terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As Fogueiras do Reino

Elienai Jr - Blog

O melhor e mais importante de nossa história resulta dos planos que não deram certo. E esta é a descoberta que nos atordoa e redime.

Em um mundo de liberdades, o incerto e o imprevisível criam o espaço mais doloroso, e mais rico. Naquilo em que nos tornamos, somos desenhados, com uma freqüência surpreendente, pelas linhas oblíquas de nossos projetos frustrados.

Ele desfila expectativas, propósito e determinação nos caminhos que inauguram seu Reino. É possível ver em seus olhos o foco intransigente de quem acredita com força e urgência em sua utopia. E para toda utopia há uma estratégia tão rigorosa quanto crédula. O Reino virá agora, eis sua paixão. Israel, reinventado, inaugurará a política que salvará o mundo e a Torá, reinterpretada, encantará as nações da Terra. Para uma nova política, um novo rei. Para uma nova religião, uma nova pedagogia.

A fé encontrará novos sentidos, frutos de uma leitura imaginativa e de uma pedagogia que dialogará com o mundo concreto. As parábolas recontarão a história da humanidade.

O tempo é fermentado pelos que tem fome e sede de justiça. Os que choram inspiram uma nova pregação. Os pobres enfileiram os que tomarão com a força de sua necessidade o destino dos povos. Os mansos darão o ritmo dos que sobreviverão para herdar a Terra. Eis o novo Reino e sua bem-aventurança!

Só esta ingênua determinação explica o deslize deselegante com aquela desgraçada. Desesperada, mas sirofenícia. E este era seu defeito. Persegue Jesus e os discípulos aos gritos. Fresca na memória a advertência de que sua missão era com os filhos de Israel, aqueles pedidos incomodam mais do que deveriam. Mas a mulher teima como insistente é sua tragédia. Tem uma filha possuída pelas forças do mal. Seu grito é finalmente silenciado por uma truculenta, mas previsível resposta. O pão da mesa é dos filhos e não dos cachorrinhos.

Os que não carregam a oportunidade estratégica da etnia terão sua vez, mas não agora. Ele acredita que um novo mundo virá depois de uma nova etnia. Mas a réplica de uma mãe histérica é a fissura inevitável na lógica encantada pelo grande plano. Os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa. Logo se descobrirá que aquela piedosa mesa, tão fartamente servida, jamais saciará. O sentido da revolução pretendida por Jesus não será o do farto pão à mesa, mas o das involuntárias migalhas. Do chão dos esquecidos. Dos que carecem. Dos que estão à margem. Só eles poderão entender o evangelho. As migalhas no chão saciarão mais que o pão na mesa.

Aquele instante é ainda a réstia da grande luz, que iluminará pela dor da decepção um novo horizonte para seus empenhos.

Não foi preciso muito tempo para ver seus planos esbarrarem nas estruturas adoecidas da política e da religião e descobrir seu projeto como remendo novo em pano velho, vinho novo em odres velhos. Assistir àquele a quem mais se admira com a cabeça presenteada em uma bandeja de prata expôs a desproporcional força e patética dos que amam o poder. Os espaços do mando sempre guilhotinam os que não vestem suas máscaras.

Ser amado pelo pão que multiplica em detrimento da injustiça que subtrai custou o desencontro insuperável com as multidões. Convergir adeptos é sempre distorcer sentidos.

Assistir aos seus gestos de misericórdia agredirem os escrúpulos dos que frequentam o templo mostrou-lhe as vendas religiosas que cegam a fé. Sempre que um dogma precisa ser salvo, um aflito acaba esquecido.

Estes foram os dias da grande decepção. Aqueles que jamais terminaram de tão definitivos para o evangelho de Jesus. A eles deve ter se referido João quando retratou a história do Filho de Deus. Veio para os seus, mas os seus não o receberam. E a todos os que o receberam deu-lhes o direito de serem chamados filhos de Deus. Desde os dias funestos, não se viu mais Jesus nos mesmos lugares. A casa do pecador tornou-se seu espaço de comunhão. Todos foram para o templo, mas ele foi visto em um lugar estranho, nos pavilhões indesejados do Tanque Betesda. Ao escapar das multidões e seus desencontros, a casa de um maldito, o publicano Zaqueu, tornou-se a sua. Sua fama agora é de quem gosta das festas, com suas comidas, bebidas e gente despretensiosa e livre.

Na cruz morre um homem porque não quis ser o que seu mundo lhe impôs. Mas também, e na mesma cruz, morre o homem que Jesus nunca foi. Termina na cruz, porque é assim que se faz com os que destoam. Termina na cruz a imagem colada pelos seguidores em seu líder. Talvez apenas este paradoxo explique o estranho fenômeno de desconhecimento que acompanhou os dias do Cristo ressurreto entre os mais íntimos.

Maria o confundiu com um jardineiro atrevido, provável responsável pelo sumiço do corpo do Mestre amado. Os discípulos de Emaús o confundiram com um judeu mal informado sobre os acontecimentos de Jerusalém. Os discípulos o tomaram por uma ameaça ao refúgio para os perigosos dias que seguiram sua morte. Os que mais o conheceram não conseguiram reconhecê-lo. Não será porque o Cristo glorioso, aquele do grande plano, fora desconstruído rumo à morte na cruz? E este, que agora vêem, não será aquele que não conseguiram, mas deveriam, enxergar o tempo todo?

Naquele dia o mar não estava para peixes. Nada muito novo na árdua tarefa dos que pescam. Ele caminha na praia como quem espera ansioso pela volta dos que deveriam trazer os peixes. Aflito, sem poder esperar mais, vê os pescadores voltarem aos poucos com os barcos vazios. De longe ainda, pede peixe. Ninguém o reconhece. Antes que desistam totalmente da pesca, ele fala como quem sabe e aponta aonde entende que os peixes estão.

Pescadores desapercebidos lançam as redes e, finalmente, o reconhecem. Quem sabe depois de Pedro se lembrar de outra pesca prodigiosa orientada pelo Rabi? É Jesus? Mas é outro. Mas é Jesus. Pula do barco e, às braçadas, desliza saudoso em direção ao não mais tão estranho assim. Na areia, as brasas já assam alguns peixes e pães. O cheiro doce da comida dissolve apreensões. Um a um, todos chegam, sentam-se e comem. A comida espalha endorfina e relaxa o corpo outrora teso e o calor da fogueira espanta o frio doído da brisa que já sopra no fim do dia. Logo a adrenalina daqueles dias dá lugar ao prazer, as palavras antes engasgadas, ficam fluidas e os sorrisos, tão raros ultimamente, retornam fáceis.

Encantado observo, mesmo que inseguro. A cena é constrangedora, mas também é a indicação de um livramento. O Reino do Cristo está ali, aquecido por aquela fogueira, feito de uma gente despida de qualquer imponência ou virtuosismo. Pondero abismado enquanto passo os olhos no grupo. O líder, alguém que acabou de passar por uma terrível humilhação pública. A multidão desistiu dele e de seu fosco projeto de Reino. Pedro, não conseguiu ser leal na hora mais aflita do anunciado, mas desprestigiado amigo. Os Filhos de Zebedeu, João e Tiago, brigaram por espaço e pompa até há pouco. Nós, os demais, dispersamos confusos e amedrontados no momento mais tenso da trajetória. E há um terrível vácuo, uma ausência amarga, um companheiro, antes tão presente, não está mais ali. Ele preferiu desistir da vida a encarar sua fraqueza. Amigos precários, mas amigos. Reunidos pelo breve e fugidio tempo de uma brasa. Sagrando os afetos com comida e conversa. Este é o Reino. Este é o evangelho que contagiará inalcançáveis almas.

Barriga cheia. Conversas fartas de memórias. Cristo chama por Pedro. O nome destacado na roda poderia indicar um grave e adiado acerto de contas. Ainda pairam dúvidas. Ao contrário do que poderia se imaginar, Jesus não pede explicações pelos tropeços, nem suscita grandes promessas para novas e também grandes expectativas. Não oportuniza um pedido formal de perdão. Ah! Nossos ritos de perdão! Fragmentos do grande plano. Pedimos perdão como quem pode retomar a fantasia de não mais frustrar. Perdoamos e iludimos novamente nosso coração com a panacéia de amigos que não decepcionam. Mas nada disso acontece ali. A pergunta é tão singela e quente e saborosa quanto à comilança em torno da fogueira. A brasa crepita e pausa os assuntos. Pedro, você me ama? A resposta é tímida, mas fluente. Você sabe que te amo! Pergunta e resposta se repetem como em um diálogo dramático. Num só lance e roubando o fôlego. E aos três movimentos modestos e teatrais de amor, um pedido despretensioso se segue: cuida das minhas ovelhas. E todos respiram aliviados.

Desde então, sempre que homens e mulheres se reúnem para comer e beber e conversar, esquecem-se das grandes utopias e suas perversas expectativas, tornam-se mais amigos e amantes, cuidam-se como pastores de suas ovelhas e Jesus volta e seu Reino e seu Deus.

Elienai Cabral Junior

Satã roga pelos homens

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Depois de tentar Jesus de todas as formas que conhecia, Satã deu-lhe as costas e começou a se afastar, considerando que valia à pena deixá-lo sozinho no deserto ponderando tudo de que havia aberto mão.

A poucos passos de distância ele parou de repente, como se uma absurda noção lhe houvesse ocorrido. Ainda de costas, o tentador virou apenas o rosto, para que Jesus pudesse ouvi-lo.

– Só mais uma coisa – ele disse. – Um conselho de amigo.

Jesus não respondeu. Sem se deixar abater, o tentador virou inteiramente o corpo, olhando Jesus de frente.

– Quero lhe recomendar uma coisa. Encare como tentação, se quiser, mas dentre todas essa deveria lhe interessar. Minha recomendação… Não: meu pedido é – e ele falava com simpatia sincera – não destrua a religião dessa gente.

Jesus ergueu para o outro dois olhos furiosos, mas permaneceu imóvel e em silêncio.

– Sei que já fiz muita coisa errada – o tentador deu de ombros, como que se confessando – mas convenhamos, hoje em dia a maldade anda no piloto automático: quase nunca preciso intervir diretamente. E, para falar a verdade, acabei me afeiçoando a essa gente. Caramba, eles são um bando de perdidos. Não há como não ter pena deles.

Satã olhou para conferir a reação de Jesus. Nenhuma.

– O que estou querendo dizer é o seguinte – ele levou a mão ao queixo e olhou para baixo, como se quisesse escolher bem as palavras.

Ele ergueu finalmente o rosto. Era um rosto bonito.

– Quero que essa seja uma briga justa, pra mim, pra você e até pra eles – ele fez um gesto vago indicando o resto do mundo. – E se você destruir a religião desse povo isso vai me dar uma vantagem que não quero de jeito nenhum.

Ele deu um passo na direção de Jesus.

– Então, se é isso que você tem em mente, peço que pense duas vezes. Esse é um povo sofrido, meu querido. Essa gente não tem nada. A religião é a última coisa, a única coisa a que essa gente pode de fato se apegar. Todo o resto eu tiro deles ou eles tiram uns dos outros. Eles se vendem, se compram, se destróem, mas a religião fica. Dá ordem à vida deles. Rédeas. E não se iluda – o Diabo ergueu um dedo enfático. – Não pense que eles vão se lembrar de Deus se você abolir a religião deles. Nenhuma chance. Eu minto muito bem mas não estou mentindo agora.

Ele deu mais um passo adiante, mais confiante agora.

– Eu sei como você é. Deve estar se preparando agora mesmo para sair denunciando as barbaridades dos que falam em nome Dele. Está certo, eu e você sabemos que não são poucas. Você deve estar sonhando que vai libertar os cativos, que vai dar genuíno cumprimento completo à Lei. Mas se é esse o seu plano, saiba que é o contrário é que vai acontecer. Nada escraviza mais do que a liberdade. Nada é mais incerto, e as pessoas precisam de segurança, a segurança que só a religião, especialmente a sua, pode dar. O mundo vai cair em confusão se você tirar o chão de debaixo deles. Não confunda essa gente. Faça essa cortesia: não por mim, mas por eles. Faça o que quiser, mas não tire a religião dos homens.

Satã deu um longo suspiro antes de concluir, com a seriedade da absoluta convicção:

– Ninguém quer a liberdade que você quer dar. Isso ninguém pode mudar. Nem você.

Jesus, que havia dispensado as tentações anteriores com um único verso da Escritura, sabia que esta exigiria muito mais. O pacote completo.

– No princípio… – ele começou.

E o Diabo o deixou, porque não era mais necessário.

Denúncia

O brilho da dignidade, da integridade e da denúncia de Dom Manuel da Cruz, ontem, diante do Senado Federal
Dica: Lucas Lujan

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Os pássaros de Beebe

E que dizer dos milhares de pássaros que morreram de repente em Beebe, no Arkansas, na véspera de Ano Novo? Alguns dizem que foi causado por fogos de artifício. Outros afirmam que é mais provável que tenha sido granizo ou relâmpago. E, naturalmente, sempre haverá os que atribuirão o ocorrido àqueles impertinentes alienígenas (porque não nos deixam em paz?).

Ora, outra opção foi recentemente trazida para a mesa para nossa cuidadosa consideração. Cindy Jacobs, amplamente respeitada como profetisa em círculos carismáticos, produziu um vídeo em que sugere que o bizarro acontecimento foi um sinal de Deus expressando sua desaprovação diante da recente revogação da política “Don’t Ask Don’t Tell” (que proibia os homossexuais de declararem abertamente a sua orientação enquanto servissem nas forças armadas norte-americanas). Como evidência para confirmar a sua conclusão, Cindy observa que a política foi colocada em vigor pelo presidente Bill Clinton, que – talvez recorde o leitor – é natural do Arkansas.

Tomou?

Vamos deixar claro, minha gente, o que implica essa revelação. Aparentemente Deus NÃO VÊ problema em nossas operações militares em geral. Nenhum pássaro foi sobrenaturalmente abatido quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, o Afeganistão, Granada ou lançaram a bomba em Hiroshima. E, pelo que sabemos, nenhum pássaro foi abatido diante do nosso orçamento militar de meio trilhão de dólares, enquanto um bilhão de vizinhos carece de alimento e de abrigo no nível mais básico. O Todo-Poderoso não vê problema nisso. Foi só depois que permitimos que nossos soldados homossexuais deixem de dissimular que ele desfechou o massacre de pássaros de Beebe.

Basicamente, todos esses pássaros abatidos foram o modo que Deus encontrou para dizer: “Soldados, podem continuar matando, mas voltem já para o armário!”

Gente, quantos pássaros inocentes vão ter de morrer antes que aprendamos essa lição?

Greg Boyd, em seu blog
aa
dica do Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Ganhei Coragem

Rubem Alves
Colunista da Folha de S. Paulo

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava.Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre. "Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais.Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção." Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves

O dia que a teologia da prosperidade morreu

Quando vejo estas cenas, me pergunto como alguém ainda pode acreditar que Deus lhe dá prosperidade, como pregam certas igrejas que dominam a programação televisiva.

Na tragédia não se faz teologia. Na tragédia se constata o fracasso de algumas teologias.
Ricardo Gondim

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dez conselhos para viver a religião

Frei Betto *

Adital -

1. Religue-se. Evite o solipsismo, o individualismo, a solidão nefasta. Religue-se ao mais profundo de si mesmo, lá onde se cultivam os bens infinitos; à natureza, da qual somos todos expressão e consciência; ao próximo, de quem inevitavelmente dependemos; a Deus, que nos ama incondicionalmente. Isto é religião, re-ligar.

2. Tenha presente que as religiões surgiram na história da humanidade há cerca de oito mil anos. A espiritualidade, porém, é tão antiga quanto a própria humanidade. Ela é o fundamento de toda religião, assim como o amor em relação à família. Busque na sua religião aprimorar a sua espiritualidade. Desconfie de religião que não cultiva a espiritualidade e prioriza dogmas, preceitos, mandamentos, hierarquias e leis.





3. Verifique se a sua religião está centrada no dom maior de Deus: a vida. Religião centrada na autoridade, na doutrina, na ideia de pecado, na predestinação, é ópio do povo. "Vim para que todos tenham vida e vida em abundância", disse Jesus (João 10,10). Portanto, a religião não pode manter-se indiferente a tudo que impede ou ameaça a vida: opressão, exclusão, submissão, discriminação, desqualificação de quem não abraça o mesmo credo.



4. Engaje-se numa comunidade religiosa comprometida com o aprimoramento da espiritualidade. Religião é comunhão. E imprima à sua comunidade caráter social: combate à miséria; solidariedade aos pobres e injustiçados; defesa intransigente da vida; denúncia das estruturas de morte; anúncio de um "outro mundo possível", mais justo e livre, onde todos possam viver com dignidade e felicidade.



5. Interiorize sua experiência religiosa. Transforme o seu crer no seu fazer. Reduza a contradição entre a sua oração e a sua ação. Faça pelos outros o que gostaria que fizessem por você. Ame assim como Deus nos ama: incondicionalmente.



6. Ore. Religião sem oração é cardápio sem alimento. Reserve um momento de seu dia para encontrar-se com Deus no mais íntimo de si mesmo. Medite. Deixe o Espírito divino lapidar o seu espírito, desatar os seus nós interiores, dilatar sua capacidade amorosa.



7. Seja tolerante com as outras religiões, assim como gostaria que fossem com a sua. Livre-se de qualquer tendência fundamentalista de quem se julga dono da verdade e melhor intérprete da vontade de Deus. Procure dialogar com aqueles que manifestam crenças diferentes da sua. Quem ama não é intolerante.



8. Lembre-se: Deus não tem religião. Nós é que, ao institucionalizar diferentes experiências espirituais, criamos as religiões. Todas elas estão inseridas neste mundo em que vivemos e mantêm com ele uma intrínseca inter-relação. Toda religião desempenha, na sociedade em que se insere, um papel político, seja legitimando injustiças, ao se manter indiferente a elas, seja ao denunciá-las profeticamente em nome do princípio de que somos todos filhos e filhas de Deus. Portanto, temos o direito de fazer da humanidade uma família.



9. A árvore se conhece pelos frutos. Avalie se a sua religião é amorosa ou excludente, semeadoras de bênçãos ou arauto do inferno, serva do projeto de Deus na história humana ou do poder do dinheiro.



10. Deus é amor. Religião que não conduz ao amor não é coisa de Deus. Mais importante que ter fé, abraçar uma religião, frequentar templos, é amar. "Ainda que eu tivesse fé capaz de transportar montanhas, se não tivesse o amor isso de nada me serviria", disse o apóstolo Paulo (1 Coríntios 13, 2). Mais vale um ateu que ama que um crente que odeia, discrimina e oprime. O amor é a raiz e o fruto de toda verdadeira religião; e a experiência de Deus, de toda autêntica fé.
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