Ocorreu um erro neste gadget

sábado, 15 de agosto de 2009

A Máscara Secular

Nossa sociedade é mais preocupada com as vítimas do que qualquer outra. Mesmo quando insincero, quando não passa de um grande espetáculo, o fenômeno não tem precedentes. Nenhum período histórico, nenhuma sociedade que conhecemos, jamais falou sobre as vítimas do modo como falamos. Podemos detetar no passado recente as primeiras manifestações desta atitude contemporânea, mas a cada dia novos recordes são quebrados.

Examine fontes antigas, pergunte em qualquer lugar, vasculhe os cantos do planeta e não irá encontrar em lugar algum coisa alguma que lembre mesmo que remotamente nossa preocupação contemporânea pelas vítimas. A China dos mandarins, o Japão dos samurais, os hindus, as sociedades pré-colombianas, Atenas, Roma republicana ou imperial – nenhuma dessas sociedades demonstrava qualquer preocupação por suas vítimas, que sacrificavam sem número aos seus deuses, à honra da pátria, à ambição dos conquistadores, grandes ou pequenos.

Nossa sociedade aboliu a escravidão e a servidão. Mais tarde vieram a proteção às crianças, às mulheres, aos idosos, aos estrangeiros de fora e de dentro. Há ainda a batalha contra a pobreza e o subdesenvolvimento. Mais recentemente tornamos universal a assistência médica e a proteção aos deficientes.

A cada dia cruzamos novos limiares. Quando uma catástrofe ocorre em algum lugar do globo, as nações mais priviliegiadas sentem-se obrigadas a enviar auxílio ou participar nas operações de resgate. Alguém pode afirmar que esses são gestos mais simbólicos do que reais, e refletem apenas uma preocupação com prestígio. Sem dúvida, mas em qual período antes da nosso e debaixo de qual céu a assistência mútua internacional representou uma fonte de prestígio para as nações?

Uma única rubrica engloba tudo que estou sumarizando agora em nenhuma ordem particular e sem nenhuma intenção de ser completo: a preocupação com as vítimas. Essa preocupação é às vezes exagerada e tão caricata que presta-se ao riso, mas deveríamos nos guardar contra a tentação de vê-la como mais um item, como nada além de tagarelice ineficaz. Trata-se mais do que uma comédia de hipocrisia. Ela criou ao longo dos séculos uma sociedade como nenhuma outra, e está unificando o mundo pela primeira vez na história.

A porção essencial do que circula agora como direitos humanos está no reconhecimento indireto do fato de que cada indivíduo ou cada grupo de indivíduos pode tornar-se “bode expiatório” dentro de sua própria comunidade. Enfatizar os direitos humanos equivale a uma tentativa (anteriormente impensável) de controlar o incontrolável processo de contágio mimético/imitativo violento.

O que temos é o reconhecimento vago da possibilidade de que qualquer comunidade pode acabar perseguindo seus próprios membros. Isso acontece sempre que uma multidão se mobiliza de repente contra qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer modo, qualquer que seja o pretexto. Também acontece, mais frequentemente, quando uma sociedade torna-se permanentemente organizada na base dos privilégios de poucos às custas de muitos, quando formas de injustiça social perpetuam-se por séculos, às vezes por milênios. A preocupação com as vítimas busca proteger-nos contra as incontáveis variedades do mecanismo de vitimização.

Ninguém teve sucesso em tornar a preocupação pelas vítimas algo “ultrapassado”, e isso porque ela é a única coisa no nosso mundo que não é resultado de uma moda recente (embora muitas modas surjam a partir dela). A ascensão do “poder das vítimas” coincide, e não por acidente, com a chegada da primeira cultura planetária. Os antigos absolutos ruíram – humanismo, racionalismo, revolução, até mesmo a ciência. Ainda assim não vivemos num vácuo niilista, porque resta a preocupação com as vítimas, e é esse valor que domina a cultura planetária em que vivemos. Ela é nosso absoluto.

A preocupação com as vítimas leva-nos a opinar que nosso progresso rumo ao humanitarismo tem sido demasiado lento, e que não devemos de forma alguma glorificá-lo, a fim de não torná-lo mais lento ainda. A preocupação moderna com as vítimas obriga-nos a nos condenarmos perpetuamente. Característicamente, nossa preocupação com as vítimas nunca se mostra satisfeita com sucessos passados. Ela jamais louva a si mesma, nem tolera seu próprio louvor. Tenta desviar continuamente a atenção de si mesma, porque devemos estar atentos apenas para as vítimas. Nossa preocupação denuncia sua própria negligência, seu próprio farisaísmo. Nossa preocupação com as vítimas é a máscara secular do amor cristão.

Em resumo, o que nos impede de examinar nossa preocupação pelas vítimas é essa própria preocupação. Quer seja fingida, quer seja sincera, ela é compulsória em nosso mundo, e sem qualquer dúvida originou-se no cristianismo. A preocupação pelas vítimas não opera na base das estatísticas; opera segundo o princípio dos evangelhos, da ovelha perdida pela qual o pastor, se necessário, abandonará o rebanho inteiro.

René Girard, I See Satan Fall Like Lightning

Uma severa ressalva que devo levantar com relação a esta sacada de Girard está em que, quando se lê o capítulo inteiro do qual estas reflexões foram extraídas, fica manifesto que o autor se ressente de que a preocupação com as vítimas exista no mundo sob uma máscara secular. O sonho de Girard era que a igreja e o cristianismo fossem celebrados planeta afora como a verdadeira fonte deste admirável mundo novo. De minha parte, vejo como motivo de veemente celebração e glória que não seja assim.

Mais sobre o assunto na série de artigos que ainda não escrevi, sobre o desnorteante brilhantismo e os esperados atoleiros do pensamento de Girard.

Paulo Brabo

Fonte: Bacia das Almas

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails