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sábado, 8 de agosto de 2009

Um despejo no Natal

No confortável abastado mundo da F1:

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Piloto se juntará ao tricampeão mundial Niki Lauda no projeto do patrocinador da Brawn GP que irá organizar turnês extraterrestres

Bem distante desta realidade:

Um despejo no Natal
28 julho 2009

“Foi na véspera de Natal o presente que eles [Prefeitura] me deram. Tiraram tudo que eu tinha de direito e de dignidade, que era meu trabalho, ali eu ganhava o meu pão”

Márcio Zonta,
de São Paulo (SP)



O despejo de Adeniz Sena Dantas e de sua família, no final de 2006, foi apenas mais um episódio da violência contra os moradores de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.
À porta de sua casa, que tinha 90 metros quadrados, bateram assistentes sociais, acompanhada de policiais militares que efeturaram o despejo para que, em seguida, sua residência fosse demolida. Segundo a Prefeitura, a casa estava situada em uma área de risco, pois no local já estavam sendo construídas obras de “revitalização” na comunidade.

Como alternativas à moradora, foram oferecidos um cheque-despejo de cinco mil reais, uma passagem para o Norte do Brasil ou um albergue. O sugerido por assistentes sociais, no entanto, era que Adeniz comprasse um apartamento nos novos prédios que estavam sendo erguidos na comunidade, em prestações que seriam pagas em 15 ou 20 anos.
Em entrevista, a moradora conta as agressões que sofreu no dia do despejo e o descaso de que tem sido vítima.

Em que circunstâncias a senhora foi retirada de sua casa?
Foi na véspera de Natal o presente que eles [Prefeitura] me deram. Tiraram tudo que eu tinha de direito e de dignidade, que era meu trabalho, ali eu ganhava o meu pão. Me deixaram não digo passando necessidade porque o meu esposo faz uns bicos, quando arruma alguma coisa. O que fizeram foi me deixar na rua, simplesmente.

Agora a minha denúncia maior é o fato de que o lote onde eu morava é área particular, não estava assinada pelo juiz para ser tirado aquele dia, o meu e de outra senhora. Eles iam tirar o lote 10, e o nosso era o 11. Eles chegaram às seis e vinte da manhã, com polícia, já tirando tudo. E a oficial de justiça ainda me agrediu, falando que ia me levar presa. Fui agredida porque ela entrou na minha casa e falou que, se eu não me retirasse, ela ia me levar presa. Então falei, “se a senhora tiver direito, porque o direito hoje é meu”. Do meu lote eu não ia sair. Derrubaram, com polícia, no mesmo dia, e botaram tudo que tinha [dentro da casa] do lado de fora.

O pior de tudo é que minha filha, que mora na [rua] Rodolfo Lutz, me deu um lugarzinho para pôr a minha mudança, as minhas coisas, que foram para o caminhão. Mas enquanto me chamaram na cidade, escoltaram o caminhão com a polícia e levaram para um galpão. Aí eu tive que ir lá buscar as coisas de volta, porque eles nem quiseram saber. Eu sei que isso não é de direito porque eu tinha onde colocar as minhas coisas.

Despejaram outras famílias naquele dia, além da sua?
Derrubaram não só a minha [casa], foram de quatro famílias. Uma já estava comigo, um casal com dois filhos porque tinham derrubado a casa deles três meses antes e levaram tudo. Eu cheguei a apanhar até da polícia esse dia porque eu falei que a senhora tinha ido no colégio pegar as crianças e não tinha retornado, então que esperassem um pouquinho. Aí um PM ainda me agrediu por causa disso. Ele pisou a bota no meu pé e falou para eu calar a boca se não me levavam presa. Falei “não, senhor, apenas quero que vocês esperem um pouquinho porque nós temos usucapião na área, temos advogado e não custa vocês esperarem um pouquinho”. Mas eles não respeitaram. Quando ela chegou já estava a porta arrebentada, já não tinha mais casa, e a partir desse dia essa senhora ficou comigo. No dia em que tiraram minha casa não fiquei só eu na rua, ficamos eu e ela, sendo que quebraram tudo que ela tinha, levaram e não sobrou nada. Nós temos boletim de ocorrência da 89ª [delegacia], que fizemos com tudo que aconteceu, mas até hoje nada.

As empresas estão trabalhando aqui dentro? Sim; precisa da área? Sim. Nós não somos contra que tenha o trabalho, que vá concluir as obras. Mas que tenha lugar para a pessoa ter sua dignidade, pagar sua água, sua luz e seus impostos, é o que eles precisam e que é o que nós temos direito de pagar. Não é morar em um locar há 10 ou 15 anos e, de repente, ser tirada, colocada na rua e ninguém querer saber. “Você quer cinco mil? Tudo bem, então um albergue ou uma passagem para o Nordeste. Se não for isso não temos nada mais para vocês”.


Para todas as familias estão sendo oferecidas essas condições?
Tem pessoas para quem eles estão pagando 40, 50, 30 mil reais. Tem acontecido de pessoas, que não tinham nem seis meses no local, terem levado 15 mil [reais], com apenas um cômodo e um banheiro. Eu queria apenas que eles pensassem um pouco e trabalhassem correto. Na realidade eles estão fazendo assim: olharam e gostaram da característica da pessoa, vão fazer algo por ele. Os outros não, é cinco mil e acabou.

A senhora tentou negociar?
Não tem alternativa, eu tentei negociar de todo jeito. Eu só quero a minha moradia, não é dinheiro que me serve. Eu quero uma moradia, não quero ficar na rua, lutei tanto por isso. E hoje me vejo morando embaixo de um teto onde, no mesmo local em que eu durmo, eu cozinho, eu tomo banho. No mesmo cômodo, sem direito a um quarto para dormir. Na minha casa tinha quatro cômodos. Eram 90 metros quadrados o meu lote. E o subprefeito só colocou a gente aqui [no alojamento] porque fizemos um protesto dentro do canteiro de obras da Camargo Correa. Porque eu falei para eles, “só saio daqui para a minha casa, seja ela como for”, porque nos deixaram para ficar na rua.

Como tem sido o atendimento às famílias?
E te jogam de um lado, “fulano vai te atender em tal local”, te dão um endereço, “vai no centro da cidade, rua São Bento, 445, que lá tem um atendimento”. Te levam para lá, simplesmente não querem te dar papel nenhum por escrito, querem que você vá no endereço. Quando você chega lá, a mesma pessoa que estava atendendo e dando ordem aqui [em Paraisópolis], é a mesma que te atende lá. E é a mesma proposta, “você não tem direito a nada, são cinco mil, uma passagem para o nordeste ou um albergue”. E a minha alternativa? Eu estava com quatro famílias, 11 crianças. Viemos negociar, não tinha quem atendesse a gente, como foi combinado. Então entramos e nos alojamos dentro do canteiro de obras da Camargo Correa. Aì chegou o subprefeito [de Campo Limpo] e negociou com a gente, nos colocando aqui. Só que eu tive uma reunião com o subprefeito e ele disse “eu não tinha nenhuma obrigação de colocar vocês lá. Eu pus por bondade”. Agora, será que o Brasil não está vendo isso, o mundo não está vendo isso? Eles precisam construir a obra, é bom, mas dá dignidade para as pessoas, os seus direitos. A gente não está brigando para não sair do local, a gente está brigando por uma moradia. Não é dinheiro, não é cinco mil. Isso não leva a lugar nenhum. A gente apenas quer a moradia, pagando água, luz e o imposto, que é o direito do cidadão. Só isso que a gente quer.

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