quinta-feira, 18 de março de 2010

Em partido dos pobres


Neste ponto é importante falar sobre partidarismo. Já foi reafirmado que o liberalismo econômico é parcial, no sentido que defende o interesse de poucos em detrimento do de muitos. Essa conclusão contradiz diretamente as alegações de que o liberalismo econômico favorece a todos e não dá preferência a ninguém. A verdade, no entanto, é que a visão do liberalismo econômico coincide precisamente com os interesses das grandes multinacionais – transformando os abastados em super-ricos e a classe trabalhadora em pobres descartáveis.

O que se descobre aqui é uma ordem econômica baseada no saque – cheia de vencedores e perdedores, vitoriosos e vítimas. A isso os liberalistas respondem com alguma variação do argumento “o que é bom para alguns acabará se mostrando bom para todos”, porém isso é na verdade dar aos pobres (isto é, os “perdedores”) a opção de trocarem uma forma de miséria por outra1. Consequentemente, não é difícil concluir que a parcialidade do liberalismo econômico resulta na “liberdade dos poderosos para roubarem, e na liberdade dos despossuídos para viverem na miséria”.

É essencial perceber, no entanto, que o cristianismo também é parcial – porém na direção oposta. O liberalismo econômico favorece os ricos ao mesmo tempo em que saqueia os pobres, enquanto o cristianismo advoga “a opção de Deus pelos pobres”. Consequentemente, liberalistas econômicos e cristãos encontram-se em campos opostos.

Neste ponto, finalmente, é necessário entender que parcialidade e objetividade não são antagonistas mas aliados, conforme observa Terry Eagleton: “verdadeiro discernimento quer dizer tomar partido”. Os cristãos tomam partido dos pobres contra os que os oprimem, precisamente porque os pobres sofrem injustamente. Por essa razão os cristãos devem abandonar o mito de que a fim de manter a perspectiva das coisas não devemos tomar qualquer partido. Manter a perspectiva significa tomar partido.

Essa perspectiva, portanto, tem implicações para a metodologia empregada pelos cristãos que buscam escrever sobre o liberalismo econômico nos nossos dias. Em primeiro lugar é importante recordar e dialogar com os testemunhos de cristãos que têm se agregado e escrito a partir de posições partidárias2.

Em segundo lugar, quer dizer que os cristãos devem também dar ouvidos a outras vozes subversivas: os revolucionários, os [pós-]marxistas e outros que se encontram “no mesmo lado das barricadas”3. Pois, como observa Eagleton: “Os marxistas têm teimosamente sobrevivido à prática política marxista [...] Não nos sentimos autorizados a descartar a crítica feminista apenas porque o patriarcado não foi ainda adequadamente desalojado. Ao contrário, é razão para endossá-la ainda mais”.

Em terceiro lugar, quer dizer que os cristãos devem escrever a partir de uma posição de partidarismo materializado. Uma teologia cristã que se levante em resposta ao liberalismo econômico deve fluir a partir da ação. Deve ser “um reflexo crítico da práxis cristã”.

Portanto, como os cristãos abraçam lealdades que contradizem as lealdades dos liberalistas econômicos, deve-se esperar que os cristãos ofereçam um modo alternativo de estruturar a vida em comunidade, um modo que se oponha às estruturas fascistas-imperialistas impostas pelo neoclassocismo econômico.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

Via: Bacia das Almas - Paulo Brabo

NOTAS
  1. Por exemplo, as empresas multinacionais têm argumentado que as sweatshops do terceiro mundo – fábricas com péssimas condições de trabalho e baixo salário, onde são manufaturados grande parte dos bens consumidos no ocidente – oferecem a mulheres e crianças a oportunidade de escapar da prostituição. É evidente que trabalhar longas horas dentro de uma fábrica insalubre, devastando o próprio corpo por menos que um salário digno, dificilmente pode ser considerado uma verdadeira alternativa; é simplesmente outra forma de miséria e de prostituição. É importante notar que esse argumento surgiu com o próprio capitalismo, quando Adam Smith argumentou que deveria ser visto como um “gesto filantrópico” permitir que as crianças pobres trabalhassem nas fábricas. []
  2. Por exemplo, a Igreja Confessante durante a Segunda Guerra e os teólogos da libertação. []
  3. Importante é atentar, com respeito a essa questão, aos comentários de Jurgen Moltmann sobre Ernst Bloch, um ateu marxista: “Os defensores de Deus não se encontram necessariamente mais perto de Deus do que os acusadores de Deus. Os justificados não são os amigos teológicos de Jó, mas o próprio Jó. Nos Salmos protesto e júbilo coexistem e ressoam com a mesma voz. Sempre na história que essa combinação cessa de existir os teólogos passam a ter tanto a aprender sobre Deus com os ateus do que os ateus poderiam talvez aprender com os teólogos”. []

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails