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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Colha o dia

Lucas Lujan (@lucaslujan)

Está terminando mais uma segunda-feira qualquer.

Hoje corações se enamoraram, e apaixonados, fizeram juras de amor eterno. Hoje foi o primeiro dia de aula de vários “bichos” que foram felizes da vida para a faculdade, só para receber trote. Hoje, várias músicas foram compostas. Sorrisos se encontraram sem querer dentro do ônibus. Amizades se consolidaram hoje.

Hoje mulheres se tornaram mães. Homens ainda estão assimilando a responsabilidade de terem se tornado pais. Hoje alguns se tornaram avôs e avós. Crianças tiverem seu primeiro dia de aula na vida. Hoje, um menino teve coragem de pegar na mão de sua primeira paixão. Pessoas se casaram hoje.

Hoje crianças aprenderam a ler. Hoje o aspirante músico aprendeu a fazer “Dó” no violão. Hoje rosas nasceram no jardim de algum senhor que passou a cultivar flores. Homens chegaram na meia idade hoje. Mulheres se tornaram proprietárias de um imóvel.

Hoje pessoas encontraram razão para viver. Hoje, alguém sentiu a esperança aquecer novamente o peito. Pessoas tiveram a coragem renovada por seus amigos. Sócios tomaram chopp para celebrar o primeiro contrato de sua nova empresa. Hoje o adolescente abriu sua primeira conta bancária e sentiu a dignidade entrar em casa.

Hoje namoros terminaram. Hoje alguém recebeu a notícia de que não foi aprovado para a próxima fase da seleção de emprego. Hoje alguém ficou surdo, e outro perdão a visão. Hoje pessoas precisaram se despedir no aeroporto. Hoje alguém foi preso por homicídio doloso. Hoje algumas mulheres foram violentadas.

Hoje pessoas perderam o emprego. Famílias lamentaram o diagnóstico de leucemia. Hoje filhos enterraram seus pais. Mães se suicidaram. Hoje pessoas entraram em coma depois do acidente automobilístico. Hoje pessoas contraíram AIDS, outros desenvolveram diabetes.

Hoje pessoas perderam a fé. Hoje alguém debochou da esperança. Hoje algumas crianças morreram de fome e de sede. Hoje empresas faliram. O telefone tocou trazendo a pior notícia possível. Alguns perderam o amor de sua vida hoje.

Hoje pessoas acordaram no raiar do sol, mas não conseguiram chegar a ver ele se pôr.

O fato é que a vida está passando para todos. Não há nenhum filho que possa se esquivar da fúria devoradora de Cronos.

O tempo foge. O que é que você tem feito com os seus dias?

Está terminando mais uma segunda-feira qualquer, por isso ela é tão especial.

Carpe Diem.


 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Rubem Alves fala da Teologia da Libertação em uma Igreja Pentecostal



Jung Mo Sung
Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo.
Adital

Uma 5af noite (09/02/2012), convite para um relançamento de um livro de teologia –ainda mais teologia da libertação– escrito há mais de 40 anos: quantas pessoas poderiam se interessar? É claro que o autor, Rubem Alves, é uma "atração” por si só; mas como ele não tem escrito mais livros ou artigos de teologia, muito menos escrito ou pronunciado sobre teologia da libertação, eu pensei que haveria um número razoável, mas nada de excepcional. Ainda mais se levarmos em conta que o evento teria lugar em uma igreja pentecostal –Igreja Betesda– e seria um debate sobre o livro com título "Por uma teologia da libertação” (título original da sua tese de doutorado defendida por Rubem Alves em 1968, mas publicada primeiramente nos Estados Unidos, em 1969 como "Por uma teologia da esperança humana”, por decisão do editor; e publicado no Brasil, em 1987, com o título "Da esperança”).

Rubem Alves voltando a debater em público sobre a teologia da libertação em uma igreja pentecostal? Isso seria impensável alguns anos atrás. E para quem não conhece bem o ambiente evangélico e pentecostal, é preciso lembrar que a teologia e os escritos mais espirituais de Rubem Alves são considerados heréticos ou até satânicos por muitos.

Está certo que esse evento foi divulgado na rede social através de pessoas com muitos "seguidores” ou "amigos”, mas divulgação por si não garante o sucesso do evento. Por isso, fui ao evento –após um dia muito intenso e longo de trabalho que quase me fez desistir de ir– com muita expectativa em relação ao que poderia ouvir de Rubem Alves, e dos outros dois debatedores: Ricardo Gondim (pastor da Igreja onde foi realizado o evento) e Ricardo Gouvêa (teólogo presbiteriano); mas não muita em relação ao número de participantes. Além disso, eu imaginava que Rubem Alves fosse falar de muitas coisas, mas pouco especificamente da teologia.

Tive duas surpresas! Em uma igreja com capacidade para 2.000 pessoas, o local estava quase completamente lotado. Imagino que estavam presentes mais de 1.500 pessoas; muitas delas com a Bíblia na mão (algo bem pentecostal ou do mundo evangélico popular). A segunda surpresa: Rubem, no meio de suas memórias, estórias e poesias –bem ao seu estilo–, falou explicitamente da teologia da libertação. Alguns anos atrás, eu participei, na cidade de México, de um painel sobre a teologia da libertação juntamente com Rubem Alves, Dussel e José M. Vigil. E lá, Rubem Alves falou da sua participação no início da teologia da libertação e como um acontecimento muito desagradável o afastou do grupo principal da TL. Mas, depois ele não respondeu nenhuma pergunta específica sobre teologia ou teologia da libertação. Por isso, minha surpresa ao vê-lo aqui tratar diretamente da TL e, em particular, sobre as diferenças entre a TL católica e a protestante. Foi uma fala de quem se sente ainda dentro da grande corrente da teologia cristã da libertação, uma corrente que é feita de várias teologias da libertação, como uma corrente marítima que é alimentada por muitos rios e "caminha” banhando muitos lugares.

Quem conhece o estilo de falar de Rubem Alves sabe que é muito difícil resumir em poucas palavras a complexidade de suas idéias expressas através de imagens, estórias, poesias e raciocínios acadêmicos. Por isso, não vou me atrever sintetizar aqui a bela exposição dele. E penso que isso também não é o mais importante. O mais importante da noite foi o próprio evento.

Alguns podem interpretá-lo como o fechamento de um ciclo que já acabou, como um evento "histórico” no sentido de recuperação de uma memória histórica que marcou a vida da geração de Rubem Alves e de outros. Outros podem interpretar como um sinal de "esperança” (o tema principal na fala de Rubem Alves e de Ricardo Gondim), de que algo novo está surgindo. A presença de muitos jovens (alguns vindos de lugares distantes da Grande S. Paulo e de outras cidades) pode indicar isso. Contudo, o mais importante, para mim, foi o encontro de uma figura memorável – alguém que é capaz de incitar grandes discussões acadêmicas e também encantar corações infantis com suas estórias, que carrega no seu corpo e memória as lutas e esperanças da gerações passadas – com as novas gerações que também anseia por um cristianismo liberto de amarras e dogmatismos que possa contribuir no fortalecimento da esperança dos mais pobres e das lutas pela libertação. E isso em uma igreja pentecostal!

O que resultará desse encontro? A resposta depende das novas gerações de cristãos que assumem –motivadas pelos testemunhos e memória dos mais antigos– a tarefa de levar adiante a boa-nova da esperança, a boa-nova de que a salvação vem pela graça de um Deus que nos ama apesar de tudo. E que, por isso, podemos continuar sorrindo, lutando e vivendo alegremente a vida, apesar de tudo, porque vivemos da esperança e fé.

[Autor de, entre outros, "Cristianismo de libertação” e "Sementes de Esperança”].

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Bíblia e contracultura


Paulo Brabo - A Bacia das Almas


O consolo de Gilgamesh é a cidade – as realizações humanas da edificação de cidades, do governo e da lei [...]; é esse o seu conforto diante da perda de seus amigos e da consciência da morte.

Alan F. Segal
Life After Death – A History of the Afterlife in Western Religion

A história dos primórdios em Gênesis e as antigas narrativas das tradições mesopotâmicas (como aquelas preservadas no Épico de Gilgamesh) parecem compartilhar uma lição central, a de que a mortalidade é componente inseparável da condição humana, e de que sua contrapartida é o dom divino da sabedoria – sabedoria que é concedido ao homem exercer e desfrutar interinamente.

Já foi observado que este não é o único ponto que ambas as tradições tem em comum, mas também já foi observado que mais reveladoras do que as semelhanças talvez sejam as diferenças entre ambas. Porque, falando em termos gerais, aquilo em que a tradição do Gênesis difere das tradições mesopotâmicas (com que parece ter em mais em comum do que com qualquer outra) ela também difere das demais culturas do Oriente Médio e da maioria das mitologias deste mundo. 

A Bíblia é relutante para endossar a ideia de civilização.
A Bíblia sonha desde o princípio um sonho singular.


Um exemplo especialmente relevante dessa singularidade está no modo como o Gênesis – e, na verdade, a Bíblia toda – se mostra resistente para endossar o conceito clássico de civilização. No Épico de Gilgamesh a sociedade civilizada e urbana é apresentada como um dos grandes e autorizados confortos de que a humanidade pode desfrutar diante do estorvo da mortalidade. A narrativa em si está emoldurada entre dois poemas idênticos que exaltam a cidade de Uruk, governada por Gilgamesh. É uma história que começa e termina com a exaltação das conquistas da vida urbana:
Observe seus muros, cuja orla superior é como bronze;
contemple sua muralha interior, a que obra nenhuma pode se pode comparar.
Toque o limiar de pedra, que é antiquíssimo;
aproxime-se da Eanna, habitação da deusa Ishtar,
obra que nenhum rei entre os reis mais recentes pode igualar.
Suba as muralhas de Uruk, caminhe ao longo do topo,
inspecione a base, veja o lavor dos tijolos.
Não é o seu próprio interior feito com tijolos queimados no forno?
Quanto à sua fundação, não foi depositada pelos sete sábios?
Uma parte cidade, uma parte pomar, e uma parte cava de argila.
Três partes, incluindo a cava de argila, compõem Uruk.
A ideia central é vender a ideia de civilização (e portanto da sociedade organizada e urbana) como valor, como destino glorioso e como justificação da humanidade.

A postura geral do Gênesis sobre a questão (e não é preciso ir longe para entender) é precisamente oposta. A passagem paralela no livro de Gênesis é aquela em que os templos da Mesopotâmia, as torres dos zigurates, são transfigurados em Torre de Babel. Nesta narrativa, os esforços dos homens para se organizar em sociedade e executar grandes obras representam não uma façanha admirável ou uma conquista que produz segurança, mas uma afronta a Deus, fadada por esse motivo ao mais embaraçoso fracasso.

Na tradição preservada no livro de Gênesis a civilização não indica conforto e não assinala valor. Nessa visão de mundo o progresso deve ser sempre colocado entre aspas, porque não representa um verdadeiro avanço; ao contrário, a vida civilizada é o começo da corrupção. O construtor da primeira cidade é o maldito Caim (Gênesis 4:17), e são os seus descendentes a inventar os primeiros instrumentos musicais (v. 21) e implementos de metal (v.22).

Mais tarde a narrativa vai se esforçar para contrastar a vida pura – sem garantias e sem adornos – do povo de Israel em sua travessia pelo deserto com a vida sofisticada, arrogante e sedentária da civilização egípcia que deixaram para trás e da qual foram salvos.

Talvez o emblema mais antigo da aversão bíblica à vida sedentária (e portanto à civilização e os resultantes centros urbanos) esteja preservado na história de Caim e Abel. A oferta de Abel é aceita porque ele personifica a vida pastoril, nômade e sem afetação, capaz de evocar uma idade do ouro em que a vida era mais simples e as pessoas andavam mais perto de Deus porque dependiam mais de perto dele. Caim é rejeitado porque sua oferta de cereais sugere o começo da sociedade sedentária e tudo que a vida civilizada tem de corruptor e de destemperado. A eterna tentação gerada pela segurança e pelas distrações da vida urbana é a do homem esquecer-se dos valores eternos – e portanto de si mesmo, do seu próximo e de Deus.
Essa relutância em admitir a civilização explica porque na Bíblia os grandes heróis são em geral pastores como Abraão, Moisés e Davi, gente que vive uma vida singela e autêntica longe da força corruptora de centros urbanos como Sodoma, Gomorra e Nínive. Até mesmo por ocasião do nascimento do messias, com tanta gente neste mundo para ser informada da boa nova, a glória divina demonstrou sua predileção pelos pastores da Judéia, que a narrativa concede que testemunhem a majestade que nenhum homem civilizado já viu.

Naturalmente a Bíblia não tem como contornar indefinidamente o fascínio da civilização e da vida urbana; com o tempo até mesmo Deus vai fazer concessões e terá sua própria cidade e o seu grande edifício em Jerusalém, devidamente providos de sacerdotes, muralhas, exércitos, cortesãos, reis e cavas de argila. Mas as tradições de contracultura preservadas na Bíblia se esforçam para declarar que toda a glória de Jerusalém, tanto o seu trono quanto o seu templo, não são a comprovação da supremacia e dos confortos da sociedade organizada – tratam-se realmente deconcessões feitas em favor dos homens por uma glória muito acima da terrena. Deus absolutamente não cabe em templos feitos por mãos humanas (1 Reis 8:27), e os reis são um contratempo e um estorvo do qual a divindade preferiria ter poupado o seu povo (1 Samuel 8:6-20). A grandeza de Jerusalém não está em ser uma cidade civilizada, mas em ser a honorária habitação divina.

Porém a admissão da vida urbana não quer dizer que a sociedade de Israel será como as demais civilizações. A tradição bíblica busca consistentemente sustentar uma polêmica com os discursos deste mundo, e estabelece inúmeros mecanismos para garantir a singularidade (e portanto a marginalidade) da sociedade israelita. Israel será desde seu berço ideológico uma anti-civilização, uma contracultura, divinamente impedida de tornar-se como as outras.

Israel será para sempre uma civilização sem escultura, sem pintura, sem teatro – uma cultura inteira sem belezas distraídas, lascivas ou arbitrárias. Todas as suas manifestações artísticas (por exemplo, musicais e arquitetônicas) serão religiosas, e por fim até mesmo isso será tirado dela, porque a história sequestrará para si o Templo e a própria cidade da divina habitação.

No final, Israel só terá um livro (isto é, uma memória) ao redor do qual construir e sustentar a sua identidade. Enquanto os impérios ao redor levantam escolas arquitetônicas, deitam filosofias, dividem espólios, aperfeiçoam as artes plásticas e refinam as artes da urbanidade, Israel se manterá um país imaterial de verbos e de letras, uma cultura de interpretações e de memórias.

E finalmente, quando a narrativa deixa claro que Israel já se reconciliara com o seu destino e já reconhecia a si mesmo como o povo do livro e como a civilização da palavra, a contracultura bíblica chega ao seu apogeu no Novo Testamento, quando até mesmo essa singularidade é rejeitada em favor… da mera existência.

“A Palavra se fez carne” é (literalmente) a última palavra da tradição bíblica em sua polêmica contra a civilização. O entendimento de que Jesus é a palavra de Deus encarnada representa o esvaziamento final de significado, a pá final de terra na trincheira divina contra a sofisticação e os supostos confortos da vida civilizada. Se até mesmo o verbo tornou-se carne, o último grande valor da cultura de Israel, isto é, sua familiaridade e seu apego com a palavra, é negado, esgotado e tornado obsoleto.

A Bíblia é essa grande obra de anarquismo e de contracultura, e seu sonho é desiludir o ser humano das supostas seguranças e méritos da vida civilizada. O que nos parecem seguranças e conquistas, advertem-nos os idealizadores da Bíblia, não passam de discursos, e todos os discursos escravizam e matam. Para ser salvo o homem deve ser de carne, isto é, manter-se livre – ao mesmo tempo acima e abaixo do regime dos discursos.

É isso, finalmente, o que fazem os que foram tocados pela implacável lucidez do Espírito no Pentecostes: despem-se da civilização, negam o mérito de tudo que tinham e abraçam uns aos outros sem critério que não seja o fato de serem gente de carne. Abrem mão das ambições usuais para tornarem-se pastores de si mesmos e uns dos outros, e entendem que não há destino mais elevado: que não há destino mais simples e humano e portanto mais divino.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O eleito



Ricardo Gondim
Às vezes, querendo isolar-me e meditar, caminho por alamedas de antigos cemitérios. Reconheço a excentricidade. Mas não há nada mórbido ou sinistro em mim.  Ali, diante da mais crua realidade, sou colocado cara a cara com a vida, sem evitar a finitude dos meus anos. Bom lugar para repensar prioridades.
Nessas andanças, vejo sepulcros antigos, semidestruídos, e imagino o que deve ter acontecido àquela família para deixar o mato tomar conta do que já foi um lugar sagrado. Procuro ler as placas gravadas em granito que se esfarelam.  Divago sobre nomes moldados no bronze, que agora se apagam. Ali não há referência ao que viveram ou sofreram. São apenas nomes, mera conjunção de apelidos que identificam uma pessoa condenada a sumir.
No cemitério, acordo para o desejo de não ser esquecido. Todos sofremos com a ideia de  não passarmos de mais um no oceano humano. Choramos no dia em que a luz nos encandeou pela primeira vez. Quando nosso grito atraiu a atenção dos que assistiram ao parto,  começamos a acreditar que nos tornamos o centro do universo. A praça central da Galáxia passa a ser o lugar onde estivermos. Do peito que nos alimentou, sugamos mais que comida, nos alimentamos da autoestima que nos deixa convictos: o universo existe por nossa causa.
Daí, gastamos parte da existência a imaginar que deve existir algum tipo de eleição que nos distingue. Fantasiamos haver alguma lista com os especiais. Nos iludimos, sonhando que a confluência dos astros, as rodas do destino ou os olhos de Deus nos singularizam. Fazemos de nossa história o eixo do mundo. E sempre que alguma coisa nos suceder, suspeitamos: os vetores das estrelas se encaixaram para que algum milagre nos alcançasse.
O conceito de eleição está presente tanto nas mitologias como nas narrativas bíblicas. Narciso foi galardoado com beleza. O sacrifício de Abel foi aceito e o de Caim, rejeitado. Jacó, a despeito de sua falta de ética, ganhou a primogenitura – Esaú acabou descartado. Samuel marcou um x nas costas de Davi como o estimado de Javé. Além dos textos religiosos, a história também esteve repleta de poetas, literatos, cientistas e políticos que acreditaram na ideia de que Deus, a vida, o destino ou qualquer outra força os predestinou. Eles não se viam cotidianos, banais, ordinários. Pelo contrário, acharam que os outros mortais deviam se sujeitar aos códigos que escreveram.
Em Crime e Castigo, Dostoievski separa a humanidade em ordinários e extraordinários. Os extraordinários seriam homens e mulheres que ganham o direito de fazer e acontecer na história. Eles, contudo, não sofrem as penas que os outros estão sujeitos. Só os comuns precisam agir dentro da lei; obedecem ao superego (superego é por minha conta – tal conceito não existia nos tempos de Dostoievski); não podem deixar de moldar-se às exigências morais do tempo em que vivem.  Aos eleitos, predestinados, escolhidos, ungidos, a lei sempre abre enormes exceções. Os insignes podem tudo.
Lutamos desesperadamente para não nos vermos reduzidos a uma placa corroída em algum cemitério. Religiosos sistematizam teologias para ensinar que, mesmo na hostilidade da vida, Deus tem sua casta.  Esses, custe o que custar, desfrutarão as delícias infindáveis do Paraíso. A indústria do entretenimento também escolhe reis e rainhas. Não valem para os ídolos da música, futebol ou cinema as mesmas cercas impostas às massas. Políticos se sentem triplamente eleitos: O Eterno os guindou à posição de mando, o povo homologou a providência divina e a Fortuna os brindou com benesses.
Acreditar-se eleito é maldição – em qualquer circunstância. Os eleitos de Deus se condenam à soberba – e empáfia antecipa a queda.  Os ungidos sociais não têm como evitar olhar os excluídos com pena, de cima para baixo. Os afilhados do sistema econômico acabam se alienando da simplicidade – onde a vida realmente acontece. Não há nada mais irritante do que conviver com a vaidade de quem se acha dono de uma inteligência acima da média.
Os maiores carniceiros da história se viram eleitos. Enquanto o verdadeiro Ungido de Deus abriu mão da prerrogativa de ser único para irmanar-se a escravos, pobres e destituídos. Todo e qualquer sistema que rodopia em torno de “raça eleita”, de “povo especial” ou de “cultura sagrada” se tornará opressor. As barreiras que separam homens de mulheres, senhores de escravos, judeus de gentios, pobres de ricos, merecem ser implodidas.
O universo não se expande seletivamente. Existe contingência. Acaso e aleatoriedade esvaziam a percepção de necessidade cármica. Na narrativa bíblica, Deus faz com que sol e chuva venham, e não faz acepção de pessoas. A graça divina não privilegia, seu amor não particulariza e sua misericórdia despreza causa e efeito. Para os que acreditam no destino, convém lembrar: ele é cego, incapaz de nomear favoritos. E para os que seguem o zodíaco: a confluência astral atinge de baciada, sem distinguir quem é quem entre os que chegam ao mundo naquele mesmo instante.
Religião tem o dever de divulgar o fim do individualismo, do egocentrismo,  do personalismo. Filosofia não pode deixar de propagar a irmandade das nações. E para os que lutam na política, vale insistir: não há ética mais nobre que diminuir a brecha entre apaniguados e desprezados.
Querer fazer-se predileto é apequenar-se. Ambicionar ascender é cair. Cobiçar exceder ao restante da humanidade é minguar. Todo ufanista é pobre. Mal percebe que em um futuro não muito distante, algum caminhante passará por sua cova  e não vai notar que ali jaz um predestinado – que imaginava trazer o rei na barriga.
Soli Deo Gloria

domingo, 5 de fevereiro de 2012

SEXTO PASSO: Sensualize a sua espiritualidade


Paulo Brabo - Bacia das Almas

Sensualizar.
Tornar(-se) sensual.
Sensual.
Relativo aos sentidos ou aos órgãos dos sentidos.
Os últimos serão os primeiros.

Os cinco primeiros passos que examinamos neste panfleto estão inevitavelmente maculados por intelectualização. Quero dizer com isso várias coisas.

Em primeiro lugar, que a pessoa que se deparava com Jesus nos seus dias “mortais” não era impactada de qualquer modo direto ou natural pelo teor desses passos. São necessários observação e algum treinamento intelectual para abstrair-se a partir do que sabemos do comportamento de Jesus fórmulas gerais como “faça o que os outros não esperam” (segundo passo) e “viva inteiramente inserido no seu mundo” (quarto passo). E Jesus, como se sabe, impactou de forma transformadora gente que teve muito pouco tanto de uma coisa quanto de outra: pessoas pouco instruídas e pouco armadas de recursos intelectuais, muitas das quais estiveram com ele por pouco mais do que alguns minutos.

Não ocorreria aos que seguiam Jesus de um vilarejo a outro articular a postura dele com o vocabulário intelectual que temos adotado: era afinal de contas muito visível que o próprio Jesus não o fazia. Ao contrário dos gnósticos que apropriaram-se do seu nome nos anos que se seguiram, Jesus recusava-se a ensinar que a salvação estivesse relacionada a algum conhecimento específico sobre o mecanismo de Deus, do universo ou mesmo da salvação. Na verdade, parte essencial da originalidade do pensamento do Filho do Homem está na sua ênfase de que não há qualquer mérito no conhecimento intelectual, e que o acesso ao favor de Deus não depende de modo algum dele.

Concluo que, qualquer que seja o esquivo cerne da mensagem do Filho do Homem, seria heresia pensar ou sugerir que esteja em algum dos pontos que temos discutido. Os “passos” que analisamos até aqui são abstrações, meras tentativas intelectuais de representar a realidade. Por mais radicais e originais que pareçam, são uma forma de teologia e por essa razão necessariamente limitados, contendo em si mesmos a semente de sua contradição.

Jesus, ao contrário de nós, jamais cedeu às tentações da teologia, do método, da exposição linear. Não só isso (o que parecerá para alguns ainda mais singular): ele recusava-se a credenciar até mesmo o discipulado da forma como o concebemos, tendo dito mais vezes “vá para a sua casa” do que “venha me seguir”.

Onde então se escondia o cerne mais essencial do método e da missão do andarilho de Nazaré? De que forma Jesus tocou gente que não tinha tempo ou bagagem para saber interpretar o que ele estava dizendo?
A resposta acabo de dar. Jesus tocou gente.

Para seguirmos o que penso ser o traço mais singular e essencial do caráter do Deus dos evangelhos é preciso que aprendamos a sensualizar a nossa espiritualidade. É preciso que passemos a procurar a espiritualidade no mundo sensorial, no mundo real, o mundo da experiência e dos sentidos. É preciso que passemos a ver nosso relacionamento com Deus e nossa participação no seu Reino como algo que diz respeito ao que é palpável e material, ao mundo da pele, da carne e do sangue.

Vivemos como cristãos esmagados por uma obsessão espiritualizante. Lemos a Bíblia, mas mantemos os olhos fechados para a revelação a que as narrativas dos evangelhos parecem dar maior ênfase – que, incrivelmente, inquietantemente. Jesus exercia (e portanto enxergava) a sua espiritualidade na esfera do toque, da visão, da companhia, da presença, do sabor, da voz, dos elementos, da comida, da natureza, do abraço.

A nota central dos evangelhos está em que Deus fez-se, assombrosamente, carne. Submeteu-se voluntariamente ao sangue, ao envelhecimento, ao suor, à bílis, aos gases, à urina, ao sêmen, à saliva, às fezes. Submeteu-se ao hálito de outros, ao toque de estranhos, ao abraço de amigos, ao açoite de antagonistas.

Deus fez-se carne. Em absoluto contraste com ele, tudo que fazemos como cristãos, tudo com que nos ocupamos e rotulamos de espiritualidade, é para disfarçar a carne que somos. Jesus aprendeu a viver na carne e mostrou notável desenvoltura dentro dela; em contraste com ele, sentimos que a carne nos incomoda, nos constrange, nos envergonha.

A carne é embaraçosa. O fato de vivermos constantemente sujeitos à doença, à fome, à dor, à solidão, à decrepitude, ao ciclo digestivo, à morte e outras vergonhas inerentes à nossa condição pode produzir em nós uma implacável ojeriza contra a carne. Nosso escape para esse fastio, somos levados comumente a crer, está na espiritualidade convencional – espiritualidade que é forjada para demonizar o corpo e seus embaraços e pregar que Deus só pode ser experimentado nas esferas supostamente superiores da mente, do escape da realidade, dos olhos fechados, da privação dos sentidos.

De fato cremos que o momento espiritual acontece enquanto o orgão está tocando; a pizza que virá depois não é espiritual. Orar antes de dormir é espiritual, levar o lixo para fora não. O côro de anjos é espiritual, a roda de samba não. Dar o dízimo é espiritual, oferecer a alguém um chiclete não. Ler a Bíblia para o velho cego é espiritual, dar-lhe banho não. A vida devocional dos namorados é espiritual, seu beijo não.

Jesus, estou crendo, apostaria no contrário em cada um desses casos. Estou cada vez mais convencido, com Jacques Ellul, que a revolução espiritual é mais material, mais palpável em seu caráter do que qualquer outra.
Jesus não ignorava os embaraços da doença, da fome, da dor, da solidão, da decrepitude, da morte, do ciclo digestivo; muitos desses atingiram-no em cheio na própria carne. Ao contrário de nós, no entanto, Jesus não buscava refúgio dessas coisas num mundo dos espíritos à prova de constrangimentos. Ele não caía na tentação da espiritualidade convencional e isso, aparentemente, é o que mais teimamos em não aprender com ele.

Jesus fazia o trajeto precisamente contrário ao nosso, avançando com galhardia em direção à experiência dos sentidos, tendo dedicado a maior parte de sua atividade neste mundo ao esforço de minimizar os constrangimentos produzidos em pessoas de carne pela fome, pela doença, pela dor, pela decrepitude, pela solidão.
JESUS TRATAVA PRIMORDIALMENTE COM CORPOS, NÃO COM ESPÍRITOS.
No que pode nos parecer escandaloso, Jesus deixava claramente a impressão de que estava tratando primordialmente com corpos, não com espíritos. Ele tinha histórias para contar, verdades a ensinar e revelações espetaculares para fazer, mas seu dia-a-dia e sua agenda permaneciam entranhados no domínio do corpo e da experiência dos sentidos – de pessoas que precisavam de cura, de pessoas que precisavam de comida, de pessoas que precisavam andar, de pessoas que precisavam de sexo, de pessoas que precisavam de visão, de pessoas que precisavam de companhia, de pessoas que precisavam de trabalho, de pessoas que precisavam de dinheiro, de pessoas que não queriam morrer.

O Filho do Homem não apenas recusou o ascetismo de João Batista, ele ensinou da maneira mais espetacular que Deus é encontrado e vivido no reino das pequenas coisas, no domínio vulgar da carne e dos sentidos. O Deus encarnado era um homem que bebia vinho, que assava peixe, que colhia figos, que tocava leprosos, que cuspia na terra e fazia lodo, que colocava a mão no prato de molho, que pedia água, que deixava uma mulher massagear-lhe os pés, que deixava um homem recostar-se no seu peito, que sentia medo e dor e sangrava e podia morrer.

Nossa satânica fantasia como cristãos é passarmos pelo mundo à margem de todas essas coisas, desencarnados como fantasmas, vivendo momentos de espiritualidade em número suficiente para redimir os constrangimentos que nos impingem o corpo e os sentidos. Não queremos de modo algum enfrentar o terrível embaraço de que somos feitos de carne e osso.

Tentamos a todo custo escapar daquilo que a Bíblia não esconde em página alguma: que a carne é essencialmente animal. Preferiríamos não ter admitir, avançados que somos na comunhão divina e na experiência do Espírito, que não somos menos animais do que uma barata, um lêmure ou uma sucuri.

“O Verbo se fez carne” traduz-se por “Deus fez-se animal”; nós, se tivéssemos escolha, apagaríamos por completo a porção corpo/carne/sentidos da nossa experiência. Sentimos que se isso acontecesse estaríamos finalmente livres para desfrutar da espiritualidade plena. Adiamos a nossa espiritualidade definitiva para quando acontecer.
* * *
Esta hesitação em abraçar a carne é, naturalmente, antiga na história do impacto da persuasão de Jesus sobre as pessoas. A carne de Jesus representou grave escândalo tanto para judeus quanto para gregos, as duas grandes facções do mundo atingidas pela boa nova no tempo dos primeiros cristãos.

Para os romanos, devidamente adestrados pelos gregos, o escândalo essencial da boa nova de Jesus não era a divindade ter morrido na cruz a fim de resgatar a alma. Deuses que encarnavam e expiações tendo em vista a redenção do espírito eram lugar-comum nas religiões de mistériomuito antes do cristianismo entrar em cena. O escândalo não era, tampouco, o espírito de Jesus ter sobrevivido gloriosamente à morte. Sócrates, via Platão, já havia se desdobrado para demonstrar por A + B que a alma humana é eterna e impermeável à morte.

O impensável, para gregos e romanos, estava no fato do corpo de Deus ter sido redimido: o fato de Jesus ter adentrado a glória em forma corpórea, prometendo o mesmo destino aos seus seguidores.

Na visão de mundo greco-romana o espírito era uma chama imortal desgraçadamente presa dentro de um vaso mortal. Para os gregos, o espírito era puro e inefável, o corpo impuro e irredimível; o espírito era bem-intencionado e puxava o homem para o alto, o corpo era corrupto e puxava o homem para baixo; o espírito era por definição indestrutível, e o destino mais honroso a que a carne podia aspirar era a dissolução.

Imbuídos dessa convicção, os atenienses ouviram muito interessados o discurso do Apóstolo no Areópago, até que Paulo mencionou a ressurreição do corpo – ponto em que perceberam que a doutrina daquele sujeito não merecia mais do que zombaria e desprezo. Aqueles esclarecidos atenienses, mais ou menos como nós, não criam que houvesse no corpo e na carne qualquer coisa com vocação à redenção ou à eternidade.

Já para os judeus, que viam a carne como obra de Deus e criam na redenção futura do corpo e da criação, o escândalo estava em ver Deus confinado aos limites da sua própria obra – como um dramaturgo que condescende em descer ao palco, um pintor que rebaixa-se voluntariamente a pincelada. O que era ainda pior: esse homem que sugeria ser a encarnação de Deus repudiava o ascetismo (popularmente associado à espiritualidade) e abraçava o mundo dos sentidos com exuberância, com paixão, com vertiginoso ardor. Atracava-se a gente, consertava corpos, alimentava estômagos, lavava pés, beijava seus amados, tremia de tensão e de exaustão, não recuava diante da mais constrangedora e sensorial manifestação de afeto. Que Deus se rebaixasse a homem já era bastante ruim; que o homem-Deus se refestelasse na carne – que afirmasse a carne ao invés de negá-la, era afronta terrível.

Dois mil anos depois cá estamos nós, nem judeus nem gregos mas algo infinitamente menos acabado, aspirando petulantemente a seguir os passos empoeirados do Filho do Homem – o impensável “Deus conosco”, o encarnado, o Deus que assumiu “condição de homem”.

E que fazemos? Com recato estúpido, pecaminoso e contraproducente negamos hoje a carne de Jesus e a nossa. Os mesmos cristãos que recusam-se a admitir a possibilidade de descenderem do macaco não trazem à mente que Deus em Jesus conformou-se, disparatadamente, à condição de primata.

Queremos que as pessoas “conheçam Jesus” através da assimilação intelectual do nosso discurso, e nunca pelo intercâmbio de caminhadas e pelo choque custoso entre corpos. Não queremos de modo algum traficar com a carne, porque não queremos que Deus trafique através dela. Esquecemos, miseravelmente, que a natureza divina de Jesus não estava escondida na sua carne. Estava manifesta nela.

Essa nossa infantil negação da carne nos torna, entre outras coisas, companhia insuportável para todos ao nosso redor, e ainda para nós mesmos. Vivemos como se a espiritualidade (como se a verdadeira vida!) fosse terreno exclusivo do incorpóreo e do intelectual – da oração, da devocional, da meditação, do discurso, da leitura. Fora raras exceções determinadas por um emocionalismo arbitrário, não conseguimos ver nenhuma espiritualidade num abraço, numa caminhada pela praia, num jogo de cartas, numa escalada, num café, numa churrascada, numa flor, num pedaço de pão, na mão de um amigo, numa dor de dente, nas pessoas que estão com você na casa de praia.

Isso enquanto o testemunho do homem-Jesus proclama em altos brados, de sua pedra de escândalo do Novo Testamento, que não há exceções à universal santidade das relações da carne com o universo. Deveríamos andar descalços todo o tempo, pois somos terra santa.

Jesus não apenas tolerou a carne. Ele não apenas rebaixou-se à carne e por certo não aboliu: Jesus a redimiu.
Somos constantemente ensinados sobre a importância de morrer e ressuscitar como Jesus, mas – ai de nós – não há quem nos ensine a encarnar

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