quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

TERCEIRO PASSO: Desfrute sem possuir


Paulo Brabo - Bacia das Almas

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

Os primeiros passos, embora imprevisíveis e portanto virtuosos, são essencialmente cosméticos e relativamente pouco exigentes. Tudo começa a se desequilibrar quando se fala em dinheiro, e Jesus demonstra não ignorar isso. Ele então fala em dinheiro o tempo todo.

Nisso está outro aparente paradoxo seu: o Filho do Homem, que ostentava aos quatro ventos não ter salário nem casa própria, usava descaradamente o dinheiro e as riquezas para desenhar suas imagens e comparações mais fortes. Por um lado, não há como ignorar que sua postura geral é consistentemente crítica à obsessão – não desconhecida na sua época, inescapável na nossa – pelo acúmulo de bens materiais; por outro, fica claro que Jesus não ignora que a riqueza é muitas vezes a metáfora mais adequada, verdadeiramente essencial, para o que ele está querendo dizer.

Jesus, o frugal, o maltrapilho, não hesita em comparar o reino de Deus ao tesouro enterrado em quem alguém tropeçou, ou à pérola valiosa que um colecionador vendeu tudo que tinha para adquirir. Ele alerta que o tesouro de um homem e seu coração ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo, e que vale por isso mais à pena investir num tesouro no céu, onde a riqueza é imune a desvalorização e à apropriação indébita. A recompensa do reino é comparada adenários na parábola de Mateus 20, o perdão a uma dívida quitada em Mateus 18, e as responsabilidades do reino a talentos de ouro em Mateus 25 – isso para não sair do primeiro evangelho.

Provocativamente, como em tudo que fazia, Jesus acaba propondo que a esfera de Deus e seu imponderável domínio podem ser adequadamente comparados àquilo que associamos de forma mais imediata ao valor, ao desejo e à satisfação – não o sexo, não o amor, não o poder, mas o dinheiro (em que estão contidos os anteriores). A vida encontrada em Deus é apenas comparável à moeda que foi recuperada, à rês valiosa que se reencontrou: o tesouro que por um lado vale todo investimento, por outro o requer.

Em suma, usando as imagens de seu oponente, Jesus defende que riqueza material é, estritamente falando, contradição em termos. A única verdadeira riqueza, e inexpugnável, é a do espírito. Ele, no entanto, está longe de propor um ascetismo em qualquer sentido rigoroso; está longe de propor a mortificação dos sentidos que muitos (sem motivo) associaram à sua postura. Ao mesmo tempo em que garante que não vale à pena correr atrás do material, ele convida-nos a desfrutar incessantemente dele: olhai os lírios do campo, qual pai daria ao filho uma pedra em vez de pão, estou resolvido a jantar na sua casa, aceite este sanduíche de peixe, reabasteça meu copo de vinho, fui outro dia a um banquete, mais feliz que o convidado só o anfitrião da festa. Como diagnosticou Wilhelm Reich, Jesus é um homem inteiramente mergulhado no mundo da satisfação dos sentidos, talvez mais do que qualquer outro – sem que isso prejudicasse a sua reputação de homem espiritual.

É um equilíbrio que nos parece paradoxal, mas Jesus no fim das contas está dizendo que o pobre e o frugal estão melhor equipados para desfrutar das boas coisas da vida – não em virtude de qualquer pureza inerente de coração, mas simplesmente porque a limitação da sua condição força-os a valorizar o momento, que é no fundo o que todos tem. “Por mais empenhado que esteja, qual de vocês consegue adicionar meio metro à sua estatura?”

Para o rabi de Nazaré ser rico e ganancioso não é conduta especialmente corrupta ou perversa – está mais para o imbecil. Porque, ele ousa argumentar, correr atrás do material impede-nos precisamente de desfrutá-lo. O mais rastaqüera lírio do campo ostenta guarda-roupa mais exuberante do que o de Salomão; os pássaros banqueteiam-se e empanturram-se com mais gosto do que Herodes. Um pão de queijo no pé da serra desbanca o mais irretocável Boeuf Bourguignon. Uma caminhada ao lado de quem se ama sobrepuja o interior vazio de uma Ferrari. Um pé descalço é mais feliz do que o calça Mr. Cat. E assim por diante.

Seguir esse insano passo de Jesus requer ao mesmo tempo um intransigente desapego às coisas materiais e um deleite imoderado em desfrutar do que o material existe para fornecer. Exige desfrutar sem possuir.

Não quer dizer abrir mão do trabalho ou do dinheiro, visto que Jesus indiscutidamente convivia sem problemas com ambas as coisas. Não quer dizer abrir mão dos prazeres da vida, já que neste mundo o prazer é coisa tão comum que para abrir mão dele seria necessário abrir mão da vida. Trata-se, aparentemente, de ser e permanecer uma presença subversiva numa cultura que glorifica a incessante busca pela aquisição e pela acumulação. Trata-se de demonstrar em atos revolucionários e postura silenciosa que uma bem-direcionada frugalidade supre com folga e, no fim das contas, desqualifica e esgota essa abundância ilusória.
Significa, certamente, abrir mão do que o dinheiro existe para epitomizar: a segurança e o poder. Deve ser por várias razões que corremos atrás de dinheiro, mas correndo atrás dele confessamos carecer desesperadamente da sua credencial. Para os autores do Novo Testamento a ganância é idolatria porque é essencialmente mentirosa – promete segurança e poder quando ambos são derramados sem qualquer critério ou pré-requisito por Deus. O mundo de Jesus é seguro não porque os meus cofres e celeiros estão cheios, mas porque Deus é Pai. A ganância é mentirosa porque promete embalar e entregar, a seu preço, aquilo que Deus dá de graça no pacote básico da vida.

Viver como Jesus é certamente viver à margem do culto da performance. Alguns lírios talvez sejam mais bonitos do que os outros, mas a sua beleza essencial está em serem, não em estarem. Alguns pardais talvez cantem melhor do que os outros, mas nenhum é em última instância mais feliz porque canta melhor – e Deus sabe quando cai cada um, indiscriminadamente. Isto é, nosso valor não está em acumular, em desempenhar ou em possuir, mas em desfrutar, que é ser.

Viver assim não é também cultivar o ócio, mas é certamente não abrir mão da tranqüilidade e do autogoverno.

Não é por certo condenar os ricos ou evitá-los; tampouco é condenar a riqueza ou evitá-la. É por certo duvidar das promessas dos dois.

Para seguir os passos de Jesus é preciso abraçar o assombroso paradoxo de desfrutar sem possuir. O Apóstolo intuiu acertadamente essas coisas, e falou que devem ser “os que choram, como se não chorassem; os que se alegram como se não se alegrassem; os que compram como se nada possuíssem; os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa”. Para ser como Jesus é preciso não viver para a riqueza e, ao mesmo tempo, não ignorar o seu poder de metáfora. É preciso não dobrar-se a Mamom, mas fazer uso descarado das riquezas a fim de fazer verdadeiros amigos (Lucas 16:9). É preciso usar o dinheiro sem ser usado por ele; extrair gozo do material sem ser desfigurado por ele. É preciso ser generoso como Deus, pobre como Jesus. Dar a César a ninharia que é de César, receber de Deus a abundância que é de Deus.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SEGUNDO PASSO: Faça o que os outros não esperam


Paulo Brabo - Bacia das Almas

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

intolerância contra os religiosos não é a marca mais singular do impenitente seguidor literal de Jesus; talvez não seja sequer a primeira. Esse passo na verdade flui naturalmente dos seguintes, que serão talvez cada vez mais íntimos e essenciais (temos além disso a vantagem de que os líderes religiosos de hoje, embora requeiram incrivelmente mais atenção, luz da ribalta e purpurina, são em geral levados menos a sério do que no tempo de Jesus. Mesmo os que os que se dão ao trabalho de ouvi-los tratam de não levar em conta o que eles exigem).

O segundo passo para quem quer seguir a trilha ainda virgem deixada por Jesus é mais sutil e muitas vezes mais exigente. Ele requer que sejamos, como ele, em tudo inclassificáveis e inesperados: lisos como peixes. Requer que façamos o que os outros não esperam de nós a cada dado momento – um momento atrás do outro, a vida inteira. Que permaneçamos um incômodo mistério para os outros, não pela nossa conformidade a padrões tidos como suficientemente exigentes, mas pela nossa incorfomidade para com esses e para com todos os padrões. Que sejamos, numa palavra, subversivos.

Essa absoluta imprevisibilidade de Jesus era talvez a sua característica mais evidente e desconcertante para os contemporâneos dele. Se algum consenso foi se desenvolvendo entre os que iam conhecendo o descarado rabi da Galiléia era que nada se podia tomar por certo a respeito dele. Não importava quão seguro fosse o seu argumento, quão firme a sua convicção, quão inabalável a sua dedicação: Jesus desarmaria todas as vezes, para o bem ou para o mal, qualquer um que se aproximasse dele oferecendo um elogio ou uma provocação.
Não havia como fazer com que o Filho do Homem fizesse o que se esperava dele. O sujeito era indomável. Quando se esperava que ele curasse o paralítico que conseguíramos descer a muito custo pelo buraco no teto, ele perdoava os pecados do infeliz. Quando se esperava que ele despachasse a prostituta que veio embaraçá-lo num jantar oficial, ele fazia com que apenas ela se sentisse à vontade. Quando se esperava que ele curasse o leproso antes de tocá-lo impunemente, Jesus fazia o contrário. Quando Pedro oferecia num único gesto um elogio e uma boa intenção, Jesus chamava-o de Satanás. Quando vinham dizer que sua família estava aguardando lá fora, Jesus esclarecia que sua família já o estava seguindo aqui dentro. Quando se esperava um mínimo de respeito para com os religiosos, ele garantia que as prostitutas chegavam ao céu antes deles. Quando uma devota erguia seu embevecido louvor da multidão: “Feliz é a mulher que lhe deu a luz, e os seios que lhe amamentaram”, Jesus contradizia na cara dura.
NÃO HAVIA COMO FAZER COM QUE O FILHO DO HOMEM FIZESSE O QUE SE ESPERAVA DELE.
Como um incômodo trickster galileu, um João Grilo dos sertões da Judéia, Jesus era compassivo quando esperava-se o seu furor, implacável quando estávamos certos de sua aprovação, atordoantemente sagaz quando tinha-se por certo que ele cairia na nossa armadilha. O rabi saía distribuindo provocações teológicas e morais, denunciando simplificações, desmascarando sem dó e em público.

Seus antagonistas armaram contra ele todo tipo de armadilhas teológicas, morais e políticas – Jesus se safava de todas e com brilho, com exuberância, com medidas iguais de sarcasmo e bom humor. Ele calava seus inimigos e zombava respeitosamente da efígie de César com uma moeda emprestada na mão; sem parar de escrever com o dedo na areia, salvava numa cajadada só a donzela em perigo e fazia com que seus acusadores admitissem que não estavam eles mesmos livres de pecado; quando duvidaram que houvesse boa teologia em sua afirmação de ser filho de Deus, demonstrou graciosamente pela Escritura que não somos todos outra coisa além de deuses – até o ponto em que, sensatamente, “ninguém ousou mais fazer-lhe qualquer pergunta”.

Gente que nunca tinha ouvido falar de Sócrates puxava conversa com o rabi e não saía com uma convicção ilesa. Ele desconstruía, transtornava, revirava raciocínios, julgamentos e condenações.

Ao velho Nicodemos ele explicou, nada explicando, que para ver o céu era preciso nascer de novo. Dos discípulos que o tinham como grande mestre ele lavou os pés, e ensinou-os que para ser o maioral é preciso ser escravo voluntário e eficaz de todos. Propôs a adultos perplexos e funcionais que para pôr o pé no reino das vantagens de Deus é preciso ser incompetente como uma criança. Disse a gente miserável que infelizes eram os ricos, e prometeu-lhes ainda mais miséria e uma vida proporcionalmente abundante. Em Samaria recusaram-se a conceder-lhe pouso, pela simples razão que ele rumava para Jerusalém; dias depois, à sombra do Templo, ele contava uma parábola em que o samaritano é o indiscutido herói.

Jesus era universalmente conhecido por não fazer e por não dizer o que se esperava dele, e penso que essa imprevisibilidade era de fato a marca mais contundente da sua postura pública. O paradoxo, naturalmente, está em que esta sua característica em particular é a que os cristãos menos tem se preocupado em incorporar ao longo do tempo.

Há cristãos que seguem o Primeiro Passo e demonstram uma saudável intolerância contra os religiosos; um número incrivelmente menor segue Jesus em ser inesperado como ele foi. Não há catecismo ou Escola Dominical que nos ensine a sermos desbocados, independentes, provocadores e desarmantes como Jesus.
Pelo contrário, os que se afirmam e se crêem cristãos nos nossos dias levam a marca quase universal de vaquinhas de presépio: formatados, inofensivos, dóceis e obtusos. Tudo que aparentemente temos a oferecer são respostas prontas, gestos decorados e a mais careta e reacionária das posturas. Somos um bando açucarado de beatos e carolas: uma assembléia de bocós, e não os subversivos que nossa vocação exigiria de nós.

E não é como se Jesus não tivesse deixado claro que esperava a mesma postura indomável e independente dos seus seguidores; pois deixou. Ele convidou os discípulos, em palavras e incessante exemplo, a que fossem “inocentes como pombas e astutos como as serpentes”. Infelizmente, aconteceu de cristãos de todas as épocas acreditarem que as duas coisas são incompatíveis. Alguns de nós, tenho de reconhecer, são inocentes como pombas, embora prefiramos em geral ser obtusos como asnos e mesquinhos como sanguessugas. Astutos como serpentes, estou para ver.

Isso porque a postura de contradição que Jesus aparentemente exibia não era gratuita nem arbitrária. Ele não contradizia por contradizer; não era do contra como um adolescente. Sua implacabilidade tinha um fundamento e um método.

Mas exigia ser astuto como uma serpente, e em determinado momento ele passou a exigir o mesmo dos seus discípulos. Não basta que a sua integridade exceda a dos fariseus, ele foi deixando claro; vocês tem também de ser mais espertos do que eles. Para ser imprevisível é preciso ser esperto; para enxergar a armadilha sendo montada é preciso tarimba; para evitá-la é preciso jogo de cintura; para desarmar o seu adversário pulicamente, sarcasmo e bom humor; para desmascarar o seu adversário diante dele mesmo, uma compassiva mas implacável inteligência verbal.
BASTA AO DISCÍPULO SER COMO O MESTRE.
Pureza de coração e sagacidade de espírito não são coisas que se veja andando juntas todo dia, mas eram o mínimo que esperava o rabi de um seguidor seu. Basta ao discípulo ser como o seu mestre.

Com o tempo, depois da partida de Jesus, os apóstolos foram miraculosamente incorporando essa contundente característica em suas posturas individuais. Foram se imbuíndo, por assim dizer, do espírito de Jesus, e acabaram tornando-se tão subversivos quanto ele. Pedro, João, Paulo, Estevão, Tiago e seus asseclas, de inofensivos ou pelegos que eram, tornaram-se absolutamente incômodos ao sistema. Os que não encontravam como argumentar com eles buscaram logo modos lícitos e ilícitos de silenciá-los. Finalmente Jesus estava sendo homenageado e seguido como convém, e para o mesmo destino.

Se você quer ser como Jesus, tem de ser mais esperto do que a maioria dos ursos. Não basta sair pelo mundo usando óculos cor-de-rosa e desovar um Deus te abençõe no colo de cada um.

É preciso ser implacável. Você tem de ser incômodo para todos os sistemas, inclusive para o seu (porque é evidente que os sistemas, mesmo os nominalmente seculares, são todos religiosos). Tem de abrir mão de respostas prontas e posturas estanques. Não pode mais ver a injustiça e ficar calado. Tem de pressentir a armadilha e desarmá-la. Tem de salvar o oprimido e ainda deixar o opressor numa posição publicamente e pessoalmente desconfortável. Tem de cobrir de aceitação os enjeitados e encher os certinhos de dúvidas. Tem de ser inocente como as pombas e astuto como as serpentes.

Tem de ser um herói.

Se queremos seguir Jesus para onde ele foi, o segundo passo é aprender a não fazer o que os outros esperam, e por uma boa razão.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

PRIMEIRO PASSO: Viva a intolerância contra os religiosos


PAULO BRABO  - A BACIA DAS ALMAS

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

Como vivo dizendo, ser cristão tornou-se insulto adequado para todo tipo de conduta, menos na escandalosa acepção original: a de quem assume a trilha de Jesus em sua espiral voluntária e redentora à desintegração e à morte – e quem sabe, à glória, mas por essa única via. Aprendemos a sensatamente desbastar todo o conteúdo subversivo da mensagem de Jesus (da forma como fazemos, naturalmente, com profetas menos consagrados, de Sócrates a Nietzsche), até o ponto em que o que Jesus disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.

A fim de remediar essa situação, meu desejo é fazer como o ateu da parábola e resgatar para o público contemporâneo o contéudo ideológico do bem-intencionado mas cabeça-dura rabi que os cristãos garantem ser o messias dos judeus, que os judeus negam ser o messias e o único Filho de Deus e que os muçulmanos afirmam ser profeta incompreendido do único Deus, que não tem filhos.

Este, senhoras e senhores, é o primeiro capítulo de um Novíssimo Manual de Conduta do seguidor de Jesus, a ser lançado em breve para todo Brasil pelo Scriptorium do Monastério de São Brabo, em laboriosas cópias manuscritas. Resolvi chamá-lo de Em Seis Passos Que Faria Jesus, por motivos que se não ficaram evidentes ainda ficarão.

Você quer ser como Jesus? Seguindo esses seis passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra e consagração a médio prazo no céu. A pressa é sua.

PRIMEIRO PASSO:

VIVA A INTOLERÂNCIA 
RELIGIOSA
 CONTRA OS RELIGIOSOS


A intolerância religiosa tem de ser tão antiga quanto a própria idéia de religião, mas é duvidoso mérito dos cristãos (e a partir de agora usa a palavra na pior acepção do termo, e também a única) ter refinado o conceito associando a alternativa à escravidão, à tortura e à morte em larga escala. O cristianismo foi a primeira religião da história a ganhar verdadeiro peso cultural através da conversão – ao contrário das pacíficas religiões anteriores, das quais restam algumas, e que preferiam apostar a eventual consagração no milenar e lentíssimo método de transmissão e reelaboração de pai para filho.

O cristianismo histórico foi desde o início, exatamente como nos nossos dias, empreendimento de curto prazo, indústria de resultados. Jesus passou de ilustre desconhecido a único Deus do vertiginoso Império Romano em meros 300 anos – menos que um piscar de olhos em termos históricos. Não é de estranhar que pelo menos metade dessa conversão nominal do mundo tenha sido adquirida na ponta da espada. A fim de salvar os incréus era necessário não tolerar a sacrílega religião deles: os cristãos entenderam o imediatismo do Ide e saíram pelo mundo fazendo inimigos, ostracizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito. Essa dupla paixão pelos resultados e paixão pela publicidade deixam claro que o cristianismo histórico não é o menos eloqüente antecessor do convulsivo capitalismo contemporâneo.

Essa implacável visão de mundo, da expansão numérica e comercial como missão divina, determinou toda a história do ocidente, inclusive a sangrenta colonização das Américas. Em 1454 o Papa Nicolau V resume essa postura geral na sua Bula Romanus Pontifex, em que concede ao rei Afonso de Portugal (e a seu príncipe D. Henrique, que daria forma final à nau oceânica portuguesa e assim o chute inicial às Grandes Navegações), uma singela série de privilégios materiais associados à sua pureza de coração:

”(…) concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar e subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes (…)”

Nenhuma manifestação do cristianismo institucional dos nossos dias difere, em qualquer sentido importante, da inclinação geral do parágrafo acima. Os filhos do Rei permanecem reclamando seus direitos, absolutamente convencidos da primazia da sua condição. Os religiosos cristãos chafurdam em seus merecimentos, e oram descaradamente para extrair alguma prosperidade dos inimigos de Cristo ou reduzi-los à servidão – o que for mais imediato ou der mais prazer (e é naturalmente graças aos cristãos que cremos que essas duas últimas coisas andam juntas).

Por alguma razão que Cristo não teria como entender, os que hoje se consideram cristãos são os que se consideram religiosos. E, dentro da mesma lógica ignorante dos fatos, os que não se submetem à religião são inimigos de Cristo.

Talvez baste para você pensar e agir assim, mas se você quer ser de fato como Cristo é absolutamente necessário dar o primeiro e louquíssimo passo na direção de Deus e para longe da religião. Porque Jesus, como deixam abundantemente claro os evangelhos, promovia e aplicava consistentemente uma forma muito particular de intolerância religiosa: a intolerância contra os religiosos.

Jesus, que comia com estelionatários, bebia com agiotas e era amigão de prostitutas, tolerava aparentemente tudo em todos. “Eu não condeno você”, ele ousou blasfemar aos ouvidos da mulher adúltera. O rabi puxava conversa com divorciadas promíscuas, tocava leprosos de que todos desviavam o olhar e dormia nas camas rendadas de inimigos do povo. O sujeito conseguiu o feito inédito de sustentar a fama de homem de Deus ao mesmo tempo em que abraçava os puxadores de fumo, traficantes, travestis e aidéticos do seu tempo.

Mas havia um limite para a sacanagem que ele podia engolir. A única classe de pessoas que fazia Jesus perder a paciência e a compostura era, formidavelmente, a dos religiosos. Aquele que mostrou-se disposto a acolher sem qualquer transição um criminoso no seu paraíso não tinha uma única palavra de tolerância para os devotos, os carolas, os piedosos, os santinhos. Esses despertavam a sua ira, e para ser como Jesus é necessário – por difícil que possa parecer – que despertem também a sua.

Para demonstrar de forma conveniente a implacável intolerância de Jesus para com os religiosos seriam necessários quatro evangelhos. Deve bastar, no entanto, o relato da homérica lavada que levou um fariseu imprudente que convidou Jesus para jantar. Fique pelo menos a lição: se não quer ser como ele, pelo menos não convide Jesus para jantar.

Enquanto ele ainda estava falando, um fariseu pediu que Jesus fosse jantar com ele. Ele entrou na casa do fariseu e reclinou-se à mesa para comer.

O fariseu ficou surpreso ao ver que ele não havia lavado as mãos antes da refeição.

– Vocês, fariseus – o Senhor disse a ele, – limpam a parte de fora dos copos e dos pratos, mas por dentro estão cheios de cobiça e perversidade. Loucos! Aquele que fez o exterior não foi o mesmo que fez o interior? Dêem como esmola o que vocês têm no interior dos pratos, e para sua surpresa tudo será puro para vocês. Mas ai de vocês, fariseus, que dão a décima parte até da hortelã, da arruda e de toda espécie de hortaliças, mas passam longe do veredito e do amor de Deus. O certo era que fizessem uma coisa sem deixar de fazer a outra. Ai de vocês, fariseus que amam os lugares mais importantes da sinagoga, e amam ser cumprimentados nas praças. Ai de vocês, estudiosos da lei e fariseus! Impostores! Vocês são como sepulturas não marcadas, sobre as quais as pessoas andam sem saber.

Neste ponto um perito na Lei que estava presente disse:

– Mestre, quando o senhor diz isso também está nos ofendendo.

Mas ele disse:

– Ai de vocês também, peritos na Lei! Vocês sobrecarregam as pessoas com cargas difíceis de se levar, mas vocês mesmos não mexem sequer um dedo para carregá-las. Ai de vocês, que constroem mausoléus para os profetas, quando foram os pais de vocês que os mataram. Fazendo isso vocês confessam que estão de acordo com o que os seus pais fizeram: eles mataram os profetas, vocês constroem sepulturas para eles. É por isso que a sabedoria de Deus diz: “Eu enviarei a vocês profetas e apóstolos; alguns deles vocês matarão, outros vocês irão perseguir. Para que dessa geração seja requerido o sangue de todos os profetas derramado desde que foram lançadas as bases do universo: do sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e a casa de Deus.” Eu afirmo a vocês que isso será exigido desta geração. Ai de vocês, peritos na Lei! Vocês negaram às pessoas o acesso à chave do conhecimento; vocês mesmos não entraram, e impediram os que estavam entrando (Lucas 11:37-52).

É preciso ainda ressaltar que a religiosa intolerância de Jesus para com os religiosos em nenhum momento esteve voltada para o que chamaríamos hoje de pagãos. A Jerusalém do tempo de Jesus era cidade ocupada pelos romanos, apinhada de sacrílegos templos, estátuas, estádios, quartéis, teatros e banhos públicos que os judeus piedosos só faziam condenar. Incrivelmente, não chegou até nós nenhuma palavra de condenação de Jesus contra essas barbaridades; pelo contrário, que Jesus estava favoravelmente familiarizado com a cultura romana fica claro, por exemplo, no uso natural e muito apropriado que ele faz do termo hipócrita (ator, mascarado, canastrão), emprestado do teatro, forma de arte que os judeus de boa estirpe ao mesmo tempo desconheciam e abominavam.

O desconcertante é que, ao mesmo tempo em que tolerava os pagãos (talvez porque eles mesmos eram muito tolerantes), Jesus batia de frente contra os que afirmavam terem o monopólio de acesso ao Verdadeiro Deus©. Jesus reconhecia que o vasto e inclassificável Deus das escrituras hebraicas era também o seu, mas ao mesmo tempo asseverava que os sacerdotes, fariseus e intérpretes que pretendiam tê-lo seqüestrado para si, fechando-o dentro de um sistema religioso estanque, confortável e opressor, não tinham a mínima idéia de com quem e de quem estavam falando.

O primeiro passo para fazermos no nosso tempo o que Jesus fez no dele é, incrivelmente, abrir mão de qualquer palavra de condenação contra os ateus, os feiticeiros, os satanistas, os liberais, os wiccans, os macumbeiros, os budistas, os hindus, os animistas – agnósticos e pagãos de todos os matizes. O alvo da nossa intolerância deve ser outro, o alvo que foi também o de Jesus: os que passeiam pelo mundo crendo ter o aval inequívoco e a credencial indelével do Verdadeiro Deus©. Aqueles que, nas palavras de Paulo, estão “persuadidos de serem guias dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutores de ignorantes, mestres de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade” – mas que “ensinam os outros sem ensinarem a si mesmos”.

Nós.

Quando apenas esses nos fizerem perder toda a paciência e a compostura; quando apenas esses nos levarem a abrir a boca em imprecações e maldição, estaremos sendo como Jesus.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A sedução da ortodoxia


Paulo Brabo - A Bacia das Almas

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado comocrença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.
SÓ A ORTODOXIA SALVA.
A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.
A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão dagnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

domingo, 29 de janeiro de 2012

As razões ao contrário


Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Os dois momentos decisivos de Nicodemos e o Vento, de Philip Leroyer – extensa novela publicada postumamente em 2006 e, ao que se saiba, sua única obra completa – se passam num hoje célebre convento numa região remota e montanhosa de Portugal, cujo edifício abriga tanto um asilo quanto um orfanato. Esse palco peculiar é epítome e explicação da parábola; sua epígrafe, quase desnecessária, é o terceiro verso do décimo oitavo capítulo do evangelho de Mateus: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”.
A primeira página apresenta-nos austeramente ao Abrigo de Santa Luzia do Meira, que já conheceu dias melhores e em que restam dezenas de celas vagas e cinco freiras encarquilhadas. Há numa área reservada uma parede coberta de fotografias, há banheiros com piso de losango, há num pátio um poço que durante certo Pentecoste a Saúde mandou impossivelmente selar. É uma inclemente noite de inverno e um carro deixa, à porta do asilo, uma maca com o corpo inconsciente e nu de um velho anônimo.

Movidas de compaixão, as freiras arrastam a maca para um dos muitos quartos disponíveis, banham o estranho, vestem-no com um puído pijama azul e aquecem-no com cobertores e fogareiros. Com um tossido ou soluço o homem volta a si; seis semanas depois é capaz de sentar-se; seis meses depois, de andar e entreter os órfãos com histórias de um tempo em que a terra era informe e vazia. Quando crê-se inteiramente recuperado, deixa dobrado um pijama impecável sobre a cama e parte de ônibus pela estrada sinuosa.

Vai morar em Braga, depois Lisboa, depois Paris. Com o passar gentil dos anos cresce-lhe uma selvagem cabeleira de finíssimos cabelos grisalhos; seu rosto ganha um renovado rubor e ele deixa crescer um bigode viril. Numa visita de rotina ao hospital, encontra uma companheira e toma-a pela mão. Vão para casa juntos e compartilham castamente da cama naquela noite.

Sessenta anos e oitocentas páginas depois o estranho retorna com a esposa ao convento de Meira, que está (mesmo o meu leitor já o terá adivinhado) inteiramente outro: um órfão despeja água fresca no poço aberto do pátio; a superiora remove uma única moldura da parede reluzente e cheirando a tinta; o sino da capela dispersa mais de meia centena irriquieta de jovens freiras. O estranho e sua esposa sorriem assombrados para o espelho no fundo do corredor e sentam-se de mãos dadas numa das camas do orfanato. Não é o fim de suas aventuras e o livro não chegou ainda a seu clímax, mas o círculo está perto de fechar.

Philip Leroyer escreveu no leito de morte. Nicodemos e o Vento é obra lenta, laboriosa e extensa, vertiginoso esforço de um escritor que não se esquivou à agonia de 1200 páginas para deixar uma primeira, última e unificada impressão. Lidas as primeiras cem páginas não haverá leitor que não tenha intuído a reviravolta central; sagazmente, Leroyer, não faz com que o livro dependa dela. As incessantes revelações são apresentadas ternamente, surrealmente; há, por exemplo, o dente que o viajante encontra em certo parque de Paris e encaixa com sucesso no espaço entre um incisivo e um molar; há a belamente executada cena da revoada de corvos numa estação de trem; há o sutil rejuvenescimento dos protagonistas, cuja improbabilidade é aplacada ou exacerbada pelo rejuvenescimento do mundo a seu redor.

Nicodemos e o Vento não é, como comprova o artigo crítico de Harold Bloom, a primeira obra de ficção a pressupor um sentido reverso para o passar dos anos. É, no entanto – tanto quanto eu saiba, – o primeiro a produzir uma lógica inerente para este universo invertido. Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, não é inconcebível para a física contemporânea. Leroyer supre essa nossa lacuna intuitiva com uma bem construída lógica interna, deixando no caminho da narrativa um número mais do que satisfatório de – para usar a expressão de Bloom – “razões ao contrário”. Nada no mundo reverso imaginado por Leroyer é arbitrário; o que poderiam parecer coincidências fortuitas são representação e explicação de um anelo sincero dos personagens; não estão em momento algum separados de sua busca. O universo deNicodemos e o Vento não é mais improvável do que o nosso.

Porém a ambição do autor é maior; ele não apenas deseja que sua criação apresente coerência interna satisfatória. Leroyer quer que seu mundo de tempo reverso faça mais sentido do que o convencional; quer que a lógica do seu universo seja capaz de explicar todas as idiossincrasias do nosso. Quando, depois de quatro anos juntos no orfanato, o jovem protagonista e sua jovem esposa finalmente se despedem (são agora crianças e estão, no fluir implacável do que chamamos de futuro para o que chamamos de passado, vendo-se pela última vez), o momento é ao mesmo tempo emocional e celebratório; o peso da experiência comum e transformadora dos anos é aplacado pela perspectiva de um destino premente, uno e glorioso. A misteriosa intensidade do que no nosso mundo chamaríamos de paixão à primeira vista é explicada no universo reverso de Leroyer como a emoção mista da separação feliz depois de uma longa convivência.

Philip Leroyer, que era pastor da seita evangélica dos nicodemitas e escrevia em seu pijama puído numa cama de ferro no asilo de Santa Luzia do Meira, não esconde no pósfacio que seu livro é rigorosamente uma apologia à sua crença e uma autobiografia reversa.

Os nicodemitas, como hoje não há quem não saiba, crêem que é apenas uma diabólica ilusão que nos faz acreditar que o tempo prossegue do passado em direção ao futuro – e portanto da integridade à decadência, da vida à morte, da inteireza à dissolução. A realidade (e se tivéssemos fé suficiente seríamos capaz de enxergá-lo) é simetricamente inversa: o tempo caminha do futuro ao passado, da dissolução para a inteireza, da separação para a impensável união, de Apocalipse para Gênesis.

Os partidários da seita, da qual o pai de Leroyer foi fundador formal, encontram abundante (porém nunca incontroversa) evidência na Escritura para sua posição. Os evangelhos não escondem que Jesus falava em parábolas; os nicodemitas crêem que apenas eles sabem o quanto. Quando afirma que os mortos ressuscitarão de seus túmulos e que o mar dará de si os seus mortos, Jesus não está falando de um momento imponderável no futuro, mas apenas asseverando o rumo natural das coisas. No mundo reverso dos nicodemitas, em que a vida começa na morte e glorifica-se no nascimento, os homens nascem adultos, erguidos solenemente do chão em seus caixões, depois de terem sido formados do pó da terra – o que é, naturalmente, prefigurado na narrativa da criação em Gênesis.

O momento emblemático da revelação dessa boa nova encontra-se, conta-nos o posfácio de Leroyer, na conversa de Jesus com Nicodemos registrada no terceiro capítulo do evangelho de João.

“Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, começa Jesus, expondo já a essência da revelação. Porém é Nicodemos que coloca a coisa com todas as letras:

“Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer?”

“Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo,” replica Jesus. E acrescenta, esclarecedoramente: “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai”.

O vento, asseveram tranqüilamente os nicodemitas, é aqui (como em toda Escritura) símbolo inequívoco do tempo. Nicodemos, segundo Jesus, pode ouvir o sopro do tempo, mas é incapaz de reconhecer a sua direção – de onde vem ou para onde vai. A denotação é clara: o tempo sopra, ao contrário do que parece sugerir nossa pobre intuição, do futuro para o passado, da morte para a vida, da velhice para o nascimento – que é o mergulho estarrecedor e unificador e batismal no ventre materno. “Importa-vos nascer de novo” e “se não vos tornardes como crianças de modo algum entrareis no reino dos céus” não são meras injunções de Jesus; são sua desapaixonada constatação.

No universo de tempo reverso, que os nicodemitas querem crer ser o verdadeiro e único, todas as coisas tendem à restauração e à unidade, em necessário contraste com o nosso, em que tendem à decadência e à divisão. O apocalipse é experiência diária, e as pessoas nascem diariamente de seus túmulos; a existência humana na terra é um eterno rejuvenescimento que sara todas as feridas e apazigua todos os rancores. O que chamamos de último suspiro é o primeiro, e o nascimento é o “voltar ao ventre materno” profetizado por Nicodemos. A humanidade experimenta um irreversível processo de unificação, prefigurado na genealogia inversa do terceiro capítulo da primeira carta aos Coríntios, que começa em Jesus e termina em Adão, e por fim, no próprio Deus: ”…Lameque, filho de Metusalém, filho de Enoque, filho de Jarede, filho de Maalalel, filho de Cainã, filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus”.

O destino da humanidade, sua redenção, é recuperar a unidade com Deus; quando tivermos todos mergulhado no ventre de nossos pais, quando todos os livros e todas as artes e toda obra humana reverterem ao silêncio e formos todos Adão, mergulharemos – seremos batizados – no ventre de Deus e o vento do Espírito será desnecessário e deixará de soprar.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. No pátio de Santa Luzia do Meira, na parábola biográfica de Leroyer, convivem órfãos e anciões: os últimos são os recém-chegados, os primeiros os experientes; os últimos estão aprendendo austeramente viver, os primeiros brincam de roda para celebrar incessantemente seu destino iminente no ventre da inteireza.

Philip Leroyer foi casado com Edda de Oliveira, que morreu de câncer num hospital de Paris. Não tiveram filhos.

Leroyer era adotado. Na cena final de Nicodemos e o Vento as freiras devolvem sobriamente o bebê (que é Philip e já foi um velhinho e um homem de bigode e um marido adolescente e uma criança orfã, nessa ordem) a sua mãe, que o recebe em lágrimas e leva-o, vicariamente, para casa.

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