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domingo, 10 de junho de 2012

O Segredo do Sucesso

Fonte: A Bacia das Almas

Já li mais livros sobre técnicas de administração, gerenciamento de pessoas e sucesso corporativo do que meu estômago pode suportar impunemente; cheguei, perdoem-me os céus, a traduzir alguns. No meio desse lodaçal de mediocridade e redundância a exceção mais brilhante permanece sendo (não julgue o livro pela capa – ou pelo título) Consultoria - O Segredo do Sucesso, de Gerald M. Weinberg (The Secrets of Consulting, publicado no Brasil pela McGraw Hill em 1990, esgotado).

Weinberg é um cara peculiar. Consultor de tecnologia da informação, sua curiosa especialidade (se é que posso atribuir-lhe essa falha; a especialização é sempre uma desvantagem, particularmente num consultor) é a psicologia e a antropologia do desenvolvimento de software. Mais recentemente Weinberg abandonou a estante de não-ficção e começou a escrever histórias de ficção científica, argumentando que a narrativa é a forma mais poderosa de comunicação e de transformação entre seres humanos.

Como descrever o estilo do sujeito? Fluente? Bem-humorado? Xamânico? Tangencial? O subtítulo original de O Segredo do Sucesso explica um pouco melhor a pegada universal do estilo de Weinberg: Um guia para se dar e se receber conselhos de forma bem sucedida.

Consultor é o improvável profissional que recebe dinheiro para dar conselhos a empresas. À primeira vista, pode parecer que o segredo do sucesso do consultor está em ser capaz de [1] diagnosticar com acerto a condição de uma instituição e [2] delinear as recomendações adequadas para reverter ou aprimorar essa situação. Segundo Weiberg, essa é a parte fácil. Difícil mesmo, e particularmente arriscado para a reputação do consultor, é [3] fazer com que a empresa implemente as mudanças que você afirma que são necessárias.

CERTIFIQUE-SE DE COBRAR O BASTANTE PARA QUE COLOQUEM EM PRÁTICA AS SUAS RECOMENDAÇÕES.

Uma das regras essencias da consultoria segundo Weinberg é, portanto “certifique-se de cobrar o bastante [como consultor] para que [aqueles que estão contratando você] coloquem em prática as suas recomendações”. Caso contrário, se o serviço do consultor não parecer “caro o bastante” para aqueles que o estão contratando, esses poderão sentir-se tentados a não levar a sério as sugestões dele – pelo menos não ao ponto de fazerem o esforço final de colocarem-nas em prática.

Ser barato demais é, portanto, pecado mortal para a reputação e para a eficácia de um consultor. Ele corre o risco de não ver implantadas as soluções que sabe necessárias. Quando estiver vendendo conselhos portando, vale a regra: na dúvida, cobre mais caro.

* * *

Nisso está, naturalmente, o mecanismo segredo do sucesso das religiões que aliam promessas atraentes a regras rígidas, padrões exigentes de comportamento e rituais elaborados e repetitivos. Quanto maior for o preço comportamental exigido pela religião, maior é a probabilidade de que o cultuante sinta-se inclinado aacreditar nas suas sugestões.

Quando for inventar uma religião, portanto, certifique-se de cobrar o bastante para que as pessoas que estão pagando em renúncias pessoais e ofertas monetárias acreditem nos conselhos que você está dando.

Aqui reside, obviamente, a falha fundamental no planejamento de marketing do cristianismo: o fato de estar fundamentado na graça– ou seja, em preço nenhum. Como Jesus não cobra nada, ninguém sente-se nem de perto tentado a levar a sério o que ele diz – quanto mais colocá-lo em prática. O barato sai caro, porque ninguém quer comprar.

Melhor seria para os cristãos, antes que nos vejamos obrigados a fechar a porta da lojinha, contratar um consultor que nos ensine a vender por bom preço o que Jesus está oferecendo de graça. Afinal de contas, será com a melhor das boas intenções: Jesus terá os convertidos que quer, o crente será poupado da liberdade que não quer e nós idealizadores desfrutaremos apenas da recompensa pecuniária pela nobreza dos nossos esforços.

Todo mundo sairá ganhando – se isso não é graça, não sei dizer o que é.



geraldmweinberg.com

Leia também:

Porque as religiões rígidas prosperam



sábado, 9 de junho de 2012

E onde entra o “Deus Todo Poderoso” nisso?

Liesel Hoffmann, no blog Deutsch Brasilien

Email que recebi de um evangélico.

Olá, amigos. Recebi um email hoje que me deixou curiosa. Um rapaz brasileiro questionou meu texto Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nele, que gerou várias visitas ao meu blog. Apesar de ele se identificar com nome, cidade onde mora e igreja que frequenta, não vou divulgar essas informações. Veja apenas o email que recebi e minha resposta:

Prezada Liesel,

Li seu texto com uma certa apreensão em meu coração. Sua forma de se referir ao Deus Todo-Poderoso é um tanto blasfema. Entendo que você passou por um momento delicado, mas nada disso nos dá a permissão de pedir que Deus saia de nossa vida. Ele é o dono da vida. Além do mais, as conclusões a que você tem chegado são erradas e irão te levar a um caminho distante do Todo Poderoso. Ele tem o controle sobre tudo o que acontece sobre nossas vidas, pois não cai uma folha de uma árvore sem a permissão dele, e foi Ele quem permitiu a morte do seu irmão. Se Deus permitiu que isso acontecesse é porque ele tem um propósito maior em sua vida. Se abra a esse propósito de Deus e ele te encherá de poder. Em Cristo somos muito mais que vencedores, e ele pode te fazer vencedora, se você seguir os caminhos dele. E muito cuidado com as pessoas e livros que você tem lido. Ao invés de beber de fontes duvidosas te recomendo ler a Bíblia, a Santa Palavra de nosso Deus. Nela você encontra tudo que precisa, pois ela é “lâmpada para nossos pés e luz  para nossos caminhos”. 

Se ainda assim quiser ouvir pregações ungidas te recomendo o Pastor Silas Malafaia, ou o apóstolo René Terra Nova. Eles sim são homens de Deus, líderes de igrejas ricas e abençoadas, que poderão te abrir a mente para o Deus da Bíblia, o deus de Abraão, Isaque e Jacó. 

Oro para que deus te conduza ao caminho eterno. Paz do Senhor!

Minha resposta:

“Querido,

Não sei quem são os pastores que você me indicou, mas se eles anunciam a mesma mensagem que você tentou me passar por email eu prefiro nem conhecê-los. Eu cresci ouvindo tudo isso que você disse e de nada me serviu. Sabe qual a sensação que eu tinha quando ia à igreja luterana? A sensação de que tudo aquilo era vazio, pois nada faz sentido. Que sentido faz para uma pessoa dizer que é “mais que vencedora” sendo que ela sabe que não é?

Tudo isso me soa como um discurso pronto, repetido apenas para manter presas à religião pessoas que precisam de uma resposta rápida e fácil para problemas complicados. É mais fácil dizer que “deus sabe de tudo” do que tentar chegar ao motivo do problema.

E uso como exemplo uma realidade brasileira: uma pessoa que morre no atendimento de um hospital por má vontade de alguém ou incompetência do governo é mais que vencedora em que? Muito pelo contrário, essa pessoa e a família podem se considerar derrotadas pelas circunstâncias.

E onde entra o “Deus Todo Poderoso” nisso? Acreditar num Deus que controla cada detalhe da sua vida e tem o poder de mudar cada acontecimento, obedecer à regras um tanto confusas com a intenção de não causar a ira desse Deus, mas que te abandona na hora em que você mais precisa dele é motivo o suficiente para o ateísmo. E foi o que vinha acontecendo comigo.

As “fontes duvidosas” que você se referiu são na verdade uma forma diferente de ver a religião, minha última tentativa antes de chegar à conclusão de que realmente não existe Deus nem mundo espiritual. E gostei do que venho lendo e ouvindo, pois faz sentido com a vida.

Penso que uma forma de analisar se a mensagem religiosa é correta ou não é ver se ela faz sentido com a vida. Ouvir mensagens que podem ser muito bonitas dentro da igreja, mas que na rua não fazem o menor sentido é perca de tempo, na minha opinião.

Prefiro algo que faça sentido com a vida pessoal, que eu possa aplicar no meu trabalho, quando saio com meus amigos para tomar cappucino, quando estou no metrô ou quando preciso ir ao banco. E o que tenho aprendido faz sentido com a vida.

Mas mesmo assim agradeço seu email. Sei que sua intenção foi boa, principalmente porque você me mandou o email com sua identificação, o que é algo diferente num mundo virtual onde as pessoas usam o anonimato para iniciar discussões, mas infelizmente não consigo mais acreditar nessa mensagem, apesar de respeitar sua crença. Obrigada por tentar ajudar.

Abraços, Liesel”

Fonte: Pavablog

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Direto ao Ponto - Pecados Sociais

 



Fonte: Betesda TV

A catástrofe do Fim do Mundo


fonte: A Bacia das Almas

Então, se alguém vos disser:

“Eis que o Cristo está aqui”, ou “ali”, não lhe deis crédito.

Mateus 24:23

Quando não está falando e dando evidência da formidável proximidade do Reino de Deus, o Jesus dos evangelhos está apregoando o Fim do Mundo, inescapável catástrofe universal através da qual o Reino será finalmente instaurado e a glória finalmente alcançada - ou, para usar a expressão do próprio em Lucas 17:30, evento através da qual o Filho do Homem será revelado.

O FILHO DO HOMEM SERÁ REVELADO.

Porque se levantará nação contra nação, e reino, contra reino. Haverá terremotos em vários lugares e também fomes.

Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai, ao filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão. Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.

Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo que Deus criou, até agora e nunca jamais haverá.

Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade,

as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.

Então verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória.

Marcos 13:8, 12-13, 17, 19, 24-26

Essa escolha de palavras, retomada em seguida pelos apóstolos, parece sugerir que tanto o Reino quanto a glória do Filho do Homem já estão de alguma forma oculta entre nós (afinal de contas, “o Reino de Deus estápróximo” refere-se no grego original mais ao espaço do que ao tempo). O Fim do Mundo seria a última reviravolta no roteiro do filme, o estertor inevitável que tornaria patente a esquiva verdade essencial que uns poucos intuem e apenas parte do tempo.

De longe a forma mais comum de se interpretar a imagem do Fim do Mundo é como um evento literal no mundo físico – série ordenada de cataclismas universais mais ou menos sincronizada com a volta prometida de Jesus num futuro iminente.

Trata-se, como se sabe, de um futuro que tem permanecido iminente por pelo menos 2000 anos. A história compila uma espetacularmente longa relação de predições furadas sobre a data do apocalipse – muitas das quais apenas o futuro será capaz de demonstrar que são falhas.

A maior parte dos cristãos contemporâneos ignora, obviamente, os detalhes embaraçosos dessa lista. Desconhecendo que a mesma obsessão e as mesmas certezas infectaram cristãos de todos os séculos, muitos escrevem, e um número ainda maior lê, obras que procuram localizar nas figuras e eventos contemporâneos os sinais dos tempos que marcam a proximidade inexorável do momento final.Desta vez - é a impressão da nossa geração, exatamente como a das que nos procederam, - desta vez não passa.

Há os que acreditam, no entanto, que para ser compreendida corretamente a doutrina do Fim do Mundo deva ser interpretada à luz da mensagem integral de Jesus sobre os mistérios do novo nascimento e da proximidade do Reino de Deus – e não como desajeitada interrupção dela.

Da forma como é entendido normalmente, o Fim do Mundo é evento espetacular mas essencialmente burocrático, que mantém intactas todas as garantias que amealhamos nesta vida. É um fim do mundo inofensivo, por assim dizer, pois apenas confirma os rótulos com que estamos familiarizados: não nos ameaça de fato e nada nos custa.

NÃO SENDO CAPAZ DE ENXERGÁ-LO, VIVEMOS NO MUNDO COMO SE O MUNDO NÃO FOSSE O REINO.

Resta, porém, a atordoante possibilidade de que Jesus estivesse usando a linguagem das expectativas apocalípticas judaicas para referir-se de forma figurada a um evento de natureza muito mais pessoal do que universal, muito mais espiritual do que tangível. Sabemos ao certo, por exemplo, que o Reino de Deus anunciado incessantemente por Jesus não é para ser entendido literalmente, como reinado terreno ( “o meu Reino”, garantiu Jesus a Pilatos, “não é deste mundo”). E se o Fim do Mundo vaticinado por ele não fosse para ser entendido literalmente? E se o o Fim do Mundo a que Jesus se refere não for, no fim das contas, “deste mundo”? E se, para que possamos “ver o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória”, for necessário que nossa vida seja formidavelmente transtornada por uma impensável transmutação pessoal? E se tiver de ser o nosso sol interior a escurecer, e as estrelas do nosso céu a cair? E se o requerimento para vermos a glória do Reino for o reviramento e a aniquilação do nosso mundo?

Três citações para adoçar a possibilidade.

* * *

Um dos grandes temas do judaísmo e do cristianismo é o Fim do Mundo. Qual é o significado do Fim do Mundo? O sentido literal é que haverá uma terrível calamidade cósmica e o mundo físico terá fim. Esse, sabemos, é o sentido literal. Qual é o sentido figurado do Fim do Mundo? No capítulo 13 do evangelho de Marcos, Jesus descreve o Fim do Mundo como uma ocasião terrível, em que fogo e enxofre consomem a terra. “Melhor não estar vivo nessa ocasião”, ele diz, e diz também: “Essa geração não passará sem que essas coisas aconteçam”.

[. . .] Ora, no evangelho gnóstico de Tomé, Jesus diz: “O Reino do Pai está espalhado sobre a terra, e as pessoas não o enxergam”. Não sendo capaz de enxergá-lo, vivemos no mundo como se o mundo não fosse o Reino. Enxergar o Reino é o Fim do Mundo.

Joseph CampbellThou Art That

* * *

O ego está destinado a dissolver-se, e com ele todas as estruturas fossilizadas; quer sejam instituições religiosas, corporações ou governos, desintegrar-se-ão a partir de dentro, não importa o quão entrinecheiradas aparentem estar.

Ego não é nada mais do que isso: identificação com a forma. Se o mal tem alguma realidade, essa é a sua definição: completa identificação com a forma – formas físicas, formas de pensamento, formas emocionais. O resultado é uma total ignorância da minha conexão com o todo, da minha intrínseca unidade com cada “outro” bem com com a Fonte. Esse esquecimento é pecado original, sofrimento e engano. Quando essa ilusão de completa separação domina tudo que penso, digo e falo, o que acontece? Para saber a resposta observe como os seres humanos relacionam-se uns com os outros, leia um livro de História, assista o noticiário da noite.

Se as estruturas da mente humana permanecerem inalteradas, acabaremos sempre recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, os mesmos defeitos.

Uma profecia da Bíblia [. . .] fala da aniquilação da presente ordem do mundo e do surgimento de “um novo céu e uma nova terra”. Devemos entender que o céu não é um local no espaço, mas refere-se ao domínio interior da consciência. A terra, por outro lado, é a manifestação externa da forma, que é sempre reflexo do que está no interior.

Portanto o novo céu, a consciência despertada, não é um estado futuro a ser alcançado. Um novo céu e uma nova terrra estão surgindo dentro de você agora mesmo. O que Jesus disse aos seus discípulos? “O céu está aqui mesmo entre vocês” (Lucas 17:21).

Eckhart TolleThe New Earth

* * *

O Fim do Mundo não é um evento cataclísmico de cujo terror punitivo e final nos aproximamos cada vez mais. O Fim do Mundo acontece diariamente para aqueles cuja percepção espiritual permite que enxerguem o mundo como ele é, transparente para a transcendência: um sacramento de mistério, ou, como escreveu o poeta William Blake, “infinito”. O Fim do Mundo é, portanto, metáfora do nosso começo espiritual ao invés de imagem do nosso final implacável e ardente.

Eugene Kennedy, escrevendo sobre Joseph Campbell






quinta-feira, 7 de junho de 2012

Direto ao Ponto - Bíblia

 



Fonte: Betesda TV

Devolvam

Infelizmente, o mundo continua dividido entre feiticeiros e químicos, cientistas e filósofos, gramáticos e poetas. Digo infelizmente porque não foi sempre assim.

Houve tempo em que os astrônomos se enamoravam pelo piscar das estrelas, os físicos acreditavam que uma linda bordadeira havia costurado o universo e os biólogos celebravam que o ser humano respirasse, mesmo tendo sido um boneco de barro.

Houve tempo em que os jumentos falavam, as estéreis geravam filhos (extra)ordinários, os anjos matavam milhares de soldados agressores, os cajados secos floresciam e o sol parava para esperar que os mais frágeis prevalecessem na guerra.

Houve tempo em que as fadas ajudavam as órfãs, o beijo do príncipe ressuscitava a princesa do sono, os espelhos se rebelavam para responderem com honestidade e as crianças, talhadas em madeira, viravam gente.

Houve tempo em que a metáfora reinava na literatura. A copa das árvores era um cálice verde de onde respinga orvalho da manhã, a saudade, uma mulher que arruma o quarto do filho que já morreu e a alma da lua se escondia na garganta do galo que soluça seu canto na madrugada.

SÓ QUERO QUE ME DEVOLVAM O QUE ROUBARAM DE MIM.

Houve tempo em que se falava de Deus como suspiro, olfato ou paladar.

Nele, encontrávamos o colo materno, perdido desde a adolescência. Deus era pastor solitário que, sentado numa pedra, espiava suas ovelhas a pastar numa montanha distante; era o amante que abandona um harém para cortejar sua amada; era o juiz que assume a briga dos mais frágeis; era o médico que traz um bálsamo para aliviar a dor da alma; era o amigo que se achega como irmão; era o rei que anuncia a chegada de uma nova ordem; era o pai que educa seus filhos para uma existência madura e autônoma.

Houve tempo em que se liam os textos sagrados com reverência. Diante do numinoso, o mortal tremia; diante do sagrado, o pecador temia; diante do infinito, o finito se perdia, diante do eterno, o humano encolhia.

Lentamente, teólogos e exegetas, cientistas e técnicos, gramáticos e lingüistas, minaram os sonhos e fantasia dos meninos, esvaziaram a verdade dos poetas, quiseram explicar o mistério, captar a verdade, sistematizar Deus, dissecar o poema e criticar a alegoria. E conseguiram!

Eles exilaram os magos que correm atrás das estrelas; sumiram com os profetas alucinados que falam de rodas de fogo no céu; queimaram as mulheres que sentem no corpo, o êxtase do divino.

Esses assassinos da beleza, no ímpeto de explicar o impossível e mapear os rumos do Espírito, deixaram o mundo mais pobre, a fé mais segura, a oração menos incerta e Deus ficou pequeno.

Agora, quem precisar de milagre, pode dispor de hábeis evangelistas que ajudam a abrir as janelas do céu; quem tiver dúvidas, pode comprar exaustivos manuais sobre Deus; quando a vida parecer ameaçadora, é possível domesticá-la, contratando profetas de aluguel.

Minha alma, porém, anseia pela poesia que me abandone reticente; pela prosa que me ferva o sangue; pela ficção que me comova as entranhas; pelo drama que me arrepie a pele; pelos personagens que saltem dos palcos para encarnar em mim.

Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças; ainda habita onde reside a musa do poeta; ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro.

Sinto que sua habitação fica no vazio, no nada, e que sua glória se esconde numa nuvem espessa e ofuscante.

Sinto que posso perceber sua verdade no desconhecido absoluto e no inaudível, escutar sua voz.

Sinto que Deus é vento imperceptível, verdade diáfana e mistério espantoso.

Portanto, morro para o anseio de fazer análise sintática ou crítica textual dos textos sagrados. Já não invejo os apologetas, só quero que me devolvam o que roubaram de mim: a alma dos poetas, o coração dos meninos e a leveza dos bailarinos.

 

Ricardo Gondim


Fonte: A Bacia das Almas

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Carta a Gondim


D.R.

Olá pastor, admiro a sua coragem e lucidez. Romper com o movimento evangélico hoje é um ato inescapável para quem, em alguma medida, compreende e se compromete com o Evangelho. Já há muito tempo venho rompendo com essa cultura religiosa, falsamente identificada com o Evangelho. Tive passagem por duas instituições religiosas, mas sempre inclinado a uma fé não comportável no institucionalismo religioso.

Depois de algumas tentativas, no decorrer de alguns anos, somente agora percebo que realmente posso firmar o meu ministério pastoral. Bem recentemente me tornei pastor em uma pequena comunidade independente. São duas as razões que me trouxeram de volta ao ministério: a primeira foi ter encontrado um grupo de cristãos que expressa consciente interesse pelo Evangelho; a segunda razão se deu no fato desse grupo ser pequeno.

Entendo ser muito vantajoso pertencer a uma comunidade cristã pequena, pois isso parece ser uma boa condição para que se aprenda a vida comunitária e outros valores do Reino, discernindo-o daquilo que lhe opõe, isto é, daquilo que claramente se apresenta secularizado ou daquilo que, transfigurado em linguagem religiosa, emerge da cultura evangélica.

Percebo desvantajoso o disparado crescimento dos evangélicos no Brasil, pois crescem os evangélicos na mesma proporção em que decresce o Evangelho. A relevância conquistada e testemunhada no acelerado crescimento dos evangélicos se faz pela submissão à lógica desta sociedade, sobre a qual o Evangelho pronuncia seu julgamento. Trata-se de uma relevância manipulada segundo uma lógica não evangélica, em oposição a uma relevância levada a efeito pela graça. Quem se preocupa com relevância, esquece o Evangelho e produz para si uma relevância conformista. Quem se preocupa com o Evangelho, esquece a relevância e alcança graciosamente uma relevância transformadora.

Prefiro viver o Evangelho em comunidade pequena a fim de que o pequeno se torne grande antes de se tornar vultoso. É lançando sementes de mostarda que, com coisas pequenas, lentamente, planta-se coisas grandes. Uma pequena comunidade que aprende e vive o Evangelho nas pequenas coisas do dia a dia se torna bem maior do que a grande massa de uma cultura religiosa, rotulada de evangélica, escandalosamente superficial, que não sabe discernir entre cristianismo e farisaísmo, nem entre graça e mercado.

Pastor, parabéns pelo manifesto tardio, pois sei que o senhor, como eu e outros anônimos, já rompeu há bastante tempo com essa cultura religiosa denominada evangélica. (“evangélico” – mais um caro termo lançado aos porcos).

D.R.
[Preferi deixar o bom pastor anônimo]
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[Prezado amigo,
Sua carta me trouxe muita alegria.
A Bíblia afirma que boa notícia é água fresca em dia de muito calor.
Também admiro seu gesto de optar por uma comunidade pequena, despretensiosa, singela.
Saiba, você vai na contramão das aspirações comuns.
Respeito a coragem de quem opta pela simplicidade.
Reverencio quem admite a necessidade de repensar pressupostos.
Nosso dever de casa é maior do que imaginamos.
As pedras de arranque de nossa teologia, presumíveis fundamentos, carecem de crítica.
Não tema pensar.
Ouse poetizar.
Vá às fronteiras.
Lá, onde os conservadores dizem estarem as fronteiras da heresia, você encontrará o espaço da criatividade.
Abraço

Ricardo Gondim


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