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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pan de 2007 queimou recursos incalculáveis, sem nada deixar

No aquário, o Brasil mostra que é um país do presente, investindo para o desenvolvimento de uma estrutura que visa as olimpíadas:

"Nós queremos que essas Olimpíadas sejam a celebração do Brasil, do fato de nós termos deixado de ser o país do futuro e sermos o país do presente."
Dilma Rousseff

Enquanto isto, a realidade é bem diferente:

Embora seja a prova de que o país é capaz de realizar grandes eventos, o Pan de 2007 queimou recursos incalculáveis, sem nada deixar

Leandro Uchoas, do Rio de Janeiro (RJ)

Como hoje, as promessas também eram muitas. Investimentos maciços em transporte, reestruturação urbana, meio-ambiente (com despoluição de lagoas), educação, esportes e tecnologia. As possibilidades de o Pan-americano de 2007 trazer grandes melhorias ao Rio de Janeiro saltavam aos olhos. O que se viu, especialmente antes e depois do evento, foi uma sucessão de absurdos. Antes, foram as obras atrasadas, o orçamento multiplicado, a busca de socorro estatal, os pagamentos sem entrega, investimentos quase inexistentes em transporte e meio-ambiente e reformas urbanas sob a lógica de criminalização da pobreza. Depois, foi a manutenção da política conservadora de esportes e a inacreditável quantidade de edificações caríssimas que, agora, não têm qualquer utilidade.


A prefeitura anunciava que os equipamentos esportivos seriam disponibilizados a todas as crianças da rede pública de ensino: 750 mil. Hoje, a afirmação parece piada de bar. Só para o programa favela-bairro, o então prefeito César Maia (DEM) anunciava R$ 1 bilhão em recursos, nunca efetivados. Os prometidos investimentos privados não vieram, as obras atrasaram uma enormidade e lá foi o governo federal disponibilizar recursos públicos. O orçamento de R$ 400 milhões chegou muito próximo a dez vezes o previsto. Os motivos? Até hoje não se pode definir. O evento foi concebido, organizado e realizado sem qualquer transparência. A Câmara Municipal do Rio, por iniciativa do vereador Eliomar Coelho (Psol), tentou aprovar em 2008 uma CPI para investigar o Pan, sem sucesso.


Os principais atores dessa história, para desespero de muitos, são os mesmos de hoje. Do governador Sérgio Cabral (PMDB), que deve utilizar o feito de Copenhague para estimular sua reeleição, ao antigo secretário de Esportes, Eduardo Paes (PMDB), hoje prefeito. Há pessoas que não aguentam mais ouvir Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), fazer as mesmas promessas de dois anos atrás. Ricardo Leyser Gonçalves, cotado para liderar a organização das Olimpíadas, acaba de ser condenado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a devolver R$ 18,4 milhões à União por irregularidades cometidas na administração do Pan. Só em serviços sem execução comprovada teriam sido gastos R$ 6,8 milhões. Em pagamentos com duplicidade, outros R$ 4,1 milhões. Os valores de superfaturamento são ainda mais assustadores.


Arbitrariedades

Pouco antes do evento, os patrocinadores viraram as costas à instalação de um velódromo e de um parque aquático na região da antiga pista do autódromo Nelson Piquet. A concessão para que a Marina da Glória e o aterro do Flamengo se tornassem área de complexo turístico e comercial privado foi renovada por meio século. Comunidades como a do Canal do Anil foram afetadas de forma maléfica pelas intervenções urbanas, que desprezaram áreas mais pobres. Houve até remoções parciais. O Estádio Olímpico, conhecido como Engenhão, construído às pressas com recursos públicos, é uma bela obra de difícil acesso. O Botafogo herdou sua utilização muito mais pelo desprezo dos outros três grandes clubes do que por vontade própria.


A linha 4 do Metrô mais uma vez ficou só na promessa. As vilas olímpicas permanecem subutilizadas. Remodelado para o Pan, o parque aquático Julio Delamare, por ironia, corre riscos de ser derrubado já para a Copa de 2014. Fica próximo ao Maracanã e atende, diariamente, quase mil pessoas, mas pode transforma-se em estacionamento. O parque aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, está abandonado. Parece que o único legado positivo do Pan 2007 é a própria Olimpíada, por ter comprovado a capacidade do país de realizar eventos desse porte. A título de comparação com a herança trágica do evento, a capital de Cuba viveu experiência diferente. Sede do Pan 1991, Havana destinou aos trabalhadores que ergueram as vilas as próprias dependências que construíram.


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