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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Transigência vazia

Ricardo Gondim

Depois de enlameado e jogado na abjeta sarjeta da heresia, ainda tive que ouvir: “Ricardo, você é uma das pessoas mais éticas que conheço”. Confesso, não me empolguei nem um tiquinho com o elogio. Por uma razão muito simples, ética vale muito pouco dentro do movimento evangélico. O que a pessoa me dizia, na verdade, é que, embora ético, infelizmente mereço garrote inquisitorial, ostracismo social, difamação e abandono relacional. Dispenso o confete. Na boca de um ortodoxo ele não passa de condescendência. Acomodação branda sem valor.

A deformação ética do Brasil, percebo estarrecido com os últimos eventos, não se restringe ao movimento religioso que participei a vida inteira. Ela é nacional. Em nome da governabilidade, o partido que sustenta o governo faz alianças com políticos anacrônicos, oligarcas medonhos que condenaram milhões à morte. Em nome do mandato missionário, fecham-se os olhos para falcatruas contábeis. Toleram-se ratos para não atrapalhar a exequibilidade do projeto.

O governo quer eleger o próximo presidente (próxima?) e não pisca duas vezes antes de vender-se ao diabo. Os evangélicos querem povoar o céu e para isso precisam de dinheiro, muito dinheiro. Urge construir mega catedrais, comprar redes de televisão, jatinhos e helicópteros. Não seria possível estabelecer o reino de Deus sem montar filial em Miami. Para valer o discurso esfarrapado da “unção” divina, é preciso mostrar produtividade.

Ninguém se elege no Brasil sem beijar a mão nojenta de caudilhos que se emporcalharam na corrupção. A grana que financia megalomanias evangélicas não cai do céu, como o maná dos tempos de Moisés. Então, que os escrúpulos vão às favas!

A roda tem que girar, o show da fé precisa do horário nobre. É o vale tudo tupiniquim que fez Rui Barbosa afirmar que “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Responda, antes que se multipliquem os conselhos piedosos do tipo “não se deve desistir”, “a esperança é a última que morre”, “Deus está no controle”, “blábláblá”. Quantos ladrões de colarinho branco foram presos nos últimos vinte anos? Quantas denúncias de corrupção acabaram arquivadas na Câmara dos Deputados e no Senado? Quantas igrejas se esvaziaram depois que seus líderes foram sentenciados por crime? “Denuncismo”, grita o Presidente com a língua (e o rabo) presa. “Satanás”, vocifera o pastor engravatado de cima do púlpito.

Não, não sou pessimista, apenas realista. Se conseguirem repatriar o dinheiro da merenda escolar depositado no Paraíso Fiscal, voltará apenas uma fração. Se provarem que houve extorsão e lavagem de dinheiro na igreja-empresa, nada acontecerá com o apóstolo ou bispo. O presidente manterá seus altíssimos índices de popularidade. A igreja vai convocar uma vigília de oração para amarrar o diabo, que será um sucesso.

Prefiro a pecha de herege ao de bandido. E por falar em heresia, gosto mais do Chico Buarque do que do televangelista de voz aveludada: “Mesmo com toda a fama, com toda a brahma/ Com toda a cama, com toda a lama/ A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando/ A gente vai levando essa chama”.

Soli Deo Gloria

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