sábado, 10 de outubro de 2009

A pobreza é igual à morte

O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, um dos iniciadores da Teologia da Libertação, disse que a pobreza é contrária à vontade de Deus. Gutiérrez ministrou palestra sobre a jornada da Igreja latino-americana nos últimos 40 anos, desde a II Conferência de Medellín até a V Conferência de Aparecida.

A palestra foi proferida aos participantes da Oficina de Teologia, Evangelização e Comunicação, evento realizado em Lima, no Peru, de 22 a 24 de junho, promovido pela Organização Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (OCLACC), com o apoio de organizações cristãs de comunicadores.

Durante o encontro com os comunicadores de vários países do continente, Gustavo Gutiérrez assinalou que o documento de Aparecida não constitui “nenhuma surpresa”, porque o que nela foi incluído tem vinculação direta com a vida da Igreja latino-americana desde Medellín.

Para o teólogo, os aspectos mais importantes do Documento de Aparecida podem ser resumidos em três itens fundamentais, como a recuperação do método “Ver, julgar e agir”, que se perdeu na Conferência de Santo Domingo. Esse método permite realizar uma leitura dos sinais dos tempos, o que ajuda a ver a realidade a partir dos mais frágeis da sociedade, à luz do capítulo 25 do Evangelho de São Mateus.

Na perspectiva de Gutiérrez, o segundo item está vinculado ao desafio representado pela pobreza que, segundo Medellín, é anti-evangélica, constituindo um “desafio à fé e à comunicação da fé”. O pobre é “o que não conta, o insignificante”, assinalou, ao concluir que, sob a perspectiva bíblica, a pobreza é contrária à vontade de Deus.

A modernidade é um desafio à fé, um fato histórico. A pobreza é igual à morte, e “não se pode estar com os pobres sem lutar contra a pobreza”, disse o teólogo ao destacar que o documento Aparecida continua com a opção preferência da Igreja latino-americana pelos pobres. O amor de Deus é universal e preferencial, explicou. Nessa dimensão, disse, é que se deve entender a opção pelos pobres, que corresponde a uma opção centrada em Cristo e teocêntrica.

Um terceiro item está relacionado à comunicação do Evangelho, comunicação que deve ter repercussões sociais na história, disse. Segundo o teólogo, no Documento de Aparecida consta que a Igreja é “advogada dos pobres” e da justiça. É preciso reconhecer o pobre como dono de seu destino e agente de sua própria história, apontou.

No diálogo com os comunicadores católicos, Gustavo Gutiérrez explicou que a comunicação faz parte da evangelização, e que nessa comunicação deve estar presente o amor ao próximo e uma leitura permanente da realidade.

Ed Renee Kivitz - Pastor da Igreja Batista de Água Branca


Transformar o mundo é responsabilidade nossa

Certa vez perguntaram a Bertrand Russell, que era um ateu convicto, o que ele faria se, depois da morte, acabasse encontrando Deus. Consta que Russell teria respondido, “Vou perguntar a ele: Senhor Deus, por que deste tão pouca evidência de sua existência?”. Decerto o mundo apavorante em que vivemos não parece – ao menos na superfície – um lugar em que uma benevolência toda-poderosa esteja no comando. É difícil entender como um ordem mundial compassiva pode incluir tantas pessoas afligidas pela miséria aguda, fome persistente e vidas desesperadas e deprived, e por que milhões de crianças inocentes têm de morrer todos os anos por falta de comida, cuidados médicos ou assistência social.

O tema, claro, não é novo, e foi objeto de uma série de discussões entre teólogos. O argumento de que Deus tem suas razões para querer que nós lidemos com esses problemas por nossa conta tem tido considerável sustentação intelectual. Enquanto uma pessoa não-religiosa, eu não tenho condições de avaliar os méritos teológicos deste argumento. Mas eu posso apreciar a força da alegação de que as pessoas devem ter responsabilidade pelo desenvolvimento e transformações do mundo em que vivem.

Ninguém precisa ser devoto ou não-devoto para aceitar esta conexão básica. Enquanto pessoas que – em sentido amplo – vivem juntas, não temos como escapar da idéia de que as terríveis ocorrências que vemos à nossa volta são, essencialmente, problemas nossos. Elas são nossa responsabilidade – quer sejam ou não de mais alguém também.

trecho de Development as Freedom (Desenvolvimento como Liberdade], de Amartya Sen. Ele recebeu o Nobel de 1998 em Ciência Econômica.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Evangelho terá que enfrentar um concorrente muito poderoso

Reparei que pobre nunca coloca fotografia de pobre na parede. Isso, ao que parece, só os ricos fazem. Casa de rico está cheia de fotografias e pinturas de gente pobre: objetos de índios, pinturas do sertão seco, estatuazinhas de sertanejos, e mais coisas assim. Pobres só colocam fotografias de gente rica! Quando eles abrem a revista Veja (tinhamos trazido dois números), eles só estão interessados em ver as páginas de propraganda (Não entendem as notícias).
Por que será? Será que é projeção do ideal que alimentam? Será que a parede de casa do pobre é a expressão da esperança que ele nutre? Nesse caso, a esperança do Evangelho terá que enfrentar um concorrente muito poderoso. Será que a propaganda vai conseguir nutrir esta esperança falsa no povo? Verdadeira miragem, sem consistência!

Carlos Mesters - Seis dias nos porões da Humanidade

Pan de 2007 queimou recursos incalculáveis, sem nada deixar

No aquário, o Brasil mostra que é um país do presente, investindo para o desenvolvimento de uma estrutura que visa as olimpíadas:

"Nós queremos que essas Olimpíadas sejam a celebração do Brasil, do fato de nós termos deixado de ser o país do futuro e sermos o país do presente."
Dilma Rousseff

Enquanto isto, a realidade é bem diferente:

Embora seja a prova de que o país é capaz de realizar grandes eventos, o Pan de 2007 queimou recursos incalculáveis, sem nada deixar

Leandro Uchoas, do Rio de Janeiro (RJ)

Como hoje, as promessas também eram muitas. Investimentos maciços em transporte, reestruturação urbana, meio-ambiente (com despoluição de lagoas), educação, esportes e tecnologia. As possibilidades de o Pan-americano de 2007 trazer grandes melhorias ao Rio de Janeiro saltavam aos olhos. O que se viu, especialmente antes e depois do evento, foi uma sucessão de absurdos. Antes, foram as obras atrasadas, o orçamento multiplicado, a busca de socorro estatal, os pagamentos sem entrega, investimentos quase inexistentes em transporte e meio-ambiente e reformas urbanas sob a lógica de criminalização da pobreza. Depois, foi a manutenção da política conservadora de esportes e a inacreditável quantidade de edificações caríssimas que, agora, não têm qualquer utilidade.


A prefeitura anunciava que os equipamentos esportivos seriam disponibilizados a todas as crianças da rede pública de ensino: 750 mil. Hoje, a afirmação parece piada de bar. Só para o programa favela-bairro, o então prefeito César Maia (DEM) anunciava R$ 1 bilhão em recursos, nunca efetivados. Os prometidos investimentos privados não vieram, as obras atrasaram uma enormidade e lá foi o governo federal disponibilizar recursos públicos. O orçamento de R$ 400 milhões chegou muito próximo a dez vezes o previsto. Os motivos? Até hoje não se pode definir. O evento foi concebido, organizado e realizado sem qualquer transparência. A Câmara Municipal do Rio, por iniciativa do vereador Eliomar Coelho (Psol), tentou aprovar em 2008 uma CPI para investigar o Pan, sem sucesso.


Os principais atores dessa história, para desespero de muitos, são os mesmos de hoje. Do governador Sérgio Cabral (PMDB), que deve utilizar o feito de Copenhague para estimular sua reeleição, ao antigo secretário de Esportes, Eduardo Paes (PMDB), hoje prefeito. Há pessoas que não aguentam mais ouvir Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), fazer as mesmas promessas de dois anos atrás. Ricardo Leyser Gonçalves, cotado para liderar a organização das Olimpíadas, acaba de ser condenado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a devolver R$ 18,4 milhões à União por irregularidades cometidas na administração do Pan. Só em serviços sem execução comprovada teriam sido gastos R$ 6,8 milhões. Em pagamentos com duplicidade, outros R$ 4,1 milhões. Os valores de superfaturamento são ainda mais assustadores.


Arbitrariedades

Pouco antes do evento, os patrocinadores viraram as costas à instalação de um velódromo e de um parque aquático na região da antiga pista do autódromo Nelson Piquet. A concessão para que a Marina da Glória e o aterro do Flamengo se tornassem área de complexo turístico e comercial privado foi renovada por meio século. Comunidades como a do Canal do Anil foram afetadas de forma maléfica pelas intervenções urbanas, que desprezaram áreas mais pobres. Houve até remoções parciais. O Estádio Olímpico, conhecido como Engenhão, construído às pressas com recursos públicos, é uma bela obra de difícil acesso. O Botafogo herdou sua utilização muito mais pelo desprezo dos outros três grandes clubes do que por vontade própria.


A linha 4 do Metrô mais uma vez ficou só na promessa. As vilas olímpicas permanecem subutilizadas. Remodelado para o Pan, o parque aquático Julio Delamare, por ironia, corre riscos de ser derrubado já para a Copa de 2014. Fica próximo ao Maracanã e atende, diariamente, quase mil pessoas, mas pode transforma-se em estacionamento. O parque aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, está abandonado. Parece que o único legado positivo do Pan 2007 é a própria Olimpíada, por ter comprovado a capacidade do país de realizar eventos desse porte. A título de comparação com a herança trágica do evento, a capital de Cuba viveu experiência diferente. Sede do Pan 1991, Havana destinou aos trabalhadores que ergueram as vilas as próprias dependências que construíram.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

E o amor se fez carne

O nome político do amor


Por que o socialismo, em tese uma alternativa humanitária ao capitalismo, fracassou na Europa e na Ásia? O capitalismo teve a esperteza de, ao privatizar os bens materiais, socializar os bens simbólicos. De dentro do barraco de uma favela uma família miserável, desprovida de direitos básicos como alimentação, saúde e educação, pode sonhar com o universo onírico das telenovelas e ter fé de que, através da loteria, da sorte, da igreja que lhe promete prosperidade ou mesmo da contravenção, haverá de ter acesso aos bens supérfluos.

O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os simbólicos, e confundiu crítica construtiva com contra-revolução; cerceou a autonomia da sociedade civil ao atrelar ao partido os sindicatos e movimentos sociais; coibiu a criatividade artística com o realismo socialista; permitiu que a esfera de poder se transformasse numa casta de privilegiados distantes dos anseios populares; e cedeu ao paradoxo de conquistar grandes avanços na corrida espacial e não ser capaz de suprir devidamente o mercado varejista de gêneros de primeira necessidade.

Hoje, resta Cuba como exemplo de país socialista. Todos conhecemos os desafios que a Revolução enfrenta às vésperas de seu meio século de existência. Sabemos dos efeitos nefastos do bloqueio imposto pelo governo dos EUA e de como a queda do Muro de Berlim deteriorou a economia da Ilha.

Apesar de todas as dificuldades, nesses 49 anos a Revolução logrou assegurar a 11,2 milhões de habitantes os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Elevou a auto-estima da cidadania cubana, que tão bem se expressa em suas vitórias nos campos da arte e do esporte, bem como na solidariedade internacional, através de milhares de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação presentes em mais de uma centena de países do mundo, em geral em regiões inóspitas marcadas pela pobreza e a miséria.

O socialismo cubano não tem o direito de fracassar! Se acontecer, não será apenas Cuba que, como símbolo, desaparecerá do mapa, como ocorreu à União Soviética. Será a confirmação da funesta previsão de Fukuyama, de que “a história acabou”; a esperança – uma virtude teologal para nós, cristãos – findou; a utopia morreu; e o capitalismo venceu, venceu para uns poucos – 20% da população mundial que usufrui de seus avanços – sobre uma montanha de cadáveres e vítimas.

Nós, amigos da Revolução cubana, não esperamos de Cuba grandes avanços tecnológicos e científicos, serviços turísticos de primeira linha, medalhas de ouro em disputas desportivas. Esperamos mais do que isso: a ação solidária de que falava Martí; a felicidade de um povo construída em base a valores éticos e espirituais; o princípio evangélico da partilha dos bens; a criação do homem e da mulher novos, como sonhava o Che, centrados na posse, não dos bens finitos, e sim dos bens infinitos, como generosidade, desapego, companheirismo, capacidade de fazer coincidir a felicidade pessoal com os sucessos comunitários.

Em resumo, almejamos que, em Cuba, o socialismo seja sempre sinônimo de amor, que significa entrega, compromisso, confiança, altruísmo, dedicação, fidelidade, alegria, felicidade. Pois o nome político do amor não é outro senão socialismo.

Frei Betto é escritor, autor de A mosca azul – reflexões sobre o poder (Rocco), entre outros livros.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A árvore e a floresta


Cínica a moral usamericana. O prefeito de Nova York renuncia após o flagrarem nos braços de uma sofisticada rede de prostituição. Como se não bastasse a decepção de seus eleitores, submete a mulher à humilhação de postar-se ao seu lado, calada, enquanto ele faz o mea culpa.

O vice assume e também vem a público confessar não ser nenhum santo. A diferença é que, agora, se trata de uma verdadeira “terapia de casal” em escala mundial. Os dois admitem, diante das câmeras, terem traído um ao outro. O que, sem dúvida, torna mais fácil o perdão. Só quem assume o próprio erro é capaz de perdoar o alheio. O fariseu, alerta Jesus, é capaz de ver o cisco no olho de outrem, mas não enxerga a trave no próprio (Mateus 7, 3).

A moral usamericana é profundamente marcada pela ideologia analítica, vê a árvore e não enxerga a floresta. Nixon caiu porque invadiu as instalações do Partido Democrata. Clinton desculpou-se diante da TV após praticar adultério com uma estagiária na Casa Branca. Eliot Spitzer deixa a administração de Nova York ao ser pego de calças nas mãos após gastar uma fortuna com prostitutas.

E a floresta? O que diz a moral made in USA em relação aos desrespeitos aos direitos humanos praticados em grande escala por Nixon e Clinton? Por que é considerado moral invadir o Iraque e provocar um genocídio (89 mil civis mortos e 4 mil militares ianques, desde 2003); praticar torturas na prisão de Abu Ghraib, em Bagdá; seqüestrar supostos terroristas na Europa e confiná-los no inferno carcerário da base naval de Guantánamo, alheia aos princípios do Direito? É moral manter um país como Porto Rico, privado há 110 anos de sua soberania e independência? É moral sacrificar a pequena Cuba com um bloqueio que dura 48 anos?

Talvez a raiz dessa moral fundamentalista, que culpabiliza um desvio sexual e encara com condescendência um genocídio, decorra de uma leitura equivocada da Bíblia. Davi, o personagem bíblico de quem temos mais informações, é um bom exemplo. Foi punido por cometer adultério com Betsabéia, mulher de Urias, morto por ordem do rei, interessado em facilitar seu acesso ao leito da mulher desejada (2 Samuel 11).

Davi era guerreiro, antes e depois de subir ao trono. Matou milhares de inimigos (os exércitos filisteu e moabita, 18 mil edomitas, 40 mil arameus etc.), sempre em nome de Deus. E não consta que se tenha arrependido, como no caso com Betsabéia, nem punido.

Eis um legado que certa exegese bíblica ainda nos impregna: matar um, faz de você um assassino; matar milhares, faz de você um herói. Bush que o diga. “O homem mau dorme bem”, é o título de um filme de Akira Kurosawa.

Enquanto nossa idéia de Deus permitir que Ele seja evocado como cúmplice de nossos interesses egoístas e mesquinhos, como controlar o petróleo do Oriente Médio, seguiremos fiéis à síndrome abraâmica do sacrifício - essa idéia de que Deus exigiu de Abraão sacrificar seu único filho, Isaac; não satisfeito, mais tarde sacrificou Jesus na cruz. Por um suposto bem maior – a democracia regida pelos donos do dinheiro – sacrifica-se uma nação.

Uma leitura mais contextualizada permite compreender que Javé não aceitou que, em nome de uma nova fé, a monoteísta, Abraão matasse Isaac, como prescreviam os cultos politeístas e seus ritos arcaicos de oblação das primícias. Javé fez ver a Abraão que Ele é o Deus da vida, e não da morte. Por isso salvou Isaac da miopia religiosa de Abraão (Gênesis 22).

Do mesmo modo, Jesus não morreu para aplacar a sede de sangue expiatório de um Deus que, ofendido, se transforma num homicida mais cruel que o rei Herodes. Jesus morreu assassinado por dois poderes políticos.

Ao contrário da moral made in USA, Jesus era todo perdão para com a mulher adúltera, o filho pródigo, a negação de Pedro, mas rigorosamente exigente para com aqueles que fazem do Templo de Deus – o Universo, a Terra, a vida humana – um covil de ladrões. Em linguagem atual, o juízo de Deus é implacável quando a sacralidade da vida é preterida em prol dos interesses pecuniários do mercado.

Frei Betto é escritor, autor de biografia de Jesus “Entre todos os homens” (Ática), entre outros livros.

Solilóquio


Você tem estado comigo

Todo os dias, Oh Alma!

Única que me acompanhou

Todos os segundos da minha existência


Se quero saber quem eu sou,

Quem melhor para dizer

Senão, você?

Minha Alma!


Se acredito que você está comigo

Da mesma forma como Deus está,

Seria um sacrilégio te dar

Uma reverência divina?


Alma! Me conte!

Me conte seus segredos!

Para que conhecendo eles,

Possa, talvez, conhecer a eu mesmo.

Reflexões

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Aviso

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertolt Brecht

domingo, 4 de outubro de 2009

Deus é uma criança


SOU UM ADMIRADOR de Gandhi. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre ele. Estou planejando convocar os amigos para uma homenagem póstuma a esse grande líder pacifista e vegetariano.

Pensei que uma boa maneira de homenageá-lo seria um evento numa churrascaria, todo mundo gosta de churrasco, um delicado rodízio com carnes variadas, picanhas, filés, costelas, cupins, fraldinhas, lingüiças, salsichas, paios, galetos e muito chope. O grande líder merece ser lembrado e festejado com muita comilança e barriga cheia!

Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado "reductio ad absurdum" que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.

Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.

Escrevo com antecedência, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado.

É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave... No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?

É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.

O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito.Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: "Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: "Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu...'" Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar...

Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.

Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.

E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.

Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho... Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.

É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?

Rubem Alves, em texto publicado na Folha de S. Paulo.

Onde houver


Jesus disse: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.

Onde houver um Caminho para os homens, onde houver uma Verdade que une as pessoas, e onde houver uma Vida que expresse toda a beleza da humanidade, lá estará o Cristo caminhando com estes homens, sendo verdadeiramente o elo que os une, e sendo a essência e excelência desta vida.

As potestades do mal e o diálogo necessário



Jung Mo Sung *
Adital -

"O dado mais marcante do mundo moderno é o crescimento acelerado de um novo tipo de sociedade -a sociedade de consumo.

"A sociedade de consumo é um fruto da técnica e do capitalismo. Historicamente, ela apareceu no mundo ocidental quando a burguesia ascendeu ao poder político e colocou a técnica a serviço de seu próprio enriquecimento. A propriedade privada, que na sociedade pré-industrial havia servido para dar segurança às pessoas comuns, deixou de cumprir uma função social e se transformou num direito absoluto. Surgiram as grandes indústrias capitalistas. A palavra de ordem passou a ser o aumento constante de produção, ainda que boa parte dela consistia em trivialidades [...]. Toda outra atividade que não incidisse diretamente no desenvolvimento industrial seria relegada a um plano secundário. As relações trabalhistas estariam regidas fundamentalmente pelo princípio da conveniência pessoal dos proprietários da indústria, para os quais a propriedade seria um meio de enriquecimento e não um instrumento de serviço à sociedade. Os meios massivos de comunicação (especialmente o rádio e a televisão) seriam utilizados para condicionar os consumidores a um estilo de vida em que se trabalha para ganhar, se ganha para comprar e se compra para valer. Como demonstrou Jacques Ellul, ‘o estilo de vida é formado pela publicidade’. A publicidade está controlada por gente cujos interesses econômicos estão ligados a aumento de produção, e este, por sua vez, depende de um consumo que somente é possível numa sociedade na qual viver é possuir. A técnica é assim colocada a serviço do capital para impor a ideologia de consumo".

"A ideologia do consumo se impões no mundo moderno, inclusive em lugares onde a miséria domina. Os meios massivos de comunicação se encarregam de difundir, tanto nos bairros ricos como nas favelas dos grandes centros urbano, a imagem de felicidade, o homo consumens. O resultado é que o mundo inteiro vai transformando-se numa ‘aldeia global’ que encontra no consumo seu princípio de unidade".

"Por trás do materialismo que caracteriza a sociedade de consumo estão os poderes de destruição a que se refere o Novo Testamento. O apóstolo Paulo particularmente discerniu que os principados e potestades do mal estavam entrincheirados em estruturas ideológicas que oprimiam os homens [cf. Ef 6,12]."

"A vigência destes conceitos paulinos é óbvia quando se compreende o caráter idolátrico e o poder de condicionamento da sociedade de consumo. Traduzido na linguagem da sociologia moderna, o vocabulário do Apóstolo aponta para instituições e ideologias que transcendem ao indivíduo e condicionam seu pensamento e seu estilo de vida. Tanto aqueles que circunscrevem a ação dos poderes do mal ao terreno do ocultismo, da possessão demoníaca e da astrologia, como os que consideram que as referências neotestamentárias a estes poderes são uma mera casca mitológica da qual é necessário extrair a mensagem bíblica, terminam reduzindo o mal a um problema pessoal e a redenção cristã a uma experiência individual. Uma alternativa melhor é aceitar o realismo da descrição bíblica e entender a situação do homem no mundo em termos de escravidão a um mundo espiritual, do qual necessita ser liberto. [...] Em sua rebelião contra Deus, o homem é escravo dos ídolos do mundo, por meio dos quais atuam estes poderes. E os ídolos que hoje escravizam o homem são os ídolos da sociedade de consumo."

"A igreja está chamada a encarnar o Reino de Deus em meio aos reinos deste mundo. O evangelho não lhe deixa outra alternativa. A fidelidade ao evangelho tem como concomitante o conflito com o mundo. [...] O conflito é inevitável quando a igreja toma a sério o evangelho. Isto é tão verdadeiro hoje na sociedade de consumo como o foi no primeiro século".

Estas palavras parecem ser escritas hoje por algum teólogo da libertação. Mas, na verdade, foram escritas em 1976 por um teólogo batista colombiano - radicado na Argentina-, René Padilla, que pertence a um setor do cristianismo conhecido como evangelical e é um dos principais nomes da "teologia da missão integral". Eu reproduzi estas palavras (do livro Missão Integral), não somente porque são extremamente atuais, mas para mostrar que a teologia da libertação não tem e nem teve, na América Latina, o monopólio sobre a reflexão teológica comprometida com a causa dos mais pobres e com a justiça social.

Nem todos cristãos, Igrejas ou documentos eclesiásticos que lutam pela justiça social são "filiados" à teologia da libertação. O "cristianismo de libertação" é mais amplo do que a TL ou as CEBs. Eu penso que é importante lembrarmo-nos disto para reduzirmos todas as formas de cristianismo que lutam por justiça social à TL (que aparecem em muitos textos pró-TL que circulam na Internet nestes dias). Pois isto seria não reconhecer e respeitar outros grupos que lutam por uma sociedade mais humana em nome da mesma fé cristã, mas que pertencem a outras correntes teológicas e eclesiais. Sem este reconhecimento não é possível um diálogo frutífero e necessário em torno desta mesma luta.

Aliás, é estranho ver que para muitos grupos cristãos "filiados à TL" é mais fácil ou aceitável propor ecumenismo ou diálogo religioso com pessoas de outras religiões não-cristãs (budismo, candomblé, etc.) do que com setores evangelicais e pentecostais do cristianismo. Talvez seja por não conhecer textos teológicos tão sérios e comprometidos como o que citei acima.

A miragem

O Brasil e o Rio de Janeiro estão salvos. Vêm aí as Olimpíadas. Tudo vai acabar bem.

Vão entrar 30 bilhões de reais. Melhor que isso, só o pré-sal. Vai vir gente de todo canto. Estamos no primeiro mundo.

Brasileiros em geral e cariocas em particular embarcam com facilidade nesse tipo de visão do paraíso. A nave dos Jogos Olímpicos vai pousar no país do futebol para trazer alegria e prosperidade. E viva a indústria da esperança.

Nessas horas, a vida real fica olhando tudo meio de lado, como se dissesse: “Lá vão eles de novo. Daqui a dez anos a gente conversa”.

Infelizmente, ainda não foi inventado o desenvolvimento movido a oba-oba. Entrada bruta de dinheiro e gente é boa quando há plano para o crescimento. Quando não há, é veneno puro.

O Rio de Janeiro acumula esqueletos – urbanísticos e humanos. O da antiga capital da República, o da Eco-92 (maior cúpula de chefes de Estado da história), o da Fórmula 1, o dos Jogos Panamericanos. Todas promessas de desenvolvimento. Todas falidas.

A Eco-92, por exemplo, trouxe uma obra significativa de infra-estrutura, a Linha Vermelha. Não foi presente de ninguém, foi dinheiro do contribuinte – como será boa parte da festejada grana olímpica. É uma via expressa importante, que atravessa quilômetros e quilômetros de uma cidade sem dinheiro para usá-la. Dali saem os bandos armados que barbarizam a própria Linha Vermelha com tiroteios, assaltos e mortes. Vêm de favelas certamente inchadas com ajuda da mão-de-obra temporária deserdada pela Eco-92. Qual é a graça?

Barcelona se desenvolveu com as Olimpíadas daquele mesmo ano, 92. Barcelona tinha estrutura e planejamento para se desenvolver. Senão, ia só inchar.

As grandes cidades brasileiras são, cada vez mais, amontoados de gente periférica, infeliz, e conseqüentemente violenta. A repressão às bocas-de-fumo no Rio de Janeiro está fazendo explodir os arrastões a prédios residenciais. A cidade ainda vai ter saudade da venda de drogas.

Os Jogos Olímpicos de 2016 podem funcionar bem como evento. Como farol de desenvolvimento, é promessa falsa.

Vem mais um esqueleto por aí. Dos grandes. Mais um milagre da multiplicação dos deserdados, dos engarrafados, dos mal alojados, dos que chegaram fácil e vão penar para permanecer. Mas a festa será boa.

A população de Chicago está comemorando. Não queria Olimpíadas lá de jeito nenhum. Por que será?

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