quarta-feira, 22 de junho de 2011

Enquanto aguardo a volta de Cristo



Ricardo Gondim

Estou em processo. Dinamito alguns pressupostos e, sem pressa, procuro novos alicerces para minha elaboração teológica. Identifico uma mudança - que vem acontecendo sem que eu mesmo perceba: largo a sistematização do mistério. Há alguns anos escrevi um texto em que confessava cansaço. Na verdade eu não estava fadigado. Era meu grito. Um profundo anseio por mudança. Intuitivamente, percebia que os fios que conectavam minhas várias lógicas religiosas estavam soltos e que perdia energias existenciais, espirituais e emocionais.

Li diversos autores e criei coragem de fazer algumas perguntas difíceis. Obedeci o conselho de Jesus, calculei os riscos, e resolvi tomar o caminho menos trilhado. Agora confesso: estou em transformação. Procuro fazer teologia no ritmo da poesia. Esforço-me para garimpar esperança na verdade poética. Noto quanta força a poesia tem para salvar o mundo. Já se perguntou se era possível sentir o poema “fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres”. Eu respondo que sim! Insisto na caminhada porque entendo a Bíblia como uma linda obra poética; sem pretensão de codificar o divino, as Escrituras falam nas frestas da metáfora, do mítico, da parábola, do poema.

Acredito que somente a beleza pode enfrentar a feiura. Deus ainda fala e suas palavras são como água fresca na caatinga. Passarão céus e terra, mas o recado divino continua boas notícias em um mundo esfacelado. No fiat primordial, o universo explodiu prenhe, mas de formosura. É preciso não perder o propósito da criação de fazer a humanidade aquarela, diapasão das sinfonias, chave misteriosa dos enigmas existenciais e eureca sagrada do Espírito. Temos o potencial de sermos espetaculares e não podemos deixar tanta riqueza se perder.

Sim, o mal existe. A perversidade se multiplica. Não faltam ímpios em busca de perpetuar estruturas demoníacas. Mas resistem os artistas, estivadores, lavadeiras de beira de rio, médicos, violinistas, filósofas, sacerdotes, cantores de churrascaria, psicólogas. Nem sempre prevalece a sanha dos traficantes, dos mercadores internacionais de fuzis, dos cafetões ou dos exploradores da mão de obra infantil. Pego na mão dessa gente e não desespero, sei que podemos fazer sinalizar lampejos do Amanhã tão aguardado, daquele porvir que ainda não alvoreceu.

Insisto em fazer teologia porque acredito que o caminho do perverso não prevalecerá. Os grilhões do vício não resistirão ao dobrar dos sinos do Reino final. Do alto da torre da Cidade Celestial se proclamará o triunfo da luz sobre as trevas. Juntos celebraremos o brilho do sol da justiça. A bondade é fermento, a mansidão, ácido e a integridade, aríete. Um dia, ruirá por terra o castelo da maldade.

Preservo meu fôlego. Preciso me manter dócil. Vivo em um mundo que banalizou a morte. Necessito continuar a acreditar no perfume do amor, na densidade da mansidão e na energia da solidariedade. Quando acossado pela decepção, procuro trazer à memória o soldado romano que se fez servo de um escravo, a mãe cananeia ajoelhada pela filha aflita, os dois cegos peitando a sorte e o ladrão que prenunciou o paraíso no seu derradeiro instante.

Faço teologia sem esquecer de reverenciar os sete mil profetas que permanecem de pé. Rodeado de gente que não renegou o martírio, procuro não fugir ao meu. Inspirado no meu Salvador, percebo a força embutida na fragilidade. Sei que o Cordeiro é digno de abrir o rolo da História e que, na sua volta, o acolheremos. Faço teologia e aguardo o grande dia quando terra e céu se tornarão uma só realidade.

Soli Deo Gloria.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Longe de um Jardim

Paulo Brabo

Como eu ia dizendo, tudo é irrecuperável. Tudo se perde. Talvez nem tudo seja inevitável, mas sem qualquer dúvida tudo é irreversível. Esta é a maldição deste universo, e também sua mais desconcertante fonte de beleza.

Há uma visão a respeito de Deus que poupa a divindade precisamente desse constrangimento – poupa-o da irreversibilidade que caracteriza a essência da experiência humana e da realidade. Essa é provavelmente a visão mais popular a respeito de Deus, talvez por dar a impressão que, tornando tudo no universo recuperável para Deus, está fazendo um grande favor à reputação da grandeza divina.

Segundo essa visão, Deus é onipotente no sentido em que é capaz de, em cada momento da história e até o fim, reverter qualquer injustiça, reparar qualquer erro, anular qualquer deslize, ressuscitar qualquer personagem, engendrar qualquer final feliz. Para os que abraçam essa visão, Deus pode se quiser apagar os horrores do nazismo e cancelar o embaraço das cruzadas e das inquisições. Pode apagar toda a história que nos separa da Queda ou do Caos (a mesma história que nos une a eles). Pode apagar todos os traços do constrangedor experimento que é o nosso universo e deixar a lousa imaculadamente limpa para outra tentativa. Se não o faz permanece sendo questão da inegociável autonomia divina; porém devemos entender como magnífico consolo saber ou acreditar que, caso quisesse, ele poderia.

Esse Deus fora do tempo e segurado contra terceiros é uma curiosidade filosófica e existe inteiramente à margem do testemunho apaixonado da narrativa bíblica. O Deus da Bíblia conhece plenamente e sabe lamentar pungentemente o peso do que é irreversível; ele conhece a vastidão da sepultura, a assolação das omissões, o abismo profundo das ausências, a cicatriz sem consolo das violências, o terror sagrado das traições. E em Jesus, para quem acredita nele, Deus experimenta na própria carne cada uma dessas desolações.

O Deus da Bíblia é um marido traumatizado pela deslealdade da esposa, um homem marcado pelo abandono dos amigos, um visionário ultrajado pelo fogo da traição e da incompreensão; é um ressuscitado com cicatrizes muito visíveis, um idealista que não desconhece a amargura, um leão vivo que é também um cordeiro que conheceu a morte. Se não deixa em momento algum de amar, não é por ter o conforto de poder restaurar a qualquer momento o que foi perdido, mas por saber que tudo no universo e na história que não foi redimido pelo amor é para sempre irrecuperável.

Como tudo é irrecuperável, segue-se que tudo é santo, mesmo aquilo que a experiência humana tem de mais abominável e aterrador. Santo, numa palavra, quer dizer singular. Cada momento é santo porque é singularíssimo e irrecuperável, cada injustiça é santa porque reside num momento que poderia ter sido vivido de outra forma e nunca será. Nunca mais.

Talvez seja esse o sentido e a necessidade do lago de fogo postulado pelo Apocalipse, o lago de enxofre que arde dia e noite para todo sempre, paralelamente aos esplendores do paraíso e quem sabe ajudando a iluminá-los. Os momentos abomináveis da história humana – os momentos abomináveis da minha história – são irreversíveis e a justiça ausente deles é para sempre irrecuperável. O lago de fogo existe para que sejam eternamente lamentados, isto é, eternamente celebrados, e esse incansável ranger de dentes talvez seja o mais próximo que esses momentos chegarão da redenção.

Seria ao mesmo tempo injusto e inconcebível que o Paraíso prescindisse dessa eterna dor, da qual brota a flor mais imaculada e cegante da sua beleza. As folhas da árvore da vida curam as nações, mas não mudam a história de suas enfermidades. A ressurreição injeta vida no que era inerte e estéril, mas não apaga as cicatrizes da violência e as reminiscências da morte.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Em busca da unidade perdida: Chamados para perder


Alex Carrari

A ajustagem da mensagem do evangelho em termos pragmáticos sob a suposta necessidade de atender as carências básicas das massas é, na superfície de seus variados arranjos, pura artimanha para facilitar a gatunagem da renda dedicada à casa de Deus, ou de forma mais astuta, serve ao massageamento do ego inflado de “líderes” que alavancam o sucesso pessoal à custa das viúvas pobres do templo e da gordura do altar – que vai dar em gatunagem do mesmo jeito. A grande sacada desses "líderes" para acobertar o próprio desvio e a negação da mensagem límpida do Cristo é fazer da instituição um fim em si mesmo, promovendo a igreja (instituição) ao invés do Reino.

No Reino não há oportunidade para afanar o altar, nem promover a própria imagem, sendo que, conforme indicou o Mestre, o Reino não está nem aqui nem ali, não é comida nem bebida. A igreja (instituição) é lugar provável para alguém mal intencionado, mesmo que sutilmente, montar seu palanque e tocar seu projeto de auto-promoção e assim engordar sua receita bancária e lustrar sua fachada pública de homem de sucesso, espécime a ser invejado e seguido numa sociedade de consumo.

Mas nem só de reais e dólares nutrem-se esta linhagem, a vaidade do coração dá toques peculiares à representação que esses senhores e senhoras fazem de si mesmos, ensimesmados narcisos que admiram não a face em agonia do Cristo no horto, mas seus próprios rostos plásticos refletidos na água suja do lago da soberba. Põem na boca do Cristo palavras que jamais fizeram parte de seu roteiro de discursos. Acrescentam às falas dos profetas uma escatologia que diz que a qualquer momento este mesmo Cristo arrebatará sua classe de preferidos – para obterem um ganho maior – deixando todo o resto nas mãos do iníquo, o anti-Cristo. Colocam a vida dos patriarcas e reis à serviço das expedições, cruzadas de bênçãos geradoras de lucro e mais-valia, atiçando na massa, como se isso fosse uma virtude, a cobiça e o apego cada vez mais exacerbado ao modo de vida baseado no consumo e acúmulo de bens. No lugar da fé, que significa estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente (Tillich), promovem campanhas, em essência pagãs, para provocar Deus e exigir resultados imediatos.

Neste contexto a geração de ambientes que tentam se legitimar com batalhas espirituais, demônios geográficos, castas familiares, maldições hereditárias, corredor de sal, sabonete ungido, lenço do apóstolo etc, são o cancro não cuidado que nos anos 70, 80 e 90 foram bem vistos e quistos como sinais dos tempos da derradeira conquista da nação brasileira pelo “novo Israel”, o povo evangélico. Conquista que produziu asco quando as máfias de Brasília começaram a contar com a colaboração de políticos que antes ocupavam púlpitos – que mais eram palanques – em suas colunas de calhordas, falsários, e ladrões engravatados, desviando dinheiro de ambulâncias, merendas, medicamentos e sabe mais o que. A emblemática cena exposta em horário nobre do “irmão” organizando uma roda, ao modo de uma corrente de oração, após abocanhar pacotes de dinheiro, agradecendo e pedindo bençãos divinas sobre a vida de uma raça de políticos vilões, que depois de um emocionado amém não aguenta e solta um, “que paulada hein”, é sintomática enquanto representa um modelo que não se aprende sozinho, alguém o adestrou para isso.

A anarquia litúrgica planejada em minúcias sob a desculpa de tornar a mensagem mais contemporânea – como se esta fosse inviável à mente pós-moderna devido a seu arcaísmo e linguagem pastoril– incorpora os “louvorzões” com conteúdo e forma verticalizantes e superficiais, campanhas da vitória onde poucos recebem e os outros que esperem sua vez, unção em chaves de carro, rosas oradas pelo “apóstolo”, a Segunda Unção, fotos de parentes em murais, pregação de palavra Rhema, ordenação de restituições, reconquistas territoriais etc. Tudo e mais um pouco para ganhar almas para Jesus.

Nesses espaços a fé deixou de ser entendida, passou a ser sentida. O fetiche da mercadoria tornada sagrada, regulada pelos "homens de Deus", gera demência e crise de identidade nos crentes, pois, na mercadoria todos são alienados, são sub-produtos do produto. O culto-show encanta pela beleza plástica e engoda pela “abertura” da percepção. Eis a nova estética do “sagrado”. Nada de simplicidade. Nada de gente socialmente insignificante debruçada em torno de uma mesa rústica partindo o pão. Nada de andar na companhia de excluídos pecadores. Nada de opção preferencial pelos pobres. A nova estética do “sagrado” cria uma iconografia de santos engomados, vendedores de Bílbia televisivos e cantores “estrelas de Jesus”. Em lugar da mesa compartilhada, o palco onde se revezam na “adoração” o balé e o strett dance, animando o público com uma aeróbica eclesial – afinal a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé. Entre andar com excluídos e optar pelos pobres fazendo-lhes justiça, ou receber as honras na casa de César fazendo-lhe a corte, a segunda opção é regra mor, é mais viável, em se pensando nos resultados em curto prazo, é rentável, afinal, “os pobres os tereis sempre convosco”, à estes as batatas podres.

Na rotinização do milagre enquanto a adoração a Mamom subverte o sentido último dos dízímos e ofertas cujo desvio banca ternos alinhados, carrões, aviões e mega templos – os ícones da benção precisam demonstrar na prática a vida de sucesso que apregoam – o culto espetáculo é a expressão litúrgica da religião que tenta se sustentar de resultados em gráficos estatísticos semanais que insinuam que a terra prometida é logo ali, está mais perto do que se imagina. Imagine.

O reconstrucionismo que trocando em miúdos é uma elitização da idéia de que a restauração da nação só se dará por meio da teocracia, fez crescer no imaginário dos evangélicos brasileiros a fantasia de que o Brasil só irá pra frente quando os crentes estiverem definitivamente no poder. Uma versão piorada da idéia norte-americana do “destino manifesto”. Enquanto isso às portas do templo a mendicância se avoluma sob atenta supervisão dos "detentores da visão", a caridade é esmola para formar mais um prosélito, a estratégia é dar com a direita para puxar com a esquerda, é não dar ponto sem nó. O conceito de justiça social é considerado absurdo, mas não por se parecer com assistencialismo sem o verdadeiro objetivo que é salvar a alma do sujeito, nem por ser uma espécie de socialismo embrionário. A questão é que, na esfera econômica pós-moderna, o outro é visto como um concorrente, a competitividade implica em individualismo, portanto a solidariedade é algo contraproducente. Então nada melhor para engodar o pobre do que pão, circo e o céu para depois da morte.

Como modo de produção o capitalismo, que viveu um “reavivamento” nos anos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher sob a chancela do neoliberalismo, tem sua versão evangélica com a teologia da prosperidade. O mito do progresso, secularmente desacreditado logo no início do século XX, ressurgiu no seio das igrejas evangélicas brasileiras sob a autenticação de uma lógica causal de fim de Feira da Barganha. A canonização do capitalismo entre os protestantes reformados - cuja absolutização da tradição pelo viés do culto ao livro os impede de se reformarem - se deve acima de tudo a teologia da predestinação, que, tranqüiliza os que estão na dúvida sobre se vão para o céu ou para o inferno tendo como sinalizador de que vão rir por último em moradas celestiais o sucesso nos negócios – sendo esta a versão mais antiga da teologia da prosperidade. Enquanto os predestinados para a salvação eterna ensaiam aqui a vida regalada que terão no além, o pobre também faz seu ensaio para a danação eterna nesta que é a ante-sala do inferno. A proposta de vida simples, de uma caminhada humilde, de serviço – em que, quem quer ser o maior deve servir o menor –, de não juntar mais do que o necessário para a subsistência – o pão do dia do Pai nosso, ter apenas um capa – foi descaradamente substituída por uma proposta de vida altiva, uma caminhada na trilha do orgulho, o gosto por ser servido pelo menor humilhado e o acúmulo de bens desnecessários por mera inclinação ao consumo.

A última instância de resistência ao capitalismo e de esperança aos menos favorecidos, a igreja, tornou-se, com a mensagem do “vem para Jesus que você vai ganhar”, um lugar que promove um apartheid social, um neodarwinismo tribal-cristão em que só sobrevivem, ou os predestinados antes da fundação do mundo ou os mais espertos no livre comércio das bênçãos disponíveis para poucos. Enquanto os ricos experimentam as bênçãos, os pobres buscam-na. Aqueles envaidecidos eleitos pela graça arbitrária, estes uns azarados com falta de fé. Enquanto àqueles é pregada a paz interior à estes ungem-se carteiras profissionais, matando dois coelhos numa só cajadada com textos adulterados e contextos mutilados.

Os radicais requisitos, humildade, senso de justiça e vida simples - critérios para seguir nas pisadas do Nazareno - são, na mentalidade evangélica contemporânea, um embaraçoso contra-senso à mensagem propalada pelos pregadores midiáticos, pelos gestores de ministérios de sucesso, e pelas estrelas gospel, que com desfaçatez declaram que a honra e a glória são para o Senhor.

O Cristo deixou as claras, “quem vier vai perder”. Porém, os símbolos de sucesso da palavra mercadejada retrucam com a cara lavada, “quem vier vai ganhar”. O embuste é de um varejo inesgotável. De tomar posse da vitória a reivindicar a promessa, de receber chuva de bênçãos a pegar de volta o que é meu, de exigir de Deus o milagre a rejeitar os efeitos de uma existência contingencial apelando para o mágico. Tem oferta para todas as categorias de ganância e para todos os fundos de bolso. Aberta no que promete, seletiva no que distribui.

No deserto Jesus resistiu às três tentações, provisão, livramento e poder. Agora as três tentações, pecados que jaz à porta, foram promovidas à categoria de benditas promessas esperando serem liberadas sobre os crentes que enxergam com os olhos da fé instrumental, as chaves que abrem portas de emprego, que trancam gavetas com processos, que abrem portões de condomínios na praia e dão partida em carros de luxo.

Desde o começo Jesus deixou claro, para que ninguém depois dissesse que não tinha sido avisado: Quem quiser embarcar em meu projeto deve estar ciente de que vai perder tudo. Tudo inclusive a própria vida. Antes de exortar alguém para que se despojasse de bens e segurança para abraçar a causa do Reino, ele mesmo assume-se como um-sem-lugar, que não tem sequer um travesseiro para o descanso noturno – seu parente Jacó, tinha ao menos uma pedra. Jesus defende a implantação do Reino que não é de visível aparência, tampouco é comida nem bebida, “o Reino está dentro de vós” declarou certa vez na roda de amigos.

Seus discípulos não tiveram como um embaraço, para abraçar seu projeto, o fato de terem de viver boa parte da vida ao relento, dependendo da caridade alheia. Simão e André depuseram imediatamente as redes ao serem convidados com um “Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens”. Os filhos de Zebedeu quando convidados prontamente deixaram seu pai e as redes que consertavam e seguiram ao encontro daquele que havia de vir, sem saber sequer para onde iam - isso faz lembrar um tal pai da fé. Levi envolvido com o lucro da cobrança de impostos quando esteve de frente com o Mestre não resistiu ao chamado, deixou a banca e foi após ele. Jesus, o rico que se fez pobre em todas as dimensões da vida, não pregou tampouco santificou a pobreza, ele foi contra o apego às coisas e a ansia pelo excedente, o jovem rico que o diga.

Para Jesus a questão não é simplesmente o ter, mas, ter a ponto de se perder o ser enquanto pessoa, que corrompe o coletivo. O desapego às coisas materiais é condição necessária para alguém ingressar no Reino. Os ricos da antiguidade eram enterrados com seus bens para que sua identidade não se perdesse na outra esfera da vida, os evangélicos de hoje moldaram sua identidade na mercadoria e estão enterrados vivos na cobiça ao lucro. Em seu desapego Jesus esvaziou-se de sua condição primordial tomando a condição de simples mortal (Fp 2.6-7). Viveu de tal forma dependente de Deus que não teve dúvidas quanto a chamá-lo de Pai.

Ele:“Não conquistou os homens pelo poder arrogante que a todos subjuga, mas pelo serviço generoso que a todos fascina. Comprometeu-se com os pobres de seu tempo; tomou-lhes sempre a defesa e não recusou por causa disso as disputas e os conflitos, seja para defender o cego de nascença, os leprosos, a prostituta, a mulher que perfumou sua cabeça, considerada de má vida, os doentes, considerados pelos cânones do tempo pecadores públicos” (Leonardo Boff, TEOLOGIA DO CATIVEIRO E DA LIBERTAÇÃO, p.250).

Na vida do Cristo, é em sua pobreza que somos enriquecidos (2 Co 8.9). O conflito que se estabeleceu em sua vida teve seu agravo contra os partidos religiosos por ter ele priorizado o cuidado com os marginalizados aos sábados, e pior de tudo no templo. Nesse aspecto até fazemos caridade desde que nossa rotina religiosa não se altere e nossa instituição não seja menorizada. O sábado tornou-se senhor do homem. Jesus viveu pelos muitos que ninguém é capaz de viver, por isso morreu pelos quais ninguém é capaz de morrer, o que torna sua morte digna de ser lembrada com o pão e o vinho sobre a mesa. Sua morte foi conseqüência de sua vida; amigo de pecadores, insurgente com as leis dos anciãos, chamou à mesa coxos e aleijados, foi contado entre os transgressores, crucificado entre bandidos, sepultado em um túmulo emprestado. Na ressurreição foi confundido com um jardineiro, apareceu para mulheres, partiu o pão e deu graças a Deus entre dois desconhecidos em Emaús. Ressurreto, não teve audiência com a elite, foi ao encontro dos que o abandonaram na pior hora e deixou o projeto de continuidade do Reino nas mãos desses mesmos párias com quem fez uma grande amizade.

Seguir a Jesus é dar prosseguimento em sua vida, assumir sua conduta, é comprovar o mesmo sentimento que ele teve (Fp 2.5). Jesus assumiu a vida de humilde e morreu a morte de maldito não para que esta tivesse um caráter idealizador, ufanista, mas para que a justiça e a igualdade partissem de dentro do mundo, abraçadas por Deus, para inspirar uma nova mentalidade que inviabilize o aparecimento de ricos e pobres, oprimidos e opressores, mão de obra barata e monopolizadores do lucro e do capital. O Reino não é lugar de privilegiados alienados do mundo, mas de responsáveis esclarecidos pela verdade que liberta.

Ele foi longe demais nas exigências à quem cogitasse andar nas suas pisadas. Nada menos que negar-se a si mesmo e tomar a cruz particular disposta no caminho, assim quem perde a própria vida ganha-a, e quem quer ganhar a própria vida perde-a.


Alex Carrari

domingo, 19 de junho de 2011

A teologia do Capital

De que forma a nação mais alegadamente evangélica do planeta (e, portanto, oficialmente a mais fiel ao espírito do Novo Testamento) acabou se tornando dentre todas a mais brutalmente consumista, mercantilista e materialista (e, portanto, a menos fiel ao espírito do evangelho e do Novo Testamento)?

Segundo Max Weber, em seu A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904), a resposta à pergunta está, paradoxalmente, na teologia da própria Reforma. Tudo no nosso competitivo mundo capitalista, de telefones celulares a Big Brother, de Intel a sequilhos Daltony – passando por Tele-Sena, orkut, Danone Activia, Mae West, Pastilhas Valda, Pasta Jóia e Amado Batista – seria o inusitado resultado de uma curiosa interpretação da Bíblia sustentada por Calvino e seus seguidores. O capitalismo é uma curiosidade teológica.

Até o século XVI a retórica cristã havia defendido, com algum sucesso, os méritos da frugalidade e do desapego ao dinheiro e aos bens materiais. O sucesso deve ser considerado parcial porque desde o quarto século a Igreja como instituição achara-se despudoradamente poderosa e cada vez mais rica, e grande parte do poder subversivo da mensagem do Novo Testamento se perdera na contradição.O capitalismo é uma curiosidade teológica.

Por volta de 1500 a Igreja Católica chafurdava numa complexa rede de favores políticos e econômicos, tendo lançado no mercado uma diversificada linha de produtos espirituais a fim de aumentar suas receitas materiais – linha que incluía cartões de perdão pré-pago e lotes de salvação (com vista para Deus!) com o selo de garantia do Santo Padre. Mesmo diante desse cenário, a intransigente doutrina de Jesus sobre as armadilhas do amor ao dinheiro e às riquezas havia sobrevivido na cultura e na ética popular.

Com a Reforma, tudo isso iria mudar.

Lutero começou denunciando a venda de indulgências, ao mesmo tempo em que condenava os monges como universalmente ociosos e o Papa como mãe de todas as sanguessugas. Sua tese do sacerdócio universal demonstrava como bíblica a noção de que o homem pode servir legitimamente a Deus em todas as áreas da vida civil – sendo que ninguém precisa da intermediação de um padre, sacerdote, monge ou freira para estar mais perto de Deus. Como conseqüência, vociferava Lutero, Deus é eficazmente glorificado na vida familiar e no trabalho honesto do dia-a-dia.

O trabalho foi portanto oficialmente redimido pelo luteranismo – porém, segundo Weber, foi a teologia mais elaborada de Calvino que acabou definitivamente mudando os pratos da balança.

A doutrina calvinista ganhou notoriedade, também na sua época, devido a sua ênfase sem precedentes nos predestinados, aquela gente que Deus escolheu para herdar a vida eterna. Os predestinados estariam separados, segundo critérios pelos quais somente Deus poderia responder, para a salvação e o paraíso; todos os outros estariam condenados ao inferno e nada podia mudar isso, visto que a salvação não pode ser comprada (mais prejuízo para a venda de indulgências) e Deus é imutável.

Embora fosse tecnicamente impossível estabelecer se determinada pessoa era com certeza um dos predestinados, o consenso era de que a marca divina deixava evidências inequívocas de aprovação na vida da pessoa escolhida. Aqui, neste selo visível de homologação, estava o verdadeiro chamariz da coisa, porque o sucesso nos empreendimentos financeiros foi tomado desde cedo como sendo forte indicação de uma possível inclusão da pessoa entre os predestinados.

A partir de indicações como a do terceiro verso do salmo primeiro, ficou entendido que a marca distintiva do eleito estava em que “tudo quanto fizer prosperará”. Para demonstrar ser um dos perdidos bastava viver de modo indolente, descuidado e perdulário; já um sujeito austero, econômico e empreendedor produzia grave evidência de que estava entre os escolhidos.

Calvino adentrou terreno ainda mais inédito ao assinalar que todos, mesmo os ricos, deveriam trabalhar. Ele fez ao mesmo tempo o que pode para desvincular riqueza de dissipação, defendendo que tanto ricos quanto pobres deveriam adotar um modo de vida austero e temperante. O empreendedor era instado a não gastar um tostão em bens supérfluos ou carnalidades; ao contrário, deveria reinvestir cada centavo dos seus lucros de forma a financiar novos empreendimentos – precisamente como o Tio Patinhas e seu ancestral Ebenezer Scrooge, que sintetizam a ética de trabalho calvinista. A avareza era tida como coisa especialmente nobre e altruísta.

O que os predestinados tinham ainda em comum com o Tio Patinhas é que recusavam-se por princípio a utilizar seus próprios lucros para ajudar os mais pobres a se alçarem da sua condição ou mitigarem suas agruras. Entendia-se que esse tipo de liberalidade, por mais bem-intencionada que parecesse, violava de modo irresistível a vontade de Deus, já que era somente pelo trabalho de suas próprias mãos que os mais pobres tinham como produzir evidência de que estavam entre os predestinados. A avareza era, portanto, tida como coisa especialmente nobre e altruísta.

Os empregados do empreendedor, eles mesmos calvinistas, deveriam por outro lado encarar seu trabalho como seu “chamado” – chamado que devia ser executado com diligência e alegria mesmo que a recompensa financeira e terrena fosse pequena.

Pronto: aquilo que durante a Idade Média absolutamente não se tolerava era agora encorajado diretamente, e com a severa sanção da teologia revista e atualizada. A vida de cada cristão deveria ser a partir de agora uma cruzada pessoal em busca do lucro ilimitado. A riqueza e a prosperidade passaram a ser dever religioso; a generosidade, insidiosa tentação.

Nascia o que Weber chama de “ética protestante do trabalho” – visão de mundo que glorifica a diligência, a pontualidade, a economia, a austeridade e a inelutável supremacia do ambiente de trabalho.

Na Europa essa nova ética do trabalho teve que lutar contra séculos de ranço e resistência católica. Importada com sucesso para o Novo Mundo ela geraria os Estados Unidos, com seus milagres e contradições.

Ele está no meio de nós.

O rico e seu camelo

  1. O Rico e seu Camelo
  2. A teologia do Capital
  3. O culto da performance
  4. O culto do ócio

sábado, 18 de junho de 2011

Pronunciamento dos Pastores da Igreja Betesda SP


Nós, pastores da Igreja Betesda de São Paulo, orientados a não tolerar a injustiça e a defender os inocentes, temos nos incomodado com os recentes acontecimentos que atingem nosso pastor presidente, Ricardo Gondim, o que por si só pede de nossa parte uma manifestação, haja vista a maneira exemplar e digna com que tem conduzido nossa igreja em todo o tempo. 
Quando as desinformações dos assuntos tratados e a distorção da verdade cristã que praticamos e cremos desviam pessoas crédulas e mais inexperientes em seus passos de Jesus, não podemos nos calar.

A Betesda, antes de qualquer coisa, é conhecida em sua história por ser uma Igreja reflexiva e inserida na realidade. Quanto ao nosso pastor presidente, desnecessário é fazer referência ao seu caráter, pois sua reputação é, sabidamente, intocável.
O pastor Ricardo tem dedicado sua vida para que a verdade de Cristo seja conhecida por todas as pessoas. Apaixonado por Jesus trabalhou e trabalha incansavelmente. 
Se há algo que Jesus manda verificar em seus discípulos são os frutos. 
Ninguém há que possa acusá-lo de ter ensinado, incitado ou produzido o mal.
Suas mensagens pelo rádio, os seus livros, site e internet com suas exposições disponíveis atestam a verdade. Pessoas testemunharam e testemunham que, impactadas pelo evangelho pregado, se tornaram melhores e livres do tacão da religião e da manipulação de líderes inescrupulosos e manipuladores da boa fé. São mais autônomas e responsáveis através de seu ministério.

Os membros da Betesda testemunham que são pessoas menos religiosas e mais apaixonadas por Jesus. Quando entregam suas contribuições não o fazem por barganha, ou por medo de serem castigadas, mas por um compromisso e ato de fé. São testemunhas de um cristianismo leve, livre e obviamente de uma enorme responsabilidade. 
Também testemunhamos que mesmo os que saíram, foram servidos, alimentados e cuidados pela mentoria do pastor Ricardo.

Há algo mais a ser requerido de um pastor? 
O fruto serve para testemunho de quem é de Jesus. Não aceitamos que alguém digno, referência de cristianismo, que dedicou e dedica sua vida para o bem do Reino de Deus, que fala a verdade do evangelho sem rodeios, seja enxovalhado por interpretações errôneas da verdade, abusos e ataques inescrupulosos. 
Em nome da defesa do evangelho, estes opositores maculam o significado mais profundo do Reino de Deus.

As questões que perturbam os que se intitulam defensores da verdade do evangelho e influenciam muitos, vêm da aberta renúncia de Ricardo Gondim à lógica evangélico-calvinista que impera na teologia de nossa pátria. 
É fato que alguns pastores desistiram desta caminhada, e reconhecemos isto, pois diante da pressão existente por parte de líderes opositores gratuitos, desejaram seguir seu próprio caminho e ter suas próprias igrejas.

Testemunhamos que, de nós pastores, sempre foi exigido corresponder com as atribuições inerentes à responsabilidade pastoral. Honrarmos as contribuições dos fiéis que confiam a nós sua fé trabalhando com mais afinco, pastoreando, dedicando-nos ao crescimento pessoal e ao estudo para que a mensagem seja bem preparada e comunique a todas as pessoas a vontade de Deus conectada com a realidade.

As reflexões, estudos e questionamentos que temos praticado com seriedade, pertinência e sem restrições de pensamentos, nos levaram às desconstruções da lógica do movimento evangélico brasileiro, que sabemos também ser uma construção humana e cultural; e ao contrário do que se pensa, elas, as desconstruções, não serviram para nos afastar ou esfriar na fé, mas sim compreendermos melhor o amor de Deus. 
Corroboramos com a proposta da reforma, sempre reformanda, e isto se dá mediante a reflexão, ouvindo o Espírito e compreendendo nosso Mundo.

Confirmamos que ele, assim como nós pastores da Igreja Betesda, não reconhecemos as acusações de que nos desviamos da fé cristã. 
Somos testemunhas de sua pregação, com Bíblia em punho, da fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador e o único mediador entre Deus e os homens. Da ressurreição dos mortos, da volta de Cristo. Da triunidade de Deus como Pai-Filho-Espírito Santo, da Bíblia como Palavra de Deus. Consideramos que não se faz necessário repetir todo o credo apostólico e nem as afirmações como os atributos divinos, pois estas e outras afirmações encontram-se em todas as publicações da Betesda e do próprio pastor Ricardo. (indicamos o livro “Creio, mas tenho dúvidas”, Ed Ultimato, pg 28ss).

Rejeitamos as acusações de que o pastor Ricardo Gondim, na entrevista à Carta Capital, tenha ferido a fé cristã. Fazemos coro com a Bíblia, que defende os direitos dos oprimidos, dos abandonados e injustiçados; que o pecador precisa ser acolhido e orientado e a que os direitos civis dos cidadãos, independente de credo, raça, etnia e gênero, devem ser respeitados e defendidos; por consciência democrática nenhuma expressão religiosa deve gerir o Estado, assim como o Estado deve preservar os direitos das expressões religiosas.

Negamos que haja na Betesda qualquer manual a ser obedecido ou norma que fira o princípio de liberdade, igualdade e justiça e, principalmente, que contrarie o legado deixado por Jesus Cristo revelado na Bíblia.

Damos nosso inteiro apoio ao pastor Ricardo Gondim e reiteramos nossa caminhada com ele. 
Desejamos a continuidade da Betesda, como tem sido nestes 30 anos de sua existência: uma igreja relevante para a sociedade em que está inserida. Consideramos, portanto, as acusações maldosas, inconsistentes e vazias do significado cristão.

Ricardo Gondim tem demonstrado uma fé lúcida, tecido reflexões pertinentes e comunicado todo o evangelho de forma íntegra para toda humanidade.

Nós, que com ele andamos, e dele ouvimos não só as palavras, mas mais ainda, seu coração, reconhecemos que, se há um pastor a ser reconhecido como um servo de Deus que não se vende ao discurso que visa encher templos, que não se associa a políticas para obter vantagens em nome do Reino de Deus, não vende bênçãos, e se preocupa em promover a vida e pastorear os corações pela Palavra de Deus, é ele.

O que tem sido colocado na boca de muitos é fruto de manipulação religiosa e, no mínimo, falta de compreensão.

Os brasileiros precisam ouvir mais mensagens como as que vêm sendo pregada na Betesda para que saibam que há um Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que ama a todos e é o Salvador de todos os homens e mulheres, pois não faz acepção de pessoas e estende sua graça à humanidade.

Assinam o presente pronunciamento as Igrejas Betesda
Em São Paulo SP - Jardim Marajoara, Zona Leste, Vila das Belezas, Jardim das Fontes; 
Diadema; 
Osasco; 
São José dos Campos -Jardim Satélite, Jardim Uirá e São Judas.

Representadas pelos seus pastores
Airton Mendes, Antônio Teles, Célia Bonilha, Daniel Aldemir, Daniel Santos, Eliel Batista, Elienai Jr, Fátima Nascimento, Laércio Amorim, Lucas Lujan, Marcelo Néry, Mário Mingoni, Paulo Silvano, Salvador Júnior, Sérgio Oliveira, Silvia Geruza, Telma Mingoni e Villy Fomin.

O dedo de Deus

BARUQUE. Tenho estado esperando pela oportunidade de encontrá-lo novamente, e quando vi você e Filipe esta manhã cri ter reconhecido o dedo de Deus.

JUDAS ISCARIOTES. Pode-se com acerto reconhecer o dedo de Deus em qualquer acontecimento. Mais difícil é saber dizer para que direção ele está apontando.

Dorothy L. Sayers,
The Man Born To Be King, 1943

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O "herege da vez" denuncia as causas, a moral excludente se apega aos efeitos


foto: Ricardo Gondim na Carta Capital
por Alex Carrari e Paulo Silvano

E os evangélicos prevendo que a Dilma seria eleita, foram, em favor da conservação do próprio conforto, exigir sua assinatura na caprichosa carta elaborada por líderes de imagem alinhada com o perfil geral da nação santa, geração eleita. Uma das questões, para não dizer a única, era que a candidata, que se consolidava nas pesquisas, assumisse compromisso em não aprovar o casamento – diferente de união civil – entre pessoas do mesmo sexo. Para não dar na cara que a questão envolvia nada mais que a garantia da permanência almofadada dos crentes na tranqüilidade de seus ideários dominicais sem correr os riscos de ter de lidar com o incômodo tema, embutiram lá também a questão da não legalização do aborto e outros itens despercebidos, secundariando o real motivo da falta de sono desta omissa parcela da sociedade.

Já no meio da candidatura da mulher, a movimentação no arraial do comodismo evangélico dava indícios do frenesi que se apossava dos crentes, enchendo as nossas caixas de entrada de e-mails com os mais variados alertas sobre a vida oculta da ex-ministra. De libertinagem e lesbianismo a envolvimento com satanismo, Dilma foi classificada de tudo o que a imaginação dessa gente pode produzir, sob o dúbio interesse por uma nação mais “santa” nas mãos de deus. Admitimos que lemos um ou dois desses e-mails e, daí em diante, tudo para a lixeira.

Esta inquietação evangélica sonoriza a cada quatro anos. A carta contendo como tema central, o que uma comitiva dos “bem intencionados” servos do deus, que abomina a sodomia, achou primordial para que não se mexesse no time que está ganhando, para que o Estado não viesse a entulhar o tênue caminho da vitória daqueles que aspiram por um Brasil culturalmente evangélico, demonstrou que estes “bem intencionados” servos sofrem, na memória coletiva, daquilo que os psicanalistas chamam de neurose histérica de dissociação. Um distúrbio na consciência e na identidade, em que desenvolvem como principal sintoma uma personalidade múltipla, pois, quando comparados o comportamento destes com as instruções de Jesus fica claro que não sabem de que espírito são.

O que pretendiam? Uma sinalização de que continuariam imperturbáveis, nos espaços anestésicos que são seus templos e igrejas, onde reproduzem um arquétipo de mundo que só existe na cabeça dos crentes.

Até aí nada novo.

O que é novo nesse episodio é a forma como os ditos líderes inconscientemente confessaram o blefe em que vivem, consentido com os aplausos de 90% da massa evangélica brasileira, que blefa junto.
Os destinatários da benção demonstraram nas urnas não ter e mínima afinidade com política e menos ainda senso de responsabilidade social quando a única opção de uma política mais igualitária, não corrupta e engajada, Marina Silva, não passou do primeiro turno. A proposta de “um jeito novo de fazer política” não fez sucesso entre os servos do dono do ouro e da prata, pois a única ética que encanta essa gente é a que é inspirada pelo espírito do capitalismo, egocentralizada, fundamentada no salve-se quem puder, na qual quem pede mais – e do jeito certo – leva mais.

Sobre este caso, perguntas que não querem calar: Porque na tal carta não havia um item expresso e inegociável que fizesse a futura presidente do Brasil assumir um compromisso de erradicar a pobreza principalmente nos estados e cidades mais pobres? Porque não havia lá nada que forçasse a Dilma a estabelecer metas para acabar com mortalidade infantil? Porque os crentes não pensaram em colocar como um dos pontos principais a serem assumidos pelo novo governo a extinção do analfabetismo? Passou despercebida a condição surreal da saúde pública e o tratamento desumano nas unidades básicas de bairros pobres? Não deu pra lembrar das urgentes e necessárias melhorias em vias públicas para os portadores de necessidades especiais? E o péssimo tratamento aos aposentados? E os maus-tratos no sistema carcerário? E a corrupção no centro do poder?

Outra carta, desta vez a Capital, contendo a entrevista do “pastor herege” causou uma acesa circulação de desinformação no arraial dos defensores da moral adequada aos costumes de um povo que se acostumou a buscar favores da divindade em um culto intimidador, prolixo em churumingas, conformado a uma liturgia capenga e cheia de ressentimento.

Está tudo ali, às claras, nada de meias palavras. Para interpretar sua fala nada de chave hermenêutica, indisponível aos iletrados. O Ricardo Gondim disse o que tinha para dizer e os evangélicos entenderam o que sempre se predispuseram a entender. Levando em conta que texto fora do contexto sempre foi uma especialidade dos crentes, não poderia dar noutra conclusão: “Agora a Betesda vai começar a casar gays”, dedução óbvia de quem se habituou a ler a Bíblia como se fora o texto sagrado algo parecido com a famosa caixinha de promessa, da qual o texto é sacado sem a necessidade de vinculá-lo aos demais não sorteados. Método não diferente é aplicado quando se interpreta as colocações daquele que se tornou o “herege da vez”. Ainda mais óbvias, são as intenções dos que utilizam essa hermenêutica para interpretar as palavras do Ricardo na Carta Capital: Os crentes intentam ocultar aquilo que é causa, tratando-o como se fosse efeito, e assim, como criaturas entregues ao delírio, ao desvairo e a obsessão, continuam dormindo o sono da insensatez sobre o lençol das suas próprias omissões.

Só para refrescar a memória, segue a pergunta da Carta e a resposta do Ricardo que, ainda que aqui, colocada fora do contexto, qualquer um com o mínimo de tino e bom senso entende do que se trata. Mas, por nos faltar a paciência que sobra ao nosso amigo, colocamos em negrito apenas o que a letra por si só é capaz de explicar:

Carta Capital: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?

Ricardo Gondim: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos que respeitar as necessidades que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossexuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.

Perceptivelmente indispostos a fazer uma leitura na ordem da entrevista, e prontamente dispostos a tomar como pretexto um texto sem contexto, a tática de alguns desses “guardiões da fé” foi dar uma dimensão maior ao que é secundário de modo que não tenham que lidar com aquilo que é primário: O clamor de uma sociedade tragicamente enferma diante de uma igreja que, afogada no próprio vômito, é incapaz de absorver e fazer valer os valores do Reino de Deus. Estranhamente, esse clamor é ignorado em favor do cumprimento do “decreto divino” – que alguns, desfilando uma sucessão textos bíblicos, apresentam-no como legitimado pelas Escrituras – que a troco de nada abomina a homossexualidade, a bissexualidade, e outras formas, que não a heterossexual, de relacionamento afetivo.

Das nove questões que foram postas à mesa pela Carta Capital, oito estavam relacionadas ao comportamento destoante dos evangélicos, que inclui um modelo de espiritualidade triunfalista, uma compreensão mesquinha de Deus, ambição por poder, ênfase na quantidade em detrimento da qualidade. Apenas uma, abordando a questão da união civil entre homossexuais, aparece na entrevista, como que entre parêntesis. Esta, como não poderia ser diferente, vitimada pela síndrome da caixinha de promessas, foi pinçada do contexto para que, sem o amparo do restante da entrevista, tivesse sentido e interpretação desvirtuados para atender os interesses escusos de setores da mídia evangélica.

Condenada às fogueiras virtuais, abominada em púlpitos maculados pelas faltas encobertas daqueles que praticam a injustiça, verdadeira causa do pecado, a resposta do Gondim foi lenha queimada para prover a cortina de fumaça suficiente para ocultar o enquadramento dos seus algozes na conduta sob suspeição, tema das demais perguntas e respostas da entrevista.

Os depreciadores, invocam Gênesis 19 que relata aquele episódio no qual homens da cidade de Sodoma queriam ter relações sexuais com as manifestações teofânicas, em forma de homens, hospedadas na casa de Ló. Segundo se entende, havia um clamor que se multiplicava aos ouvidos de Deus e que esse clamor O fez querer conferir pessoalmente se era procedente de um pecado que se agravava (Gn 18.20-21).
Quantos sermões e advertências ouvimos, desde que fomos formatados à moral excludente evangélica, afirmando que a destruição de Sodoma e Gomorra foi um corretivo de Deus, dado serem aquelas cidades antros de promiscuidade sexual e inversão dos valores heterossexuais. Sob esta interpretação, aprimoramos a nossa impressão de santidade e limpeza, sem a qual ninguém verá a Deus, ou seja, um proceder sexual retilíneo e austero é o que basta. E mais, que Deus admite qualquer coisa menos a inversão dos valores heterossexuais. Deus tolera a soberba, a fartura de pão na mesa de uns poucos e a escassez na mesa de tantos, a próspera tranqüilidade para uns à custa da miséria de muitos, o desamparo ao pobre e ao necessitado, a arrogância e a prática de abominações. Tudo isso fica na peneira de Jeová, ele faz vista grossa, mas contra a homossexualidade ele acende a Sua implacável ira.

Nada como o profeta para denunciar o que realmente se esconde por trás da ênfase na condenação de um desvio moral, mesmo socialmente aceito como foi o de Sodoma e Gomorra. O profeta Ezequiel põe as claras: “Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre. Foram arrogantes e fizeram abominações diante de mim; pelo que, em vendo isto, as removi dali” (Ez 16.49-50).

A comunidade evangélica que se pronuncia somente quando percebe que sua tranqüilidade e inércia poderão ser publicamente expostas, prega um elitismo moral como a verdadeira causa de não serem consumidos. Presunção, fartura de pão, próspera tranqüilidade, desamparo ao pobre, arrogância e abominações, são pecados menores, aliás, sequer são tratados como pecados se colocados a par da homossexualidade. As respostas do Ricardo na Carta são idênticas à estrutura da fala de Ezequiel. A reação ruidosa dos evangélicos sobre a questão da defesa dos direitos civis dos homossexuais é proporcional à preocupação com o conforto que querem para si, mas que negam aos outros. A artimanha utilizada pelos evangélicos para não ter de lidar com seus pecados mais enraizados e degradantes exposto pela fala do Ricardo no contexto da entrevista é a mesma que usam para interpretar o motivo de Sodoma e Gomorra terem sido destruídas baseado em Gênesis 19.

A eleição do Ricardo como o “herege da vez” se deve ao fato de ele denunciar a enfermidade crônica de um povo – que deveria ser cura – começando pelas causas, enquanto seus algozes, que se enquadram nestas causas, ferrenhamente se apegam aos efeitos.
As causas dessa enfermidade são as que aponta o profeta Ezequiel, que são sintomaticamente sentidas como antítese nas entrelinhas da carta dos evangélicos à Dilma e ordenadamente denunciadas pelo Ricardo na Carta Capital.

Um povo presunçoso que se orgulha de sua imagem em ascendência, que cada vez mais se afirma como grande consumidor, que apregoa fartura de pão e próspera tranqüilidade à custa do desamparo ao pobre, um povo que devido a sua arrogância comete abominações, faz que o clamor da justiça seja abafado ao ponto de se multiplicar, na forma de pecado, diante de Deus.

Um povo que não ouve o clamor por justiça que sobe de seu meio, que tenta sempre escapar de sua responsabilidade social, que subverte misericórdia em legalismo, que gosta tanto do convívio com a injustiça ao ponto de não querer lidar com suas causas, está tão unido à origem das estruturas de pecado que corre o risco de virar estátua de sal ficando pelo caminho como testemunho de sua insipiência para os que virão depois de nós.



quinta-feira, 16 de junho de 2011

Por que as religiões rígidas prosperam

Não é coisa fácil explicar porque algumas pessoas submetem-se entusiasticamente à lei religiosa, especialmente quando se está falando com gente que não tem o menor desejo de agir da mesma forma. Por que limitar-se à “teologia do corpo”, como a chamava o papa João Paulo II, quando o controle da natalidade e a pesquisa de células-tronco prometem alívio para duas das mais dolorosas vicissitudes da existência física – a gravidez indesejada e as doenças degenerativas? Porque restringir-se a alimentos kosher, quando o cashrut baseia-se em classificações zoológicas que caducaram milhares de anos atrás?

Entre os não-devotos, uma piedade dessa magnitude é frequentemente vilipendiada como patologia social. Os moderadamente religiosos demonstram mais respeito mas também não ajudam a esclarecer o mistério; eles só balançam a cabeça e dizem, “pra eles acho válido, só não é pra mim”. Nem mesmo os devotos encontraram um modo de comunicar ao resto do mundo o que os atrai numa observância religiosa rígida. Eles só dizem que agem assim porque Deus quer que ajam – argumento que simplesmente não faz sentido para um incrédulo. Ou alegam superioridade moral, coisa que, se você acredita que a moralidade deriva de Deus, é praticamente a mesma coisa que dizer que estão agindo assim porque Deus quer que ajam.

Em geral não se espera que um economista se mostre mais capaz de explicar a religião do que um religioso, mas um economista de fato o fez, utilizando a linguagem amoral da teoria da escolha racional1, que reduz as pessoas a “agentes racionais” que “maximizam a utilidade” – ou seja, gente que age movida apenas por interesse próprio. Em seu ensaio de 1994, Por que as igrejas rígidas prosperam, que se mostraria de grande influência no campo da sociologia da religião, o economista Laurence Iannaccone defende a teoria contra-intuitiva de que as pessoas escolhem as religiões rígidas devido aos benefícios mensuráveis que sua devoção lhes proporciona, não na vida futura, mas aqui e agora.

Iannaccone começa se perguntando por que as pessoas decidem afiliar-se a igrejas rígidas, visto que fazê-lo requer um custo tão alto. Costumes excêntricos são um convite ao ridículo e à perseguição; a participação numa igreja marginal pode limitar as chances de avanço econômico e social; as regras de observância impedem o acesso a prazeres aparentemente inocentes; e a coisa toda requer tempo que poderia ser gasto em diversão ou em aprimoramento pessoal.

De acordo com Iannaccone, o devoto paga esse elevado preço social porque compra com ele um produto religioso de maior qualidade. As normas rígidas desencorajam os aproveitadores, aqueles que minam os esforços do grupo tirando proveito mais do que contribuem. Uma igreja rígida é aquela na qual os membros pouco comprometidos foram eliminados. Aumentar as tarifas para a participação não funciona tão bem quanto aumentar o custo de oportunidade da afiliação, porque tarifas afastam os pobres, que são justamente os que menos têm a perder em doar o seu tempo, e são também os que têm mais incentivo para orar. As tarifas, além disso, encorajam os ricos a substituir devoção por dinheiro.

O que o devoto recebe em troca de todo o seu tempo e esforço? Uma igreja cheia de membros apaixonados; uma comunidade de pessoas profundamente envolvidas nas vidas uns dos outros e mais dispostas do que a maioria a prestar assistência mútua; uma agremiação de pares formada por almas versadas na mesma linguagem (ou linguagens), movidas pelos mesmos textos e acalentadas pelos mesmos sonhos. A religião é uma “‘mercadoria’ que as pessoas produzem coletivamente”, afirma Iannaccone. “Minha satisfação religiosa depende então tanto de meus próprios inputs quando do input dos demais”. Se uma experiência espiritual rica e consistente é o que você busca, uma igreja pentecostal com fachada de loja ou uma sinagoga ortodoxa é provavelmente mais adequada do que uma igreja elegante formada por gente distraída e ambiciosa que mal consegue encontrar uma manhã livre para o culto de domingo, que dizer várias noites livres por semana para estudo bíblico e trabalho voluntário.

A partir de determinado ponto, naturalmente, as desvantagens do fanatismo passam a ultrapassar os benefícios. Uma igreja atinge esse ponto quando se mostra incapaz de oferecer substitutos para tudo aquilo de que pede que seus membros abram mão. Seitas que seduzem seus fiéis para o deserto mas não lhes proveem um meio de subsistência logo desaparecem de cena. Códigos abrangentes de comportamento que isolam as pessoas socialmente – tais como, digamos, o do judaísmo – desaparecem por completo a não ser que se estabeleçam redes que prestem suporte aos seus aderentes. Isso ajuda a explicar, entre outras coisas, porque os judeus que mudaram-se para cidadezinhas do sul [dos Estados Unidos] para abrir mercearias nos séculos XIX e XX, e viveram por décadas sendo as únicas famílias judaicas de suas comunidades, acabaram assimilando a cultura exterior mais do que praticamente todos os judeus ao redor do mundo.

O exemplo que Iannaccone dá de uma igreja cuja postura rígida pode ter saído pela culatra é a igreja católica, que tem tido dificuldade em manter seguidores na Europa e em atrair homens para o sacerdócio na América do Norte. Os tradicionalistas colocam a culpa pelas dificuldades da igreja nas reformas do [Concílio] Vaticano II, a partir do qual a missa começou a ser proferida no vernáculo e padres e freiras despiram suas vestimentas de outro mundo. Os que aspiram por uma reforma colocam a culpa na recusa dos líderes da igreja em ceder à opinião popular a respeito de controle da natalidade, homossexualidade e celibato clerical. Iannaccone afirma que os dois lados estão certos. “A igreja católica pode ter conseguido chegar a uma singularíssima posição de ‘pior-de-dois-mundos’”, ele escreve, “tendo abandonado posturas marcantes e estimadas nas áreas de liturgia, teologia e estilo de vida, e conservando ao mesmo tempo justamente as demandas que seus membros e seu clero mostram-se menos dispostos a aceitar.”

Porém, se códigos rígidos de conduta, judiciosamente aplicados, provam-se uma vantagem no mercado espiritual, faz sentido que os Estados Unidos, um dos poucos países sem uma religião estatal e com um mercado religioso genuinamente aberto, seja berço de tantas variedades de fundamentalismo e de ortodoxia. O crescimento explosivo do conservadorismo cristão, judaico e islâmico e o lento declínio de denominações mais refinadas como o episcopalismo pode representar não o triunfo das forças reacionárias, mas o resultado natural da competição religiosa.

Será consequência necessária da teoria de Iannaccone que os Estados Unidos estejam destinados a serem dominados pela direita religiosa, pelo menos enquanto seus líderes não forem longe demais? Não necessariamente. Suas observações tem mais a ver com o modo como as igrejas funcionam do que com o que advogam. O ponto central reside em que os fiéis anseiam por um comprometimento entusiástico de seus companheiros de adoração – não que os que anseiam por comprometimento pendem para a esquerda ou para a direita.

Reconhecidamente, devoção e ideias absolutistas tendem a andar juntas. É mais fácil aliciar os afiliados de correntes competidoras quando você pode asseverar que seu modo de vida provê acesso exclusivo à verdade. Porém, se o desejo por conexões abundantes e por uma comunidade forte representa mesmo que uma pequena parte da atração de uma vida religiosa rígida, as soluções de Iannaccone para a questão dos aproveitadores podem prover valiosas percepções, mesmo para igrejas e sinagogas menos rigorosas. Ministros metodistas podem permitir-se exigir mais oração e mais trabalho voluntário de seus congregantes. Rabinos do movimento judaico conservador (que são menos rígidos do que os do judaísmo ortodoxo) podem exercer maior pressão para que suas congregações mantenham-se kosher, estudem o Talmude e visitem os enfermos. Não há motivo para que níveis elevados de comprometimento religioso não estejam ligados a teologias liberais ao invés de conservadoras, a posturas de ceticismo e de dúvida ao invés de discursos fundamentalistas, se for nisso que creem e preguem pastores e rabinos. Demandas mais elevadas podem acabar gerando igrejas e sinagogas menores, mas o papa Bento XVI pode ter acertado em cheio quando, ainda cardeal, disse a um jornalista alemão que o futuro da igreja católica está em igrejas menores formadas por seguidores mais dedicados – um cristianismo “caracterizado pela semente de mostarda,” como ele coloca.

O maior obstáculo para essas reformas por parte dos líderes liberais é, naturalmente, a imaginação liberal, que tende a associar ritos tradicionais a uma postura retrógrada, ignorante e de extrema direita. Porém o mundo está repleto de seitas rigorosíssimas com praticantes cuja postura política não se presta a uma categorização fácil. Pense no pacifismo dos quacres, ou no ativismo contra a pena de morte por parte de muitos católicos. Como entenderam os grandes líderes religiosos do mundo, ritual é teatro: você pode usá-lo para passar a mensagem que quiser.

Judith Shulevitz, Slate Magazine, maio de 2005
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