusões, as impensáveis conseqüências.

Se não, peço do leitor paciência para percorrer o artigo comigo. A tradução e os comentários são meus. O copyright do texto original é, sem sombra de dúvida, de Rick Warren.

O que a Bíblia diz Sobre a Guerra? por Rick Warren

Romanos 12:18 diz “se possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos”. Creio que a Bíblia é muito prática nesse ponto. Ela diz “no que depende de vocês... enquanto for possível no que diz respeito a vocês, vivam em paz com todos”. Entretanto, acho que isso implica que às vezes é impossível viver em paz com todos. Você já conheceu alguém com quem – não importa o que você fizesse – você não conseguia se dar bem? Não importava o que você fizesse, essa pessoa não podia ser apaziguada. A Bíblia diz “se possível”. Se alguém abusasse dos meus filhos e abusasse da minha esposa, eu não teria paz com essa pessoa de forma alguma. Não creio que Deus esperasse que eu vivesse em paz com ela.


O texto de Romanos 12 é apenas o primeiro que Rick Warren usa surrealmente fora de contexto para justificar a guerra. Na passagem citada Paulo está falando de relacionamento entre pessoas, não entre nações. A “paz” que Paulo menciona aqui não é o oposto de guerra, mas apenas ausência de conflito interpessoal. A tonalidade geral da carta deixa claro Paulo não esperava que quando a “paz com todos” não fosse possível nós invadíssemos a casa de todos, abríssemos fogo contra todos, matássemos todos.

É evidente que não é possível viver em paz com todos. Jesus disse que deveríamos de fato lamentar quando temos a aprovação de todos, porque esse foi o tratamento que receberam os falsos profetas no passado. Eu mesmo, depois do que sei agora, não quero saber de viver em paz com o Rick Warren.

Importante é destacar que o texto de Romanos 12 (e o de Tiago, citado logo a seguir) estão falando do relacionamento entre pessoas. Não há como usar a terminologia e os argumentos deles para justificar uma guerra entre nações. O único modo de fazer isso é distorcendo a mensagem; usando o texto fora de contexto, como se ouve nos seminários.

A retórica de Warren, além de perigosa, é mesquinha. “Você já conheceu alguém com quem você não conseguia se dar bem?”, é a pergunta amigável que ele faz. É lógico que, para todo mundo, a resposta é sim. A conclusão lógica e necessária, pela ótica manipuladora de Warren, é que esse singelo motivo é suficiente para justificar a guerra. É quase compreensível o sofisma: se a moça do xerox se recusa a me dizer bom dia, que invadam o Iraque. Os pecadores acabam morrendo de qualquer jeito, não fará muito mal matá-los de uma vez.

O que dizer então da guerra?

Primeiro temos de analisar as verdadeiras causas da guerra.

A Bíblia diz que duas coisas causam a maior parte das guerras: egoísmo e orgulho. Tiago 4.1-2 (na versão da Bíblia de Jerusalém) diz, “De onde vêm as guerras e batalhas que há entre vocês? Não vêm precisamente dos desejos lutando dentro de vocês mesmos? Vocês querem uma coisa e não tem, por isso estão dispostos a matar. Vocês tem uma ambição que não conseguem satisfazer, então lutam para abrir caminho à força”.


Outro texto arrancado completamente do seu contexto. Agora é Tiago quem está falando de relações entre pessoas, e para reforçar a sua imagem compara conflitos de relacionamento com as “guerras” e “batalhas” que nações promovem entre si.

Warren está certo, naturalmente, em dizer que pessoas e nações lutam pelos mesmos motivos. É isso na verdade que dá força à comparação de Tiago. O problema é que na passagem citada a guerra é mencionada como efígie de um conflito lamentável, profundamente negativo, desencadeado pelos motivos mais sórdidos. Isso Warren escolhe ignorar.

“A guerra entre pessoas”, é como se Tiago estivesse dizendo, “é tão lamentável quanto a guerra entre nações, e desencadeada pelos mesmos motivos egoístas”. Warren conclui, não se sabe por onde, que Tiago está produzindo um argumento a favor da legitimidade da guerra.

Onde quer que haja uma batalha entre duas nações, uma batalha entre dois negócios, uma batalha entre empregador e empregado, sindicato e empregador, marido e mulher, pai e filho, onde quer que haja conflito, alguém (talvez ambas as partes) estão exibindo egoísmo ou orgulho. Eu quero do meu jeito. Você quer do seu. Nós entraremos em conflito.


Não me incomoda que Warren não ache desnecessário dizer o óbvio. Eu na verdade gostaria que ele tivesse expandido o seu raciocínio nesse ponto. Gostaria que ele tivesse ido mais fundo.

Ele poderia por exemplo ter escolhido esclarecer alguns pontos que me intrigam no seu raciocínio. Nesta guerra em particular, por exemplo, que papel tem o egoísmo de cada uma das partes? De que lado está o orgulho? Ele poderia ter tentado fornecer também uma resposta à velha pergunta, pode uma coisa boa ser justificada pelos motivos errados? Os fins justificam os meios? Porque os iraquianos são tão egoístas e orgulhosos? A qual das partes aplica-se a frase de Tiago “vocês querem uma coisa e não tem, por isso estão dispostos a matar?”

Lembro de ter lido uma história sobre Abraham Lincoln. Ele estava descendo uma rua com dois de seus filhos, que estavam ambos chorando e frustrados. Um homem que passava perguntou “o que há de errado com esses garotos?” Ele disse “Só o que está errado com o mundo. Tenho três nozes e cada um deles quer duas”.


Quando leio o que Rick Warren escreveu, usando a inevitável anedota de sermão em meio à discussão da mais séria das questões, eu é que me sinto tentado a perguntar: o que há de errado com esses garotos? Se a metáfora se aplica a duas civilizações, uma delas cristã, a quem caberia o papel de abrir mão das suas nozes? Quem deveria entregar a capa? Quem deveria andar com ele duas? De que Warren está falando? Com quem ele está falando?

É, em alguma circunstância, correto lutar?

Sim! Há circunstâncias em que esse é o menor de dois males. Há ocasiões em quem é apropriado e ocasiões em que não é apropriado. Eclesiastes 3.8 diz “há tempo de guerra e tempo de paz”. A Bíblia é muito realista. Algumas vezes a guerra é a coisa certa.


Eclesiastes 3 também diz que há tempo de matar e tempo de atirar pedras, e eu tive vontade de apedrejar o Rick Warren, com primeira pedra e tudo, quando li o que ele acaba de dizer. O que ele diz e sugere aqui é imperdoável vindo de qualquer um; vindo de um líder cristão com a estatura e a influência dele, é abominável.

Não, minha gente. Se resta em alguém ainda alguma dúvida, deixe-me deixar logo claro: em ocasião alguma a guerra é a coisa certa. Nunca a guerra é a coisa certa. Jamais. E a Bíblia em lugar algum diz o contrário.

A poesia existencialista de Eclesiastes não está justificando a guerra, muito menos o amor. O autor do livro de Eclesiastes (basta ler o capítulo todo) é um mero observador, distanciado e quase cético, da realidade. Ele não emite julgamento nenhum, apenas conclui pela observação que tudo se repete, que não há nada de novo debaixo do sol. A paz sucede a guerra, a guerra sucede a paz, o ódio sucede o amor, o amor sucede o ódio e assim sempre tem sido.

Nisso ele está muito certo. Não há nada de novo debaixo do sol. As nações continuam encontrando todo tipo de justificativa para a guerra. Continuam encontrando apoio nos lugares mais inesperados.

A Bíblia é, sim, muito realista. Ela deixa claro que as pessoas são julgadas pelos seus atos. Ela adverte que todo ato tem consequências. Ela não hesita em ensinar que só o tolo se apressa em responder “sim” à pergunta “é correto lutar?”

A Bíblia é muito realista a esse respeito. Há muitos, muitos exemplos na Bíblia em que Deus ordena uma guerra; onde Deus diz “vão à guerra!” Quando vocês olha para os grandes heróis da fé de Hebreus 11 – Josué, Davi, Gideão, Sansão – esses caras foram todos guerreiros.


Não preciso enfatizar a irresponsabilidade que é dispensar um assunto tão complexo nesse único e apressado parágrafo. Fato inegável: Deus de fato ordenou guerras. Fato inegável: apenas Deus (como Jó aprendeu arduamente) não precisa apresentar justificativas para o que faz. Deus ordenou que Abraão sacrificasse Isaque, e isso não justifica o assassinato do filho de ninguém. As leis do Pentateuco estabelecem leis que regem o relacionamento entre servos e senhores, e isso não justifica a escravidão.

Deus também estabeleceu que os profetas que falassem besteira em seu nome fossem apedrejados até a morte. Isso eu gostaria que ainda estivesse valendo.

Quando estuda o ministério de Jesus você vê que ele nunca disse a um soldado romano para abandonar o exército. Se Jesus tivesse sido um pacifista integral cada vez que visse um soldado ele teria dito “Deixe o exército! Venha me seguir”. Mas ele nunca disse que era moralmente errado que eles servissem o exército. Na verdade, em Mateus 24.6 ele disse que sempre haveria guerras até que o Príncipe da Paz voltasse.


Nada do que Rick Warren escreve nesse artigo deixou-me tão indignado quanto este parágrafo. Aqui, senhoras e senhoras, ele está falando de Jesus. Ninguém mexe com Jesus e fica impune. Jesus é o cara. Ele é o Senhor. Ele é perfeito. Ele é justo. Jesus, que quando insultado não abriu a sua boca. Jesus, por cujas pisaduras nós fomos sarados. Jesus, que disse a Pilatos “o meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo meus servos estariam lutando neste momento para que eu não fosse entregue aos da Judéia”. Envolvê-lo, usá-lo nessa discussão é para lá de sórdido. É para lá de pecaminoso. É satânico.

Não sei o que acho mais abominável no raciocínio que Warren desenvolve nessas linhas lamentáveis. É possível que seja a pachorra com que ele sugere que o Príncipe da Paz pode talvez não ser um pacifista. Talvez seja a insensata sugestão de que, como haverá guerras até que Jesus volte, as guerras são justificáveis. Não é difícil justificar o pecado usando o mesmo raciocínio capenga.

Jesus disse que sempre haverá pobres, por isso não preciso fazer nada a respeito. A Bíblia diz que todos pecaram, por isso não fique me olhando com essa cara. Jesus disse que o amor de muitos esfriará, talvez seja por isso que o amor de Rick Warren, e o meu, estão esfriando.

Admiro (no mau sentido) a coragem de Rick Warren em argumentar com esse “Jesus nunca disse que era moralmente errado que...” Isto é, literalmente, demais. O autor de Uma Igreja Com Propósito orienta que fundamentemos nossos julgamentos naquilo que Jesus não disse. Certamente é mais fácil do que viver pelo que ele disse.

Desnecessário lembrar que Jesus nunca disse que era moralmente errado um monte de coisas. Jesus nunca disse expressamente que é errado beber, fumar, usar drogas, devastar florestas, exterminar espécies, produzir clones, falsificar dinheiro, dançar, comer demais, subornar, masturbar-se, chantagear, fraudar eleições, cometer estelionato, aborto, estupro, pedofilia, lançar bombas nucleares, invadir países, homem usar brinco. Algumas dessas coisas, fica claro pelo que ele disse, são erradas. Moralmente erradas. Intrinsecamente erradas. Não justifica que ele nunca tenha se pronunciado oficialmente a respeito. Estou convicto de que a guerra é uma das coisas intrinsecamente erradas que a posição de Jesus condena.

Na verdade, não importa. O que Jesus disse expressamente é que é moralmente errado distorcer o sentido da Escritura para justificar uma agenda pessoal (ou, pior, institucional).

Para Jesus todas as escolhas são pessoais. Tecnicamente, para Jesus, um país não tem como entrar em guerra. Não haveria nem como discutir isso com ele. Entidades artificiais como “países”, “nações”, “reinos” não tinham existência real na ótica dele. Eram mera metáfora para o que ele se propunha fazer. “A que posso comparar o reino de Deus?” era uma pergunta que ele se fazia sempre, e era difícil achar uma comparação que as pessoas pudessem entender. Para Jesus só havia pessoas, pessoas fazendo escolhas, escolhas pelas quais eram responsáveis. Todo o resto, ilusão que ele não se demorava em ignorar.

É por isso que Jesus não condenava (pelo que sabemos) instituições como o exército romano, o império romano ou a adoração de ídolos. Ele tinha mais com o que se preocupar, e mais o que fazer. O seu foco era tremendamente outro. Dizer que Jesus aprovava o exército como instituição porque nunca mandou que um soldado romano abandonasse a farda é o mesmo que dizer que ele aprovava o paganismo porque nunca mandou um romano quebrar um ídolo.

É bobo. É mesquinho. É injusto para com todos, especialmente para com Jesus.

Desnecessário lembrar que no tempo de Jesus todos os judeus, por convicções religiosas, não serviam o exército. Hoje, e por lealdade a Jesus, ignoro quantos fazem o mesmo.

Então, será que Jesus era um pacifista? Acho que não era NÃO! Por duas vezes no Novo Testamento ele limpou o templo à força. A Bíblia diz que ele fez um açoite, entrou e limpou o templo. Ele não pediu com educação, “minha gente, por favorzinho, saiam daqui?” Ele forçou-os a sair.


Warren conclui que Jesus não era pacifista porque usou de meios violentos para expulsar os vendedores do templo. Com a mesma sobriedade, e com quase o mesmo raciocínio, ele poderia ter concluído que Jesus não estava sendo motivado pelo amor quando fez isso. A questão é, mais uma vez, confundir uma iniciativa individual ( e portanto única), motivada pelo amor, com uma iniciativa institucional (injustificável já por ser institucional) motivada (como ele admite) por egoísmo e orgulho. A não ser que ele queira que acreditemos que os Estados Unidos estão punindo o Iraque como um pai castiga o filho, uma relação do tipo “está doendo mais em mim do que em você”.

Talvez, se eu estivesse perto o suficiente da igreja de Saddleback, eu devesse arrancar a chicotadas o Rick Warren de lá, com um açoite que eu mesmo teria o maior prazer em fazer. Talvez valesse até a passagem de avião.

Só não o faço, no fim das contas, porque acredito em apenas dois templos: o de Jerusalém, que foi demolido e era metáfora do verdadeiro, e o do Espírito Santo, no qual não se entra com açoite. A única pessoa que se pode expulsar de lá de dentro é o próprio Espírito Santo, e ninguém precisa de ajuda de fora para fazer isso.

Deus não julga os atos das nações, só os atos das pessoas. As nações não tem iniciativa, não tem motivos, não tem escolha, não podem ser culpadas de omissão – não têm existência real. As pessoas têm. Para Deus só existem pessoas.

* * *

Até aqui acompanhei o texto de Warren parágrafo por parágrafo.

Eu havia me disposto a cobrir o artigo todo, mas depois de um certo ponto fiquei enojado e cansado demais para continuar. Worn out, como dizem os americanos. Quero e preciso lutar em outras arenas. Os interessados poderão lamentar o texto na íntegra na internet ou nO Jornal Batista.

Bastará que eu resuma o terreno que faltava cobrir. Para Warren a guerra é, sim, justificável quando se trata de “preservar a liberdade”, “proteger pessoas inocentes” e “impedir a propagação do mal”. E, mérito seu, ele tem fé suficiente para acreditar que a matança da guerra seja capaz de fazer essas coisas.

Ele revela que um dia o mundo terá paz permanente, mas apenas quando Jesus Cristo voltar.

À pergunta “esta é a guerra final?” ele responde com enigmáticas maiúsculas “NÓS NÃO SABEMOS, mas pode ser”.

Mais interessante é a sessão final, em que Warren se pergunta “como deveríamos nós, como cristãos, reagir à guerra?” As quatro respostas que ele sugere quase não me surpreendem: primeiro, devemos orar; segundo, devemos confiar em Deus; terceiro, devemos buscar a paz (não entre as nações, ele se apressa em deixar claro, mas em círculos mais inferiores como a igreja e a família); e quarto, apoiar uns aos outros.

Ou seja, a reação que Warren propõe é nenhuma reação. Ele quer que usemos a tática de despistamento que Tiago lamenta no segundo capítulo de sua carta: “se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso?” Ele quer que nos façamos de desentendidos e ignoremos que algo sério está acontecendo. Há uma guerra em andamento? Não tema, meu irmão, estou orando a respeito!Há inocentes morrendo? Não se preocupe, confio que Deus está no controle! Estou em paz com Deus! Estou apoiando as tropas!

Minha sentença: Rick Warren é mais culpado do que qualquer iraquiano fanático que esconde bananas de C4 debaixo da túnica; é mais culpado que qualquer americano que está nesse momento puxando o gatilho para matar alguém. Pior do que fazer a guerra é justificá-la sentado numa poltrona confortável na frente de um laptop. Tratar de cauterizar a consciência de todos, inclusive a sua própria; esconder a sujeira debaixo do tapete, da vista de quase todos, e conseguir dormir depois disso.

Em última instância, a guerra se trata da dura decisão de matar pessoas. Matar gente, seres humanos. Guerra é matar gente. Cabe a cada um desenvolver suas próprias justificativas para fazer isso.

O que a Bíblia diz sobre a guerra é não matarás.

O que a Bíblia diz sobre a guerra é bem-aventurados os pacificadores.

O que a Bíblia diz sobre a guerra é houve uma pequena cidade em que havia poucos homens; e veio contra ela um grande rei, e a cercou e levantou contra ela grandes tranqueiras.

Ora, achou-se nela um sábio pobre, que livrou a cidade pela sua sabedoria; contudo ninguém se lembrou mais daquele homem pobre.

Então disse eu: Melhor é a sabedoria do que a força; todavia a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas.

As palavras dos sábios ouvidas em silêncio valem mais do que o clamor de quem governa entre os tolos.

Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra; mas um só pecador faz grande dano ao bem.

Eclesiastes 9.14-18


Resposta de Josh Warren, filho de Rick Warren:

Saudações, Paulo,

Li o seu artigo sobre o artigo do meu pai a respeito da guerra. Não sei realmente o que dizer, sinto que você veja as coisas dessa forma. Conheço o meu pai e conheço o coração dele e o seu amor pelos pastores e pelas pessoas que sofrem ao redor do mundo. Quero encorajá-lo a ler Uma Igreja Com Propósito; eu enviarei de bom grado uma cópia gratuita se você quiser antes de tomar sua decisão final. Obrigado pela sua opinião, embora muitas das palavras e declarações que você fez foram pessoalmente insultuosas e injustas.

Que Deus abençoe você e o seu ministério. Por favor me avise se você quiser uma cópia gratuita, tenho até mesmo em português se você quiser.

Bençãos,

Josh Warren
pastors.com

Resposta à resposta de Josh Warren:

Josh,

Obrigado por sua resposta bondosa e pacífica. Por favor, acredite, não tenho nada pessoal contra o seu pai ou contra os Estados Unidos.

Tenho muitos, muitos amigos entre os cristãos americanos, e alguns dos meus heróis pessoais são na verdade americanos – alguns deles lutaram na Segunda Guerra Mundial. Não duvido da sinceridade do amor do seu pai, da humildade dele, da sua devoção ou da sua preocupação com os que sofrem. Por favor não duvide da minha. Minha indignação é apenas contra o uso das Escrituras para justificar uma guerra não provocada. Não preciso comparar a invasão do Iraque às Cruzadas, ou a democratização do Iraque à conversão forçada; sei que o assunto é muito mais complicado que isso. Mas o seu pai, mais do que qualquer um, deveria ter tido isso em mente antes de se pronunciar a respeito de um tema tão delicado. Rick Warren, o bondoso e maravilhoso ser humano que você conhece, é admirado demais, e a esta altura você já deve ter percebido você mesmo que ser admirado é uma benção mista, um terrível privilégio. Ele não pode se dar ao luxo de expressar sua opinião superficialmente. É injusto, mas é o preço da notoriedade involuntária.

Eu teria de ter permanecido quieto se seu pai tivesse dado a opinião dele sem citar passagens selecionadas da Escritura para justificar o seu ponto de vista. O que minha exegese fez foi apenas demonstrar que as coisas não são tão simples quanto da forma que seu pai as colocou. Eu mesmo não estou livre de self-righteousness [arrogância decorrente de pretensa superioridade moral], como a excessiva vaidade da minha retórica comprova além de qualquer dúvida. Tudo é apenas sério demais, e a guerra é devastadora demais.

De qualquer modo, basta para mim saber que você leu. Agora é mais fácil para mim voltar a amar vocês.

Voltemos a nos concentrar no amor e na paz. Tentemos torná-los possíveis novamente.

“Quando for possível...”

Que Deus abençoe vocês todos nessa mais confusa e cansativa das horas. Que Deus abençoe o que resta dos nossos ministérios que permanece intocado pela nossa vaidade.

Paz,

Paulo

Ei, tenho acesso a uma cópia de Uma Igreja Com Propósito. Posso até chegar a ler um dia desses.


Paulo Roberto Purim, de Curitiba.
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