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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Com Alckmin, passeando na Daslu

da série "Aprendendo com o passado"

MÔNICA BERGAMO - Folha de São Paulo, Segunda-feira 6 de junho de 2005.

Com Alckmin, passeando na Daslu

Divulgação

Donata Meirelles (de branco), Eliana Tranchesi (de preto), Geraldo e Lu Alckmin (ao centro)


"Sôôôô!". Donata Meireilles, diretora da Daslu, tenta puxar Sophia Alckmin para perto dos pais dela, Geraldo e Lu Alckmin. "Ai, eu vou chorar", diz Sophia, diretora de novos negócios da butique. Em poucos segundos o governador de SP desfará o laço da fita de inauguração da Daslu, o maior templo de consumo do país. Ali, em quatro andares e 20 mil m2, serão vendidos, a partir de quarta, 120 marcas com produtos que vão de uma caixa de band-aid por R$ 3,99 a uma ilha em Angra por R$ 8 milhões.

E soam os violinos da Daslu Orchestra, formada por 50 músicos. São 12h de sábado. Alckmin, que chegou ao prédio de helicóptero, desfaz a fita: "A Daslu é o traço de união entre o bom gosto e muitas oportunidades de trabalho", diz. Só para a família de Alckmin são duas: trabalham lá a filha e a cunhada dele, Vera, que faz listas de presentes para noivas. A loja tem outros 958 funcionários.

Lágrimas, aplausos, tumulto. Uma flûte de champanhe se estilhaça no chão, aos pés do governador. "Não tem ninguém descalço aqui, né?", diz a primeira-dama, Lu Alckmin. O governador se abaixa para pegar os cacos. Garçons de luvas brancas socorrem o casal. O modelo Anderson Varejão pergunta se Alckmin é "candidato à Presidência". "Vou responder só no ano que vem", diz Alckmin.

Sophia puxa o pai pelo braço: começa o tour pela Daslu. Primeiro piso, importados femininos. Alckmin entra na Chanel, onde um smoking de veludo preto é vendido a R$ 22.600, uma sandália de cetim, gurgurão e pérolas sai por R$ 2.900 e uma bolsa multipocket, por R$ 14.000. As vendedoras informam que há mais de 50 pessoas na fila em SP para comprar o mimo, até baratinho se comparado à bolsa Dior de couro de crocodilo, de R$ 39.980, e à mais cara Louis Vuitton, com pele de mink: R$ 23 mil.

O ex-senador Pedro Piva e Andrea Matarazzo, secretário de Serviços da Prefeitura, encontram o governador. "Estamos querendo fazer a Dasluz no centro de SP", diz Matarazzo. "Aí esculhamba tudo. Confunde o perfil", opina Piva.

John Kirton, presidente da Chanel para as Américas, veio do Panamá prestigiar a nova Daslu. A marca tem lojas no México e em SP. Kirton revela que as brasileiras "compram mucho". Mais do que no México? "Bastante más acá."

A empresária Helena Motin é uma das grandes clientes de Chanel no Brasil. Emocionada, elogiava a nova Daslu.

"Isso aqui é uma apoteose", dizia. Motin compra "Chanel, Prada, Gucci, tudo na Daslu. Não compro mais nada lá fora". Ela diz que a maior extravagância que já fez na vida foi "gastar R$ 280 mil numa Mercedes. E na Daslu foi durante uma liqüidação. Fui me empolgando, me empolgando... Eram umas 20 peças, todas de grife. Hoje mesmo (sábado, 18h) acabei de reservar dois sapatos Chanel. Eu poderia passar o dia me perdendo na Daslu. Aqui é o lugar mais maravilhoso para se perder no mundo." Beth Szafir também estava deslumbrada com a loja. "Tenho vontade de jogar meu guarda-roupa no lixo e comprar tudo novo."

Alckmin segue andando pelo labirinto de lojas estrangeiras, umas grudadas nas outras (na Daslu não há vitrines nem corredores e as escadas rolantes estão embutidas, para não serem vistas. Nada pode lembrar um shopping center).

Chanel emenda com Gucci -onde uma jaqueta de couro sai por R$ 39.498 -, que emenda com Armani -um blazer pode custar R$ 31.240 -que emenda com Prada -um casaco de mink, R$ 47 mil -YSL, Dolce & Gabbana (um jeans, R$ 4.180), Valentino (um casaco de marta-zibelina, com oito rabos do animal na ponta de cada uma das mangas, R$ 43.420).

Um champanhe-bar une as lojas femininas -as portas de Dior, Fendi, Prada e Emilio Pucci dão nele. É um átrio com poltronas verdes e brancas, cortinas de linho estendidas por dois andares e paredes beges bem claras -cor de todos os espaços internos coletivos do prédio. Nos dois dias da festa, que terminou ontem, foram servidas 2.280 garrafas de Veuve Clicquot para 6.000 convidados, que chegaram em 3.000 carros, foram servidos por 500 garçons e zelados por quase cem seguranças.

Sophia leva o pai até o segundo pavimento. Mostra um helicóptero pendurado no teto. "Que lindas as motos, Sô", diz Lu Alckmin à filha ao ver, encostada perto da escada, uma moto Harley Davidson (R$ 195 mil). Alckmin entra na Ermenegildo Zegna, passa pela Ralph Lauren, onde uma camiseta pode custar R$ 2.460. "É tudo muito colorido aqui", observa.

Os carros chamam a atenção do governador. Estão em exibição um Volvo de R$ 365 mil (sem utilitários), lanchas de R$ 7 milhões, TVs de plasma de R$ 300 mil. Na importadora de vinhos, um Chateau Petrus, safra 2000, sai por R$ 20 mil. "Aqui é o setor de tecnologia. Porque o homem vai vir na Daslu ver os brinquedos dele, e não só roupa", diz Nizan Guanaes, que faz tour com um grupo que cruza com o de Alckmin. "Que maravilha, Nizan", diz a publicitária Silvana Tinelli ao encontrar o amigo. "É o maravilhoso mundo do consumo!", diz Nizan.

"Não tem nada igual no mundo", diz o arquiteto Julio Neves, responsável pelo projeto. Ele calcula que a reforma custou "uns R$ 50 milhões. Isso aqui não é um shopping. É um castelo." "É meio Disney. A primeira vez que a gente vai, fica chapado", diz o publicitário Ucho Carvalho, consultor da Daslu. Soraia Milan, diretora de compras da butique, diz que "uma cliente Daslu volta à loja a cada dez dias porque aqui o ato da compra é prazeroso. Ela fica amiga da vendedora, encontra amigas, toma um suquinho, come um lanchinho. E aí vai às compras", diz. "Isso aqui é um clube", completa Julio Neves.

"Vou duas vezes por mês à Daslu", diz Ana Nogueira, dona-de-casa que, de colar Swarovski, prestigiou a inauguração de sua butique predileta. "Adoro passar o dia, fazer compras, almoçar, tomar cafezinho...Mas tenho limite: gasto até R$ 5 mil mensais com roupa", dizia, tomando champanhe com a amiga Beth Ferraz, para quem "a Daslu é um spa". Beth diz que certa vez "meu marido foi para Paris. Fiquei com raiva e detonei R$ 10 mil. Mas, como trabalho, sei o valor do dinheiro. Eu detono pouco. Agora, se a peça é clássica, pago. Dou R$ 20 mil tranqüilamente por uma peça que vou repassar à minha filha".

O governador começa a fazer o caminho de volta. Passa de novo por Ralph Lauren, Chanel. Os repórteres perguntam a Lu Alckmin: "A senhora está de bolsa Chanel. E a blusa? "É Burberry", responde Lu. "Gosto de peças clássicas". O governador, que diz comprar só "umas camisas" na Daslu, aperta o passo. Ainda vai a Carapicuíba. E Lu tem que correr para o Palácio dos Bandeirantes. Precisa se trocar, "colocar um jeans", para o próximo compromisso: um evento na Água Branca em que caminhões de vários bairros entregarão agasalhos doados para as crianças pobres da cidade enfrentarem o inverno que se avizinha.

Prezada Mônica Bergamo,
Parabéns. Seu texto sobre a inauguração da Daslu é jornalismo de primeira.
Indignei-me à medida que caminhei ao lado do governador pelas lojas e soube os preços dos "brinquedinhos". A cada comentário das "daslusetes" minhas entranhas se revolveram.
O casal Geraldo e Lu terem que sair correndo para Carapicuíba e Água Branca foi o confeite na sutil ironia que permeou todo seu relato. Mais uma vez, parabéns.
Agora vou chorar um pouco. A insensibilidade das elites que adoram se "perder no lugar mais maravilhoso do mundo" pertinho da miséria do país mais injusto do mundo, dá vontade de morrer.
Ricardo Gondim

Soli Deo Gloria

Um comentário:

Robson Lelles disse...

Por onde mesmo andam as senhoras Daslu? Vez última recebiam visitam da Polícia Federal por suspeita de contrabando e sonegação fiscal. Um providencial Habeas Corpus deve ter permitido que elas estejam hoje ceando com seus amados. Enquanto isso, ali perto, pessoas desnutridas, deseducadas e descivilizadas preparam um ataque desesperado sobre os que muito tem e nada compartilham. Como podem reclamar da consequencia de seus próprios atos?

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