quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quando o reino vem

Por Paulo Brabo - A Bacia das Almas
“Vinde a mim, todos que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”. Essas palavras dominaram a mensagem e a obra de Jesus por completo; elas contém o tema de tudo que ele ensinou e fez. Deixam também claro que em seu ensino Jesus deixou para trás, e muito, a mensagem de João Batista. João, embora tenha já entrado em conflito silencioso com os sacerdotes e os escribas, não chegou a se tornar um sinal definitivo de contradição.

“Os caídos e os ressurretos”, uma nova humanidade em contraste com os antigos homens de Deus – esses, Jesus Cristo foi o primeiro a criar. Ele entrou em imediata oposição com os líderes oficiais do povo, e neles com a natureza humana em sua manifestação usual. Eles pensavam em Deus como um déspota que guardava as observâncias cerimoniais de seu palácio; ele respirava na presença de Deus. Eles viam Deus somente na sua lei, que haviam convertido num labirinto de desfiladeiros escuros, becos sem saída e passagens secretas; ele o via e sentia em todo lugar. Eles tinham posse de milhares dos mandamentos divinos e achavam, por essa razão, que o conheciam; ele tinha apenas um, e o conhecia através dele. Eles haviam tornado essa religião num negócio mundano, e não havia coisa mais detestável; ele proclamava o Deus vivo e a nobreza da alma.

Se empreendermos uma visão geral do ensino de Jesus, veremos que ele pode ser agrupado sob três tópicos. Cada um é de tal natureza que é capaz de conter o ensino todo, que pode ser portanto exposto integralmente através de qualquer um deles.

Em primeiro lugar, o reino de Deus e sua vinda.

Em segundo lugar, Deus o Pai e o infinito valor da alma humana.

Terceiro, a supremacia ética do mandamento do amor.

Que a mensagem de Jesus seja tão singular e poderosa deve-se justamente ao fato de ser tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica. É simples a ponto de poder ser esgotada em cada um dos conceitos essenciais que ele proferia, e tão rica que cada um desses conceitos parece inesgotável, o completo significado dos aforismos e parábolas inteiramente fora de nosso alcance. Mas trata-se de ainda mais do que isso, porque ele mesmo é a credencial de tudo que disse. Suas palavras falam conosco, através dos séculos, com a vivacidade do momento presente. É aqui que fica comprovado o ditado profundo que diz: “Fala, para que eu possa te ver”.

A mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus percorre todas as formas e manifestações da profecia que, extraindo sua cor do Antigo Testamento, anuncia o dia do julgamento e o governo visível de Deus no futuro – até a ideia da chegada interior do reino, a começar da mensagem de Jesus e tendo ali o seu início. Sua mensagem abarca dois polos com diversos estágios intermediários, que fazem com que se mesclem um com o outro.

No primeiro polo a chegada do reino parece ser um evento puramente futuro, e o reino em si o governo visível e exterior de Deus; no segundo, parece ser algo interior, algo que já está presente mas faz sua entrada precisamente agora. Vê-se, portanto, que nenhum dos dois conceitos de reino de Deus, nem o modo como sua vinda é representada, são livres de ambiguidade.

Jesus extraiu a noção da vinda do reino das tradições religiosas da sua nação, onde ela já ocupava lugar de destaque. Ele incorporou os aspectos dela nos quais o conceito era ainda uma força viva, e acrescentou aspectos novos. As expectativas eudemonísticas de caráter mundano e político foi tudo que ele descartou.

Não deve haver dúvida de que a ideia dos dois reinos, um de Deus e outro do diabo e do conflito entre eles, e de que no conflito final em algum momento futuro o diabo, expulso há muito do céu, seria derrotado também na terra, era uma noção que Jesus simplesmente compartilhava com seus contemporâneos. Ele não a iniciou; ele cresceu nela e a reteve. A outra noção, no entanto, O próprio Deus é o reino.de que o reino de Deus “não vem com aparência exterior”, de que ele já está aqui entre nós, é somente dele.

É verdadeiramente difícil e de responsabilidade a tarefa do historiador de discernir entre o que é tradicional e o que é peculiar, entre cerne e casca, na mensagem de Jesus do reino de Deus. Quão longe devemos ir? Não queremos roubar sua mensagem de seus matiz e caráter originais; não queremos transformá-la num pálido sistema de ética. Por outro lado, não queremos perder de vista seu caráter e força peculiares, como fazem os que querem explicar toda a mensagem de Jesus a partir das ideias gerais que prevaleciam no seu tempo. A própria maneira com que Jesus fazia distinção entre os elementos tradicionais – ele não deixou de lado nenhum em que houvesse uma centelha de força moral, e não aceitou nenhum que encorajasse as expectativas egoístas da sua nação, – essa própria discriminação nos ensina que era a partir de um conhecimento mais profundo que ele falava e ensinava.

Nós porém possuímos testemunho de natureza muito mais extraordinária. Quem quer saber o que significava na mensagem de Jesus o reino de Deus e a sua vinda deve ler e estudar as suas parábolas. Verá então o que ele queria dizer: o reino de Deus vem quando vem ao indivíduo, entrando em sua alma e aferrando-se a ela. Por certo o reino de Deus é o governo de Deus, mas é o governo de Deus no coração de indivíduos: é o próprio Deus em seu poder. A partir deste ponto de vista, tudo que há de dramático no senso externo e histórico desaparece, desaparecendo também todas as esperanças para o futuro. Tome qualquer parábola que lhe ocorrer, a parábola do semeador, a da pérola de grande valor, a do tesouro enterrado no campo: a palavra de Deus, o próprio Deus, é o reino. Não é uma questão de anjos e demônios, tronos e principados, mas de Deus e da alma, da alma e de seu Deus.

Adolf Harnack (1851-1930), em O que é o cristianismo
Palestra III

terça-feira, 19 de abril de 2011

Onde Deus não está

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

Se me recordo bem daquela palestra que não cheguei a assistir, a pedagoga estava dizendo que há cinco impulsos ou motivações básicas que levam as pessoas a agir como agem, e que é tarefa do professor fornecer aos alunos ferramentas para que sejam capazes de trocar os impulsos mais baixos pelos mais elevados. 

A motivação mais mesquinha é o medo da punição; acima dela está a esperança de receber uma recompensa; mais nobre do que essas duas é agir obedecendo a uma regra ou a uma lei; acima desta está o desejo de receber a aprovação de um notável ou do grupo; e o impulso mais nobre seria agir de determinado modo simplesmente porque é a coisa certa a se fazer.

Assim, com os impulsos mais mesquinhos embaixo e os mais elevados em cima:
[ 1 ] Porque é a coisa certa a se fazer
[ 2 ] Para receber aprovação
[ 3 ] Em obediência a uma regra
[ 4 ] Para receber uma recompensa
[ 5 ] Para evitar a punição

O desconcertante em se ver as coisas expressas dessa forma é entender que a maioria de nós não chega jamais a ultrapassar [2] e [3]; se formos sinceros, será preciso reconhecer que a maior parte do tempo transitamos entre [4] e [5].

Os mais beatos entre nós poderiam lembrar que há uma motivação ainda mais nobre do que simplesmente fazer a coisa certa, e essa seria fazer pura e simplesmente a vontade de Deus. Uma reflexão sincera, no entanto, bastará para demonstrar que esse fictício impulso de “fazer a vontade de Deus” está por demais contaminado pelos itens [2], [3], [4] e [5] para poder alegar qualquer genuína fidelidade ao item [1].

Os antigos mestres da humanidade deixaram muito bem explicado, cada um a seu modo, que não há verdadeiro mérito em agir impulsionado pelo intervalo entre [5] e [2]. A singularidade do Novo Testamento talvez esteja em anunciar que não há mérito sequer em [1], e que mesmo no impulso de fazer a coisa certa Deus pode não estar.

A boa nova é também uma nova terrível e devastadora, porque acaba deixando claro, pelo efeito cumulativo da sua revelação, que o único impulso que deve nos levar a agir é porque é precisamente dessa forma que queremos agir. Debaixo do peso dessa liberdade e dessa autenticidade viveu e morreu Jesus; debaixo delas viveram e morreram Sócrates, São Francisco e todos os santos.

Fazer o que você quer fazer – aquilo que você absolutamente deseja e sonha e aprova e anseia e endossa e absolutamente não condena – é o único centro concebível para a vontade concebível de Deus.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tragédia Carioca

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital
Doze adolescentes, de 13 a 15 anos, foram cruelmente assassinados, a 7 de abril, nas salas de aula de uma escola de Realengo, Rio. Outras tantas ficaram feridas. O criminoso, de 23 anos, disparou na própria cabeça a 66a bala saída de seus dois revólveres. 
Massacre como este nunca havia ocorrido no Brasil. São frequentes nos EUA. E enchem o prato da mídia em busca de audiência. A cada telejornal, reaparecem as fotos das crianças, o depoimento de parentes e amigos, os sonhos que nutriam...
Em Antígona, de Sófocles (496-405 a.C.), a mulher que dá nome à peça rebela-se contra o Estado que a proíbe de sepultar seu irmão. Hoje, a exploração midiática torna os corpos insepultos. As famílias das crianças sacrificadas, ontem no anonimato, agora ocupam manchetes e são alvos de holofotes. É a morte como sucesso de público!
O assassino foi o único culpado? Tudo decorreu de um "monstro” movido por transtornos mentais? A sociedade que engendra esse tipo de pessoa não tem nenhuma responsabilidade?
Um gesto brutal como o do rapaz que matou à queima-roupa 11 meninas e 1 menino não é fruto de geração espontânea. Há um histórico de distúrbios familiares, humilhações escolares (bulliyng) e discriminações sociais, indiferença de adultos frente a uma criança com notórios sinais de desajustes.
Quando pais têm mais tempo para dedicar à internet e aos negócios que aos filhos; adolescentes ingerem bebida alcoólica misturada a energéticos; alunos ameaçam professores; crianças se recusam a dar lugar no ônibus aos mais velhos... o sinal vermelho acende e o alarme deveria soar.
O que esperar de uma sociedade que exalta a criminalidade, os mafiosos, a violência, através de filmes e programas de TV, e quase nunca valoriza quem luta pela paz, é solidário aos pobres, trabalha anonimamente em favelas para, através do teatro e da música, salvar crianças de situações de risco?
Há anos acompanho o trabalho do Grupo Tear de Dança, que congrega jovens de baixa renda da zona Norte do Rio. Embora seus espetáculos sejam de boa qualidade artística, sei bem das imensas dificuldades de patrocínio, de divulgação, de espaço na mídia para noticiar suas apresentações.
É triste e preocupante ver o talento de um jovem bailarino se perder porque, premido pela necessidade, ele deve retornar ao trabalho de ajudante de pedreiro ou, a bailarina, de vendedora ambulante.
Como evitar novos massacres semelhantes ao de Realengo? Quase dois terços dos eleitores brasileiros aprovaram, no plebiscito de 2005, o comércio de armas. As lojas vendem armas de brinquedo presenteadas às crianças. Os videogames ensinam como se tornar assassino virtual.
Há no Brasil 14 milhões de armas em mãos de civis, das quais metade ilegais, como as duas que portava o assassino dos alunos da escola Tasso da Silveira.
Segundo o deputado Marcelo Freixo (PSOL), existem no estado do Rio 805 mil armas em mãos de civis, da quais 581 mil são ilegais, muitas em mãos de bandidos. "O cidadão que compra uma arma para ter em casa, pensando em se proteger, acaba armando os criminosos”, afirmou no Rio o delegado Anderson Bichara, da Delegacia de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas.
Como dar um basta à violência se o Instituto Nobel da Noruega concede o prêmio da Paz a guerreiros como Henry Kissinger, Menachem Begin, Shimon Peres e Barack Obama?
Monstro é tão-somente quem entra armado numa escola, num supermercado, num cinema, e mata a esmo? Como qualificar a decisão do governo dos EUA de, após vencer a guerra contra a Alemanha e o Japão, jogar a bomba atômica sobre a pacífica população de Hiroshima, a 6 de agosto de 1945 (140 mil mortos), e três dias depois outra bomba atômica sobre a população de Nagasaki (80 mil mortos)?
Hitler e Stalin também podem ser qualificados de "monstros” e seus crimes são sobejamente conhecidos. Mas não há uma certa domesticação de nossas consciências e sensibilidades quando somos coniventes, ainda que por inação ou omissão, frente ao massacre dos povos iraquiano, afegão e líbio?
A paz jamais virá como resultado do equilíbrio de forças. Há nove séculos o profeta Isaías alertou-nos: ela só vigorará como fruto de justiça.
Mas quem tem ouvidos para ouvir?
*
O governo Dilma, com razão, não gostou do relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre os direitos humanos no Brasil, divulgado semana passada. O Itamaraty fez uma nota de protesto. É pouco. Só há uma resposta à altura: o Brasil emitir um relatório sobre os direitos humanos nos EUA.

domingo, 17 de abril de 2011

O banquete no deserto

Paulo Brabo - A Bacia das Almas

O primeiro mal-entendido pode nascer da opinião de que a oração é algo de alienante, que nos afasta da vida do mundo. Porém a oração se nutre de solidão, não de isolamento, e o silêncio contemplativo é denso de palavras e de presenças. Por essa razão rejeito o verbo “retirar-me”. Ao deserto não se retira, como se fosse uma concha, ao abrigo das dificuldades que são de todos. No deserto se entra, se caminha, se imerge, assumindo a história e os problemas de todos – engajando-se e lutando contra as alienações deste nosso mundo, como sempre fiz e sempre farei. 

Posso dizer que até hoje tenho buscado testemunhar que a contestação não é incompatível com a oração; de agora em diante quero testemunhar que a oração é compatível com a contestação; a oração é, na verdade, a própria essência da contestação. Porém se trata de uma antítese fictícia, seja no que me diz respeito seja no que diz respeito a esses valores em si mesmos. Porque há uma contestação contemplativa, que é a própria contestação de Cristo, nos confrontos com o seu mundo e com a sua “igreja”. A oração, na realidade, é a contestação mais profunda neste nosso mundo utilitário, em que coloca em crise não só as formas de opressão em que se manifesta mas também o modelo antropológico-cultural que exprime: um modelo essencialmente utilitarista, A oração é a própria essência da contestação.privado daqueles espaços de fantasia, de poesia e de gratuidade sob os quais se insere precisamente a oração.

Há muitos modos de se sentir e de se viver o deserto, segundo a espiritualidade de cada um. Para mim o deserto é acima de tudo o lugar feliz do encontro com Deus e com os homens. E, acima de qualquer outra coisa, quero dar testemunho daquela alegria, que ninguém pode subtrair-nos, deixada pelo senhor Jesus por ocasião da sua ceia. Trata-se de um testemunho que – embora radicado na sofrida participação dos problemas do mundo – não penso seja fora de tempo ou de lugar, mesmo sendo nossa história assim atormentada; na verdade, precisamente por essa razão. Enquanto permanecemos cozendo no fogo brando da angústia, numa complacência narcisística que revela a estagnação da história e a incapacidade de sairmos em busca de novos climas culturais, o que é necessário, mais do que um sofrimento romântico, é um sinal de alegria e de esperança que nos demonstre que, mesmo hoje, pode-se encontrar em Deus a pacificação e a harmonia do homem. É isso: meu deserto quer ser a expressão não da desolação de um mundo que se esfacela, mas o impulso, a alegria, a esperança, a harmonia – porque não, a profecia – de um mundo novo que está às portas e que será mais próximo do que aqueles “novos céu e nova terra” prometidos pelo Apocalipse: um mundo que tem necessidade de entusiasmo e de engajamento mas também de solidão e de silêncio, na medida em que esses permaneçam participativos e engajados.

Meu desejo, por fim, é de demitologizar a figura do eremita; porque acredito que a “normalidade” é um grande valor, a ser perseguido em todas as situações, e que a renúncia a modos de vida excepcionais pode ser também uma forma da pobreza e da simplicidade evangélicas. Um eremita não é um misantropo do qual ninguém pode se aproximar; não é tampouco necessariamente um recluso que não possa, de vez em quando, deslocar-se e encontrar-se com as pessoas; que não possa, acima de tudo, receber quem venha compartilhar algumas horas da sua solidão e trazer-lhe a dádiva da sua amizade; mesmo porque, na verdade, a hospitalidade tem sido sempre um dom monástico. O eremita é simplesmente alguém que escolhe viver sozinho porque na solidão tem o seu momento privilegiado de encontro.

Amigos caríssimos, isto não é uma despedida, só se for para um modo mais próximo e frequente de presença. Porém, mesmo que as ocasiões de nos vermos se tornem mais raras, levo-os todos comigo e me encontrarei com vocês cotidianamente na eucaristia: ao calar do dia, na hora inquieta e dulcíssima do encontro de Emaús, em que temeríamos a noite se o Senhor não estivesse ali, com seu pão. Nessa hora íntima da ceia vocês são todos convidados à minha mesa, e ali os encontrarei a todos, e os nomearei um a um. Vocês talvez não façam ideia do quanto deve amar os homens aquele que se dispõe a estabelecer espaços somente materiais de distância entre ele mesmo e os outros. É neste amor terno e profundo que não me despeço mas vou ao encontro de vocês e os abraço, um a um, do meu posto na solidão, habitada por Deus e por vocês.

Adriana Zarri (1919-2010)

Pecados Sociais

sábado, 16 de abril de 2011

Perdi a Fé

Ricardo Gondim

Sentado na quarta fileira de um auditório superlotado, eu ouvia um renomado orador cativar mais de mil pessoas com sua oratória carismática. Na contramão do frenesi provocado por ele eu repetia para mim mesmo: "Não, não posso negar, já não comungo com os mesmos pressupostos deste senhor". Aliás, parece que ultimamente vivo em controvérsias, tanto pelo que escuto quanto pelo que falo. Algumas pessoas me perguntam se provoco polêmica para fazer tipo. Outros querem saber se sei aonde quero chegar. Respondo: - Estou mais certo dos caminhos que não quero trilhar.

Muito de minhas controvérsias surgiram porque eu me recuso a escamotear dúvidas com cinismo. Fujo de tornar-me inconseqüente nas declarações que possa fazer a respeito de Deus e da fé. Receio perpetuar uma espiritualidade desconectada da vida.
Reconheço, algumas intuições sobre teologia ainda estão verdes. Mas, nem sei se quero que elas amadureçam. O pouco de sentido que me fazem basta para que eu me ponha a garimpar a verdade. E isso é bom. Há um fluxo que me faz abandonar certas pedras onde outrora tomei pé. O que abandonei?
1. Não consigo mais acreditar no Deus inativo, que carece de preces "verdadeiras" para mover-se. Uma frase que não faz nenhum sentido para mim? "Oração move o braço de Deus".

2. Não consigo mais acreditar que os milagres de Deus sejam prêmios que privilegiam poucos. Não consigo entender que Deus se comporte como um "intervencionista" de micro realidades, deixando exércitos de ditadores “correrem frouxos". Inquieta-me saber que Deus tenha uma "vontade permissiva" para multinacionais lucrarem com remédios que poderiam salvar vidas. Não aceito que haja uma razão eterna para que governos corruptos atolem os mais pobres na mais abjeta miséria.

3. Não consigo mais acreditar que Deus, mantendo o controle absoluto de tudo o que acontece no universo, tenha sujado as mãos com Aushwitz, Ruanda, Darfur, Iraque e outras hecatombes humanas. Não aceito que ele, parecido com um tapeceiro, precisa dar nós malditos do lado de cá da história enquanto, do outro lado, na eternidade, faz tudo perfeito. Qual o propósito de Deus ao “permitir” que crianças sejam mortas pela loucura de um atirador ou que uma menina esteja paraplégica com bala perdida?

4. Não consigo mais acreditar que a função primordial da religião seja acessar o sobrenatural para tornar a vida menos sofrida. Os cristãos, em sua grande maioria, tentam fazer da religião um meio de controlar o futuro; praticam uma fé preventiva, pois aceitam como verdade que os verdadeiros adoradores conseguem se antecipar aos percalços da vida; afirmam que os ungidos sabem prever e anular possíveis acidentes, doenças, ou quaisquer outros problemas existenciais do futuro. Creio que a verdadeira fé não foge da lida, mas encara o drama de viver com coragem.

5. Não consigo mais acreditar em determinismo, mesmo chamado por qualquer nome: fatalismo, carma, destino, oráculo. Depois de ler e reler o Eclesiastes, parei de acreditar que o cosmo funcione como um relógio de quartzo. Acredito que Deus criou o mundo com espaço para a contingência.  Sem esse espaço não seria possível a liberdade humana. Creio que no meio do caminho entre determinismo e absoluta casualidade resida o arbítrio humano. Entendo que liberdade  é vocação: homens e mulheres acolhendo o intento do Criador para que a história e o porvir sejam construídos responsavelmente.

Reconheço que posso assustar na teimosia de importar do mundo do rock para dentro da espiritualidade o significado de “metamorfose ambulante". Nessa constante fluidez, a verdade pode ser simples, mas nunca deixará de ser perigosa. A  senda sulcada da verdade foi sulcada por muitos, entre os passos, porém, percebo a marca das sandálias do meu Senhor. E só isso basta para eu prosseguir.

Soli Deo Gloria

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A doença chamada Homem

Leonardo Boff

Esta frase é de F. Nietzsche e quer dizer: o ser humano é um ser paradoxal, são e doente: nele vivem o santo e o assassino. Bioantropólogos, cosmólogos e outros afirmam: o ser humano é, ao mesmo tempo, sapiente e demente, anjo e demônio, dia-bólico e sim-bólico. Freud dirá que nele vigoram dois instintos básicos: um de vida que ama e enriquece a vida e outro de morte que busca a destruição e deseja matar. Importa enfatizar: nele coexistem simultaneamente as duas forças. Por isso, nossa existência não é simples mas complexa e dramática. Ora predomina a vontade de viver e então tudo irradia e cresce. Noutro momento, ganha a partida a vontade de matar e então irrompem crimes como aquele que ocorreu recentemente no Rio.

Podemos superar esta dilaceração no humano? Foi a pergunta que A. Einstein colocou numa carta de 30 de julho de 1932 a S. Freud:”Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica a ponto de tornar os seres humanos mais capazes de resistir à psicose do ódio e da destruição”? Freud respondeu realisticamente:”Não existe a esperança de suprimir de modo direto a agressividade humana. O que podemos é percorrer vias indiretas, reforçando o princípio de vida (Eros) contra o princípio de morte(Thanatos). E termina com uma frase resignada:”esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”. Será este o destino da espernaça?

Por que escrevo isso tudo? É em razão do tresloucado que no dia 5 abril numa escola de um bairro do Rio de Janeiro matou à bala 12 inocentes estudantes entre 13-15 anos e deixou 12 feridos. Já se fizeram um sem número de análises, foram sugeridas inúmeras medidas como a da restrição à venda de armas, de montar esquemas de segurança policial em cada escola e outras. Tudo isso tem seu sentido. Mas não se vai ao fundo da questão. A dimensão assassina, sejamos concretos e humildes, habita em cada um de nós. Temos instintos de agredir e de matar. É da condição humana, pouco importam as interpretações que lhe dermos. A sublimação e a negação desta anti-realidade não nos ajuda. Importa assumi-la e buscar formas de mantê-la sob controle e impedir que inunde a consciência, recalque o instinto de vida e assuma as rédeas da situação. Freud bem sugeria: tudo o que faz surgir laços emotivos entre os seres humanos, tudo o que civiliza, toda a educação, toda arte e toda competição pelo melhor, trabalha contra a agressão e a morte.

O crime perpretado na escola é horripilante. Nós cristãos conhecemos a matança dos inocentes ordenada por Herodes. De medo que Jesus, recém-nascido, mais tarde iria lhe arrebatar o poder, mandou matar todas as crianças nas redondezas de Belém. E os textos sagrados trazem expressões das mais comovedoras:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu”(Mt 2,18). Algo parecido ocorreu com os familiares.

Esse fato criminoso não está isolado de nossa sociedade. Esta não tem violência. Pior. Está montada sobre estruturas permanentes de violênca. Aqui mais valem os privilégios que os direitos. Marcio Pochmann em seu Atlas Social do Brasil nos traz dados estarrecedores: 1% da população (cerca de 5 mil famílias) controlam 48% do PIB e 1% dos grandes proprietários detém 46% de todas as terras. Pode-se construir uma sociedade sem violência com estas relações injustas? Estes são aqueles que abominam falar de reforma agrária e de modificações no Código Florestal. Mais valem seus privilégios que os direitos da vida.

O fato é que em pessoas pertubadas psicologicamente, a dimensão de morte, por mil razões subjacentes, pode aflorar e dominar a personalidade. Não perde a razão. Usa-a a serviço de uma emoção distorcida. O fato mais trágico, estudado minuciosamente por Erich Fromm (Anatomia da destrutividade humana, 1975) foi o de Adolf Hittler. Desde jovem foi tomado pelo instinto de morte. No final da guerra, ao constatar a derrota, pede ao povo que destrua tudo, envene as águas, queime os solos, liquide os animais, derrube os monumentos, se mate como raça e destrua o mundo. Efetivamente ele se matou e todo os seus seguidores próximos. Era o império do princípio de morte.
Cabe a Deus julgar a subjetividade do assassino da escola de estudantes. A nós cabe condenar o que é objetivo, o crime de gravíssima perversidade e saber localizá-lo no âmbito da condição humana. E usar todas as estratégias positivas para enfrentar o Trabalho do Negativo e compeender os mecanismos que nos podem subjugar. Não conheço outra estratégia melhor do que buscar uma sociedade justa, na qual o direito, o respeito, a cooperação e a educacção e saúde para todos sejam garantidos. E o método nos foi apontado por Francisco de Assis em sua famosa oração: levar amor onde reinar o ódio, o perdão onde houver ofensa, a esperança onde grassar o desespero e a luz onde dominar as trevas. A vida cura a vida e o amor supera em nós o ódio que mata.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Você sabe com quem está falando?

Poucas frases me enervam como essa. Não tanto por sua arrogância e prepotência, mas porque ela carrega séculos de nossa formação, lembrando que uns falam, outros obedecem. E que, na visão de parte de nossa elite política e econômica, a igualdade de direitos é um discurso fofo que se dobra às necessidades individuais. Não somos uma sociedade de castas, mas cada um que fique no seu quadrado.
“Quem você pensa que é?” é menos agressiva e útil frente a algum desmando de um representante do Estado, por exemplo. Mas não faz tanto sucesso por aqui como a outra. Pois não é o questionamento do uso exagerado do poder por um policial ou um fiscal que está em jogo nesse momento de discussão, mas sim a afronta de tentar tratar um doutor como se fosse um operário qualquer.
A idéia vai se adaptando conforme o ambiente e pode assumir a forma de “Teu salário paga a comida do meu cachorro” (muito querida pelos jogadores de futebol), “Eu conheço gente importante, sabia?” (uma das campeãs entre os guardas de trânsito) e “Você vai perder seu emprego, meu irmão” (tente ser um oficial de Justiça cumprindo seu dever para ver o que você vai ouvir).
Ontem, no show do U2 em São Paulo, um sujeito tentou armar um barraco na pista. Bem vestido, tratado com leite de pêra, claramente de uma classe social superior, bradou ao cara, cuja cara ele queria “arrebentar”: “Isso que dá vir a um lugar que tem essa gentinha”, entre outras pérolas impronunciáveis, ditadas com o amor carregado das frases acima discutidas.
A maior parte das pessoas que pode comprar um ingresso de pista em um show desses, salvo exceções, não é pobre – haja vista que é um luxo extremo se comparado a necessidades básicas, apesar da gente não querem só comida… Mas também não é impossível ir – juntando com sacrifício, dá. O que obriga a convivência intra-classes, o pavor de parte dos abastados. Cidades como o Rio de Janeiro, que têm praia, estão mais acostumadas a isso, mas nem sempre de forma pacífica a bem da verdade. No Brasil, de uma maneira geral, se você quiser viver em uma bolha a vida inteira, praticamente consegue. Tenho amigos que conhecem a Europa como a palma da mão, mas que irão à Itaquera pela primeira vez na Copa de 2014. Ou que nunca estudaram com um homem ou uma mulher negra.
Essa ausência da cultura da alteridade leva ao medo e colabora com comportamentos e frases bizarras, revelando o lado mais sombrio da alma de cada um. O que é extremamente complicado porque o Brasil é composto majoritariamente dessa “gentinha”. Não se espera que os mais ricos passem a defender que os mais pobres tenham os mesmos direitos que eles (é o sistema, estúpido!), mas pelo menos que concordem em um quinhão mínimo de direitos. Um combo popular de acesso ao Estado, digamos assim. O que permitiria a convivência pacífica.
Com o crescimento da classe média, aumenta o número de pessoas com acesso a bens e serviços. Isso gera aquela “infestação” de gente parda e feia nos aeroportos (quem já ouviu declarações de dondocas e pseudo-empresários a respeito disso ficou de cabelo em pé), que estão tomando o “nosso” lugar. Como diria o genial Marcelo Adnet em uma de suas piadas escrachando nossa elite: “Agora pobre voa! Vá de ônibus! O Brasil sempre foi assim. Ora, e as tradições dessa República?”
A coisa boa é que isso é, a meu ver, irreversível. Ou seja, vai chegar o dia em que será comum dizer “Quem você pensa que é” para quem falou “Você sabe com quem está falando?”.
A coisa ruim é que mesmo com muito trabalho de educação para a cidadania, concomitante a mudanças estruturais para garantir que a República realmente sirva ao interesse comum, ainda assim levará um rosário de gerações até que frases forjadas pelo preconceito e a soberba tornem-se peça de museu.
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